Quando eu (e outras pessoas com o António Borges) afirmo que "os salários em Portugal têm que descer para ganharmos competitividade" e assim melhorar as nossas contas externas (e o nosso nível de vida), os opositores a esta necessidade perguntam-me até quanto terão os salários que descer.
Tenho que parafrasear o António Borges:
- Que os [professores de economia] ... são completamente ignorantes, não passariam do primeiro ano do meu curso na faculdade, isso não tenham dúvidas
- O grande problema do país são as elites e não o povo português, que acredita no seu país, revelando uma confiança extraordinária.
Por termos tido, nos 15 anos do guterrismo-socratismo, elites dessas a governar o nosso país é que estamos na bancarrota.
Devem pensar que ainda está no nível do 25-de-Abril de 1974 em que o Mao-Tsé-Tsé tentava vender para cá o seu modelo moribundo e que morreu, definitivamente, em 1976.
Atendendo a que os preços em Portugal são 52% mais altos que na China (por causa dos preços dos bens não transaccionáveis, cálculo do Banco Mundial para 2011), o salário médio chinês compara-se a um salário português de 553€/mês.
São baixos mas já são comparáveis com o salário médio que um trabalhador recebe no Norte de Portugal (850€/mês) onde a indústria exportadora está mais sujeita à concorrência internacional (os têxteis, vestuário e calçado).
Sim, os nossos salários vão ficar iguais aos chineses.
Mas porque os salários na China têm crescido (cambiados para USD) a uma taxa média de 15%/ano e os nossos estão estagnados.
Em 1990 o SM chinês (26€/mês) era de 15% do nosso Salário Mínimo (175€/mês) e em 2013 já vai atingir os 100% (485€/mês).
E o salário médio chinês em paridade de poder de compra vai atingir o salário médio do Norte de Portugal em meados de 2015.
Na Índia os salários são muito inferiores
É muito engraçado os meus amigos não perguntarem pela Índia nem pela Guiné-Bissau quando nestes países os salários são muito mais baixos que na China (o salário mínimo na Índia anda nos 70€/mês e na Guiné-Bissau nos 50€/mês, fonte: paycheck).
| 1990 | 1995 | 2000 | 2005 | 2010 | 2011 | 2013* | |
| S. Médio CHN | 26 € | 37 € | 62 € | 121 € | 303 € | 364 € | 485 € |
| S. Mínimo PRT | 175 € | 259 € | 318 € | 375 € | 475 € | 485 € | 485 € |
| Racio | 15% | 14% | 19% | 32% | 64% | 75% | 100% |
| Bem | Portugal | Alemanha | China |
| A | 100 | 40 | 160 |
| B | 100 | 50 | 150 |
| C | 100 | 60 | 140 |
| D | 100 | 70 | 130 |
| E | 100 | 80 | 120 |
| F | 100 | 90 | 110 |
| Horas | 2000 | 1500 | 2500 |
| Bem | Portugal | Alemanha | China | total |
| A | 3,33 | 6,25 | 2,60 | 12,18 |
| B | 3,33 | 5,00 | 2,78 | 11,11 |
| C | 3,33 | 4,17 | 2,98 | 10,48 |
| D | 3,33 | 3,57 | 3,21 | 10,11 |
| E | 3,33 | 3,13 | 3,47 | 9,93 |
| F | 3,33 | 2,78 | 3,79 | 9,90 |
| Bem-estar | 1372 | 4037 | 908 |
No país menos eficiente (a China) a qualidade de vida é menor e no mais eficiente (Alemanha) é maior.
Aparentemente os países ineficiente não vão ser capazes de competir no mercado internacional com o país mais eficiente.
O salário é a variável que ajusta a produtividade.
David Ricardo resolveu em 1817 o problema conceptual de Smith chamando à atenção para o facto de os salários serem mais elevados nos países mais competitivos (em termos de tempo de produção).
Lá se foi a teoria do Marx do "valor trabalho". Incrivel que hoje ter colegas, por exemplo, o Pimenta, que acredita nessa lengalenga.
Assim, o salário vai aumentar nos países mais eficientes até que esse país deixa de ser competitivo (em termos de preço) nos bens onde tem relativamente menos vantagem (em termos de horas).
Como há milhares de bens, haverá sempre algum que 1% a menos ou a mais nos salários tornará ou deixará de tornar competitivo ser produzido num determinado país.
