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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Deus ajude Angola

Vejo núvens negras sobre Angola.
Como já devem saber, em Angola vive-se um bocado mal. 
Comparando com o nível de vida português, se é dificil sustentar uma família de 4 pessoas com 900€/mês (dois SMN para dois adultos e duas crianças), em Angola, esses mesmos 900€/mês têm que dar para uma família de 8 pessoas (dois adultos e 6 crianças).
Se juntarmos a esta comparação que em Angola, por um lado, para captar mão de obra qualificada (médicos, engenheiros, ...) é preciso pagar-lhes o que ganhariam num país europeu e, por outro lado, que existe uma distribuição do rendimento bastante desigual, caimos numa sociedade onde uma percentagem grande da população vive muito mal, com quase nada.



Mas, dirão, "No tempo dos portugueses era muito pior".
O Banco Mundial não tem estatísticas para Angola referentes à década de 1970. Seria uma coisa que o Instituto Nacional de Estatística Angolano já deveria ter resolvido há muitos anos até porque a Guiné-Bissau, pais muito mais pobre e desorganizado, já tem estatísticas até 1970. Sem querer ofender os do INE-Angola, não deixa de ser uma vergonha.
Mas fui buscar uns dados ao Banco Mundial, outros a um site (o PIB pes capita nominal, ver), depois fiz umas contas com o câmbio entre PIB nominal e o real per capita português, mais umas simplificações, e obtive o PIB per capita para Angola até 1970.


Ano XXX0 XXX1 XXX2 XXX3 XXX4 XXX5 XXX6 XXX7 XXX8 XXX9
197X 3879,2 3757,6 3349,8 3309,2 3158,3 1964,4 1862,7 1984,3 2017,4 2028,6
198X 2216,1 2093,6 2162,6 2431,2 2639,2 3013,0 2004,4 1925,6 1865,7 2092,8
199X 1801,1 1899,4 1769,5 1378,2 1321,8 541,0 685,7 854,5 692,7 642,8
200X 1017,1 1044,5 1110,7 1055,1 1280,3 1984,0 2345,1 2918,4 3609,5 3266,4
201X 3603,1 4207,5 4906,8 4752,8 4779,4          
Quadro 1 - PIB per capita constante $2005 angolado (estimativa do autor usando dados do Banco Mundial e de outra fonte, ver)

Transformei estes valores em termos relativos e fiz um gráfico onde podemos ver que:
1) Nos últimos 15 anos o nível de vida em Angola aumentou muito, 14,3%/ano mas isso foi devido, principalmente a.
2)  Relativamente a 1970, chegamos a 1999 com uma queda do PIB per capita superior a 80%
3) Considerando que a governação actual nada teve a ver com a queda 1970/1975, desde que o MPLA tomou o poder, o crescimento do nível de vida foi de 2,3%/ano, o que não é mau em termos genéricos (Portugal cresceu 1,9%/ano), é mau atendendo às receitas do petróleo e ao nível baixo de rendimento.

PIBpc angolano relativamente a 1970 (dados, Quadro 1)

Mas se o PIBpc cresceu tantonos últimos anos, não deve haver problema!
Mas agora é que vem o problema maior, é que este crescimento resulta apenas e tão só das receitas do petróleo cujo preço está em queda livre.
Estando o preço médio do petroleo na ordem dos 100USD/barril, a partir de meados de 2014 começou a cair e está hoje abaixo dos 37USD/barril.
Estimando-se o custo médio de produção em 11,7 USD/barril (ver, Knoema), a receita líquida do petróleo angolano caiu 71%.
No caso do Brasil, o custo de produção é maior, 31,4USD/Barril, mas o peso do petroleo na economia é de apenas 2,5%.

E ainda pode cair mais.
E as rendas do petróleo pesam ...
Muito na economia angolana, acima dos 40%, pelo que a queda vertiginosa dos preços do petroleo vai ter um impacto astronómico no nível de vida.

Peso do petroleo na economia angolana e da Arábia Saudita (dados, Banco Mundial)

E Portugal também irá sofrer.
Porque, dizem, há muitos portugueses a trabalhar em Angola, talvez na ordem das 200 mil pessoas, principalmente na cosntrução civil.
E também exportamos muita coisa para lá.
Isto tudo vai acabar e rapidamente.

A economia angolana vai murchar muito e rapidamente.

Pedro Cosme Vieira

sexta-feira, 7 de março de 2014

A Ucrânia entre a Europa e a Rússia

O que se passa hoje com a Rússia já se passou connosco.
É um surto de nostalgia imperial.
Nos finais do Sec XIX estávamos na bancarrota mas os livros escolares ainda falavam que tínhamos sido uma grande potência mundial. Nessa viragem do século a Inglaterra era a potência hegemónica porque "nos tinha roubado a metade do Mundo que nos pertencia por direito do tratado de Tordesilhas".
Foram mais décadas e décadas de discurso inflamado, mapas cor de rosa e barrigas vazias até que, nos anos 1960, passamos a aplicar todos os nossos recursos numa guerra contra a emancipação das nossas coloniazitas pois, com elas, íamos voltar a ser uma superpotência (as nossas colónias eram tão ricas que vieram a dar alguns dos países mais pobres do Mundo).

Fig 1 - Pelo tratado de Tordesilhas e de Saragoça, a Crimeia pertence-nos. Ataca-los com a PSP que é especialistas a subir escadarias.

O Czares russos também sonharam em ser uma grande potência mundial e pensaram que apenas o seriam se conquistassem povos e territórios e exercessem sobre eles toda a espécie de exploração e tirania. Essa política continuou no tempo soviético e levou à ocupação, depois de 1945, de toda a Europa Central, desde Hamburgo até à Grécia.

As tiranias não têm futuro.
O problema dos tiranos é que nenhum império pode durar explorando as minorias quando, por comparação, existe ao lado uma Europa de povos livres, democráticos e desenvolvidos. Esta comparação levou o bloco soviético ao colapso e obrigou a Rússia, que era a verdadeira dona do império, a recuar quase 2000km para Leste.
Foi trágico a Rússia ter perdido tudo o que tinha arrebanhado na segunda guerra mundial, tantos mortos e prejuízos para, no final, não ganhar nada. Mas o mais trágico foi ter perdido "para a Europa" a Ucrânia que já parecia totalmente assimilada.
Fig. 2 - Entre 1990 e 2014, na frente europeia a Rússia recuou 1900km (a sombreado as área "perdidas"). 

Em 1990 ninguém imaginava a expansão da UE para Leste.
Eu ainda me lembro da queda do Muro de Berlim e a previsão que os europeu faziam nesse tempo era que a União Europeia não se iria expandir para Leste porque a Rússia não o iria permitir e que não podiamos absorver países tão pobres.

