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quarta-feira, 26 de junho de 2013

O FED, a causalidade e as expectativas racionais

A causalidade.
Na passada quinta feira, a Semi-Nova  (amiga da minha assistente operacional doméstica), ficou viúva.
- Mas porque morreu o homem? Foi acidente de trabalho? 
A minha assistente identificou que a causalidade foi:
- Como o Sergueianev bebia muita vodka então, o fígado rebentou.
Nos últimos dias tenho andado a convencer a minha mãe de que a Semi-Nova estava boa para tomar conta de nós (ou vice-versa). Claro que a minha mãe disse logo que ela era muito feia e magrita tal e qual uma colega da minha irmã mais nova que, por ser exageradamente feia, se casou com um preso que não se cansava de repetir, Tu és a mulher mais bonita que eu conheci na minha vida.
A rapariga imaginou a causalidade:
- Como ele me ama verdadeiramente então, acha-me muito bonita.
O problema é que o dito cujo omitia o fim da frase, "que conheci na minha vida prisional". Então, quando saiu em liberdade, deixou-a para todo o sempre. A moça ficou de rastos.
Afinal a causalidade era,
- Olhando para estes gajos então, tu és muito bonita.

Fig. 1 - Tens mesmo as melhores mamocas das que se vêm por aqui.

A cadeia trouxe à mente outra causalidade.
A minha mãe teve, em tempos tão recuados que eu não me lembro, uma rapariga como empregada doméstica. Apesar de ser gorda e parecida com um sapo que acabou de comer um saco de batatas, teve um filho que, algures na adolescência, se meteu pelos maus caminhos da vida. Começou por uma estadia de 2 anos "no colégio" por atirar o irmão ao poço e agora está a cumprir uma pena de 12 anos de cadeia por assaltos com violência.
Diz a minha mãe, Quando o João Paulo sair da cadeia, vai-se meter noutra brincadeira e não tarda nada, volta para lá  porque a cadeia é uma escola do crime.

Qual será a verdadeira relação?
Sendo certo que a percentagem de ex-condenados que comete crimes é maior que a percentagem de pessoas no geral, não terá a questão ser colocada ao contrário?
R2 -> "Estadia na cadeia" ---------------------> "Maior tendência a cometer crimes"
R2 -> "Maior tendência a cometer crimes" --> "Estadia na cadeia"
Em termos aparentes.
A relação de causalidade parece ter a ver com a precedência no tempo.
Se dou uma martelada no pé e, imediatamente a seguir, sinto dor então, a martelada causou a dor.
Quando eu era pequenino, volta e meia ouvia uma sirene que lançava ondas de barulho a quilómetros de distância.
óóóóÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓóóóó
Eu, na minha curiosidade infantil, vinha à rua e logo via alguns carros a passar a grande velocidade. Pensava eu para os meus botões, parecem os grilos a sair da toca quando eu lhes encharco a casa com a mangueirinha.
 
Fig 2 - Não tarda nada, o grilo sai a toda a velocidade.

Passados poucos minutos ouvia ao longe uma sirene que, mesmo sem ver de onde via, notava que se ia movendo, tiróri, tirori, tirori, tirori.
Finalmente, percorrendo o horizonte com os meus olhinhos pequeninos (mas que viam melhor que agora), não demorava muito a aparecer fumo na direcção em que o tirori se tinha calado.
Concluía eu que a sirene dos bombeiros era a causadora do aparecimento do fumo.
Afinal o que incendiava o fósforo era o barulho de raspar a cabecinha na caixa, zzzzzzzzzzzu.

Certo dia estavam 2 amigos no café
óóóóóóóÓÓÓÓÓÓóóóóóóóó - óóóóóóóÓÓÓÓÓÓóóóóóóóó
- É pá, tenho que ir rápido.
- Então pá, dizias que nunca, já mais, nunca mesmo, nem depois de morto mas afinal tenho que concluir que sempre te tornaste bombeiro.
-Toca a sirene ---> sais rápido ---> és bombeiro!
Não é nada disso, estás completamente enganado.
- Toca a sirene ---> saio rápido ---> arranjei uma amante toda boa cujo marido é bombeiro.

Será que hoje está calor porque os metereológos o anunciaram há uns dias?
Há 3 dias estava um vento frio mas os metereólogos anunciaram que hoje iria estar muito calor.
Será que foi o anúncio que induziu a onda de calor ou os metereólogos apenas previram, bem, o estado do tempo de hoje?

A precedência temporal não indica nada.
Penso que os meus exemplos convencem  que um acontecimento verificar-se antes de outro não obriga a que exista uma causalidade entre o primeiro e o segundo podendo mesmo a relação ser ao contrário.
Para que a causalidade exista tem que haver uma razão lógica que justifique a causalidade.
No caso da sirene dos bombeiros, mais tarde vim a saber que os bombeiros tinham um sistema de alerta que detectava os incêndios antes de ser ver fumo. O fumo e os bombeiros respondiam aos mesmo acontecimento (o incêndio).
Na economia existem relações empíricas que têm uma base teórica forte (por exemplo, se uma economia tiver mais capital então, o trabalho será mais produtivo) mas outras relações empíricas apenas existem porque a variável que a precede é como o cão que ladra antes dos assaltos.

Vamos ao caso do FED e da taxa de juro.
Uma das relações empíricas que existe mas que é do tipo "cão ladra -> ladrão vai entrar pela janela", é a relação entre a restrição de liquidez do FED e o aumento da taxa de juro.
Mas mesmo que o FED não fizesse nada, a taxa de juro subiria na mesma.
A diferença é que se o banco central não actuasse, nos períodos que precedem as crise económicas a inflação ficava muito baixa e nos períodos que precedem a expansão económica, a inflação subia muito.

Basta olhar para o ouro.
Há pessoas que pensam que se a moeda fosse o Ouro, haveria estabilidade dos preços. Mas se traduzirmos o nosso salário em gramas de ouro vemos que isso não é verdade.
Em Jul2010 o SMN seria de 15.645g/mês, em Jul2011 teria diminuído para 14.265g/mês, em Jul2012 já estaria nos 11.265g/mês para voltar em Jun2013 a ser 15.645g/mês. Nestes três anos, o SMN denominado em Ouro variou mais de 10%.

Fig. 3 - Cotação do Ouro Jun2010-Jun2013 (fonte: www.gold.org

Estimado Vivendi, 
É publicamente sabido que Ben Shalom Bernanke é judeu mas não é correcto referirmo-nos a uma pessoa desta forma porque há milhares de anos que ser judeu é motivo de perseguição.
Em Outubro de 2001 fui visitar Belmonte e, vendo a sinagoga fechada, sentei-me num degrau daquela rua estreita lá ao fundo da aldeia, já quase fora do casario em ruínas. Devo dizer que a arquitectura é horrível mas o Gehry está a desenhar outra.
Indo a passar uma velhota com um manado de couves à cabeça, meti conversa e logo se lhe juntaram outras duas ou três.
- As senhoras podem-me dizer onde mora aqui a comunidade judaica?
- Meu senhor, aqui não há judeus, só há uma velhota maluca que diz isso. Isso são tudo invenções de uns que vêm de Lisboa para ouvir um marroquino que vive na casa dessa maluca. Veja lá o senhor que ele diz que é pecado comer coelho e carne de porco.
Mas o pior estava para vir.
- Alto que se calhar o senhor é um desses de Lisboa.
- Se calhar, quem sabe.
Imediatamente viraram costas e continuaram o seu caminho.
Para recordar como nós portugueses somos intrinsecamente maus, recordo aqui António José da Silva, O Judeu.
Se o Vivendi disser publicamente que é judeu (mesmo não o sendo), verá que é imediatamente posto de parte mesmo por quem nunca imaginou e passará a viver com medo.
Isso é a maior prova de que, afinal, não vivemos num mundo livre e seguro.

