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sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Dívida e Défice, não bate a bota com a perdigota


O Estado gasta dinheiro, é a despesa pública.
Gasta massa em salários, pensões, aquisição de bens e serviços, subsídios.
Depois, estes gastos têm que ser financiados com impostos (IVA, IRS, ISP, IC, IMI) e taxas (TSU, ...) e, quando esta receita não é suficiente, tem que se endividar.
Naturalmente que se tem que verificar a igualdade seguinte:

   Despesa = Receita + Endividamento

Qualquer 4.a classe compreende isto.
Mesmo que seja uma 4.a classe muito fraquinha, daquelas (como a minha) feitas na "passagem administrativa" de 1975.

Fui ver a execução orçamental para Junho 2016.
Para já, no site da DGO só encontrei os dados para o primeiro semestre (ver).
    Despesa efectiva 39546,4M€
    Receita efectiva   36679,2M€

Diz a execução orçamental que o défice / endividamento foi de 2867,2M€
Eu, 4a classe atrasada, concluiu que o endividamento líquido no primeiro semestre deveria resultar desta diferença

   Endividamento = Despesa - Receita
   Endividamento = 39546,4M€ - 36679,2M€
Mas, diz o Banco de Portugal, que foi de 3903M€
Quem o diz é o Banco de Portugal (ver), fonte mais credível que a Geringonça, sobre o aumento da "Dívida na ótica de Maastricht líquida de depósitos da administração central".
Como é possível que o Estado tenha tido um défice de 2867,2M€, e, no entretanto, se endivide em 3903M€ e isto tudo bata certo?

3903,0M€ = 39546,4M€ - 36679,2M€ ?

Vamos fazer a prova dos nove às contas da Geringonça
Do lado da dívida temos 
    3+9+0+3+0 => 1+5 = 6
Do lado da despesa menos a receita temos 
    (3+9+5+4+6+4) - (3+6+6+7+9+2)  => (3+1)-(3+3) => 2
A prova dos 9 não bate certo.
Deve ser de ter feito a 4a classe nas novas oportunidades.

Terá a ver com o famoso aumento nos impostos sobre os combustíveis e o tabaco?
Mesmo assim, não chega.
Estamos a falar no primeiro semestre de um desvio de mais de 1000 milhões de euros entre o endividamento e o défice anunciado.


Mas sobre isto já eu tinha falado e ninguém comentou (ver
Mas o pior +e que, só em julho 2016, a dívida pública aumentou mais 2311M€!
Eu não posso estar a ler bem as estatísticas mas, aparentemente, é o que diz o Banco de Portugal.
Apenas em um mês, a dívida pública líquida passou de 221996M€ para 224307M€.
Só posso, e o BP, estar a delirar.
Não há ninguém capaz de perguntar aos especialistas em economia que aparecem na televisão e nos jornais como é possível que isto tenha acontecido?

 Lanço daqui uma pergunta directa aos 12 sábios do PS.
Estimados sábios
1. Elisa Ferreira,
2. Fernando Rocha Andrade, 
3. Francisca Guedes de Oliveira, 
4. João Galamba, 
5. João Leão, 
6. João Nuno Mendes, 
7. José Vieira da Silva, 
8. Manuel Caldeira Cabral, 
9. Mário Centeno,
10. Paulo Trigo Pereira, 
11. Sérgio Ávila e 
12. Vítor Escária
Para onde foram estes mais de 3000 milhões de euros de aumento da dívida pública do Estado que não aparece no défice orçamental?
Será que estão a fazer o TGV e não dizem nada a ninguém?
Será que estão a ajudar o Maduro?
Por favor, ajudem-me que eu estou a dar em maluco. 
Nem durmo a pensar "E se os meus alunos me perguntam para onde foi estes 3000 milhões € não orçamentados até julho e eu digo que não sei? Vou desprestigiar totalmente a universidade onde vendo aulas."

Já agora, porque será que ninguém pergunta por estes números?
Porque será? Terão os jornalistas medo que lhes aconteça o que está a acontecer aos seus colegas da Venezuela, a verdadeira democracia na óptica dos nossos esquerdistas e comunistas?
É que, desde 1 de janeiro de 2016 até 31 de julho de 2016, diz o Banco de Portugal que a Dívida Pública aumentou 6214 milhões de euros, qualquer coisa como 5,5% do PIB dos primeiros 7 meses.

É que, segundo as contas do Banco de Portugal, o défice dos primeiros 7 meses está acima dos 5% do PIB

Recordo que o Costa, no orçamento que diz estar a correr bem, tem lá que o défice para os 12 meses de 2016 vai ser de 4125M€ e que, até 31 de julho, já nos endividou em 6214M€.
Já está 2009M€ acima do orçamento todo de 2016.
E ninguém diz nada.

O défice? Não sei, não me lembro, ide-vos todos foder.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

0,8% de crescimento? O INE está na mão da direita.

Quanto era a previsão dos 12 macacos para o crescimento?
Fui retomar o texto que os 12 sábios do PS escreveram (Uma década para Portugal). Na altura o meu sobrinho disse que o Excel do documento tinha exageros e, começando pelo Louçã e acabando com o processo disciplinar que o reitor da universidade do Porto lhe moveu, caiu o Carmo e a Trindade porque o coitadinho disse, na sua inocência, que o Excel do Gasparzinho tinha voltado à carga.
Mas vamos retomar essa folha de Excel (p. 95) de que apresento aqui apenas o importante para calcular a taxa de crescimento do PIB.

 
 Fig 1 - Três linhinhas do quadro da p. 95 do documento dos 12 sábios do PS.

   B7: 100
   C7: =C8/C4*100 e copiar em linha até G7   B8: =B7*B4/100
   C8: =B8-B3*B7/100 e copiar em linha até G8
   C9: =C7/B7-1 e copiar em linha até G9
  C10: =(1+C9)/(1+C5)-1 e copiar em linha até G10
  H10: =AVERAGE(D10:G10) e copiar em coluna para H5 e H9

A inconsistência está na média.
Os sábios indicavam um crescimento de 2,48% para 2015 que estava muito acima da previsão do Passos Coelho (o crescimento em 2015 fechou em 1,48%) mas o problema não vem dai.
A inconsistência vem de referir na p. 92 um crescimento médio para 2016-2019 de 2,6% e, depois, no quadro final, estar lá implícito um crescimento médio de 2,98%!

Mas eles são sábios (e logo 12) e eu não passo de um burro carregado de fruta.
 
Mas vamos então às previsões feitas em Abril de 2015
Défice para 2016 de 3,0%.
Crescimento do PIB real para 2016 de 2,44%.

Em quanto está o crescimento no primeiro semestre de 2016?
Diz o INE que está em 0,85%, 0,9% no primeiro trimestre e 0,8% no segundo trimestre.
E afinal era o Excel do Gasparzinho que se enganava?
Como estará o défice?
Não é possível ter uma previsão com o par 3,0% de défice / 2,44% de crescimento e, sem mais nada, vir dizer que vamos ter o par 2,2% de défice / 0,85% de crescimento.
Isto tudo está dependurado por 500 milhões de euros de ISP que não existem e mais 200 milhões de euros no tabaco que também não existem mas que a comunicação social acha muito interessante.
Anda hoje no JN dizia, sem qualquer reserva, que o consumo de combustíveis se manteve na mesma e que a receita em ISP aumentou quase 50%.
E de onde vêm esses 50% de aumento? De 0,06€/litro?

O INE está tomado pelos golpistas de direita.

Estou a imaginar a vontade de o Costa e demais esquerdistas fazerem ao INE (e a mim, pela mão do reitor e do gordo do BE da faculdade de letras) o que o Erdogan fez a tudo que mexe.
Ou será que o "outro caminho, o caminho do crescimento" esquerdista é mesmo termos 0,85% de crescimento enquanto que o "caminho da austeridade e da destruição" do Passos Coelho era termos 1,48% de crescimento?
Mas os esquerdistas diziam que 1,48% era poucochinho!

