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sexta-feira, 31 de maio de 2013

A economia com 2 sectores

No último poste (O paradoxo da poupança) auxiliei-me do modelo da economia com 2 sectores que é muito importante porque ilustra o que acontece quando uma economia precisa de se re-estruturar.
Este modelo parte da evidencia empirica de que as empresas e as pessoas não se conseguem adaptar à dinamica da economia pelo que, por um lado, continuamente vemos empresas a entrar em falencia e pessoas a serem despedidas enquanto que, por outro lado, vemos empresas a prosperar e pessoas a arranjar novos empregos. Mesmo no meio da mais grave crise económica que possa haver, há sempre pessoas e empresas que têm sucesso. São como os surfistas que acham uma maravilha o mar com ondas de 30m.
Os dois sectores da economia podem ser diversos. Por exemplo, Schumpeter (1942) usa este modelo para  ilustrar o conceito de Criação Destruidora (uma inovação leva ao aparecimento de um novo sector que é a semente da destruição do sector existente. No futuro, haverá nova inovação e o actualmente novo sector será o velho sector de então).
Na apresentação do paradoxo da poupança, usei um sector de bens de consumo e outro de bens de investimento.
No caso português estamos a discutir uma re-estruturação em que o sector dos bens transaccionaveis (exportaveis/importáveis) tem que crescer à custa do sector dos bens não transaccionável (de produção e consumo locais).
Não podemos tomar a evolução da economia no "paradoxo da poupança" (mais poupança) com o que estamos a viver mas antes ao contrário (redução do acesso ao crédito) pelo que o movimento das variáveis para o novo equilíbrio serão também ao contrário do que apresento aqui. Serão taxa de juro a subir, investimento a cair e salários reais a descer.


Fig. 1 - Sinal de proibição  do uso da argumentação keynesiana

Apenas não quis ser muito aborrecido.
Não detalhei o modelo em termos numéricos para não aborrecer a leitura. Pensei que tinha conseguido dar a intuição sobre o ajustamento do mercado de crédito apenas com algumas ideias qualitativas. Mas pelo comentários, vi que errei.
Tenho então agora que quantificar o modelo.

O modelo com apenas parte real.
Se tivermos por fim comparar apenas a economia entre momentos estabilizados (de longo-prazo), o modelo pode ter apenas "parte real" (sem moeda) o que simplifia muito a análise sem perda quanto às conlusões de longo-prazo. Por essas razões é que os manuais e economia apenas contêm modelos reais (sem variáveis nominais).
Mas as variáveis nominais são o meanismo de transmissão e conpatibilização das decisões económicos pelo que são fundamentais para compreendermos o processo dinâmico de ajustamento. Em particular, causa muita confusão às pessoas como uma pessoa que guarda notas no colchão pode, com isso, fazer aumentar o investimento. Se eu tenho as notas na minha carteira, como pode alguém vir buscá-las para as investir?
Não parece possivel mas é assim que acontece.

Análise de estática comparada (entre momentos em stand still)
Sendo Y a produção, K o capital, N o número de trabalhador do sector (no total, 1) e E ~ F(1, S)  uma parte aleatória, exógena ao modelo. Então teremos um nível de produto igual a:

      Y = K^0.33 x N^0.67 x E

0.67 é o peso dos salários e 0.33 é o peso do capital nos custos agregados.
O rendimento, R, (sejam salários, juros, lucros ou outra coisa qualquer) vem sempre igual a Y. Esta igualdade mantém-se porque se as empresas tiverem prejuizo, o rendimento dos donos diminui:

     R = Y

O nivel de capital é dado pelo equilíbrio entre o investimento e a depreciação do capital (à taxa d por período). A nossa economia torna-se um sistema dinamico que parte da seguinte equação às diferenças de 1ª ordem:
   
     K(t) = K(t-1) x (1-d) + I

Como será o equilíbrio de stand still em 20%?
Assumindo que inicialmente a poupança são 20% do rendimento e a depreciação 10% do capital, para estarmos numa situação de stand still teremos K(t) = K(t-1) = K, pelo que:

    K = K . (1-d) + I => I  =  0.1K porque está em stand still
    S = 0.2R => S = 0.2Y porque R = Y
    Como S = I  =>  0.2R = 0.1K => 0.2Y = 0.1K => K = 2Y

    Teremos Y = (0.2/01 Y)^0.33 x N^0.67 x E
    Y = (0.2/0.1)^(0.33/067) x N x E^0.67

A poupança é sempre igual ao investimento (S=I) porque a variação involuntária de stocks faz parte do investimento.

Sendo o sectores identicos em termos de função de produção (apenas para simplificar, sem perda de generalidade), como as empresas maximizam o lucro, o sector dos bens de consumo produzirá 80% do PIB usando 80% do capital e do emprego enquanto que  o sector dos bens de investimento produzirá 20% do PIB usando 20% do capital e do emprego.
Nesta situação, em termos de quantidades, se assumirmos E= 1, teremos

Produto total = Y         = 1.407
Poupança total = 0.2Y = 0.281
Consumo total = 0.8Y  = 1.126
Capital = K = 2Y          = 3.814

As pessoas passam a poupança para 30%.
Como neste ponto apenas me interessa a situação de longo prazo (em stand still), basta-me passar a consider no modelo uma poupança de 30%Y (alteramos I = 0.2R por I = 0.3R) Neste caso, mantendo E=1, vem:

Produto total = Y          = 1.718       Um aumento de 22.1%
Poupança total = 0.3Y  = 0.515       Um aumento de 83.2%
Consumo total = 0.7Y   = 1.203      Um aumento de 6.8%
Capital = K = 3Y           = 5.154      Um aumento de 83.2%

O termo aleatório E vai fazer a economia oscilar ao longo do tempo, podendo este termo estar correlacionado ano tempo (ser usada para modelizar os ciclos económicos).

Na nova situação, a poupança aumenta mas também o consumo aumenta.
A passagem da poupança de 20% para 30% do rendimento faz com que o consumo aumente. Isto nem sempre acontece mas na minha simulação acontece porque, com os parametros considerados, o máximo do consumo (1.206) acontece para uma taxa de poupança de 33%.
Neste novo equilíbrio, o sector dos bens de consumo passará a produzir 70% do PIB e o sector dos bens de investimento passará a produzir 30% do PIB.
No fim do processo de ajustamento, 10% da força de trabalho abandou o sector dos bens de consumo e passou a trabalhar no sector dos bens de investimento.

O sector dos bens de consumo vai despedir pessoas e investir.
O total de trabalhadores vai passar de 0.8 para 0.7 e o capital vai aumentar de 2.25 (80% de 3.814) para 3.61 (70% de 5.154).
O Gonçalo diz num comentário que nenhuma empresa despede trabahadores e, ao mesmo tempo, investe mais. Que, se pensarmos na actual situação portuguesa, despede-se e desinveste-se. Mas recordo que, actualmente, a crise portuguesa resulta do garrote do crédito externo (que aumenta a taxa de juro) e não do aumento da poupança (que diminui a taxa de juro).
Vou dar vários exemplos de re-estruturações que implicaram menos emprego e muito investimento. Em Portugal, entre 1960 e 2013, a agricultura perdeu mais de 80% do emprego e, no entanto, o investimento foi massivo (em tractores, estufas, sistemas de rega, animais, sementes, etc.). Também hoje o sector textil, vestuário e calçado tem menos de metade dos trabalhadores que tinha em 1980 e, no entanto, o investimento também foi massivo. Este investimento aconteceu porque o acesso ao crédito estava facilitado, o que não acontece agora (a taxa de juro está muito alta).

