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sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Missão Impossível

Ok, o António Costa ganhou o PS. 
O Seguro bateu-se com valentia mas não foi capaz de resistir ao regresso do D. Sebastião. 
No final das contas, por cada voto que o Seguro teve, o Costa teve 2. 
Foi bom para o Costa. 
Foi bom para a velha guardar, onde se inclui o desaparecido Ferro Rodrigues, sair da naftalina. 

Mas aguarda-o uma missão impossível. 
A jornalista pediu-se para comentar a vida futura do Costa e. depois, escreveu um material que pode ser visto aqui => ("Missão impossível" de Costa vai ser compatibilizar expectativas com realidade). 
É que o homem diz que não se compromete com nada mas anuncia aos ventos que vai por "outro caminho" o que me traz à lembrar um famoso discurso do Samora Machel (alegadamente): 
Meus Camarada, quando Frelimo tomou o poder, Moçambique estava na borda do precipício, agora, com Samora, já deu três passo na frente. 

Fig . 1 - O Passos meteu-nos à beira do precipício e, com o Costa, Portugal vai dar um passo em frente.

Será o "outro caminho" o voltar ao caminho do Sócrates? 
O Costa, no início da sua caminhada, disse que temos que continuar a obra do Sócrates, continuar a sua "política de crescimento". 
Nos 6 anos que durou o reinado do Sócrates, cada português (famílias, empresas e estado) endividou-se (a preços de 2005) 13500€ face ao exterior. 

Endividamo-nos 187€/mês, que se juntou ao nosso rendimento.
Seis anos em que, além do que produzimos, no fim do mês tivemos mais 187€ para gastar. Naturalmente que vivíamos melhor que agora que estamos sem esses 187€ por mês
Interessante que até 2008 estivemos taco a taco com a Irlanda e a Espanha mas, em 2009, a Irlanda começou uma politica de austeridade. Nós continuamos. 
O nosso socialista Sócrates manteve-nos taco-a-taco com o seu camarada Zapateiro da Espanha. 
Foi, como se diz agora, copy e paste do princípio ao fim.

Fig. 2 - Endividamento do tempo do Sócrates (dados: Banco Munidal)

Agora, quanto crescemos no tempo do Sócrates?
Se estivemos um endividamento externo massivo, nós mais a Espanha e a Irlanda devemos ter tido um crescimento colossal. O caminho do Sócrates e o do seu camarada Zapatero (e daquele camarada grego muito gordo e que se endividou ainda mais) deve ter atirado o nosso PIB per capita para valores astronómicos. 
O PIB per capita deve ter aumentado googles de € por pessoa.
Vou então confirmar isso nos dados, esperem um pouco, estou a ver, a ver, já fiz o download, agora fazer o gráfico, mau isto tem um erro qualquer, não pode ser, eu estou a ver mal.
Fazer outra vez a query, fazer o download dos dados, meter no Excel, fazer novamente o gráfico, eu devo estar a ver mal. Não pode ser.
Os dados do Banco Mundial dizem que, em 2011 relativamente a 2004, o nosso PIB per capita ficou praticamente na mesma.
Isto não pode ser, os dados do Banco Mundial foram martelados pelo desaparecido gasparzinho a partir do FMI. 

Fig. 3 - Crescimento económico (PIBpc) do tempo do Sócrates (dados: Banco Mundial)

O caminho do Sócrates não é o "outro caminho".
Definitivamente, voltar atrás não vai ser o "outro caminho" sobre o qual o Costa tem prometido a salvação do nosso povo.
E como eu preciso desesperadamente desse "outro caminho" porque já me habituei a estes últimos 4 mesitos sem cortes.

Será o "outro caminho" o caminho do Passos?
Não pode ser porque é exactamente esse "caminho de austeridade" que o Costa, juntamente com o seu camarada Holland, dá a entender que vai combater.
Não promete nada mas, quando diz que é contra os aumentos dos impostos, dos cortes de salários e das pensões, se chegar ao poder, vai anular essas coisas.
Eu rezo todos os dias para que o homem consiga fazer isso.

O Costa vai ser Prémio Nobel da Economia.
O problema do Costa, ou a sua oportunidade, é que o "outro caminho" não existe (ainda!) na ciência económica.
Há o "caminho" keynesiano que diz que a despesa pública e o investimento público são os motores do crescimento económico. Este caminho faz parte da ideologia esquerdistas e foi este o "caminho de crescimento" que o Sócrates, a Grécia e a Espanha seguiram entre 2005-2011. O problema é que este caminho não só não trouxe crescimento mas também nos endividou até ao tutano.
Há o "caminho" clássico/liberal que diz que a flexibilização dos mercados e a diminuição do Estado fazem com que os privados se tornem o motor do crescimento económico. É este o caminho adoptado pelo Passos Coelho e que o Costa não quer seguir. Este caminho liberal deu grandes resultados, por exemplo, no Chile que se tornou o país mais rico da América do Sul.
Não há mais caminho nenhum.

Então qual vai ser o caminho do Costa? 
Vai ser um caminho que ainda ninguém conhece, vai propor um novo quadro para o pensamento da ciência económica que o vai levar, de certeza absoluta, a ser prémio Nobel da economia.
Esse "caminho Costa" vai ser uma lufada de ar fresco que vai salvar os esquerdistas que ainda existem por esse mundo fora, como seja o camarada Holland.
Coitado do short, é short, short, mas chega para a viola. O moço é danado para o mulherio.

Fig. 4 - Lá vai o Holland na moto com a sua gaja

Eu vou a Fátima a pé.
Para verem como eu não tenho uma mente fechada, todas as noites, nas minhas rezas, penso sempre ao Espírito Santo (ao verdadeiro) que ilumine o camarada Costa a ponto de ele conseguir ver o "outro caminho". Já prometi mesmo que irei a Fátima a pé, ir e vir 100 vezes seguidas e sem beber água nem comer, se o Costa encontrar o seu "outro caminho". 
Um caminho em que o Salário Mínimo Nacional vá para pelo menos os 600€/mês, que o IRS volte aos níveis de 2009, que as regras de aposentação, de acesso ao rendimento mínimo e os salários dos funcionários públicos voltem ao que eram em 2010 e que sejam actualizados, já não peço muito, à taxa de inflação.
Se o homem encontrar este caminho, vou mesmo fazer um pedido ao Papa Xico para que passe a ser, enquanto vivo, cardeal patriarca de Lisboa e, mal morra, daqui a 100 anos, santo milagreiro.

Aquilo de Hong Kong vem da Crimeia.
Se as pessoas de um território podem declarar independência, o mundo entra em convolução porque as regiões mais ricas vão querer declarar a independência. 
O argumento na Escócia e na Catalunha para se tornarem independentes é que pagam mais impostos ao país do que recebem. Mas isso acontece a todas as regiões ricas e chama-se solidariedade territorial. 
Se for legal a Crimeia ou a Catalunha declarar a independência com base num referendo local, também será legal a independência de Hong Kong, de Macau, de Taiwan, de Cabinda, do Algarve ou do arquipélago das Berlengas (só é preciso o voto do faroleiro).

Fig. 5 - Quero a independência das minhas montanhas (são falsas mas são boas)

Mas não há só más notícias. Também temos o Ébola.
Há uns dias apareceu um caso nos USA o que pode ter criado nas pessoas um certo receio de que a epidemia do Ébola esteja descontrolada.
Mas não.
Acreditando nos dados da OMS - Organização Mundial de Saúde, a batalha está a ser ganha pois, desde meados de Setembro, de dia para dia a taxa de aumento do número de infectados tem estado a diminuir.
Estamos com 8 mil contaminados e ainda vamos ter muitos mais contaminados e mortos. Mas, continuando na tendência actual, lá para finais de Março a batalha estará ganha com apenas 60 mil mortos o que, para África, não é nada. 
Recordo que na África Sub-sariana, morrem anualmente  mais de 500 mil de malária (400 mil crianças abaixo dos 5 anos, ver). 60 mil acima ou abaixo não é nada.

Fig. 6 - Desde o dia 15 de Setembro que a taxa de aparecimento de novos casos de Ébola está a diminuir (dados, OMS)

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

O emprego e a mensagem de Natal do Passos Coelho

O Passos Coelho apresentou a sua terceira mensagem de Natal.
Falou de coisas do Natal (banalidades) mas referiu três pontos que vou detalhar porque penso serem os mais importantes:
1) A correcção do desequilíbrio das contas externas, 
2) A redução do desemprego e o aumento do emprego e
3) O crescimento da economia.
Nos últimos 2.5 anos, Portugal conseguiu resultados que nunca pensei ser possível de atingir.
Confesso que me enganei redondamente, felizmente.