Que Deus não deixe que o justo adormeça enquanto os ímpio destrói o Templo.
Maria Clara

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Será verdade que o emprego está a cair?

Lembram-se que a geringonça prometeu emprego e crescimento do PIB?
Diziam eles os esquerdistas que o Passos Coelho fez tudo mal. Que, em 2011, Portugal estava muito bem mas que, depois, o Passos Coelho, por opção ideológica, começou com a austeridade (quando deveria ter feito o contrário) que foi a causa da crise do nosso país. Assim, a austeridade causou a crise e não o contrário. 
No dia 26 de Novembro de 2015, com a tomada de posse da geringonça, a austeridade acabou o que se materializou pela reposição dos salários dos funcionários públicos, pelo aumento do salário Mínimo Nacional e pelo fim dos exames dos putos. 
Já lá vão 127 dias pelo que já devemos estar a ver resultados.

O emprego está a ser destruido 4 vezes mais rápidamente que no mandato do Passos Coelho!
Não pode ser!
Mas então a geringonça não tinha prometido que o emprego ia aumentar? Que o Passos Coelho com a sua agenda neoliberal destruiu centenas de milhar de empregos que a geringonça ia reverter?
Não, é mesmo verdade que o emprego diminuiu. Em Novembro de 2015 havia 4495200 pessoas empregadas e em Fevereiro de 2016 já só havia 4430500 pessoas empregadas, uma destriução de 21500 empregos por mês!
Se corrigirmos da sazonalidade (uma conta que o INE faz para tentar corrigir o emrpego sazonal), nos 53 meses de governo do Passos Coelho houve uma destruição de 3750 empregos por mês enquanto que nos 3 meses até fevereiro que leva a gerigonça houve uma destruição de 12400 empregos por mês.
Com a política de "crescimento e empeego" o Costa está a destruir quatro vezes mais empregos que o Passos Coelho destruiu!

Fig. 1 - Evolução do emprego, Nov 2015 - Fev 2016, corrigido da sazonalidade (fonte: www.ine.pt)


As previsões para o crescimento estão em queda.
Tirando os 12 sábios da geringonça, toda a gente com pelo menos um neuroneo indicam que o crescimento em 2016 vai ficar abaixo ao crescimento de 2015 (o FMI 1,4% e Banco de Portugal 1,5%).

 Fig. 2 - Estou a ver que vou ter que deixar a boa vida e voltar a trabalhar em joelharia.


É uma vergonha.
Claro que os esquerdistas, na tentativa de se manterem a flutuar mais um ou dois mesitos, vão dizer que os números ainda não permitem dizer nada e que precisam ser lidos com olhos de quem sabe. O Louçã (que se diz defensor das liberdades de expressão em Angola) vai mesmo propôr "a troca bloggista mais racista e odiado do Mundo pelos lutadores pela liberdade de expressão angolanos e lá que o esfolem vivo e entreguem aos pedaços como comida para as hienas e abutres."
 Mas é uma vergonha tantos anos de retórica esquerdista a falar no "outro caminho" e, agora que começaram o "outro caminho", a economia engasga.


O que será joelharia?
Não é erro ortográfico mas sim um regionalismo de Gondomar. Trabalhar em joelharia é trabalhar de joelhos! O trabalho tanto pode ser feito na admissão do ar ou às quatro rodas.



quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O Draft do Orçamento de Estado 2016 foi mesmo chumbado

O défice orçamental em 2009/2010 foi 10,5% do PIB.
Depois de os Sócrates+Teixeira dos Santos terem garantido que em 2009 havia margem para um défice de 3,0% com um aumento de 2,9% dos salários dos funcionários públicos, o défice foi 9,8% do PIB. Em 2010, o défice reduziu 0,8 pp para 9,0% do PIB (que, com os 2,2pp do BPN, deu 11,2%) e, desde ai, foi a missão impossível do Passos Coelho de controlar as contas públicas.
  2011 ->7,4%
  2012 -> 5,7%
  2013 -> 4,8%
  2014 -> 7,2% (3,7% sem as despesas extraordinárias)
  2015 -> 4,2% (3,0% sem o BANIF)
Então, sem medidas extraordinárias, entre 2010 e 2015 o défice passou de 9,0% para 3,0%, uma consolidação de 1,2 pontos percentuais por ano com a economia a contrair em média 0,44%/ano que traduz um consolidação estrutural (descontando o ciclo económico) na ordem dos 1,9 pp por ano.
 -1,2 + (-0,44- 1,0)*0,5 = -1,9

Para isso, foi precisa muita pressão.
Houve greves diárias e pessoas na rua a gritar "Ladrões" e "Gatunos" sempre que aparecia um membro do governo.
Em Março de 2013, o povo saiu à rua a gritar "Está na hora, está na hora de o governo ir embora."
Mas o Passos coelho teve que aguentar pois a Comissão Europeia queria sempre mais e não levantava a guarda.

E porque acham que agora seria diferente?
Agora, chegava lá o Costa e dizia "Em vez dos 1,2 pp por ano, vamos consolidar 0,4 pp e não há lugar a mais conversa porque ganhamos (?) as eleições"
Quando ao défice corrigido do ciclo económico vai aumentar 0,2 pp,  -0,4 + (2,1-1)*0,5, e não ha lugar a negociação.
Claro que levou chumbo do grosso.

A porta voz da comissão veio dizer que "estamos preocupados".
E logo os do PS, Galamba. Costa e companhia, vieram dizer "isto não vale nada porque foi uma porta voz" mas, à luz dos tratados, dizia muito e vamos ver já porquê.

É que a comunicação inicial é confidencial.
O Art. 104 C do Tratado de Maastricht, quando um estado tem um défice maior que 3,0% ou uma dívida pública maior que 60% do PIB nominal, está em défice excessivo.
Neste caso, a Comissão faz um plano de ajustamento para o país de forma a que o défice e a dívida públicos se aproximem a um ritmo satisfatório dos valores de referência e o Conselho decide sobre essas recomendações que impõe ao país em causa.
Isso já aconteceu quando, em 2011, pedimos o Resgate e faz parte do Memorando de Entendimento com a Troika.
Agora, estamos na fase em que a Comissão acompanha a evolução do programa "imposto" em 2011, com posteriores ajustamentos, para o nosso ajustamento.
Este processo de acompanhamento é sigiloso e, por isso, a porta voz da Comissão vir dizer alguma coisa já traduzia que algo de grave se estava a passar. É que, apenas se Portugal não seguir as recomendações, é que isso se torna público (ponto 8 do Art. 104 C).

 E se o Costa aprovar o OE20165 sem seguir as recomendações?
A Comissão emitirá uma advertência, primeira na História, e ai é todo um caminho novo que será aberto.
Neste caminho veremos quem primeiro pestaneja, se a Comissão e o Conselho Europeus ou se o Costa.
 
Evolução do spread entre a taxa de juro a 10 anos portuguesa e alemã desde as eleições de 5Out2015

Claro que temos as taxas de juro.
Como já disse, fui aluno de Macroeconomia do Sr. Prof. Teixeira dos Santos em 1991 e lembro-me perfeitamente de ele ter dito que "É importante pertencermos à CEE porque eles dão credibilidade às nossas políticas, não nos deixam fazer as asneiras que queremos fazer mesmo sabendo que são erradas."
Se Portugal quiser bater o pé à Europa, não será no melhor do nosso interesse pois, caso isso fosse, o melhor seria sair desse clube de mal feitores.
Então, os credores vão começar a ficar mais preocupados.
Desde as eleições, a nossa taxa de juro a 10 anos relativamente à taxa de juro alemã já subiu 0,65 pontos percentuais. Aplicando esta taxa a toda a nossa dívida pública, será um incremento de 1500 milhões € por ano em juro!

