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segunda-feira, 1 de junho de 2015

O Syriza português (o PS) vai ganhar as eleições.

Os credores acreditam que, em Outubro, o Costa vai ganhar as eleições. 
Como toda a gente diz desde 2010, a nossa situação é idêntica à grega mas com um ano de atraso.
Pensando que isso é verdade olhei para a evolução das taxas de juro gregas. O que observei foi que, 4 meses antes do dia das eleições, as taxas de juro da dívida pública começaram a subir. Até meados de Setembro de 2014 a taxa de juros a 10 anos estava nos 6%/ano e subiu até os 11,3%/ano do dia das eleições, Desde essa altura, a taxa de juro tem oscilado em torno deste valor (ver Fig. 1).

Fig. 1 - Evolução das taxas de juro gregas a 10 anos nos meses anteriores à eleição do Syriza

E em Portugal?
Desde que os "12 Sábios do PS" apresentaram a sua estória da carochina a que chamaram "enquadramento macroeconómico para 2015-2019", as taxas de juro começaram a subir. Bem sei que me chamaram à atenção para o facto de também terem subido noutros países mas isso apenas traduz que a estória (juntamente com a Grécia) é um problema com impacto no Mundo.
Então, olhando para o gráfico das nossas taxas de juro a 10 anos, o padrão é o mesmo que observamos antes do Syriza ganhar o que indica que a maioria dos nossos credores acredita que o Syriza português (o PS do António Costa) vai ganhar as eleições legislativas de Outubro 2015.
A previsão é que no dia do anúncio dessa vitória, a nossa taxa de juro a 10 anos já esteja nos 3,8%/ano.

Fig. 2 - Evolução das taxas de juro portuguesas a 10 anos e previsão (minha) até ao dia das eleições

E o que traduzem esses 3,8%/ano?
É muito dinheiro.
Portugal deve aproximadamente 230 mil milhões €.
Se a taxa de juro voltar aos 1,7%/ano de Março/Abril 2015, o encargo com juros será de 3,9 mil milhões € por ano.
Se a taxa de juro passar para os 3,8%/ano (como o gráfico parece indicar), o encargo com juros salta para 8,7 mil milhões € por ano.
Para reduzirmos a dívida pública a 60% do PIB em 35 anos (-2pp/ano), uma taxa de juro de 1,7%/ano obriga a um superávite primário de 0.83% enquanto que uma taxa de juro de 3,8%/ano obriga a um superávite primário de 2.83%.

Serão mais 2% do PIB de austeridade, mais 19 mil milhões €.
O "fim da austeridade" anunciado pelo Syriza português vai obrigar, nos 4 anos do mandato, a mais 19 mil milhões € de austeridade que a "austeridade para além da Troika" do Passos Coelho + Portas.
Durante o mandato do Costa cada português vai ter que aguentar um "roubo" de 1900€.

E será que o povo aguenta?
Aguenta, aguenta, são só uns míseros cortes de 40€/mês em cada cabeça, 160€/mês numa família de 4 pessoas. 
E o Tribunal Constitucional até vai tecer rasgados elogios a esse cortes do Costa..

Pedro Cosme Vieira.

terça-feira, 4 de março de 2014

A saída limpa; a crise da Ucrânia

Hoje, a situação financeira do Estado está melhor do que estava no tempo do Sócrates. 
Comparando as taxas de juro de hoje com as que se viveram no período 2005/2009, hoje o Estado consegue-se financiar a uma taxa de juro significativamente mais baixa. 
Apesar de a taxa de juro a 10 anos estar mais elevada (era 4,1%/ano e está nos 4,9%/ano), nos prazos menores está mais baixa. Por exemplo, no prazo de 12 meses, no tempo do Sócrates o Estado pagava 3,7%/ano e agora paga 0,75%/ano.

Prazo (anos)   Agora Sócrates
1                 0,75% 3,7%
2               1,88% 3,4%
3               2,16% 3,5%
4               2,83% 3,6%
5               3,73% 3,7%
10             4,85% 4,2%
Quadro 1 - Comparação entre as taxas de juro de agora e no primeiro mandato do Sócrates (fonte. www.investing.com)

A divida pública é colocada a diversos prazos.
Apesar de a taxa de juro a 10 anos estar agora maior em 0,75 pp que no tempo do Sócrates, a divida pública é um mix de prazos de que resulta, em média, um prazo muito menor que os 10 anos e uma taxa de juro também mais baixa. Se compararmos com a maturidade média dos Estados Unidos da América de meados de 2008 (4,1 anos), Portugal conseguirá hoje uma taxa de juro de 2,5%/ano, enquanto o Sócrates tinha que pagar 3,7%/ano.

Anos Agora Sócrates    Diferença
2        1,6%       3,5%           -1,9%
3        2,0%       3,6%           -1,6%
4        2,5%       3,7%           -1,2%
5        2,9%       3,8%           -0,9%
6        3,4%       3,8%            -0,3%
7        3,8%       3,9%            -0,1%
Quadro 2 - Taxas de juro para uma maturidade média, (cálculos do autor a partir do Quadro 1)

E o que diziam em 2005-2009 os esquerdistas sobre a taxa de juro de 3,7%/ano?
Que eram historicamente baixas.
Que o Estado tinha que aproveitar as taxas de juro baixas para promover a modernização do país. Estava na hora de avançar com os TGVs, Metros, auto-estadas, vira-ventos, portos e toda a mais loucura que gastasse dinheiro. 
Diziam eles que um investimento de 1000 milhões € teria um impacto orçamental de apenas 37 milhões€ por ano mais que compensado pelos impostos que resultariam do crescimento económico que esse investimento iria causar (previam um impacto no PIB de +2500 milhões €). 
Claro que já todos sabemos que o impacto no PIB foi zero e que agora temos uma dívida colossal para pagar.

Fig. 1 - Aí meu Deus que vou ter que beijar o Cristo Salvador. Isto está muito melhor do que no tempo do Sócrates.

E o que dizem hoje os esquerdistas sobre a taxa de juro?
Que 2,5%/ano é muito elevado.
Que Portugal não consegue pagar 2,5%/ano sobre a divida pública que eles fizeram com o argumento que as taxa de juro de 3,7%/ano era muito baixa. 
Já ninguém se deve lembrar disto o que é natural no Sócrates que, tal qual como uma galinha tonta, não se lembra de nada.
Mas o Teixeira dos Santos devia-se lembrar desse discurso mas diz que não se lembra.

Em 2005-2009 o Sócrates não  precisou de um "programa cautelar".
Então, em 2015-2019, o Passos também não vai precisar. 
No segundo mandato do Passos Coelho, mantendo-se a contenção actual, a situação financeira vai voltar a ser totalmente normal. 

E o que irá o Seguro inventar como buzzword?
Vai ser complicado porque colocou o desempenho do governo agarrado à "saída limpa".
Lá vai arranjar uma desculpa qualquer mas não vai ser a mesma coisa. 

A invasão da Ucrânia é uma loucura do Putín. 
O Mundo foi afectado pela crise do sub-prime de 2008-9 mas a Rússia foi particularmente castigada a ponto de ter passado de uma década em que o PIB per capita cresceu +8,0%/ano para, decorridos 5 anos, o PIB pc ainda estar ao nível de 2008 (ver, Fig. 2).
Se o PIB continuasse o crescimento da década 1999-2008, hoje o nível de vida russo seria 40% superior ao que é.
O povo foi desculpando os despotismos do Putin com o crescimento económico. O problema é que o Putin foi ganhando a alucinação de que era o novo czar de uma super-potência mas a economia não respondeu. Agora precisa de distracções para manter o povinho iludido. 

Fig. 2 - PIB per capita russo (tradingeconomics)

Mas terá lógica a argumentação de na Crimeia a população ser maioritariamente russa?
Esta mesma lógica foi usada nos anos 1930 pelo Hitler para invadir, destruir e anexar a Áustria, a Checoslováquia e a Polónia. Primeiro, invadia um território, depois, matava todos os "estrangeiros" e, finalmente, anexava o território porque já era maioritariamente povoado por alemães.
Em 1944 o Staline pegou em TODAS as pessoas não russas que viviam na Crimeia e enviou-a para a Sibéria ficando, naturalmente, a maioria a ser russa. 
A História ensina que a validade da tese de que o território pertence às pessoas que lá vivem que, por referendo, podem escolher pertencer a outro país, leva à limpeza étnica e, por causa disso, não pode ser aceite num mundo minimamente civilizado. 

Fig. 3 - No sec. XVII a Ucrânia fazia parte da Polónia e, até 1773, a Crimeia era um principado turco-mongol (um Khanato) muito maior que a ilha da Crimeia.

