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sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Porque os salários são altos nuns países e noutros não?

Santa Ignorância olhai por nós.
Quando eu (e outras pessoas com o António Borges) afirmo que "os salários em Portugal têm que descer para ganharmos competitividade" e assim melhorar as nossas contas externas (e o nosso nível de vida), os opositores a esta necessidade perguntam-me até quanto terão os salários que descer.
   - Teremos que descer ao nível da China?
Eu compreendo que uma pessoa normal não saiba porque os salários são mais elevados num país e mais baixos noutro mas ouvir isto de doutos professores de economia dá dor de dentes.
Tenho que parafrasear o António Borges:

     - Que os [professores de economia] ... são completamente ignorantes, não passariam do primeiro ano do meu curso na faculdade, isso não tenham dúvidas
    - O grande problema do país são as elites e não o povo português, que acredita no seu país, revelando uma confiança extraordinária.

Por termos tido, nos 15 anos do guterrismo-socratismo, elites dessas a governar o nosso país  é que estamos na bancarrota.

Fig. 1 - Quando Malala quase perde a sua vida no combate pela ignorância, não podemos ficar sentados a ver a demagogia vencer.

Qual será o salário médio na China?
Os meus amigos nem fazem ideia de quanto é o salário médio na China.
Devem pensar que ainda está no nível do 25-de-Abril de 1974 em que o Mao-Tsé-Tsé tentava vender para cá o seu modelo moribundo e que morreu, definitivamente, em 1976.
Pegando em dados do TradingEconomics (que passou a disponibilizar esta informação), passando os Yuans para dólares americanos e passando a "salários portugueses" considerando 14 meses e um câmbio de 1.3USD/€, obtém-se um salário médio em Dez 2011 de 363€/mês.
Atendendo a que os preços em Portugal são 52% mais altos que na China (por causa dos preços dos bens não transaccionáveis, cálculo do Banco Mundial para 2011), o salário médio chinês compara-se a um salário português de 553€/mês.
São baixos mas já são comparáveis com o salário médio que um trabalhador recebe no Norte de Portugal (850€/mês) onde a indústria exportadora está mais sujeita à concorrência internacional (os têxteis, vestuário e calçado).

Sim, os nossos salários vão ficar iguais aos chineses.
Mas porque os salários na China têm crescido (cambiados para USD) a uma taxa média de 15%/ano e os nossos estão estagnados.
Em 1990 o SM chinês (26€/mês) era de 15% do nosso Salário Mínimo (175€/mês) e em 2013 já vai atingir os 100% (485€/mês).
E o salário médio chinês em paridade de poder de compra vai atingir o salário médio do Norte de Portugal em meados de 2015.
Fig. 2 - Evolução do salário médio na China e do SMN português (dados: tradingeconomics, cálculos e grafismos do autor)

Na Índia os salários são muito inferiores
É muito engraçado os meus amigos não perguntarem pela Índia nem pela Guiné-Bissau quando nestes países os salários são muito mais baixos que na China (o salário mínimo na Índia anda nos 70€/mês e na Guiné-Bissau nos 50€/mês, fonte: paycheck).

199019952000200520102011  2013*
S. Médio CHN26 €37 €62 €121 €303 €364 €485 €
S. Mínimo PRT175 €259 €318 €375 €475 €485 €485 €
Racio15%14%19%32%64%75%100%
Quadro 1 - Relação entre o SMN português e o salário médio chinês (tradingeconomics, cálculo do autor, *previsão)

Fig. 3 - Da Índia já começam a aparecer produtos com boa qualidade

A austeridade dá resultado.
Apesar de os salários da China ainda serem inferiores aos nossos, estão a convergir rapidamente para o nosso nível o que prova que a política de austeridade chinesa (consumir pouco e poupar muito) acaba por se traduzir em aumentos nos salários!

Como se determina o salário de um país?
O salário relativo entre um país e o resto do Mundo (ou relativamente a um país concreto) depende da eficiência com que as pessoas de cada país são capazes de produzir os diversos bens e serviços.