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O Draft do OE2016 é um embuste..

Como houve as presidenciais, os comentadores economistas ...
não tiveram tempo para pegar no draft da proposta do Orçamento de Estado 2016 que o Centeno mandou para a Comissão Europeia.(Ver aqui o draft em PDF, Dinheiro vivo).
Este draft é um embuste (estando repleta de astúcia, é usada com o intuito de enganar, ver) que vou desmontar na sua parte mais visível, o enquadramento macroeconómico.
É que, mesmo sem necessidade de olhar para as previsões para a despesa e a receita, a impossibilidade de materialização da previsão alucinada do crescimento do PIB nominal faz com que o défice lá escrito seja de 3,5%.


O Défice público, a dívida pública, o crescimento económico real e a inflação.
A dívida pública mais não é que o somar dos défices públicos dos anos passados. Assim, a igualdade seguinte é por demais evidente (uma equação às diferenças): 
   Dívida no fim em 2016 € = Dívida no fim em 2015 € + Défice em 2016 €      (1)

Como a dívida e o défice são dadas no draft como uma percentagem do PIB, teremos que fazer:

   Dívida 2015 €= PIB 2015 € * Dívida 2015 %    (2)
   Dívida 2016 €= PIB 2016 € * Dívida 2016 %    (3)
   Défice 2016 € = PIB 2016 € * Défice 2016 %   (4)


Substituindo (2, 3 e 4) na expressão (1), obtenho uma igualdade que tem que ser verificada:
   PIB 2016 € * Dívida em 2016 % 
                = PIB 2015 € * Dívida em 2015 % + PIB 2016 € * Défice em 2016 %  (5)

Agora, ainda preciso determinar o PIB 2016 € aplicando a taxa de crescimento real e a taxa de inflação, dados, ao PIB 2015 €:
   PIB 2016 €= PIB 2015 €*(1+ Cresc do PIB) * (1 + Taxa de inflação)   (6)

Penso que não há qualquer dúvida no facto de o modelo às diferenças (1-6) traduzirem a dinâmica de evolução da dívida pública.


Vamos às previsões do Centeno para 2016.
Défice 2016 % = 2,6% do PIB

Dívida pública 2016 % = 126% do PIB
Dívida pública 2015 % = 126% + 2,7%  do PIB (o 126% é irrelevante no cálculo)
Crescimento real 2016 = 2,1%
Inflação medida no PIB = 2,0%
Daqui resulta um crescimento nominal do PIB em 2016 = (1+2,1%)*(2%) - 1 = 4,14%

Mas as contas não batem certo, certo.
Aplicando as previsões do OE2016 à igualdade 5) com 6), há um erro algébrico que se traduz em o crescimento nominal do PIB implícito nas contas (a inflação e o crescimento Real) é 4,3% assumidas na conta maiores que ser apresentada uma estimativa para o crescimento do PIB 3,65% menor que o necessário para que o  défice de 2,6% se traduz numa diminuição da dívida pública em 2,6 pp.
     Crescimento 2016 %= 2,18%
     Inflação medida no PIB = 2,07%
     Crescimento Nominal do PIB € = (1+2,18%)*(2,07%) - 1 = 4,29%
Mas o gato não está aqui, são apenas 0,15 pontos percentuais a mais no crescimento do PIB.

Primeiro gato => A inflação do PIB.
Por um lado, nas contas está prevista uma inflação do PIB de 2,07% mas, por outro lado, está prevista uma inflação no consumidor de 1,4%. Está previsto que a inflação do PIB vai ser maior em 0,67 pp a inflação no consumidor.
O problema é que no período 1999-2014 a taxa de inflação no PIB, 2,260%/ano, foi praticamente igual à taxa de inflação no consumidor, 2,258%/ano.
Assim, não existe nenhuma justificação para avançar com este desvio entre a previsão para a inflação calculada no PIB e no consumidor.

Qual o significado económico da diferença entre estas duas taxas de inflação?
 A inflação no PIB tem a ver com a evolução dos preços dos bens que as nossas empresas produzem e que vendem para Portugal e para o Exterior (exportações), seja para consumo ou para investimento.
A inflação no consumidor tem a ver com os bens que uma família típica consome e que tem a ver com os bens produzidos em Portugal e no Exterior (importações).
Se a inflação no PIB é superior à inflação no consumidor, então, os bens importados têm um aumento menor que os bens produzidos em Portugal.
Supondo que os bens importados pesam 40% no cabaz do consumidor, teremos:
   Inf.PIB *0,6 + Inf.Externa*0,4 = IPC <=>  2,07%*0,6 + Inf.Externa*0,4 =1,4%

Inf.Externa = 0,57%/ano, Inf. do PIB = 2,07%/ano

No draft, a inflação do exterior é prevista como 0,57% e a dos bens produzidos em Portugal é prevista como 2,07% o que traduz que, os bens produzidos em Portugal ficarão mais caros 1,5% relativamente aos bens produzidos no exterior.

Mas isto não bate certo com a balança comercial.
O aumento do preço dos nossos bens relativamente ao exterior leva a um aumento das importações e a uma redução das exportações pelo que a previsão de melhoria da balança comercial só pode ser uma anedota.
Esse aumento dos nossos preços apenas levaria a um melhoria do saldo da balança comercial se os nossos bens, relativamente a 2015, melhorassem em qualidade, o que não vai acontecer. Então, não é possível vir-se a concretizar a previsto aumento de 4,3%  das exportações (quando, em 2015, aumentou 3,9%)!

Segundo gato => A previsão da inflação e do crescimento pelas instituições internacionais.

Como as tabelas de IRS se vão manter constantes e os salários dos funcionários públicos não vão sofrer alterações no índice (a reposição é contabilizada à parte), um aumento do PIB traduz-se num aumento muito significativo da receita fiscal sem haver aumento da despesa por causa da inflação.
A receita pública em 2014 é de 45% do PIB. Vou considerar, de forma conservadora, que o aumento do PIB nominal tem um impacto de 0,50 na redução do défice. Quer isto dizer que o aumento em 1,00€ no PIB nominal causa uma redução em 0,50€ no défice (porque não há actualização de tabelas nem de salários e quem ganha mais, paga mais IRS).
Então, este crescimento previsto no PIB de 4,29% vai facilitar a consolidação orçamental em 2,15 pp. Se o Costa diz que vai consolidar de 3,0% para 2,6%, 0,4 pp., ainda vai ter uma folga de 3070 milhões € para gastar acima do que o Passos Coelho gastou em 2015.
3070 milhões de euros é muita massa, são 300€ por cada português vivo.

Segundo gato => A previsão da inflação e do crescimento pelas instituições internacionais.
Para o crescimento real do PIB, a OCDE prevê a mesma taxa de crescimento de 2015, i.e., 1,7% (ver) o que compara com os 2,1% do Centeno.
Para a inflação, o Banco Central Europeu prevê 0,7% para a inflação de 2016 (ver) o que compara com os 2,07 do Centeno!
Juntando as previsões mais credíveis e internacionalmente aceites para o nosso crescimento nominal do PIB, teremos:
   Crescimento Nominal do PIB € = (1+1,7%)*(1+0,7%) - 1 = 2,41%
E não os 4,29% do Centeno.

É um desvio no crescimento de 1,88pp.
As contas do Centeno quanto ao crescimento estão exageradas em 1,88pp o que, aplicando o multiplicador de consolidação de 0,5, traduz que o défice está martelado em 1,88*0,5 = 0,94% PIB
São, nada mais, nada menos, que uma marretada que vale 1650 milhões €.

Apenas ajustando a previsão para o crescimento nominal do PIB, o défice passa a 3,5%.
Claro que ninguém vai aceitar um desvio de 78% entre a previsão das instituições internacionais e as previsões do Centeno.

