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sexta-feira, 9 de maio de 2014

O mau, o feio e o péssimo

A "espiral recessiva" deu lugar ao "caminho para a estagnação". 
Hoje estive a ouvir o debate na Assembleia de República e achei interessante os do PS atacarem com a ideia de que estamos a caminho da estagnação. 
Mas se antes estávamos na espiral recessiva e agora caminhamos a passos largos para a estagnação então, isto são boas notícias. 
Mas não. Afinal, como por um passe de mágica, os esquerdistas querem passar sobre o facto da economia estar há vários trimestres a crescer como se isso nunca tivesse acontecido. 
Antes estava mau porque a "austeridade de 2012 ia atirarmos para uma espiral recessiva", depois em 2013 ficou feio porque "a austeridade era continuar a escavar o buraco" e, de repente, ficou péssimo porque a austeridade vai levarmos à estagnação.

Será possível haver algo de positivo para os esquerdistas?
Há. Tudo o que aconteceu no tempo do Sócrates.
A estagnação económica, a desorçamentação e o esconder da dívida pública, os contratos com "os amigos do PS" e o casamento gay

Fig. 1 - A questão não é "Passos, pára de escavar o buraco" mas sim "esquerdistas, parem de tentar puxar o peso morto".

Vamos ao desemprego.
Em princípios de 2000 havia 200 mil pessoas desempregadas. 
Depois, em 2002 houve uma crise de que já ninguém se lembra. Nesse tempo governava o Guterres e, como defendem hoje os esquerdistas, na altura deu inicio à segunda fase da "politica do crescimento e do emprego".
Mas o desemprego começou a crescer e cresceu, cresceu, cresceu mas disso os esquerdistas não querem falar. A política dos subsídios e dos direitos adquiridos transformou a nossa economia num peso morto e todos os dias, semana, sábados, domingos e feriados e ainda nas férias, 100 pessoas passou a cair nas estatísticas do desemprego. 
O Sócrates quando entrou havia 400 mil desempregados e o grande anúncio do bicho foi de que iria criar 150 mil postos de trabalho. 

Fig. 2 - É só para recordar.

Mas a realidade é que, quando foi corrido, havia mais 150 mil desempregados. 
E, dizem os esquerdistas, o governo do Passos Coelho perdeu toda a credibilidade porque não cumpriu com as promessas eleitorais.
E o Sócrates, durante esse tempo todo, implementou PECs extraordinários.

Fig. 3 - Evolução do número de desempregados (dados: ine, série de 1998 e de 2011)

O Passos entrou e o desemprego continuou a subir. Nos 2 primeiros anos aumentou o triplo da tendência do socratismo tendo atingido um máximo de 805mil desempregados. Mas também foi preciso cortar no financiamento externo (no défice das nossas contas com o exterior).

Impossível.
Não é que no últimos ano, o desemprego teve uma redução de 140 mil!
Apesar de estarmos a viver a "espiral recessiva", desde há um ano o desemprego está a reduzir 375 pessoa por dia. 
Cada 3 dias, 1000 pessoas e cada mês, 10 mil pessoas deixou o desemprego.
Isto é apenas extraordinário.

Será que os desempregados morreram?
Isso é problema deles pois quando o desemprego aumentou ninguém quis saber de onde vinham essas pessoas. Se se reformaram, evaporaram, imigraram ou retornaram à Ucrânia não nos diz respeito pois o que interessa é que a taxa de desemprego como medida do desequilíbrio do mercado de trabalho está a reduzir muito rapidamente. 

Mas o governo anunciou a "7 revisão do código do trabalho".
Quer reduzir a "contratação colectiva". 
Em teoria o contracto colectivo agrada a toda a gente porque resulta de uma negociação entre empregadores e empregados mas, pelas grandes diferenças que existem entre as empresas e entre os trabalhadores, esses contratos retiram liberdade de negociação aos trabalhadores e aos empresários de produtividade marginal. 
Um contrato colectivo pode ser bom para as empresas grandes e sólidas que existem em Lisboa ou no Porto e para trabalhadores competentes dessas cidades. Mas para uma chafarica que quer existir numa aldeola de Arouca, com trabalhadores meios mancos cuja única alternativa é cavar terra, essas condições mirabolantes não fazem qualquer sentido. 

Ainda hoje estive a ver um projecto de um infantário.
A Lei é tão restritiva, obrigando a ter tanta coisa mais uma educadora e uma ajudante por cada 10 crianças que um infantário tem que cobrar pelo menos 500€/mês por cada criança.
Isso é impossível. Como podem as centenas de milhar de pessoas que ganham um salário inferior a 600€ pagar 500€ para tomarem conta da criança e apenas durante o dia?
A Lei quer proteger tanto os direitos das criançinhas que o povo tem que as botar abaixo. 
Com os trabalhadores passa-se o mesmo. Protege-se tanto que o povo tem que ficar em casa a coça-los.

Fig. 4 - Esta teve que ir abaixo porque eu não tinha os 500€/mês para o infantário

Vamos à produtividade.
A espiral recessiva induzida pela austeridade, dizem os esquerdistas, destruiu a nossa economia.
Se assim foi então, a produtividade deve ter caído. 
Vou então pegar nos dados sobre a produção por trabalhador (do banco mundial) e comparar com o que se passou na Grécia.
Por estranho que pareça, a nossa produtividade tem aumentado 1,5%/ano e, desde 2007, a produtividade tem estado a crescer menos mas não se compara com a forte contracção vivida pela Grécia. 
Afinal os 3 anos de ajustamento não destruíram a capacidade produtiva. 

Fig. 5 - Evolução da produção por trabalhador (dados: Banco Mundial, 100 em 1980)

Vamos à carta (com o 4.º segredo de Fátima).
Como dizem os budistas, a infelicidade da nossa vida resulta de colocarmos metas que pensamos necessárias à nossa realização pessoal. 
Se a meta é atingida, logo pensamos que podíamos ter pensado mais alto e ficamos sem objectivo na vida, Se não atingimos a meta ficamos derrotados porque pensamos sempre que a poderíamos ter atingido.
Com o Seguro tem-se passado exactamente isso. 
Primeiro, falou da espiral recessiva, depois do segundo resgate, por fim meteu todas as cartas na "saída limpinha, limpinha, limpinha".
E agora Seguro para onde vais?
Para a carta.
Tal como o terceiro segredo de Fátima ou o segredo das novelas baratas, agora o Seguro quer ler a carta.

Fig. 6 - Seguro, vai à bruxa que ela lê-te a carta.