O bem-estar: as pessoas preferem ter diversidade de bens e serviços.
O nosso bem-estar depende de uma diversidade muito grande de bens e serviços.
Vamos supor que existem 6 bens na economia (A, B, C, D e E) e que o bem-estar resulta de multiplicar as quantidades consumidas, Q, destes 6 bens:
     Bem-estar = Qa x Qb x Qc x Qd x Qe x Qf                (1)

A produtividade: os países não são igualmente eficientes.
Motivado por diferenças no clima, de recursos naturais, de capital físico ou humano, etc., um trabalhador de países diferentes demora um número diferente de horas a produzir uma unidade de um determinado bem. (Também se observa que nos países menos produtivos as pessoas querem trabalhar mais horas.)
Vou supor o seguinte quadro de produção em que Portugal é a referência (100h/u. em todos os bens), a Alemanha consegue produzir todos os bens em menos tempo e a China é pouco eficiente na produção de todos os bens.

BemPortugalAlemanhaChina
A10040160
B10050150
C10060140
D10070130
E10080120
F10090110
Horas200015002500
Quadro 2 - Número de horas que demora a produzir cada um dos bens e total de horas que cada povo quer trabalhar (por ano).

Os países vivem isolados.
Nesta situação que se denomina "em autarquia", os países não importam nem exportam bens tendo que cada país produzir tudo o que consomem. Então, vou determinar quanto se vai produzir de cada bem de forma a maximizar o bem-estar dado pela expressão (1) e respeitando o número de horas que cada povo quer trabalhar (usei a ferramenta solver do Excel).
  
BemPortugalAlemanhaChinatotal
A3,336,252,6012,18
B3,335,002,7811,11
C3,334,172,9810,48
D3,333,573,2110,11
E3,333,133,479,93
F3,332,783,799,90
Bem-estar13724037908
 Quadro 3 - Quantidades produzidas e bem-estar em autarquia.

No país menos eficiente (a China) a qualidade de vida é menor e no mais eficiente (Alemanha) é maior.
Para se garantir que são estas as quantidades transaccionadas no mercado de cada país, haverá preços próprios para cada bem e para cada país que farão os produtores serem compensados por usarem mais horas a produzir os diferentes bens.

Livre comércio: os países importam e exportam.
Agora, um país não precisa de produzir todos os bens. O problema (que o Adam Smith não conseguiu resolver em 1776) é que a Alemanha é mais eficiente (em termos de horas) e a China é mais ineficiente na produção de todos os bens.
Aparentemente os países ineficiente não vão ser capazes de competir no mercado internacional com o país mais eficiente.

Fig. 4 - Como a mulher tem articulações mais flexível, especializa-se nas tarefas mais acrobáticas.

Fig. 5 - Também se pode especializar no uso do salto-alto!

O salário é a variável que ajusta a produtividade.
David Ricardo resolveu em 1817 o problema conceptual de Smith  chamando à atenção para o facto de os salários serem mais elevados nos países mais competitivos (em termos de tempo de produção).

Lá se foi a teoria do Marx do "valor trabalho". Incrivel que hoje ter colegas, por exemplo, o Pimenta, que acredita nessa lengalenga.

Assim, o salário vai aumentar nos países mais eficientes até que esse país deixa de ser competitivo (em termos de preço) nos bens onde tem relativamente menos vantagem (em termos de horas).
Como há milhares de bens, haverá sempre algum que 1% a menos ou a mais nos salários tornará ou deixará de tornar competitivo ser produzido num determinado país.

A Alemanha não vai produzir todos os bens
Porque o diferencial de salários (maiores na Alemanha e menores na China) vai estar na exacta medida  que faça a Alemanha perder competitividade na produção dos bens C, D, E e F (onde é relativamente menos competitiva);
que Portugal se torne competitivo nos bens C e D e
que a China se torne competitiva na produção dos bens E e F (onde é relativamente mais competitiva).
Apesar de sermos mais competitivos, em termos de horas, que a China na produção de todos os bens, ficamos a ganhar se produzirmos apenas os bens C e D que exportamos para a China de onde importamos os bens E e F.

Se o salário em Portugal for 1000€/mês, na Alemanha será próximo de 1818€/mês
  1818 = 1000 x 100/55 torna a Alemanha apenas competitiva para produzir os bens A e B que terão que exportar para importar bens C, D, E e F de Portugal e da China.
Não interessa à Alemanha ter um salário mais baixo (ser competitiva em C) porque, como só quer trabalhar 1500h, fica melhor se produzir apenas os bens A e B onde é mais competitiva (em termo de horas). 

