Temos que acabar com os bancos.
O vídeo tem uma mensagem subliminar que é a destruição dos bancos e do livro das mercearias.
É perigoso em termos intelectuais porque se baseia um conjunto de mentiras com algumas meias verdades.
Vou tentar mostrar a des-lógica da argumentação do vídeo.
Primeiro tenho que demonstrar que o dinheiro escritural não tem mal nenhum e não vive em nada da existência do crédito nem está dependente das reservas obrigatórias. Isso é um embuste usado pelos esquerdistas para atacar os bancos.
Para não nos concentrarmos nos bancos, vou falar do livro da mercearia.
fig. 1 - Onde está o mal para a humanidade destas padarias terem livro de registo?
O dinheiro divide-se em Notas e a Moeda Escritural. É Verdade.
Mas a moeda escritural não tem qualquer mal. Nem está dependente da Moeda.
Na literatura inglesa há uma diferença entre
Money (dinheiro), que é um termo genérico, e
Currency (notas e moedas), que é um tipo especial de dinheiro, as Notas e Moedas e fazem parte do dinheiro mas não só.
Dinheiro é qualquer meio de pagamento e reserva de valor que facilite as trocas.
O cartão de pontos do Continente é dinheiro.
Se o estimado leitor tiver formação matemática e souber inglês será interessante ver
Plosser (1983). É um texto muito difícil de ler mas que torna claro que um economista que "confunda" estes conceitos 28 anos depois da publicação deste artigo, quer enganar o povo.
O dinheiro é a unidade de valor que torna possível comparar o valor relativo dos bens e serviços disponíveis em instantes de tempo e locais geográficos diferentes.
Por exemplo, vou a Paris e vejo uma gabardina por 150€ e vou a Lisboa e vejo uns sapatos por 50€. Então, esse par de sapatos é comparável a 1/3 dessa gabardina.
O dinheiro é um stock de valor que permite armazenar valor entre os momentos em que se realizam as transacções. Por exemplo, eu trabalho hoje e guardo o valor nos 50€ que recebo. Mais tarde posso usar esse dinheiro para bens e serviços.
O dinheiro é um meio de troca. Ao ser uma reserva de valor torna possível a troca de bens realizada em transacções efectivadas em momentos e locais diferentes.
Por exemplo, vendo hoje uns sapatos hoje em Lisboa por 50€ e recebo dinheiro que guardo. Daqui a uma semana vendo trabalho no Porto por 100€ e recebo dinheiro que guardo. Daqui a um mês vou ao Funchal à passagem do ano por 150€ que pago com o dinheiro que tinha guardado.
O Inside Money - moeda escritural
Em tempos tive um colega cujo pai foi
cantineiro no meio de Moçambique. O seu negócio vai-nos ajudar a compreender o que é o dinheiro escritural, a naturalidade do seu aparecimento, que não tem mal nenhum e que não tem qualquer ligação às Notas e Moedas.
O Cantineiro tinha o livro
- Pátrão, me chamar Muzel Tiruba, querer dar nome pra escrever no livro, pra crasar com mulher gorda.
- OK. Vais-te passar a chamar Manuel dos Santos. Vou aqui escrever o teu nome no livro e, na próxima segunda-feira, estas aqui ao nascer do Sol com roupa para 6 meses pois vou-te arranjar uma contrata numa fazenda.
- Pátrão, assim estrará Maruel. Maruel é nome borito.
Abertura de uma conta
O Muzel lá foi e, na volta, o fazendeiro mandou ao cantineiro 50 sacos de farinha, 50 sacos de sal, 200 litros de óleo de palma, 50 quilos de sabão e 50 caixas de fósforos para pagar o trabalho do Muzel.
O Cantineiro colocou preços na mercadoria que somavam 1000$ e acrescentou no livro:
"Manuel dos Santos, contrata = +1000$00, Saldo = + 1000$00".
Uma compra
A mulher gorda do Muzarel foi comprar uma saca de milho e um saco de sal e o cantineiro escreveu:
"Manuel dos Santos, 1 saca de milho x 10$00 = - 10$00 , saldo = 990$00"
"Manuel dos Santos, 1 saca de sal x 7$00 = - 7$00 , saldo = 983$00"
fig. 2 - Mulher do Muzuel é boa
Um pagamento - Patrão marca 10$00 na conta do meu vizinho José do Prego porque ele me vendeu um porco.
O Cantineiro acrescentava no livro (o José tinha um saldo de 110$00):
"Manuel dos Santos, transf JP = - 10$00, saldo = + 973$00".
"José do Prego, transf MS = + 10$00, saldo = +120$00".
Um empréstimo do cantineiro
Chegou lá a Jozefina Mulata que tinha um saldo de 20$.
- Pátrão me emprestra 100$00 para eu pragar 3 vaca ao José do Prego.
O Cantineiro acrescentou no livro:
"Jozefina Mulata, transf JP = - 120$00, saldo = -100$00".
"José do Prego, transf JM = + 120$00, saldo = +240$00".
Para o cantineiro poder conceder crédito tinha que ter saldo no livro (e correspondente mercadoria no armazém).
Um empréstimo do Muzel à Jozefina
Diz o Muzel.