Terá Cabinda direito à auto-determinação?
É um território geograficamente autonomizado, com uma área que é o triplo do Luxemburgo (tem 7270km2) e com 350 mil habitantes. Em termos históricos é a continuidade do Reino de Kakongo que se tornou em 1885 protectorado de Portugal que o manteve como colónia até 1954, altura em que o ofereceu a Angola de que dista cerca de 50 km (no meio fica o Zaire - Républica do Congo). 
É uma história semelhante à Crimeia que também em 1954 foi oferecida pela Rússia à Ucrânia. A única diferença é que a Rússia, em 1944, tinha pegado em toda a população não russa e tinha-a mandado para a Sibéria.
Será que hoje Portugal poderia pedir um referendo em que os cabindos pudessem votar pela anexação a Portugal como região autónoma? O problema é que, havendo essa possibilidade, os angolanos pegavam nos cabindas todos e enfiavam-nos no Namibe.

E a Ucrânia terá direito à de-russificação?
Na Ucrânia cerca de 80% da população identifica-se como ucraniana. Será que a Rússia reconhece o direito à Ucrânia de fazer um referendo com o fim de expulsar de volta ao território da Rússia todas as pessoas que se dizem russas?
Se o Putin diz que invadiu a Ucrânia porque há lá russos que rpecisam de ser protegidos, tem que o fazer mas dentro da Rússia. Tal como Portugal fez em 1975, tem que pedir o retorno dos russos aos seus territórios de origem.

E qual seria a dimensão mínima do território para se poder emancipar? 
Também grave é o problema prático da dimensão mínima do território a "auto-determinar".
Será que um acampamento cigano tem o direito a realizar um referendo e declarar a independência de Portugal? 
Bem, o Estado do Vaticano só tem 834 habitantes e Seranica foi um Estado encravado no meio de Itália que existiu entre 1343 e os finais do Sec. XVIII e que só tinha 300 habitantes. 
E as quintas do Alto Douro, maioritariamente ocupadas por ingleses, será que se poderiam unir ao Reino Unido?
E o faroleiro das Berlengas pode-se autodeterminar?

fig. 4 - Vamos fazer um referendo para nos tornarmos independentes. Nunca mais cá entram os da ASAE à procura das T-shirts. 

Mas a Crimeia já foi russa.
Mas até meados do Sec. XVIII era Turca e a Rússia nunca falou em retornar o território à Turquia.
Kaliningrado era, até 1945, alemã (a Prússia Oriental) e a Sacalina era japonesa e foram  ocupados pela Rússia e, que me conste, a Rússia não fala em entregar nenhum destes territórios ocupados depois da II Guerra Mundial aos seus anteriores países. 

E a Chechenya, Inguchétia e Daguestão já foi independente.
Em 1917 formaram um estado independente que foi em 1921 invadido pelos soviéticos. Em 1940 o Staline pegou em toda a população e deportou-a para a Sibéria.
Não nos podemos esquecer que a primeira acção do Putín enquanto presidente da Rússia foi ordenar a invasão e destruição da Chechénia que, desde 1996, vivia uma independência de facto.
Ninguém fale ao Putín em pensar em fazer um referendo à determinação chechena.

E é provável que, num referendo livre, os crimeus optem por continuar na Ucrânia. 
Também na Áustria se fala alemão e os austríacos nunca quiseram pertencer à Alemanha.
Actualmente a Crimeia é, de facto, um país independente e sabe que o objectivo da Rússia é ter na sua mão a base naval de águas profundas de Svastopol. Sabem ainda que, uma vez na Rússia, ficam uma terra remota e sem qualquer poder negocial.
Alem disso, vai sofrer isolamento económico e tensões étnicas com o ucranianos (que são 25% da população) e com os tártaros que são os nativos de lá (12%).
Se eu fosse russo e vivesse na Crimeia, votaria pela continuação na Ucrânia.

E se o Putin perde?
É um passo muito arriscado porque, se a população votar pela anexação à Rússia, tal nunca será aceite pela comunidade internacional e, se votar pela continuação na Ucrânia, será a maior derrota da história da Rússia, pior que 10 bombas atómicas no meio de Moscovo.
O Putin está louco e não se vai aguentar.

Eu criei um directório onde vou colocar os ficheiros excel usados em cada poste. Isto vai-me obrigar a organizar melhor os dados e permite os leitores teram acesso aos dados que eu recolho e uso.

Pedro Cosme Costa Vieira

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Não vai haver programa cautelar

Pensemos na situação pré Crise do Sub-prime. 
Em 2007, o ano anterior ao rebentar da Crise do Sub-Prime, o Sócrates estava no seu auge. 
Nessa altura de vacas gordas, o Sócrates aparecia sem barriga, fatos apertados e um cabelo ainda maioritariamente preto. Nos debates era uma autentica máquina de triturar.
Nessa altura a república conseguia-se financiar à taxa de 4,2%/ano e não havia uma única pessoa que dissesse que Portugal precisava de um programa cautelar e, muito menos, de um resgate do FMI e dos nossos parceiros da UE e Zona Euro.

Entretanto, a situação degradou-se e muito. 
A queda do Sócrates começou quando, nos princípios de 2010, as condições de financiamento da república se começaram a degradar o que levou, em princípios de 2011, à demissão do Sócrates mas com as sondagens a darem-lhe nova vitória.
Mas, no dia 20 de Maio de 2010, num debate televisivo o Passos Coelho ao ter sido o primeiro político a derrotar pela argumentação o socratismo, virou o curso da história. 
Depois a situação financeira foi-se degradando cada vez mais até ter atingindo, em finais de 2011, o olho do furação, com taxas de juro acima dos 20%/ano.
No Natal de 2011 tudo indicava que estávamos irremediavelmente no caminho da bancarrota a la grega. 
Recordemos que, em Dezembro de 2011, as obrigações a 10 anos negociavam-se com perdas de 80%. 

Fig.1 - Em 2007 fui muito feliz, até aparecer a crise que foi causada pelos outros. Se o PEC4 tivesse avançado ...

Mas o Gasparzinho acreditou sempre. 
E, lentamente, as taxas de juro lá foram descendo.
Cada acidente de percurso, fosse um chumbo do Tribunal Constitucional, uma manifestação, greve ou demissão, fazia com que os investidores pensassem que íamos a voltar ao tempo do Sócrates ou, dentro do PSD, do Santana Lopes. Mas não e, lentamente, em princípios de 2013 as taxas de juro voltam aos níveis de 2007 e, em princípios de 2014, estão significativamente abaixo do nível de 2007 (ver, Quadro 1). 

Prazo         2anos     3anos      5anos    10anos   Média(3)    Real(3)   Média(5)
2007            4,1%      4,1%       4,1%      4,5%         4,1%        2,1%        4,2%
Máximo     20,0%     22,8%     21,6%    16,4%       20,6%     18,2%       20,2%
Hoje           2,1%       2,8%       4,0%      5,3%         2,6%        0,6%         3,6%
Quadro 1 - Evolução das taxas de juro do mercado secundário (a média é calculada para uma maturidade média de 3 e 5 anos)

Não pode ser.
Hoje (em mercado secundário), a taxa de juro está bastante abaixo das taxas de juro que a república paga nos contractos assinados em 2007. Se Portugal rolar a dívida pública numa maturidade média de 3 anos (precisa colocar no mercado mil milhões € por semana), consegue uma taxa de juro 1,5 pontos percentuais abaixo do que conseguiu em 2007. 
Em 140MM€ que estão fora da Troika, com a taxa de juro de 2007 pagamos 6000 milhões € por ano e com as taxas de juro de hoje só precisávamos pagar 4000 milhões € por ano. 
Relativamente aos contratos feitos no tempo do Sócrates que os esquerdistas do PS não diziam nem dizem que foram ruinosos, hoje o Passos Coelho conseguiria em Mercado fazer muito melhor.

Fig2 - A divida pública a 3 anos está com uma taxa de juro muito inferior à de 2007

E em termos reais 
Parte dos juros é para pagar a inflação (de 2%/ano) e esta parte não traduz, em termos económico, o desembolso de recursos escassos. Desta forma, apenas a parte real traduz que temos que diminuir o nosso rendimento para pagar os juros.
Se retirarmos a taxa de inflação da taxa de juro, com as condições de mercado de 2007, a república tinha que pegar em 3 mil milhões € do nosso rendimento e entregar aos credores enquanto que com as condições actuais só precisaria de entregar 850 milhões €.

Afinal, no futuro em termos reais vamos pagar poucos juros. 
O Estado, para pagar os juros da nossa dívida terá que, nos próximos 50 ou 100 anos, destinar cerca de 0,6% do PIB para pagar os juros aos credores (mantendo a divida em termos reais). 
Não é como os esquerdistas dizem, que é impossível pagarmos a nossa dívida pública.
Afinal, não é grande coisa. 
Impossível é pagar as pensões (que vai nos 9% do PIB e sempre a subir) e os demais "direitos adquiridos".

E o programa cautelar?
Portugal compara-se um ciclista que andava à maluca e que se esbarrou contra uma parede, tendo partido uma perna, um braço e três dentes. 
Entretanto, foi socorrido, esteve no hospital, fez 3 anos de fisioterapia, está mais magro e, aparentemente, está fisicamente melhor do que estava antes do esbarramento. 
Agora, o ciclista precisa voltar a andar de bicicleta e tem todas as condições físicas para isso mas há no ar um nervoso miudinho.