Fig. 1 - Passados 2,5 anos, parece que a criancinha está a querer começar a caminhar


1) O equilíbrio das contas externas.
Hoje pode-se dizer que foi fácil corrigir o défice da balança corrente mas tal não corresponde minimamente à verdade porque o défice externo é a droga dos governantes.
O défice externo incha a economia o que leva ao aumento do rendimento disponível das pessoas. Assim, apesar de esse efeito ter como contrabalanço o endividamento externo,  rende votos a quem o promove. 
Foi o défice externo que permitiu ao Guterres, Santana Lopes e Sócrates fazer obras públicas e pagar pensões e subsídios para além da receita do Estado que, canalizado para as pessoas, permitiu que o consumo das famílias fosse maior do que a nossa economia produzia. 
A promoção da compra de carros novos (o incentivo ao abate) e casas (os créditos bonificados) também levou as famílias ao endividamento que os bancos captavam no exterior.
Se olharmos para os 6 anos do socratismo, todos os meses foram metidos 150€ no bolso de cada português. Cada um, novo, velho ou assim assim e 150€ é muito dinheiro.

Fig. 2 - Balança Corrente portuguesa, euros por mês per capita (dados: BPortugal)

O problema já vinha do tempo do Guterres + ... + Santana Lopes.
O Guterres herdou do Cavaco Silva uma situação equilibrada mas, mês após mês, a situação foi degradando-se até chegarmos ao pântano dos 130€/mês. Veio o Durão com o discurso do "estamos de tanga" e, cortando 2.5€ cada mês, conseguiu reduzir em 2 anos o défice externo para metade (65€/mês). Mas a guerra foi tão grande que foram os próprios do PSD + CDS que o puseram a andar daqui para fora.
O Santana Lopes + Portas são indistintos do Sócrates: mais e mais défice externo até chegarmos em 2008 aos 180€/mês.
O Passos Coelho conseguiu reduzir a BC ao dobro da velocidade do Durão, 5€ a cada mês, conseguindo manter os do PSD no sitio deles e o Portas amarrado ao acordo de austeridade.
Isto só pode ser classificado como notável.

Fig. 3 - Balança Corrente 1:1995-10:2013 (dados: BPortugal)

2) A redução do desemprego e o aumento do emprego.
O que normalmente é usado como medida do desequilíbrio do mercado de trabalho é a taxa de desemprego que se calcula dividindo o total de pessoas que dizem estar à procura de emprego a dividir pelo total de pessoas activas (as desempregadas à procura de emprego mais as que têm emprego por conta própria ou de outrem).

    Taxa de Desemprego = Desempregados / (Desempregados + Empregados)

Então, a taxa de desemprego pode reduzir não só porque as pessoas encontram emprego mas também porque as pessoas desanimam de procurar emprego ou emigram.
Mas também pode acontecer o contrário, a malandragem deixam a inactividade porque acabou a mama dos diversos subsídios e de poderem viver à custa das pensões dos velhotes e passam a desempregados (começam a procurar emprego).

Fig. 4 - O número de pessoas inactivas que podem trabalhar mas que não procuram emprego aumentou em 150 mil (dados: INE)

O emprego caiu 15% mas as horas trabalhadas caíram apenas 5%.
Em 2008 o emprego começou a cair tendo acumulado até ao 1T2013 um total de 15%. Metade desta perda foi na recta final do Sócrates e outra metade na recta inicial do Passos Coelho. Então, em 12 empregos existentes em 1998, um perdeu-se com  o Sócrates e outro com o Passos Coelho.
Mas a perda do emprego em 15% foi acompanhada pelo o aumento em 10% do tempo médio que cada pessoa empregada trabalha. Assim, as horas trabalhadas reduziram-se apenas em 5%.

Fig. 5 - Índice do número de pessoas a trabalhar e do número de horas trabalhadas (dados: INE e cálculos do autor)

 Realmente, o emprego aumentou em 120 mil.
Se facto, se olharmos para o número de pessoas a trabalhar, no 1T2013 estava 4433,4 mil pessoas a trabalhar e no 3T2013 estavam 4553,6 mil o que traduz que no 3T estavam a trabalhar mais 120200 pessoas que no 1T, mais 2,7%.. Isto são dados do Instituto Nacional de Estatística (Fig. 5).
Podíamos dizer que as pessoas estão trabalhar mas poucas horas mas se e olharmos às horas, houve um aumento ainda mais forte, de 5,7 milhões de hora/semana trabalhadas, 3,6%.
Olhando para a variação entre trimestres (Fig. 6) parece que nestes últimos 2 trimestres o emprego cresceu relativamente à tendência.
O emprego está mesmo a melhorar mas vamos ver se nos próximos tempos a coisa se aguenta.

Fig. 6 - Variação do emprego relativamente ao trimestre anterior (dados: INE e cálculos do autor)


3) Crescimento da economia.
Os keynesianos acreditam que, primeiro, a economia cresce e, passados uns trimestres,  o desemprego começa a descer.
Mas estamos a ver que a causalidade é exactamente ao contrário. Primeiro, o emprego aumenta e, ao mesmo tempo, a economia cresce. Em 2 trimestres o número de horas aumentou 3,5%  e o PIB aumentou 1,4%. (e a produtividade desceu 2,1%).
Apesar de a produtividade por hora ter diminuído nos últimos 2 trimestres, tem-se mantido uma tendencia de crescimento de 1.2%/ano (Fig. 6). No cáluclo da produtividade do trabalho retirei 18% para a amortização do capital e 1/3 para a remuneração do capital.
(eu tinha aqui uma referencia ao Sócrates mas eu tirei porque, provavelmente, deve-se a uma quebra das séries do INE, base 1998 para a base 2002, que decidi "corrigir").

Fig. 6 - Produtividade do trabalho por hora (dados: INE e cálculos do autor)

Concluindo.
Considerando os problemas da nossa economia, 2013 foi um ano extraordinário.
Claro que o défice público foi um pouco elevado e a despesa pública derrapou mas isso deve-se a eu ter recebido o Subsídio de Férias.
Mas só depois de ver os Estaleiros Navais de Viana do Castelo definitivamente encerrados é que posso dizer que estou esperançado no bom sucesso deste governo.

Mas espero que todos tenhamos um bom 2014.
Parece que actualmente, mais grave que os cortes, são os larganços.
Um vive animado com os filhos e com as finanças, últimamente muito difíceis, da casa e, de repente, aparece alguém a dizer "apanhei o teu homem com a minha mulher".
Depois, chora, chora, chora e diz a toda a gente que nunca mais lhe perdoa mas com a certeza que vem aí um enorme pedido de desculpa, umas re-juras de amor eterno colossais, um rastejar como os soldados que vinham da guerra de África faziam em Fátima para, depois de dizer mil vezes que não, vir o momento do perdão.
Mas não. O que vem é o desamigamento seguido por um poste "só para amigos" que conta a história de um pássaro grande que vivia numa gaiola pequenina e que acaba por se libertar. O poste termina com um cometário "Como o pássaro está, finalmente, livre, sexta-feira à noite encontramo-nos no XPTO para curtir até rebentar".
Tal como o Exterminador Implacável desligou a luzinha quando mergulhou no ferro fundido, segue-se o desligamento total e para todo o sempre.

Fig. 7 - Eras tão boa que decorridos estes anos todos, ainda não recuperei de me teres torcado por esse mentecapto.

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

A verdade sobre o PEC4

A marca politica do Sócrates é a mentira.
Claro que as pessoas têm memoria fraca mas, principalmente o final de 1.º e o 2.º mandato do Sócrates foi a era da omissão da verdade e da publicação da mentira. 
Os socialistas falam tanto das "falhas de previsão" do Gasparzinho porque sabem que a memória do nosso povo se reduz a poucos meses.
Será que alguém se lembra do jogo Porto-Sporting de 2009?
Eu não.

Vejamos  o OE 2009.
O Sócrates afirma lá que o défice para 2009 vai ser de 2.2% do PIB (p. 119 do OE2009) quando, calculado pela EuroStat, o défice fechou nos 10.2% do PIB.
Claro que o bicho ataca com a crise mundial mas essa foi em 2008 pelo que a previsão do FMI já era de que a economia ia contrair 4%.
Mesmo à revelia de todos os organismos internacionais, o Sócrates anunciou que a crise tinha acabado havendo margem orçamental para subir os salários da função pública em 2.9%.
Foi um desvio de 8% do PIB, mais de 13000M€ de erro.
Em presença disso, partir de 4.5% e atingir 5.9%, 2300M€, dos quais 1350M€ são responsabilidade do TC e 650M€ do BANIF, é uma brincadeira de crianças.
Mas os comunas não falam disto.