Se o salário em Portugal for 1000€/mês, na China será próximo de 800€/mês
  800 = 1000 x 100/125 faz Portugal deixar de ser competitivo face à China para produzir os bens E e F mas manterá a competitividade para produzir os bens C e D que exportará (para a Alemanha e para a China) para poder importar bens A e B da Alemanha e E e F da China.

Como fica a produção mundial.
Agora, o diferencial de salários vai permitir que cada país se especialize na produção dos bens em que é relativamente mais eficiente. Desta forma, a produção global aumenta (no exemplo, a produção de B e C diminui).
Desta forma, a existência de salários diferenciados (e preços iguais em todo o Mundo) leva ao aumento da quantidade de bens disponíveis que, com exportações e importações, ficam disponíveis para todas as pessoas.

BemPortugalAlemanhaChinaC/ComércioAutarquia
A018,75018,7512,18
B015,00015,0011,11
C10,000010,0010,48
D10,000010,0010,11
E0010,4210,429,93
F0011,3611,369,90
  Quadro 4 - Quantidades produzidas com comércio internacional.

Os ganhos do comércio internacional.
Agora é preciso dividir o aumento da produção que resulta da abertura dos países ao Comércio Internacional pelos diversos países. A Organização Mundial do Comércio existe para a promoção de uma divisão justa desse ganho.
Vou apresentar um exemplo em que os aumentos (e diminuições) de produção são divididos igualmente pelos 3 países (quadro 5).
Todos os países aumentam o seu nível de vida continuando o país mais eficiente, a Alemanha, a manter a dianteira e o menos produtivo, a China, a cauda (ver, Quadro 5).
  

BemPortugalAlemanhaChinaTotalAutarquia
A5,528,444,7918,7512,18
B4,636,304,0815,0011,11
C3,174,012,8210,0010,48
D3,293,533,1710,0010,11
E3,493,293,6310,429,93
F3,823,274,2811,369,90
Bem-estar355581012715
Autarquia13644048909

Quadro 5 - A especialização faz aumentar o  bem-estar em todos os países (a vermelho os bens que importam e a verde os bens que exportam).

O salário médio de equilíbrio.
Não é bom um país ser competitivo em todos os bens pois teria que ter salários muito baixos e trabalhar muitas horas o que diminuiria o bem-estar da população.
Também não é possível o país ter salários muito altos pois deixaria de ser competitivo o que levaria ao desemprego de uma percentagem muito grande da população e ao endividamento externo.
O salário será o mais alto (é o que maximiza o nível de vida do povo) que permita ter uma balança comercial equilibrada.
Um salários mais elevado que o de equilíbrio e um consequente endividamento externo leva a ganhos de bem-estar no curto prazo mas a perdas no longo prazo (a necessidade de pagar os juros da dívida).
Pelo contrário, um salários mais baixo que o de equilíbrio e um consequente crédito face ao exterior leva a perdas de bem-estar no curto prazo mas a ganhos no longo prazo (mais tarde será recebido o dinheiro emprestado mais os juros da dívida).
Um país manter uma balança comercial positiva (e salários mais baixos que o óptimo de curto prazo) pode ser usado para ganhar influência política junto de outros países, como, por exemplo, o Japão nos anos 1950-1970 e a China actualmente.

O princípio de Ricardo das vantagens comparativas.
Pode ser estendido a regiões, empresas e mesmo a pessoas individuais.
Se numa região, cidade ou uma pessoa é menos produtiva que outra, será o salário relativo que vai permitir que todos se especializem nas actividades em que são mais eficientes podendo haver emprego para todos.
O nosso principio constitucional que todos temos direito ao mesmo salário (o "contracto colectivo de trabalho") destrói a possibilidade de os menos produtivos poderem ter emprego tendo que se dedicar a guardar carros e a viver do RSI.
Naturalmente que o fim do "contrato colectivo de trabalho" e a passagem para o contracto individual de trabalho seria uma medida benéfica para toda a gente que só não avança pela demagogia dos nossos políticos de "esquerda". 