Fig. 3 - Está mesmo a precisar de um programa cautela, uma mãozinha de cada lado, não vá cair e partir outra vez o pulsinho. 

As palavras do Seguro invializam haver um programa cautelar.
O Seguro tem colocado metas que a previsão económica dizem serem impossíveis de atingir (mais 2 anos de prazo, crescimento económico, descida do desemprego, não haver novo resgate, o acesso aos mercados) que, um após o outro, têm sido  conseguidos "por milagre da N.S.a de Fátima" (Maria Cavaco silva) . 
Agora, o Seguro lançou o último tiro de pólvora seca: apenas será uma vitória para o Passos Coelho e para a sua política neo-liberal (e uma derrota para si próprio e para o esquerdismo que representa) se sairmos do plano de resgate sem qualquer programa cautelar. 

Limpinho, limpinho, limpinho.
Um resgate, programa cautelar ou seja o que for não teria qualquer mal para Portugal mas agora, em termos políticos, já não é possível haver nada disto.
Concerteza (como disse o ministro das finanças alemãs Schauble ao Gazparzinho em 2011), em off a Sr.a Merkel vai mexer os cordelinhos junto dos gestores de fundos para haver sempre dinheiro disponível para o rolamento da nossa divida pública mas não vai ficar nada escrito. 

A política também é assumir riscos. 
E hoje o Passos Coelho + Portas apenas podem ganhar as eleições de 2015 se apostarem que Portugal vai,  até às eleições de meados de 2015, viver um período de crescimento económico, descida do desemprego e acesso aos mercados de divida pública a taxas de juro muito mais baixas que as de 2007. 
Agora, eu acredito que vamos conseguir e, desta forma, as sondagens vão castigar o Seguro que, sem discurso, vai entrar num período de grande sofrimento, a levar pancada de todos os lados. 
Se correr mal e as taxas de juro voltarem a disparar, paciência, pede-se então novamente ajuda e o Rui Rio , qual D. Sebastião, que avance.

Pedro Cosme Costa Vieira

terça-feira, 4 de junho de 2013

Como pode a nossa situação económica ser boa vista de fora e má vista de dentro?

Dois anos decorridos desde as legislativas de 2011.
A propaganda do Sócrates e demais esquerdistas cada vez grita mais alto que o governo do Pedro Passos Coelho é péssimo mas, estranhamente, todas as instituições estrangeiras dizem que Portugal está a ser um  estrondoso caso de sucesso.
Os esquerdistas dizem que, decorridos 2 anos, em 50 indicadores, o governo falhou totalmente em 48. Falhou largamente no desemprego, no crescimento económico, no investimento público e privado, na receita fiscal, na despesa pública, no défice público, na divida pública, na competitividade, etc., etc., etc. Assim, parece que toda a gente tem que concluir que a performance do Passos Coelho está a ser um fracasso quase total.
Mas depois aparecem os estrangeiros, desde o FMI, o BCE, a Comissão europeia e até o Obama (que há uns 2 anos disse que os USA não eram Portugal),  dizer que somos um exemplo de enorme sucesso porque atingimos nos dois indicadores que verdadeiramente interessam (a balança corrente e a taxa de juro da dívida pública), valores que há 2 anos pareciam impossíveis de atingir.
Será possível a nossa economia (e não o Passos Coelho pois nenhum homem tem essa capacidade) falhar em quase tudo que o cidadão normal observa e, mesmo assim, ser um grande sucesso?

Fig. 1 - As mãozinhas estão a postos para garantir que a Troika nunca mais terá hipóteses de atacar.

A variável do sucesso é a Balança Corrente.
A economia é como uma casa que tem a realidade interna e a realidade vista do exterior.

A realidade interna da nossa casa.
Imaginemos um família vive numa barraca mas tem um Mercedes último modelo, que os seus membros são uns porcos, tendo tudo desarrumado, cheio de pó, louça suja amontoada na cozinha, roupa espalhada pelo chão, o cão morto na varanda, os país batem nos filhos e os filhos dizem palavrões e só vêm televisão e vídeo-jogos. Qualquer assistente social concluiria que estávamos em presença de uma família disfuncional.
Ninguém poderia dizer que esta família era um caso de sucesso, aparentemente.

A realidade externa da nossa casa.
Imaginemos também que o pai se levanta bem cedo, faz a barba e vai trabalhar certinho, nunca faltando e respondendo sempre ao que lhe pedem na fábrica. Os filhos andam na escola e são os melhores alunos. A mãe, todos os sábados, coloca à porta uma banca onde vende produtos hortícolas e roupas que produz durante a semana.
Imaginemos ainda que no passado a mãe ia ao supermercado e comprava coisas muito caras que ficava a dever e que, ultimamente, vai ao supermercado, compra coisas mais económicas que paga a dinheiro e ainda paga os juros sem se endividar mais.

O que dirão os vizinhos sobre esta família?
Que devem ser sarracenos, devem ter uma cultura muito própria. Que dentro de casa são uns porcos onde ninguém pode entrar por causa do entulho e do mau cheiro. Mas que, se até há 2 anos atrás, deviam cada vez mais dinheiro, desde que a paróquia lhes nomeou uma pessoa para os ajudar na gestão doméstica, equilibraram as suas finanças.
Por isso é que na 7.a avaliação, a Troika olhou para derrapagem do défice de 2012 (de 4.5% passou a 5.5% e depois a 6.4%) e disse estar tudo bem.
 
 
Fig. 2 - Na nossa família só somos 4. Os outros 12 da foto são penetras. 

Vamos então ver as contas da nossa família.
Vamos imaginar uma família com 4 pessoas, escalando as variáveis agregadas (de 10.5 milhões) a estas 4 pessoas.
 
A divida - Somando as dividas acumuladas no passado, a família tem uma posição liquida negativa (que deve aos vizinhos) de 76200€ (corresponde ao valor de  40 meses de exportações).
 
O PIB - A família cozinha, trata da casa, e tem um pequeno campo que amanha. Também fazem umas roupas, sapatos e umas peças para automóveis. O sistema de contatibilização interna do que é produzido e consumido indica que o PIB referente às 4 pessoas é de 5400€/mês (12 meses por ano). Este valor não é idêntico ao rendimento de uma família porque tem um certo faz de conta calculado internamente (por exemplo, a mesada que os pais dão aos filhos e o pagamento que os filhos fazem aos pais pelas refeições).
 
A BC crédito - A família consome parte da produção e outra parte vende ao vizinhos. Também fazem trabalham umas horas no exterior. Destas vendas ao exterior, no último ano a família conseguiu, em média, facturar 2540€/mês. Este valor é mais comparável com o rendimento de uma família que o PIB.
 
A BC débito - Como ninguém consegue produzir tudo o que consome, a família compra ao exterior bens e serviços (combustível, água, electricidade, adubos, peles, carne, arroz, etc.) que paga com o dinheiro conseguido pelas vendas ao exterior e, quando há défice, endividando-se. Nos últimos 12 meses a família adquiriu ao exterior, em média, 2570€.
 
 A BC saldo - Nos últimos 12 meses, a família endividou-se 30€/mês. Apesar de a família se estar a endividar, sabendo que até há 2 anos a família se endividava 600€/mês, os vizinhos estão bastante optimistas quanto à situação financeira da família. Além disso, nos últimos 3 meses, não se endividou (ver, Fig. 3).   
 
Fig. 3 - Evolução do endividamento da família (dados: balança corrente, Banco de Portugal, escalado a 4 pessoas)
 
A amortização da dívida - Não existe a certeza que a família já esteja a amortizar a divida mas, dado nos últimos 12 meses a família ter-se endividado apenas 30€ quando pagou 185€/mês em juros, tudo indica que estão a entrar nos eixos. Se olharmos à tendência de evolução da balança corrente (ver, Fig. 3), podemos mesmo afirmar que a família já está a amortizar a divida (a BC está positiva).
O aumento da confiança de que a família consegue pagar o que deve, traduz-se em haver quem esteja disponível a reformar a divida a uma taxa de juro mais baixa (ver, Fig. 4).
 
Fig. 4 - Evolução da taxa de juro soberana a 10 anos (dados: ECB)

Comparemos com os dois 2 anos do pós- crise do sub-prime.
Nos dois anos do  pós-crise do Sub-prime (do Sócrates), continuou tudo normal, com a família a endividar-se 600€/mês face ao exterior (Fig. 3) e a taxa de juro a manter-se constante nos 4%/ano (Fig. 4). O governo nada antecipou e nada procurou fazer pensando que seria sustentável prosseguir ad infinitum com o endividamento externo.
Mas não era sustentável. Motivado pelo acumular da dívida e a bancarrota da Islândia, em princípios de 2010 as taxas de juro começaram a subir rapidamente. Mas, mesmo assim, o endividamento continuou as usual. Parecia que Portugal não conseguia viver sem se endividar.
A crise das dividas soberanas instalou-se em 2010 e o governo do Sócrates rebentou.