A Alemanha não vai produzir todos os bens
Porque o diferencial de salários (maiores na Alemanha e menores na China) vai estar na exacta medida que faça a Alemanha perder competitividade na produção dos bens C, D, E e F (onde é relativamente menos competitiva);
que Portugal se torne competitivo nos bens C e D e
que a China se torne competitiva na produção dos bens E e F (onde é relativamente mais competitiva).
Apesar de sermos mais competitivos, em termos de horas, que a China na produção de todos os bens, ficamos a ganhar se produzirmos apenas os bens C e D que exportamos para a China de onde importamos os bens E e F.
| Bem | Portugal | Alemanha | China | C/Comércio | Autarquia |
| A | 0 | 18,75 | 0 | 18,75 | 12,18 |
| B | 0 | 15,00 | 0 | 15,00 | 11,11 |
| C | 10,00 | 0 | 0 | 10,00 | 10,48 |
| D | 10,00 | 0 | 0 | 10,00 | 10,11 |
| E | 0 | 0 | 10,42 | 10,42 | 9,93 |
| F | 0 | 0 | 11,36 | 11,36 | 9,90 |
Todos os países aumentam o seu nível de vida continuando o país mais eficiente, a Alemanha, a manter a dianteira e o menos produtivo, a China, a cauda (ver, Quadro 5).
| Bem | Portugal | Alemanha | China | Total | Autarquia |
| A | 5,52 | 8,44 | 4,79 | 18,75 | 12,18 |
| B | 4,63 | 6,30 | 4,08 | 15,00 | 11,11 |
| C | 3,17 | 4,01 | 2,82 | 10,00 | 10,48 |
| D | 3,29 | 3,53 | 3,17 | 10,00 | 10,11 |
| E | 3,49 | 3,29 | 3,63 | 10,42 | 9,93 |
| F | 3,82 | 3,27 | 4,28 | 11,36 | 9,90 |
| Bem-estar | 3555 | 8101 | 2715 | ||
| Autarquia | 1364 | 4048 | 909 |
Quadro 5 - A especialização faz aumentar o bem-estar em todos os países (a vermelho os bens que importam e a verde os bens que exportam).
O salário será o mais alto (é o que maximiza o nível de vida do povo) que permita ter uma balança comercial equilibrada.
Um salários mais elevado que o de equilíbrio e um consequente endividamento externo leva a ganhos de bem-estar no curto prazo mas a perdas no longo prazo (a necessidade de pagar os juros da dívida).
Pelo contrário, um salários mais baixo que o de equilíbrio e um consequente crédito face ao exterior leva a perdas de bem-estar no curto prazo mas a ganhos no longo prazo (mais tarde será recebido o dinheiro emprestado mais os juros da dívida).
Um país manter uma balança comercial positiva (e salários mais baixos que o óptimo de curto prazo) pode ser usado para ganhar influência política junto de outros países, como, por exemplo, o Japão nos anos 1950-1970 e a China actualmente.
O princípio de Ricardo das vantagens comparativas.
Pode ser estendido a regiões, empresas e mesmo a pessoas individuais.
Se numa região, cidade ou uma pessoa é menos produtiva que outra, será o salário relativo que vai permitir que todos se especializem nas actividades em que são mais eficientes podendo haver emprego para todos.
O nosso principio constitucional que todos temos direito ao mesmo salário (o "contracto colectivo de trabalho") destrói a possibilidade de os menos produtivos poderem ter emprego tendo que se dedicar a guardar carros e a viver do RSI.
Naturalmente que o fim do "contrato colectivo de trabalho" e a passagem para o contracto individual de trabalho seria uma medida benéfica para toda a gente que só não avança pela demagogia dos nossos políticos de "esquerda".
É um erro tentar substituir as importações.
O povo, por ter poucos conhecimentos de economia, pensa que poderíamos produzir os bens que importamos (agrícolas, energia, peixe, têxteis e vestuário baratos). Mas isso será um grande erro porque teremos que aplicar muitos dos nossos recursos produtivos (pessoas, capital e recursos naturais) na produção desses bens onde somos pouco produtivos deixando de produzir outros que podemos exportar e passarmos a ter um nível de vida maior.
Também a política do Sócrates de dizer que "os vira-ventos permitem-nos poupar nas importações de energia" foi um erro colossal traduzido hoje num enorme custo de electricidade.
Temos que nos especializar no que somos capazes de fazer de forma relativamente mais eficiente (bens com um nível médio de sofisticação) que deveremos usar para pagar as importações de bens muito sofisticados (aos países mais desenvolvidos) e pouco sofisticados (ao países menos desenvolvidos).