A causalidade macroeconómica.
O trabalho de Muth (1961) Rational Expectations and Prices Movements ao afirmar que, tal como os metereólogos, os agentes económicos usam  toda a informação que têm disponível para prever o futuro (e não uma regra adaptativa simples), causou uma revolução na Teoria Economia.
Este trabalho foi a semente da Nova Macroeconomia Clássica (que os comunas denominam por neo-liberalismo) na qual se prova que as politicas de estabilização macroeconómica são ineficazes (e.g.Kydland & Prescott, 1977).
Depois de 1961 sabemos que os agentes económicos alteram o seu comportamento antes que se observe a variável à qual eles estão a reagir. 
Por exemplo, sabendo nós que em Outubro vem o fio, em Setembro começamos a arejar a roupa de lã.
Como os bombeiros sabem que nos dias de calor a probabilidade de haver incêndios é muito maior então, antes mesmo de aparecer a mais pequena das fagulhas, já os bombeiros andam pelos matos armados com baldes de água.

No mercado monetário acontece o mesmo.
O FED e demais bancos centrais têm que manter a inflação baixa, na ordem dos 2%/ano e para isso aumentam e diminuem a quantidade de notas em circulação na economia.
A inflação ser alta ou baixa não tem grande impacto na economia mas existe o consenso de que a melhor taxa é 2%/ano. A taxa de inflação não tem significativo impacto económico porque não altera as taxas de juro reais que no triénio 2009-2011 foram de 4.3%/ano com desvio padrão de 9.9 pontos percentuais (ver, Fig.4).

Fig. 4 - Relação entre taxa de inflação e juro real, 2009-2011 (dados: Banco Mundial, estimação ponderada, 85% da população mundial)
  
Como o banco central controla a inflação.
Aumentando (ou diminuindo) a quantidade de notas em circulação, aumenta (ou diminui) a inflação.

O Juan Gomez quer saber como o dinheiro chega aos nossos bolsos.
No longo-prazo, o banco central tem uma taxa de aumento da quantidade de notas mais ou menos fixas,
Taxa de aumento da moeda = Taxa de inflação + Taxa de crescimento do PIB
Por exemplo, se o crescimento for de 2%/ano e a inflação de 2%/ano, a quantidade de moeda aumenta 4%/ano.
Como existe em circulação cerca de 10% do PIB, esse aumento é de 0.4% do PIB, 680 milhões €/ano.
O Banco central dá esse dinheiro que ao governo que compra com ele coisas, indo assim parar ao bolso das pessoas.
No curto-prazo os bancos centrais usam diversos instrumentos desde a "janela de desconto" até à compra no mercado secundário de activos (operações de open-market) passando pela alteração das reservas obrigatórias da banco comercial.

O Nemo insiste que o investimento não é igual à poupança.
Mas é sempre (mesmo que o investimento seja involuntário) porque a variação de stocks faz parte do investimento.
Não tem nada a ver com as reservas bancárias pois existe variação involuntária de stocks mesmo numa economia sem moeda.
(Pedia-lhe o favor de reler  A moeda, o Crédito, o financiamento e o juro)

Concluindo, o FED não tem nada a ver com a subida das taxas de juro 
O que acontece é que os governadores dos bancos centrais sabem que quando o risco de recessão aumenta (a crise  aproxima), as pessoas querem guardar notas como activo de refugio o que, se não for respondido rapidamente, causa a queda dos preços. Então, quando a crise se aproxima, o banco central injecta moeda no mercado monetário.
Os bancos centrais antecipam a crise usando de forma cega uma multidão de variáveis de fácil leitura num modelo de previsão do desempenho futuro da economia, por exemplo, o algoritmo rpart do R. Pegam em coisas diversas como "consumo de aço", "número de chamadas telefónicas", "carros que pagam portagem", "pluviosidade do mês anterior", etc., para prever as necessidades de liquidez.
Em sentido contrário, os governadores sabem que, quando a crise se aproxima do fim, as pessoas deixam de querer ter tantas notas pelo que há necessidade de absorver a liquidez em excesso.
Não é que a restrição de liquidez do FED tenha impacto nas taxas de juro mas o FED e a taxa de juro apenas respondem em simultâneo ao fim da crise.

Não são os bombeiros irem passear nas florestas que causam os incendios florestais mas ambos (bombeiros e os fogos) respondem ao calor e à baixa humidade.

O Ouro também antecipa o fim da crise.
O Ouro mas não existe nenhum banco central que tente manter estável os preços em Ouro. Então, a cotação do Ouro aumenta na antecipação das crises (os preços em Ouro diminuem) e a cotação diminui quando se aproxima a expansão económica (os preços em Ouro aumentam).

Fig. 5 - As mulheres boas adoram o Ouro.

Pedro Cosme da Costa Vieira

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Porque estarão as taxas de juro a subir?

As taxas de juro estão a subir. 
Olhando para a nossa divida pública de médio/longo prazo (mais de 1 ano), as taxa de juro estão a subir de forma muito pronunciada (ver, Fig. 1).
Para o prazo de 10 anos, depois de ter atingido em 20 de Maio 2013 o mínimo pós-sócrates de 5.24%/ano, decorrido apenas um mês, voltaram aos 6.80% de princípios de 2011. Não está sequer perto dos 15%/ano de princípios de 2012 mas é uma subida muito importante. Para vermos a magnitude deste aumento, se tivéssemos que amortizar 100000€ a esta taxa em 50 anos, o aumento da mensalidade seria de quase 25% (de 462.50€ para 571.02€).
Supondo que Portugal não estava, como pedem os esquerdistas, sob ajuda da Troika, teria que assumir a subida da taxa de juro o que faria a despesa pública aumentar 3100 milhões € em juros que seria mais que o corte dos subsídios de férias e de Natal dos funcionários públicos e pensionistas que vigorou em 2012 (2700 milhões €).

Será que vamos estabilizar nos 6.8%/ano?
Ninguém sabe. Se alguém disser que a nossa taxa de juro vai descer (ou subir) apenas anuncia que não percebe nada de previsões. O melhor que pode ser dito é que a taxa de juro se vai manter nos 6.8%/ano para todo o sempre com um desvio padrão na ordem de 1 ponto percentual.
Depois de uma forte tendência de descida, a subida para o patamar de princípios de 2013 (ver, Fig. 2)  traduz que os investidores estão a tentar adivinhar qual será, dentro da nova realidade da Zona Euro, o nosso perfil de risco. Apesar de toda a gente dizer que nunca sairemos do Euro e que nunca o Estado vai bancarrotar como fez o grego, o risco continua lá, ou cá.
Se o nosso patamar for os 6.80%/ano, nunca mais o nosso Estado se poderá financiar em mercado (em equilíbrio).
Cavaco, recordo-te que o FMI nos está a emprestar dinheiro a 2.50%/ano e que a taxa de mercado está nos 6.80%/ano. Não os mandes embora pois sem eles, não há massa. Será que o amigo do Seguro, o Hollande, nos empresta dinheiro a 2.5%/ano?
Amigo Seguro, em vez de mandares o Passos falar grosss à frau Merkel, fala antes tu grosso ao messeure Holland.

Fig. 1 - Evolução das taxas de juro da divida pública portuguesa  a 10 anos (fonte: tradingesconomics)

Mas nem tudo é mau.
No meio de todo o mal que representa uma taxa de juro tão elevada, o bom é que os futuros governos nunca poderão tentar ganhar votos com desvarios públicos.
Assim que apareça um governo despesistas, seja de direita ou de esquerda, imediatamente a taxa de juro vai-lhes meter uma marretada na cabeça. 

Será uma indicação de que o Passos está a descarrilar?
Talvez não porque no último mês as taxas de juro subiram pelo mundo inteiro. Por exemplo, a divida americana subiu 0.90 pontos percentuais voltando ao nível de meados de 2010 (2.50%/ano). Só pela subida da taxa de juro, não podemos dizer que o nosso processo de ajustamento esteja a descarrilar.
Eu penso que estamos a ir mais ou menos, ainda assim melhor do que eu previa em meados de 2011.