Mas afinal o que diz a carta?
Diz que vamos continuar a consolidação orçamental com o fim de atingir em 2018 um défice de 0.5% do PIB.
Diz que o peso do Estado vai reduzir para média da OCDE.
Diz que vamos reestruturar as empresas públicas privatizando as viáveis e fechando as que não têm pernas para andar.
Diz que vamos flexibilizar o mercado de trabalho, reduzindo ao mínimo possível a contratação colectiva e os entraves à contratação e ao despedimento.

Fig. 7 - A carta revela que o Portas é o anti-Cristo e que o Passos é o seu cavalo branco.

Significado de Oposição (ver)
subst. f.
1. contraste: a oposição entre o sonho e a realidade; a oposição entre o branco e o preto
2. acto de estar contra algo ou alguém: a oposição do pai impediu o casamento; uma violenta oposição à mudança
3. grupo político que está contra o governo: os partidos da oposição
"A oposição será sempre popular; é o prato servido à multidão que não logra participar no banquete." - Joaquim Nabuco

Compreende-se então que os esquerdistas tenham que achar tudo mau, feio e péssimo.
"E dizia Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque" faz parte da missão deles (Lucas, 23:34).

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

O emprego e a mensagem de Natal do Passos Coelho

O Passos Coelho apresentou a sua terceira mensagem de Natal.
Falou de coisas do Natal (banalidades) mas referiu três pontos que vou detalhar porque penso serem os mais importantes:
1) A correcção do desequilíbrio das contas externas, 
2) A redução do desemprego e o aumento do emprego e
3) O crescimento da economia.
Nos últimos 2.5 anos, Portugal conseguiu resultados que nunca pensei ser possível de atingir.
Confesso que me enganei redondamente, felizmente.

Fig. 1 - Passados 2,5 anos, parece que a criancinha está a querer começar a caminhar


1) O equilíbrio das contas externas.
Hoje pode-se dizer que foi fácil corrigir o défice da balança corrente mas tal não corresponde minimamente à verdade porque o défice externo é a droga dos governantes.
O défice externo incha a economia o que leva ao aumento do rendimento disponível das pessoas. Assim, apesar de esse efeito ter como contrabalanço o endividamento externo,  rende votos a quem o promove. 
Foi o défice externo que permitiu ao Guterres, Santana Lopes e Sócrates fazer obras públicas e pagar pensões e subsídios para além da receita do Estado que, canalizado para as pessoas, permitiu que o consumo das famílias fosse maior do que a nossa economia produzia. 
A promoção da compra de carros novos (o incentivo ao abate) e casas (os créditos bonificados) também levou as famílias ao endividamento que os bancos captavam no exterior.
Se olharmos para os 6 anos do socratismo, todos os meses foram metidos 150€ no bolso de cada português. Cada um, novo, velho ou assim assim e 150€ é muito dinheiro.

Fig. 2 - Balança Corrente portuguesa, euros por mês per capita (dados: BPortugal)

O problema já vinha do tempo do Guterres + ... + Santana Lopes.
O Guterres herdou do Cavaco Silva uma situação equilibrada mas, mês após mês, a situação foi degradando-se até chegarmos ao pântano dos 130€/mês. Veio o Durão com o discurso do "estamos de tanga" e, cortando 2.5€ cada mês, conseguiu reduzir em 2 anos o défice externo para metade (65€/mês). Mas a guerra foi tão grande que foram os próprios do PSD + CDS que o puseram a andar daqui para fora.
O Santana Lopes + Portas são indistintos do Sócrates: mais e mais défice externo até chegarmos em 2008 aos 180€/mês.
O Passos Coelho conseguiu reduzir a BC ao dobro da velocidade do Durão, 5€ a cada mês, conseguindo manter os do PSD no sitio deles e o Portas amarrado ao acordo de austeridade.
Isto só pode ser classificado como notável.

Fig. 3 - Balança Corrente 1:1995-10:2013 (dados: BPortugal)

2) A redução do desemprego e o aumento do emprego.
O que normalmente é usado como medida do desequilíbrio do mercado de trabalho é a taxa de desemprego que se calcula dividindo o total de pessoas que dizem estar à procura de emprego a dividir pelo total de pessoas activas (as desempregadas à procura de emprego mais as que têm emprego por conta própria ou de outrem).

    Taxa de Desemprego = Desempregados / (Desempregados + Empregados)

Então, a taxa de desemprego pode reduzir não só porque as pessoas encontram emprego mas também porque as pessoas desanimam de procurar emprego ou emigram.
Mas também pode acontecer o contrário, a malandragem deixam a inactividade porque acabou a mama dos diversos subsídios e de poderem viver à custa das pensões dos velhotes e passam a desempregados (começam a procurar emprego).

Fig. 4 - O número de pessoas inactivas que podem trabalhar mas que não procuram emprego aumentou em 150 mil (dados: INE)

O emprego caiu 15% mas as horas trabalhadas caíram apenas 5%.
Em 2008 o emprego começou a cair tendo acumulado até ao 1T2013 um total de 15%. Metade desta perda foi na recta final do Sócrates e outra metade na recta inicial do Passos Coelho. Então, em 12 empregos existentes em 1998, um perdeu-se com  o Sócrates e outro com o Passos Coelho.
Mas a perda do emprego em 15% foi acompanhada pelo o aumento em 10% do tempo médio que cada pessoa empregada trabalha. Assim, as horas trabalhadas reduziram-se apenas em 5%.

Fig. 5 - Índice do número de pessoas a trabalhar e do número de horas trabalhadas (dados: INE e cálculos do autor)

 Realmente, o emprego aumentou em 120 mil.
Se facto, se olharmos para o número de pessoas a trabalhar, no 1T2013 estava 4433,4 mil pessoas a trabalhar e no 3T2013 estavam 4553,6 mil o que traduz que no 3T estavam a trabalhar mais 120200 pessoas que no 1T, mais 2,7%.. Isto são dados do Instituto Nacional de Estatística (Fig. 5).
Podíamos dizer que as pessoas estão trabalhar mas poucas horas mas se e olharmos às horas, houve um aumento ainda mais forte, de 5,7 milhões de hora/semana trabalhadas, 3,6%.
Olhando para a variação entre trimestres (Fig. 6) parece que nestes últimos 2 trimestres o emprego cresceu relativamente à tendência.
O emprego está mesmo a melhorar mas vamos ver se nos próximos tempos a coisa se aguenta.