O problema é que o constante mas diferenciado progresso tecnológico e choques exógenos adversos (secas, cheias, crises financeiras, etc.) faz com que seja preciso ajustar continuamente o salário dos países.
As alterações dos salários relativos também faz que umas empresas/actividades percam competitividade (havendo necessidade de despedir esses trabalhadores) e outras empresas/actividades ganhem competitividade (havendo necessidade de contratar mais trabalhadores).
Um choque da Natureza.
Supondo que há ganhos de produtividade (como, por exemplo, se observa na China). Neste caso terá que haver um aumento dos salários para que o povo passe a viver melhor. O aumento dos salários fará com que o país deixe e ser competitivo em alguns bens fazendo diminuir o saldo da balança comercial.
Na primeira metade dos anos 1970 o grau de abertura (medido como a percentagem no PIB média entre as exportações e as importações) da China era muito baixo (3.8%) sendo inferior ao da Índia (4.5%) e menos de metade do do Brasil (8.7%).
Em 2000 é a vez de a Índia dar um forte impulso ao comércio enquanto que o Brasil, com Lula da Silva, se fecha ainda mais.
Apesar de a crise de 2007 ter penalizado severamente o comércio da China, em 2011 o grau de abertura da China atinge 29.3% do PIB e já está quase apanhado pela Índia (27.2%). O Brasil manteve-se morto (12.3%).
Em 40 anos, enquanto que a China e a Índia aumentaram o comércio internacional mais de 650%, o Brasil ficou abaixo dos 50% (ver, Fig. 6).
Fez com que a industria manufactureira simples se deslocalizasse da Europa para a China. Neste processo, a China adquiriu maquinaria agrícola para libertar a mão-de-obra da agricultura para as actividades industriais relativamente menos sofisticadas.
Motivado pela grande taxa de poupança / investimento, a China foi aumentando a capacidade de produzir produtos mais sofisticados o que levou ao aumento dos salários à média de 15%/ano (em termos de USD).
A abertura da Índia pós-2000
Desde 2000 que a China está a deixar de produzir os bens menos sofisticados (quis deixar de ser competitiva nestes produtos porque, globalmente, já podia subir os salários e enriquecer) o que tem transferido essas actividades para a Índia, Paquistão, Indonésia, Vietname, Bangladesh, Filipinas e outros países asiáticos.
Quem está atento aos produtos que se vendem nas nossas superfícies comerciais, cada vez vê mais produtos têxteis, calçado e vestuário e baixo preço a serem de produção de um destes países e os produtos de tecnologia intermédia (máquinas fotográficas, pen disks, rádios, etc.) a passarem a ser produzidos na China.
Numa espécie de onda que começou por volta e 1700 na Inglaterra, a Revolução Industrial tem-se vindo a expandir pelo Mundo estando agora a atingir com toda a força os grandes países asiáticos.
Provavelmente, por volta de 2050, veremos uma China já tão prospera como hoje é a Europa, uma Índia que estará na posição que observamos hoje na China e veremos finalmente a industrialização a passar para a África.
Onde fica Portugal nesta equação?
Temos que nos adaptar às alterações de produtividade que se observam no Mundo ajustando os nossos salários (descendo-os se nos tornarmos menos produtivos e aumentando-os se nos tornarmos mais produtivos).
Teremos que poupar para poder haver investimento em capital humano e em capital físico (mas não em mais estradas e mais casas) tornando a nossa estrutura produtiva com capacidade de produzir bens de tecnologia intermédia.
Teremos que ter sempre em mente que o nosso sucesso como país passará sempre por importar bens de baixa sofisticação de países menos evoluídos e de alta sofisticação de países mais evoluídos.
O nosso sucesso, mais que o da Alemanha, estará ligado à nossa integração europeia, lutando por fazer parte dos processos produtivos dos nossos parceiros europeus mais desenvolvidos fazendo componentes e partes menos sofisticadas dos produtos e sendo um destino turístico de proximidade.
Finalmente.
Só depois de compreendido o mecanismo que faz os países (e as pessoas) terem salários diferentes é que posso explicar porque a discussão em torno da TSU esteve errada desde o início.
Isto ficará para o próximo post porque este já vai muito longo.
Pedro Cosme Costa Vieira
sexta-feira, outubro 12, 2012