Fig. 2 - Evolução das taxas de juro da divida pública americana a 10 anos (fonte: tradingesconomics)

Mas o governo está a falar muito de flexibilização.
Será que vamos entrar pelo caminho da presidenta Dilma Rosseff de prometer dar tudo (o que não temos) a todos?
Estaremos a voltar a rever a transição de 2004 Durão Barroso -> Santana Lopes mas com o Coelho a fazer o duplo papel?
Quando até o Medina Carreira já diz que precisamos pressionar a senhora Merkel, estamos a entrar num periodo dificil.
Vamos ter fé de que isto é apenas até às eleiçoes autarquicas. Pode ser que o Passos esteja a recuar para agrupar e avançar em principios de Outubro com toda a convicção que lhe conheciamos.

Finalmente, sobre as greves às avaliações.
O governo está actuar bem pois se abrir o flanco, acontece como com as greves dos maquinistas da CP do tempo do Sócrates.
Mas a solução de fundo passa pela privatizando das avaliações.
Na América existe uma empresa privada, a ETS, que "vende" testes (o GRE e o TOEFL) cujas notas são obrigatórias nas admissões às universidades públicas e privadas não só americanas mas um pouco por todo o mundo. Por exemplo, o mestrado em economia da U. Nova, uma universidade pública portuguesa, exige o TOEFL e o GRE (ou GMAT).
Qualquer aluno que queira avaliar os seus conhecimentos e capacidades paga cerca de 150€ e faz o teste. A nota é o percentil de alunos que tiveram pior nota que o candidato. Por exemplo, um aluno que tenho 95% traduz que em cada 100 alunos, apenas 5 tiveram melhor nota que ele. 
Independentemente de o aluno vir de um bairro da lata do meio de África ou de uma mansão de Monte Carlo, faz o teste que é avaliado de forma anónima resultando uma nota fala pelo aluno.

O sistema que temos é caro e parcial.
Um professor, só dá 9 meses de aulas por ano porque tem que gastar 2 meses em avaliações, 18% do tempo lectivo. Cada professor custa em média cerca de 30000€/ano e tem 11.5 alunos (dados: 160000 professores para 1844000 alunos, Pordata). Aplicando 18% e dividindo pelos 11.5 alunos, custa 470€ por ano avaliar o aluno.
E a avaliação ao nível das escolas não é comparável.
Bastava fazer um teste que cobrisse todas disciplinas, e a coisa estava feita.

Depois aplicavam-se os rankings.
Os alunos que ficassem abaixo de um determinado percentil, (e.g., 25%), teriam um tratamento personalizado fosse isso estudo acompanhado, ensino profissional ou chumbo. Os 18% de tempo que actualmente os prefessores desperdissam em avaliações sem qualquer objectivo poderiam ser aplicadas a acompanhar estes alunos com maiores dificuldades.

Fig. 3 - Meninos, não se distraiam porque senão vão cair no percentil dos burros.

Mas ainda não disse porque as taxas de juro estão a subir.
Como a taxa de juro está a subir à escala global para os agentes económicso de menor risco de cada zona monetária (divida pública dos USA, Alemanha, China, Japão, UK e Suiça), isto traduz que o crescimento económico vem ai.
A ligação entre a antecipação de que a economia vai começar a crescer e a taxa de juro é conhecida por corolário de Samuelson.
Portanto, é uma boa notícia.

Pedro Cosme da Costa Vieira

quinta-feira, 9 de maio de 2013

A moeda, o crédito, o financiamento e o juro - parte I - O sistema bancário

Moeda não é crédito nem financiamento.
Estas coisas são totalmente distintas  mas, na mente das pessoas comuns, parecem a mesma coisa.
Haver confusão na mente das pessoas apenas indica que a Economia não é senso comum mas que tem conceitos complexos e de difícil compreensão sem um estudo aprofundado. 
A Economia trata com uma realidade tão complexa e longe do senso comum que, mesmo nas pessoas com formação em economia, existe bastante dificuldade em compreender os conceitos "básicos".
No caso da moeda, que não existe na natureza não humana (é uma criação da humanidade), existe no senso comum uma confusão total com outras realidades como, no caso, o crédito e o financiamento.
Eu já escrevi muito sobre isto (que agreguei num índice - O sistema monetário) mas, como o Ricardo Mendes me voltou a colocar esta questão com a convicção de que estava certo e eu errado apresentando mesmo um vídeo com dois homens a falar que não têm a mais pequena noção do que estão a dizer, vou ter que me aplicar a fundo para tentar que o amigo leitor fique com um pouco mais de luz.

Fig. 1 - Por falar em Luz, no Sábado vão apanhar para aí uns 5-0 do Dragão, penso eu de que.

No entanto, o pior dos cegos é aquele que não vê porque não quer ver.  Pensando no que diz o Gordon Ramsay repetidamente (do Hell's Kitchen), enquanto estivermos em negação, nunca conseguiremos ver a verdade.
Então, se o amigo leitor quer acreditar com toda a força que moeda, crédito e financiamento são a mesma coisa, se quer continuar a ver o sistema financeiro como a mesma coisa que o sistema monetário e que ambos são criações do diabo, muito dificilmente poderá ver a verdade.
Não é fácil tomar consciência que a Terra anda à volta do Sol ou que o homem teve origem no macaco, mas temos que acreditar que, com esforço, é possível derrotar a ignorância.
Não podemos ficar como as testemunhas de Jeová (ou os católicos) que não querem ver que, se nós temos defeitos, Deus também tem efeitos (diz na Bíblia : "E criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou."  Gen 1:27).
Para não ficar um texto muito pesado, neste poste vou apenas tratar do crédito, financiamento e taxa de juro e no próximo poste (Parte 2 - O sistema de preços.) vou tratar do sistema monetário e, finalmente, vou fazer a ligação entre os dois sistemas.

O que é o crédito e o financiamento.
O crédito e o financiamento são as duas faces da mesma faca.
Se eu empresto uma galinha ao meu vizinho, eu concedo um crédito (de uma galinha) passando a ser credor e ele aceita um financiamento (de uma galinha) passando a ser devedor.
Não pode haver financiamento sem crédito nem pode haver crédito sem financiamento e as suas quantidades são exactamente iguais.
Se o total de crédito concedido na economia são 100 galinhas, 3 porcos, 2 vacas e 100 alqueires de milho, o financiamento na economia são exactamente 100 galinhas, 3 porcos, 2 vacas e 100 alqueires de milho.

Fig.2 - A faca não pode existir com apenas um dos lados.

O juro.
Se eu concedo ao meu vizinho o crédito de 10 galinha, ele obtém um financiamento de 10 galinhas.
O meu problema é que se o meu vizinho for à bancarrota (por exemplo, vier uma seca), eu fico sem as minhas 10 galinhas. Então, eu quero que ele faça um "seguro de crédito" junto de uma seguradora que lhe cobra  um determinado quantitativo (o prémio do seguro), 1 galinha. 
Eu empresto 10 galinhas e, passado um determinado tempo, se tudo correr bem, o meu vizinho paga 10 galinhas a mim e 1 galinha à seguradora. Se tudo correr mal, o meu vizinho não paga nada mas a seguradora paga-me as 10 galinhas. Então, a seguradora assume o risco do crédito podendo ter um  um prejuízo de 10 galinhas (com a probabilidade p) ou um lucro de 1 galinha (com a probabilidade 1-p). Em termos esperados, a seguradora exige 1 galinha porque antecipa um risco de 9.091% de bancarrota total:
       1 x (1 - p) -10 x p = 0   => p = 9.091% (equivalência que faz o lucro esperado nulo).