Afinal o PEC4 era um embuste.
O Sócrates repete de forma incessante que a Alemanha (na sua visão de monarca absoluto o Sócrates confunde a Alemanha com a simpática Sr.a Merkel) aceitava o PEC4. Mas, afinal, veio reconhecer publicamente na entrevista ao Expresso de que isso não era verdade pois, apesar de a Sr.a Merkel, em presença do Quadro III-1 dizer "sim, sim, sim, isto está muito bonito e tu vestes tão bem José" quando se chegava à avaliação da possibilidade técnica de atingir essas metas "o filho da puta do Schauble não acreditava, só queria prejudicar Portugal".

Mas afinal o que dizia o PEC4?
São 67 páginas que estão disponíveis no parlamento.
Diz que em 2014 vamos conseguir atingir um défice de 1% com um excedente primário de 4.3% do PIB.
Para reduzirmos a nossa dívida de 130% do PIB para 60% do PIB em 20 anos precisamos de um superavit primário de 3% do PIB (juros de 3.2%/ano, crescimento de 1.5%/ano).
Como é possível agora os esquerdistas dizerem que é impossível quando no PEC4 afirmam que o superávite seria já em 2014 de 4.3% do PIB?

Fig. 1 - As metas do PEC4 são fantásticas mas as politicas previstas para as materializar são apenas generalidades sobre cortes de 15400 milhões €.

Certo dia encontraram-se 2 amigos.
- Olá Sócrates, venho todo contente porque descobri um restaurante, o Austeridade, onde se almoça baratíssimo: sopa, prato, fruta e café por 4.50€.
- Óh pá isso não é nada. Há um restaurante, o PEC4, onde se come sopa, um prato de peixe e outro de carne, fruta, bolo, café e conhaque por 3.00€.
- Isso é fantástico mas só pode ser mentira.
- É mentira mas é muito melhor e mais barato que o teu.

O quadro macroeconómico.
A simulação da evolução das contas públicas para o período 2001-2014 parte de variáveis consideradas exógenas ao modelo. Se essas previsões falharem, naturalmente que toda a simulação falha.

A primeira previsão é que se iria aumentar o endividamento exterior em 7% do PIB por ano, 12000 milhões€/ano (p.9 do PEC4). Com as taxas de juro que se observavam em princípios de 2011 (na ordem dos 7%/ano), O PEC4 pensa que seria possível Portugal ir aos mercados de forma a fazer o roll-over de milhares de milhões de euros e ainda aumentar o endividamento externo em 1000M€ a cada mês.
Isso sabia-se ser totalmente impossível. Esta previsão errada, uma mentira deliberada, teria efeitos catastróficos nos resultados da simulação porque a correcção do endividamento externo tem efeitos recessivos (menos PIB, menos impostos e mais despesa social).

Afinal o PEC4 não consolidava as contas externas.
O Sócrates pensou ser possível consolidar as contas públicas mantendo o desequilíbrio externo da nossa economia. Mas o que toda a gente sabe é que o problema da nossa economia não seria o défice público desde que tal fosse financiado pela poupança interna. O Japão, os USA e o UK têm grandes défices públicos e conseguem-se financiar a taxas de juro historicamente baixas. 
O problema grave da nossa economia era o constante endividamento externo que o PEC4, de forma alegre e airosa, considerava que iria continuar para todo o sempre mesmo que já não houvesse quem o quisesse financiar.

A segunda previsão é de que a taxa de juro de longo prazo ficaria nos 6.8%/ano e a taxa de juro de curto prazo (a que, alegadamente, nos conseguiríamos financiar) ficaria nos 2.5%/ano. 
Mesmo considerando taxas que, comparando com a Grécia de então, nunca se iriam concretizar, nada é dito sobre o impacto destas taxas de juro na despesa em juros.
Se Portugal pagasse 6.8% de juros sobre a totalidade da sua divida, seriam encargos de 13600M€ por ano.

A terceira previsão  é de que a taxa de desemprego se iria manter nos 10% (p. 9). Toda a gente sabia que, como as compras a crédito estavam em crise por causa de o endividamento externo estar congelado (erro na primeira previsão), a economia iria sofrer uma re-estruturação que geraria (e gerou) muito desemprego.

A quarta previsão é de que o PIB iria crescer 0.8%/ano o que era verdadeiramente impossível de atingir com a previsível contracção do endividamento externo.

Estas previsões caiem do Céu.
Não há qualquer fundamentação para estas previsões. São estas como poderiam ser outras quaisquer. Meteram as coisas no Excel e foram experimentando até dar o défice pretendido.
Era mentira mas de pouco interessava pois os socialistas são mesmo assim.
Basta ver como o Seguro diz que vai rasgar tudo para manter a oposição interna no seu sitio.

Fig. 2 - Podem ser falsas (as metas do Quadro III-1) mas são boas

As medidas genéricas.
No PEC4 tudo é genérico. A uma consolidação brutal mas genérica do Quadro - III-1, vem um conjunto de medidas genéricos que ninguém sabe como vão ser concretizadas.
Diz que em 2011 iria haver uma redução estrutural do défice em 5.3% do PIB de forma atingir um défice de 4.6% em 2011. Estamos a falar de cortes de 9000 milhões€ a concretizar em 9 meses, 1000M€ por mês, mais do que o Passos cortou em 3 anos e ainda é acusado de "cortar além do PEC4 e da Troika".

Como era isso possível de fazer?
No quadro II-1 resumo das poupanças fala em 0.8% do PIB enquanto que o objectivo é uma redução de 5.3% do PIB. Extraordinário como apontando medidas de 0.8% se iria atingir 5.3%.
Depois, eram umas generalidades. Em 2012 era uma consolidação de mais 3% do PIB e em 2013 de mais 2% do PIB para atingir 1% de défice em 2014.
O problema é que o Sócrates prometia, como assinou no Memorando de Entendimento, sabendo que a sua arte era a mentida e a dissimulação.

Vamos acrescentar os cortes para 2012 e 2013
Depois de cortes 9000M€ de 2011 seriam ainda acrescentados:
Em 2012 estavam previstos cortes na despesa de 2700M€ e aumento da receita de 1500M€
Em 2013 estavam previstos cortes adicionais de 1500M€ e aumento adicional de 700M€.
No total haveria reduções na despesa e aumento de impostos de 15400 M€.
Pois o Passos Coelho, relativamente a 2010, cortou despesa e aumentou impostos em 7200M€, menos de metade do previsto no PEC4.

Nada de efeito recessivo.
Os cortes do Passos Coelho de 7200M€ até agora alegadamente deram origem a uma espiral recessiva mas os cortes de 154000M€ do PEC4 não teriam qualquer efeito recessivo, antes pelo contrário pois a previsão era de que a economia cresceria 0.8%/ano.

Afinal o PEC4 era austeridade da dura.
Estavam previstos cortes no dobro das medida da austeridade do Passos Coelho.
Exactamente o dobro dos cortes mas, tal como na luta entre o Capuchino Vermelho (que afinal era uma puta assassina da natureza) e o Lobo Mau (um veterinário defensor da floresta que curava os animais por abate sanitário), trava-se hoje um guerra entre um maquina demoníaca e demagógica que quer convencer o povinho ignorante de que o PEC4 (que ninguém sentiu na pele porque nunca saiu do papel) era excelente e a realidade dura da austeridade que é dura.

Fig. 3 - PEC4 - Missão Impossível

Eu tinha um primo.
Que quando foi à tropa teve boa classificação na caderneta pelo que teve oportunidade de ser "polícia em Lisboa". Mas nunca quis abandonar o conforto da casa materna. Trabalhava na agricultura e fazia uns biscates em construção civil.
Acontece que um colega vizinho arrumou a mala e foi para policia em Lisboa.
Sempre que eu visitava o meu primo tinha que ouvir "se eu tivesse ido para Lisboa já estaria reformado com uma boa maquia".
O problema é que ele nunca soube (nem quis saber) o que teriam sido os 30 anos de vida de viver deslocado em Lisboa. Só lhe interessava o resultado final, o tal Quadro III-1.
Mas nesse quadro o Sócrates poderia mesmo dizer que iria conseguir um superavit para as contas públias de 20% do PIB. Seria mentira mas também seria extraordinário, digno do Guinness.

Vou agora à tese que o bicho escreveu em Paris.
Uma tese de mestrado é um pequeno exercício de recolha de informação já publicada sobre um tema e, eventualmente, o uso de uns inquéritos ou dados disponíveis para validar alguma teoria em discussão. Não tem como objectivo a criação de conhecimento novo mas apenas a digestão da literatura e o seu resumo num texto com 30 a 50 páginas. Antigamente ainda era apenas com "alunos com mais de 14 valores" mas agora é para toda a gente, mesmo povo com 9.5 faz mestrado.