- Pátrão quero emprestar 50$00 à Jozefina Mulata. Execruta.
O Cantineiro acrescentou no livro:
"Manuel dos Santos, emprest JP = - 50$00, saldo = + 923$00".
"Jozefina Mulata, emprest MS = + 50$00, saldo = -50$00".
Défice público financiado com emissão de novo dinheiro
O cantineiro tem que garantir que a soma de todo o dinheiro que existe no livro tem uma correspondência em mercadoria. (Essa mercadoria pode estar no seu armazém ou vir a caminho, estar no Entreposto).
O cantineiro meteu-se com um mulata jeitosa e entrou em défice.
Para pagar à mulata, lançou na sua folha +100$00 sem corresponder nenhum movimento negativos ou entradas de mercadorias no armazém.
Então, como tem que ter igual valor em mercadoria e no livro, aumentou os preços de todos os bens que tinha em stock de forma a compensar o aumento da quantidade de dinheiro.
Os preços aumentaram e, de facto, quem deu os 100$00 à mulata foram os outros clientes pela desvalorização do dinheiro que tinham no livro.
Seria melhor o cantineiro cobrar uma margem a cada cliente.
Se o cantineiro lançar movimentos sem contrapartida (criar dinheiro) os seus clientes deixam de acreditar no livro. Um homem ir trabalhar e ficar com 1000$00 na folha e, passado um mês isso não dar para comprar nada, o homem troca de cantineiro.
- O livro não prestra pátrão, estár roto. Pátrão ter que arranjar outro livro.
Por isso, é melhor o cantineiro cobrar uma margem conhecida (um imposto) mas manter a credibilidade do livro do que desvalorizar o dinheiro.
Mais ninguém vai acreditar no livro. O cantineiro vai à falência.
É como ir a um restaurante e ter uma intoxicação alimentar. Nunca mais lá voltamos.
Porque não armazenava o Muzel a mercadoria resultante do seu trabalho?
A mercadoria estragava-se e o cantineiro, mandando todas os dias um cliente diferente para a contrata, conseguia ter mercadoria fresca todos os dias.
No total, o cantineiro teria mil clientes, não só os 365 que iam às contratas mas outros que vendiam a estes animais e mulheres (e recebiam no livro), dádivas a familiares ou pedidos de dinheiro emprestado.
Porque será que existem notas e moedas?
O cantineiro é livre de atribuir qualquer preço às mercadorias e ao trabalho.
Tanto poderia averbar 1000$00 ao Muzel e cada saca de farinha custar 10$00 como averbar 100000$00 e cada saca custar 1000$00.
Não tem problema nenhum mas, por um lado, há instabilidade dos preços ao longo do tempo pois o cantineiro pode um dia levantar-se e acrescentar um zero a tudos os valores. Por outro lado, cantineiros diferentes terão preços diferentes e moeda diferente (livros diferentes).
Para fazer um movimento entre dois livros será preciso uma taxa de câmbio.
Para uniformizar os preços, o Governo obriga o cantineiro a ter 10% do saldo de cada cliente no livro em Notas. Obrigou a que as contas negativas (créditos) também tenham 10% de reservas em notas.
São as reservas compulsivas dos bancos.
Obrigou ainda a, o cliente querendo, o cantineiro dar o saldo do livro em Notas.
As reservas compulsivas apenas servem para tornar os sistema de preços estável.
É intuitivo que o cantineiro ao ter reservas compulsivas já não pode multiplicar os preços e os saldos pois teria que aumentar a quantidade de notas.
Ao reduzir os preços diminuiria as necessidades de notas mas tem que manter os preços compatíveis com os preços dos cantineiros mais próximos de si. Caso contrário, haveria operações de arbitragem.
Assim, o sistema de preços estabiliza e todos os livros passam a ser denominados na mesma moeda.
Pode haver diferenças nos preços e nos salários mas essas diferenças não poderão ser maiores que os custos de transporte.
Onde está o mal do do livro do cantineiro?
Este é o funcionamento do dinheiro escritural e é independente das Notas e Moeda.
O cantineiro e os clientes não têm Notas nem Moedas.
Há alguém à face do planeta Terra que veja algum mal no serviço financeiro fornecido pelo cantineiro?
O cantineiro ao criar dinheiro escritural prejudicou alguém?
Não.
Só melhorou a vida das pessoas e o funcionamento da economia local.
com o livro, os locais podem armazenar valor, fazer transacções em dinheiro, conceder crédito.
É preciso ter uma mente muito torcia para defender que o livro tem que ser proibidos porque cria moeda escritural.
Estas operações antigamente feitas pelo cantineiro são as normalmente feitas pelos bancos.
Qual é o mal dos bancos?
O que é que fazem que cria tanta inimizade nos esquerdistas?
Terem lucro? Também as meretrizes boas têm bons lucros e não vejo os esquerdistas a dizer que devem acabar.
Penso que é por o Mark não perceber nada da parte financeira da economia e os esquerdistas ainda viverem no sec. XIX.
Ou então, querem enganar o povo.
O vídeo é este e está em francês com legendas em português.
Pedro Cosme Costa Vieira