O salário e a taxa de juro vão sofrer alterações.
O sistema vai ajustar pelos preços (salários, preços dos bens e taxas de juros) e pelas quantidades (capital e trabalho). No longo prazo é possível olhar apenas aos preços e quantidades antes e depois do ajustamento.
Como a decisão de poupar é exógena (passar de 20% para 30% do rendimento), a evolução da taxa de juro e dos salários de mercado pode ser obtida pela produtividade marginal dos factores. Assumindo que os bens são o numerário (preço unitário), teremos para o salário, W, e taxa de juro, i, que optimizam o lucro:

L = Y - N.W - K.(d + i)

Daqui resulta

W = 0.67/N x Y
i = 0.33/K x Y - d

Poupança de 20% => W = 0.943; i = 6.5%/período
Poupança de 30% => W = 0.854; i = 1.0%/período

O salário real aumentou (o que indica ser óptimo as emrpesas substituirem trabalho por capital) e a taxa de juro diminuiu (o que reforça a substituição de trabalho por capital).


Fig. 2 - Uma coisa é a realidade e outra coisa é o que queriamos que fosse mas que não é

Vamos agora ao transiente do ajustamento
Inicialmente as pessoas têm um rendimento de 1.407€ dos quais poupam 0.281€ e gastam em bens de consumo 1.126€.
Os 0.281€ são emprestados à taxa de juro de 6.5% aos investidores (via bancos) que usam na compra de 0.281€ de bens de capitais.
Então, as empresas pagam 1.407€ (em salários, juros, lucros,etc.) que obtêm pela venda de 1.407€ de bens (de consumo, 1.203€, e de capital, 0.281€).
Apesar de haver poupança, as vendas, 1.407€, igualam as compras, 1.407€ (consumo+investimento).

Ajustamento keynesiano (com total rigidez do mercado de trabalho).
Os esquerdistas keynesianos ainda não estão convencidos porque pensam a situação extrema de não haver qualquer ajustamento. Com o aumento da taxa de poupança, o consumo vai diminuir o que leva a despedimentos no sector dos bens de consumo. Há um contracção do rendimento, mais despedimentos e entra-se numa "espiral recessiva" (onde é que eu já ouvi isto?) que acaba com uma tal contracção do PIB que a poupança ainda vai ser menor que a inicial.
Pensam os esquerdistas que os trabalhadores despedidos jamé vão arranjar emprego e que o investimento se vai manter constante. Vou fazer a simulação do impacto deste pressuposto esquerdista.

No período 0 as pessoas poupavam 20% do seu rendimento e a economia estava em equilibrio de longo-prazo. No período 1 as pessoas passam a poupar 30% do rendimento. 
Do rendimento de 1.407€, passam a ser poupados 0.422€ e gastos os restantes 0.985€ em bens de consumo. Então, agora ficam sem comprador 0.141 unidades de bens de consumo pelo que esse sector vai despedir pessoas (mantendo o investimento).
Fazendo a "espiral recessiva", ela pára quando a poupança com os 30% fica exactamente igual à poupança com os 20%. Exactamente igual (ver, Quadro 1).

T
N
K
Y.C
R
S
S(quant)Compras
Desemprego
00,8002,251,1261,40720%0,2811,1260
10,8002,251,1261,40730%0,4220,9850
20,6552,250,9851,26630%0,3800,8860,145
30,5602,250,8861,16830%0,3500,8170,240
        …
        n0,3552,250,6540,93630%0,2810,6540,300

Quadro 1- Evolução da economia com inflexibilidade

Considerando a pior das hipóteses (as pessoas despedidas não arranjam mais emprego), o aumentar da taxa de poupança deixa a poupança em euros exactamente igual (0.281€). Apesar de em termos de argumentação oral sermos livres de imaginar uma magnitude extraordinária para o efeito da diminuição do consumo no produto, quando metemos a mão nos números, vemos que isso nunca pode acontecer. Na pior das hipóteses, fica igual.
Saindo da poesia do combate ideológico esquerdista e passando para a Ciência, qualquer que seja o modelo, quaisquer que sejam os parâmetros e qualquer que seja a sua magnitude (desde que razoável pois sabemos que uma poupança proxima de 100% leva ao colapso do consumo), nunca o aumento da taxa de poupança pode levar à redução da poupança (em valor).
Convém notar que a impossibilidade de a economia ajustar faz com que o aumento da taxa de poupança de 20% para 30% induza uma contração de 17% no PIB enquanto, com ajustamento perfeito, a economia expande 22.1%. Com flexibilidade, a economia fica 40% maior.

Mas os mercados vão ajustar qualquer coisinha.
Por mais pequeno e lento que seja o ajustamento, o excesso de poupança vai pressionar as taxas de juro a descer. Estando inicialmente a taxa de juro no 6.5%/período, quando a poupança aumenta 50%, os bancos ficam inundados com fundos que querem emprestar. Como não existe nenhum entrave para o ajustamento das taxas de juro em baixa, para aumentar o seu negócio, os bancos descem a taxa de juro mais ou menos rapidamente para 1%/período (que é o novo valor de equilíbrio).
A descida da taxa de juro faz com que seja óptimo despedir mais trabalhadores e comprar mais máquinas o que leva ao dinamizar do sector dos bens de investimento e a que as pessoas despedidas do sector dos bens de consumo consigam um novo emprego.
Lentamente ou rapidamente, a economia vai evoluindo para a nova situação de equilíbrio (+22.1%).

O problema de portugal não resulta de um aumento da taxa de poupança.
Repito que o nosso problema não é este (de mais poupança) mas o de passarmos do sector de não transaccionaveis para o sector dos bens transaccionaveis em simultâneo com uma diminuição do financiamento à economia (externo). Por isso, o ajustamento acontece com taxas de juro mais elevadas o que obriga à descida dos salários reais (e do nível de capital).

Quanto maior a rigidez da economia, maior será a contracção do PIB.
Se a economia for perfeitamente flexivel, no período de ajustamento quase não haverá contração do PIB e desemprego. Rapidamente as pessoas saem do sector em crise, fazem uma formação e passam a trabalhar no sector em expansão.
Quando mais dificil for mobilizar as pessoas do sector em crise para os outros sectores, maior será o desemprego,  mais grave a contracção do PIB e mais anos demorará a atingir o novo nível de equilíbrio. Com as políticas erradas, pode mesmo acontecer que nunca se consiga sair do fundo Por exemplo, em Moçambique o salário mínimo,  1200€/ano, é 50% superior ao PIBpc, de 800€/ano!  é uma rigidez na economia que atira 90% da população para o "desenrasca".

Falta o mecanismo de transmissão mais dificil de compreender.
Penso que está compreendido como a poupança, inundando os bancos com fundos, leva à descida das taxas de juro que fazem aumentar o investimento. Desta forma, a decisão de aumentar a poupança aumenta o capital da economia dando corpo ao sector dos bens de investimento.
Mas o mais dificil é compreender como eu guardando notas debaixo do colchão transmito aos investidores recursos para investir.
Isto funciona através de dois mecanismos interligados, o nível geral de preços e a liquidez.

Vamos ver como funciona.
Vamos supor que eu não quero saber dos juros e, em vez de depositar as minhas poupanças num banco, guardo-as debaixo do colchão. Como já ouvi vários dos meus colegas, professores e economia, dizerem que assim as poupanças ficam paradas o qeu faz parar a economia, não fiquem tristes por ainda não compreenderem como a economia resolve este problema. É que eu investigo este problema desde os princípios dos anos 1990.

O nível geral de preços.
Não precisa da intervenção humana funcionando mesmo que a quantidade de moeda é fixa (e.g., o ouro da antiguidade).
Se eu guardar uma nota, deixa de haver tantas notas em circulação o que, instantaneamente, diminui a procura agregada num valor proporcional ao valor da minha nota.
Isto coloca pressão nos preços que diminuem exactamente no valor que eu guardei.
Por exemplo, existe 100€ em notas e moedas e o PIB é 1000€/ano (uma velocidade de circulação de 10x). Se eu retirar 1€ de circulação, os preços caiem ligeiramente (-1.0%) de forma a que se possam fazer o mesmo número de compras. Assim, eu guardando uma nota, o conjunto das notas remanescentes valoriza (porque os preços caiem) havendo sempre o mesmo valor real de notas em circulação. Quando eu libertar o meu 1€, o processo inverte-se (os preços aumentam 1%).