Agora sou eu, o credor, a seguradora.
A ser assim, tendo emprestado 10 galinhas, se tudo correr bem, vou receber (como diz no contracto) 11 galinhas. Então, vou receber o capital (10 galinha) mais 1 galinha de juro.
Mas essa galinha não é nenhuma exploração do devedor pois pode pedir as galinhas a outro qualquer. O juro é apenas o prémio que a seguradora levava para assumir o risco. Agora, O risco fica por minha conta, se o devedor for à bancarrota, eu não recebo nada.
Em termos económicos, naturalmente que os devedores com mais risco terão que pagar uma taxa de juro maior senão, os devedores adoptarão estratégias demasiadamente arriscadas.

Haverá casos de juros exagerados (usura)?
Quando nós estamos a nadar no mar e começamos a afogar, se quem nos for salvar nos exigir uma avultada soma de dinheiro, nós somos obrigados a pagar para não morrermos. Parece que, se não conseguíssemos pagar uma pipa de massa, morreríamos afogados.
Mas não é isso que aconteceria.
Primeiro, tomávamos mais cuidado. Apenas nadávamos em dias de águas calmas, com bóias e próximo da costa -> não assumíamos tantos riscos.
Segundo, se morrêssemos, o socorrista não receberia nada. É o problema do monopolista que, apesar de querer cobrar um preço muito alto, vai ter que moderar o preço porque tem que vender para ter lucro.
Terceiro, apareceriam muitos nadadores-salvadores. Como a profissão de nadador-salvador seria muito lucrativa, apareceriam mais pessoas, em concorrência, capazes de socorrer os náufragos o que diminuiria o "preço" de sermos socorridos.

Quarto, íamos nadar onde houvesse maios salvadores. Como havendo concorrência, conseguíamos um salvamento mais barato, os banhistas juntavam-se onde houvesse mais nadadores e os nadadores juntavam-se onde houvesse mais pessoas: o mercado aglomerava-se em multidões de náufragos e de salvadores, todos em concorrência.

Fig. 3 - As mulheres boas aproveitam-se da situação de necessidade dos homens.
Mas se não houvesse preços diferenciados, as mulheres não se tratavam e as putas feias e gordas não tinham saida nenhuma.

No crédito/financiamento passa-me algo semelhante - É a taxa de juro real.
Se houver no mercado poucas pessoas a querer emprestar galinhas e muitas pessoas a precisar de pedir galinhas emprestadas, o juro virá superior ao prémio do seguro de risco, juro > 1/(1-p).
Se, pelo contrário, houver no mercado muitas pessoas a querer emprestar galinhas e poucas pessoas a precisar de pedir galinhas emprestadas, o juro virá inferior do prémio do seguro de risco, juro < 1/(1-p).
Esta diferença é a taxa de juro real, aquela que, sem risco, traduz um ganho (se for positivo) ou perda (se for negativo) patrimonial de quem concede o crédito com uma contrapartida em quem pede emprestado. Cada galinha que o emprestador perde, é uma galinha que o devedor ganha e vice-versa.
Não existe qualquer perda para a sociedade por a taxa de juro real ser alta ou baixa pois o ganho de uns é sempre a perda de outros. É apenas uma questão de re-distribuição.

É importante que a taxa de juro real varie ao longo o ciclo económico.
Vamos supor que a produção oscila ao longo dos anos (igualmente para todas as pessoas) e que não é possível constituir stocks (a arca frigorífica está avariada). No ano bom cada pessoa produz 600 galinhas e no ano mau produz apenas 130 galinhas.
Como as pessoas querem comer sempre o mesmo (1 galinhas por dia) e não podem constituir stocks, vão querer emprestar 235 galinhas no ano bom para terem 365 galinhas (130+235) no ano mau.
O problema é que no ano bom toda a gente quer emprestar galinhas e ninguém quer pedir galinhas empestadas e, no ano mau, ninguém tem galinhas em excesso para pagar o financiamento obtido no ano bom.
Então, a taxa de juro real do ano bom tem que ser muito inferior à taxa de juro do ano mau.
Por exemplo, vou fazer um contracto em que emprestando 10 galinhas no ano bom, vou receber 3 galinhas no ano mau (uma taxa de juro de -70%). Outro contrato pode dizer que, se eu emprestar 10 galinhas no ano mau, vou receber 30 galinhas no ano bom (um juro de 300%).
Se a taxa de juro fosse sempre igual, por exemplo, 0%/ano, o mercado de crédito/financiamento deixava de existir pois era muito elevado (não haveria devedores potenciais) nos anos bons e muito baixo nos anos maus (não haveria credores potenciais).

E qual é o objectivo dos bancos comerciais?
O seu objectivo é apenas comprar e vender galinhas mas a crédito/débito e fazer seguros de crédito.
Eu não quero risco pelo que, querendo emprestar uma galinha, vou ao banco e deposito-a.
Outra pessoa quer pedir uma galinha emprestada, vai ao banco e, mediante o pagamento do "prémio do seguro de crédito" (um juro que é crescente com o risco de bancarrota do devedor), o banco empresta-lhe a galinha.
Repito que eu podia emprestar a galinha directamente à pessoa que a quer emprestada e fazer eu o seguro (cobrar o juro). Mas, como o banco tem muito movimento, consegue diversificar o risco do negócio.

Vamos supor que 9% dos devedores vão à bancarrota.
Se eu empresto 10 galinhas, tenho 9% de probabilidade de o meu devedor ir à bancarrota e eu ficar sem nada.
Se 100 pessoas depositarem cada uma 10 galinhas no banco (juro zero) e o banco emprestar 10 galinhas a 100 clientes diferentes (um total de 1000 galinhas) cobrando um juro de 10% então, se 9 pessoas bancarrotarem (os tais 9%), o banco recebe 1001 galinhas podendo devolver 10 galinhas a cada depositante (o banco tem 1 galinha de despesas administrativas).
O depositante das galinhas recebe apenas 10 galinhas mas recebe-as sempre.
Se os devedores não pagarem ao banco, é o capital dos seus donos que responde pela perda. Mas também se pagarem todos, o lucro vai para o banqueiro.

Será preciso crédito para haver crescimento económico?
Afirmar isto é uma loucura semelhante à afirmação do Sócrates de que "produzir electricidade com o vento não custa dinheiro ao país" para depois fazer contractos em que enfia pipas de massa no bolso dos gajos dos vira-ventos. Se não custava nada, não era preciso fazer contracto que agora nos obrigam a pagar milhões todos os dias.

Vamos então ao crédito para o investimento.
Para haver crescimento económico tem que haver mais trabalho (mais pessoas e mais horas por pessoa) e mais capital.
Se eu sou agricultor, para produzir mais nas 70h/semana que trabalho, tenho que melhorar o meu sistema de rega e fazer socalcos que consigo investindo parte do meu tempo de trabalho nestas coisas.
A necessidade do crédito/financiamento deriva de a maior parte das pessoas não querer assumir riscos. Quer ser empregado por conta de outro com um ordenado fixo ao fim do mês e quer que as galinhas que emprestam voltem com certeza quando chegar a hora.
Por exemplo, eu podia ter uma empresa com 100 trabalhadores com 5000 galinhas de capital sem qualquer financiamento se cada um dos trabalhadores fosse dono de 1% do capital (cada trabalhador metia 50 galinhas na empresa). Mas isso tinha risco.
Como a grande maioria das pessoas quer um rendimento fixo, arranja um emprego (tenta) e deposita as suas galinhas num banco. Depois, há um empresário que pede as galinhas emprestadas ao banco, paga um juro que cobre o seu risco de bancarrota, e fica ele dono de 100% da empresa.