País   1990 2012
--------------------------------------------------------------------------
Europa Ocidental 23859 30566 (USD2005)
Portugal 57,7% 58,6%
--------------------------------------------------------------------------
Bosnia and Herzegovina 2,4%     11,0%
Armenia 4,8%      9,4%
Kosovo 6,3%      9,3%
Moldova 6,8%      3,4%
Albania 6,8%     11,6%
Belarus 9,8%     15,9%
Georgia 10,5%      6,8%
Ukraine 11,1%     6,9%
Bulgaria 12,0%     15,2%
Macedonia, FYR 12,7%     11,4%
Montenegro 13,7% 15,2%
Romania 16,1%     18,3%
Serbia 19,4%     12,6%
Poland 19,8%     34,6%
Estonia 20,8%     38,7%
Latvia 22,7%  27,7%
Croatia 27,4% 34,5%
Lithuania 28,1%     32,9%
Hungary 35,4% 35,9%
Slovak Republic 37,4% 48,8%
Czech Republic 41,0%     46,6%
Slovenia 52,5% 60,9%
--------------------------------------------------------------------------
Russian Federation 23,8% 22,4%
--------------------------------------------------------------------------
Quadro 1 - PIB pc relativamente à média da Europa Ocidental e sua evolução (dados, Banco Mundial)

O máximo a UE poderia vir a incluir era a Polónia e a Checolováquia (por pressão alemã) mas os outros países de Leste teriam que construir uma UE-2 (com a Rússia como economia central) e, posteriormente, haveria um acordo de  comércio e de vistos entre a UE e a UE-2.
Muitos políticos portugueses defenderam publicamente a não expansão da UE para Leste pois isso iria ser prejudicial para a nossa economia (a entrada de países com baixos salários).

Mas a Europa Ocidental avançou como um caterpilar.
Por pressão dos USA, da Alemanha e, mais tarde, da Polónia, a UE foi avançando rapidamente para Leste até que, em 2013, a UE já estava encostada à fronteira soviética de 1940 (na fronteira da Bielorússia e da Ucrânia).
O problema mais grave é que, enquanto a Rússia estava distraída com Socchi e uma basezita naval na Síria, um "golpe de estado palaciano" permitiu que a UE avançasse rapidamente pelas planícies Ucranianas adentro até encostar às fronteiras Russas do Séc. XVII.
Foi o Blitzkrieg que o Hitler sonhou mas que não conseguiu por meios militares.

Qual deverá ser o futuro?
Em teoria pode haver um país com dois grupos étnicos como, por exemplo, os USA (Espanicos, afro-americanos e brancos) mas, no caso da Ucrânia, penso que os russos ainda têm o espírito de colonizadores.
Depois, a votação é muito étnica. Por exemplo, o presidente deposto não sabia falar ucraniano e foi eleito maioritariamente pelos russos.
Seria como teres em Portugal um Presidente que fosse eleito pelos espanhóis que que só falasse castelhano.
Assim, a Ucrânia como país do povo ucraniano só tem a ganhar em ver-se livre dos russos.

Amigos, amigos mas cada um para seu lado.
Tal como a Rússia não conseguiu manter os ucrânios contra a sua vontade, também a Ucrânia não consegurá manter os russos.
A melhor solução é transformar a Ucrânia numa federação.
1) Os russos governam o Leste (20% do território) e os Ucranianos o Ocidente (80% do território) com livre movimentação de pessoas e bens entre as duas repúblicas (três se a Crimeia se mantiver como uma república).
2) Quem fala russo ficar obrigatoriamente recenciado no Leste e quem fala ucraniano ficar recenciado no Ocidente.
3) Cada república elege o seu primeiro ministro (por voto directo) e o seu parlamento como países independentes.
4) Criam um Senado e um presidente sem poderes executivos (tipo, Rei de Espanha) que são eleitos pelo conjunto dos 2 parlamentos (ou 3 parlamentos).
Daqui a uns anitos, tal como aconteceu com a Checoslováquia, separam-se e dão origem a 2 ou 3 países independentes e cada um segue o seu distino.
Amigos, amigos mas cada um para seu lado.

A Ucrânia é mesmo muito pobre.
Tem um PIB pc de apenas 7% da média da Europa Ocidental que compara com o nosso 59%.
Se uma pessoa que ganha em Portugal em média 900€/mês, na Ucrânia ganha 100€/mês. A irmã da minha chefe de manutenção é engenheira e ganha 100€/mês.
A esperança da Ucrânia é o exemplo da Polónia que, em 20 anos, duplicou o seu PIB pc relativamente ao da Europa Ocidental.
Pode ser que, com a ajuda massiva da UE e copiando o modelo polaco de  liberalização da economia e de integração com a economia Europeia, a Ucrânia dê inicio a um caminho de convergencia com os países desenvolvidos em Paz.
Pedro Cosme Costa Vieira

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A Ucrânia e a Venezuela, é tudo economia

Eu estou muito ligado à Ucrânia 
porque a Olga (que é a minha chefe de manutenção doméstica) é da região de Ternopil (a Ucrânia está dividida em 24 regiões - oblasts mais a Crimeia e Svastopol que é uma base naval russa tipo Guantanamo). Além disso materializa a divisão étnica da Ucrânia porque é meia ucraniana (a mãe) e meia russa (o pai). 
Também tenho alguma ligação à Venezuela porque cruzo-me com muitas pessoas que estiveram por lá, incluindo um tio da minha mãe.
Estes dois países estão ligados pela conflitualidade social. 

Porque será que estão com problemas?
A razão está em anos sem crescimento económico.
Os povos destes países, em oposição aos de outros, vivem na ilusão de que têm direitos adquiridos, que os salários têm que ser dignos, que o capital não pode explorar o trabalho, que não querem as receitas neo-liberias do FMI, blá, blá, blá, blá, toda a conversa que também ouvimos por cá saída da boca dos esquerdistas. 
O problema é que com boas intensões está o Inferno cheio. 

Primeiro, vou comparar a Venezuela com o Chile.
Como sabem, o Chile foi o primeiro país do Mundo a adoptar o que veio a ser denominado pelos esquerdistas como o "neo-liberalisto". Nos finais dos anos 1970, charters de conselheiros económicos da Escola de Chicago voaram para o Chile para implementar as reformas necessárias para o Chile se tornar uma economia competitiva. 
Claro que os comunas criticaram muito isso, atiraram pedras e molotovs e o Pinochet, de forma errada, atirou-os para o meio do mar. O que os esquerdistas aplaudiam era o que se passava em Cuba onde também, e talvez mais, havia fuzilamentos mas disso não interessa falar. 
Por volta de 1980, o PIB per capita da Venezuela (7000USD) era quase 2,5 vezes o PIB pc do Chile e de Cuba (3000USD). O problema é que nos últimos 30 anos o PIB pc da Venezuela estagnou (regrediu  mesmo para 6500USD) e o do Chile multiplicou para 9500USD (ver, Fig. 1).
Ao longo dos últimos 40 anos, o rendimento dos venezuelanos convergiu mas para o nível cubano (ver, fig. 2). Foi a convergencia para o modelo esquerdista da miséria.
Quando os nossos comunas falam do "nivelamento por baixo" deveriam olhar para a Venezuela.
A Venezuela mostra que, afinal, políticas erradas podem mesmo transformar um país riquíssimo em petróleo num país miserável.