O controle do BCE.
A oscilação dos preços é má porque obriga a constantes ajustamentos dos preços o que é dificil principalmente porque os salários não querem reduzir em termos nominais.
Como a função do BCE é estabilizar o nivel geral de preços, vai injectar e retirar notas de circulação de forma a manter os preços.
Quando eu guardo 1€, o BCE detecta pequenos indicios de uma eminente queda dos preços pelo que injecta 1€ no sistema bancário (compra 1€ de títulos ou empresta o dinheiro). O 1€ que chega ao sistema bancário (à taxa de 0.75%/mês) vai ser emprestado aos empresários que investem o correspondente valor.
Quando eu retiro o 1€ do colchão e o gasto, o BCE detecta pequenos indicios de que os preços vão subir e capta 1€ do sistema bancário (subindo a taxa de desconto ou vendendo 1€ de títulos que tem em carteira).
Quando eu guardo 1€, estou a fazer um empréstimo sem juros ao BCE que o empresta a 0.75%/ano.

Será o sistema perfeito?
Nada é perfeito e por isso é que a inflação não está sempre nos 2%/ano pretendidos pelo BCE. Mas o conjunto dos processos (preços e BCE) funcionam bem no sentido de a economia estar sempre a caminhar para um ponto de equilíbrio que está sempre a mudar por causas fora do nosso controle (a parte aleatória da vida).

Penso ter ficado um bocadinho mais claro porque o paradoxo da poupança é bullshit.

Pedro Cosme Costa Vieira.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

O padrão ouro e os cambios fixos

O Vidal Ferreira colocou-me uma questão muito importante, como funciona o ajustamento de uma pequena economia no padrão-ouro porque, em termos económicos, o padrão-ouro é igual aos câmbios fixos que vivemos em relação aos nossos parceiros da Zona Euro com a diferença que, na Zona Euro, é possível manter a inflação em 2%/ano.

Fig. 1 - A meditação é a fonte da felicidade (Buda)

O padrão-ouro é igual a câmbios fixos.
No padrão ouro existe umas toneladas de ouro nos cofres do banco central (as reservas) e a quantidade de notas em circulação tem o mesmo valor nominal que o ouro das reservas.
Por exemplo, o Euro tem uma relação de 35€ : 1 g de ouro pelo que o BCE teria que ter 26000 toneladas de ouro para dar cobertura aos 920MM€ que existem em circulação, 15% do total que existe a nível mundial. Já os USA tem uma relação 50$ : 1 g de ouro pelo que, para cobrir os 1150 mil milhões USD em circulação, o FED teria que ter 23000 toneladas de ouro (13.5% do total).
Se a relação de cada moeda com o ouro for fixa então, resulta um cambio fixo entre as moedas. Como 50 USD dá para comprar 1g de ouro que, vendido, dá 35€, o cambio fixo seria de 0.70€ por cada USD.

O ajustamento da economia face ao exterior no padrão-ouro.
Já sabemos que, existe uma relação entre a quantidade de moeda em circulação e o nível geral de preços (a teoria quantitativa da moeda). Em termos de taxas de variação, esta relação indica que se a taxa de aumento da quantidade de moeda em circulação aumentar, a taxa de inflação também aumenta (e vice-versa) pela seguinte relação (com ^P a indicar a taxa de variação de P):

             ^P =  ^M - ^PIB + ^V
P = preços, M = moeda em circulação, V = velocidade de circulação da moeda.

Se a economia tiver as suas contas face ao exterior equilibradas, o total pago ao exterior é igual ao total recebido do exterior pelo que a quantidade de moeda, euro, mantém-se constante (haverá estabilidade de preços).
Vamos supor que o cambio é 0.7 Euros / 1.0 USD e que Portugal importa bens e serviços no valor de 1000 USD (20 g de ouro) e exporta bens e serviços no valor de 700 Euros (20 g de ouro) por unidade de tempo (a cada 10 minutos).

Mas acontece um choque exógeno adverso.
Vamos imaginar que Portugal sofreu um choque adverso assimétrico que desequilibrou as suas contas face ao exterior. Por exemplo, a temperatura ficou mais baixa o que reduziu a entrada de turistas estrangeiros e aumentou a saída de turistas portugueses.
Então, o choque fez com que o total adquirido ao exterior, em ouro, tenha passado a ser maior que o total vendido ao exterior (incluindo o turismo).
Vamos supor que as importações aumentam para 1050USD (21 g de ouro) e as exportações diminuíram para 965 Euros (19 g de ouro) por unidade de tempo.
Vamos ver o que vai acontecer.

Hipótese 1 - O banco central português troca euros por ouro.
Para se garantir que, de facto, existe a relação das moedas ao ouro e que a taxa de câmbio fica fixa, os bancos centrais têm que trocar, sem limite, euros e dólares por ouro.
Os agentes económicos nacionais usam euros para pagar as importações mas os estrangeiros vão trocar, junto do banco central português, os euros por ouro. Então, a quantidade de ouro em Portugal diminui e no exterior aumenta 2 g por unidade de tempo.
Se há menos ouro em Portugal então, o banco central português não pode por em circulação os euros que adquiriu aos estrangeiros porque entregou-lhes o ouro correspondente reduzindo-se assim a quantidade de euros em circulação o que leva à redução do nível geral de preços portugueses.
Se há mais ouro no exterior então, o banco central exterior vai aumentar a quantidade de USD em circulação o que leva ao aumento do nível geral de preços do exterior.
A redução dos preços em Portugal e o aumento no exterior (muito ligeiramente porque o exterior é muito grande) faz aumentar as exportações e reduzir as importação, corrigindo-se o desequilíbrio face ao exterior.

Hipótese 2 - O banco central português endivida-se.
Supondo o governador do banco central português que o desequilíbrio face ao exterior é passageiro, vai-se endividar para não permitir a redução dos preços.
O problema desta politica é que vai dificultar o ajustamento da economia.
Todos os 10 minutos, o banco central português vai-se endividar em 2 g de ouro o que,ao fim de um ano, já soma 100 t. Então, como a economia não equilibra, a prazo o banco central português vai ter que pagar cada vez uma taxa de juro mais elevada para captar ouro a crédito.
Foi isto que nos aconteceu no socratismo mas, em vez de ouro, pedimos euros emprestados.

Qual é o problema do padrão-ouro?
É que há dificuldade em diminuir os preços e os salários nominais.
Havendo rigidez no ajustamento nominal em baixa, a desvalorização vai ter impacto recessivo na economia e desemprego.

1 - Quando a quantidade de notas em circulação diminui, a apetência das pessoas pela compra de bens diminui. Como os vendedores não podem reduzir os preços porque os seus custos (salários e juros) são os mesmo, começam a vender menos.

2 - Com menos vendas, as empresas começam a ter prejuízo. Apesar de apelarem para que haja uma redução dos custos de produção, como os salários têm dificuldade em diminuir, as empresas começam a despedir trabalhadores e a falir. O desemprego cresce.

3 - Com uma taxa de desemprego elevada, há uma pequena tendência para que os salários diminuam. Essa velocidade de ajustamento dos salários varia de país para país sendo muito elevada nos USA e baixa na Europa, principalmente no Sul.
No caso português existe uma dificuldade acrescida que é o Contracto Colectivo de Trabalho, o Salário Mínimo e o Tribunal Constitucional (os direitos adquiridos) que não permitem que os salários reduzam em termos nominais.
Mas os salários acabam por reduzir o que diminui os custos de produção que leva à redução dos preços que, finalmente, equilibra a economia face ao exterior.

Fig. 2 - Os custos nominais do trabalho em Portugal estão ao nível pré-crise (1997) o que traduz uma lenta descida (de 1.8%/ano) relativamente aos custos da Zona Euro ( dados, EUROSTAT).

Fig. 3 - Os preços em Portugal, desde 2007, desceram 1.6%  relativamente aos da Zona Euro ( dados, EUROSTAT).

Quanto mais dificil for o ajustamento.
Quanto mais os trabalhadores resistirem à descida dos salários, mais dificil será descer os preços e maior vai ser a recessão e o desemprego.