Se eu orientasse uma tese em A Tortura em Democracia mandaria o aluno escrever uma introdução em que referiria a pertinência do tema, depois passaria para a literatura definindo o conceito, o seu objectivo estratégico, os argumentos contra e a favor. Por fim, talvez construísse um conjunto de situações e, para avaliar como os portugueses aceitam a tortura, fazia uns inquéritos que enviaria por e-mail a uma amostra de alunos (seria o mais fácil) para eles dizerem se eram a favor ou contra aquelas situações. 

Pergunta 1 - Imagine que viaja num avião onde há uma bomba que explode quando o avião descer abaixo dos 5000m e que apenas um individuo preso em terra sabe desactivar. Daria ordens para que usassem todos os meios para o fazer falar?.

Fig.4 - O Sócrates, mesmo como reles aluno da Sorbone, nunca se apresenta como um bandalho (i.e., mal vestido como o colega da bicicleta)

Pergunta 2 - A SIDA é uma doença sem cura e mortal que apenas se transmite de umas pessoas para outras de forma, em certa percentagem, culposa. Actualmente há cerca de 35 milhões de infectados e morrem cerca de 2 milhões de pessoas por ano. Então, se, tal como fazemos com os animais, se fizesse o abate sanitário de todos os infectados (0.5% da população mundial), a doença desapareceria da face da Terra recuperando-se em apenas 15 anos os 35 milhões de pessoas abatidas.
Agora imaginemos que a SIDA se propagava de forma inexorável e que ia levar à extinção da raça humana. Será que votaria a favor do abate sanitário dos infectados?

Para nós, nós estamos primeiro e nós somos a medida da moralidade do mundo.
Quem nos quer prejudicar é amoral, é um bandalho, é a encarnação do mal, da amoralidade seja o Cavaco, o Santana Lopes os os bandalhos da direita.
Se a nossa vida está em risco nunca pensamos que isso é para o bem da Humanidade.
Então, se nós estivermos em confronto com os outro, quando existe uma situação em que a nossa vida é incompatível com a vida de outra pessoa que já consideramos imoral, deixa de haver moral.

O uso da Tortura, mesmo em democracia, é algo que consideramos moral.
 Faz-me lembrar o Obama que dizia ser Guantanamo imoral e já abateu com drones em resultado de uma decisão administrativa mais alegados terroristas que todos os terroristas que foram presos e torturados sob o governo Bush.
O que será melhor, atingir uma pessoa com um míssil ou torturá-la sem nunca pôr em risco a sua vida?
É tudo uma questão de grau e de enquadramento.

Pedro Cosme Costa Vieira

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O que é isso dos Swaps?

Todos nós já realizamos swaps.
Quando andávamos na escola, coleccionávamos cromos.
Comprávamos umas saquetas com 5 cromos que colávamos numa caderneta. Por ser uma questão de sorte e azar, tínhamos sempre cromos repetidos e outros em falta.
Vamos supor que a caderneta tinha 150 cromos e que os 5 cromos eram colocados nas saquetas com igual probabilidade. Se comprássemos 150 cromos (30 caderneta), em média só conseguíamos 95 cromos diferentes (e 55 repetidos). Se duplicássemos o número de cromos, em média ainda nos ficavam a faltar 20 cromos. Precisávamos comprar 160 saquetas (800 cromos) para termos a probabilidade de 50% de conseguir preencher toda a caderneta.

Havia necessidade de fazer swap de cromos.
Acabar a caderneta era um desespero.
Mas se na nossa escola várias pessoas fizessem a colecção, era muito mais provável que alguém tivesse repetido o cromo que nos faltava. Então, coleccionar cromos era uma forma das crianças socializarem-se com os demais colegas da escola. Pela troca todos ficavam a ganhar.
Como os cromos era um problema estatístico, quanto maior fosse o conjunto de pessoas a trocar, menos cromos cada um teria que comprar para conseguir preencher a caderneta.

Fig. 1 - Para termos sucesso, era obrigatório trocar os cromos repetidos

#código usado no R para simular o desporto dos cromos
cromos<-0
for (a in 1:1000) #número de simulações
   {x<-0
   for (i in 0:159) #número de cadernetas adquiridas
      x[i*5+(1:5)]<-sample(1:150,5,replace=TRUE) #sorteia os cromos das cadernetas de 1 a 150
  cromos[a]=length(table(x))} #conta quantos cromos há de cada tipo (número de 1 a 150)
mean(cromos) #número médio de cromos diferentes
sd(cromos) #desvio padrão do número de cromos diferentes
length(cromos[cromos==150])/1000 #probabildiade de preenchemos a caderneta toda

O contracto de swap não tem mal nenhum.
Sabemos que melhorávamos a nossa situação sempre que trocávamos um cromo repetido por outro em falta.
Quando trocávamos um cromo repetido por outro que também tínhamos repetido ou um cromo único por outro cromo de que não tínhamos nenhum, não melhorávamos mas fazíamos um favor ao nosso amigo.

Quantos exemplares repetidos era preciso darem-nos por um que tínhamos único?
Ninguém trocava um cromo de que só tinha 1 exemplar por outro cromo de que tinha vários porque piorava a sua situação.
Mas agora imaginemos que alguém nos oferecia 10 cromos que tínhamos repetidos por um de que tínhamos apenas um exemplar.
Este contracto era especulativo porque eu não queria aqueles cromos para nada. Apenas aceitava a troca se especulasse novas trocas no futuro ou noutra escola onde eu imaginava que o mix de cromos era diferente. Antecipava ser provável eu conseguir re-obter o cromo que estava a perder e ainda obter outros que actualmente não tinha.
Especular é ver no futuro, prever o que vai acontecer. Naturalmente que ninguém consegue prever o futuro com certeza.

Swap obrigações <-> acções
Um swap "clássico" é a troca de uma obrigação por uma acção (da mesma empresa).
A obrigação tem remuneração fixa (o cupão) e um pagamento final.
A acção tem direitos de voto na governação da empresa e uma cota parte dos lucros (o dividendo) que é variáveis de ano para ano e uma percentagem quando a empresa for vendida ou liquidada.
Em caso de falência, a obrigação tem prioridade no pagamento relativamente às acções.
Como a obrigação tem menor risco, a remuneração das obrigações é, em termos médios, menor que a cota parte dos lucros correspondente a cada acção, havendo uma cotação que torna os dois activos equivalente:

           Obrigação (- Remuneração; - Risco)  <=> Acção (+Remuneração; +Votos; + Risco)

Uma pessoa que seja mais medrosa vai aplicar as suas poupanças em obrigações enquanto que uma pessoa mais destemido vai-o fazer em acções.

Vamos supor que recebemos uma herança.
Um nosso familiar deixou  10000€ de acções e 10000€ de obrigações de uma empresa familiar, metade a mim e metade ao meu irmão. Eu, como sou medroso, vou trocar as minhas acções, 5000€, pelas obrigações do meu irmão (também 5000€). O meu irmão, mais destemido e empreendedor, com os 10000€ de acções também vai conseguir fazer parte da gerência da empresa (juntamente com os nossos familiares). Ficamos ambos a ganhar porque somos diferentes.

Posso ser um especulador.
Eu não quero as acções de todo mas o meu irmão também não as quer pelo que apenas me dá 1000€ de obrigações pelas minhas acções (ou eu dou 1000€ de obrigações pelas acções dele).
Apesar de eu não querer as acções para nada, eu aceito a troca porque especulo que vou conseguir trocar os 10000€ de acções (as minhas mais as dele) por obrigações de um dos meus primo por mais de 2000€. No final, penso ficar com mais de 6000€ de obrigações com que ficaria se trocasse as minhas acções directamente com o meu irmão.
Especulador é aquele que realiza uma troca não com o fim de ficar melhor mas com o fim de no futuro realizar outra troca e, finalmente, ficar melhor.

Fig. 2 - Um homem ciumento é mais feliz casado com uma mulher feia e gorda


Vejamos uma especulação no mercado de petróleo.
Eu vou ao mercado e compro 100 barris de petróleo Brent do Mar do Norte para entrega em 15 Março 2014 por 10000€.
Mas eu não quero o petróleo para nada. O meu fito é, algures entre hoje e o dia de entrega, conseguir vender os 100 barris por mais de 10000€.
Se eu não conseguir vender a minha posição antes do dia 15 de Março então, terei perda total do meu investimento porque não tenho forma de ir buscar o petróleo ao Mar do Norte.

Teorema da eficiência de mercado.
Havendo um mercado em concorrência, a cotação de todos os activos trocados torna-os  equivalentes. Quer isto dizer que, em abstracto, considerando pessoas iguais, não há qualquer ganho nem prejuízo em trocar o activo A pelo activo B.
Apenas existe ganho quando os agentes económicos são diferentes, por exemplo, apesar de serem  dois irmão gémeos e com o mesmo emprego, um tem contracto de trabalho efectivo e o outro não.
Tal e qual como no caso do cromos. Por questão de sorte e azar, os cromos que nós tínhamos repetidos eram diferentes dos cromos que os nossos amigos tinham repetidos.