Fig. 6 - Variação do emprego relativamente ao trimestre anterior (dados: INE e cálculos do autor)


3) Crescimento da economia.
Os keynesianos acreditam que, primeiro, a economia cresce e, passados uns trimestres,  o desemprego começa a descer.
Mas estamos a ver que a causalidade é exactamente ao contrário. Primeiro, o emprego aumenta e, ao mesmo tempo, a economia cresce. Em 2 trimestres o número de horas aumentou 3,5%  e o PIB aumentou 1,4%. (e a produtividade desceu 2,1%).
Apesar de a produtividade por hora ter diminuído nos últimos 2 trimestres, tem-se mantido uma tendencia de crescimento de 1.2%/ano (Fig. 6). No cáluclo da produtividade do trabalho retirei 18% para a amortização do capital e 1/3 para a remuneração do capital.
(eu tinha aqui uma referencia ao Sócrates mas eu tirei porque, provavelmente, deve-se a uma quebra das séries do INE, base 1998 para a base 2002, que decidi "corrigir").

Fig. 6 - Produtividade do trabalho por hora (dados: INE e cálculos do autor)

Concluindo.
Considerando os problemas da nossa economia, 2013 foi um ano extraordinário.
Claro que o défice público foi um pouco elevado e a despesa pública derrapou mas isso deve-se a eu ter recebido o Subsídio de Férias.
Mas só depois de ver os Estaleiros Navais de Viana do Castelo definitivamente encerrados é que posso dizer que estou esperançado no bom sucesso deste governo.

Mas espero que todos tenhamos um bom 2014.
Parece que actualmente, mais grave que os cortes, são os larganços.
Um vive animado com os filhos e com as finanças, últimamente muito difíceis, da casa e, de repente, aparece alguém a dizer "apanhei o teu homem com a minha mulher".
Depois, chora, chora, chora e diz a toda a gente que nunca mais lhe perdoa mas com a certeza que vem aí um enorme pedido de desculpa, umas re-juras de amor eterno colossais, um rastejar como os soldados que vinham da guerra de África faziam em Fátima para, depois de dizer mil vezes que não, vir o momento do perdão.
Mas não. O que vem é o desamigamento seguido por um poste "só para amigos" que conta a história de um pássaro grande que vivia numa gaiola pequenina e que acaba por se libertar. O poste termina com um cometário "Como o pássaro está, finalmente, livre, sexta-feira à noite encontramo-nos no XPTO para curtir até rebentar".
Tal como o Exterminador Implacável desligou a luzinha quando mergulhou no ferro fundido, segue-se o desligamento total e para todo o sempre.

Fig. 7 - Eras tão boa que decorridos estes anos todos, ainda não recuperei de me teres torcado por esse mentecapto.

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Porque é que a crise não para?

A economia continua a encolher.
Saíram os dados do 1T2013 sobre a economia portuguesa onde se vê que nos últimos 12 meses encolhemos 4%. Muita gente berrou, desde comentadores a políticos, que estamos em queda livre, que são números totalmente imprevisiveis e chocantes mas este valor não é nada de extraordinário. Os comentadores apenas podem berrar porque o povinho é muito ignorante quanto ao que é uma crise.
Desde o princípio de 2011 o nosso PIB contraiu 5.7% que se compara com a contracção de 2009 da Alemanha (5.2%), é menor que o da Finlândia (-9.1%) e uma pequena fracção da contracção da Ucrânia (-16.7%).

Encolheram 16.7% mas ainda estou boa.


Vamos comparar com 2009.  
Na Alemanha a variação homologa do PIB  trimestral foi -6.3%, -6.8%, -4.4% e -1.3%.
Na Finlândia a crise foi ainda pior, com -8.8%, -9.9%, -8.3% e -6.4%.. É verdade, a Finlândia teve um trimestre com -9.9%.
Mas crise a sério teve a Ucrânia, que, no mesmo ano de 2009, viu o PIB variar -19.6%, -17.3%, -15.7% e -6,7%.
Comparando com estes valores, a nossa contracção de 4.0% é uma criancinha mas que tem relevância porque é maior que a média dos 4 trimestres anteriores (-3.2%).
Quando eu Nov 2011 eu estive na Antena 1 (a minha única aparição pública), referi que o nosso ajustamento levaria o PIB a contrair 20%. Decorridos 18 meses, tenho que fazer uma re-previsão para valores mais optimistas. Agora acredito que a retoma acontecerá em 2015 e que a contracção do PIB será de apenas metade, 10%, do que eu então previ (ver, Fig. 2).
Pensando que estamos exactamente a meio da crise, espero eu não me enganar outra vez. Mas posso estar enganado e a coisa atingir mesmo os -20% como já contraiu na Grécia!


 As minhas previsões para o PIB ......
 ANO ..... 2013 ........ 2014 ......... 2015
 ... PIB ........ -3.7% ..... -1.9% ....... +1.7%

Fig. 2 - Evolução do crescimento do PIB (dados: INE) e a minha previsão de que a crise acaba em 2015


Quais as causas da nossa crise?
Sem qualquer dúvida que é o fim do endividamento externo (que era de 10% do PIB).
É difícil aumentar as exportações sem cortar nos preços pelo que o melhor que conseguimos fazer foi atingir o nível de princípio de 2008. Então, de repente, foi preciso cortar a torto e a direito nas importações (que 1/3 era comprada a crédito) e isso deprimiu o sector das vendas a retalho e da construção civil.
Porque era impossível continuarmo-nos a endividar para todo o sempre, os esquerdistas continuarem a repetir que o PEC4 era a solução para todos os nossos problemas só demonstra que estávamos a ser governados por alucinados, tresloucado, dementes. Éramos um manicómio em auto-gestão.
Mesmo que fosse a NS de Fátima a governar-nos, a única solução era cortar nas importações.

Agora, o problema não está na quebra da procura agregada.
Os comentadores, esquerdistas e direitistas, dizem que a causa para a nossa crise está no lado da procura (menos consumo, exportações fracas e investimento reduzido) e nunca falam na necessidade de re-estruturar uma economia que vivia de endividamento (um tipo de  "Doença Holandesa").
Havia actividades muito dependentes das importações (a distribuição), da entrada constante de crédito fresco (a construção civil e obras públicas) e de apoio às populações (restauração) que estão condenadas a mirrar.
Argumentar que o nosso problema está no lado da procura (se não há procura, as empresas despedem pessoas e não investem) é apelativo mas está errado. Apesar de ser aceitável distrairmo-nos com conversas erradas, se quisermos compreender mesmo o que se está a passar, temos que observar cuidadosamente a evolução da nossa economia.