 Nem é preciso olhar para mais nada para verificar que a coisa está muito inflacionada

sexta-feira, 24 de julho de 2015

A Terra não é o Kepler-186f e Portugal não é a Grécia

Esta semana descobriram um planeta semelhante à Terra. 
É ligeiramente maior, um pouco mais velho, tem uma pressão atmosférica e uma gravidade um pouco superiores mas, em termos de potencial para ter seres vivos, é bastante semelhante com o nosso planeta.
Mas o que estão a pensar é "o que é que isso me interessa?"

O Universo é muito grande e vazio.
Esse planeta está a uma distância tal que se nós telefonássemos para um amigo desse planeta, só daqui a 1400 anos é que o telefone tocava e, a "pessoa" atendendo, só passados outros 1400 anos é que ouviríamos, "Está lá? És o meu amigo terráqueo?"
Imaginemo-nos há 1400 anos atrás, no ano 615 DC. Estaríamos hoje a receber na nossa caixa de correio os e-mails que alguém nos enviou "há segundos" e dos quais só receberia a nossa resposta no ano 3415 DC.

Fig. 1 - Menina, cuidado que vai ser atacada por um boobsucker, o ser vivo mais inteligente de Kepler-186f.

E se enviássemos uma nave a esse planeta?
Vamos imaginar que conseguíamos construir um foguetão que atingisse 1% da velocidade da Luz. Nesse caso, para enviar o meu carrito (com 875kg) a esse Kepler- 186f, seriam precisas, para uma eficiência de 25%, 1 milhão de toneladas de combustível líquido H2+O2.
Teríamos que fazer um foguetão com 70 metros de diâmetro e 700 metros de altura, o que seria "apenas" 350 vezes o tamanho do maior foguetão existente (10m de diâmetro e 100m de altura). Seria maior que o maior super-petroleiro jamais construído, metido ao alto e com o fogo aceso no Cartão Único.

Mas pronto, vamos imaginar que conseguíamos.
Se não houvesse curvas pelo caminho, o meu carrinho chegaria ao Kepler-186f no ano 142015 DC.
Nessa altura, "receberia" um telefonema a dizer "O teu carro chegou em ordem" mas que só ouviria no ano 143415 DC.

Vamos imaginar que os de lá ...
tinham "detectado" a nossa existência por causa das explosões nucleares de 1945.
Só daqui a 1330 anos é que, de facto, o clarão nuclear chega lá e, se nessa altura mandarem imediatamente um OVNI à velocidade da Luz, só chegarão cá no ano 4745 anos.

Fig. 2  - Realmente, não lhe interessa para nada terem descoberto o tal Kepler- 186f.

O discurso do Cavaco Silva.
Falou exactamente 10 minutos e quis dizer apenas duas coisas.
1) As eleições vão ser no dia 4 de Outubro o que, sendo feriado no dia 5 de Outubro, vai fazer com que quem se está nas tintas para as eleições não vá votar. Desta forma, na campanha eleitoral os partidos vão ter que convencer o eleitorado de que é fundamental ir votar.

2) Não vai dar posse a um governo que não tenha maioria absoluta no Parlamento.
O mais certo é que, no dia 4, a vitória seja por maioria relativa. 
Um partido terá no máximo 100 deputados (quando precisa de 116 para ter a tal maioria absoluta "exigida" pelo Cavaco) e o derrotado também andará ai próximo. 

Se ganhar o PSD+CDS.
O António Costa vai-se demitir e o Cavaco Silva vai convidar o Passos Coelho para formar um novo governo.
O PS vai encontrar fazer um congresso para eleger o novo líder, o que demora tempo, e depois começam as negociações.
O processo vai-se arrastar meses e meses.

Porque será que o António Costa ficou tão desagradado?
Porque o Costa sabe que vai ter uma vitória à moda do Seguro e, armando-se em cavaleiro valente, vai dizer que avançar com um governo minoritário.
O Cavaco até o pode convidar a formar governo mas, chegados os nomes à sua mesa sem os tais 116 deputados por trás, vai mandá-lo dar um volta. Vai ser o famoso "veto de gaveta": vai aguardando sentado.
Como o Costa é teimoso como um burro ou burro como um teimoso, o processo vai demorar meses e meses e o homem a grelhar.
Não sei o que vai fazer o Passos Coelho mas é provável que se mantenha à frente do PSD enquanto for Primeiro Ministro.

E no entretanto?
Vão pensar "ai meu Deus que vamos ficar meses e meses sem governo" mas não é nada de muito grave pois a Bélgica esteve 541 dias sem governo e não aconteceu grande mal ao Mundo (nem à Bélgica).
O Passos Coelho vai continuar a governar, certo que num governo de gestão e sem Orçamento de Estado (terá que governar em duodécimos).
Ter um governo de gestão não é em nada diferente de ter um governo em minoria que, a qualquer momento, pode cair com um Voto de Censura.

No entretanto, vem o Durão Barroso.
Em Janeiro de 2016 serão as eleições presidenciais.
Fontes bem colocadas disseram-me que o Durão Barroso se vai candidatar e que vai ganhar a Presidência da República. 
Podem pensar "mas isso não é possível saber porque só na Rússia e noutras tiranias é que se sabem os resultados das eleições antes destas acontecerem." 
Bem, como vivemos num país livre, cada um pode pensar o que quiser.
É certo que o Passos Coelho vai ficar lá até finais de Janeiro de 2016

Fig. 3 - Eu é que sou o verdadeiro candidato da Esquerda. À minha beira, comunista dos quatro costados do PCTP/MRPP, esse Póvoas e a de Belém não passam de meninos de coro.

Como foi a Execução Orçamental?
Para o Passos Coelho, está tudo a correr bem.

Dizem os esquedistas "Caiu tanto que agora só pode melhorar"
Mas na Grécia, onde a economia já tinha caído 27% (enquanto que nós caímos 7%), em 2015 vão cair mais 4% por causa das varofaquices.
Pode sempre cair mais e Portugal está a subir, está a aumentar o PIB, a diminuir o desemprego, o défice público está a cair.

O défice público.
Se não contarmos com os juros, no primeiro semestre houve um saldo positivo de quase 560 milhões de euros que ainda é um valor pequenino (0,65% do PIB) mas que já não se conseguia há muitos anos.
Depois, juntando os juros, o DP desceu um bocadinho (desceu 390 milhões €, 0,5% do PIB) relativamente a 2014. ainda está bastante longe dos 2,7% mas está a descer aos pouquinhos, estamos num ajustamento "com mais tempo e mais dinheiro".
Os juros é muito dinheiro (4506 milhões €, 45€ por cada português) mas é o custo a pagar pelos défices socialistas do Guterres e do Sócrates. Além disso, esses governantes endividaram o Estado com taxas de juro muito elevadas (a nossa taxa de juro média está na ordem dos 4,1%/ano quando, hoje no mercado, está nos 2,5%/ano).
Por este andar, vamos ficar acima dos 3% mas não é possível em ano de eleições fazer melhor. E a Sr. Schauble já disse que podia ser assim.

Afinal, a Austeridade acabou.
É que a despesa pública aumentou (ligeiramente) o que traduz que "o fim da Austeridade" prometida pelo PS já está a acontecer com o CDS+PSD.

E o que tem a Grécia a ver com Portugal?
Nada.
Na Grécia continuam em discussões do "isto não funciona" enquanto deseperam pelo terceiro resgate e, no entretanto, a economia vai caindo e o desemprego aumentado.
É esse o caminho de pressão junto das instituições defendido pelo António Costa.
E, no fim, além da queda do PIB e o crescimento do desemprego, virá mais austeridade.

Fig. 4 - Se o Tsipras dissesse como o Passos Coelho disse "Adoro as medidas da Troika, vou tomar disto ao pequeno almoço, almoço e jantar" talvez a taxa de juro grega descesse dos actuais 11,5%/ano para os 2,5%/ano de Portugal.