Fig. 1 - Evolução do PIB per capita do Chile, Venezuela e Cuba (dados: Banco Mundial, USD2005)

Fig. 2 - Evolução do PIB per capita da Venezuela e Cuba relativamente ao Chile (dados: Banco Mundial)

Também vou comparar a Ucrânia com a Polónia.
Eram dois países do bloco soviético que sofreram bastante com a mudança da economia centralizada para a economia de mercado.
Em 1991 a Ucrânia era mais pobre (um PIB pc de 55%) que a Polónia mas comparável. Decorridos 23 anos de independência, o PIBpc ucraniano diminuiu para 2000USD e, pelo contrário, o PIBpc polaco mais que duplicou para os 11000USD (ver, fig. 3).
Nos primeiros 5 anos de independência o PIB pc da Ucrânia caiu de 55% do PIB pc polaco para apenas 20% e teima em não sair daí (ver, Fig. 4).

Fig. 3 - Evolução do PIB per capita da Polónia e Ucrânia (dados: Banco Mundial)

Fig. 4 - Evolução do PIB per capita da Ucrânia relativamente à Polónia (dados: Banco Mundial)

E assim se constroem e destroem países.
A Ucrânia tem que observar o que a Polónia fez nos anos 1990 (desmantelamento do Estado, flexibilização dos mercados de trabalho e de bens e serviços, abrir a economia ao comercio internacional) e que já tinha sido feito pelo Chile nos anos 1980 e avançar, custe o que custar pois a alternativa é o continuar da estagnação.
Nos anos 1980 o Chile (e a China) avançou com o fim dos "direitos adquiridos" para a flexibilização da economia com base apenas no que os modelos teóricos publicados nos anos 1970 indicavam.
Hoje, dada a vasta evidencia empírica de que a flexibilização dá bons resultados, é muito mais fácil convencer as pessoas de que é esse o verdadeiro e único caminho do crescimento.

Em Portugal vive-se o mesmo problema 
Portugal não cresce desde 1999 e continuamos a arrastar os pés. Umas vezes não se podem aumentar os impostos e é preciso cortar na despesa mas, logo a seguir, não se pode cortar na despesa porque está-se a destruir o "estado social".
Umas vezes "aguentamos até 7%/ano de taxa de juro" (disse-o o Teixeira dos Santos em 2011) para logo se vir dizer que "5,11% é insustentável" (disse-o o Seguro em 2014).
Mas os Estaleiros Navais de Viana do Castelo terem sido liquidados mostra que é possível acabar com as empresas públicas que são o cancro da nossa economia. Mas isso custa muito porque na matriz dos "opinion makers" há semrpe a ideia do Estado secar tudo à volta.
Ainda no outro dia houve um estudo qualquer sobre os STCP feito por um fulano qualquer da FEUP (penso que por um fulano que já foi seu administrador) e lá apareceram as velhas receitas do monopólio. Defendem que é preciso reforçar o monopólio dos STCP proibindo ainda com mais força a concorrência que as empresas privadas fazem "ilegalmente".
Estes iluminados esquecem-se que as empresas públicas apenas existem para garantir o direito constitucional ao transporte dos cidadãos que os privados não queiram fornecer.
O objectivo dos STCP não é transportar as pessoas com prejuízo mas apenas transportar quem não tem alternativa.
Então, sempre que um privado  se proponha fazer o serviço SEM ENCARGOS PARA O ESTADO, a empresa pública tem que recuar.
Pura e simplesmente, todas as linhas que os privados, seja a Gondomarense ou outra qualquer empresa ou pessoa, queiram fazer, façam favor, competindo pelos passageiros baixando o preço e não pagando concessões.
Nas linhas e horários que nenhum privado queira fazer, aí e só aí, entram os deficitários e mal geridos STCP.

E a questão étnica da Ucrânia?
20% das pessoas que vivem na Ucrânia são russos. No Sec. XVIII a Rússia conquistou, como nós fizemos no Sec. XII, os territórios a Sul ao "mouros" e foram-nos colonizando com russos. Em 1944 o Estaline pegou mesmo em toda a população não russa da Crimeia (os Tártaros) e enviou-a para a Sibéria onde morreu mais de metade.
Mas vamos supor que a Ucrânia fica reduzida em 20%. Ainda assim, fica um grande país, com 35 milhões de habitantes e 480 mil km2, o dobro do tamanho do Reino Unido (244000km2)  e maior que a Alemanha (360000km2).
E a história mostra-nos que é mais estável um país pequeno que um aglomerado de etnias que se odeiam.
Os tártaros são os pretos da Crimeia mas actualmente só somam 10% da população. Será que têm direito à auto-determinação e a expulsar a maioria russa, direito que foi reconhecido, em 1948,  ao Estado de Israel?

Fig. 5 - Uma ucraniana é assim (muito diferente da minha chefe de manutenção)

Fig. 6 - Mas não faz muita diferença relativamente a esta russa (também já tive uma chefe de manutenção russa e não era nada parecida com esta barbie)

O mais certo é tudo como ficar como está.
De jure mas de facto a Ucrânia vai passar a ser muito mais descentralizada.
Se o governo actual futuro der autonomia às oblastas e avançar para um modelo federal, a coisa estabiliza como a federação croata -muçulmana da Bósnia que, de facto, são 2 estados. 
Depois, com umas ajudas da UE que podem ser de 8MM€/ano de fundos de coesão (5% do PIB) e com as reformas indicadas pelo FMI, a Ucrânia pode iniciar o caminho de desenvolvimento que a Polónia está a trilhar desde há 20 anos. 
A Ucrânia precisa, no curto prazo, de 20000M€ mas é pouco para recuperar um país europeu que deu 6 milhões de vidas na luta contra o nazismo. Dá só 3300€ por cada morto.
E se compararmos com Portugal que, com 10M habitantes recebeu um resgate de 78000M€ mais 50000M€ de "cedências de liquidez", não é quase nada.

E a Rússia?
Não tem capacidade de intervenção porque a sua economia é muito pequena e está a sofrer um grande desgaste na Síria quer financeiro (porque fornece bens a crédito) quer moral pois apoia um regime totalmente sanguinário e que piora a cada dia que passa.
Apesar de, na conversa e face à Geórgia, a Rússia ser uma grande potência, de facto é uma economia da dimensão da França mas com o dobro das bocas para sustentar.
Interessante que na Síria já mataram muito mais que 100 mil pessoas e o regime aguenta-se e na Ucrânia bastou matarem 80 pessoas para o regime cair. Isso mostra que o lugar deles é na União Europeia, custe o que custar.
Vamos ter esperança.

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O desenvolvimento com baixos salários

Todos já ouvimos falar de "modelos de desenvolvimento". 
Em particular, a esquerda tem falado no "modelo de desenvolvimento baseado em baixos salários" que pura e simplesmente não existe, nunca existiu e nunca existirá. É um embuste, uma cassete da esquerda co-adoptado pelo Paulo Portas.
Os únicos modelos de desenvolvimento que existem são o modelo centralizado (socialista/comunista) e, por oposição, o modelo descentralizado (de mercado/capitalismo). Depois, temos muitas variações, misturas e confusões.
Mesmo o denominado "modelo de desenvolvimento sustentável" é uma mão-cheia de nada.