O povo penso e decidiu que estava na hora de escolher outro.
Nos últimos 2 anos de governo PSD+PP, o endividamento externo de cada mês foi diminuindo e, desde princípios de 2013, parou (Fig. 3). Incrivelmente, já não nos endividamos face ao exterior e ainda pagamos os juros da dívida assumida no passado (maioritariamente pelos governos socialistas).
O PPC entra com taxas de juro a 10 anos na ordem dos 10%/ano e, não só pela redução do endividamento externo mas também, no último ano a taxa de juro começou a descer rapidamente com tendência a voltar aos níveis anteriores a 2010 (Fig. 4). Ainda não estamos lá, mas tudo indica que para lá caminhamos.
 
Mas somos um sucesso ou não?
Quando os vizinhos pediram à paróquia que arranjasse um gestor familiar, imaginaram que a família apenas conseguiria equilibrar a sua vida se tivesse a casa limpa, o cão enterrado, os filhos a fazer os TPC mas nada disso aconteceu.
No entanto, mesmo mantendo a casa desarrumada e a berraria, a família conseguiu cortar na sua despesa (importações) e aumentar um pouco as suas receitas (exportações) o que permitiu equilibrar as suas contas externas. Agora, a família paga as suas coisas a horas (incluindo os juros da divida que é grande) e não precisa de novo endividamento.
O resultado da balança corrente excedeu largamente o que tinha sido antecipado.
Se pensarmos que o Salazar começou em 1926 (1932 como primeiro-ministro) com uma situação idêntica à nossa de 2011 e que demorou até 1940 para equilibrar as contas, já vemos como o resultado dos 2 anos qeu leva o governo do PPC é francamente positivo.
 
Será grave termos um défice público de 6%?
A Troika está-se borrifando porque esse défice, agora, é financiado internamente. O pai gastar e os filhos pouparem para emprestar ao pai ou o pai poupar e os filhos gastarem é exactamente igual ao litro para quem está a ver do lado de fora.
Apesar de as emissões de divida pública serem compradas maioritariamente por aforradores exteriores como a divida que essas emissões substituem (reformam) também são maioritariamente no exterior, o saldo (novo endividamento) é zero. Pode haver um pouco de aumento do endividamento externo público mas compensado por um pouco de redução do endividamento externo privado.

Será grave termos um desemprego de 20%?
A Troika também se está borrifando porque esse desemprego não se traduz nas contas externas. A mãe cozinhar ou estar a dormir, desde que os filhos não vão comer fora (gastar dinheiro no exterior) vai dar tudo na mesma.

Só uma variável está bem mas, para os credores, vale mais que todas as outras juntas.
Se Portugal conseguir manter a balança corrente a zero, como os juros e dividendos que paga já incluem a inflação, conseguiremos, em 35 anos, diminuir o endividamento externo para metade do que nível actual. Se conseguirmos melhorar a balança corrente para um saldo positivo de 0.75% do PIB, conseguiremos amortizar a totalidade da divida em 60 anos. E conseguir 0.75% não é nada extraordinário se pensarmos que a Alemanha tem desde 2006 um saldo positivo de 6.0% do PIB (ver, Fig. 5).
60 anos parece muito tempo mas, comparando com os 100 anos que demoramos a pagar a bancarrota de 1892, vemos que estamos no bom caminho.
É esta a razão para os últimos 2 anos sermos visto do exterior como um caso de grande sucesso.

Fig. 5 - Balança corrente alemã e quanto precisamos para amortizar a nossa divida externa em 60 anos(tradingeconomics)
 
E como poderíamos melhorar a situação interna?
Deixando a conversa louca dos direitos adquiridos e da defesa do estado social e baixando os salários uns 15%. Os salários já estão a corrigir e vão continuar a diminuir até ajustar o mercado de trabalho. Mas o desemprego poderia reduzir muito mais rapidamente.
Deveríamos deixar a lengalenga da procura interna, do caminho do crescimento baseado no consumo  e demais bull shiit e iniciar o caminho da realidade.

Ontem ouvi no Castle um pensamento interessante.
Chega um momento na vida em que perdemos a ilusão de que o Mundo alguma vez será como o idealizamos. Esse é um momento importante pois só a partir desse instante é que damos conta das muitas oportunidades que o Mundo nos dá de sermos felizes.
 
Pedro Cosme Costa Vieira

quinta-feira, 9 de maio de 2013

A moeda, o crédito, o financiamento e o juro - parte I - O sistema bancário

Moeda não é crédito nem financiamento.
Estas coisas são totalmente distintas  mas, na mente das pessoas comuns, parecem a mesma coisa.
Haver confusão na mente das pessoas apenas indica que a Economia não é senso comum mas que tem conceitos complexos e de difícil compreensão sem um estudo aprofundado. 
A Economia trata com uma realidade tão complexa e longe do senso comum que, mesmo nas pessoas com formação em economia, existe bastante dificuldade em compreender os conceitos "básicos".
No caso da moeda, que não existe na natureza não humana (é uma criação da humanidade), existe no senso comum uma confusão total com outras realidades como, no caso, o crédito e o financiamento.
Eu já escrevi muito sobre isto (que agreguei num índice - O sistema monetário) mas, como o Ricardo Mendes me voltou a colocar esta questão com a convicção de que estava certo e eu errado apresentando mesmo um vídeo com dois homens a falar que não têm a mais pequena noção do que estão a dizer, vou ter que me aplicar a fundo para tentar que o amigo leitor fique com um pouco mais de luz.

Fig. 1 - Por falar em Luz, no Sábado vão apanhar para aí uns 5-0 do Dragão, penso eu de que.

No entanto, o pior dos cegos é aquele que não vê porque não quer ver.  Pensando no que diz o Gordon Ramsay repetidamente (do Hell's Kitchen), enquanto estivermos em negação, nunca conseguiremos ver a verdade.
Então, se o amigo leitor quer acreditar com toda a força que moeda, crédito e financiamento são a mesma coisa, se quer continuar a ver o sistema financeiro como a mesma coisa que o sistema monetário e que ambos são criações do diabo, muito dificilmente poderá ver a verdade.
Não é fácil tomar consciência que a Terra anda à volta do Sol ou que o homem teve origem no macaco, mas temos que acreditar que, com esforço, é possível derrotar a ignorância.
Não podemos ficar como as testemunhas de Jeová (ou os católicos) que não querem ver que, se nós temos defeitos, Deus também tem efeitos (diz na Bíblia : "E criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou."  Gen 1:27).
Para não ficar um texto muito pesado, neste poste vou apenas tratar do crédito, financiamento e taxa de juro e no próximo poste (Parte 2 - O sistema de preços.) vou tratar do sistema monetário e, finalmente, vou fazer a ligação entre os dois sistemas.

O que é o crédito e o financiamento.
O crédito e o financiamento são as duas faces da mesma faca.
Se eu empresto uma galinha ao meu vizinho, eu concedo um crédito (de uma galinha) passando a ser credor e ele aceita um financiamento (de uma galinha) passando a ser devedor.
Não pode haver financiamento sem crédito nem pode haver crédito sem financiamento e as suas quantidades são exactamente iguais.
Se o total de crédito concedido na economia são 100 galinhas, 3 porcos, 2 vacas e 100 alqueires de milho, o financiamento na economia são exactamente 100 galinhas, 3 porcos, 2 vacas e 100 alqueires de milho.

Fig.2 - A faca não pode existir com apenas um dos lados.

O juro.
Se eu concedo ao meu vizinho o crédito de 10 galinha, ele obtém um financiamento de 10 galinhas.
O meu problema é que se o meu vizinho for à bancarrota (por exemplo, vier uma seca), eu fico sem as minhas 10 galinhas. Então, eu quero que ele faça um "seguro de crédito" junto de uma seguradora que lhe cobra  um determinado quantitativo (o prémio do seguro), 1 galinha. 
Eu empresto 10 galinhas e, passado um determinado tempo, se tudo correr bem, o meu vizinho paga 10 galinhas a mim e 1 galinha à seguradora. Se tudo correr mal, o meu vizinho não paga nada mas a seguradora paga-me as 10 galinhas. Então, a seguradora assume o risco do crédito podendo ter um  um prejuízo de 10 galinhas (com a probabilidade p) ou um lucro de 1 galinha (com a probabilidade 1-p). Em termos esperados, a seguradora exige 1 galinha porque antecipa um risco de 9.091% de bancarrota total:
       1 x (1 - p) -10 x p = 0   => p = 9.091% (equivalência que faz o lucro esperado nulo).