Porque está a análise errada?
Porque Portugal está integrado numa vasta economia em que as quantidades procuradas são dezenas de vezes maiores que a nossa capacidade produtiva total. Desta forma, as nossas empresas podem aumentar a sua produção quase sem limite.
O problema não está na procura mas na concorrência, i.e., na falta de capacidade das nossas empresas competirem junto dos clientes em termos de preços e qualidade.
Num mundo de sonho, podemos pensar que é fácil competir no mercado pela qualidade, fazendo Mercerdes, Audis e BMWs mas isso é apenas em sonho. No mundo real, temos que competir baixando os preços que apenas é conseguido se as nossas empresas conseguirem diminuir os custos de produção.


E como se diminuem os custos de produção?
Pois aqui é que está o problema do nosso país, vivermos com a cabeça na Lua.
Nas taxas de juro não é possível mexer porque a nossa poupança é muito baixa e os exteriores não nos querem emprestar recursos a taxas de juro menores.
Nos custos de periferia, não podemos mexer pois não podemos mudar o país para cima do Luxemburgo.
Sobram os custos do trabalho mas os "direitos adquiridos" não permitem a diminuição dos salários nominais nem o aumento das horas de trabalho (ver, Fig. 3).
Então, como o único direito adquirido que cede é o direito ao emprego, toca a despedir as pessoas menos produtivas.

Fig. 3 - Número de horas de um trabalhador a tempo inteiro (dados: INE)

Será que é isso que está a acontecer?
Até meados de 2008, princípio da crise do sub-prime, trabalhavam-se em Portugal 185 milhões de horas por semana, 17.6h/sem para cada português. Apesar de sabermos que a taxa de desemprego estava a aumentar desde 2002 e o horário semanal a diminuir, até 2008 o aumento da população activa contrabalançava estas duas variáveis.
Em finais de 2008, bastante antes do Passos Coelho entrar no governo, o número de horas trabalhadas começou a diminuir 3.7%/ano e actualmente já acumula uma perda de 17% (ver, Fig. 4).

Fig. 4 - Milhões de horas trabalhadas em Portugal por semana, a tempo inteiro e parcial (dados: INE))


Como pode o número de horas diminuir 17% e o PIB só cair 7.1%?
Se a perda de horas de trabalho fosse de pessoas identicamente produtivas, mantendo-se o nível de capital, esta queda de 17% induziria uma contracção do PIB de 11% (2/3 dos 17%). Apenas não há tamanha contracção porque, a produtividade por hora trabalhada tem aumentado 1.9%/ano (ver, Fig. 5).

Fig. 5 - Produtividade por hora, 2/3 do PIB para o trabalho e 1/3 para o capital (dados: INE)

A economia está a evoluir.
A produtividade do trabalho estar a crescer 1.9% é positivo porque indica que a economia continua-se a transformar. Se acrescentarmos que o investimento tem estado em valores muito baixos, vemos que assistimos a uma transformação muito positiva. Então, temos um potencial para, a médio-prazo, ter um crescimento do PIB acima dos 2%/ano. Penso mesmo que no período 2016 - 2020 vamos ter crescimentos acima dos 3%/ano.

 
2015 vai acabar com um desemprego de 22%.
O lado mau deste número é que a contracção do PIB de mais 5% até finais de 2015 (é a minha previsão) vai estar associada à diminuição do total de horas trabalhadas o que traduz mais desemprego. Se a contracção entre 2011 e 2013 do PIB de 5.7%  foi induzida pelo aumento do desemprego de 12.9% para 17.5%, uma nova contracção de 5% do PIB vai estar associada a um aumento do desemprego para os 22%..
Se eu não errar, o anos de 2015 será de estabilização do desemprego e só em 2016 é que a coisa vai começar a diminuir.
Não digam depois que os números os surpreendem.

 Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 26 de abril de 2013

A trajédia do Bangladesh não está debaixo dos escombros

Esta semana, porque no Bangladesh caiu um edifício que albergava milhares de trabalhadores do vestuário que são exportados para cá, logo os esquerdistas vieram a terreiro dizer que a causa era o capitalismos e a exploração dos trabalhadores pelo grande capital internacional.
Com uma falsa moralidade, vieram pedir a proibição da importação dos bens produzidos por essas pessoas miseráveis porque não estão garantidas as condições mínimas da sua  dignidade humana.
Tudo isto é errado porque a tragédia destes países pobres não é nós comprarmos bens baratos feitos por trabalhadores com salários miseráveis e a trabalharem em instalações degradadas. A tragédia desses países pobres é apenas serem pobres.

Fig 1 - O maior negócio no Bangladesh é vender fast food para esta gente toda e tirar fotos a la minute
Porque serão esses países pobres?
Porque foram apanhados pela armadilha de pobreza de Malthus.
A economia desses países esteve centenas de anos baseada na agricultura tradicional onde o progresso tecnológico é muito lento. Então, a população foi crescendo até ao limite da capacidade de produção dos seus campos. Nessas economias o único limite ao crescimento da população era a fome recorrente que matava milhões de pessoas.
Nós, os mais velhos, ainda nos lembramos dessas grandes fomes que atingiam o continente africano e asiático tendo sido as últimas nos anos 1970.
O Bangladesh, com uma área de 1.6 vezes a área de Portugal e um PIB em termos de paridade de poder de compra pouco maior, tem 160 milhões de habitantes para sustentar.
Para imaginarmos como é a miséria do Bangladesh, na área onde nós vivemos e com 70% do nosso salário médio (630€/mês), vivem 10 pessoas.
O salário de uma fábrica de confecção bangladesheana corresponde a viver em Portugal com um salário de 40€/mês.

Como está a pobreza no Mundo?
Por esse mundo fora, o limite minimo de sobrevivencia andará num rendimento de 0.5 dólar americano por dia (200USD por ano). De forma triste, mais de metade da actual população mundial vive em 10 países que há 30 anos tinham um rendimento (PIBpc em ppc) próximo deste valor pelo que grande parte das pessoas destes países morria de fome. 