Será mau haver deflação?
Ao determos moeda na nossa carteira, se houver inflação, o seu poder de compra diminui com o tempo. Então, a quantidade de notas que vamos ter na carteira resulta de comparar, por um lado, o custo de ir à caixa multibanco repetidamente com, por outro lado, o custo da desvalorização. Se cada ida ao multibanco implicar um custo em tempo e massada de c e a taxa de juro for i (ambos, por unidade de tempo) então, a quantidade óptima de moeda vai minimizar a soma desses dois custos.
A quantidade de moeda vai ser crescente com o custo e decrescente com a taxa de juro:

          m = k. p / i 

O problema deste modelo é que, se i se aproximar de zero, a quantidade de moeda vai para infinito: é a denominada armadilha da liquidez
Então, com este modelo simples, quando a taxa de juro é negativa, o nível geral de preços deixa de poder ser controlável pela quantidade de moeda em circulação. Neste caso, o nivel geral de preços vai oscilar violentamente, havendo uns tempos de deflação seguidos de outros de inflação elevada.

Mas tal nunca se verificou.
Na história da humanidade já houve séculos de deflação e nunca se verificou a "incontrolabilidade" do nível geral de preços. É verdade que na antiguidade em qu havia deflação o ouro (a moeda) era intensamente entesourado mas o sistema de preços nunca esteve em perigo.
Isto acontece porque o deter moeda tem outros custos que não apenas a taxa de inflação (a depreciação). Afirmo mesmo que o principal custo que nos faz não deter moeda é o risco de sermos roubados e mesmo mortos.
Se todas as pessoas detivessem grande parte da sua fortuna em moeda (que é "ao portador"), os assaltos seriam o pão nosso de cada dia. Na antiguidade, um dos grandes motivos para a destruição das cidades era constar que tinham muito ouro e prata.
Se incluirmos o custo da segurança, o ponto de "custo negativo de deter moeda" apenas se observe para taxas de deflação muito grandes nunca se tendo verificado na realidade.
Por isso, a deflação não tem problema nenhum.

O ajustamento dos salários.
O único problema é psicológico e tem a ver com o ajustamento nominal dos salários "em baixa".
Como já referi acima, a quebra dos preços obriga à diminuição dos salários nominais para que o salário real fique pelo menos na mesma. Como os trabalhadores lutam contra a descida dos salários nominais, preferindo ser despedidos a descer o seu rendimento nominal.
Foi este o problema que transformou uma pequena crise de 1939 na grande depressão 1939-1942: os preços começaram a cair (porque a velocidade de circulação da moeda diminuiu) e os salários nominais não desceram. Desta forma, a economia foi-se desequilibrando ao ponto de em 1940 as pessoas terem um salário com um poder de compra 40% superior ao valor de compra que tinham antes de comessar a crise. 
Repito: um ano depois de começar a crise de 1939-42, os salários reais tinham subido 40%.
A grande depressão não resultou das lengalengas que o Keynes veio dizer em 1936 mas na dificuldade de os salários ajustarem em baixa. Esta dificuldade existe hoje mesmo pelo que, com o pensamento das pessoas que temos, a deflação não é boa.   

A desvalorização para corrigir a economia.
Se houver possibilidade de desvalorização, os preços e os salários ajustam instantaneamente face ao exterior, seja para cima ou para baixo pois não existem apenas países em crise.
Os defesores de que nós temos que continuar na Zona Euro dizem que a desvalorização tem efeitos de curto-prazo porque, a seguir a uma desvalorização, a inflação degrada outra vez os termos de troca face ao exterior.

De facto, isso não é verdade.
As pessoas não querem que o salário nominal diminua mas, quando a taxa de desemrpego é elevada, não se importem que fiquem constantes. Então, num país como o nosso em que a taxa de desemrpego é de quase 20%, a desvalorização que levaria a nossa economia a equilibrar, entre 10% a 15%, não faria a nossa inflação aumentar significativamente acima dos 2%/ano.
A inflação apenas come a desvalorização se a taxa de desemprego estiver abaixo dos 6% (a NAIRU) mas a variação cambial é apenas um mecanismo de ajustamento das economias e não uma tendência de longo prazo. Assim, quando o desemprego é baixo e a balança corrente é superavitária, a moeda valoriza (para não haver subida dos salários nominais e inflação).  Pelo contrário, quando o desemprego é elevado e a balança corrente é deficitária, a moeda desvaloriza (para não haver descida dos salários nominais e deflação).

Disse o Vítor Bento.
Que sair da Zona Euro é mau por implica perdermos 30% do nosso rendimento disponível. Dizer que é mau indica que, se ficarmos na Zona Euro, o nosso rendimento disponível não vai diminuir.
Ilusões como esta é que nos vão obrigar a sair da Zona Euro.
Para ficarmos na Zona Euro o nosso rendimento disponível, leia-se salãrios, também vão diminuir. Quanto mais dificil for o ajustamento em baixa dos salários, menos seremos capazes de fazer parte de uma zona monetária extensa.
Somando a esta ilusão o facto do nosso Tribunal Constitucional dizer que os subsídios dos funcionários não podem ser cortados, a nossa Constituição obrigar aos contractos colectivos de trabalho, o Portas não permitir os cortes das pensões, não resulta outra conclusão que não seja que a nossa permanencia na Zona Euro tem os dias contados.

Fig. 4 - Tem estado tanto frio que são precisas quatro para fazer a mota arrancar

FCP, parabéns.
Eu já tinha perdido a esperança mas a coisa acabou bem.
Isto da bola também tem a ver com a sorte e o azar. Houve vários jogos em que o Benfica ganho com sorte o que lhe permitiu chegar a ter 4 pontos de vantágem. Mas depois veio o azar.
Somando e subtraindo todas as parcelas, esteve tudo muito igual pelo que o jsuto seria Porto e Benfica acabarem com o mesmo número de pontos. Mas o Porto merece a vitória porque empatou a 2 na Luz e, sem sorte, empatava a 1 no dragão.

Finalmente, a morte da Andrea Rebello.
Para nós parece estranho que a policia entre aos tiros numa residencia universitária apenas porque consta que está lá um assaltante armado.
Mas não nos podemos esquecer que nos USA, volta e meia, alunos e outros malucos matam dezenas de colegas de uma assentada.
Custa muito, passado uns dias, chegar à conclusão que a arma era de plastico ou que a afirmação de que tinha uma bomba na panela não passava de um guisado com muito piripiri (não sei se tal aconteceu) mas o problema é que, muitas vezes, a arma é mesmo verdadeira e a panela explode mesmo.

Pedro Cosme Costa Vieira

quinta-feira, 16 de maio de 2013

A moeda, o crédito, o financiamento e o juro - parte 3 - O sistema monetário

Decidi escrever um conjunto de 3 postes para tentar ultrapassar a grande confusão das pessoas entre a parte real da economia (a poupança, o investimento e o juro real) e a parte monetária (a quantidade de moeda em circulação e o controlo da inflação, com ou sem juro).

No primeiro poste escrevi sobre o sistema bancário como um intermediário entre as famílias que querem poupar (galinhas) e as que querem pedir recursos emprestados (também galinhas). (Ver, parte 1  - o sistema bancário).

No segundo poste escrevi sobre a necessidade de haver um sistema de preços em que o nível geral de preços é, à partida, indeterminado mas que é controlado pela quantidade de moeda que existe em circulação. Apresentei ainda que a política orçamental pode ser usada para controlar o nível de preços usando défice quando é preciso aumentar a inflação (+ moeda) e superavit quando é preciso diminui-la (-moeda). Nesse poste já surgiu uma certa confusão entre moeda (que controla o nível geral e preços) e política orçamental (que controla a despesa e receita do Estado) mas que veremos ser uma ligação muito pequena. Esta forma de controlar a inflação tem o problema de o orçamento ficar ligeiramente prisioneiro da política monetária o que é difícil de conduzir pelos políticos e povinho que temos que defendem sistemáticos défices (Ver, parte 2 - o sistema de preços).