Swaps de moedas Libras <-> Euros.
Vamos imaginar duas fábricas de calçado totalmente idênticas, A e B, mas em que a empresa A tem clientes ingleses (em Libras) e compra peles na França (em Euros) enquanto que a empresa B tem clientes em França (em Euros) e compra peles na Inglaterra (em Libras).
Vamos supor que se a cotação se mantiver igual à de hoje, a empresa A tem um lucro de 1000€, igual ao da empresa B mas se houver uma desvalorização da Libra, a empresa A terá um prejuízo de 1000€ (e vai à falência) e a empresa B terá um lucro de 3000€ e vice-versa.
No sentido de diminuir o risco, a empresa A pode trocar as receitas em libras pelas receitas em Euros da empresa B de forma a que, qualquer que seja a cotação, ambas tenham sempre um lucro de 1000€ (nenhuma vai à falência).

Esta troca parece-me boa.
Parece e é boa porque mantém o lucro esperado (em termos médios) e reduz o risco (o desvio padrão do lucro). Se antes a situação oscilava entre muito lucro e ir à falência, com a troca, o lucro será sempre razoavelmente positivo.
Este contracto reduz o risco a zero.


Fig. 3 - Um swap de preto por branco ou branco por preto pode ser bom para todas as partes.

Cuidado com as aparências.
O gestor que fez esta troca é competente mas vamos supor que, decorridos uns meses, a Libra valorizou. Agora, a empresa A e a B vão continuar a ter um lucro de 1000€ mas agora surgem vozes na empresa A contra o negócio. Só agora, depois de se saber que a Libra valorizou, é fácil prever que a Libra valorizou.

- Era por demais evidente que a Libra ia valorizar.
 -Se o dr. não tivesse feito a troca, estávamos com um lucro de 3000€. Estás despedido porque o seu swap causou-nos perdas potenciais de 2000€.

Se o avaliador do mérito da operação for ignorante, mesmo um contracto de swap bem feito (porque reduz drasticamente o risco da empresa), tem 50% de probabilidade de vir a ser considerado ruinoso.
Um gestor que lide com um avaliador tosco, não pode fazer contractos deste tipo.
A pertinência do contracto de swap não pode ser julgada a posteriori mas apenas em referencia ao momento em que foi feito, com a informação disponível no momento em que foi assinado.

Vejamos um seguro automóvel.
Imaginemos um amigo nosso que arranjou um emprego a ganhar 2000€/mês e comprou imediatamente um carro de 100mil€ por 120 mensalidade de 1000€/mês (TAEG de 3.735%). Naturalmente que, se tiver um acidente ou um assalto, não poderá comprar outro carro pelo que o aconselhamos a fazer um seguro contra todos os riscos que lhe custou 2500€. Decorrido um ano e não tendo acontecido nada, ele vem dizer que teve um prejuízo de 2500€ por culpa nossa. Que nós o enganamos, que somos um vigaristas que devemos ter recebido parte do dinheiro.
Mas não foi nada disso.
O seguro foi bom porque cobriu o risco de perda do carro (por roubo ou acidente culposo).
A questão é que esse risco é pequeno e por isso é que o prémio só custou 2500€. A seguradora compensa um caso em que o carro é roubado (e pelo qual paga 97500€)  pelos 39 casos que não são roubados (dos quais recebem 97500€).
Se fosse certo que o carro ia ser roubado, o prémio teria que ser de 100mil€ porque a seguradora não é a Santa Casa da Misericordia.


Fig. 4 - O carro do sr. bispo de Bragança enchei-se de amores pelo carro vermelho.

Por isso é que não podemos dar conselhos financeiros.
Dissemos que fizesse o seguro e, como não aconteceu nada, fomos os culpados pelo prejuízo dos 2500€.
Se tivéssemos dito para não fazer seguro e o carro tivesse sido roubado, éramos os culpados por agora não haver reposição da situação.
É-se preso por ter cão e por não ter.
Quando alguém sem literacia financeira nos faz uma pergunta com a alegação de que "és grande conhecedor destas coisas" têm sempre que responder, "eu também não percebo nada disso, quem gere as minhas contas é a mulher."

Swaps de taxa de juro Variável <-> Fixa.
Quando fazemos um contrato para comprar um imóvel a 50 anos, é muito difícil antecipar qual vai ser a taxa de juro de mercado daqui a tantos anos.
Como o banco se financia em contractos de curto-prazo (depósitos), tem que fazer um contracto que traduza as condições de financiamento que vai encontrar no futuro.
Então, nenhuma instituição de crédito faz um empréstimo de longo prazo com uma taxa de juro fixa.
A taxa de juro do contracto pode ser a EURIBOR mais uma margem real, spread, por exemplo, 3 pontos percentuais. Quer isto dizer que, daqui a 20 anos, se a EURIBOR for de 1%/ano, a taxa de juro será 4%/ano enquanto que se a EURIBOR for de 10%/ano, a taxa de juro será 13%/ano.

Mas o devedor quer prestação fixa.
A taxa de juro variável implica uma prestação variável que tem risco para o devedor pois pode, algures no futuro, não ter rendimento suficiente para a pagar.
Se interessar ao devedor ter uma prestação fixa, tem que trocar a sua taxa de juro variável por uma taxa fixa.
Imaginemos o Metro do Porto que deve 2300M€ se financiava a 50 anos à taxa variável EURIBOR a 3 meses + 2 pp. Como o aumento da alteração da taxa de juro em 1 ponto percentual implica um aumento dos custos financeiros de 23milhões€/ano, o gestor trocou a taxa variável por uma taxa fixa a 20 anos. Para isso, no dia 27/11/2012 foi ao mercado de swap e fez a troca à taxa de juro de 4.370%/ano.
Agora, nos próximos 20 anos, o Metro irá pagar 100.51M€ por ano de juros (para uma facturação de 53M€/ano!).
Apesar de nos próximos 20 anos não haver risco de a prestação subir, o problema é que, entretanto, a taxa de juro desceu. No dia 31/01/2013 a taxa de juro já estava nos 3.840%/ano. Então, a Metro vai pagar nos próximos anos 100.51M€/ano quando, se fizesse o contracto passados 2 meses, já só pagaria 88.32M€/ano. Reportando a diferença de 12.19M€ ao presente, nestes 2 meses o contracto tem perdas implícitas de 168.038M€ (valores descontados à taxa actual).


Fig. 5 - Cotação de swaps taxa Euribor 3 meses para  Taxa Fixa a n anos

Será que o gestor que fez a troca foi incompetente?
Na óptica da empresa, não houve qualquer erro. Se a empresa queria diminuir o risco, o melhor a fazer foi passar a taxa de juro de variável a fixa.
Mas em termos de gestor houve um erro porque já antecipava que o avaliador (politico) é incompetente em termos financeiros. Assim, o gestor assumiu o risco de ser considerado um mau gestor (a taxa fixa descer) com nenhum ganho no caso da taxa de juro subir.
No caso da Maria Luís, dizem que o swap deu lucro à REFER, mas ninguém lhe quer dar o mérito.
Dizem que foi a sorte.
E se calhar foi mesmo.

Vamos agora à actualidade politica.
É discutível se as empresas públicas devem minimizar o risco das taxas de juro. Mas vamos supor que existe um consenso de que as empresas públicas devem ser geridas como as empresas privadas pelo que devem reduzir o risco financeiro. Então, trocar taxas de juro variável por taxas de juro fixas não tem mal nenhum.

Diminuir o risco não tem mal nenhum.
Não há nada de negativo em realizar swaps que diminuem o risco da empresa, tenha sido feitos a mando do Sócrates, do Seguro, do Cavaco, do Passos ou do Gasparzinho, foram todos bem feitos. Mesmo que agora pudessem ser feitos de forma mais vantajosa, o agora não é o então.
Também se eu soubesse o que sei hoje, no euromilhões eu tinha apostado noutros números e estava rico. Os números estavam mesmo lá a olhar para mim mas ninguém pode seriamente dizer que eu não os seleccionei por ser burro ou desonesto.
Eu sabia que metia lá 2€ e que poderia não receber nada.