País
PIBpc 1990
PIBpc 2011
PopulaçãoCrescimento
China1101741819,3%9,5%/ano
India1210322317,8%4,8%/ano
Indonesia200840943,5%3,4%/ano
Pakistan162024242,5%1,9%/ano
Nigeria141722372,3%2,2%/ano
Bangladesh74715692,2%3,6%/ano
Philippines255236381,4%1,7%/ano
Vietnam90530131,3%5,9%/ano
Ethiopia5459791,2%2,8%/ano
Egypt323755471,2%2,6%/ano
Total1290467452,6%6,0%/ano
Quadro 1 - Os 10 maiores países pobres do mundo (dados: Banco Mundial)

Será que se quebrou o circulo da pobreza?
Definitivamente sim na maior parte dos países.
Enquanto que a armadilha da pobreza fazia com que o PIB crescesse apenas à taxa de crescimento da população, nos últimos 21 anos o rendimentos per capita destes pobres veio multiplicado 3.6 vezes.
Se uma trabalhadora textil bangladesheana ganha hoje um salário equivalente a uns míseros 40€/mês nossos, há apenas 21 anos os seus país ganhavam metade, 20€/mês (a preço constantes).
O Bangladesh, apesar de ainda ser um país de grande miséria, as pessoas hoje têm um nível de vida que é o dobro do que tinham em 1990 e o que me dá mais esperança na capacidade do capitalismo trazer o progresso à humanidade é que 2/3 do aumento se ter verificado nos últimos 10 anos.
Até o nosso querido Moçambique duplicou o seu PIBpc.
Interessante que os países que apostaram no combate do desemprego pela flexibilização do mercado de trabalho (com muito baixos salários segundo os padrões ocidentais) entraram no caminho do crescimento enquanto os que martelaram nos princípios de falsa moralidade do "salário justo" estão hoje em pior situação do que estavam em 1990 (países africanos ainda ligados à ditadura socialista herdada da guerra fria). 

Porque comparo com 1990?
Porque foi nessa altura que a ideologia socialista  rebentou de vez na URSS e a generalidade dos países do Terceiro Mundo virou-se para o Capitalismo.
Até 1990 o Zaire teve um nível de vida semelhante ao Bangladesh. Depois de 20 anos de promessas de "outro caminho que não o dos salários baixos", hoje o rendimento de um bangladeshiano é mais de 4 vezes o rendimento de um zairense.

Fig. 2 - No Zaire, como os esquerdistas de Portugal, prometem que vão seguir o caminho do crescimento com salários dignos. Mas não basta prometer. (dados: Banco Mundial)

Porque é uma falsa moralidade.
Porque não propõem alternativa para essas pessoas que não seja morrerem de fome.
Uma coisa era dizerem "eu ganho mil e esses ganham 50 então, eu dou-lhes 900" outra coisa é dizer que não podem trabalhar nessas condições condenando-as a uma miséria muito maior que a que levam.
Em cada país, os salários devem ser os que as empresas puderem pagar para ficar garantido o pleno emprego e não aquilo que os políticos acham ser moral pois a moral não põe pão na mesa.

Vou terminar com o discurso do Cavaco.
No passado dia 6 de Abril, depois do chumbo do tribunal constitucional dos cortes dos subsídios de férias, o Passos coelho e o Gasparzinho foram falar com o Cavaco Silva. Fonte bem colocada disse-me que foram dizer que não tinham condições para continuar. Que estavam a apanhar pancada de todas as partes e que estavam cansados.
Disseram que o Cavaco sabia bem que não havia alternativa a cumprir o que a Troika mandasse pelo que não podia continuar a incendiar o país.
Foi a segunda vez que o Passos foi entregar o poder ao Cavaco.

O Cavaco pensou e viu-se sem alternativas.
Formar um governo com quem? Com a Ferreira Leite?
Então, pediu ao Passos e ao Gasparzinho para aguentarem um pouco obrigando-se a dar um sinal de apoio. E esse sinal foi o discurso do passado 25-abril.
Dizer que é errado aproveitar o descontentamento para vender ilusões de que a austeridade pode acabar, é a maior marretada que alguém pode dar nos opositores ao Passos Coelho, venha essa oposição de dentro do PSD e do CDS ou da oposição.


Fig.3 - Nem que a Ferreira Leite fosse assim boa, eu confiava a vida do meu país nas suas mãos.

Não estamos em tempo de consensos.
Foi o que disse o Churchill relativamente à politica do Hitler.
Agora, com o discurso destrutivo do PS e o tempo a fugir, não mais é tempo de consensos mas chegou o tempo de acção. Só espero que o Passos tenha a mesma firmeza que parecia ter quando apresentou o OE2012.


Pedro Cosme Costa Vieira

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Exigem-se novas carreiras de autocarros pelas auto-estradas

Os nossos transportes públicos são, desde o tempo do Salazar, muito regulados, o que prejudica o público em termos de preços e de disponibilidade. 
Portugal precisa de carreiras de autocarros nas autoestradas em que as estações de serviço funcionam como hubs de passageiros. 

O Salazar era contra a concorrência.
A lógica económica era que, antes que uma nova empresa fosse autorizada a fazer investimento (entrando no mercado),  a capacidade produtiva das empresas existentes deveria estar esgotada.
Esta politica de condicionamento parece ter lógica. Por exemplo, se existe um restaurante com capacidade para 250 refeições/dia que só serve 70 refeições/dia, parece haver racionalidade económica em proibir que um novo restaurante abra portas num raio de 2 km.

Fig. 1 - O Salazar morreu há 32 anos mas os alvarás monopolísticos ainda subsistem nos transportes de passageiros.

Mas o condicionamento causa mais prejuízo que lucro.
Teria lógica se os produtos fossem todos iguais e feitos da mesma maneira. Mas, ao não se permitir a abertura de um novo restaurante faz-se com que o cozinheiro actual continue a fazer má comida. Apesar de um novo restaurante obrigar a mais investimento (e um custo global acrescido), nesse novo local iriam aparecer novas receitas e novas maneiras de servir os clientes o que, globalmente, faria os clientes ficarem melhor servidos.

Era a política das concessões e dos alvarás.
Nos transportes públicos de passageiros, existia um alvará que definia por onde podiam passar o autocarro (e a qualidade do serviço) e mais nenhuma empresa podia recolher ou largar passageiros nesse trajecto concessionado.
Em particular, não podia haver autocarros a concorrer com a CP nem com as empresas públicas de transportes.

Os alvarás eram a fonte da corrupção.
Para alguém conseguir uma alvará tinha que pagar luvas aos agentes do Estado. Depois, o alvará daria lugar a lucros supra-normais pelo que eram sempre uma fonte para a classe política.