O que distingue o modelo de mercado do modelo socialista/comunista?
É haver ou não liberdade de produzir, de comprar e vender , de exportar e importar. 

No modelo de desenvolvimento de mercado. 
As pessoas são livres de fazer tudo o que lhes venha à cabeça. 
As pessoas são livres de escolher quantos filhos têm e de como os educam.
São livres de escolher entre ser empresário, trabalhador por conta própria ou alheia, escolher a taxa de poupança, os bens que adquirem, a cidade onde vivem, etc., etc. etc.
O modelo de desenvolvimento capitalista é o liberalismo económico e condensa-se na máxima Laisser faire, Laisser Passer de Quesnay (1750) e de Adam Smith (1776).
Para que a economia funcione há algumas regras que têm que ser respeitadas em termos agregados (mas não é necessário que sejam cumpridas a 100%):
     Não matar (6.º mandamento);
     Não roubar (8.º mandamento);
     Não enganar (9.º mandamento)
Então, a economia de mercado acaba sempre com algum grau de coordenação centralizada.

Depois, da negociação entre as pessoas (o mercado) resultam os preços relativos.
Se eu quero produzir latas de conserva com doce de agulhas de pinheiro bravo, compro as latas, vou a um pinhal colher agulhas, meto-as nas latas com água e açúcar, tapo-as, cozinho/pasteurizo as latas e meto-lhes um rotulo a dizer "doce de agulhas de pinheiro bravo". Pago as latas, as agulhas, a água, o açúcar, a pasteurização e o rótulo.

Fig. 1 - Não confundir as agulhas de tatuagem com as folhas fininhas, agulhas, do pinheiro.

Depois, meto as latas na mala do meu carro, vou para uma estrada onde passem carros e tento vendê-las por um preço que cobra os custos de produção e ainda sobre algum para o meu salário.
Se eu não conseguir um salário pelo menos igual ao que posso ter noutra actividade qualquer (por exemplo, a fazer doces de abóbora), eu acabo por desistir desta actividade (e ir para outra) sem ser necessária nenhuma entidade centralizalizada para mo obrigar.

O salário é determinado no mercado.
São as pessoas que passam que decidem o meu ordenado. Ao querer ou não comprar a lata com agulhas de pinheiro, são as forças de mercado que vão determinar o meu salário. No final, é esse número que também vai decidir se eu vou ou não poder produzir doce de agulhas de pinheiro bravo.
Isto passa-se não só nos negócios por conta própria como também por conta de outrem.
O empresário tem que ir ao mercado e alugar equipamentos (ou pagar juros), comprar matérias primas e produtos intermédios e pagar os salários. Depois, vai ao mercado vender. Se a facturação não permitir pagar os salários e os preços dos bens comprados, ou os salários (e preços de aquisição) diminuem ou a empresa vai à falência (e as pessoas vão procurar outro emprego).

Fig. 2 - O meu sonho é ser empresário de caça de elefantes mas não consigo competir com os africanos. 

Para o Estado fica apenas a produção de bens e serviços que os privados não queiram produzir de todo e que sejam, sem dúvida, necessários à comunidade e ainda um pequeno sistema policial para evitar que as pessoas façam as (poucas) coisas que são proibidas. 

No modelo de desenvolvimento socialista/comunista. 
Existe uma entidade central que decidi o que as pessoas vão fazer, desde o número de filhos (como na China), até o local em que a pessoa pode viver e trabalhar. O resto é proibido.
No modelo socialista puro não existe sistema de preços ou, a existir, são números decididos de forma centralizada, e  as quantidade que cada pessoa vai adquirir é também uma decisão administrativa. Por exemplo, cada pessoa vai trabalhar 40h (não interessa quanto é o salário) e cada pessoa recebe um cabaz de bens com 10kg de arroz, 2 litros de óleo, uma camisa, etc. (não interessa quanto custa).

O salário é decidido de forma administrativa.
O Estado pode decidir que um trabalhador ganha 10000€/hora e que cada kg de arroz custa 0,01€/kg porque a pessoa é na mesma obrigada a trabalhar 40h e só tem acesso ao capaz de bens oficial.
Mas estes euros não podem ser os portugueses pois o resto do salário que no fim do mês sobrar do salário, vai ficar sem efeito porque não existem bens na economia com valor suficiente para pagar os salários. Terá que ser uma moeda local, como o Won Norte Coreano, sem qualquer valor de troca.
E as pessoas também não podem emprestar dinheiro porque o devedor não tem bens para adquirir.
É dinheiro equivalente ao do Jogo do Monopólio.

Fig. 3 - Na Venezuela, o Maduro aumentou os salários e diminuiu os preços (em Bolivares) o que parecia bom mas que fez com que deixasse de haver bens à venda (que têm que ser pagos em dólares). 

O mercado promove a eficiência.
A eficiência económica consiste na obtenção do máximo bem-estar possível para as pessoas. Assim, é uma média do grau de felicidade de cada um de nós pelo que depende dos nosso gostos individuais e das decisões das outras pessoas (que se agregam na nossa "restrição orçamental").

Há pessoas que gostam muito de fumar mas isso causa, a prazo, despesas de saúde. 
O legislador é tentado a proibir o tabaco porque causa despesas médicas pagas por todos nós.
Mas a maximização do bem-estar social tem que ponderar, por um lado, o bem-estar da pessoa que gosta de fumar com a perda social em despesas de saúde e morte precoce.
O balanço indica que não deve ser proibido mas haver um imposto que pague os custos sociais. Só as pessoas em que o custo social (o imposto) seja menor que o gosto de fumar é que vão continuar a fumar.
Se cada uma das pessoas actuar de forma a maximizar o seu bem-estar (sob a restrição das decisões das outras pessoas - as tais forças de mercado), obtém-se um resultado melhor que a ser o Estado a decidir  porque o decisor centralizado não tem conhecimento dos gostos individuais de cada pessoa. 

O Estado socialista não consegue promover a eficiência.
Além de não conhecer os gostos de cada uma dos milhões de pessoas que existem, é impossível promover a afectação centralizada de milhões de pessoas a milhões de diferentes actividades na produção de centenas de milhar de bens e serviços diferentes e ainda decidir como os bens produzidos vão ser distribuídos pelos gostos das pessoas. 
A economia socialista (afectação centralizada) apenas é eficiente em economias muito pequenas e pouco sofisticadas. Exemplo desse modelo de desenvolvimento é as empresas porque têm um número limitado de trabalhadores (a maioria tem menos que 250) e produzem poucos bens e serviços (menos que 100). 

Fig. 4 - From Russia with love

O modelo de desenvolvimento baseado nos baixos salários.
Isso não existe. É um embuste criado pela esquerda semelhante aos milagres financeiros da IURD.