E os contractos especulativos?
Neste tipo de contractos, o risco da empresa aumenta com a antecipação de que o valor médio da taxa de juro que será paga vai ser menor.
Por exemplo, o lucro normal de uma empresa segue uma distribuição normal com 1000€ de valor médio e 500€ de desvio padrão. Depois de feita a troca, o lucro passa a ter 1100€ de valor médio mas o risco aumenta para 1000€ de valor médio.
Existem estratégias em que devemos assumir mais risco. Por exemplo, alguém que tem cancro e que, se não fizer nada, morre no prazo de 2 anos deve arriscar ser operado. Pode morrer na operação (90%) mas também pode acontecer durar mais 30 anos (10%).
Num jogo de futebol, quando a equipa fica a perder, passa a assumir uma estratégia com maior risco (maior risco de sofrer o segundo golo mas também maior probabilidade de empatar). Perdido por um, perdido por mil.
Apenas podemos dizer que os contractos especulativos são negativos se o ganho médio de assumir o risco for pequeno. Mas em abstracto, não se pode dizer que são todos maus.

E a alegada mentira da Maria Luiz?
Alguém dizer "as empresas públicas fizeram swaps" é a mesma coisa que dizer que empresas têm financiamento taxa fixa ou a taxa variável. Que se saiba, na pasta de transição nada é dito sobre o tipo de contractos.
O relevante é transmitir, para cada empresa, o total de encargos (o valor actual dos pagamentos previstos no futuro) e o risco desses encargos (o desvio padrão do VA). Agora o mix dos encargos, não é relevante.
Quando avalia~mos uma empresa é assim que se faz.
Por exemplo, olhamos para a Metro do Porto e dizemos que o VA de continuar a actividade nos próximos 30 anos, descontado à taxa de 4%/ano, é de -7000M€ com um desvio padrão de 3000M€. Se a empresa for liquidada, o valor de liquidação é de 2500M€ com um desvio padrão de 1000M€.

Detalhar a situação da mais pequena das empresas pública.
Obriga a um trabalho muito aprofundado de levantamento dos encargos actuais e dos encargos futuros (se a empresa é para continuar).
Por exemplo, o Efromovich avaliou a TAP em 20M€ e vieram grandes economista a terreiro dizer que valia muito mais. O certo é que até hoje ainda ninguém ofereceu sequer os 20M€. Este exemplo demonstra como é difícil avaliar os encargos de uma empresa ainda mais quando a gestão teve por objectivo esconder divida do reporte ao défice público.

Vamos agora à conversa.
Por fonte insegura, soube que a conversa de transição entre secretários de Estado foi a seguinte:

- Há problemas nas empresas públicas (diz o anterior).
- Isso já toda a gente sabe mas isso é um problema do ministério da economia (diz a Luís).
- Não é isso Luís, é que também tem impacto na divida pública.
- Mas isso já está tudo reportado, ou não? Há por aí algum gato escondido?
- Não sei bem mas falaram aí numas operações esquisitas de que eu nem sei bem o nome. Penso que é spots.
- Mas spots são anúncios publicitários. Gastou-se assim tanto em publicidade?
- Então não são spots são spoilers.
- Spoilers. aquelas faixas que tem nos carros kitados?
- Não, é outra coisa qualquer. É swings.
- Aquilo de andar a trocar as mulheres? O que é que isso tem a ver com as empresas públicas?
- Já não sei o que é pá. Eu vou ver ao certo e depois  mando-te um e-mail.

Será que a situação tem concerto?
Não. Uma vez feito o contracto, o mais que se pode fazer é outra troca que o anule de agora para o futuro. O prejuízo do passado já está feito.
Para que o contracto pudesse ser revertido, teria que ser um contracto de Opção de Troca.
Eu pagaria para ter a opção de, algures no futuro, fazer ou não, a troca.
Mas o contracto não foi desse tipo pelo que não pode ser anulado.

Agora, é como o processo de Al Capone.
A Al Capone era, alegadamente, um mafioso que cometeu, alegadamente, muitos assassínios e roubos.
Mas nada disso foi possível de provar.
O problema é que, como não foi provado que o homem cometeu crimes então, os rendimentos dele, alegadamente foram obtidos em actividades legais pelo que tinha que os declarar ao fisco.
Como não meteu esses rendimentos na declaração do IRS, apanhou umas centenas de anos de prisão por fuga ao fisco.
A Maria Luís está a ser vítima do mesmo tipo de processo.
Não conseguem provar que a senhora tenha feito nada de irregular. então, atacam na dizendo que mentiu sobre uma conversa qualquer na qual a senhora poderia até estar distraída.
Até pode acontecer como as minhas reuniões de trabalho com os meus colegas. Eles falam, falam, falam, falam, mas no fim eu não me lembro de nada.

Vou acabar com o Rui Rio que deveria estar de férias, calado.
O Salazar quando ficou velho e caquéctico arranjar um sucessor, o que é próprio dos tirano. Desde o Staline, ao Franco, todos fizeram um testamento político no qual indicavam quem os iria sucessor.
O problema é que nas democracias isso não existe, é o povo que decide.
O poder vem do eleitorado que é livre de escolher quem achar melhor. Não é o Rio nem a Ferreira Leite que decidem o que é bom ou mau mas o povo é que sabe, por maioria, o que que.
A obra deita no Porto nos últimos 12 anos não pertence ao Rui Rio pois ele foi apenas um funcionário do povo. Não tem legitimidade para dizer que A, B ou C vai destruir a sua obra pois a obra não é sua. A obra é do povo que, com os seus impostos, pagou o que foi feito.
O Rui Rio recebeu um mandato do povo e UM ORDENADO AO FIM DO MÊS para trabalhar segundo a vontade do povo.

Ele tinha maquinado mandar o Passos ao charco.
Era o fito desta crise politica. Repetir o golpe que mandou o Durão Barroso ao chão e meteu lá o Santana Lopes (com o Portas).
Agora seria Rio com Portas mas o Passos vê mais com um olho que o Rio com os dois.
O seu candidato a Gaia (que é o oficial do PSD) estar atrás do candidato do Filipe Menezes (que é independente).
O seu candidato ao Porto (que é independente) estar atrás do  Filipe Menezes (que é o oficial do PSD).
O F.C.Porto estar cada vez mais forte.
São derrotas a mais num tosco que apenas se alimenta do ódio, ao Pinto da Costa e a tudo o que mexe.
Eu nem gosto do Menezes mas fiquei mais próximo dele.


Fig. 6 - Custa digerir tanta derrota mas tomar omeprazol ajuda e é barato (uma caixa de 56 cápsulas da basi só custa 2.63€)

 
Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 26 de julho de 2013

O que diz mesmo a carta do Gaparzinho?

No dia 1 de Julho o Gasparzinho demitiu-se.
O Passos Coelho não queria que o Gaspar saísse mas, como o homem queria mesmo sair, teve que tornar a carta de demissão pública.
A carta não tem nada que ponha em crise a "politica de austeridade" mas o nosso povinho (e da nossa comunicação social) quer acreditar em miragens. 
Se dois ou três comentadores dizem com convicção que o documento diz alguma coisa, perde importância o que de facto lá diz porque mais ninguém o vai ler e os comentários tomam o lugar da verdade.

Fig. 1 - Como o incêndio é muito grave, foi preciso trocar o bombeiro que segura a agulheta

Dou-vos dar um exemplo bíblico.
Todas sabemos que, algures na Bíblia, aconteceu o Pecado Original. Toda a gente diz que tal se refere a termos nascido em resultado de uma prática sexual mas ninguém vai de facto ver o que diabo é o Pecado Original.
De facto, Deus disse ao Homem "da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás" (Gen 2:17) mas Adão e Eva comeram (Gen 3:6).
É este o Pecado Original: o Homem não quer viver na ignorância. No texto bíblico a infelicidade humana resulta de o homem ter adquirido consciência de que é mortal. A sabedoria libertou o Homem da ilusão de que o Futuro será um paraíso.
Decorridos milhares de anos, a maior parte do povo português ainda quer viver na ilusão de que, saindo de lá o Passos Coelho, Portugal vai ser o paraíso na Terra.

Fig. 2 - Naturalmente que o Adão, passando a ver a Eva com olhos de ver, cometeu logo o segundo pecado, o terceiro, o quarto ... durante 930 anos e gerou filhos e filhas (Gen 5:4-5).

A carta de demissão.
Os comentadores começaram a dizer que o Gasparzinho assumiu na sua carta de demissão que a politica de austeridade falhou. Mas, apesar de absolutamente nada disso ser lá dito, toda a gente já o diz que diz.
Para analisar a carta, vou primeiro fazer um resumo do que diz cada um dos 10 parágrafos da carta.

Sobre a demissão de Outubro de 2012.
1. Em 22 de Outubro de 2012 pedi a demissão.
2. Por causa do chumbo do Tribunal Constitucional aos cortes dos subsídios dos pensionistas e funcionários públicos e pela degradação do apoio popular às medidas de consolidação orçamental.
3. Conseguimos, com custos económicos e sociais, recuperar a confiança dos credores quanto à nossa capacidade de pagamento da divida pública que agora é preciso manter. Mas para isso é preciso um entendimento de governação estável, que não existe.