Nos transportes, os alvarás mantiveram-se até hoje. 
Porquê?
Porque os governantes não querem mexer em nada que possa causar ruído.
Se se criaram leis depois do 25-de-abril-1974 a proibir a abertura dos establecimentos comerciais aos domingos para "as pessoas poderem ir à missa e estarem com a família", naturalmente que os alvarás dos transportes públicos continuaram.
O Estado chegou a nacionalizar as empresas de transportes mas nunca abdicou dos monopoliozinhos.
Se os transportes públicos urbanos dão um enorme prejuizo ao Estado, porque não pode um privado qualquer operar um trasnporte público dentro das cidades? 
São os pequenos interesses dos empregados das empresas públicas que se refletem nos pequenos interesses dos governtes.

Mas abriram-se milhares de estradas novas.
E as zonas urbanas acompanharam as novas vias de comunicação.
Mas os transportes não puderam acompanhar as novas estradas e novas localidades porque existiam as concessões pelas entradas antigas.

Fig. 2 - Para trabalhar nas novas auto-estradas é preciso usar uma tanga reflectora.

Vou criar uma ligação Porto-Lisboa pela A1.
Esta ligação é apenas ilustrativa para se ver como o tranporte rodoviário é, em termos economicos, muito competitivo.
De autoestrada, uma viagem entre o centro do Porto e o centro de Liboa são cerca de 325km e demora cerca de 3h.

Os custos.
Vou avaliar os custos de um autocarro fazer  5 viagens de ida e volta por semana Porto-Lisboa

A) Amotização do autocarro
    Preço do autocarro de 52 lugares -> Cerca de 250M€
    Taxa de juro de 5.2%/ano, amortização em 15 anos ->  400€/semana (a preços constantes)
    5 viagens de ida e volta por semana -> 40€/viagem

B) Preço do combustível
    35 litros / 100 km, 1.5€/l -> 170€/viagem
    Deste custo, cerca de 100€ são impostos (ISP e IVA).

C) Manutenção, 10% de (A+B) -> 21.00€/viagem

D) Seguro (0.50€/passageiro potencial) -> 26€/viagem

E) Portagens -> 37.5€/viagem

F) Motorista  -> 50€/viagem

G) Gestão (10%) -> 35€/viagem

Dá um total de 380€/viagem, 7.5€/passageiro
Como o autocarro transporta 52 passageiros, para uma ocupação de 100%, o custo é de 7.5€ por passageiro transportado que compara com 35.3€/passageiro no Alfa Pendular.
Existem no mercado bilhetes de autocarro a 16.50€/viagem o que indicia uma taxa de ocupação média na ordem dos  50%.

Fig. 3 - Este autocarro vai com 80% da lotação máxima

O autocarro é muito melhor que o comboio.
Porque usa uma infra-estrutura (a auto-estrada) multiproposito, consegue custos muito baixos.
No meu pequeno estudo, o custo do autocarro é muito menor que o preço do comboio (que, ainda assim, dá muito prejuizo) e cerca de 25% desse custo são receitas do Estado (imposto sobre o combustivel) e 10% é o uso de uma infra-estrutura já existente (portagem da auto-estrada).
O problema é que o Estado torpedeia quanto pode os autocarros (para favorecer os comboios).

O que o Álvaro Santos Pereira precisa fazer.
A A1 tem 7 àreas de serviço espaçadas cerca de 40km que devem ser adaptadas a hubs rodoviários.

Lisboa, km 0 <- fazer um terminal rodoviário
     Aveiras,    km 44
     Santarém,  km 84
     Leiria,       km 126 
     Pombal,     km 165
     Mealhada, km 205
     Antuã,       km 255
     Gaia,         km 296
Porto, km 306 <- fazer um terminal rodoviário

Terá que ser feito um terminal rodoviário no Porto e outro em Lisboa e as estações de serviço têm que passar a funcionar como hubs rodoviários de ligação às cidades e povoações existentes pelo país fora.

Como deverão ser os hubs rodoviários?
A) Têm que permitir a entrada e saida dos autocarros a partir da auto-estrada

B) Têm que permitir a entrada e saída dos automóveis que transportam os clientes para os autocarros sem necessidade de percorrer um troço de auto-estrada.

C) Têm que ter um lugar de estacionamento para um automóvel por cada 2 clientes potenciais. Imaginando 5000 passageiros/dia, haverá necessidade de 2500 lugares de estacionamento em cada terminal.
D) Em Lisboa e Porto será preciso criar (no inicio da A1) terminais com maior capacidade de estacionamento (na ordem dos 5000 lugares).

E) Os terminais de Lisboa e Porto têm que ter lugares de estacionamento para 150 autocarros.

F) Tem que haver várias slots para apanhar e largar passageiros, principalmente em Lisboa e Porto.

A operação dos autocarros tem que ser livre.
Tem que haver total liberdade de ter um autocarro e fazer transporte de passageiros dentro das auto-estradas e de ligação entre os hubs e o centro das cidades e localidades.
Da mesma forma que nos aeroportos existe a licitação das slots, os diversos locais de recolha / saida de passageiros serão leiloadas em intervalos de alguns minutos.
Por exemplo, em 25 slots divididas em intervalos de 15 minutos, será possível embarcar/desembarcar 5000 pessoas numa hora.


Fig.4 - O terminal de autocarros em Retiro- Buenos Aires tem 75 slots.


A Cristas precisou de mais coragem.
Descongelar as rendas antigas e permitir que aumentassem para 1/15 do valor patrimonial foi de uma grande coragem política.
Acabar com os alvarás dos transportes dos passageiros não chega nem aos calcanhares disso.
E permitirá privatizar os transportes públicos veículo a veículo, acabando com essas greves selvagens que todos os dias dão cabo da vida do povinho que precisa de andar de transportes públicos.
Mais concorrência, menos greves.
Por isso Álvaro, tens que avançar e já.

Pedro Cosme Costa Vieira 

domingo, 7 de outubro de 2012

Será o "outro caminho" diferente da "austeridade"?

A Retórica.
Dizem os pensadores clássicos nos tratados sobre a Retórica que uma forma de combater as ideias dos adversários é atirar conceitos difusos, confusos e variados. É uma cortina de fumo que se lança no meio da batalha para esconder o que parece impossível de esconder, por exemplo, um carro de combate.
Os comunas, socialistas e demais bacocos do PSD e CDS que são opositores ao governo do Pedro Passos Coelho usam estas técnicas milenares atacando com
 1) O caminho da austeridade não está a funcionar.
 2) É preciso seguir outro caminho, o caminho do crescimento.

Mas será que existe algum fundo de verdade no que dizem?

Neste poste vou mostrar que Portugal não vive em austeridade e que a "política de austeridade" é exactamente o mesmo que "a política do crescimento".
Finalmente, mostrarei que o endividamento externo leva ao empobrecimento.