Pedro Cosme Vieira

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

O Orçamento de Estado de 2015

Poderia dizer que o OE2015 está bem. 
Se me centrasse no meu umbigo, na minha conta bancária, no meu egoísmo então, o Orçamento de Estado para 2015 estaria muito bem. De facto, vou ser aumentado em 1,9% quando a inflação se antecipa vir a ser de zero. Desta forma, num ano que continua a ser de forte consolidação orçamental, pelo menos em teoria, o meu rendimento (e o de muitos mais funcionários públicos) vai aumentar. 

Mas isto é negativo.
Como o Tribunal Constitucional, por ter sido proposto pelo governo socialista do Sócrates, aceita o corte até 10% dos salários como constitucional então, o Passos deveria mantê-lo até que houvesse novamente um governo socialista que o cortasse. 
Se eles o fizeram, eles que o desfizessem. 

Reparemos nas dificuldades de 2015.
Em 2009-2010 o défice foi na rodem dos 10% do PIB.
Em 2014 o défice vai ficar, depois de muita maquilhagem, nos 4,8% do PIB. De de facto vai ser novamente de 10% porque há muitas dívidas que é preciso reconhecer e os 4900M€ do BES. Mas o governo fala, mesmo assim, de que atingiu os 4,0% porque existem despesas que a troika aceita como não fazendo parte do "défice económico".
Mas fiquemos nos 4% do PIB. Então, entre 2010 e 2014 houve uma consolidação anual de 1,5% do PIB, qualquer coisa como 2500 milhões€ por ano (por ano).
E, como se lembram, essa consolidação obrigou a um grande esforço de austeridade pública.

O que é isso de milhões de euros por ano por ano?
Normalmente, olhamos para o PIB, a despesa pública, a receita fiscal, o défice como se fossem em euros mas não são.
O PIB português não é 171210956  (2013) mas sim 171210956 por ano
Igualmente, o nosso PIB é de 19545€ por hora e de 375,24€ por minuto.
Dito assim, que o nosso PIB é de 375,24€ por minuto, não parece nada comparável com 171210956€ por ano mas é exactamente a mesma coisa.
O défice público, porque é uma percentagem do PIB, também é em euros por ano pelo que, para o reduzir, é preciso uma austeridade também em euros por ano, uma austeridade para sempre, e não apenas milhares de milhões de euros como dizem os esquerdistas.

Fig. 1 - Tenho um bom curriculum mas aviso já que o meu forte não é fazer as contas do orçamento. 


Reduzir um défice (em € por ano) e a austeridade (em €).
Para eu reduzir o défice em um euro para sempre so nos próximos 100 anos vai-me obrigar a uma austeridade de 100€. 
Se o défice em 2010 era de 17 mil milhões € (por ano) e em 2014 vai ser de 6800€ (por ano), para reduzir a défice em 10 mil milhões € (por ano) obriga, ao longo de 4 anos, a uma austeridade de 25 mil milhões € e não de 10 mil milhões €.
E, manter o défice nos 2,5% do PIB vai obrigar apenas nos próximos 10 anos (e relativamente a 2010), uma austeridade de 230 mil milhões €. 
A comparação que os esquedistas fazem é comparável à comparação entre a velocidade do nosso carro (em km por h) e o espaço percorrido (em km).
Se um carro viaja a 200 km por hora e outro a 5 km por hora, será que conseguem dizer qual dos veículos percorreu maior disntância em km?
Claro que não pois precisamos do tempo. Se o rápido andou um minuto, percorreu 3,33km enquanto que o lento se andou uma hora, percorreu 5,00km, mais que o rápido.

Sendo o défice uma velocidade, a redução do défice é uma (des)aceleração.
Então, as unidades de redução do défice são euros por ano por ano.
Euros por ano ao quadrado.

Mas a meta para 2015 deslizou para os 3,7% do PIB.
Exactamente 3,7%. Diz claramente no quadro III.1.1 do relatório do OE2015 que o défice vai ser de 3,7% mas também haverá despesas de 1 % do PIB que a troika acha que não são despesas relevantes pelo que o "défice para efeitos da troika será de 2,7% do PIB"
Portugal acordou com a Troika o deslizar das metas acordadas pelo PS de Sócrates no Memorando de Entendimento e esse deslizar apontava para que, em 2015, o défice fosse de 2,5% do PIB. Então, entre 2014 e 2015 também seria preciso reduzir um esforço de consolidação comparavel ao que vivemos entre 2011 e 2014, 1,5% do PIB.
Mas o governo, precisando abriu os cordões à bolsa por causa das eleições, deslizou as metas para 3,7% do PIB.
Será, relativamente aos 4,8%, uma consolidação de 1,1% do PIB.

Temos o crescimento.
O que dizem os especialistas é que o crescimento económico de 1,5% do PIB vai fazer com que o défice reduza automaticamente de 4,8% do PIB para qualquer coisa próxima dos 4,0% do PIB. Com mais PIB há mais receita pública (impostos, taxas, etc.) e menos despesa pública (subsídio de desemprego, etc.). Somando os dois efeitos, um crescimento de 1,5% do PIB melhora as contas públicas em 0,8% do PIB.
Este efeito jogou contra o Passos em 2011, 2012 e 2013 mas já começou a jogar a favor em 2014, razão proque em 2014 não houve aumento das taxas de imposto.
Somando o efeito do crescimento com o "deslize", a consolidação para 2015 ficou reduzida a apenas 0,3% do PIB, uma quinta parte do que, à partida, seria obrigatório fazer. 

Mas não deveria ter havido deslizamento sem autorização. 
Uma coisa era a Troika dizer que "podem deslizar para 3,7% porque o défice primário (sem juros) já está positivo, em 0,9% do PIB, permitindo assim uma redução na dívida pública de 3,5 pontos percentuais".
Notar que, para reduzir a nossa dívida pública de volta aos 60% do PIB em 20 anos (como prevê o Tratado Orçamental) teremos que reduzir a cada ano a dívida pública em 3,36 % do PIB e em 2015 está prevista uma redução de 3,50% do PIB!

E que falta faz o acordo com a troika?
As taxas de juro dispararam como já não se via há muito tempo.
Depois de estarem nos 2,95%/ano (dívida a 10 anos), ontem saltou quase para os 3,80%/ano.
Para vermos a enormidade deste aumento, se se aplicasse a toda a nossa dívida pública implicaria um aumento da despesa em juros em 1800 milhões € por ano.
Este aumento implicaria a revisão em alta do défice em 1,0% do PIB.
Mas, no entretanto, a troika não disse nada de negativo pelo que os investidores acalmaram um pouco e o aumento caiu de 0,85 pontos para 0,35 ponto que, mesmo assim, terá (a manter-se) um impacto no orçamento de 0,45% do PIB, o dobro do deslize não acordado.

Fig. 2 - Evolução da taxa de juro implícita na dívida pública portuguesa depois do anúncio do OE2015

As cheias em Lisboa.
Este nervosismo indica que, se viermos a ter um governo que diga "acabou a austeridade", voltamos rapidamente às taxas proibitivas de 2011.
Eu acho interessante o António Costa, depois de dizer que o Passos Coelho é um incompetente, vir também dizer que precisa da sua ajuda para resolver os problemas das inundações em Lisboa.
Por este andar, ainda vamos ver o Passos a presidente da câmara de Lisboa.

Fig. 3 - Até é mais agradável passear na Lisboa pós-Costa.

São eleições e é preciso ganhá-las.
Eu agora sou um político no activo. Ando em campanha eleitoral. Umas pessoas tratam-me mal e outras  pedem-nos coisas.
Ambas as coisas são boas porque revelam que as pessoas atribuem probabilidade à possibilidade de eu vir a ser eleito. Como as pessoas não são estúpidas, quanto mais uns se zangarem e outros me pedirem coisas, mais provável é que eu ganhe. 
Mas o político que quer ganhar eleições tem que prometer coisas. Tem que ser prudente "não posso aumentar os vossos salários" mas tem que se ver o que se pode fazer. 
Claro que eu penso "Prometer isto vai, depois, causar problemas" mas tem que ser, é guerra é guerra, bombardear e depois ver se há feridos.