Neste poste vou, finalmente, apresentar várias formas de controlar o nível geral de preços (i.e., a quantidade de moeda em circulação) usando "reservas compulsivas" do sistema bancário ou uma taxa de juro de cedência de liquidez (a conhecida taxa de juro do BCE).

Fig. 1 - Eu sou pequenina mas a mamã disse que esta galinha vai ser depositada no banco para eu ter um pé-de-meia para quando for para a universidade.


O que já sabemos?
1 - Que a moeda é usada para, nas trocas, separar o momento da compra do momento da venda. Desta forma, as trocas tornam-se muito mais fáceis (não é preciso a "dupla coincidência de vontades" entre quem troca).
2- Entre as vendas e as compras, o dinheiro fica na nossa carteira o que implica haver a necessidade de uma certa quantidade de moeda em circulação. O número de transacções que cada moeda faz por ano denomina-se por "velocidade de circulação da moeda" que é, no longo-prazo, razoavelmente estável.
3 - Sabemos também que a inflação resulta do aumento da quantidade de moeda em circulação (e da diminuição do PIB ou do aumento da velocidade de circulação da moeda). É a teoria quantitativa da moeda.

Vamos ver como tem estado a inflação na Zona Euro.
A Zona Euro começou em 1 de Janeiro de 2009 e fiou decidido por todos os participantes que a inflação iria ser de 2.0%/ano.
Apesar de poder ser possível o governo de um país conduzir directamente a política monetária, a generalidade dos países tem um Banco Central a quem está entregue essa função. No caso da Zona Euro, foi criado o Banco Central Europeu que tem um mandato de estabilidade da taxa de inflação nos 2.0% por ano.
Realmente, não há qualquer dúvida que a inflação tem estado no objectivo. Se considerarmos desde Janeiro de 1999 até Março de 2013, a inflação média foi de 2.056%/ano (ver, Fig. 2).

Fig. 2 - Taxa de inflação da Zona Euro média entre Jan1999 e o momento considerado (dados: BCE).
  
E a velocidade de circulação da moeda?
Na Zona Euro só existem 920 mil milhões € de notas e moedas em circulação que correspondem a 9.5% do PIB. Quer isto dizer que a velocidade das notas de euros, V, é de cerca 10 transacções por ano. Apesar de V ser estável (está a aumentar ligeiramente), no curto prazo oscila bastante em torno da tendência que é preciso resolver aumentando ou diminuindo a quantidade de moeda em circulação (em termos nominais). Se isso não fosse feito, o nível geral de preço teria que oscilar para, de forma simétrica, variar a quantidade de moeda (em termos reais) em circulação.

Fig. 3 - A velocidade de circulação dos euros tem aumentado ligeiramente ao longo do tempo (dados: BCE, velocidade em transacções por ano).

Como pode ser controlada a quantidade de moeda em circulação?
Para haver, no longo-prazo, uma determinada taxa de inflação, todos os dias a quantidade de moeda tem que aumentar  à taxa de crescimento do PIB nominal (PIB + inflação). Na Zona Euro, a quantidade tem aumentado 0.4%/mês (ver, Fig. 4), 11€/mês para cada cidadão da Zona Euro.
Podemos ver dos dados que, relativamente à tendência, a quantidade de notas em circulação varia relativamente pouco (o desvio padrão mensal é de 1.2% da quantidade de notas em circulação, 0.12% do PIB).
Vamos memorizar que a evidencia empírica diz que as intervenções mensais do BC são coisas muito ténues, em 95% dos casos, inferiores a 0.25% do PIB, 6 mil milhões € ao longo de um mês.

O BCE dá vida em cada  mês a notas no valor de 11.00€ +- 3.00€ por cada pessoa. 
As intervenções não são triliões de € como anunciam na TV mas andam na ordem dos mil milhões de €,  num mês, apenas 3.00€ por cada um dos 330 milhões de cidadãos da Zona Euro.
Isto não é nada. Sabendo que a despesa pública portuguesa são 600€/mês por cada pessoa, vemos que cada intervenção de emissão de moeda é capaz de financiar menos que 0.5% da despesa do Estado.

Fig. 4 - Valor nominal das notas e moedas de euro em circulação (dados: BCE)

Além das notas em circulação (vivas), o sistema monetário tem que ter camiões de notas nos cofres (mortas). Podia-se imaginar que, quando fosse preciso mais notas, mandavam-se imprimir umas quantas, mas isso leva tempo a fazer. A estratégia é imprir notas novas todos os dias (as tais 4.8%/ano mais as que ficam velhas) mas ainda fica um stock para as operações de curto-prazo (menos de 20% das notas em circulação, valor correspondente a 2% do PIB).
A moeda em circulação pode ser usada para intermediar as trocas e como reserva de valor enquanto que as notas mortas não o podem fazer.
Para aumentar a quantidade de moeda em circulação é preciso dar vida às notas mortas e, para diminuir a quantidade de notas em circulação, é preciso caçar notas vivas e matá-las.
Para matar as notas não é preciso queimá-las mas apenas guardá-las num sitio inacessível às transacções para mais tarde, quando for preciso, poderem ser ressuscitadas.
É importante metermos nas nossas cabeças que, enquanto as notas estiverem mortas, não actuam na economia pelo que não são um activo (não são moeda nem bens ou serviços). Pelo contrário, os saldos e as notas que estão nos depósitos à ordem estão vivas pois podem, via cheques e terminais multibanco, ser usadas nas trocas.
Agora, apenas é preciso imaginar formas de matar as notas vivas e de dar vida às notas mortas.

Primeiro instrumento - O saldo orçamental variar.
No poste anterior, já falei desta hipótese que repito agora.
Se um dia o governador do BC mede a inflação e conclui que é preciso aumentar a quantidade de moeda em circulação, carrega uma furgoneta de notas mortas e vai entregá-las ao gasparzinho que lhes dá vida gastando-as à vontade. Se, pelo contrário, conclui que é preciso diminuir as notas em circulação então, entra à socapa no gabinete do gasparzinho, vai-lhe ao cofre e carrega uma palete de notas que leva para abater. Quando o gasparzinho chegar e vir que o cofre está vazio, lá terá que cortar mais qualquer coisita na despesa ou aumentar uma taxa qualquer.
É a vida de ministro das finanças.

Será, nesta hipótese, a emissão de moeda expansionista?
Apesar de o Estado poder gastar mais quando recebe a carrinha de notas, isso apenas acontece porque os privados gastam menos (ficam com as notas no bolso). Apesar de não existe qualquer diferença entre a despesa pública financiada pelas novas notas e a financiada pela cobrança de um imposto, as pessoas toleram muito melhor os impostos que a inflação induzida pelas notas novas em excesso.
Apesar de a politica orçamental ficar presa à politica monetária, essa ligação é muito ténue pois nos períodos em que é preciso reduzir a quantidade de moeda em circulação, essa redução obriga a um corte na despesa pública inferior a 0.25% do PIB (o tal valor que memorizamos, Fig. 4).
É contra-intuitivo mas, por mais moeda que o Estado emita, no máximo só consegue financiar despesa pública no valor de 1% do PIB.

Segundo instrumento - O BC obrigar os bancos comerciais a variar as reservas monetárias.
Numa economia haverá notas em circulação num valor próximo de 10% do PIB e depósitos bancários na ordem dos 200% do PIB (as tais galinhas que alguém deposita e o banco canaliza para outros). Estes recursos não estão nos bancos mas sim nas mãos dos credores do banco (o banco não é um galinheiro). O banco só tem lá papeis a dizer a quem emprestou as galinhas.
O Banco Central pode impor aos bancos que tenham uma determinada percentagem, por exemplo, 2%, do valor dos depósitos no cofre como notas mortas.
Se o governador do Banco Central julgar que é preciso aumentar a quantidade de notas em circulação, comunica aos bancos comerciais que podem reduzir as reservas em 0.1 pontos percentuais (que corresponde a uma injecção de notas no valor de 0.2% do PIB). Como os bancos querem emprestar mais porque recebem juros, parte das notas que estavam no cofre mortas, voltam rapidamente à vida. Se passado um mês a inflação continuar baixa, o governador comunica que podem descer as reservas em mais 0.1 pp.
Se, pelo contrário, o governador do Banco Central julgar que é preciso diminuir a quantidade de notas em circulação (a inflação está alta), comunica aos bancos comerciais que têm que aumentar as reservas em 0.1 pp (que corresponde à captura e morte de notas no valor de 0.2% do PIB). Mais uma vez, se passado um mês se mostrar insuficiente, comunica que têm que aumentar as reservas em mais 0.1 pp.