É um erro tentar substituir as importações.
O povo, por ter poucos conhecimentos de economia, pensa que poderíamos produzir os bens que importamos (agrícolas, energia, peixe,  têxteis e vestuário baratos). Mas isso será um grande erro porque teremos que aplicar muitos dos nossos recursos produtivos (pessoas, capital e recursos naturais) na produção desses bens onde somos pouco produtivos deixando de produzir outros que podemos exportar e passarmos a ter um nível de vida maior.
Também a política do Sócrates de dizer que "os vira-ventos permitem-nos poupar nas importações de energia" foi um erro colossal traduzido hoje num enorme custo de electricidade.
Temos que nos especializar no que somos capazes de fazer de forma relativamente mais eficiente (bens com um nível médio de sofisticação) que deveremos usar para pagar as importações de bens muito sofisticados (aos países mais desenvolvidos) e pouco sofisticados (ao países menos desenvolvidos).

A especialização é um fenómeno dinâmico.
Em nenhum país se ambiciona viver na miséria pelo que em cada país o salário será o máximo possível.
O problema é que o constante mas diferenciado progresso tecnológico e choques exógenos adversos (secas, cheias, crises financeiras, etc.) faz com que seja preciso ajustar continuamente o salário dos países.
As alterações dos salários relativos também faz que umas empresas/actividades percam competitividade (havendo necessidade de despedir esses trabalhadores) e outras empresas/actividades ganhem competitividade (havendo necessidade de contratar mais trabalhadores).

Um choque da Natureza.
Supondo que um país tem tudo equilibrado mas, de repente, acontece um seca que torna as pessoas menos produtivas. Neste caso terá que haver uma diminuição dos salários que compense a quebra retornando o país a ser competitivo num lote de bens que permita re-equilibrar a balança comercial.
Supondo que há ganhos de produtividade (como, por exemplo, se observa na China). Neste caso terá que haver um aumento dos salários para que o povo passe a viver melhor. O aumento dos salários fará com que o país deixe e ser competitivo em alguns bens fazendo diminuir o saldo da balança comercial.

A Europa, a China e a Índia.
A China esteve fechada ao comércio internacional até 1976.
Na primeira metade dos anos  1970 o grau de abertura (medido como a percentagem no PIB média entre as exportações e as importações) da China era muito baixo (3.8%) sendo inferior ao da Índia (4.5%) e menos de metade do do Brasil (8.7%).
Em 2000 é a vez de a Índia dar um forte impulso ao comércio enquanto que o Brasil, com Lula da Silva, se fecha ainda mais.

Apesar de a crise de 2007 ter penalizado severamente o comércio da  China, em 2011 o grau de abertura da China atinge 29.3% do PIB e já está quase apanhado pela Índia (27.2%). O Brasil manteve-se morto (12.3%).
Em 40 anos, enquanto que a China e a Índia aumentaram o comércio internacional mais de 650%, o Brasil ficou abaixo dos 50% (ver, Fig. 6).

Fig. 6 - Evolução do comércio internacional da China, Índia e Brasil  (dados: Banco Mundial, grafismos do autor)

A abertura da China do período 1976-2000
Fez com que a industria manufactureira simples se deslocalizasse da Europa para a China. Neste processo, a China adquiriu maquinaria agrícola para libertar a mão-de-obra da agricultura para as actividades industriais relativamente menos sofisticadas.
Motivado pela grande taxa de poupança / investimento, a China foi aumentando a capacidade de produzir produtos mais sofisticados o que levou ao aumento dos salários à média de 15%/ano (em termos de USD).

A abertura da Índia pós-2000
Desde 2000 que a China está a deixar de produzir os bens menos sofisticados (quis deixar de ser competitiva nestes produtos porque, globalmente, já podia subir os salários e enriquecer) o que tem transferido essas actividades para a Índia, Paquistão, Indonésia, Vietname, Bangladesh, Filipinas e outros países asiáticos.
Quem está atento aos produtos que se vendem nas nossas superfícies comerciais, cada vez vê mais produtos têxteis, calçado e vestuário e baixo preço a serem de produção de um destes países e os produtos de tecnologia intermédia (máquinas fotográficas, pen disks, rádios, etc.) a passarem a ser produzidos na China.
Numa espécie de onda que começou por volta e 1700 na Inglaterra, a Revolução Industrial tem-se vindo a expandir pelo Mundo estando agora a atingir com toda a força os grandes países asiáticos.
Provavelmente, por volta de 2050, veremos uma China já tão prospera como hoje é a Europa, uma Índia que estará na posição que observamos hoje na China e veremos finalmente a industrialização a passar para a África.