Aquela da devolução da sobretaxa.
Foi uma forma de acomodar a descida da sobretaxa exigida pelo Portas e a necessidade de controlar o défice.
Mesmo o deslize foi para dar margem ao Portas.
É a política. É assim aqui, em Angola, na Serra Leoa mas também na Alemanha, no Luxemburgo e na Suécia.

E o Ébola?
Existem cada vez mais notícias nas notícias mas a coisa está a caminho de estar controlada.
Em meados de Setembro, todos os dias o número de novos casos aumentava 3%. Passado um mês, cada dia o número de novos casos "só" aumentava 2%.
Se a diminuição continuar a esta velocidade, daqui a 2 meses a doença acaba com "apenas" mais 4000 doentes relativamente aos que existem actualmente.
Mas a pressão não pode abrandar e. por isso, é que é importante que a comunicação social não pare a pressão.
Se não for assim, de um momento para o outro, a doença torna a explodir.

Fig. 4 - Evolução da taxa de crescimento dos novos casos de Ébola (dados, WHO)

Pedro Cosme Vieira

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Ano Novo, Cavaco Novo

Mais um fim de ano, mais uma mensagem do Cavaco Silva.
Sendo o principal problema de Portugal o elevado risco do território (misto entre risco de crédito e risco cambial => sair do euro) porque tal se traduz nas elevadas taxas de juro exigidas ao Estado e aos privados, como nos dois últimos dias a taxa de juro desceu 0.40 pontos percentuais, temos que concluir que o discurso de Cavaco esteve extraordinariamente bem.

Se aplicarmos 0.40 pp a toda a dívida externa que é de 370MM€ (ver, Fig. 1), 225% do PIB, esta redução traduz uma poupança de juros a pagar ao exterior na ordem dos 1900 milhões € por ano que é equivalente a termos um aumento do IVA de 23% para 27%.
Deste movimento em baixa podemos concluir que cada uma das 1466 palavras do Cavaco Silva representa uma poupança anual face ao exterior de 1,3 milhões €.

Fig. 1 - Entre 1998 e 2010  a divida externa aumentou 25 mil milhões € por ano, 15% do PIB por ano (dados: Banco de Portugal).

O que teve a mensagem do Cavaco para ter tamanho impacto?
A grande mensagem é não haver qualquer mensagem. Finalmente, o Cavaco convenceu-se que governar compete ao governo e que o Passos Coelho está a fazer o que, tecnicamente, deve ser feito.
Espremendo nas 1466 palavras, encontramos apenas 4 pequenas ideias:

1 => A actual situação resulta de um passado desmiolado.
"Portugal chegou, no início de 2011, a uma situação de colapso financeiro iminente" (p. 8)  havendo "a consciência clara de que não era possível continuar a caminhar rumo àquilo que, na altura devida, classifiquei de 'situação explosiva'" (p. 9) iniciou-se a correcção da situação que, apesar de ter induzido uma "redução dos padrões de bem-estar," não pôs em causa nada de fundamental (p.10).

2 => O caminho de consolidação traçado pelo governo é o correcto.
"Em Maio deste ano chega ao fim o Programa de Assistência Financeira" (p. 26) ficando Portugal "dependente dos mercados e dos investidores internacionais para obter os meios financeiros de que necessita" (p.27) que "exige que a conclusão do programa de ajustamento seja feita com sucesso" (p. 28) o "que tem no Orçamento de Estado para 2014 um instrumento da maior relevância" (p. 29).

3 => Por isso, venha quem vier, o caminho será esse mesmo.
"É uma ilusão pensar que, no dia em que encerrar o atual Programa de Assistência Financeira, todos os nossos problemas ficarão resolvidos e poderemos regressar a um período de despesismo e endividamento descontrolado" (p. 37). Queremos um caminho "de equilíbrio das contas públicas" (p. 38) em que "estejamos bem conscientes das regras de disciplina orçamental e de supervisão das políticas económicas a que Portugal, tal como todos os outros países da Zona Euro, estão sujeitos" (p. 39).

4 => Por isso, deixem-se de demagogia barata.
"Neste contexto, de todos os agentes políticos, bem como dos agentes económicos e sociais, exige-se a máxima ponderação e bom senso, um sentido patriótico de responsabilidade. (p. 34) "estejam no governo ou na oposição" (p. 35). "Espero, pois, que todos os agentes políticos, económicos e sociais saibam estar à altura das exigências do futuro e das legítimas aspirações do nosso povo." (p. 89)

Dada a jurisprudência, nenhuma norma levanta dúvidas constitucionais.
Numa nota posterior, o Cavaco veio dizer que, apesar de no ano passado algumas normas lhe levantarem dúvidas de constitucionalidade (como, por exemplo, a CES-Contribuição Especial de Solidariedade que se abate sobre as pensões) como o tribunal as considerou constitucionais, não vale a pena insistir nessas dúvidas.

Fig. 2 - Como o amor é cego, desejo para 2014 que todas as mulheres feias, gordas e atarracadas pareçam aos olhos dos seus homens boas como esta.

O que faltou dizer.
Na mensagem do ano novo passado, o Cavaco referiu, ao contrário do que afirmava o Gasparzinho, que estávamos numa espiral recessiva  com origem nas políticas do governo:

Como "muitas famílias foram obrigadas a reduzir as suas despesas", "muitas pequenas e médias empresas encerraram as suas portas". "A execução do Orçamento [de 2013] irá traduzir-se numa [nova] redução do rendimento dos cidadãos" o que alimentará uma espiral recessão. Então, "Temos urgentemente de pôr cobro a esta espiral recessiva, em que a redução drástica da procura leva ao encerramento de empresas e ao agravamento do desemprego." (p. 7)

Mas, passado um ano, afinal a economia cresceu e o desemprego diminuiu. Então, apesar do Cavaco ter reconhecido isso, faltou-lhe ainda  dizer:
Quanto à espiral recessiva de que falei no ano passado, os factos vieram a provar que eu estava enganado e que as previsões do Gasparzinho estavam certas. Peço-te desculpa por não ter sido justo e envio-te votos de feliz ano novo. A Maria e o Presidente gostaríamos de te ter cá nos Reis para um chá com bolo-rei".

Fig. 3 - Já pensei em fazer um decreto a mudar o nome para Bolo Presidente mas o Vital Moreira disse-me que seria inconstitucional.

O governo tem o apoio do Cavaco para prosseguir.
Finalmente, a meta orçamental tem o aval do Cavaco.
Então, se o corte de 10% nas pensões dos funcionários públicos não pode avançar, avançou o anúncio de que já havia medidas alternativas a incidir principalmente sobre os funcionários públicos no activo e aposentados o que reforça a mensagem do Cavaco de que somos capazes de fechar o programa de assistência com êxito.

E vamos a caminho do sucesso.
Actualmente, com as taxas de juro a 2 anos na ordem dos 2,65%/ano, já começa a ser viável rolar os 150MM€ "fora da Troika" no mercado de dívida a uma taxa de juro média na ordem dos 3.2%/ano (maturidade ligeiramente acima dos 3 anos que é um prazo aceitável).
Se as coisas continuarem a correr bem como estão, podemos mesmo terminar os 3 anos da intervenção numa situação melhor que a que vivíamos em meados de 2010.

Em 2015 vai acontecer como em 2011.
Em 2011, as sondagens começaram por indicar que o PS (Sócrates) iria ganhar com maioria relativa mas, com o degradar dos indicadores económicos, passaram para um empate técnico e, mesmo na recta final, o PSD (Passos) conseguiu uma vitória tangencial.
Agora, as sondagens também indicam uma vitória do PS (Seguro) com maioria relativa mas, com o melhorar dos indicadores económicos, veremos em finais de 2014 as sondagens passarem para o empate técnico e, na recta final, o Passos vai ter outra vitória tangencial.