Aqui há uma pequena interacção entre o Banco Central e os bancos comerciais.
É contra-intuitiva mas, apesar de o bancos terem 4% do PIB em notas, não existem recursos armazenados sem uso (galinhas). São apenas papeis (notas ou ouro) com o fito de garantir a estabilidade do nível geral de preços. Vamos alterar o desenho do sistema para tornar isto claro.
Em termos empíricos, deriva do desvio padrão que, em 95% dos meses, as necessidades de variação da quantidade de moeda em circulação são menores que 0.25% do PIB. Então, o Banco Central vai emprestar notas no valor de 4% do PIB ao sistema bancário a taxa de juro zero impondo ao mesmo tempo que os bancos constituam reservas de 2% dos depósitos (o mesmo valor emprestado pelo BC). Agora já vemos que as reservas de 4% do PIB dos bancos comerciais são emprestadas sem juros pelo BC pelo que, os bancos comerciais podem emprestar todos os valores que aceitam como depósitos (têm 200% de depósitos dos clientes mais 4% de deposito do BC).
Mandando o BC variar as reservas, tanto o sistema bancário pode ter lucro (se as reservas caírem abaixo de 2% dos depósitos) como prejuízo (se ficarem acima dos 2%).
Assim, a ligação entre o sistema monetário controlado por reserva compulsivas e o sistema bancário é quase nula não tendo, em média, ninguém  lucro nem prejuízo pelo ajustamento de curto prazo da liquidez (uns meses são compensados por outros meses).
A China gosta deste sistema de controlo do nível geral de preços.

O FMI faz empréstimos a taxa de juro muito baixa.
No sistema internacional, os bancos centrais têm reservas em moeda estrangeira (dólares americanos, euros, etc.) para estabilizar o câmbios entre as zonas monetárias (o nível geral de preços mundial). Como essas reservas são maioritariamente notas mortas, o país emissor das divisas teria lucro se os países com "moedas fracas" pagassem juros pelas notas. Então, desde que se mantenham razoavelmente mortas, os EUA, a Zona Euro, etc., emprestam notas ao FMI a taxa de juro zero que as coloca a taxa de juro quase zero junto dos bancos centrais. É por esta razão que muitos países têm reservas monetárias muito superiores às suas dividas públicas mas que não podem usar pois é essa a condição do empréstimo (estarem, em média, mortas).

Terceiro instrumento - O BC comprar / vender activos financeiro directamente no mercado.
Existem na economia muitos activos financeiros, (e.g., títulos de dívida do Estado, de grandes privados e produtos imobiliários estruturados), que o Banco Central pode comprar com notas mortas para aumentar a taxa de inflação.  Quando a inflação está elevada, o BC pode vender os activos que tem em carteira capturando assim notas que posteriormente mata.
Em teoria, esta compra e venda tem, pela lei da oferta e da procura, impacto na taxa de juro dos activos comprados e vendidos mas na prática, dada a pequenez das intervenções (já mostrei que são inferiores a 0.25% em cada mês relativamente à tendência), não há qualquer impacto significativo.
Vamos supor a dívida pública portuguesa, 200 mil milhões €. então, uma normal intervenção de 0.125% do PIB, reportando à dimensão de Portugal, são intervenções inferiores a 200 milhões €, 0.10% do stock total de dívida pública.
Vê-se que é impossível um Estado financiar-se em operações do seu banco central. Se fosse feito como dizem os do PS (ser o BCE o financiador dos países do Sul da Europa), a inflação ultrapassaria rapidamente os 100%/ano sem resolver qualquer problema de financiamento.
Este tipo de intervenções chama-se de "open market".


Quarto instrumento - A "janela de desconto".
Guardei este instrumento para o fim porque usa a taxa de juro de referencia do BCE (actualmente de 0.50%/ano) que entra regularmente nas nossas casas pela comunicação social.
Neste caso, o banco central aceita depósitos e faz empréstimos sem limite quantitativo.
Se alguém (um banco comercial) quiser depositar notas no BCE, ele paga-lhe uma taxa de juro passiva (actualmente, 0%/ano). Se alguém (também um banco) quiser levantar notas, tem que prestar garantia mas pode levantar as notas que precisar.

A economia deveria ser assim.
Há um preço que controla as quantidades compraas e vendidas mas não existe qualquer limite quantitativo Para isso ser possível, não pode haver entraves ao ovimento do preço.
No caso do mercado de trabalho português, como os salários não ajustam na descida, o mercado tem que ajustar pela quantidade É isso que justifica termos uma enorme taxa de desemprego.

Como funciona o sistema de controlo de liquidez?
Existe uma diferença entre a taxa de juro passiva e a taxa de juro activa que serve para o BCE ter um lucrozito e cobrir eventuais falências de algum interveniente (mesmo com garantias). Actualmente esta margem é de 0.5 pontos percentuais.
Aumentar a taxa de juro passiva faz com que mais notas sejam depositadas e aumentar a taxa de juro activa faz com que menos notas sejam levantadas. Então, subir qualquer das taxas faz com que diminua a quantidade de notas que existem em circulação (e vice-versa).

Qual o impacto da taxa de referencia no sistema bancário?
Zero virgula zero porque a relação é inversa. As taxas de juro do sistema bancário comercial é que têm impacto directo na taxa de referencia.
Vamos supor que a taxa de juro do sistema bancário (sem rico) e no BCE está em 2%/ano.
Se na economia há um aumento da vontade de poupar e uma diminuição da vontade de investir, a taxa de juro de mercado ai diminui (ver, Fig. 5).

Fig. 5 - A taxa de juro sem risco na Zona Euro tem caído continuamente (dados: Eurostat).

Se a taxa de juro do BCE se mantivesse fixa, tornava-se atractiva para os bancos aplicarem as poupanças que recebem, diminuindo assim a quantidade de notas em circulação. Então, o BCE tem que responder baixando a sua taxa de juro para um nível compatível com o seu objectivo de inflação. Motivado pelo risco de insolvência de bancos da Zona Euro, não existem dentro do sistema bancário aplicações de curto-prazo sem risco (o conhecido mercado inter-bancário de que resulta a EURIBOR) pelo que, mesmo com uma taxa de juro de 0%/ano, os depósitos junto do BCE ainda são 4x o que se verificava em 2007 (60% do valor das notas em circulação). Para dar vida ao depósitos de mais de 2.5x o valor das notas em circulação, o BCE viu-se obrigado a implementar medidas activas (as operações LTRO) para manter estável a quantidade de notas em circulação. Apesar de os depósitos de notas terem crescido de 380 mil milhões de € (em 2006) para 3300 mil milhões de € (em 2012), o BCE conseguiu manter estável o valor das notas em circulação (rever, Fig. 4).

Fig. 6 - Depósitos junto do BCE em % do valor das notas em circulação (dados: BCE) 

O que teria acontecido se o BCE não actuasse?
Hoje ao almoço estive a falar com a minha amiga Paulinha que ensina macroeconomia. Claro que eu disse-lhe o que tinha escrito no poste anterior que ensinar que mais inflação está associado a mais crescimento é um crime.
Mas isso verificou-e antes dos anos 1950. Porque será?
Porque os bancos centrais não controlavam a inflação mas outra coisa qualquer (a quantidade de ouro no sistema).
Se naquele salto de depósitos que se observou em Junho de 2011 se o BCE não fizesse as notas retornar à vida, a liquidez iria cair muito (a quantidade de notas em circulação) o que causaria uma queda de preços de mais de 50%. De qualquer forma, não seria possivel depositar tantas notas pois não existia tal quantidade no sistema.