Agora sou eu, o credor, a seguradora.
A ser assim, tendo emprestado 10 galinhas, se tudo correr bem, vou receber (como diz no contracto) 11 galinhas. Então, vou receber o capital (10 galinha) mais 1 galinha de juro.
Mas essa galinha não é nenhuma exploração do devedor pois pode pedir as galinhas a outro qualquer. O juro é apenas o prémio que a seguradora levava para assumir o risco. Agora, O risco fica por minha conta, se o devedor for à bancarrota, eu não recebo nada.
Em termos económicos, naturalmente que os devedores com mais risco terão que pagar uma taxa de juro maior senão, os devedores adoptarão estratégias demasiadamente arriscadas.

Haverá casos de juros exagerados (usura)?
Quando nós estamos a nadar no mar e começamos a afogar, se quem nos for salvar nos exigir uma avultada soma de dinheiro, nós somos obrigados a pagar para não morrermos. Parece que, se não conseguíssemos pagar uma pipa de massa, morreríamos afogados.
Mas não é isso que aconteceria.
Primeiro, tomávamos mais cuidado. Apenas nadávamos em dias de águas calmas, com bóias e próximo da costa -> não assumíamos tantos riscos.
Segundo, se morrêssemos, o socorrista não receberia nada. É o problema do monopolista que, apesar de querer cobrar um preço muito alto, vai ter que moderar o preço porque tem que vender para ter lucro.
Terceiro, apareceriam muitos nadadores-salvadores. Como a profissão de nadador-salvador seria muito lucrativa, apareceriam mais pessoas, em concorrência, capazes de socorrer os náufragos o que diminuiria o "preço" de sermos socorridos.

Quarto, íamos nadar onde houvesse maios salvadores. Como havendo concorrência, conseguíamos um salvamento mais barato, os banhistas juntavam-se onde houvesse mais nadadores e os nadadores juntavam-se onde houvesse mais pessoas: o mercado aglomerava-se em multidões de náufragos e de salvadores, todos em concorrência.

Fig. 3 - As mulheres boas aproveitam-se da situação de necessidade dos homens.
Mas se não houvesse preços diferenciados, as mulheres não se tratavam e as putas feias e gordas não tinham saida nenhuma.

No crédito/financiamento passa-me algo semelhante - É a taxa de juro real.
Se houver no mercado poucas pessoas a querer emprestar galinhas e muitas pessoas a precisar de pedir galinhas emprestadas, o juro virá superior ao prémio do seguro de risco, juro > 1/(1-p).
Se, pelo contrário, houver no mercado muitas pessoas a querer emprestar galinhas e poucas pessoas a precisar de pedir galinhas emprestadas, o juro virá inferior do prémio do seguro de risco, juro < 1/(1-p).
Esta diferença é a taxa de juro real, aquela que, sem risco, traduz um ganho (se for positivo) ou perda (se for negativo) patrimonial de quem concede o crédito com uma contrapartida em quem pede emprestado. Cada galinha que o emprestador perde, é uma galinha que o devedor ganha e vice-versa.
Não existe qualquer perda para a sociedade por a taxa de juro real ser alta ou baixa pois o ganho de uns é sempre a perda de outros. É apenas uma questão de re-distribuição.

É importante que a taxa de juro real varie ao longo o ciclo económico.
Vamos supor que a produção oscila ao longo dos anos (igualmente para todas as pessoas) e que não é possível constituir stocks (a arca frigorífica está avariada). No ano bom cada pessoa produz 600 galinhas e no ano mau produz apenas 130 galinhas.
Como as pessoas querem comer sempre o mesmo (1 galinhas por dia) e não podem constituir stocks, vão querer emprestar 235 galinhas no ano bom para terem 365 galinhas (130+235) no ano mau.
O problema é que no ano bom toda a gente quer emprestar galinhas e ninguém quer pedir galinhas empestadas e, no ano mau, ninguém tem galinhas em excesso para pagar o financiamento obtido no ano bom.
Então, a taxa de juro real do ano bom tem que ser muito inferior à taxa de juro do ano mau.
Por exemplo, vou fazer um contracto em que emprestando 10 galinhas no ano bom, vou receber 3 galinhas no ano mau (uma taxa de juro de -70%). Outro contrato pode dizer que, se eu emprestar 10 galinhas no ano mau, vou receber 30 galinhas no ano bom (um juro de 300%).
Se a taxa de juro fosse sempre igual, por exemplo, 0%/ano, o mercado de crédito/financiamento deixava de existir pois era muito elevado (não haveria devedores potenciais) nos anos bons e muito baixo nos anos maus (não haveria credores potenciais).

E qual é o objectivo dos bancos comerciais?
O seu objectivo é apenas comprar e vender galinhas mas a crédito/débito e fazer seguros de crédito.
Eu não quero risco pelo que, querendo emprestar uma galinha, vou ao banco e deposito-a.
Outra pessoa quer pedir uma galinha emprestada, vai ao banco e, mediante o pagamento do "prémio do seguro de crédito" (um juro que é crescente com o risco de bancarrota do devedor), o banco empresta-lhe a galinha.
Repito que eu podia emprestar a galinha directamente à pessoa que a quer emprestada e fazer eu o seguro (cobrar o juro). Mas, como o banco tem muito movimento, consegue diversificar o risco do negócio.

Vamos supor que 9% dos devedores vão à bancarrota.
Se eu empresto 10 galinhas, tenho 9% de probabilidade de o meu devedor ir à bancarrota e eu ficar sem nada.
Se 100 pessoas depositarem cada uma 10 galinhas no banco (juro zero) e o banco emprestar 10 galinhas a 100 clientes diferentes (um total de 1000 galinhas) cobrando um juro de 10% então, se 9 pessoas bancarrotarem (os tais 9%), o banco recebe 1001 galinhas podendo devolver 10 galinhas a cada depositante (o banco tem 1 galinha de despesas administrativas).
O depositante das galinhas recebe apenas 10 galinhas mas recebe-as sempre.
Se os devedores não pagarem ao banco, é o capital dos seus donos que responde pela perda. Mas também se pagarem todos, o lucro vai para o banqueiro.

Será preciso crédito para haver crescimento económico?
Afirmar isto é uma loucura semelhante à afirmação do Sócrates de que "produzir electricidade com o vento não custa dinheiro ao país" para depois fazer contractos em que enfia pipas de massa no bolso dos gajos dos vira-ventos. Se não custava nada, não era preciso fazer contracto que agora nos obrigam a pagar milhões todos os dias.

Vamos então ao crédito para o investimento.
Para haver crescimento económico tem que haver mais trabalho (mais pessoas e mais horas por pessoa) e mais capital.
Se eu sou agricultor, para produzir mais nas 70h/semana que trabalho, tenho que melhorar o meu sistema de rega e fazer socalcos que consigo investindo parte do meu tempo de trabalho nestas coisas.
A necessidade do crédito/financiamento deriva de a maior parte das pessoas não querer assumir riscos. Quer ser empregado por conta de outro com um ordenado fixo ao fim do mês e quer que as galinhas que emprestam voltem com certeza quando chegar a hora.
Por exemplo, eu podia ter uma empresa com 100 trabalhadores com 5000 galinhas de capital sem qualquer financiamento se cada um dos trabalhadores fosse dono de 1% do capital (cada trabalhador metia 50 galinhas na empresa). Mas isso tinha risco.
Como a grande maioria das pessoas quer um rendimento fixo, arranja um emprego (tenta) e deposita as suas galinhas num banco. Depois, há um empresário que pede as galinhas emprestadas ao banco, paga um juro que cobre o seu risco de bancarrota, e fica ele dono de 100% da empresa.

Vejamos os exemplos da privatização da TAP (dos ENVA ou da RTP).
Quando o Eframovich disse que dava 20 milhões € ao Estado, os 12 mil trabalhadores que vieram dizer que o preço era baixo, que a TAP era muito lucrativa, blá, blá, blá, blá e que o Passos estava a vender uma fortuna por tostões deveriam ter dito:
 - Nós damos esse dinheiro e a TAP fica nossa. Afinal só calha 1650€ a cada um.
O problema é que os salários passavam a ser variáveis: se a TAP desse prejuízo (como vai continuar a dar), eram eles que entravam na madeira e não nós contribuintes.
Repito a pergunta que fiz há uns meses àqueles comentadores que disseram que a TAP era muito lucrativa (onde se inclui o meu ex-amigo de não sei que universidade americana).
A TAP devolveu aqueles 100 milhões de euros ao Tesouro "necessários apenas porque estava no processo de privatização"? Não me parece.

Para haver crédito aos investidores, tem que haver poupança das famílias.
E não há. Ainda se acrescenta o facto da balança corrente estar equilibrada (não estou a dizer que isso é mau).
Não haver poupança das famílias é o problema mais grave da nossa economia (ver, Fig. 4). Como todos os anos parte do capital se torna obsoleto (estimado pelo WB em 18% do PIB) e a nossa poupança é de apenas 11% do PIB então, cada dia que passa o nosso trabalho torna-se menos produtivo porque os equipamentos ficam envelhecidos.
É bonito os esquerdistas virem para a televisão apregoar que "os salários têm que aumentar para aumentar o consumo" mas depois não há poupança, sem poupança não há investimento, sem investimento a produtividade do trabalho diminui e, conclui-se pela necessidade de os salários terem que diminuir. Não diminuem e o povo vai para casa ver os esquerdistas na televisão a apregoar que os salários têm que aumentar.