O ajustamento dos salários em baixa.
Os esquerdistas querem-se fazer burros ou são mesmo burros.
Afirmar-se que os salários têm que ter a capacidade de ajustar em baixa, não é dizer que devem ser altos ou baixos.
A questão é que às vezes (em períodos de crise não antecipáveis) e para algumas pessoas (que se tornam menos produtivas), é necessário poder haver uma redução pontual do salário ou o despedimento. A economia, no curto prazo, ajusta melhor se houver possibilidade de ajustamento em baixa do salário e, no longo prazo, a taxa de desemprego média será menor.

Porque existem países com salários baixos?
Porque existem países onde as pessoas são pouco produtivas.
Por razões históricas e naturais, há países que têm  pouco capital (máquinas, equipamentos, capital humano, terreno fértil e recursos minerais) o que leva a que o trabalho seja menos produtivo.
O problema é que, para terem mais capital, as pessoas têm que pagar juros e isso só melhor o nível de vida desses pobres quando o aumento da produção for maior que o aumento dos juros pagos.

É que os salários resultam directamente do PIB.
Pegamos no PIB per capital do país, retiramos-lhe a depreciação do capital, multiplicamos por 2/3 (o outro 1/3 é para remunerar o capital), dividimos pela população activa e resulta o salário médio desse país.
O poder de compra dos salários tem a ver com as diferenças de preços dos bens não transaccionáveis (conversor PPP de 2005, Banco Mundial): nos países de baixos salários, os preços locais são mais baixos. Por exemplo, o salário de 148€/mês na China tem o mesmo poder de compra que na América um salário de 351€/mês.

Quadro 1- Salários médios nos 11 países onde vive 60% da população mundial. Usei como população activa a percentagem de população com idade entre 15 e 65 anos (dados: Banco Mundial, 12 salário por ano)

A produtividade é o PIB a dividir pela população.
Se um país produz muito per capita, os salários serão elevados. Se outro país produz pouco per capita, os salários serão baixos. E a produção é medida pelo PIB menos a depreciação do capital.
Não há volta a dar a isto.

Mas os esquerdistas dizem que a solução é aumentar a produtividade. Mas isso é uma verdade de Lapalisse pois PIBpc e a produtividade são exactamente a mesma coisa:
     Produtividade = PIB / Número de .pessoas.
     PIBpc = PIB/Número de pessoas = Produtividade
Uma não pode aumentar à custa da outra porque são a mesma coisa.
É como dizer que "para ter menos peso, tenho que pesar menos".
O problema é o que eu tenho que fazer para pesar menos, dieta (poupança) e actividade física (trabalhar mais).

Dizem "nunca poderemos competir com a China".
Os esquerdistas dizem isto o que me faz lembrar certos alunos que me vêm dizer que têm que passar sem ir ao exame porque "tenho problemas e nunca vou aprender isso".
Então, os esquerdistas querem dizer que os problemas da nossa economia nunca terão solução.

Todos os países são igualmente competitivos.
Mas, felizmente, estão errados porque nós já competimos com a China e com todos os demais países de onde importamos e para onde exportam bens e serviços. Competimos não só com os USA e Japão (com salários muito elevados) mas também com o Bangladesh, Paquistão e Nigéria (com salários muito baixos).
Mas os países não podem ter o mesmo salário porque num mês de trabalho no Bangladesh só se produzem 29€ (por falta de capital) enquanto que nos USA se produzem 2192€.
Se fosse imposto que no Bangladesh o salário mínimo era de 2192€/mês, ninguém teria emprego.
Interessante nunca ter ouvido ninguém dizer que "a China não consegue competir com o Bangladesh" (onde o salário é 10 x menor) nem que "Portugal não consegue competir com os salários da Nigéria" (onde os salários são metade dos salários chineses).

Fig. 4 - Repito o Sean Sullivan é para alegrar repetidamente as vistas da Sofia Santos

O problema das bolsas de doutoramento.
Se um aluno quiser fazer uma licenciatura ou mestrado e não tenha recursos financeiros, o Estado dá-lhe apoio. Sem este apoio em 1983-1988, nunca eu teria conseguido obter uma licenciatura.
O aluno faz a licenciatura para se valorizar pelo que nunca assume a ser bolseiro como uma profissão

Quanto é a bolsa para licenciatura?
Primeiro, tem um valor máximo que está relacionado com o IAS - Indexante de Apoios Sociais
     Valor máximo =  385€/mês + propinas = 465€/mês.
Mas a este  valor, é preciso retirar o rendimento per capita do agregado familiar.
Exemplo 1, uma família de 3 adultos + 1 menor  sem qualquer rendimento (a receber o RSI)
     Capitação = (178,15€ + 2 x 89,05€ + 53,44€ )/4 =102,43€/mês
     O Estudante vai receber 468 -102€ = 363€/mês.
O aluno vai usar esta verba para pagar as propinas (80€/mês), a comida (150€/mês), o alojamento (73€ numa residência) e, com os restantes 60€/mês, pagar os livros, deslocações, roupa e vida social.

Exemplo 2. uma família pobre mais normal, 3 adultos + 1 menores  em que ambos os país ganham o salário mínimo, vai resultar numa bolsa de 185€/mês:
  Capitação = (485*14 /12)/4 =283€/mês
  O Estudante vai receber 465 -226€ = 179€/mês.

Já estão que eu sei o que é ser um desgraçadinho.

Quanto é a bolsa de doutoramento?
Apesar de um curso de doutoramento ser um período em que o aluno está a estudar para adquirir um capital que vai fazer render onde lhe pagarem mais, no tempo do Sócrates tinha a filosofia de um emprego.
Primeiro, o seu valor é idêntico a um salário.
São 980€/mês no caso do doutoramento ser em Portugal e 1710€/mês se for no estrangeiro, acrescentando-se o valor as propinas (mais uns 350€/mês), completamente dados.
Segundo, não  é para dar igualdade de oportunidades pois não tem em atenção as necessidades financeiras do alunos mas parece-se com um salário para a pessoa não fazer o que lhe apetecer.

Mas a bolsa de estudo para doutoramento não pode ser um emprego.
A filosofia deve ser exactamente a mesma que leva às existência de bolsas para licenciatura e mestrado, podendo ser majoradas em função de critérios de mérito.
Com 50% de majoração, um bom aluno, no exemplo 1, receberia 424€/mês e, no exemplo 2, receberia 300€/mês mais o valor das propinas.
Se fosse assim, haveria bolsas para todos os que verdadeiramente precisam, aspiram e têm capacidade para fazer um doutoramento mas que não o podem fazer.

Finalmente, a coadopção.
Eu sou a favor da coadopção seja por casais, normais ou gays, ou por um frupo de pessoas separadas, dois, três  ou quatro pessoas, homens, mulheres ou mistura.
Actualmente, muitas dezenas de milhar de crianças têm os pais divorciados e vivem alternadamente com um dos pais e o seu companheiro. Assim, a família prevista como tradicional na adopção (2 país a viver na mesma casa) já não existe. Hoje o normal é a uma família de 4 pais que vivem em casas separadas.
Então, a legislação sobre a adopção, a existir, tem que se adaptar aos novos tempos.
Acho que o PSD deveria ter votado a favor mas entender o âmbito pela não consideração dos gays.