Num dos mais famosos frente-a-frente da história
Jesus usa figuras de retórica para tentar confundir Pilatos (Jo 18, 33-38).
Primeiro, à pergunta de Pilatos 
 - Que fizeste?
Jesus responde a uma anterior questão:
 - Sou rei ... mas não deste mundo" .
Ora "ser rei" era um conceito conhecido mas que fica confundido com "não deste mundo".
Alguém dizer que era rei à revelia de Roma era um crime de usurpação de funções mas não ser "rei do Carnaval".
Depois, Jesus ataca com um conceito difuso.
- É para dar testemunho da verdade que nasci (Jo 18, 37).
Se tivesse nascido para ser rei, teria nascido para governar. Então, com uma cortina de fumo, desvia-se um pouco mais do crime de se apelidar rei.
Finalmente, acrescenta-lhe confusão semântica
- Tudo o que é da verdade ouve a minha voz (Jo 18, 37). 
O que é que isto quer dizer? Já não tem nada a ver com a discussão (de ser rei) e prende o pensamento de Pilatos.
Que a verdade é feita por partes ("tudo que é" são as diversas componentes da verdade) e ouvem?
Afirmará Jesus a capacidade de alterar a verdade?
A verdade é a opinião das pessoas (as coisas não ouvem)
Quererá dizer que tudo o que disser passa a ser a verdade?
Pilatos, conhecendo a Retórica e tendo já formada a sua convicção, sabe que não mais pode "vencer" o debate.
Contra-ataca perguntando
- Que é a verdade?
E, sem ouvir a resposta (era um diálogo de surdos),  publicou a sentença:
Não acho nele qualquer crime. (Jo 18, 38).

Fig. 1 - Como as pessoas não querem pensar, a confusão favorece quem não tem ideias. Serão pernas? Dedos? A cabeça de um cavalo?


Vamos aos conceitos que estão em discussão
1) O que é a "política de austeridade"?
2) Será que vivemos em "austeridade"?
3) O que é a "política de crescimento"?
4) Será que a "política de crescimento" é uma alternativa à "política de austeridade"?

1) O que é uma política de austeridade?
Uma política é uma estratégia de governação em que existe pelo menos uma alternativa.
Por exemplo, para emagrecer, umas pessoas adoptam a política de comer menos e outras a política de fazer mais exercício físico. Como existem duas opções técnicas, a escolha de uma delas em desfavor da outra é uma decisão política.
Pelo contrário, para pouparmos no consumo de combustível do nosso carro apenas existe a solução técnica de andar mais devagar.


Fig. 2 - Isto é austeridade e da boa.

Austeridade é consumir pouco quando se podia consumir muito.
Austeridade será a política de pouco consumo e muita poupança (seja pública ou privada).
Um pais que esgote todos os seus recursos, sejam eles muitos ou poucos, não tem a opção de gastar mais. Por isso, a política de austeridade não é sinónimo de pobreza.
Há países ricos que vivem em austeridade (gastando menos que as suas possibilidades) e países pobres que vivem na moleza (gastando mais que as suas possibilidades).

2) Será que em Portugal vivemos em austeridade?
Em termos macroeconómicos, O PIB pode ser dividido em três parcelas:

    Parcela 1 - Depreciação do capital;
    Parcela 2 - Consumo;
    Parcela 3 - Poupança.

Se for verdade que em Portugal vivemos sobe uma política de austeridade então, o consumo será pequeno e cada vez menor e a poupança será elevada e cada vez maior.
Mas, por incrível que pareça, nunca o consumo foi tão grande e, consequentemente, nunca a nossa poupança líquida foi tão pequena.
Se pegarmos na taxa de poupança interna bruta, retirarmos a depreciação do capital e somarmos os gastos em educação obtemos a poupança líquida que, no período 1970/2010, foi de 7.5% do PIB.
Em 1998, a nossa poupança líquida começou a diminuir rapidamente (e o consumo a aumentar) tendo passado a negativo em 2008 (ver, Fig. 3).

Fig. 3 - Taxa de poupança líquida em Portugal, somando a despesa em educação (dados: Banco Mundial)

Então, em Portugal não estamos em austeridade pois consumimos tudo o que produzimos e mais qualquer coisa, não havendo possibilidade de consumir mais porque não há produção.
Vejamos a Alemanha.
Como, alegadamente, na Alemanha não existe austeridade então, a poupança terá que ser ainda menor que em Portugal.
Por incrível que pareça, a taxa de poupança líquida na Alemanha é de 14% do PIB, maior que no ano de entrada no Euro e é quase o dobro do que conseguimos nos anos 1970/2008 (ver, Fig. 4).

Fig. 4 - Taxa de poupança líquida em Alemanha, somando a despesa em educação (dados: Banco Mundial)

Vejamos um país pobre: a China.
Mas há quem diga que a poupança na Alemanha é maior que em Portugal porque é um país mais rico. Vou então observar o que se tem passado na China que, em 1970,  era um dos países mais pobres do mundo (tinha um PIBpc que era 0.70 do da Guiné-Bissau e hoje tem um PIBpc 17 vezes o PIBpc dessa nossa antiga pobre colónia).
Por incrível que pareça, a China vive em grande austeridade pois apenas consome 50% do que produz e em 1970 a poupança chinesa era ligeiramente maior que a Alemanha (ver, Fig. 5).

Fig. 5 - Taxa de poupança líquida da China, somando a despesa em educação (dados: Banco Mundial)

Em Portugal não há austeridade porque consumimos tudo o que produzimos (a poupança líquida é mesmo negativa).


3) O que é a "politica de crescimento"?
Os três principais factores que causam crescimento económico são

F1) o trabalho.
Se mais pessoas trabalharem ou se as mesmas pessoas trabalharem mais horas, haverá mais produção. A evidencia empírica indica um crescimento proporcional: um aumento de 1% no número de horas trabalhadas leva a um aumento de 1% no PIB.

F2) o capital.
O capital (terrenos agrícolas, máquinas, instalações fabrís, veículos de transporte, infra-estruturas, educação, saber-fazer, etc.) são um factor importantíssimo na capacidade de produção de um país. A principal causa para a diferença de riqueza dos países resulta das diferenças na dotação de capital.
Como para um país se tornar mais produtivo tem que haver um aumento do capital, isso obriga a investimento.

F3) inovação tecnológica.
É o crescimento residual que fica quando retiramos o crescimento da população (pressupondo a estabilidade do horário de trabalho) e o crescimento induzido pelo investimento (aumento de capital).