Onde fica Portugal nesta equação?
Temos que nos adaptar às alterações de produtividade que se observam no Mundo ajustando os nossos salários (descendo-os se nos tornarmos menos produtivos e aumentando-os se nos tornarmos mais produtivos).
Teremos que poupar para poder haver investimento em capital humano e em capital físico (mas não em mais estradas e mais casas) tornando a nossa estrutura produtiva com capacidade de produzir bens de tecnologia intermédia.
Teremos que ter sempre em mente que o nosso sucesso como país passará sempre por importar bens de baixa sofisticação de países menos evoluídos e de alta sofisticação de países mais evoluídos.
O nosso sucesso, mais que o da Alemanha, estará ligado à nossa integração europeia, lutando por fazer parte dos processos produtivos dos nossos parceiros europeus mais desenvolvidos fazendo componentes e partes menos sofisticadas dos produtos e sendo um destino turístico de proximidade.

Finalmente.
Só depois de compreendido o mecanismo que faz os países (e as pessoas) terem salários diferentes é que posso explicar porque a discussão em torno da TSU esteve errada desde o início.
Isto ficará para o próximo post porque este já vai muito longo.

Fig. 7 - Que ninguém pense que conseguirá encerrar este blog.

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 13 de abril de 2012

A Irlanda, Portugal e a Espanha

Ainda há quem acredite na fada madrinha.
Ontem, 12 Abril 2012, no Jornal de Negócios, p. 40, o Nuno Carregueiro diz não saber porque a taxa de juro da dívida pública irlandesa, que há 8 meses estava nos 14%/ano, estar próxima dos 6%/ano enquanto que a portuguesa se mantém no mesmo nível (nos 12.5%/ano). Alega não compreender esta evolução porque a Irlanda está numa situação pior, diz, que a portuguesa. Mas avança com uma explicação: deve-se a uma imprensa desfavorável a Portugal e a um primeiro-ministro que ajuda a essa festa dizendo a verdade.
Vaticina que, se a imprensa e o primeiro-ministro dissessem que "está tudo bem para não dizer que está óptimo", logo ficaria tudo bem.
É incrível com a ignorância se transforma rapidamente numa opinião.
Nós portugueses começamos por dizer, "eu não sei" e "eu não compreendo" e, sem fazermos qualquer esforço para ficarmos a saber ou a compreender, atacamos com uma solução para tudo o que mexe.


Fig. 1 - Eu acredito que esta bonita mulher não toma drogas e que a Nossa Sr.a de Fátima nos vai salvar.


Conversa entre o Carregueiro e um irlandês gordo.
Diz o irlandês gordo:
- Sr. Carregueiro o que devo fazer para deixar de ser gordo?
Responde o Carregueiro:
- Eu não sei porque és gordo nem porque te custa tanto respirar quando sobes as escadas pelo que não faço ideia. Então, a razão de seres gordo está no facto de os teus vizinhos te chamarem gordo e a tua mulher dizer no cabeleireiro que tens falta de ar na hora H.
- Já sei a solução: os teus vizinhos têm que passar a dizer que estás magro e a sua mulher tem que te chamar Tarzan. Nessa altura deixas imediatamente de ser gordo e de ter falta de ar.
Diz o irlandês gordo:
- Mas amigo Carregueiro, como podes avançar com a terapia se acabaste de dizer que não sabes nada sobre o assunto?
Volta o Carregueiro.
- Não compreendo a tua duvida amigo irlandês. Seria fácil eu receitar-te uma dieta mas é muito mais inteligente convenceres os teus vizinhos para dizerem que estás magro.
- Garanto-te que, mesmo sem fazeres nada, quando os teus vizinhos passarem de dizer que estás magro, passas imediatamente a ser magro. Agora só tens que os convencer a fazer isso.
Conclui o irlandês gordo:
- É Carregueiro, o problema é que eu apenas os consigos convencer quando deixar de ser gordo. 


Como o Carregueiro nos comparou com a Irlanda.
No défice público estamos melhor.
O  défice público irlandês foi 11% em 2011 e prevê-se 8.6% para 2012 enquanto que o nosso foi  7.9%! em 2011 e este ano deve ficar nos 6%. 
No desemprego estamos melhor.
O desemprego irlandês foi 13.7% em 2010 e 14.4% em 2011 e em Portugal foi 12% e 12.9%.