Então, já estão a ver ver o filme.
Se o banco central mantivesse a quantidade de moeda fixa (moeda em circulação mais o dinheiro morto pelos privados) como acontecia quando era usado o Ouro, nos períodos de crise economia (e risco elevado em que a moeda era um "valor refúgio"), havia queda de preço e vice-versa.
Não é que a inflação tenha de facto qualquer impacto de curto-prazo ou de logo-prazo na economia. Apenas o Banco Central é que não consegue controlar perfeitamente a taxa de inflação.

É como o Benfica que não consegue controlar os minutos de desconto.
Quando há crise económica (como a de 2011), ainda há um bocadinho de queda de preços e nos períodos de crescimento económico ainda há um bocadinho de inflação acima dos 2%/ano mas é apenas por a inflação ter ruído irredutível (oscilações impossíveis de anular, por mais perfeito que seja o sistema de controlo).
Mas se um maluco tentasse, como já tentaram, acabar com as crises aumentando a inflação, de nada serviria.

Já posso concluir.
O Banco Central existe para manter o nível geral de preços estável, e nada mais.
Mas mesmo que tivesse outro objectivo (a outra politica, a politica de crescimento), não valia a pena porque não possível tal coisa.
Para controlar o nível geral de preço, o BC tem que aumentar e diminuir a quantidade de moeda em circulação em torno da média na ordem de 3.00€ por pessoa. Para isso, tem vários instrumentos ao seu dispor.
No caso do BCE, são usados todos os instrumentos mas o mais conhecido é a taxa de juro de edencia de liquidez que está nos 0.5%/ano. Esta taxa não é uma decisão do BC mas resulta apenas das condicionantes do mercado de poupança (das galinhas) que é intermediado pelo sistema bancário.
A taxa de referencia é mais estável que a evolução diária das taxas de juro sem risco porque o BC usa os outros instrumentos conjuntamente, por exemplo, a compra directa no mercado de activos.

Terá o BCE algum impacto nas taxas de juro a dívida pública portuguesa?
Os esquerdistas dizem que sim mas é por demais evidente que não.
O BCE tem uma quantidade tão pequena de activos sob administração (10% do PIB em notas mais 25% em depósitos) que, para uma divida pública na Zona Euro acima de 90% do PIB, é incapaz de fazer seja o que for.
Se fosse verdade que a nossa taxa de juro (e de todos os países do Sul da Europa) está a descer por causa do BCE então, a taxa de juro alemã estaria a subir, o que não se verifica (ver, Fig. 7). E acresce que essa hipótese pueril não consegue justificar porque estamos 5.4 pontos percentuais abaixo da Grécia ou 4.1 pontos percentuais acima da Bélgica (para quem o BCE é o mesmo).
Deve ser por a Grécia ter Azul e Branco na bandeira e a Bélgica ter vermelho e começar por B.

Fig. 7 - Os juros da dívida pública a 10 anos em Portugal e Alemanha (dado: BCE)

Termino com a ideia do Miguel Cadilhe de vender o Ouro.
Eu herdei a cadeira que o Cadilhe deu na minha faculdade pelo que lhe tenho que ter respeito.
Portugal tem 380 toneladas de ouro que, a 35€/g, valem 13300 milhões de €.
A divida pública portuguesa são mais de 200000 milhões de € pelo que a venda do ouro apenas daria para pagar 6.7% da nossa divida pública.
Só a Troika emprestou-nos 78000 milhões de €, quase 6 vezes o que resultaria da venda de todo o nosso ouro.
O Sócrates, só em 2009 e 2010, mandou directamente para a divida 34 000 milhões de €.
Vender o ouro todo só daria para pagar 2/3 das divias das empresas públicas de transportes.
Como é posssível uma pessoa inteligente afirmar que com a venda do nosso ouro ao longo de 10 anos permitiria fazer a reforma de fosse o que fosse? O homem está um bocadinho sem perspectiva dos valores, será aquele alemão, o Azheimer?

Fig. 8 - Se deve 200 mil € da casa, venda a sua aliança de casamento e pague-a com o dinheiro obtido. Tem que dar porque o ouro vale mais que o cimento.


Pedro Cosme Costa Vieira 

quinta-feira, 11 de abril de 2013

A saida do Euro, o empobrecimento e a inflação.

O retorno do Escudo e o empobrecimento.
Eu não li (ainda, pois não o tenho) o livro do meu amigo João Ferreira do Amaral, mas uma das ideias que ele apresentou na televisão fui eu que lha transmiti numa conversa tida aqui no Porto numa conferencia do NIFIP. Não me estou a gabar como o Sócrates (de que foi o melhor aluno do Mundo) mas apenas a fazer um pouco de "história do pensamento": como certa ideia surgiu e o que traduz.
O que eu disse é que, a saída do Euro não implica empobrecimento relativamente a ficar no Euro.
Fiquemos ou não no Euro, o nosso rendimento vai diminuir. Mas a diferença é somente da dinâmica de ajustamento. Como dentro da ZE, o ajustamento se está a mostrar mais difícil (diria mesmo, impossível), a destruição de postos de trabalho e de riqueza serão menores se voltarmos a ter escudos.

Pensará o Amaral que
 os salários podem subir de forma a compensar o aumento da inflação?
Esta dúvida também foi colocada pelo Diogo e vou apresentar as implicações de o salários estarem indexados à taxa de inflação: a economia não ajusta e o nível de preços instabiliza-se o que faz a moeda deixar de ser usada como unidade de valor.
É o que se passa, por exemplo, em Cuba onde os salários acabaram por ser em espécie (bens básicos com um preço próximo dos 35€/mês) e em moeda estrangeira (7USD/mês = 5€/mês).
Como já disse, não posso responder a esta questão que sim nem que não porque não li o livro.

Fig. 1 - O João está um bocadito gordo mas é muito boa pessoa.

O que eu quis dizer.
Nos últimos anos, nós tivemos um nível de vida artificialmente elevado porque cada português estava a endividar-se ao exterior à média de 150€/mês. Cada um de nós pode julgar que não se endividou mas o acesso a ensino, saúde, segurança, etc. gratuitos e transportes, vias de comunicação, electricidade, etc. altamente subsidiados obrigou o Estado a endividar-se em nosso nome.
Nós somos responsáveis por essa divida porque votamos nos políticos que, implicitamente, disseram no programa eleitoral que se iriam endividar.
Como era o Estado que se endividava (para mantermos o nosso conforto), parecia que o nosso nível de vida resultava do esforço do nosso trabalho mas não. Também resultava do endividamento feito pelo estado no exterior e que um dia teria que ser pago com juros.
Esse dia, infelizmente, chegou em 2011. Tivemos que parar o endividamento e, nos anos que aí vêm, teremos que começar a amortizar a dívida ao exterior.
Então, estamos a começar a sentir uma diminuição do nosso nível de vida que, pensamos, é empobrecimento quando não é. De facto, temos menos rendimento disponível não por produzirmos menos (que também acontece) mas porque não temos o oxigénio do crédito externo.

