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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Como é possível um computador ser um investidor da bolsa?

Ouvindo os esquerdistas, os investimentos em bolsa de valores são algo de terrível,
 um jogo de casino conduzido por especuladores sanguinários que apenas pretendem destruir a economia, explorar os trabalhadores e tirar o sangue às micro-mini-médias empresas.
Só falta dizer, como o Hitler e outros fizeram (e.g., os nossos queridos D. João II e D. Manuel I), que são os judeus que pretendem com os negócios da bolsa explorar toda a raça humana (retirando aos judeus a condição humana). Os esquerdistas fazem isto ao abstracto "capitalista", "especulador" e "violador de crianças".
Naturalmente que nada disso é verdade.
Vou então explicar a função das bolsas de valores e explicar como se deve conduzir um investimento.
Sendo que a boa gestão aproveita do rigor científico, o computador mais não faz que calcular medidas de desempenho e optimizar, de acordo com os objectivos de cada investidor, as características dos investimentos.

As empresas. 
A produção de qualquer bem ou serviço é dividida em várias tarefas. Podemos imaginar que cada trabalhador realiza uma tarefa e interage com os outros trabalhadores no mercado (de bens e serviços em curso de fabrico).
Por exemplo,
1) O agricultor cria animais e vende as peles no mercado;
2) O curtidor compra as peles e curte-as vendendo-as no mercado;
3) Outro trabalhador compra uma pele e corta gáspeas (que é a parte do sapato em couro) que vende no mercado;
5) Outro trabalhador compra gáspeas, costura-as (gaspeia) e vende-as no mercado;
6) Outro trabalhador compra gáspeas e solas já cortadas, monta o sapato e vende-o no mercado.
Mas as transacções têm custos pelo que é mais eficiente organizar algumas das operações em unidades fora do mercado, as empresas.
Podemos entender o lucro do empresário como a sua capacidade em reduzir os custos de transacção.
O conceito de instituição como minimizador do custo de transacção é de Coase (1937), The Nature of the Firm.

O capital.
Um empresa precisa de trabalhadores e de capital. Não é possível produzir sem trabalhadores mas também não é possível produzir sem capital que são máquinas, instalações, veículos, projectos, direitos de uso de patentes, marcas, etc.
É por demais evidente que um taxista não produz nada se não tiver um carro, um agricultor se não tiver terreno, um professor se não tiver conhecimento (que é capital humano).
Como um trabalhador não produz nada se não tiver capital e o capital não produz nada se não tiver trabalhadores, a divisão da produção entre a remuneração do trabalho e do capital não é trivial.
Por exemplo, se um agricultor produz 100€ de milho, que parte deve ficar para remunerar o seu trabalho e que parte deve ir para remunerar o uso do terreno?
Os esquerdistas querem fazer crer que todo o mérito da produção é do trabalho mas há que ser sério e dar valor ao capital pois sem ele não conseguimos produzir nada.
Em Portugal cerca de 2/3 da produção vai para o trabalho e 1/3 vai para o capital.
Antes do 25 de Abril de 1974 a proporção que remunerava o capital era maior. Esta é a principal razão para o crescimento do PIB ter diminuído maior (havia maior incentivo ao investimento).
Cobrar IRC e taxar a poupança, apesar de populista, diminui o incentivo ao investimento que faz diminuir a taxa de crescimento do PIB.

Fig. 1 - Quanto mais se penalizar o capital, menor será a taxa de crescimento do PIB.
Taxa de crescimento do PIB português (fonte: INE)

A governação das empresas.
Apesar de a nossa lei permitir a criação de cooperativas em que a governação é democrática (cada cooperante tem um voto), isso não funciona.

As empresas não podem ser democracias.
 Existe uma pessoa, o patrão, que manda e o resto do povinho obedece.
Quem quiser mandar faz uma empresa e torna-se patrão. Não é criticar mas fazer.
Se eu, esquerdista, digo que os patrões são burros, iletrados, exploradores, que sugam sangue e que Portugal não avança por isso, faço uma empresa e actuo de forma diferente.
A empresa além de diminuir os custos de transacção das pequenas trocas de mercado também diminui os custos de transacção das pequenas decisões se realizadas de forma democrática.
Por esta razão é que um grande empresário não dá um bom governante nem um competente governante dá empresário.
O governo dos empresários resulta em ditadura e a empresa dos democratas resulta em  bancarrota.