Deveria ser a Lei da Adopção
1) Podem adoptar uma criança até aos 15 anos de idade um qualquer grupo de adultos, com um máximo de quatro, com a condição de, em média, terem mais de 15 anos e menos de 50 anos de diferença de idade para a criança.
2) Se as pessoas viverem separadas, o poder paternal e a guarda da criança será, de forma equivalente aos divorciados e separados, conjunta. 
Desta forma, retirava-se "o problema gay" das cabeças mais reacionárias.

Fig. 6 - Por incrível que pareça, as crianças criadas por pais pobres sentem-se tão felizes como as criadas por pais ricos

E porquê a adopção?
São intitucionalizadas cerca de 8500 crianças, 2300 cada ano (ver) com um custo de cerca de 700€/mês. Cada criança fica quase 4 anos institucionalizada e acaba por custar cerca de 30 mil€.
É muito mais que o rendimento mínimo de um menor (89€/mês) e os resultados não são melhores que os obtidos em famílias mesmo desestruturadas.
Se há alguém que, por loucura, quer ficar com uma criança a seu cargo, mesmo que para isso o Estado tenha que dar alguma ajuda (eu defendo que deveria dar automaticamente os 89€/mês do RSI), deve-se dar toda a força a isso de forma a acabar-se com as instituições de acolhimento de menores.
Acabar com essas casas pias e outras coisas ainda piores que andam por aí e que custam 700€/mês por cada criança.

Quando comecei este poste, não tinha nada para dizer, mas até acabei por dizer qualquer coisa.

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 21 de junho de 2013

O emprego, o desemprego, o capital e a produtividade

Qual será o desemprego no Bangladesh?
Num comentário o ii-v-i-aflat afirma que a taxa de desemprego no Bangladesh é na ordem dos 25% (referido num site), ainda maior que os nossos 16.7%. Assim, aparentemente, um crescimento robusto e um mercado de trabalho flexível não parecem suficientes para acabar com o desemprego. 
Contrariamente a essas estatísticas, o Banco Mundial indica taxas de desemprego nos países emergentes na ordem dos 5%. De que lado estará a verdade?

Os mercados de trabalho são muito diferentes.
Quando ouvimos falar de outro país qualquer, pensamos que a realidade de lá é parecida com a nossa. Em particular, pensamos o mercado de trabalho dos países pobres é idêntico ao nosso em que a maior parte do rendimento das família resulta dos empregos por conta de outrem.

Mas estamos enganados.
Nos países desenvolvidos cerca de 85% dos empregos são por conta de outrem enquanto que nos países subdesenvolvidos essa percentagem desce para apenas 20%. Nos países pobres mais de 80% têm auto-emprego (ver, Fig. 1).

Fig. 1 - Percentagem de trabalhadores por conta própria vs PIBpc.ppc, USD (dados: Banco Mundial)
 
Como funciona o mercado de trabalho?
A agricultura começou há cerca de 10000 anos (a revolução do Neolítico) e, ainda hoje, é a base de todas as economia.
Porque a produção agrícola está muito dependente do solo, todos os países têm uma produção agrícola per capita idêntico, cerca de 400€/ano com um desvio padrão de 125€/ano, não tendo qualquer relação com o PIB pc do país (ver, Fig. 2). Isto traduz que, apesar de todos os alimentos nascerem da agricultura, o desenvolvimento económico é um processo de "destruição" dos empregos na agricultura (mas mantendo a produção) e a sua transferencia para a industria e, posteriormente, para os serviços (o êxodo rural).

Fig. 2 - Relação entre a produção agrícola (em €/ano e em % do PIB) e o PIB pc, ppc, preços de 2005, média 2007-11, 1USD=0.72€ (dados: Banco Mundial)

É demagógico apontar a agricultura como o futuro o motor da nossa economia.
Portugal tem uma produção agrícola per capita anual de 380€ (2.4% do PIB) que compara com a Alemanha 214€ (0.9%), a Espanha 540€ (2.7%), a Índia 368€ (17.9%) e  o Bangladesh 192€ (18.9%).
O peso da agricultura nos países com um PIBpc.ppc inferior a 2500€ é cerca de 30% enquanto que nos outros é cerca de 7%.

Como funciona a produtividade.
Para se produzir é preciso, por um lado, capital, K, (máquinas e ferramentas, vias de comunicação, portos, canais de irrigação etc.) e, por outro lado, trabalho, H, (horas de trabalho). O que mistura do trabalho com o capital é a tecnologia, A, cujo nível é (ligeiramente) diferente de país para país.
Além dos factores de produção, o Estado da Natureza, E, também influencia a produção.

O Gasparzinho invocou "o mau tempo" porque a Teoria Económica denomina a parte que não se consegue explicar por "Estado da Natureza".
Como se faltar um dos factores não se pode produzir,  modelizar a ligação entre os diversos factores é normal usar uma função multiplicativa sendo a mais utilizada a isoelástica (denominada de Cobb-Douglas):

     Y = A x T^0.33 x H^0.67 x E

O auto-emprego.
H1) Vou imaginar uma economia em que existem 1000 unidades de capital, 1000 habitantes que trabalham H horas por semana e que o nível tecnológico é 20.5.
H2) Vou imaginar que todas as pessoas são iguais e que o capital, que também é homogéneo, é dividido equitativamente pelas pessoas, 1 u/pessoa.
H3) Como trabalhar é um sacrifício vou imaginar que a pessoa só trabalha se numa hora produzir pelo menos um certo quantitativo, 2.00€.
H4) A produção é a unidade de valor (o preço dos bens produzidos é 1€/unid).

Uma pessoa trabalhando H horas por semana produzirá 

     Y = 20.5 x 1^0.33 x H^0.67 x E

A pessoa vai trabalhar enquanto a produção for maior que 2€ o que acontece quando a produtividade marginal for 2.

    {H: Y'H = 2€/h}  =>  H = 40h/semana

Havendo 1u de capital por pessoa, a produção será de 242.74€/semana e a produtividade média será cerca de 6.00€/h.
Como a produtividade está dependente não só do trabalho como também do capital podemos dividir a produtividade média em 4.00€/h para o trabalho e 2.00€/h para o capital (e por unidade de capital).

Na economia do "auto-emprego" não existe desemprego.
Quando todas as pessoas trabalham no seu negócio, podem trabalhar mais ou menos horas mas nunca estão sem emprego. Quando há um choque exógeno da natureza (o E altera-se), o rendimento da pessoa ajusta instantaneamente. Por exemplo, se a seca fizer E diminuir de 1 para 0.8, o rendimento do trabalhador com 1u de capital passa de 6.00€/h para 4.80€/h.

Será bom haver politicas macroeconómicas de estabilização?
Vamos supor que os ciclos económicos oscilam entre anos maus (em que E = 0.8) e anos bons (em que E = 1.2) e que a pessoa pretende trabalhar em média 40h/s.

Se houver regularização do rendimento a pessoa vai trabalhar mais nos anos maus. Trabalha 51.7h/s nos anos maus e 28.3h/s nos anos bons o que lhe permite um rendimento constante de 230.75€/s.