Sobre a demissão de Maio de 2013.
4. Em Abril de 2013 repetiram-se os problemas institucionais de Outubro de 2012. Apesar de eu querer novamente sair, pediram-me que continuasse até ao fecho da 7.a avaliação que aceitei.
5. Cumprida a minha parte do acordo, pensei que a minha demissão se efectivaria a 15 de Maio, o que não aconteceu. 
6. Tenho que sair porque continua sem existir um entendimento de governação estável que me permita negociar com a Troika.


 Fig. 3 - Passo, sou eu. Liberta-nos que estamos a apanhar muita pancada. Já estamos cansados e sem força animica.

Sobre as limitações e responsabilidades. 
7. Os desvios relativamente às metas do memorando foram causados por uma queda substancial da receita fiscal. Estes desvios minaram a minha credibilidade enquanto ministro das finanças.
8. Os custos de ajustamento traduzem-se num desemprego muito grande o que exige uma resposta urgente a nível nacional e europeu. Essa resposta requer credibilidade e confiança que não me encontro em condições de assegurar. Não tenho outra alternativa senão assumir as responsabilidades que me cabem.

Os finalmentes.
9. Liderar é um fardo que inclui assegurar as condições internas para que o ajustamento possa ser levado a bom porto, i.e., compete-lhe manter a coesão do governo. Penso que a minha saída lhe vai facilitar a vida.
10. Resta-me agradecer-lhe o enorme e inestimável apoio dos últimos 2 anos.

Vamos esmiuçar o texto
Os parágrafos 1 a 6 não falam de qualquer falha pessoal ou da politica de consolidação orçamental. Aponta apenas falhas institucionais (os chumbos do TC, a erosão da vontade popular e a falta de coesão do governo).

7 - Houve desvios nas receitas ficais.
No parágrafo 7, o Gasparzinho reconhece que repetidos  desvios entre as receitas fiscais orçamentadas e as efectivas minaram a sua credibilidade. Leva estes desvios à redução da procura interna e da alteração da estrutura do cabaz de consumo.

Mas o Gaspar não diz que foi um erro seu.
Aqui a comunicação social fez uma leitura aligeirada e errada do conteúdo do parágrafo 7.
Era por demais evidente que no OE2012 e OE2013 a receita fiscal e a despesa pública estavam "mal" calculadas.
Por exemplo, no Memorando original assinado pelo Sócrates está previsto que a receita do IVA aumente 410 M€ (ponto 1.23) e do imposto automóvel aumente 250 M€(ponto 1.24). Como era certo haver uma queda do consumo em favor dos bens de taxa reduzida, para haver este aumento, seria preciso aumentar a taxa de IVA pelo menos para 25%.
Eu defendi em 2011 que o IVA teria que aumentar para 27%. Mas nada foi feito.

O desvio não foi um erro de previsão.
O Governo, logo em meados de 2011, re-negociou  com a Troika uma alteração das metas orçamentais. Mas essas alterações ficaram no segredo. Não seriam reconhecidas aquando da aprovação dos Orçamentos de Estado mas apenas depois da sua execução.
Com esse fim, a Troika aceitou  que os OE de 2012 e 2013 fossem construídos com base em cenários macro-económicos que toda a gente afirmou serem optimistas. Não houve uma única pessoa que dissesse que fosse provável que aqueles cenários se concretizassem. Ninguém, logo o Gasparzinho também sabia que não se iriam materializar.

O Gasparzinho não foi defendido.
Os desvios aconteceram e deveria ter logo surgido alguém a dizer que esses desvios tinham sido pré-negociados com a Troika. Deveria ter havido uma "fuga de informação" que o Marcelo aproveitaria para dar essa novidade ao povinho. 
Mas não saiu ninguém a terreiro  (excepto eu mas sem impacto) e o Gasparzinho ficou a grelhar em fogo brando.

8 - Falta de credibilidade e confiança.
O Gasparzinho diz que, para combater o desemprego, é preciso investimento o que exige credibilidade e confiança que não se encontra capaz de assegurar.

Mas o Gaspar não diz que a falha é dele.
Aqui a comunicação social fez mais uma leitura aligeirada e errada do conteúdo do parágrafo.
Não é a credibilidade e confiança no Gasparzinho que está em causa pois não é o homem que vai fazer com que os agentes económicos passem a confiar de que os investimentos em Portugal são lucrativos.
O que leva ao investimento é a credibilidade e confiança dos investidores em Portugal.
O Gaspar diz ter dúvidas porque o ajustamento tem custos económicos e sociais e o Governo está dividido, o TC torpedeia as medidas de consolidação orçamentais e o Povo não está convencido da necessidade de haver contas públicas equilibradas.
O Gasparzinho apenas diz não estar em condições de avalizar pessoalmente que Portugal é capaz de cumprir o acordado com os nossos credores. Não é capaz de assegurar, afirmar aos investidores com segurança, que Portugal não vai entrar, a médio prazo, em incumprimento de pagamento.

Quais serão as responsabilidades do Gasparzinho?
É o sacrifício.
"O Sucesso do programa de ajustamento" reporta-se ao futuro e "assumir plenamente as responsabilidades que me cabem" nesse sucesso é retirar-se da corrida porque rebentou dando lugar a outro mais fresco.
O ajustamento sendo uma maratona, o Gaspar assumiu a responsabilidade de ser a lebre da primeira metade da corrida. Apesar de ter rebentado aos 15 km (em Out 2012), foi responsável ao ponto de ainda ter aguentado mais 5 km porque a outra estafeta (a Maria Luiz) e o chefe de corrida (o Passos Coelho) ainda não estavam preparada para prosseguir.

9 - A alegada falta de liderança de Passos Coelho 
A comunicação social diz que neste parágrafo o Gasparzinho dá um derrote no Passos Coelho mas não é bem assim.
O Gasparzinho reconhece que Passos Coelho lidera num momento muito difícil. Tenta governar num momento de grande crise económica e social e em que o povo, apesar de inteligente, não compreende bem as medidas. Agora que já aparou os raios maiores, sai para abrir espaço de manobra ao Passos Coelho.

10 - Gaspar e Coelho foram Adão e Eva.
Mas no último parágrafo fica claro que a falta de união dentro do governo não é culpa do Passos Coelho mas das dificuldades em gerar apoios dentro da maioria que apoia (mas pouco) o governo.
"enorme e inestimável apoio ... excelente cooperação"
Ambos comeram o fruto da árvore da sabedoria.
Sendo que cavalo (Gaspar) e cavaleiro (Passos Coelho) não podem continuar a peleia porque o chão pedregoso cansou o cavalo, há que mudar de montada para a peleia sair vencedora.

Haverá alguém que consiga ver no texto que o Gaspar reconhece que a austeridade falhou?
Não vejo como tal será possível.
Mas toda a gente diz isso.

O Governo não me dá grande confiança.
O Passos teve que chamar a máquina dos partidos, os grupos de interesses que vivem à volta do orçamento de estado.
Voltaram os homens que fizeram carreira à custa do Estado. Não nos podemos esquecer que o  Pires de Lima entrou na Somol porque a CGD lhe emprestou 400 milhões de euros. Foi a mão da Celeste Cardona, no governo do Santana Lopes + Paulo Portas. A coisa correu bem mas, se corresse mal, ficava mais um buraco para pagarmos.
E aquele outro dos "impostos sobre actividades mais poluidoras" é o lobbi das eólicas e das rendas da co-geração no seu ponto mais alto.
Não prestam mas é o que é possivel ter, por agora.

Fig. 4 - A taxa de juro está 1.225 pp acima do resultado do Gasparzinho. O homem, apesar de pequenino, valia para a nossa economia bastantes milhares de milhões de euros.

Pedro Cosme Costa Vieira

terça-feira, 23 de julho de 2013

O que saiu da crise

O tempo nunca volta para trás.
No dia da demissão do Gasparzinho (15 de Maio de 2013) a taxa de juros da divida pública a 10 anos estava nos 5.3%/ano. Entretanto, passou por um máximo de 8.2%/ano e está hoje estável nos 6.4%/ano. Os nossos credores assustaram-se com a perspectiva e o PS voltar a (des)governar o nosso país mas, como com a comunicação do Cavaco esse risco foi adiado, os credores ficaram mais confiantes. Aparentemente voltamos ao pré-demissão-do-gasparzinho mas ainda com 1 ponto percentual acima da situação que vivíamos em 15 de Maio.
 