Vejamos os exemplos da privatização da TAP (dos ENVA ou da RTP).
Quando o Eframovich disse que dava 20 milhões € ao Estado, os 12 mil trabalhadores que vieram dizer que o preço era baixo, que a TAP era muito lucrativa, blá, blá, blá, blá e que o Passos estava a vender uma fortuna por tostões deveriam ter dito:
 - Nós damos esse dinheiro e a TAP fica nossa. Afinal só calha 1650€ a cada um.
O problema é que os salários passavam a ser variáveis: se a TAP desse prejuízo (como vai continuar a dar), eram eles que entravam na madeira e não nós contribuintes.
Repito a pergunta que fiz há uns meses àqueles comentadores que disseram que a TAP era muito lucrativa (onde se inclui o meu ex-amigo de não sei que universidade americana).
A TAP devolveu aqueles 100 milhões de euros ao Tesouro "necessários apenas porque estava no processo de privatização"? Não me parece.

Para haver crédito aos investidores, tem que haver poupança das famílias.
E não há. Ainda se acrescenta o facto da balança corrente estar equilibrada (não estou a dizer que isso é mau).
Não haver poupança das famílias é o problema mais grave da nossa economia (ver, Fig. 4). Como todos os anos parte do capital se torna obsoleto (estimado pelo WB em 18% do PIB) e a nossa poupança é de apenas 11% do PIB então, cada dia que passa o nosso trabalho torna-se menos produtivo porque os equipamentos ficam envelhecidos.
É bonito os esquerdistas virem para a televisão apregoar que "os salários têm que aumentar para aumentar o consumo" mas depois não há poupança, sem poupança não há investimento, sem investimento a produtividade do trabalho diminui e, conclui-se pela necessidade de os salários terem que diminuir. Não diminuem e o povo vai para casa ver os esquerdistas na televisão a apregoar que os salários têm que aumentar.

Fig. 4 - A poupança em Portugal está muito baixa (a depreciação do capital é de 18% do PIB e a poupança bruta é de 11% do PIB, dados: Banco Mundial)

Como se equilibra o mercado de crédito/financiamento?
A situação neutra é ter uma taxa de juro (sem risco) nula e a taxa de juro ser uma compensação pelo risco de bancarrota de cada devedor. Os devedores com mais risco terão que pagar mais juros (pelo menos é o que diz o contracto pois, em caso de bancarrotarem, não pagam nada) e os com menos risco terão que pagar menos juros.
No entanto, se houver muita poupança das famílias e poucas ideias de negócio (pouca propensão a investir), a taxa de juro desce abaixo de zero.
É esta a situação que vivemos actualmente e deve-se ao facto das famílias asiáticas, principalmente as chinesas, pouparem muito e o PIB da China estar a crescer muito (um PIB maior faz com que a poupança da china, em termos mundiais, fique maior). Então,  existe uma quantidade crescente de crédito disponível com origem na Ásia e nos países ocidentais (onde a poupança está historicamente baixa) não existem ideias para novos investimentos.
Somando a poupança do Japão com a da China e da Índia (que ainda é uma pequena economia mas está a crescer), entre 1980 e 2000 a poupança esteve estável em 15 PIBs portugueses ( a China subiu mas o Japão desceu) mas, desde 2000, a poupança destes 3 países duplicou para 30 PIBs portugueses (ver, fig. 5).

Fig. 5 - A poupança do Japão + China + Índia em PIBs portugueses (dados: Banco mundial)

O que precisa de muito capital é a indústria. Como na Europa não existem projectos industriais de monta, as oportunidades de investimento na Europa são poucas. Então, a tendência é uma diminuição da taxa de juro sem risco que, em termos reais, já está negativa independentemente de estarem dentro (a Alemanha) ou fora do Euro (o Reino Unido), ver Fig. 6.

Fig. 6 - Na Europa os juros (sem risco e sem inflação) estão negativos e o que Portugal paga é risco de bancarrota (dados, EUROSTAT)

Concluindo?
Tal como foi difícil meter na cabeça que o Sol não andava à volta da Terra porque era isso que se via todos os dias e meter na cabeça que a humanidade vem do macaco e não de Deus, também é difícil separar a da moeda da questão do crédito e financiamento.
Mas por ser difícil não quer dizer que quem confunde os conceitos está  está certo.
Neste poste não falei de nada que fizesse lembrar euros para verem que não são necessários para termos a economia a funcionar.
Se não falei de euros então, o sistema monetário (os euros) não tem nada a ver com o sistema bancário.
Nada, absolutamente nada. Antes de a humanidade ter inventado a moeda já existiam bancos (intermediários entre quem precisa poupar e quem precisa de pedir emprestado galinhas).

Os esquerdistas.
Tal como o vendedor da banha da cobra que explica como a banha consegue curar todas as maleitas, também existem Batistas da Silva, Sócrates e Galambas que explicam como funciona a economia mas que não percebem nada do assunto.
Quem sofre de uma doença terminal quer acreditar que a banha da cobra o vai corar mas não vai. Também quem vê o seu rendimento ameaçado quer acreditar que a culpa é do Passos Coelho e que o Seguro vai por outro caminho qualquer e que ficamos logo safos.
Mas como diz repetiamente o Gordon Ramsay,
 - Where did you get this fucking idea of "the other way"? That is bullshit, it looks like a crushed dick with dry bullshit on the top where you just pissed in the middle of fucking nowhere.

Fig. 7 - Vamos focalizar e concentrar porque, 6 anos de aplicação dessas teorias alucinadas e a conversa do "outro caminho" levaram o país à bancarrota.

Temos que meter as galinhas na cabeça.
Para compreendermos o crédito/financiamento e como funciona este mercado (em que o preço é a taxa de juro) temos que esquecer que existe dinheiro ou que o preço das coisas é em unidades monetárias.
Só depois de libertos das unidades monetárias é que nasce uma pequena esperança de que estes conceitos complexos e que não são do senso comum possam entrar na dick's head dos esquerdistas.

Fig. 8 - Nós somos esquerdistas e acreditamos que o PEC IV do Sócrates nos tinha salvo  e que quando o Seguro mandar, vai terminar com a austeridade e dar  inicio ao "outro caminho" que nos vai tornar a maior potência económica do Mundo.

Ver a Parte 2 - O sistema de preços.


 
Pedro Cosme Costa Vieira.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Hoje estive no ICBAS

Há uns dias recebi um e-mail da Carolina Tintim a convidar-me para fazer uma apresentação no ICBAS - Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar. A Carolina é aluna do 2.º ano de medicina e membro da comissão de ano e desafiou-me a que eu falasse de algum assunto que interessasse aos colegas.
A organização foi extraordinária o que se traduziu por terem conseguido o Salão Nobre e por terem (ligeiramente) mais de 100 pessoas a assistir.
Quando cheguei ao ICBAS, no ex- CICAP, não reconheci o terreno. Entrei num edificio totalmente novo e, conforme instruções da Carolina, dirigi-me à segurança onde lhe falei que ia por causa de uma apresentação que ia haver no Salão Nobre.
- "Não, aí não é possível porque vem um professorão da Faculdade de Economia" 
Era eu mas não parecia.

Depois veio a Carolina
E lá fomos para a sala.
Eu quase sofro de agarofobia pelo que, quando cheguei lá, comecei a suar.
Mas tirei a roupa, contei umas graças e lá controlei a coisa.
A minha apresentação foi muito extensa (mais de 90 minutos) mas as pessoas mostraram-se sempre atentas.
No final ainda houve muitas perguntas interessantes.
Safei-me.
A apresentação foi filmada pelo que, qualquer dia, está disponível algures na Net.




Fig. 1 - Até fizeram um poster todo bonito

Poupança, Investimento e Taxa de Juro
A apresentação em Power Point está aqui.

Falei de um pouco de Economia para justificar a razão de as pessoas pouparem.
    1 - O ciclo de vida;
    2 - O risco de problemas futuros (e.g., desemprego e doença)
    3 - Precisarem de comprar bens duráveis.
Referi ainda que a Segurança Social, por diminuir o risco e pagar reformas, é a principal causa da diminuição da nossa poupança e natalidade.