Mas, para haver investimento é necessário haver poupança.
Então, a "política de crescimento" obriga a uma "política de austeridade" para que o consumo diminua e a poupança aumente.
Pode-se concluir que a "política de austeridade" é exactamente igual à "política de crescimento".
São as duas faces da mesma moeda.

Mas os comunas dizem que não.
Dizem que a poupança (que é a política de austeridade) implica a redução do consumo o que reduz as vendas das lojas, cafés e restaurantes o que leva ao desemprego e à recessão que leva a maior redução do consumo, queda dos impostos, aumento do défice, colapso da economia.
Mau. Então no que ficamos?

A austeridade (poupança) leva à recessão ou é exactamente a política de crescimento?
Vou ter que avaliar estas duas teorias usando dados disponibilizados pelo Banco Mundial.
Se for verdade o que eu digo (que a austeridade é a política de crescimento) haverá uma relação positiva entre o crescimento do PIBpc e a taxa de poupança dos países.
H1) Os países que poupam mais, crescem mais.

Se for verdade o que os comunas dizem (que a austeridade é um erro e que é preciso um outro caminho, a política de crescimento) haverá uma relação negativa entre o crescimento do PIBpc e a taxa de poupança dos países.
H2) Os países que poupam mais, crescem menos.

Pegando nos dados do Banco Mundial subtraí à taxa de crescimento  PIB  a taxa de crescimento da população.
Depois, subtrai a depreciação do capital à poupança bruta e somei-lhe a despesa em educação. Calculei a média destes valores para o período 2000/2011 (há países que têm menos anos disponíveis). Estão na amostra os países que acumulam 97.6% da população e 98.3% do PIB mundiais.
Calculando o coeficiente de correlação linear ponderado (o ponderador é a população total), observo uma correlação muito elevada e positiva (0.78).
Quando num país a poupança líquida é maior em 5% do PIB, o crescimento económico do PIBpc é maior em 1.0%/ano.
Quando não existe aumento do capital, o progresso tecnológico leva a um crescimento médio do PIBpc de 1.2%/ano.

Fig. 6 - A relação entre a taxa de poupança líquida e o crescimento do PIB é positiva (dados: Banco Mundial). Perdem os comunas.

Usando as estimativas da Fig.4, para Portugal aspirar voltar a crescer entre 2.5%/ano e 3.0/ano, terá que voltar a ter uma poupança líquida na casa dos 7.5% do PIB o que implica que as famílias poupem mais cerca de 10% do seu rendimento (porque o rendimento disponível é cerca de 75% do PIB).
Temos que passar de uma taxa bruta de poupança de 14% do PIB para 24% do PIB como tínhamos nos anos 1970. E as pessoas viviam com muito mais dificuldades financeiras que nós vivemos agora.

E será que esta relação também se observa ao longo do tempo em Portugal?
Em termos de valores, observam números diferentes mas a relação também é positiva:
Menos consumo (austeridade) leva a mais poupança e a mais crescimento económico (ver, Fig. 7).

Fig. 7 - A relação entre a taxa de poupança líquida e o crescimento do PIB é positiva (dados: Banco Mundial, Portugal)

4)  A política de austeridade é exactamente a política de crescimento.
Afinal, a "política de austeridade" leva ao crescimento e a "política de crescimento" nasce da austeridade (poupança).
O "outro caminho" dos comunas é o mesmo caminho do Passos Coelho.

Country NamePoup. LiqCresc.PIBCresc.PopCresc.pc
China38,6310,220,599,63
India22,397,131,515,62
Canada15,342,211,021,19
Germany12,631,31-0,041,34
Brazil11,713,621,122,50
France11,401,380,650,73
Italy9,800,670,550,12
United Kingdom8,011,850,541,30
Japan7,870,780,080,70
United States6,611,800,920,88
Portugal2,800,730,370,36

Quadro 1 - Comparação entre Portugal e as 10 maiores economias do Mundo (51% da população e 77% do PIB mundiais, dados: Banco Mundial)

Já só falta o endividamento externo.
Os comunas têm implícito que não será preciso pouparmos (a tal politica de austeridade) para investir e crescer porque os estrangeiros nos vão emprestar dinheiro (que depois não pagamos e eles ficam a tremer das pernas).
Então, vou ter que avaliar se
H1) os países que emprestam dinheiro aos estrangeiro crescem mais (que é a minha fezada) ou
H2) os que se endividam face ao estrangeiro crescem mais (que é o que afirmam os comunas).

Vou ao Banco Mundial buscar o Défice Corrente em termos de percentagem do PIB (que quantifica quanto dinheiro um país empresta/pede emprestado ao estrangeiro).
Se eu tiver razão, a relação será positiva (os que emprestam mais têm mais crescimento).
Se os comunas tiverem razão, a relação será negativa (os que se endividam mais crescem mais).

Fig. 8 - A relação entre a Balança corrente e o crescimento do PIB é positiva (dados: Banco Mundial). Perdem os comunas.

Temos que concluir que
O endividamento externo leva ao empobrecimento do país.
Um país que em média se tenha endividado 5% do PIB, cresceu menos 1% por ano.
Apesar de no imediato o endividamento externo melhorar o nível de vida das pessoas, como mais tarde é preciso pagar as dívidas mais os juros, a queda do nível de vida será maior (na parte dos juros).
Além do mais, o endividamento externo leva ao relaxamento das pessoas o que leva à destruição do sector produtivo dos bens transaccionáveis (que passam a ser importados) em favor dos não transaccionáveis.


Fig. 9 - Para o meu leitor devoto de Deus, se fosse garantido que o Céu tinha destes anjos, eu virava-me para a oração.

Acabei agora mesmo de receber informações confidenciais do Conselho de Ministros Extraordinário (e saber que o FCP ganhou).
No próximo poste vou explicar a visão que o Portas tem para o nosso país e como isso choca com o Passos Coelho.

A seguir, vou explicar porque a discussão em torno da transferencia da TSU "planeada" para  Portugal e qu vai ser implementada em França por um governo comuna está desviada do seu objectivo primário.
E recordo que, até prova em contrário, fui eu quem teve originalmente a ideia da passagem da TSU dos empregadores para os empregados (no meu livro, Acabou-se a Festa, pp. 19-25, agradeço à minha editora ter colocado este texto on-line).
Quero que isto se saiba para ver se arranjo um tacho, tipo consultor, de uma coisa qualquer.
Tipo "criativo" de asneiradas como o Santana Lopes que recebe 10mil€ por mês da GALP.


Pedro Cosme Costa Vieira

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