Se houver regularização do horário de trabalho a pessoa trabalha 40h/sem o que lhe permite ter um rendimento médio de 242.54€/s (194.19€/s nos anos maus e 291.28€/sem nos anos bons). A pessoa poupa 97.09€ nos anos bons para gastar nos maus.

Se a pessoa adoptar a estratégia óptima (poupando nos anos bons para os maus) vai trabalhar mais nos anos bons. Trabalha 18.1h/sem nos anos maus e 61.9h/sem nos anos bons o que lhe permite um rendimento médio de 252.21€/sem (114.20€/s nos anos maus e 390.22€/sem nos anos bons). A pessoa trabalha mais 21.9h/sem e poupa 276.02€ nos anos bons  para gastar e descansar nos maus.
É interessante observar que a oscilação da produtividade permite um rendimento médio superior ao caso em que não acontecem choques da natureza (242.74€/sem)

Podemos ver que a regularização macroeconómica vai diminuir o rendimento médio da pessoa.

Porque é que nos países pobres as pessoas produzem pouco?
Nos países pobres trabalham-se mais horas que nos países ricos pelo que a diferença na produtividade não vem do trabalho.
Fica o capital e o nível tecnológico.
O nível de capital no Bangladesh é de cerca de 450€ por pessoa e 67.5% da população é activa.
O nível de capital em Portugal é de cerca de 30000€ por pessoa e 56.0% da população é activa.
Isto traduz que em Portugal existe 53600€ de capital por posto de trabalho e no Bangladesh apenas existe 667€ por posto de trabalho.
O nível de capital associado a um emprego em Portugal é 80 vezes o nível no Bangladesh. Tal traduz que cada trabalhador português ter 1 unidade de capital enquanto que um bangladesheano ter apenas 0.0125 unidades.
Atendendo à diferença de capital, o bangladesheano produziria apenas 1.43€/h, 23% da nossa produtividade.
E o nível tecnológico no Bangladesh é inferior ao nosso (e.g., por causa da baixa escolaridade) pelo que a produtividade vem ainda mais reduzida (para 6.6% da nossa produtividade).

É por não terem capital. 
Não é, como dizem os esquerdistas, por os salários serem baixos nem por o grande capital explorar os desgraçadinhos.
Não é, como dizem os direitistas, por serem malandros, pretos, azuis ou amarelos nem por serem governados por pessoas corruptas.
Não é nada disso.
A produtividade em Portugal é 15 vezes a do Bangladesh  porque temos 80 vezes mais capital por trabalhador que o Bangladesh.
No Bangladesh é normal um empresário começar o seu negócio com um microcrédito de 200€ (para comprar um fogão, uma panela e um toldo para arrancar com um restaurante de rua). Em Portugal o mesmo tipo de negócio precisa de 16000€ (uma rulote).

Fig. 3 - A vida deste bangladesheano é repetir, como há milhares anos, os movimentos de uma bomba de água manual.

Como se aumenta o capital?
A falta de capital apenas pode ser resolvida (lentamente) com muito trabalho e pouco consumo (pois a poupança interna é o motor do investimento).
Apesar de capital estrangeiro (o investimento directo estrangeiro) poder ser muito positivo por levar não só capital como também difundir tecnologia, a evidência empírica indica que apenas os países que investiram principalmente com base na poupança interna é que conseguiram abandonar a pobreza (por, a prazo, o pagamento de juros, lucros e amortizações ao exterior drenar os recursos gerados).
Além disso, os estrangeiros têm um percepção do risco diferente dos nacionais (cobram juros maiores).

Finalmente as estatísticas do desemprego.
Uma taxa de desemprego de 5% da população activa traduz que o Bangladesh tem 5.0 milhões de desempregados (a população activa é de cerca de 100 milhões de pessoas). A questão é que a população empregada por conta de outrem é menos que 20 milhões de pessoas. Então, retirando da equação as pessoas auto-empregadas, temos 5 milhões de desempregados num universo de 20 milhões de pessoas. Assim medido, o desemprego será de 25% dos empregados por conta de outrem (e não dos activos).

E porque existem estes 5 milhões de desempregados?
Porque o progresso implica (ou é causado) a passagem de trabalhador por conta própria para trabalhadores por conta de outrem. Revendo a Fig. 1, o aumento de 1% do PIB pc implica que 0.25% da população deixa o emprego por conta própria e procura um emprego por conta de outrem.
Estando o Bangladesh a crescer mais de 5%/ano, todos os anos, além das pessoas que vão nascendo (2%/ano), cerca de 1.2 milhões de trabalhadores transita do auto-emprego para o mercado dos empregos por conta de outrem (6%/ano dos empregos existentes).
Naturalmente que custa a digerir a massa de pessoas que entra continuamente no mercado de empregos por conta de outrem.


Fig. 4 - Como isto está a murchar vou ter que deixar o auto-emprego e arranjar uma coisa mais fixa.

Concluindo com o exemplo do Brasil.
O primeiro passo do desenvolvimento é a agricultura libertar pessoas que passam para pequenas actividades em auto-emprego.
Depois, as pessoas em auto-emprego começam a entrar no mercado de trabalho por conta de outrem onde os salários (e a produtividade) são maiores.
O processo dinâmico de transição, apesar de ter associadas taxas de crescimento elevadas, não pode ser acompanhado pelo aumento dos salários dos diversos sectores porque o melhorar da qualidade de vida dá-se pela passagem do auto-emprego (com rendimentos muito baixos) para os empregos por conta de outrem (com salários apenas baixos).
Um país, como o Brasil, que tenha uma lei que incorpora no Salário Mínimo o crescimento do PIB está condenado a que o processo de desenvolvimento económico estagne.

Fig. 5 - Os presidentes brasileiros querem-se apresentar como chefes de estado de uma grande potência mundial esquecendo-se da pobreza que existe por toda a parte. 

Eu tenho atrasada a resposta a alguns comentários.

Pedro Cosme da Costa Vieira

segunda-feira, 17 de junho de 2013

O crescimento económico dos USA, Japão, Europa e da Ásia

Consta que a Europa está em crise.
E logo surgem vozes "especialistas em Economia" a dizer que a Europa, por seguir uma politica monetária restritiva, está a seguir o caminho do Japão de estagnação económica. Dizem ainda que os USA, porque têm politicas expansionistas, têm muito maior crescimento económico.
Mas os dados do Banco Mundial não dizem nada disso. O que separa os USA dos demais países desenvolvidos é o crescimento da população e não o aumento de produção por cada pessoa (que mede, verdadeiramente, o progresso económico). 
Crescimento económico no período 1996-2011.
Para vermos se existem diferenças estruturais entre os USA, Japão e os maiores países da Europa vou considerar a média dos últimos 15 anos (1996-2011) da informação disponibilizada pelo Banco Mundial (ver, Quadro 1).