Se se lembram do PREC.
Nenhuma das empresa em autogestão vingou. O caminho de todas foi o acumular de dividas enormes (que o Estado, nós, pagamos), a obsolescência dos produtos e a falência total.

Fig. 2- Os portugueses, pá, são todos uns malucos menos eu e aqui os camaradas Otelo, Arménio e Louçã, esses sim ..., não é pá? Ou será ao contrário? Já estou a ficar confundido, pá.

O financiamento das empresas.
O patrão não tem dinheiro para adquirir todo o capital da empresa. Se imaginarmos que cada posto de trabalho obriga a 50000€ de capital, um chafarica com 50 trabalhadores obriga a ter 2.5 milhões de euros de capital. Se a chafarica for industrial, tipo uma fábrica de sapatos, ainda precisa de mais capital, pelo menos 5 milhões. É muito dinheiro para um dos tais empresários de 4.a classe, com o actual 12.o ano das novas oportunidades.
Então é preciso arranjar quem financie a empresa.

Os bancos.
Uma fonte de financiamento são os bancos. As pessoas poupam e depositam os seus recursos nos bancos que, apenas como intermediários, os emprestam aos empresários.
Os bancos não inventam nada nem criam recurso. Apenas fazem, como fazem os hipers: compram crédito às pessoas que poupam (por um preço de compra - a taxa de juro passiva) e vendem esse crédito aos empresários (por um preço de venda - a taxa de juro activa). A margem de preço, o spread, cobre perdas (pois parte da fruta estraga-se, parte dos empresários vai à falência não pagando), custos de funcionamento e, naturalmente, um lucrozito. Ninguém gosta de trabalhar para aquecer.

A bolsa de valores.
As pessoas que poupam podem colocar directamente os seus recursos nas empresas mediante empréstimos (compra de obrigações) ou participando no capital (as cotas e as acções). Não são especuladores nem sanguinários exploradores, nem capitalista. São apenas pessoas que se esforçaram a juntar umas poupanças quando podiam ter gozado a vida e que querem que no futuro os devedores lhes devolvam essas suas poupanças que tanto custaram a juntar.
Como é muito difícil conhecer o verdadeiro estado económico-financeiro de cada empresa, apareceram as bolsas de valores onde as empresas são obrigadas a revelar informação sobre a sua saúde.
Nas bolsas  as pessoas podem trocar entre si títulos de participação (acções) e de dívida (obrigações) de empresas.

Fig. 3 - Há bolsas onde se transaccionam os mais estranhos activos. A da esquerda está cotada a 153437€ e a da direita a 201345€ (mercado normalizado em lotes de 6 meses / 1000 carimbadelas)

Mercado eficiente.
O princípio de que o mercado é eficiente diz que a cotação traduz o verdadeiro valor da empresa dada a informação conhecida no momento.
Por exemplo, ninguém sabe ao certo se o BCP vai falir ou não. Dada a informação existente no dia 11 de Novembro de 2011, o BCP valia 650 milhões de euros (0.10€/acção). Entretanto aconteceram coisas e hoje o BCP vale 1138 milhões de euros (0.175€/acção).
Quanto valerá amanhã? Se nada acontecer, valerá exactamente o mesmo que hoje. 
Mas podem acontecer coisas que levem concluir-se que o seu valor é 0.01€/acção ou 3.00€/acção.
Ninguém sabe.

Como se gere uma carteira de investimento.
A cotação é o valor da empresa. Estar em 500€/acção ou 0.01€/acção nada diz quanto a ser boa ideia comprar ou vender. Por exemplo, a Apple está cotada nos 505USD/acção mas isso não diz que é um melhor negócio comprar acções desta empresa que comprar acções da Vista Alegre que está nos 0.07€/acção.
A gestão faz-se pela rentabilidade, pelo risco e pela correlação com o " mercado" estimados com dados passados.

Primeiro, calculamos a cotação do dia
Pegamos na cotação de cada dia, C, que se obtém, por exemplo, calculando a média entre o máximo e o mínimo do dia.
Por exemplo, se o máximo foi 2.37€ e o mínimo foi 2.29€ vamos usar 2.33€ para a cotação do dia.
Este cálculo pode ser realizado minuto a minuto (como fazem os programas de computador).