Vamos ver o que diz a teoria económica.
Sendo que o Carraqueiro não sabe nem compreende o que se passa, vou pegar na teoria económica e ver como posso explicar porque somos diferentes da Irlanda.

A Balança Corrente.
As relações económicas entre os agentes económicos residentes num país e os residentes no exterior  agregam-se na balança corrente. Quando a balança corrente é negativa, o residentes têm que pedir dinheiro emprestado ao exterior, vender-lhes activos ou emigrar.
Quanto mais negativamente desequilibrada estiver a balança corrente e por mais tempo, maior será o perigo do país, como um todo, entrar em bancarrota.
Em termos internos, a balança corrente equilíbra-se com os custos do trabalho.
Então, para equilibrar um desequilíbrio negativo será preciso diminuir os custos dos trabalho.


O mercado de trabalho.
Para haver produção as pessoas têm que trabalhar. Então, taxas de desemprego elevados fazem diminuir o PIB. Como o trabalho conta 2/3 na produção, cada 1% de desemprego reduz o PIB em 0.67%.
O mercado de trabalho equilibra-se pela redução dos custos do trabalho. O desemprego indicia que há mais oferta (por parte os trabalhadores) que procura (por parte do empresários) pelo que se torna obrigatório a redução do preço do trabalho.

As finanças públicas.
Défices públicos elevados levaram a dívidas monstruosas provavelmente impossíveis de pagar. Esta probabilidade transforma-se em "risco de incumprimento" que é um spread que aumenta a taxa de juro que o soberano tem que pagar pela dívida pública.
As contas públicas equilíbram-se aumentando os imposto e diminuindo os serviços que o Estado fornece a preços reduzidos (principalmente, a despesa na Segurança Social, na Saúde e na Educação)
Como jogam as coisas.
Ao diminuir os custos do trabalho estamos ao mesmo tempo a reduzir o desemprego e a equilíbrar a balança corrente.
Ao equilibrar a balança corrente, os residentes deixam de pedir dinheiro emprestado ao exterior e passam a emprestar dinheiro ao Estado pelo que diminui a taxa de juro. A principal razão é psicológica:  os residentes  são menos sensíveis ao risco de bancarrota do seu Estado que dos Estados estrangeiros.
Para reduzir os custos do trabalho é preciso diminuir do salário mensal e aumentar as horas trabalhadas por mês.
Há a hipótese teórica de diminuir a carga fiscal sobre o trabalho, a TSU, mas isso tem um alcance limitado e desequilibraria ainda mais as contas públicas.


Como têm evoluído o custos do trabalho?
Supondo um trabalhador que ganhava 1500€/mês no ano do início da "crise do subprime", em 2007.
Na Irlanda ganha actualmente 1150€/mês. Houve uma redução nominal de 23%.
Em Portugal ganha actualmente 1525€/mês. Houve um aumento nominal de 1.7%.

Como tem evoluído a balança corrente?
Os esquerdistas dizem que diminuir os salários faz cair o PIB e destruir a economia. Chamam-lhe a espiral recessiva. Nada disso é verdade.

Em 2007/8 estávamos pior que a Irlanda. 
Nunca a situação irlandesa foi tão grave como a portuguesa. Em 2007/8 a Irlanda teve um desequilíbrio da balança corrente de -5.5% do PIB enquanto que Portugal teve o dobro, -11% do PIB.
Mas como previsto pela teoria económica, a diminuição dos custos do trabalho na Irlanda fez com que em 2010 e em 2011 já a balança corrente irlandesa seja ligeiramente positiva.
Pelo contrário, a balança corrente portuguesa acabou nos anos 2010/11 nos 10%.

Agora estamos muito pior que a Irlanda.
A Irlanda corrigiu a BC em 6% do PIB (de -5.5% para +0.5%) e nós em apenas 1% do PIB.

O que justifica termos taxas de juro nos 12.5% é não conseguirmos diminuir os custos do trabalho.
Naturalmente que as pessoas não querem ver o seu salário diminuir e o seu horário e trabalho aumentar.
Pensa o Passos Coelho que dizer publicamente que temos que ganhar menos é muito impopular pelo que é melhor falar de coisas genéricas como a "renegociação das parcerias publico privadas" nas quais vai poupar para aí uns 50 milhões de euros.
são 0.1% do que temos que pagar pelas PPP e vão ser gastos em pareceres jurídico e nas negociações.
Esta incapacidade política o governo dizer abertamente que o salários têm que diminuir e que o horário e trabalho tem que aumentar é que faz as taxas de juro manterem-se elevadas.
Não diminuindo os custos do trabalho, o desemprego não diminui e a balança corrente não corrige havendo mais necessidade de dinheiro do exterior.