Fig. 2 - A poupança tem diminuído desde que entramos na União Europeia (dados: Banco Mundial)

Fig. 3 - Ter filhos também é um poupança/investimento (dados: Banco Mundial)

Apresentei conceitos à volta daa taxa de juro
Apresentei o conceito de TAE- Taxa Anual Efectiva como a uniformização dos juros a uma taxa anual e referi a taxa nominal.
Distingui taxa bruta de taxa líquida.
Falei da diferença entre juros (bem fungível), aluguer (bem móvel não fungível) e renda (bem imóvel não fungível).

Fiz uma aplicação a um investimento
Penso que seria este o interesse maior dos alunos.
Fiz uma pequena análise de um investimento em que calculei, em directo no Excel, a TIR-Taxa Interna de Rentabilidade.

Fig. 4 - Um pequeno investimento

Finalmente, falei dos bancos.
Como já estavam a ficar cansados, só dei um cheirinho do sistema bancário referindo que os bancos (e a moeda) são apenas intermediário nos contractos de crédito.
Tal como as bombas de gasolina só podem vender combustível se o camião da Galp vier atestar os tanques, também os bancos apenas podem conceder crédito se alguém for depositar lá dinheiro.
Como a poupança tem diminuído, não é possível que os bancos respondam aos pedidos dos esquerdistas de conceder mais crédito às empresas.
Não se pode pedir que aumente o consumo (e diminua a poupança) e que aumente o investimento pois o investimento é sempre igual à poupança.

Isto tudo faz parte da minha militância política.
Em 2010 dei conta que Portugal estava a caminhar para o abismo e que o povo português continuava não dava conta disso. Mas não me achava capaz de alterar as coisas.
Depois, pensando nas pessoas desses países distantes que dão a vida a combater o que acham errado, identifiquei que este blog poderia ser a minha arma de intervenção cívica.
Desde então tenho dedicado centenas de horas à escrita e, de vez em quando, vou falar aqui e alí.
No fundo, no meio de África, trabalhando o mesmo que trabalho, o meu rendimento seria muito inferior pelo que eu tenho que retribuir à sociedade que permite eu ser mais produtivo (?). É este o meu pequeno contributo para a sociedade.
Por isso, muito obrigado à Carolina e às colegas que organizaram este evento.

(Amanhã vou falar à secção do PSD de Paranhos sobre novos modelos de financiamento do ensino público)

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Portugal saiu da situação de emergência e entrou nos Cuidados Intensivos

Desde 2002 que Portugal se mostrava doente.
Tinha o desemprego, o endividamento externo, o défice público, a despesa pública, o défice das empresas públicas, as falências e a dívida pública muito elevados e sempre a crescer.
A doença foi-se agudizando até que, em princípios de 2011, Portugal entrou em situação de emergência: a capacidade de captar financiamento do Estado e dos privados (via, Bancos e grandes empresas) esgotou-se.

Portugal entrou em "paragem cardio-respiratória"
Sem financiamento externo e sem poupança interna, a economia ameaçava entrar rapidamente em colapso e a bancarrota do Estado estava eminente o que forçou o Teixeira dos Santos a pedir ajuda aos nossos parceiros (do FMI, BCE e UE) e obrigou o Sócrates a demitir-se.


O que o Sócrates precisava era de muito dinheiro e rápido.
O Sócrates assinou o Memorando de Entendimento com a Troika. Mas desde que foram derrotados, os do PS têm vindo a negar apoio à implementação de medidas que estão escritas desde a primeira hora nesse memorando.
Vejamos, por exemplo, a proposta do Governo de diminuir as indemnizações por despedimento para 12 dias/ano. O Memorando de Entendimento assinado pelos do PS diz exactamente:

4.1. Severance payments.
    iii.By Q1-2012, the Government will prepare a proposal aiming at:
    - aligning the level of severance payments to that prevailing on average in the EU;   

     On the basis of this proposal, draft legislation will be submitted to Parliament no later than Q3-2012.

Está mesmo lá escrito, no Memorando inicial, o assinado pelo Sócrates.
Como na UE a indemnização está à volta dos 12 dias/ano (depende dos anos de trabalho), o PS só poderiam estar descontentes por o Sócrates ter assinado o Memorando sem ler.
A proposta tinha que ser apresentada no primeiro trimestre de 2012 (e veio apenas no quarto) e já deveria estar implementado. O Sócrates assinou isto e, como a sua especialidade era "Inglês Técnico", sabia bem o que estava a assinava
Estão a perceber o tipo de pessoa que nos governavam. Eram (tóxico)dependentes de endividamento, capazes de dizer e assinar fosse o que fosse para caçar mais uns cobres sabendo que nunca iriam cumprir nada.

O Seguro não é demagógico.
Aceitando (em tese) que o Seguro não é demagógico, apenas se compreende tal comportamento porque era tanto o desespero dos "negociadores" do PS que  nem se deram ao trabalho de ler o que estava escrito no Memorando de Entendimento.
Assinaram de cruz.
E, desde então, o Seguro tem estado tão distraído com a crise do Sporting que ainda não arranjou um tempinho para ler o memorando.

E o colossal aumento dos impostos?
O Seguro dizer "o PS votou contra o OE2013 porque discorda totalmente com a subida colossal dos impostos e os cortes dos salários e das pensões" depois vir dizer, com cara de pasmado, de que "se eu for governo não desço os impostos", é de uma pessoa séria.
Demagógico seria o Seguro dizer que "mal chegue ao governo anulo a colossal subida de impostos do OE2013 e reponho imediatamente os subsídios de ferias e Natal aos funcionários públicos e pensionistas porque o PS votou contra essas medidas".

- Não está lá escrito nada disso. O camarada Sócrates nunca assinaria isso. Isso é ser mais troikista que a troika.

O Seguro é um mau estratega político.
Por palavras simples, é burro como um tamanco.
As pessoas que condicionam o seu comportamento ao querer agradar a toda a gente, acabam por se tornar inconsistentes.
Cada um de nós tem que seguir o seu caminho. Devemos apresentar a nossa visão sobre o mundo e, se alguém não gostar, paciência. Não podemos agradar a toda a gente, felizmente.
Se o nosso caminho for sério, havemos de encontrar alguém, nas mais de 7000 milhões de pessoas que há no mundo, que no compreenda e apoie. Se procuramos a fachada de agradar a toda a gente, seremos grelhados em fogo brando.
O Seguro está a ser toureado. Pensando que o povo o está a aplaudir, de facto está a aplaudir o toureiro. Mais cedo que tarde, vão as orelhas para o Costa, o rabo para outro, as patas para ainda outro qualquer e  a carne está no assador.

Nos últimos meses, Portugal mexeu os olhos e já saiu do estado de coma.
Está como o Hugo Chaves que continua tecnicamente vivo mas há semanas que ninguém credível o viu  vivo. Se está assim vivinho como a sardinha, era de chamar os jornalistas para repetir em alta voz:

  - Bush, you are a dunky, dunky, dunky. Americans you are dunkies, fuck you"

Mais valia embalsamarem-no, electrificarem-no com um i-phonix e continuar com a cassete de sempre.
Afinal, o que é estar vivo?

Jesus continua vivo no meio de nós depois de, na sexta-feira de Páscoa de 0034, ter sido dado como morto!

3 Outubro 2012 - A extensão de 3.76M€ em 3 anos a 5.11%/ano (uma parte da dívida feita pelo Guterres contraída há 15 anos a 5.75%/ano) correspondeu ao paciente abrir os olhos (fonte)

21 de Novembro 2012 - A emissão de  1200M€ a 18 meses à taxa de 2.99%/ano correspondeu ao paciente ter-se virado sozinho na cama (fonte).

16 Janeiro 2013 - A emissão de 1000M€ a 18 meses à taxa de 1.96%/ano correspondeu ao paciente dizer "o Pinto da Costa é o meu pai" (fonte).