Segundo, calculamos a variação do dia
Pegamos na cotação de dois dias seguidos, C, e calculamos a variação relativa
    R(t) = C(t)/C(t-1) - 1.
Por exemplo, se hoje a cotação foi 2.33€ e ontem foi 2.29€ então, a variação foi 1.747%.

Fazemos este cálculo para várias acções do mercado (para podermos diversificar o risco). Os computadores fazem o cálculo para todas as acções de todas as empresas de todos os mercados do mundo (de que têm informação).

A rentabilidade média.
Pegamos na variação diária e calculamos a rentabilidade média que tanto pode ser numa janela de observação (por exemplo, um ano) ou ser uma média exponencial em que o peso das observações diminui com a sua distância no passado, por exemplo, 2%.

    Média(t) = 2%*R(t) + 98%* Média(t-1)

Esta rentabilidade média anualizada dará a remuneração média passada da acção e é uma estimativa da rentabilidade futura do título.

O Risco.
É dado pelo desvio padrão da variação relativa.
Como o risco evolui de minuto para minuto, no cálculo do desvio padrão pode ser usada, igualmente, uma janela de observação ou dar uma ponderação exponencial decrescente às observações do passado, com uma determinada taxa de desconto.

    DP(t) = [ 2%*(R(t)- Média)^2 + 98%*DP(t-1)^2 ]^0.5

A extensão da janela de observação ou a taxa de desconto do peso são parâmetro do investidor. Uma janela mais pequena (ou um desconto maior) traduz investidores mais "nervosos".

A correlação entre as acções.
Se eu tenho acções de uma fabrica de camisolas e de uma fábrica de gelados, se vier calor ganho dinheiro na empresa de gelados (e preço na de camisolas) e se vier frio ganho dinheiro na empresa de camisolas (e perco nas de gelados). Isto chama-se diversificação do risco.
Diz o povo "não por os ovos todos no mesmo cesto".
A correlação é uma medida estatística que se obtém das séries de rentabilidade das diversas empresas que eu analiso. Se tenho 20 empresas (do PSI 20), terei uma matriz 20x20 com 380 números diferentes.

A curva de mercado.
Tendo eu 1€ para investir, eu posso construir carteiras com diferentes proporções de acções (por exemplo, 3% de BCP + 2% de BPI+ 4% de VA + 7% de GALP + etc.) escolhendo, para cada rentabilidade média, a carteira que tem menor risco. Estas carteiras óptimas permite-me traçar uma curva que relaciona a a máxima rentabilidade para cada risco ou o mínimo risco para cada rentabilidade.
De todas as proporções possível, um investidor racional apenas terá uma carteira que esteja na curva de mercado. 
Se um investidor for medroso vai escolher carteiras localizadas na parte do risco baixo e se for afoito vai para a parte do risco elevado.

Fig. 4 - Eu tinha tanto medo de ser largado que me deixei apaixonar por esta mulher.
Meu amor, meu carinho, minha paixão, se quiseres fugir-me avisa para eu poder comprar foguetes.

Os computadores fazem isto automaticamente.
As carteiras estão sempre a fugir da curva de mercado pelo que é preciso corrigi-las comprando e vendendo algumas acções.
O computador apenas faz isto: observa continuamente as cotações, calcula as rentabilidades, o risco e a correlação dos títulos, optimiza as carteiras e corrige a carteira enviando automaticamente ordens de compra e de venda. 
O gestor da carteira tem apenas que dizer alguns parâmetros como a janela de observação e se quer uma carteira de risco baixo ou de risco elevado.
Depois, o computador funciona dia e noite. É um robô.

Fig. 5 - Este activo está sempre a fugir-me da curva do mercado

O problema da possível instabilização do mercado.
Se no mercado houver muito robôs com a mesma estratégia, o mercado pode instabilizar. Podem enviar todos ordens de venda ao mesmo tempo para logo enviarem ordens de compra. Este problema fica diminuído por haver heterogeneidade na janela de observação e no perfil de risco dos investidores.
No entanto, os algoritmos classificados como "Inteligência Artificial" têm evitado que se observem nas bolas este problema teórico.
Os computadores das bolsas de valores também têm algoritmos de detecção deste potencial problema em que, se observado, suspendem o mercado (cortam as comunicações com o exterior).

A extensão deste modelo à gestão das empresas.
Cada cliente, cada produto, cada trabalhador, cada máquina, cada estabelecimento vai ser tratado como um activo em que se mede a rentabilidade, o risco e a correlação com os outros activos. Depois, optimiza-se o desempenho variando a quantidade de cada activo.