Fig. 4 - A poupança em Portugal está muito baixa (a depreciação do capital é de 18% do PIB e a poupança bruta é de 11% do PIB, dados: Banco Mundial)

Como se equilibra o mercado de crédito/financiamento?
A situação neutra é ter uma taxa de juro (sem risco) nula e a taxa de juro ser uma compensação pelo risco de bancarrota de cada devedor. Os devedores com mais risco terão que pagar mais juros (pelo menos é o que diz o contracto pois, em caso de bancarrotarem, não pagam nada) e os com menos risco terão que pagar menos juros.
No entanto, se houver muita poupança das famílias e poucas ideias de negócio (pouca propensão a investir), a taxa de juro desce abaixo de zero.
É esta a situação que vivemos actualmente e deve-se ao facto das famílias asiáticas, principalmente as chinesas, pouparem muito e o PIB da China estar a crescer muito (um PIB maior faz com que a poupança da china, em termos mundiais, fique maior). Então,  existe uma quantidade crescente de crédito disponível com origem na Ásia e nos países ocidentais (onde a poupança está historicamente baixa) não existem ideias para novos investimentos.
Somando a poupança do Japão com a da China e da Índia (que ainda é uma pequena economia mas está a crescer), entre 1980 e 2000 a poupança esteve estável em 15 PIBs portugueses ( a China subiu mas o Japão desceu) mas, desde 2000, a poupança destes 3 países duplicou para 30 PIBs portugueses (ver, fig. 5).

Fig. 5 - A poupança do Japão + China + Índia em PIBs portugueses (dados: Banco mundial)

O que precisa de muito capital é a indústria. Como na Europa não existem projectos industriais de monta, as oportunidades de investimento na Europa são poucas. Então, a tendência é uma diminuição da taxa de juro sem risco que, em termos reais, já está negativa independentemente de estarem dentro (a Alemanha) ou fora do Euro (o Reino Unido), ver Fig. 6.

Fig. 6 - Na Europa os juros (sem risco e sem inflação) estão negativos e o que Portugal paga é risco de bancarrota (dados, EUROSTAT)

Concluindo?
Tal como foi difícil meter na cabeça que o Sol não andava à volta da Terra porque era isso que se via todos os dias e meter na cabeça que a humanidade vem do macaco e não de Deus, também é difícil separar a da moeda da questão do crédito e financiamento.
Mas por ser difícil não quer dizer que quem confunde os conceitos está  está certo.
Neste poste não falei de nada que fizesse lembrar euros para verem que não são necessários para termos a economia a funcionar.
Se não falei de euros então, o sistema monetário (os euros) não tem nada a ver com o sistema bancário.
Nada, absolutamente nada. Antes de a humanidade ter inventado a moeda já existiam bancos (intermediários entre quem precisa poupar e quem precisa de pedir emprestado galinhas).

Os esquerdistas.
Tal como o vendedor da banha da cobra que explica como a banha consegue curar todas as maleitas, também existem Batistas da Silva, Sócrates e Galambas que explicam como funciona a economia mas que não percebem nada do assunto.
Quem sofre de uma doença terminal quer acreditar que a banha da cobra o vai corar mas não vai. Também quem vê o seu rendimento ameaçado quer acreditar que a culpa é do Passos Coelho e que o Seguro vai por outro caminho qualquer e que ficamos logo safos.
Mas como diz repetiamente o Gordon Ramsay,
 - Where did you get this fucking idea of "the other way"? That is bullshit, it looks like a crushed dick with dry bullshit on the top where you just pissed in the middle of fucking nowhere.

Fig. 7 - Vamos focalizar e concentrar porque, 6 anos de aplicação dessas teorias alucinadas e a conversa do "outro caminho" levaram o país à bancarrota.

Temos que meter as galinhas na cabeça.
Para compreendermos o crédito/financiamento e como funciona este mercado (em que o preço é a taxa de juro) temos que esquecer que existe dinheiro ou que o preço das coisas é em unidades monetárias.
Só depois de libertos das unidades monetárias é que nasce uma pequena esperança de que estes conceitos complexos e que não são do senso comum possam entrar na dick's head dos esquerdistas.

Fig. 8 - Nós somos esquerdistas e acreditamos que o PEC IV do Sócrates nos tinha salvo  e que quando o Seguro mandar, vai terminar com a austeridade e dar  inicio ao "outro caminho" que nos vai tornar a maior potência económica do Mundo.

Ver a Parte 2 - O sistema de preços.


 
Pedro Cosme Costa Vieira.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Portugal saiu da situação de emergência e entrou nos Cuidados Intensivos

Desde 2002 que Portugal se mostrava doente.
Tinha o desemprego, o endividamento externo, o défice público, a despesa pública, o défice das empresas públicas, as falências e a dívida pública muito elevados e sempre a crescer.
A doença foi-se agudizando até que, em princípios de 2011, Portugal entrou em situação de emergência: a capacidade de captar financiamento do Estado e dos privados (via, Bancos e grandes empresas) esgotou-se.

Portugal entrou em "paragem cardio-respiratória"
Sem financiamento externo e sem poupança interna, a economia ameaçava entrar rapidamente em colapso e a bancarrota do Estado estava eminente o que forçou o Teixeira dos Santos a pedir ajuda aos nossos parceiros (do FMI, BCE e UE) e obrigou o Sócrates a demitir-se.


O que o Sócrates precisava era de muito dinheiro e rápido.
O Sócrates assinou o Memorando de Entendimento com a Troika. Mas desde que foram derrotados, os do PS têm vindo a negar apoio à implementação de medidas que estão escritas desde a primeira hora nesse memorando.
Vejamos, por exemplo, a proposta do Governo de diminuir as indemnizações por despedimento para 12 dias/ano. O Memorando de Entendimento assinado pelos do PS diz exactamente:

4.1. Severance payments.
    iii.By Q1-2012, the Government will prepare a proposal aiming at:
    - aligning the level of severance payments to that prevailing on average in the EU;   

     On the basis of this proposal, draft legislation will be submitted to Parliament no later than Q3-2012.

Está mesmo lá escrito, no Memorando inicial, o assinado pelo Sócrates.
Como na UE a indemnização está à volta dos 12 dias/ano (depende dos anos de trabalho), o PS só poderiam estar descontentes por o Sócrates ter assinado o Memorando sem ler.
A proposta tinha que ser apresentada no primeiro trimestre de 2012 (e veio apenas no quarto) e já deveria estar implementado. O Sócrates assinou isto e, como a sua especialidade era "Inglês Técnico", sabia bem o que estava a assinava
Estão a perceber o tipo de pessoa que nos governavam. Eram (tóxico)dependentes de endividamento, capazes de dizer e assinar fosse o que fosse para caçar mais uns cobres sabendo que nunca iriam cumprir nada.

O Seguro não é demagógico.
Aceitando (em tese) que o Seguro não é demagógico, apenas se compreende tal comportamento porque era tanto o desespero dos "negociadores" do PS que  nem se deram ao trabalho de ler o que estava escrito no Memorando de Entendimento.
Assinaram de cruz.
E, desde então, o Seguro tem estado tão distraído com a crise do Sporting que ainda não arranjou um tempinho para ler o memorando.

E o colossal aumento dos impostos?
O Seguro dizer "o PS votou contra o OE2013 porque discorda totalmente com a subida colossal dos impostos e os cortes dos salários e das pensões" depois vir dizer, com cara de pasmado, de que "se eu for governo não desço os impostos", é de uma pessoa séria.
Demagógico seria o Seguro dizer que "mal chegue ao governo anulo a colossal subida de impostos do OE2013 e reponho imediatamente os subsídios de ferias e Natal aos funcionários públicos e pensionistas porque o PS votou contra essas medidas".

- Não está lá escrito nada disso. O camarada Sócrates nunca assinaria isso. Isso é ser mais troikista que a troika.

O Seguro é um mau estratega político.
Por palavras simples, é burro como um tamanco.
As pessoas que condicionam o seu comportamento ao querer agradar a toda a gente, acabam por se tornar inconsistentes.
Cada um de nós tem que seguir o seu caminho. Devemos apresentar a nossa visão sobre o mundo e, se alguém não gostar, paciência. Não podemos agradar a toda a gente, felizmente.
Se o nosso caminho for sério, havemos de encontrar alguém, nas mais de 7000 milhões de pessoas que há no mundo, que no compreenda e apoie. Se procuramos a fachada de agradar a toda a gente, seremos grelhados em fogo brando.
O Seguro está a ser toureado. Pensando que o povo o está a aplaudir, de facto está a aplaudir o toureiro. Mais cedo que tarde, vão as orelhas para o Costa, o rabo para outro, as patas para ainda outro qualquer e  a carne está no assador.