Dizem os comunas que, então, os salários vão cair para o nível dos dos chineses.
Em termo de poder de compra equivalente, o salário médio na China anda pelo 350€/mês (cálculo efectuado pela comparação do PIBpc, ppp).
Para vermos porque os comunas mentem, tenho que explicar como se determinam os salários relativos dos países. Para isso tenho que lançar mão a um teoria com quase 200 anos. Já tem tanto tempo (deve-se a David Ricardo, o maior contributo de um português para a teoria económica, português judeu de Amsterdão) que já toda a gente tem obrigação de a conhecer, até os comunas.

Vantagens Comparativas Relativas.
Motivado pelo clima, a escolaridade, as infra-estruturas, os recursos naturais, etc., nuns países as pessoas são mais produtivas e noutros menos. Os países são pobres porque lá as pessoas são, em média, menos produtivas.
Vamos imaginar que a produtividade de um trabalhador se traduz no número de horas que precisa para produzir um determinado bem. Um chinês demora mais tempos a fazer um bem que um português. Por exemplo, existem na economia 4 bens que em cada país demoram x horas a ser produzidos:

                              China            Portugal            Rácio
Têxteis                       88                 80                  1.1
Sapatos                   150                 50                  3.0
Televisores              108                 30                  3.6
Automóveis             300                 60                  5.0

A teoria da vantagens relativas garante que a China ao especializar-se na produção dos bens em que o rácio das produtividades é mais baixo e Portugal nos bens em que o rácio é mais elevado, haverá ganho para ambos os países. Neste caso, em função dos salários relativos, a China irá produzir Têxteis e Sapatos que exportará para Portugal que, por sua vez, produzirá Televisores e Automóveis que exportará para a China.
Mas na China um trabalhador demora mais tempo a fazer Têxteis que em Portugal pelo que, para o preço ser menor que o Têxtil produzido em Portugal, o salário tem também que ser menor.

Preço = Tempo x Salário

Para a China produzir Têxteis:              88 x Salário_China < 80 x Salário_ Portugal
Para a China produzir Sapatos:          150 x Salário_China < 50 x Salário_ Portugal

Para Portugal produzir Televisores:    30 x Salário_ Portugal < 108 x Salário_China
Para Portugal produzir Automóveis:    60 x Salário_ Portugal < 300 x Salário_China

Então, desta condições resulta que para a China produzir (e exportar para Portugal) Têxteis e Calçado terá que ter um salário médio
Salário_China < 0.33 x Salário_ Portugal

E Portugal para poder produzir e exportar para a China Televisores e Automóveis tem que ter:
Salário_ Portugal < 3.7 x Salário_China

O salário relativo vai ficar entre estes valores. Se, por exemplo, na China o salário médio for 350€/mês, em Portugal poderá ser entre 1050€/mês e 1295€/mês.

O que acontece se o salário for maior que 1295€/mês?
A China passará a produzir Televisores e como a nossa produção de Automóveis não é suficiente para pagar todas as nossas importações, a balança corrente fica negativamente desequilibrada.
Para equilibrar novamente a balança, os nossos salários têm que diminuir.

Não são os baixos salários que tornam a China competitiva mas, pelo contrário, o ser a China pouco competitiva é que obriga a que os seus salários sejam baixos.

Se temos a balança corrente negativa, temos que desvalorizar os nossos salários até a balança corrente equilibrar.

E como está a evoluir a Espanha?
Tem uma taxa de desemprego elevadíssima e os custos do trabalho aumentaram.
A balança corrente não corrige (foi -4.5% do PIB em 2011 e está a piorar).
O governo disparata contra tudo e contra todos em vez de tomar as medidas certas: descer os custos do trabalho.
Está tal qual os da Guiné Bissau.

Amigo Nuno Carregueiro, espero que tenha ficado a compreender porque as taxas de juro da Irlanda desceram e as nossas não.

Pedro Cosme Costa Vieira

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