Por exemplo, um hipermercado.
Que tem 1000 metros de estantes e, inicialmente, afecta 1 metro a cada produto. Funciona como uma carteira com 1000 activos em que todos têm a mesma proporção.
Depois, com a informação diária das vendas, o computador calcula a rentabilidade individual de cada produto, a sua variabilidade (que é o risco) e a correlação entre os diversos produtos.
Com essa nova informação, o computador calcula as proporções óptimas de exposição e comunica aos repositores quais os produtos em que devem diminuir a área de exposição e os produtos em que devem aumentar a área de exposição.
Automaticamente, para alguns dos produtos a área de exposição vai diminuindo até que o hipermercado deixa de os vender enquanto que, para outros produtos, a área vai aumentando.

Um fornecer tem 0.5 metros de expositor mas quer ter 2 metros durante 1 mês.
O computador vai estudar qual teria que ser a rentabilidade do produto para ter direito a 2 metros de exposição. Como o produto não tem essa rentabilidade/risco, o fornecer tem que baixar o seu preço durante 1 mês (fazer uma promoção) para compensar o valor que está em falta.
O fornecedor faz os seus estudos e decide se quer ou se é para manter os 0.5m até ver. 

Um restaurante
Estão a imaginar um restaurante em que o computador decide a carta?
Que decide, em dias congestionados, quais os clientes a quem dar prioridade?
Que escolhe a mesa para cada cliente?
Que gere as prioridades na cozinha?
Que envia vouchers promocionais personalizados?
Isto é um mundo novo que está a abrir-se na gestão.

A google
O dinheiro da Google vem principalmente de vender palavras e pequenas expressões que vão ser mostradas com destaque nas buscas que as pessoas realizam.
Por exemplo, eu compro a expressão "génio português" por 0.01€. A partir daí, cada vez que alguém tenha na sua expressão de busca "génio português" o meu link aparece no cimo da página com os resultados da busca. Se a pessoa carregar lá, eu pago 0.01€ à Google.
O problema era como vender as palvras e expressões.
A Google contratou um dos maiores micro-economistas da actualidade, o Varian, que deixou a universidade e foi trabalhar para a Google em algoritmos de leilões implementados automaticamente em computador.
Desde que o Varian começou a implementar os leilões automáticos, os lucros da venda de palavras multiplicou-se não sei quantas vezes.

A gestão por computador tem um enorme potencial.
É um mundo que se está a abrir na gestão.

Qualquer dia vou escrever sobre uma solução para a baixa natalidade.
Mas temos que ser criativos e deixar de ver a família com a entendemos hoje. 


Fig. 6 - Uma família portuguesa tipica do Sec. XXI - obesos.
Pedro Cosme Costa Vieira

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O cantineiro é um especulador

Neste post o cantineiro, por ser especulador, concedeu crédito de longo prazo. Transformou-se também em seguradora.

Hoje faz 6 anos que o Muzel se casou.
Neste tempo o Muzel teve 5 rapazinhos mas um morreu. Restou 4.
Sempre foi um bom cliente. Gastava, em média, 50$00 de mercadoria por mês e, sempre que o saldo do livro descia abaixo de 500$, o Musel falava ao cantineiro, o Pereira, e lá ia fazer nova contrata.
Mas ontem aconteceu uma tragédia

Pátrão me acuda
Gritou mulher do Muzel ainda o Sol estava para nascer.
- Pátrão me acuda que o Maruéu morreu.
- A Hiena comeu o meu Maruéu durante a noite.
- Me acuda Pátrão que é uma desgraça.
- Minhas criança vai morrer de fome.
- HAAAAAAAAAAAAAAeeeee  ME ACCCCUUUUUDDDDAAAAAAAAAA
O Pereira ainda estava na cama de onde saltou rapidamente e veio cá para fora.
- Manuela (foi este o nome que o Pereira lhe deu no dia do casamento), que desgraça. O Manuel era tão bom rapaz.
- Que desgraça. Aí meu Deus que posso eu fazer agora para acudir a esta tamanha desgraça.
- Tens no livro 600$ mas isso só dá para sustentares as crianças um anito.
- O teu mais velhinho só tem 5 anos. Ai que desgraça.
- Manuela, vou pensar no que podemos fazer.
Entrou para a casita e foi-se sentar na mesa da cozinha.