Nos últimos meses, Portugal mexeu os olhos e já saiu do estado de coma.
Está como o Hugo Chaves que continua tecnicamente vivo mas há semanas que ninguém credível o viu  vivo. Se está assim vivinho como a sardinha, era de chamar os jornalistas para repetir em alta voz:

  - Bush, you are a dunky, dunky, dunky. Americans you are dunkies, fuck you"

Mais valia embalsamarem-no, electrificarem-no com um i-phonix e continuar com a cassete de sempre.
Afinal, o que é estar vivo?

Jesus continua vivo no meio de nós depois de, na sexta-feira de Páscoa de 0034, ter sido dado como morto!

3 Outubro 2012 - A extensão de 3.76M€ em 3 anos a 5.11%/ano (uma parte da dívida feita pelo Guterres contraída há 15 anos a 5.75%/ano) correspondeu ao paciente abrir os olhos (fonte)

21 de Novembro 2012 - A emissão de  1200M€ a 18 meses à taxa de 2.99%/ano correspondeu ao paciente ter-se virado sozinho na cama (fonte).

16 Janeiro 2013 - A emissão de 1000M€ a 18 meses à taxa de 1.96%/ano correspondeu ao paciente dizer "o Pinto da Costa é o meu pai" (fonte).

23 Janeiro 2013 - A emissão de 2500M€ a 5 anos a uma taxa de 4.891%/ano correspondeu ao paciente perguntar "diga-me sr. doutor, o meu Sporting, agora que é treinado pelo Domingos Paciência, quantos pontos tem de avanço sobre o Porto?" (fonte)

Acabou a situação de emergência.
Já não existe o risco de amanhã de manhã não haver dinheiro nas caixas multibanco.
Acabou o risco de dia 25 os salários da função pública e as pensões não serem pagos.
Mas a situação mantém-se muito grave.
A pressão arterial deixou de diminuir porque se fez um garrote em ambas as pernas (o corte nas importações e no consumo), a acidez do sangue começou a estabilizar porque se usa respiração forçada (o apoio do BCE e da Troika) mas se não se pode continuar a viver assim porque as pernas vão gangrenar e os pulmões infectar (a economia vai continuar estagnada).
As doenças que tornaram o desemprego crescente desde 2002 têm que ser resolvidas para que a economia portuguesa consiga re-arrancar.

Mas 4.891%/ano ainda é muito elevado.
Há milhares de pessoas a pagar o seu crédito à habitação a uma taxa inferior a 1%/ano. São 321€/mês por cada 100 mil € de empréstimo se o período de amortização for de 30 anos. À taxa de 4.891%/ano seriam 5,24€/mês.
A Alemanha paga 0.60%/ano, 304€/mês.
Neste crédito hipotético, os 4.891%/ano corresponde a pagarmos 73%  mais que a Alemanha paga.

Porque não foi o financiamento feito a 18 meses?
Neste prazo já conseguimos uma taxa de juro bastante boa (abaixo da taxa de inflação do Euro).
Mas se imaginarmos toda a nossa dívida de 210MM€ transformada em títulos de 18 meses, o rollover obrigaria a  "ir" aos mercados mensalmente colocar 12MM€.
Era possível.
No inicio de cada semestre, o governo criava 70MM€ de uma série de títulos inicialmente a 20 meses e ia colocando-os ao longo do semestre para fazer a reforma da dívida vencida.
Apesar de ser possível, o Gasparzinho acha arriscado pois e poderia transmitir a ideia que o governo não acredita no efeito a longo prazo das medidas que está a tomar.
O Gasparzinho acredita que o efeito psicológico positivo da colocação da dívida a 5 anos é superior ao custo acrescido que é preciso pagar. Por isso é que só colocou 2.5MM€ neste prazo.

O responsável pela descida da nossa taxa de juro é o Draghi ou o Passos?
É a velha questão de saber se quem nasceu primeiro foi o ovo ou a galinha.
Não será por estarmos a implementar as medidas correctas que o BCE disse que aceitava a divida pública portuguesa (grega e irlandesa)?
Eu penso que sim.
Na minha visão, a cadeia de eventos foi:
1) O Passos actuou bem e Portugal começou a reagir
    1.1) As contas externas começaram a equilibrar
    1.2) O défice começou a reduzir
    Não nos podemos esquecer que fechamos 2012 com 5% e em 2009 e 2010 foi de 10%
2) Alemanha gostou
3) o BCE anunciou a compra de divida pública, se necessário
4) Juntando 1) e 3), a taxa de juro desceu
5) Juntando 1) e 4) a sustentabilidade financeira de Portugal melhorou
6) a Taxa de juro continuou a descer.

Sem 1) não haveria 2) e nunca aconteceria 3).
Tenho a certeza absoluta que se o Passos tivesse seguido o caminho do Sócrates, o BCE não nos aparava o peão.

As nossas contas com o exterior equilibraram. Mil vezes melhor do que eu alguma vez antecipei, em 2010, ser possível. O.F., tinhas razão.

O que precisamos fazer agora?
Agora passamos para os cuidados intensivos e ainda é preciso fazer muita coisa e dolorosas para voltarmos a ser um país normal.
Custou, começando em 2010 com 17000MM€, custou muito nas nossas vidas fechar 2012 com um défice de 8328.8 milhões € (e ainda assim, com medidas adicionais).
Isto é apenas metade do caminho pois é preciso ter um défice, sem medidas adicionais, abaixo dos 1000M€.
Mas já estamos a meio do caminho.
Imaginemos os cortes que já tivemos (o meu corte foi de 31.5% do salário).
Estamos a meio do caminho!

Porque será que o Passos desitiu de privatizar a RTP?
A missão do Passos+Gaspar é hercúlea e, aqui e ali, há pedras que têm que se deixar no meio do caminho. É preciso cortar a despesa pública em mais de  20 mil milhões € e fazer grandes reformas para Portugal poder crescer mais que nos anos 2000-2013.
E essa missão não pode ser posta em perigo por uma pequena pedra aqui ou acolá.
Aconteceu isso com a RTP. O anúncio da privatização causou muito ruído mas o PS cometeu a gafe de dizer que era possível ter uma RTP sem défice crónico.
Então, vamos a isso.
Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 13 de abril de 2012

A Irlanda, Portugal e a Espanha

Ainda há quem acredite na fada madrinha.
Ontem, 12 Abril 2012, no Jornal de Negócios, p. 40, o Nuno Carregueiro diz não saber porque a taxa de juro da dívida pública irlandesa, que há 8 meses estava nos 14%/ano, estar próxima dos 6%/ano enquanto que a portuguesa se mantém no mesmo nível (nos 12.5%/ano). Alega não compreender esta evolução porque a Irlanda está numa situação pior, diz, que a portuguesa. Mas avança com uma explicação: deve-se a uma imprensa desfavorável a Portugal e a um primeiro-ministro que ajuda a essa festa dizendo a verdade.
Vaticina que, se a imprensa e o primeiro-ministro dissessem que "está tudo bem para não dizer que está óptimo", logo ficaria tudo bem.
É incrível com a ignorância se transforma rapidamente numa opinião.
Nós portugueses começamos por dizer, "eu não sei" e "eu não compreendo" e, sem fazermos qualquer esforço para ficarmos a saber ou a compreender, atacamos com uma solução para tudo o que mexe.


Fig. 1 - Eu acredito que esta bonita mulher não toma drogas e que a Nossa Sr.a de Fátima nos vai salvar.


Conversa entre o Carregueiro e um irlandês gordo.
Diz o irlandês gordo:
- Sr. Carregueiro o que devo fazer para deixar de ser gordo?
Responde o Carregueiro:
- Eu não sei porque és gordo nem porque te custa tanto respirar quando sobes as escadas pelo que não faço ideia. Então, a razão de seres gordo está no facto de os teus vizinhos te chamarem gordo e a tua mulher dizer no cabeleireiro que tens falta de ar na hora H.
- Já sei a solução: os teus vizinhos têm que passar a dizer que estás magro e a sua mulher tem que te chamar Tarzan. Nessa altura deixas imediatamente de ser gordo e de ter falta de ar.
Diz o irlandês gordo:
- Mas amigo Carregueiro, como podes avançar com a terapia se acabaste de dizer que não sabes nada sobre o assunto?
Volta o Carregueiro.
- Não compreendo a tua duvida amigo irlandês. Seria fácil eu receitar-te uma dieta mas é muito mais inteligente convenceres os teus vizinhos para dizerem que estás magro.
- Garanto-te que, mesmo sem fazeres nada, quando os teus vizinhos passarem de dizer que estás magro, passas imediatamente a ser magro. Agora só tens que os convencer a fazer isso.
Conclui o irlandês gordo:
- É Carregueiro, o problema é que eu apenas os consigos convencer quando deixar de ser gordo. 