Fig. 4 -  Como é possível eu, o maior estadista do Sec. XX, ter sido derrotado pelo Passos Coelho.

Vou agora responder a uma questão pessoal do Fernando Gonçalves.
Considera aceitável um professor universitário só passar 10h por semana e 6 meses por ano na sala de aula e ganhar vários salários mínimos?
Um professor universitário doutorado, ganha 3028€/mês iliquidos que corresponde a pouco mais de 6 salários mínimos e de 3 salários médios.

Será isso um ordenado aceitável?
É inaceitável, não por ser 6.25 SMN mas porque há pessoas competentes que estão disponíveis para fazer esse trabalho por metade deste ordenado.
Porque nos anos 1990-2010 houve muitas bolsas para doutoramento e pelas actuais dificuldades do mercado de trabalho, se hoje uma faculdade oferecer contratos a doutorados a título definitivo por  1514€/mês, não lhe faltam bons candidatos.
Se reduzissem o meu salário a metade, eu não começaria a procurar outro emprego.

Eu já apresentei estas contas num poste.
Imaginemos uma pessoa que estudou na escola pública e que, exageradamente, em alternativa a frequentar a universidade, teria um emprego a ganhar 600€/mês.
     Estudar entre 9.º ano e 12.º amo =>    3 anos a 200€/mês   => 7200€
     Licenciatura e mestrado             =>     5 anos a 600€/mês   => 36000€
     Perdas de rendimento (600€/mês durante 70 meses)           => 42000€
Investimento total com uma taxa de juro de 2%/ano => 86500€

Para amortizar este valor em 45 anos, 14 meses por ano, é preciso um incremento no salário de pelo menos 220€ por mês.
Se o salário médio anda nos 900€/mês, em termos de investimento, estou a falar em ordenados para uma pessoa com mestrado na ordem dos 1100€/mês.

Mas um professor universitário é mais inteligente que a média.
E por isso é que 1514€ me parece aceitável. Já teria um prémio de 35% a que acresce o trabalho ser mais agradável e menos pesado que outro emprego qualquer.

Um paradoxo da teoria dos conjuntos.
O João é louro e diz que os todos os louros são mentirosos.
Então, se o João é louro, também é mentiroso pelo que a sua afirmação é falsa.
Sendo a afirmação é falsa então, o João é verdadeiro pelo que a afirmação é verdadeira o que faz dele novamente um mentiroso ...

Então, no que ficamos?
Apesar de eu ser professor universitário, ter tempo para escrever livros e blogs e estar pouco tempo na sala de aulas, sou uma pessoa lúcida.

Bom ano 2014

Ontem faltou-me dizer.
Que o mandato do Passos coelho acaba em Junho de 2015 mas o mandato do Cavaco Silva só acaba em Janeiro de 2016. Então, é importante saber o que o Cavaco pensa porque ainda vai condicionar a formação do próximo governo (em meados de 2015).

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

A verdade sobre o PEC4

A marca politica do Sócrates é a mentira.
Claro que as pessoas têm memoria fraca mas, principalmente o final de 1.º e o 2.º mandato do Sócrates foi a era da omissão da verdade e da publicação da mentira. 
Os socialistas falam tanto das "falhas de previsão" do Gasparzinho porque sabem que a memória do nosso povo se reduz a poucos meses.
Será que alguém se lembra do jogo Porto-Sporting de 2009?
Eu não.

Vejamos  o OE 2009.
O Sócrates afirma lá que o défice para 2009 vai ser de 2.2% do PIB (p. 119 do OE2009) quando, calculado pela EuroStat, o défice fechou nos 10.2% do PIB.
Claro que o bicho ataca com a crise mundial mas essa foi em 2008 pelo que a previsão do FMI já era de que a economia ia contrair 4%.
Mesmo à revelia de todos os organismos internacionais, o Sócrates anunciou que a crise tinha acabado havendo margem orçamental para subir os salários da função pública em 2.9%.
Foi um desvio de 8% do PIB, mais de 13000M€ de erro.
Em presença disso, partir de 4.5% e atingir 5.9%, 2300M€, dos quais 1350M€ são responsabilidade do TC e 650M€ do BANIF, é uma brincadeira de crianças.
Mas os comunas não falam disto.

Afinal o PEC4 era um embuste.
O Sócrates repete de forma incessante que a Alemanha (na sua visão de monarca absoluto o Sócrates confunde a Alemanha com a simpática Sr.a Merkel) aceitava o PEC4. Mas, afinal, veio reconhecer publicamente na entrevista ao Expresso de que isso não era verdade pois, apesar de a Sr.a Merkel, em presença do Quadro III-1 dizer "sim, sim, sim, isto está muito bonito e tu vestes tão bem José" quando se chegava à avaliação da possibilidade técnica de atingir essas metas "o filho da puta do Schauble não acreditava, só queria prejudicar Portugal".

Mas afinal o que dizia o PEC4?
São 67 páginas que estão disponíveis no parlamento.
Diz que em 2014 vamos conseguir atingir um défice de 1% com um excedente primário de 4.3% do PIB.
Para reduzirmos a nossa dívida de 130% do PIB para 60% do PIB em 20 anos precisamos de um superavit primário de 3% do PIB (juros de 3.2%/ano, crescimento de 1.5%/ano).
Como é possível agora os esquerdistas dizerem que é impossível quando no PEC4 afirmam que o superávite seria já em 2014 de 4.3% do PIB?

Fig. 1 - As metas do PEC4 são fantásticas mas as politicas previstas para as materializar são apenas generalidades sobre cortes de 15400 milhões €.

Certo dia encontraram-se 2 amigos.
- Olá Sócrates, venho todo contente porque descobri um restaurante, o Austeridade, onde se almoça baratíssimo: sopa, prato, fruta e café por 4.50€.
- Óh pá isso não é nada. Há um restaurante, o PEC4, onde se come sopa, um prato de peixe e outro de carne, fruta, bolo, café e conhaque por 3.00€.
- Isso é fantástico mas só pode ser mentira.
- É mentira mas é muito melhor e mais barato que o teu.

O quadro macroeconómico.
A simulação da evolução das contas públicas para o período 2001-2014 parte de variáveis consideradas exógenas ao modelo. Se essas previsões falharem, naturalmente que toda a simulação falha.

A primeira previsão é que se iria aumentar o endividamento exterior em 7% do PIB por ano, 12000 milhões€/ano (p.9 do PEC4). Com as taxas de juro que se observavam em princípios de 2011 (na ordem dos 7%/ano), O PEC4 pensa que seria possível Portugal ir aos mercados de forma a fazer o roll-over de milhares de milhões de euros e ainda aumentar o endividamento externo em 1000M€ a cada mês.
Isso sabia-se ser totalmente impossível. Esta previsão errada, uma mentira deliberada, teria efeitos catastróficos nos resultados da simulação porque a correcção do endividamento externo tem efeitos recessivos (menos PIB, menos impostos e mais despesa social).

Afinal o PEC4 não consolidava as contas externas.
O Sócrates pensou ser possível consolidar as contas públicas mantendo o desequilíbrio externo da nossa economia. Mas o que toda a gente sabe é que o problema da nossa economia não seria o défice público desde que tal fosse financiado pela poupança interna. O Japão, os USA e o UK têm grandes défices públicos e conseguem-se financiar a taxas de juro historicamente baixas. 
O problema grave da nossa economia era o constante endividamento externo que o PEC4, de forma alegre e airosa, considerava que iria continuar para todo o sempre mesmo que já não houvesse quem o quisesse financiar.