Fig.1 - Pátrão conta com mim pra tudo que for precisa.

O Pereira era um especulador
Espectador e Especulador são, em termos etimológicos, a mesma palavra.
São evoluções do vocábulo latino spectator que traduz a visão, a observação de algo.
Em inglês óculos dizem-se spectacles.
Especulador é aquele que vê para o futuro.
Aquele que antecipa como vão evoluir as variáveis económicas.
O Pereira vê no futuro os filhos do Muzel, se sobreviverem, como bons clientes.
Pensa que vão sair todos ao Pai.
Então, magicou, magicou, magicou 
Pegou no livro, leu aqueles balanços, tornou a magicar, magicar e veio cá fora 

Um contrato de crédito
- Manuela, A tua criança mais velha só tem 5 anos. Só pode trabalhar na contrata daqui a 10 anos. É muito tempo.
- Para as tuas 4 crianças não morrerem de fome, tenho que te emprestar 40$/mês durante mais de 10 anos.
- É muito dinheiro.
- Mas eu especulo que teus filhos são como o Manuel pelo que vão ser grandes trabalhadores.
- Vou então propor-te um contrato de crédito.
- Eu empresto-te o dinheiro e, quando as tuas crianças fizerem 15 anos, vão fazer contrata. Cada rapaz tem que fazer  três contratas num total de 12 contratas.
- É um contrato de 8000$00 com uma duração de 15.5 anos.

A Taxa de Juro Anual Efectiva
- Pátrão obrigado. Mas 12 contratas são 12000$00. Me pode fazer conta para me diz a TAE.
- São 6.34%/ano

Fig. 2 - Especulação quanto à evolução do saldo (negativo) da Manuela

Me espilica para que serve o Juro.
- Sabes que eu sou contra explorar os necessitados pelo que nos créditos de curto prazo não cobro juros.
- Até porque eu empresto activos que pertencem aos meus outros clientes a quem não pago juros.
- Mas, neste caso, as tuas criancinhas são muito pequenas e podem morrer ou não querer trabalhar.
- E nesse caso, tu não tens como pagar a dívida pelo que eu fico com o prejuízo.
- Assim, em cada ano e por cada 1000$00 de dívida eu tenho que fazer reservas de 63$40 para o seguro de crédito.
- Se eu não fizer isso, quando alguém não pagar, vou ter que passar o prejuízo para os meus outros clientes.
- Isso não é justo porque não são eles que decidem os empréstimos.
- Vens aqui outro dia chorar mais um pouco e eu explico-te porque os bancos têm lucro.

Aceitar pátrão.
- É justo pátrão. Meus filho vai crescer bém e trabalhar bém mas Muzel morreu e eu não pensei.
- Afinal o juro é justo, pátrão.

Pedro Cosme Costa Vieira

A moeda escritural (sobre o vídeo)

Temos que acabar com os bancos.
O vídeo tem uma mensagem subliminar que é a destruição dos bancos e do livro das mercearias.
É perigoso em termos intelectuais porque se baseia um conjunto de mentiras com algumas meias verdades.
Vou tentar mostrar a des-lógica da argumentação do vídeo.
Primeiro tenho que demonstrar que o dinheiro escritural não tem mal nenhum e não vive em nada da existência do crédito nem está dependente das reservas obrigatórias. Isso é um embuste usado pelos esquerdistas para atacar os bancos.
Para não nos concentrarmos nos bancos, vou falar do livro da mercearia.

fig. 1 - Onde está o mal para a humanidade destas padarias terem livro de registo?

O dinheiro divide-se em Notas e a Moeda Escritural. É Verdade.

Mas a moeda escritural não tem qualquer mal. Nem está dependente da Moeda.

Na literatura inglesa há uma diferença entre Money (dinheiro), que é um termo genérico, e Currency (notas e moedas), que é um tipo especial de dinheiro, as Notas e Moedas e fazem parte do dinheiro mas não só.
Dinheiro é qualquer meio de pagamento e reserva de valor que facilite as trocas.
O cartão de pontos do Continente é dinheiro.

Se o estimado leitor tiver formação matemática e souber inglês será interessante ver  Plosser (1983). É um texto muito difícil de ler mas que torna claro que um economista que "confunda" estes conceitos 28 anos depois da publicação deste artigo, quer enganar o povo.