Como o Carregueiro nos comparou com a Irlanda.
No défice público estamos melhor.
O  défice público irlandês foi 11% em 2011 e prevê-se 8.6% para 2012 enquanto que o nosso foi  7.9%! em 2011 e este ano deve ficar nos 6%. 
No desemprego estamos melhor.
O desemprego irlandês foi 13.7% em 2010 e 14.4% em 2011 e em Portugal foi 12% e 12.9%.


Vamos ver o que diz a teoria económica.
Sendo que o Carraqueiro não sabe nem compreende o que se passa, vou pegar na teoria económica e ver como posso explicar porque somos diferentes da Irlanda.

A Balança Corrente.
As relações económicas entre os agentes económicos residentes num país e os residentes no exterior  agregam-se na balança corrente. Quando a balança corrente é negativa, o residentes têm que pedir dinheiro emprestado ao exterior, vender-lhes activos ou emigrar.
Quanto mais negativamente desequilibrada estiver a balança corrente e por mais tempo, maior será o perigo do país, como um todo, entrar em bancarrota.
Em termos internos, a balança corrente equilíbra-se com os custos do trabalho.
Então, para equilibrar um desequilíbrio negativo será preciso diminuir os custos dos trabalho.


O mercado de trabalho.
Para haver produção as pessoas têm que trabalhar. Então, taxas de desemprego elevados fazem diminuir o PIB. Como o trabalho conta 2/3 na produção, cada 1% de desemprego reduz o PIB em 0.67%.
O mercado de trabalho equilibra-se pela redução dos custos do trabalho. O desemprego indicia que há mais oferta (por parte os trabalhadores) que procura (por parte do empresários) pelo que se torna obrigatório a redução do preço do trabalho.

As finanças públicas.
Défices públicos elevados levaram a dívidas monstruosas provavelmente impossíveis de pagar. Esta probabilidade transforma-se em "risco de incumprimento" que é um spread que aumenta a taxa de juro que o soberano tem que pagar pela dívida pública.
As contas públicas equilíbram-se aumentando os imposto e diminuindo os serviços que o Estado fornece a preços reduzidos (principalmente, a despesa na Segurança Social, na Saúde e na Educação)
Como jogam as coisas.
Ao diminuir os custos do trabalho estamos ao mesmo tempo a reduzir o desemprego e a equilíbrar a balança corrente.
Ao equilibrar a balança corrente, os residentes deixam de pedir dinheiro emprestado ao exterior e passam a emprestar dinheiro ao Estado pelo que diminui a taxa de juro. A principal razão é psicológica:  os residentes  são menos sensíveis ao risco de bancarrota do seu Estado que dos Estados estrangeiros.
Para reduzir os custos do trabalho é preciso diminuir do salário mensal e aumentar as horas trabalhadas por mês.
Há a hipótese teórica de diminuir a carga fiscal sobre o trabalho, a TSU, mas isso tem um alcance limitado e desequilibraria ainda mais as contas públicas.


Como têm evoluído o custos do trabalho?
Supondo um trabalhador que ganhava 1500€/mês no ano do início da "crise do subprime", em 2007.
Na Irlanda ganha actualmente 1150€/mês. Houve uma redução nominal de 23%.
Em Portugal ganha actualmente 1525€/mês. Houve um aumento nominal de 1.7%.

Como tem evoluído a balança corrente?
Os esquerdistas dizem que diminuir os salários faz cair o PIB e destruir a economia. Chamam-lhe a espiral recessiva. Nada disso é verdade.

Em 2007/8 estávamos pior que a Irlanda. 
Nunca a situação irlandesa foi tão grave como a portuguesa. Em 2007/8 a Irlanda teve um desequilíbrio da balança corrente de -5.5% do PIB enquanto que Portugal teve o dobro, -11% do PIB.
Mas como previsto pela teoria económica, a diminuição dos custos do trabalho na Irlanda fez com que em 2010 e em 2011 já a balança corrente irlandesa seja ligeiramente positiva.
Pelo contrário, a balança corrente portuguesa acabou nos anos 2010/11 nos 10%.

Agora estamos muito pior que a Irlanda.
A Irlanda corrigiu a BC em 6% do PIB (de -5.5% para +0.5%) e nós em apenas 1% do PIB.

O que justifica termos taxas de juro nos 12.5% é não conseguirmos diminuir os custos do trabalho.
Naturalmente que as pessoas não querem ver o seu salário diminuir e o seu horário e trabalho aumentar.
Pensa o Passos Coelho que dizer publicamente que temos que ganhar menos é muito impopular pelo que é melhor falar de coisas genéricas como a "renegociação das parcerias publico privadas" nas quais vai poupar para aí uns 50 milhões de euros.
são 0.1% do que temos que pagar pelas PPP e vão ser gastos em pareceres jurídico e nas negociações.
Esta incapacidade política o governo dizer abertamente que o salários têm que diminuir e que o horário e trabalho tem que aumentar é que faz as taxas de juro manterem-se elevadas.
Não diminuindo os custos do trabalho, o desemprego não diminui e a balança corrente não corrige havendo mais necessidade de dinheiro do exterior.

Dizem os comunas que, então, os salários vão cair para o nível dos dos chineses.
Em termo de poder de compra equivalente, o salário médio na China anda pelo 350€/mês (cálculo efectuado pela comparação do PIBpc, ppp).
Para vermos porque os comunas mentem, tenho que explicar como se determinam os salários relativos dos países. Para isso tenho que lançar mão a um teoria com quase 200 anos. Já tem tanto tempo (deve-se a David Ricardo, o maior contributo de um português para a teoria económica, português judeu de Amsterdão) que já toda a gente tem obrigação de a conhecer, até os comunas.

Vantagens Comparativas Relativas.
Motivado pelo clima, a escolaridade, as infra-estruturas, os recursos naturais, etc., nuns países as pessoas são mais produtivas e noutros menos. Os países são pobres porque lá as pessoas são, em média, menos produtivas.
Vamos imaginar que a produtividade de um trabalhador se traduz no número de horas que precisa para produzir um determinado bem. Um chinês demora mais tempos a fazer um bem que um português. Por exemplo, existem na economia 4 bens que em cada país demoram x horas a ser produzidos:

                              China            Portugal            Rácio
Têxteis                       88                 80                  1.1
Sapatos                   150                 50                  3.0
Televisores              108                 30                  3.6
Automóveis             300                 60                  5.0

A teoria da vantagens relativas garante que a China ao especializar-se na produção dos bens em que o rácio das produtividades é mais baixo e Portugal nos bens em que o rácio é mais elevado, haverá ganho para ambos os países. Neste caso, em função dos salários relativos, a China irá produzir Têxteis e Sapatos que exportará para Portugal que, por sua vez, produzirá Televisores e Automóveis que exportará para a China.
Mas na China um trabalhador demora mais tempo a fazer Têxteis que em Portugal pelo que, para o preço ser menor que o Têxtil produzido em Portugal, o salário tem também que ser menor.

Preço = Tempo x Salário

Para a China produzir Têxteis:              88 x Salário_China < 80 x Salário_ Portugal
Para a China produzir Sapatos:          150 x Salário_China < 50 x Salário_ Portugal

Para Portugal produzir Televisores:    30 x Salário_ Portugal < 108 x Salário_China
Para Portugal produzir Automóveis:    60 x Salário_ Portugal < 300 x Salário_China

Então, desta condições resulta que para a China produzir (e exportar para Portugal) Têxteis e Calçado terá que ter um salário médio
Salário_China < 0.33 x Salário_ Portugal

E Portugal para poder produzir e exportar para a China Televisores e Automóveis tem que ter:
Salário_ Portugal < 3.7 x Salário_China

O salário relativo vai ficar entre estes valores. Se, por exemplo, na China o salário médio for 350€/mês, em Portugal poderá ser entre 1050€/mês e 1295€/mês.

O que acontece se o salário for maior que 1295€/mês?
A China passará a produzir Televisores e como a nossa produção de Automóveis não é suficiente para pagar todas as nossas importações, a balança corrente fica negativamente desequilibrada.
Para equilibrar novamente a balança, os nossos salários têm que diminuir.

Não são os baixos salários que tornam a China competitiva mas, pelo contrário, o ser a China pouco competitiva é que obriga a que os seus salários sejam baixos.

Se temos a balança corrente negativa, temos que desvalorizar os nossos salários até a balança corrente equilibrar.

E como está a evoluir a Espanha?
Tem uma taxa de desemprego elevadíssima e os custos do trabalho aumentaram.
A balança corrente não corrige (foi -4.5% do PIB em 2011 e está a piorar).
O governo disparata contra tudo e contra todos em vez de tomar as medidas certas: descer os custos do trabalho.
Está tal qual os da Guiné Bissau.

Amigo Nuno Carregueiro, espero que tenha ficado a compreender porque as taxas de juro da Irlanda desceram e as nossas não.

Pedro Cosme Costa Vieira

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