Quanto valerá 1 PP?
Não interessa muito calcular o impacto junto da divida pública porque parte é nacional (os juros ficam cá dentro). Interessa antes ver o impacto no total da divida ao exterior.
Portugal deve ao exterior cerca de 380 MM€. Supondo que o aumento do ponto percentual é persistente e se transmite à globalidade da divida externa (pública e privada), estamos a falar de um aumento de 3.8MM€ por ano de pagamentos de juros ao exterior. Se esse risco se transmitir à economia, o investimento estrangeiro também exigirá uma remuneração superior.
Então, um PP a mais (ou a menos) traduz-se em qualquer coisa acima dos 4MM€/ano, 2.4% do PIB, que nossa economia tem que enviar a mais para o exterior, 400€ por cada pessoa.

Fig. 1 - Nunca ouvi falar da operação "Portas Seguro". Isso é pura invenção dos bloguistas desmiolados.

Mas a crise era inevitável.
A explicação está naquele programa da TV de adestramento de cães.
A semente da crise foi plantada no dia da manifestação contra a transferência da TSU do empregador para o empregado (15 de Setembro de 2012). Estando nessa altura as sondagens a mostrar, pela primeira vez, o PS acima do PSD, o Portas viu uma oportunidade para tirar um pé do governo: "eu avisei".
Foi um pequeno rosnar mas que lhe deu muitos minutos de televisão. Como o Passos recuou, o Portas ficou com a sensação de que, de facto, era ele que mandava nos destinos da governação. Animado por este número de circo e pensando que o Passos era outro Durão Barroso, entrou em modo "destruidor de coligações" a ver se arranjava outro Santana Lopes (que seria o Rui Rio).
Quando o bicho ganha o sofá, passamos a ser subalternos da matilha.
 
O Passos ficou sem margem de manobra.
Eu estou convencido a 100% de que o Passos quer reduzir o défice público a zero, quer privatizar as empresas que são um sorvedouro de recursos, quer aligeirar toda a máquina do Estado, quer diminuir o desemprego, quer tornar a nossa economia mais dinâmica e competitiva, capaz de enfrentar os desafios que a Globalização nos tem colocado. E tenho a certeza a 100% que esse é o caminho certo para, em 2021, estarmos melhor do que estávamos em Junho de 2011, no dia em que o Sócrates foi despedido pelo povo português.
Tenho eu a certeza e têm os nossos parceiros da Zona Euro.
O problema é que isso é muito difícil de ser feito porque há quem vá perder benefícios. No caso, são os milhões de portugueses que vivem à sombra do Estado, desde funcionários públicos a fornecedores de bens e serviços. Por esta razão é que as greves gerais apenas têm impacto no que é público.
Desanimado pelas sondagens e combatido pelo Portas e pelos barões do PSD, o Passos precisou vestir a pele de cordeiro para ganhar momento e ferrar forte.
 
Vejamos como deveria funcionar a contratação dos professores.
Candidataram-se 45 mil para 3 lugares porque o concurso está completamente errado.
Todos que estudaram economia, mesmo naquela escola onde o Sócrates diz que aprendeu economia mas que nunca disse qual era, sabemos que não é eficiente ter um concurso pela quantidade (com desemprego) mas que deveria ser pelo preço, em leilão (com ajustamento nominal).
 
1 - Os contractos deveriam ter a duração de um ano lectivo.
 
2 - Deveria haver uma plataforma de negociação em que as escolas colocassem as necessidades docentes futuras (local e grupo de disciplinas) e os docentes a sua disponibilidade para as ocupar dizendo o salário pretendido. Em tempo contínuo.
 
3 - Nos finais de Julho de cada ano, seriam escolhidos os professores que propusessem o salário mais baixo para cada local e grupo de disciplinas. Em cada local e grupo de disciplinas seria pago a todos os professores o salário mais baixo de todas as propostas recusadas (leilão de segundo preço).
Se, por exemplo, fossem propostos A->1450€; B->1375€; C->1693€; D->1273€ e E->350€ para 3 lugares, seriam escolhidos os professores E, D e B que receberiam um salário de 1450€/mês.
 
4  - A plataforma de negociação publicitaria em tempo continuo a evolução do potencial salário (calculado pela regra 3) de cada local e grupo de disciplinas.
 
5 - A plataforma aceitaria a negociação de contratos para os próximos 10 anos, sendo fechados a cada ano 10% do total de contractos necessários. Por exemplo, para o próximo ano já só seriam negociadas 10% das vagas necessárias porque 90% já teriam sido negociadas nos anos anteriores.
Desta forma, seria possível um professor construir um contrato com uma duração até 10 anos e prorrogável com antecedência e as escolas manteriam a capacidade de responder a alterações no número dos alunos.
 
6 - Poderia haver um mecanismo de ponderação dos anos de experiência e da avaliação de desempenho. Por exemplo, cada ano de serviço, cada valor de média de curso acima de 10 valores e cada ponto de desempenho (numa escala de 1 a 10) majorava o salário em 2% (e.g., 15 anos de serviço, 15 valores de média e 8 de avaliação traduzia-se numa majoração de 56% do salário que resulta do leilão).
 
Fig. 2 - Uma professora assim receberia uma majoração pela motivação dos alunos.
 
Quando implementarem este mecanismo, não ficará um único professor no desemprego.
Nem um único para amostra.
Vamos supor um jovem com 18 anos que se pretende candidatar a um curso para o ensino. Mesmo antes de se inscrever, poderá licitar contractos de trabalho para depois de acabar o seu curso. Assim, querendo, no dia em que começa o seu curso já tem um contracto como professor para vários anos.
 
Mas os salários vão diminuir muito.
Diminuem o que tiverem que diminuir até deixar de haver quem queira tirar um curso para o qual é remota a probabilidade de encontrar emprego ao salário actual.
Depois, os actuais 45 mil sem emprego deixam de viver com a ilusão de que para o ano farão parte do grupo dos 3 eleitos e fazem-se à vida.
E haverá flexibilidade para as escolas localizadas em locais menos atractivos poderem pagar salários mais elevados.
 
Eu penso que a crise não passou de uma encenação.
Na noite do dia 6 de Abril de 2013 o Passos, o Gasparzinho e o Cavaco reuniram-se sem pré-aviso em Belém. Nunca ninguém perguntou o que se passou nessa noite mas sei que esse momento serviu para lançar a operação a que deram o nome de código "Portas Seguro".
A ideia seria dar corda ao Portas (e ao Seguro) aguardando pelo momento em que a situação ficasse  totalmente podre. Aí, o Cavaco puxava a corda abrindo concorrência entre o Portas e o Seguro por uma solução governativa.
Como se o PS desse o seu apoio ao Governo, o CDS ficava vazio de poder, o CDS teve que se comprometer firmemente com o governo acabando assim com a politica do pé-dentro-pé-fora.
O Seguro acobardou-se com a ideia de ter que dar pelo menos uma ideia para governar o nosso país mas, no entretanto, o Portas ficou amarrado pelo evoluir dos acontecimentos.
Como poderia sair de tal cabeça uma ideia que não fosse já muito batido do tipo:

-Subir as peñsões dos mais desgraçadinhos (i.e., de todos);
- Subir os salário minimo;
- Acabar com a austeridade;
-Alguém que fale grosso à senhora Merkel que o Holland não consegue.

A melhor forma de nos fazerem ver que o nosso emprego é bom é porem um estagiário ao nosso lado que se oferece para nos substituir por metade do salário.  
 
"Não chegaram nenhumas notícias desagradáveis de Lisboa"
Se o Cavaco quisesse de facto um acordo PSD+PS+CDS, esta frase não faria sentido pois as noticias eram de que não haveria acordo. Também não faria sentido afirmar na comunicação ao país que a semana de negociações tinha sido um sucesso.
Correu tudo bem porque o Cavaco+Passos+Gaspar não queriam o acordo PSD+PS+CDS mas apenas queriam que o Portas se compromete-se na governação deixando a constante campanha eleitoral e a ilusão de que é um grande estratega politico.
 
Fig. 3 - Que linda cagarra. Estou a imaginar quando meter a anilha no Portas.
 
No final, como ficou a coisa?
No curto-prazo ficou pior do que estava no dia 15 de Maio mas, no longo-prazo, ficou melhor.
Como as coisas estavam no dia 15 de Maio, o Gaspar ia ser o bombo da festa do congresso do CDS e não havia a menor hipótese dos cortes acordados no memorando de entendimento (os 8.3MM€ assinados pelo Sócrates e que agora estão reduzidos a 4.7MM€) não poderiam avançar pelo que, em finais de Agosto, teríamos um chumbo certo no 8.º exame.
Como estão hoje as coisas, o Portas tem que trabalhar nos cortes e não pode mais vir dizer que discorda pois o Cavaco meteu-o a vice-primeiro-ministro com a condição de haver coesão governativa.
Vamos aguardar pelos desenvolvimentos.
 
Fig. 4 - Fiquei entalado.
 
Pedro Cosme Costa Vieira

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