PaísPIBpc,ppcPIB (%/ano)Pop (%/ano)PIB pc (%/ano)
USA43,61,630,900,73
JPN31,30,670,050,62
DEU33,51,16-0,071,23
FRA31,41,110,650,46
GBR33,51,580,600,97
ITA30,30,250,64-0,38
ESP29,41,741,280,47
Média37,51,280,600,69
Quadro 1 - Performance económica das 7 maiores economias desenvolvidas, 1996-2011 (dados: Banco Mundial). PIBpc,ppc em milhares de USD.

Os USA (e a Espanha) têm um crescimento mais forte mas se retirarmos o efeito do crescimento da população, a Alemanha e o Reino Unido crescem mais rapidamente que os USA. O Japão cresce 0.62%/ano que é apenas 0.11 pp abaixo dos USA.

Como podem os alemães estar errados?
Interessante ninguém gritar que a França e a Espanha têm 1/3 do crescimento económico da Alemanha estando ambos sob a mesma politica monetária. E que a Itália, também nas mesmas circunstancia, tem crescimento negativo.
A França tem um crescimento 0.18 pp abaixo do Japão.

Como se compara Portugal?
Portugal é um país relativamente rico (poder de compra de 70% da média das 5 maiores economias europeias e 50% dos USA) mas o crescimento económico per capita é zero (ver, Quadro 2).
Os 15 anos considerados englobam os governos do Guterres, Durão (2 anos), Santana Lopes (meses) e Sócrates.
Se o Guterres e o Sócrates anunciam terem sido tão bons governantes, porque será que o nosso crescimento foi 0?

PaísPIBpc,ppcPIB (%/ano)Pop (%/ano)PIB pc (%/ano)
PRT22,80,280,260,03
Quadro 2 - Performance económica portuguesa, 1996-2011 (dados: Banco Mundial) PIBpc,ppc em milhares de USD.


Fig. 1 - O trabalho infantil é errado mas a alternativa é morrer de fome (esta criança nepalesa ganha 0.08€/hora e um adulto ganho 0.20€/h)

Vamos agora aos países mais pobres.
Os esquerdistas acham que na Ásia se exploram os trabalhadores.
A questão é que nos 10 grandes países pobres do Mundo (um PIB pc em paridade de poder de compra inferior a 15% dos USA) vive ligeiramente mais de metade da população mundial e só se produz 10% da riqueza mundial.
Se cada um de nós abdicasse de 10% do seu rendimento, o rendimento de metade da população mundial poderia mais que duplicava mas isso está fora de questão. O que dizem os esquerdistas é que esses pobres estão a destruir a nossa industria pelo que têm que ser proibidos de exportar para cá o que produzem.
O objectivo não é melhorar as suas vidas mas , demagogicamente, dizer que se eles não tiverem emprego, viveremos melhor e eles também!
A pobreza apenas se combate com trabalho e esses países estão, com muito sacrifício, a percorrer o caminho do crescimento económico (ver, Quadro 3).
Se hoje são muito pobres, havendo crescimento económico, amanhã serão menos pobres.

PaísPIBpc,ppcPIB (%/ano)Pop (%/ano)PIB pc (%/ano)
China530910,590,619,98
India25897,731,586,15
Indonesia35065,511,204,32
Pakistan22924,671,872,79
Nigeria19356,882,624,25
Bangladesh13295,971,384,58
Philippines33344,881,912,97
Vietnam24997,161,185,98
Ethiopia7698,392,465,92
Egypt50784,681,882,81
Média43509,021,018,01
Quadro 3 - Performance económica dos 10 países pobres mais populosos, 1996-2011 (dados: Banco Mundial) PIBpc,ppc em milhares de USD.

Ouvir todos os dias noticias de milhões de pessoas que vivem na miséria entristece mas observar que mais de metade da população mundial vê o seu nível de vida melhorar 8%/ano mostra que as tragédias noticiadas, por mais trágicas que sejam, dão uma visão parcelar e errada do que está a acontecer no Mundo.
Um crescimento de 8.01%/ano traduz que, a cada 9 anos, o rendimento das pessoas duplica.
Se o crescimento económico nestes 10 países continuar esta tendência, em 2030 terão um nível de vida semelhante ao nosso.
 
Mas estarão todos os países pobres a desenvolverem-se?
Infelizmente não.
Os dados parem indicar que os países mais pobres (<2500USD, 20% da população mundial) estão quase presos numa armadilha de pobreza (ver, Fig. 2). Pegando nos países abaixo desse limiar (um PIBpc,ppc médio de 1777USD), o crescimento do PIBpc é de 3.58%/ano, muito inferior aos 8.01%/anos dos 10 maiores países pobres (ver, Quadro 1).

 
Fig. 2 - Relação entre crescimento económico e PIBpc, ppc (1996-2011, dados: Banco Mundial)

Os países verdadeiramente pobres.
1.400 milhões de pessoas vivem nos países mais pobres e levam uma vida verdadeiramente desgraçada (com a criança da Fig. 1).
O que temos que dizer a essas pessoas é que vale a pena esforçarem-se. Que há apenas 20 anos na China vivia-se pior que actualmente se vive nesses países e hoje na China já se tem um nível de vida comparável ao do Brasil.

Por falar no Brasil.
O crescimento baseado no consumo e na re-distribuição, no curto prazo pode parecer que dá frutos mas, muito mais cedo do que julgam os esquerdistas, transforma-se num pesadelo. AS manifestações em São Paulo traduzem que as pessoas pensavam que vinha aí o maná mas a realidade está-se a transformar na estagnação económica.
Não há volta a dar. Para a qualidade de vida melhorar de forma sustentável é preciso poupar e investir.
É perigoso promete crescimento economico baseado em mais consumo.

Fig. 3 - Crescimento do PIBpc brasileiro (Dados, Banco Mundial e Tradingeconomics)

Fig. 4 - Os sapatos brasileiros estão cada vez melhores

Finalmente, vou ao Irão.
As pessoas não votaram em grandes visões para o mundo mas apenas olharam para a economia chinesa.
Pode haver uma grande intoxicação ideológica, afirmar ao mundo que estão com capacidade para destruir Israel, que são uma potencia nuclear, etc.  mas as pessoas reparam que em 1980 (o ano seguinte à revolução) um iraniano tinha um nível de vida 13 vezes o de um chinês e hoje está ela por ela.
Em 1980 a economia iraniana representava 55% da economia chinesa e hoje representa 5%.
Alá encheu o Irão de petróleo mas os homens que o governam alegadamente em seu  nome têm feito o nivel de vida das pessoas diminui ao longo do tempo.
Por mais que se queira dizer que a liberdade economica é má, que leva à exploração do homem pelo homem, o bom desempenho económico daqueles 10 paises do quadro 1 é a melhor demonstração que o "deixar fazer, deixar passar" é o principal factor de progresso da humanidade.
É incrivel como a China, a mais feroz das ditaduras comunistas, se tornou a mais forte demonstração das virtudes do capitalismo.


Está tudo encaminhado para o próximo poste ser sobre o desemprego nos países pobres.
E não vale a pena falar da greve dos professores pois estão a tentar defender previlégios que é impossivel manter.
Não é possivel mantermos milhares de professores sem aulas e que se recusam a mudar de escola.
Se não querem trabalhar, rua.

Pedro Cosme da Costa Vieira

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