A segunda previsão é de que a taxa de juro de longo prazo ficaria nos 6.8%/ano e a taxa de juro de curto prazo (a que, alegadamente, nos conseguiríamos financiar) ficaria nos 2.5%/ano. 
Mesmo considerando taxas que, comparando com a Grécia de então, nunca se iriam concretizar, nada é dito sobre o impacto destas taxas de juro na despesa em juros.
Se Portugal pagasse 6.8% de juros sobre a totalidade da sua divida, seriam encargos de 13600M€ por ano.

A terceira previsão  é de que a taxa de desemprego se iria manter nos 10% (p. 9). Toda a gente sabia que, como as compras a crédito estavam em crise por causa de o endividamento externo estar congelado (erro na primeira previsão), a economia iria sofrer uma re-estruturação que geraria (e gerou) muito desemprego.

A quarta previsão é de que o PIB iria crescer 0.8%/ano o que era verdadeiramente impossível de atingir com a previsível contracção do endividamento externo.

Estas previsões caiem do Céu.
Não há qualquer fundamentação para estas previsões. São estas como poderiam ser outras quaisquer. Meteram as coisas no Excel e foram experimentando até dar o défice pretendido.
Era mentira mas de pouco interessava pois os socialistas são mesmo assim.
Basta ver como o Seguro diz que vai rasgar tudo para manter a oposição interna no seu sitio.

Fig. 2 - Podem ser falsas (as metas do Quadro III-1) mas são boas

As medidas genéricas.
No PEC4 tudo é genérico. A uma consolidação brutal mas genérica do Quadro - III-1, vem um conjunto de medidas genéricos que ninguém sabe como vão ser concretizadas.
Diz que em 2011 iria haver uma redução estrutural do défice em 5.3% do PIB de forma atingir um défice de 4.6% em 2011. Estamos a falar de cortes de 9000 milhões€ a concretizar em 9 meses, 1000M€ por mês, mais do que o Passos cortou em 3 anos e ainda é acusado de "cortar além do PEC4 e da Troika".

Como era isso possível de fazer?
No quadro II-1 resumo das poupanças fala em 0.8% do PIB enquanto que o objectivo é uma redução de 5.3% do PIB. Extraordinário como apontando medidas de 0.8% se iria atingir 5.3%.
Depois, eram umas generalidades. Em 2012 era uma consolidação de mais 3% do PIB e em 2013 de mais 2% do PIB para atingir 1% de défice em 2014.
O problema é que o Sócrates prometia, como assinou no Memorando de Entendimento, sabendo que a sua arte era a mentida e a dissimulação.

Vamos acrescentar os cortes para 2012 e 2013
Depois de cortes 9000M€ de 2011 seriam ainda acrescentados:
Em 2012 estavam previstos cortes na despesa de 2700M€ e aumento da receita de 1500M€
Em 2013 estavam previstos cortes adicionais de 1500M€ e aumento adicional de 700M€.
No total haveria reduções na despesa e aumento de impostos de 15400 M€.
Pois o Passos Coelho, relativamente a 2010, cortou despesa e aumentou impostos em 7200M€, menos de metade do previsto no PEC4.

Nada de efeito recessivo.
Os cortes do Passos Coelho de 7200M€ até agora alegadamente deram origem a uma espiral recessiva mas os cortes de 154000M€ do PEC4 não teriam qualquer efeito recessivo, antes pelo contrário pois a previsão era de que a economia cresceria 0.8%/ano.

Afinal o PEC4 era austeridade da dura.
Estavam previstos cortes no dobro das medida da austeridade do Passos Coelho.
Exactamente o dobro dos cortes mas, tal como na luta entre o Capuchino Vermelho (que afinal era uma puta assassina da natureza) e o Lobo Mau (um veterinário defensor da floresta que curava os animais por abate sanitário), trava-se hoje um guerra entre um maquina demoníaca e demagógica que quer convencer o povinho ignorante de que o PEC4 (que ninguém sentiu na pele porque nunca saiu do papel) era excelente e a realidade dura da austeridade que é dura.

Fig. 3 - PEC4 - Missão Impossível

Eu tinha um primo.
Que quando foi à tropa teve boa classificação na caderneta pelo que teve oportunidade de ser "polícia em Lisboa". Mas nunca quis abandonar o conforto da casa materna. Trabalhava na agricultura e fazia uns biscates em construção civil.
Acontece que um colega vizinho arrumou a mala e foi para policia em Lisboa.
Sempre que eu visitava o meu primo tinha que ouvir "se eu tivesse ido para Lisboa já estaria reformado com uma boa maquia".
O problema é que ele nunca soube (nem quis saber) o que teriam sido os 30 anos de vida de viver deslocado em Lisboa. Só lhe interessava o resultado final, o tal Quadro III-1.
Mas nesse quadro o Sócrates poderia mesmo dizer que iria conseguir um superavit para as contas públias de 20% do PIB. Seria mentira mas também seria extraordinário, digno do Guinness.

Vou agora à tese que o bicho escreveu em Paris.
Uma tese de mestrado é um pequeno exercício de recolha de informação já publicada sobre um tema e, eventualmente, o uso de uns inquéritos ou dados disponíveis para validar alguma teoria em discussão. Não tem como objectivo a criação de conhecimento novo mas apenas a digestão da literatura e o seu resumo num texto com 30 a 50 páginas. Antigamente ainda era apenas com "alunos com mais de 14 valores" mas agora é para toda a gente, mesmo povo com 9.5 faz mestrado.

Se eu orientasse uma tese em A Tortura em Democracia mandaria o aluno escrever uma introdução em que referiria a pertinência do tema, depois passaria para a literatura definindo o conceito, o seu objectivo estratégico, os argumentos contra e a favor. Por fim, talvez construísse um conjunto de situações e, para avaliar como os portugueses aceitam a tortura, fazia uns inquéritos que enviaria por e-mail a uma amostra de alunos (seria o mais fácil) para eles dizerem se eram a favor ou contra aquelas situações. 

Pergunta 1 - Imagine que viaja num avião onde há uma bomba que explode quando o avião descer abaixo dos 5000m e que apenas um individuo preso em terra sabe desactivar. Daria ordens para que usassem todos os meios para o fazer falar?.

Fig.4 - O Sócrates, mesmo como reles aluno da Sorbone, nunca se apresenta como um bandalho (i.e., mal vestido como o colega da bicicleta)

Pergunta 2 - A SIDA é uma doença sem cura e mortal que apenas se transmite de umas pessoas para outras de forma, em certa percentagem, culposa. Actualmente há cerca de 35 milhões de infectados e morrem cerca de 2 milhões de pessoas por ano. Então, se, tal como fazemos com os animais, se fizesse o abate sanitário de todos os infectados (0.5% da população mundial), a doença desapareceria da face da Terra recuperando-se em apenas 15 anos os 35 milhões de pessoas abatidas.
Agora imaginemos que a SIDA se propagava de forma inexorável e que ia levar à extinção da raça humana. Será que votaria a favor do abate sanitário dos infectados?

Para nós, nós estamos primeiro e nós somos a medida da moralidade do mundo.
Quem nos quer prejudicar é amoral, é um bandalho, é a encarnação do mal, da amoralidade seja o Cavaco, o Santana Lopes os os bandalhos da direita.
Se a nossa vida está em risco nunca pensamos que isso é para o bem da Humanidade.
Então, se nós estivermos em confronto com os outro, quando existe uma situação em que a nossa vida é incompatível com a vida de outra pessoa que já consideramos imoral, deixa de haver moral.

O uso da Tortura, mesmo em democracia, é algo que consideramos moral.
 Faz-me lembrar o Obama que dizia ser Guantanamo imoral e já abateu com drones em resultado de uma decisão administrativa mais alegados terroristas que todos os terroristas que foram presos e torturados sob o governo Bush.
O que será melhor, atingir uma pessoa com um míssil ou torturá-la sem nunca pôr em risco a sua vida?
É tudo uma questão de grau e de enquadramento.

Pedro Cosme Costa Vieira

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