O dinheiro é a unidade de valor que torna possível comparar o valor relativo dos bens e serviços disponíveis em instantes de tempo e locais geográficos diferentes.
Por exemplo, vou a Paris e vejo uma gabardina por 150€ e vou a Lisboa e vejo uns sapatos por 50€. Então, esse par de sapatos é comparável a 1/3 dessa gabardina.

O dinheiro é um stock de valor que permite armazenar valor entre os momentos em que se realizam as transacções. Por exemplo, eu trabalho hoje e guardo o valor nos 50€ que recebo. Mais tarde posso usar esse dinheiro para bens e serviços.

O dinheiro é um meio de troca. Ao ser uma reserva de valor torna possível a troca de bens realizada em transacções efectivadas em momentos e locais diferentes.
Por exemplo, vendo hoje uns sapatos hoje em Lisboa por 50€ e recebo dinheiro que guardo. Daqui a uma semana vendo trabalho no Porto por 100€ e recebo dinheiro que guardo. Daqui a um mês vou ao Funchal à passagem do ano por 150€ que pago com o dinheiro que tinha guardado.

O Inside Money - moeda escritural
Em tempos tive um colega cujo pai foi cantineiro no meio de Moçambique. O seu negócio vai-nos ajudar a compreender o que é o dinheiro escritural, a naturalidade do seu aparecimento, que não tem mal nenhum e que não tem qualquer ligação às Notas e Moedas.

O Cantineiro tinha o livro
    - Pátrão, me chamar Muzel Tiruba, querer dar nome pra escrever no livro, pra crasar com mulher gorda.
    - OK. Vais-te passar a chamar Manuel dos Santos. Vou aqui escrever o teu nome no livro e, na próxima  segunda-feira, estas aqui ao nascer do Sol com roupa para 6 meses pois vou-te arranjar uma contrata numa fazenda.
- Pátrão, assim estrará Maruel. Maruel é nome borito.

Abertura de uma conta
O Muzel lá foi e, na volta, o fazendeiro mandou ao cantineiro 50 sacos de farinha, 50 sacos de sal, 200 litros de óleo de palma, 50 quilos de sabão e 50 caixas de fósforos para pagar o trabalho do Muzel.
O Cantineiro colocou preços na mercadoria que somavam 1000$ e acrescentou no livro:
    "Manuel dos Santos, contrata = +1000$00, Saldo = + 1000$00".

Uma compra
A mulher gorda do Muzarel foi comprar uma saca de milho e um saco de sal e o cantineiro escreveu:
    "Manuel dos Santos, 1 saca de milho x 10$00 = - 10$00 , saldo = 990$00"
    "Manuel dos Santos, 1 saca de sal x 7$00 = - 7$00 , saldo = 983$00"

fig. 2 - Mulher do Muzuel é boa
Um pagamento
    - Patrão marca 10$00 na conta do meu vizinho José do Prego porque ele me vendeu um porco.
O Cantineiro acrescentava no livro (o José tinha um saldo de 110$00):
    "Manuel dos Santos, transf JP = - 10$00, saldo = + 973$00".
    "José do Prego, transf MS = + 10$00, saldo = +120$00".

Um empréstimo do cantineiro
Chegou lá a Jozefina Mulata que tinha um saldo de 20$.
- Pátrão me emprestra 100$00 para eu pragar 3 vaca ao José do Prego.
O Cantineiro acrescentou no livro:
    "Jozefina Mulata, transf JP = - 120$00, saldo = -100$00".
    "José do Prego, transf JM = + 120$00, saldo = +240$00".
Para o cantineiro poder conceder crédito tinha que ter saldo no livro (e correspondente mercadoria no armazém).

Um empréstimo do Muzel à Jozefina
Diz o Muzel.
- Pátrão quero emprestar 50$00 à Jozefina Mulata. Execruta.
O Cantineiro acrescentou no livro:
    "Manuel dos Santos, emprest JP = - 50$00, saldo = + 923$00".
   "Jozefina Mulata, emprest MS = + 50$00, saldo = -50$00".

Défice público financiado com emissão de novo dinheiro
O cantineiro tem que garantir que a soma de todo o dinheiro que existe no livro tem uma correspondência em mercadoria. (Essa mercadoria pode estar no seu armazém ou vir a caminho, estar no Entreposto).
O cantineiro meteu-se com um mulata jeitosa e entrou em défice.
Para pagar à mulata, lançou na sua folha +100$00 sem corresponder nenhum movimento negativos ou entradas de mercadorias no armazém.
Então, como tem que ter igual valor em mercadoria e no livro, aumentou os preços de todos os bens que tinha em stock de forma a compensar o aumento da quantidade de dinheiro.
Os preços aumentaram e, de facto, quem deu os 100$00 à mulata foram os outros clientes pela desvalorização do dinheiro que tinham no livro.