23 Janeiro 2013 - A emissão de 2500M€ a 5 anos a uma taxa de 4.891%/ano correspondeu ao paciente perguntar "diga-me sr. doutor, o meu Sporting, agora que é treinado pelo Domingos Paciência, quantos pontos tem de avanço sobre o Porto?" (fonte)

Acabou a situação de emergência.
Já não existe o risco de amanhã de manhã não haver dinheiro nas caixas multibanco.
Acabou o risco de dia 25 os salários da função pública e as pensões não serem pagos.
Mas a situação mantém-se muito grave.
A pressão arterial deixou de diminuir porque se fez um garrote em ambas as pernas (o corte nas importações e no consumo), a acidez do sangue começou a estabilizar porque se usa respiração forçada (o apoio do BCE e da Troika) mas se não se pode continuar a viver assim porque as pernas vão gangrenar e os pulmões infectar (a economia vai continuar estagnada).
As doenças que tornaram o desemprego crescente desde 2002 têm que ser resolvidas para que a economia portuguesa consiga re-arrancar.

Mas 4.891%/ano ainda é muito elevado.
Há milhares de pessoas a pagar o seu crédito à habitação a uma taxa inferior a 1%/ano. São 321€/mês por cada 100 mil € de empréstimo se o período de amortização for de 30 anos. À taxa de 4.891%/ano seriam 5,24€/mês.
A Alemanha paga 0.60%/ano, 304€/mês.
Neste crédito hipotético, os 4.891%/ano corresponde a pagarmos 73%  mais que a Alemanha paga.

Porque não foi o financiamento feito a 18 meses?
Neste prazo já conseguimos uma taxa de juro bastante boa (abaixo da taxa de inflação do Euro).
Mas se imaginarmos toda a nossa dívida de 210MM€ transformada em títulos de 18 meses, o rollover obrigaria a  "ir" aos mercados mensalmente colocar 12MM€.
Era possível.
No inicio de cada semestre, o governo criava 70MM€ de uma série de títulos inicialmente a 20 meses e ia colocando-os ao longo do semestre para fazer a reforma da dívida vencida.
Apesar de ser possível, o Gasparzinho acha arriscado pois e poderia transmitir a ideia que o governo não acredita no efeito a longo prazo das medidas que está a tomar.
O Gasparzinho acredita que o efeito psicológico positivo da colocação da dívida a 5 anos é superior ao custo acrescido que é preciso pagar. Por isso é que só colocou 2.5MM€ neste prazo.

O responsável pela descida da nossa taxa de juro é o Draghi ou o Passos?
É a velha questão de saber se quem nasceu primeiro foi o ovo ou a galinha.
Não será por estarmos a implementar as medidas correctas que o BCE disse que aceitava a divida pública portuguesa (grega e irlandesa)?
Eu penso que sim.
Na minha visão, a cadeia de eventos foi:
1) O Passos actuou bem e Portugal começou a reagir
    1.1) As contas externas começaram a equilibrar
    1.2) O défice começou a reduzir
    Não nos podemos esquecer que fechamos 2012 com 5% e em 2009 e 2010 foi de 10%
2) Alemanha gostou
3) o BCE anunciou a compra de divida pública, se necessário
4) Juntando 1) e 3), a taxa de juro desceu
5) Juntando 1) e 4) a sustentabilidade financeira de Portugal melhorou
6) a Taxa de juro continuou a descer.

Sem 1) não haveria 2) e nunca aconteceria 3).
Tenho a certeza absoluta que se o Passos tivesse seguido o caminho do Sócrates, o BCE não nos aparava o peão.

As nossas contas com o exterior equilibraram. Mil vezes melhor do que eu alguma vez antecipei, em 2010, ser possível. O.F., tinhas razão.

O que precisamos fazer agora?
Agora passamos para os cuidados intensivos e ainda é preciso fazer muita coisa e dolorosas para voltarmos a ser um país normal.
Custou, começando em 2010 com 17000MM€, custou muito nas nossas vidas fechar 2012 com um défice de 8328.8 milhões € (e ainda assim, com medidas adicionais).
Isto é apenas metade do caminho pois é preciso ter um défice, sem medidas adicionais, abaixo dos 1000M€.
Mas já estamos a meio do caminho.
Imaginemos os cortes que já tivemos (o meu corte foi de 31.5% do salário).
Estamos a meio do caminho!

Porque será que o Passos desitiu de privatizar a RTP?
A missão do Passos+Gaspar é hercúlea e, aqui e ali, há pedras que têm que se deixar no meio do caminho. É preciso cortar a despesa pública em mais de  20 mil milhões € e fazer grandes reformas para Portugal poder crescer mais que nos anos 2000-2013.
E essa missão não pode ser posta em perigo por uma pequena pedra aqui ou acolá.
Aconteceu isso com a RTP. O anúncio da privatização causou muito ruído mas o PS cometeu a gafe de dizer que era possível ter uma RTP sem défice crónico.
Então, vamos a isso.
Pedro Cosme Costa Vieira

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Portugal já saíu da Zona Euro

Repetidamente os meus colegas chacotam-me perguntando se "é hoje que saímos da Zona Euro".
Os desgraçados gozaram-me à brava quando eu disse, no final de 2011, que O fim do euro é no Domingo às 20h não tendo dado conta que, juntamente com a Espanha, a Itália e o outros bancarroteiros, o nosso processo de saída da Zona Euro tinha começado em 2008 e que, apesar de ter sido um processo lento e oscilante, ficou concluído exactamente em finais de 2011.
Neste momento já só fazem parte da Zona Euro a Alemanha, a Finlândia, o Luxemburgo e a Holanda.
O erro de percepção dos meus colegas e demais pessoas resulta de não ter havido uma cimeira em que a questão tivesse sido decidida e de não ter sido pré-anunciada uma data de efectivação da saída.
A nossa saída foi decidida e materializada pelo "mercado" que, lentamente, nos foi excluindo desse grupo de elite.

Fig. 1 - Fui expulsa porque dominei a bola à margem das regras do futebol

É como o Fim do Mundo que as pessoas estão à espera que seja algo espectacular e vai ser apenas um "já desligamos a máquina".
O Fim do Mundo começou quando fizemos 25 anos mas não o queremos aceitar.
Lá vem uma dorzita aqui, um cabelo branco acolá, uma noite de insónia, um dente furado, depois a coisa agudiza-se tornando-se mais frequente e intensa e, por fim, damos conta que estamos numa missa deitados de barriga para cima, a olhar para o tecto da igreja e que os nossos parentes estão a discutir a partilha dos nossos bens. 
Pumba, só aí damos conta que o fim do mundo foi ontem.

Fig. 2 - Tal como sair da Zona Euro, não ficamos velhos de um dia para o outro.

Apesar de em Portugal continuamos a usar as notas de Euros, de facto já estamos fora do clube do euro.
Estamos no patamar do Monte-Negro e do Kosovo que usam Euros mas que nem sequer chegaram a entrar na Zona Euro.
Também os marroquinos usam Euros e Dólares.
A actual "crise da dívida soberana" Espanhola e Italiana é apenas o voltar à tendência de longo-prazo que se vivia nos anos anteriores à sua entrada na Zona Euro.

Ontem é que foi uma noite de bebedeira!
Um homem sai do bar, altas horas da noite e pumba, cai.
Tenta levantar-se e andar mais uns metro e pumba, cai outra vez.
Decidir então arrastar-se até casa. Entrar de mansinho para a patroa não dar conta e deita-se.
No dia seguinte diz a mulher.
- Então meu marmanjo, ontem é que foi bebedeira forte. Para trabalhares, não podes, mas para a bebedeira, estás sempre pronto.
Contando o homem com o facto da mulher ter um sono pesado como uma porca diz:
- Eu, eu, eu, eu, não, não, não, foi só um cervejita.
- Foi, foi. Se foi assim, como justificas o homem do café ter telefonado a dizer que te tinhas esquecido lá ontem da cadeira de rodas?

Fig. 3 - Se beber, terá dificuldade em avaliar se está dentro ou fora da Zona Euro.

Como se dá conta de que já estamos fora da Zona Euro?
Quando o Cavaco, em 1992, justificou o processo de convergencia nominal com os países da futura Zona Euro (baixar a taxa de inflação para 2%/ano), foi afirmado que, ao entrarmos neste clube de elite económica, as nossas taxas de juro reais iriam diminuir aproximando-se das da Alemanha.
Iríamos entrar na zona monetária do Marco Alemão.
Ficou implícito que saberíamos se tínhamos sido aceites na Zona Euro quando as nossas taxas de juro fossem iguais às dos alemães.
Usando o spread para a taxa de juro de longo prazo média entre a França e Alemanha, vemos que isso realmente aconteceu (fonte: BCE). No princípio da década de 1990, a taxa de juro média entre a Alemanha e a França era de 7%/ano e Portugal, Espanha e Itália éramos semelhantes entre nós com um spread relativamente a essa taxa de juro dos países centrais da União Europeia de 3.7%/ano (ver fig. 4).
A Irlanda estava muito melhor com um Spread de apenas 0.9%/ano (ver, Fig. 4).
A Grécia já tinha um spread muito mais elevado, de 12.5%/ano (não cabe no gráfico).

Fig. 4 - Spread entre a taxa de juro dos PIIGS e da Alemanha e França (dados: OCDE)

Entre 1998, quando estávamos na Zona Euro, os spreads de todos os países da Zona Euro, incluindo o nosso, ficaram reduzido a quase zero (ver, Fig. 4 e Fig. 5).
Essa redução nos spreads mantém-se actualmente apenas para os FiLHos da Alemanha (Finlândia, Luxemburgo e Holanda), estando todos os outros países acantonados em diversos patamares.

FiLHos + Alemanha são a Zona Euro (spread  < 0.5 pp)
     Finlandia, Luxemburgo e Holanda
Tremidos (0.5 pp < spread < 1 pp)
     Aústria e França
Com um pé dentro e outro fora (1 pp < spread < 2.5 pp)
     Belgica, Malta e Eslováquia
 Já estão fora da Zona Euro (2.5pp <spread < 4pp)
     Chipre, Espanha, Eslovénia e Itália

Já estamos a milhas da Zona Euro
     Irlanda (7pp), Portugal (9pp)  e Grécia (16pp)

Fig. 5 - Dispersão das taxas de juro entre os países da Zona Euro, 1993/2013 (dados: BCE)


No princípio de 2008, fomos, lentamente, empurrados borda fora da Zona Euro.
O processo de entrada na Zona Euro aconteceu entre 1995 e 1998 e reverteu-se entre 2008 e 2011.
Os actuais 6%/ano a 7%/ano exigidos pelos aforradores à Espanha e Itália traduzem a convergência para o spread de 3.7%/ano relativamente às taxas de juro da Alemanha+França que vigorava antes da entrada na Zona Euro.
A tendência, mantendo os 3.7%/ano do spread, diminuiu de 10.9%/ano para 6.5%/ano porque, em termos mundiais, a taxa de juro teve uma tendência de diminuir.

Fig. 6 - O Sr. podia-me empurrar um bocadinho para fora da Zona Euro

As mentes levesinhas dizem que a taxa de juro da Alemanha diminuiu por causa do Euro.
Isso não tem qualquer aderência à realidade pois as taxas de juro diminuíram em toda a parte do mundo.
Se nos concentrarmos na União europeia, as taxas de juro diminuíram não só na Alemanha como, na mesma proporção, na França (que entrou para a Zona Euro) e no Reino Unido (que ficou de fora) (ver fig. 7).

Fig. 7 - A taxa de juro de longo prazo desceu 6 pp nos últimos 20 anos (dados: OCDE)

Porque será que a taxa de juro tem descido no Mundo?
A teoria económica tem dias respostas para isso: a descida da taxa de crescimento do PIB mundial e a descida da taxa de inflação.
1. As pessoas dão mais valor ao Presente que ao Futuro.
Imaginemos que chega à hora do Almoço e propõem-lhe que adie a refeição em troca de comer o dobro ao Jantar.
Não vai aceitar isso porque dá mais valor ao presente que ao futuro.
A grandeza macroeconómica que equilibra a nossa preferência do presente face ao futuro é a taxa de juro.
Por exemplo, se a taxa de juro é 10%/dia então, consumir hoje uma coisa cujo preço é 10€ é equivalente a consumir a "mesma" coisa amanhã que terá um preço equivalente a 9.1€ actuais.
Então, se uma pessoa ganhar 20€/dia, haverá uma taxa de juro que faz com que a pessoa gaste exactamente 20€/dia, chamemos-lhe B.
Se a taxa de juro de mercado for menor que B, a pessoa endivida-se. Se for maior que B, a pessoa economiza.
2. Se as pessoas antecipam que o rendimento vai aumentar, B aumenta e vice-versa.
Se uma pessoa ganha 20€/dia este ano e antecipa que no próximo ano vai ganhar 100€/dia então, vai querer antecipar o poder de compra que vai ter no ano seguinte endividando-se.
Pelo contrário, se antecipar que o rendimento vai diminuir, a pessoa vai querer adiar o consumo, poupando.
Como a taxa de crescimento da economia mundial tem diminuído então, há uma tendência para a taxa de juro diminuir.

Fig. 8 - A taxa de crescimento do PIB mundial reduziu 3 pp (dados: Banco Mundial)

A queda da taxa de juro em 6 pontos percentuais deve-se à redução de 3 pp na taxa de crescimento do PIB mundial (ver, Fig. 8) e a uma queda na expectativa da inflação futura na ordem dos 3 pp (ver, Fig. 9). 

Fig. 9 - Taxa de inflação, UK + Alemanha + França (dados: Banco Mundial)

E porque a taxa de juro portuguesa não ficou, como a Espanha e Itália, nos 6.5%/ano?
Tem a ver com a diferença no nosso endividamento público.
Em 1995, a dívida pública italiana andava nos 130% do PIB e agora está nos 120% do PIB.
A espanhola manteve-se nos 70% do PIB.
A portuguesa andava nos 70% do PIB e agora está nos 110% do PIB e a caminho dos 120%.

Fig. 10 - Dívida pública, Portugal + Espanha + Itália (dados: Banco Mundial e tradingeconomics)

Agora sou eu que faço as perguntas aos meus colegas.
P1. Como justificam que as empresas de referencia como a PT, a EDP, o Continente conseguissem, em 2005, financiar-se a uma taxa de juro igual à dívida pública alemã mais 1 ponto percentual e agora tenham que pedir crédito às famílias portuguesas e pagar um spread de 6 pontos percentuais?

P2. Como justificam que os nossos bancos de referência, CGD, BCP, BPI, BES, tivessem acesso sem qualquer restrição ao mercado interbancário da Zona Euro à taxa EURIBOR e agora não consigam nem um euro?

P3. Como justificam que as nossas PME tivessem sido excluídas dos mercado de "seguro de crédito"?


E, agora que estamos fora da Zona Euro, como irão evoluir as taxas de juro "sem risco"?
Como a taxa de crescimento do PIB à escala mundial e a taxa de inflação em Euros se devem manter estáveis, antecipo que a tendencia de longo prazo para as taxas de juro espanholas e italianas se vai manter nos 6.5%/ano.
a Irlanda, passando o sufoco actual, vão tender para os 3.6%/ano.
Prevejo ainda que nas melhores condições (se o actual ajustamento macroeconómico e de finanças públicas correrem muito bem), a taxa de juro "sem risco" da economia portuguesa se vai aproximar do patamar dos 6.5%/ano e que vai ser a nossa taxa nos próximos 50 anos.

Fig. 11 - Papá, durante quantos anos vamos passar férias nesta praia? 50 anos?

Pedro Cosme Costa Vieira

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