Seria melhor o cantineiro cobrar uma margem a cada cliente.
Se o cantineiro lançar movimentos sem contrapartida (criar dinheiro) os seus clientes deixam de acreditar no livro. Um homem ir trabalhar e ficar com 1000$00 na folha e, passado um mês isso não dar para comprar nada, o homem troca de cantineiro.
    - O livro não prestra pátrão, estár roto. Pátrão ter que arranjar outro livro. 
Por isso, é melhor o cantineiro cobrar uma margem conhecida (um imposto) mas manter a credibilidade do livro do que desvalorizar o dinheiro.
Mais ninguém vai acreditar no livro. O cantineiro vai à falência.
É como ir a um restaurante e ter uma intoxicação alimentar. Nunca mais lá voltamos.

Porque não armazenava o Muzel a mercadoria resultante do seu trabalho?
A mercadoria estragava-se e o cantineiro, mandando todas os dias um cliente diferente para a contrata, conseguia ter mercadoria fresca todos os dias.
No total, o cantineiro teria mil clientes, não só os 365 que iam às contratas mas outros que vendiam a estes animais e mulheres (e recebiam no livro), dádivas a familiares ou pedidos de dinheiro emprestado.

Porque será que existem notas e moedas?
O cantineiro é livre de atribuir qualquer preço às mercadorias e ao trabalho.
Tanto poderia averbar 1000$00 ao Muzel e cada saca de farinha custar 10$00 como averbar 100000$00 e cada saca custar 1000$00.
Não tem problema nenhum mas, por um lado, há instabilidade dos preços ao longo do tempo pois o cantineiro pode um dia levantar-se e acrescentar um zero a tudos os valores. Por outro lado, cantineiros diferentes terão preços diferentes e moeda diferente (livros diferentes).
Para fazer um movimento entre dois livros será preciso uma taxa de câmbio.
Para uniformizar os preços, o Governo obriga o cantineiro a ter 10% do saldo de cada cliente no  livro em Notas. Obrigou a que as contas negativas (créditos) também tenham 10% de reservas em notas.
São as reservas compulsivas dos bancos.
Obrigou ainda a, o cliente querendo, o cantineiro dar o saldo do livro em Notas.

As reservas compulsivas apenas servem para tornar os sistema de preços estável.
É intuitivo que o cantineiro ao ter reservas compulsivas já não pode multiplicar os preços e os saldos pois teria que aumentar a quantidade de notas.
Ao reduzir os preços diminuiria as necessidades de notas mas tem que manter os preços compatíveis com os preços dos cantineiros mais próximos de si. Caso contrário, haveria operações de arbitragem.
Assim, o sistema de preços estabiliza e todos os livros passam a ser denominados na mesma moeda.
Pode haver diferenças nos preços e nos salários mas essas diferenças não poderão ser maiores que os custos de transporte.

Onde está o mal do do livro do cantineiro?
Este é o funcionamento do dinheiro escritural e é independente das Notas e Moeda.
O cantineiro e os clientes não têm Notas nem Moedas.
Há alguém à face do planeta Terra que veja algum mal no serviço financeiro fornecido pelo cantineiro?
O cantineiro ao criar dinheiro escritural prejudicou alguém?
Não.
Só melhorou a vida das pessoas e o funcionamento da economia local.
com o livro, os locais podem armazenar valor, fazer transacções em dinheiro, conceder crédito.
É preciso ter uma mente muito torcia para defender que o livro tem que ser proibidos porque cria moeda escritural.

Estas operações antigamente feitas pelo cantineiro são as normalmente feitas pelos bancos.
Qual é o mal dos bancos?
O que é que fazem que cria tanta inimizade nos esquerdistas?
Terem lucro? Também as meretrizes boas têm bons lucros e não vejo os esquerdistas a dizer que devem acabar.
Penso que é por o Mark não perceber nada da parte financeira da economia e os esquerdistas ainda viverem no sec. XIX.
Ou então, querem enganar o povo.

O vídeo é este e está em francês com legendas em português.

Pedro Cosme Costa Vieira

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