Fig. 2 - O que eu quis dizer foi que muito boa, mesmo, é esta pessoa

Comparar o empobrecimento com Euro vs. com Escudo.
Ter Euros ou Escudos é, em termos estáticos de longo-prazo (sem atender à dinâmica de ajustamento), exactamente igual. É o modelo de Mundll-Fleming.
Se os mercados de trabalho (salários) e de bens e serviço (preços) fossem perfeitamente flexível, poderia haver apenas uma zona monetária no Mundo (a mesma moeda poderia ser usada por todos os países, por exemplo, o Ouro).
Salários perfeitamente flexíveis seria, por exemplo, ter uma economia em que todos nós fossemos trabalhadores por conta própria. Se o campo não desse batatas, ficávamos sem salário.
Num patamar mais sofisticado, também teríamos salários perfeitamente flexíveis se a nossa empresa distribuísse o lucro/prejuízo pelos trabalhadores da empresa (depois de pago um juro pelo capital).
Porque os salários não são flexíveis.
Porque há uma especialização das pessoas.
Por um lado, temos os trabalhadores por conta de outrem, uma massa de pessoas (mais de 90%) que quer ter rendimento fixo. Pretende uma actividade em que, mesmo ganhando menos em termos médios, não tenha risco de ver o seu rendimento diminuir de um mês para o outro.
Por outro lado,  temos os empresários, uma minoria de pessoas (menos de 10%) que não se importa de ter rendimento variável. Como são uma minoria, em média o rendimento dos empresários é superior ao rendimento dos trabalhadores, mas tem risco.
Fig. 3 - Para ficarmos na ZE, os nossos trabalhadores têm que ser assim flexíveis
Se tivesse dois empregos à escolha.
Imagine uma empresa cuja margem mensal (depois de pagar juros, e demais coisas mas antes dos salários que considero incluir a TSU) por trabalhador segue uma distribuição normal com média 1000€ e desvio padrão também de 1000€. Essa empresa vai-lhe propor que escolha um de dois contratos de trabalho.
Contracto 1 - Salário fixo de 750€/mês.
O lucro do empresário será uma variável aleatória com média 250€ e desvio padrão de 1000€. Quer isto dizer que existe uma probabilidade de 40% do empresário ter prejuízo.
Contracto 2 - Salário de 250€/mês + 1/2 da margem.
Em média, o salário vai ser o mesmo mas vai variar de mês para mês, podendo ser menor que zero (7% de probabilidade) . Provavelmente, vai-se esforçar mais porque vai receber metade da margem.
Mesmo pensando que se vai esforçar o mesmo, como o risco é partilhado com o trabalhador, o empresário fica com menor probabilidade de ter prejuízo (31%).
Ao empresário interessa ter menos risco pelo que ainda está disponível para lhe pagar um bónus de 5€/mês.
Qual era o contracto de trabalho que preferia? 
Se optou pelo Contracto 1, não tem nada de errado fazendo mesmo parte da grande maioria. Eu, na minha vida, optei pelo Contracto 1.
Estamos vocacionado para ser trabalhadores por conta de outrem.
Se optou pelo Contracto 2, tem espírito de empresário.
O ajustamento dentro do Euro.
(os números são apenas ilustrativos)
Como os trabalhadores não querem que o seu salário diminua e o ajustamento da economia obriga a haver variações (para cima e para baixo) dos salários então, o mercado ajusta pelas quantidades: no períodos de expansão os salários aumentam e, nos períodos de crise, os salários mantêm-se mas há despedimentos.
Normalmente, o máximo que os trabalhadores estão disponíveis para suportar é o congelamento nominal do salário que implica, dentro do Euro, a uma quebra de 2%/ano no salário real. 
O nosso problema é que o nossa economia está tão desequilibrada que não é suficiente uma redução dos salários em 2%/ano. No caso (que não é o nosso, ver Fig.  , mas o grego) de a produtividade por trabalhador cair mais de 2%/ano, o equilíbrio com salários nominais constantes apenas acontece para taxas de desemprego muito acima dos 50%.
Até onde pode ir a taxa de desemprego?
O limite é 100%.
Eu já o disse e ainda ninguém acreditou que podemos atingir taxa de desemprego acima de 50%. Na transição da Ucrânia para a Economia de Mercado, a taxa de desemprego ultrapassou em muito os 50% (os empregos remunerados chegaram a ser menos de 25% da população activa) .
Ninguém acreditava que fosse possível um país da ZE ter uma taxa de desemprego superior a 20% mas a Espanha e a Grécia já estão acima dos 26%.
Mais dia menos dia, os salários nominais vão ter que diminuir.
Por muito que custe ao Passos Coelho, mais dia, menos dia, vai ter que haver uma alteração legislativa que permita a diminuição dos salários nominais.
O mais certo é que isso saia na próxima semana, durante a avaliação de emergência da Troika.
Vamos imaginar duas pessoas que ganham actualmente 1000€/mês, uma deve 50000€ e outra tem 50000€ de depósitos bancários (correspondente a 50 meses de salário).
No futuro, o salário diminuindo para 750€/mês, os mesmos 50000€ passarão a corresponder a 66.7 meses de trabalho.
Como os preços vão cair 15%
A perda do poder e compra é de apenas 10% mas a dívida aumenta, em termos de meses de trabalho, em 33%.  Em termos de rendimento, ambas as pessoas ficam mais pobre em 10%.
Relativamente às poupanças, a pessoa endividada fica mais pobre porque deve mais meses de ordenado mas a que tem poupanças fica mais rica porque tem acumulados mais meses de ordenado (66.7 meses) e o poder de compra do seu dinheiro aumenta.
O ajustamento com escudos.
A moeda vai desvalorizar 25% e, mantendo-se o salários em termos nominais, os preços dos bens importado vão aumentar 33% pelo que os preço vão aumentar 13% por causa da incorporação das importações (vou supor 40%).
A pessoa ficando com o mesmo ordenado (200 contos), passa a ter menos 10% de poder de compra (porque o preços aumentaram). Então, em termos de rendimento, não há um empobrecimento relativamente ao ajustamento dentro o Euro.
Relativamente às poupanças, a pessoa endividada fica mais pobre porque deve mais dinheiro (devia 50000€ = 10000contos e passa a dever 50000€= 13333 contos) o que corresponde a 66.7 meses de ordenado  (uma desvalorização de 25% implica uma valorização da contraparte em 33%).
É exactamente igual.
O empobrecimento (a redução do salário e o aumento da dívida em meses de salário) é exactamente o mesmo estejamos dentro do euro ou fora.
Foi isto que eu disse ao meu amigo João Ferreira do Amaral.
A saída da Zona euro não causa empobrecimento porque isso vai acontecer mesmo que fiquemos no euro.
É exactamente igual.
Onde está a diferença?
Na dinâmica do ajustamento.
Dentro do Euro, os salários e os preços têm que diminuir em termos nominais o que, nos países do Sul da Europa, se está a mostrar muito difícil. No Escudo, ocorre uma desvalorização (como aconteceu na Islândia) e logo a coisa se compõe.
E se os salários ajustarem ao aumento dos preços?
O Diogo também colocou esta questão.
Imagine que Portugal saía do Euro e ficava com moeda própria.
1. Os sindicatos sabem que uma desvalorização da moeda nacional, embora mantenha os salários nominais, faz reduzir os salários reais (o poder de compra baixa). Não poderão eles (se é que já não o fizeram) indexar os salários à inflação nos contratos de trabalho?
E se isso é possível, não perderia a desvalorização a sua eficácia?


Vamos ver que a economia não ajusta.
Naturalmente que perde toda a eficácia termos Escudo. Afirmo mesmo que não teremos Escudo.

Desvalorização -> 25%
Inflação -> +13% (efeito directo dos bens importados na produção e no cabaz de bens)
H1: Salário ficam fixos -> os custos de produção mantêm-se pelo que os preços dos bens produzidos em Portugal mantêm-e em termo nominais e diminuem em termos de exterior
-> há uma redução do salário real e os preço face ao exterior diminuem 12%
A economia ajusta

H2: Salário aumentam 13% -> os custos de produção aumentam 11% (os salários pesam 80% nos custos de produção)
-> a inflação aumenta para 20%
-> os preços face ao exterior já só têm uma redução de 5%

-> Salário aumentam mais 7% -> os custos de produção aumentam 5,6%
-> A inflação aumenta para 23%
-> Os preços face ao exterior já só têm uma redução de 2%

-> Salário aumentam mais 3% -> os custos de produção aumentam 2%
-> A inflação aumenta para 25%
-> O salário real fica na mesma e os preço face ao exterior ficam na mesma

Agora há ajustamento, havendo necessidade de nova desvalorização.
A economia não ajusta.

A desvalorização será tremenda e a moeda (o escudo) deixa de ser aceite pelos agentes económicos que passa a transaccionar em dólares ou euros.
Ficamos novamente sem moeda! (a boa moeda expulsa a má moeda).

Os salários não vão acompanhar a inflação.
Se fosse o Galanda a governar ou outro maluco qualquer, ficaríamos como o Zimbabwe que, em Nov 2008, teve uma taxas de inflação de 79600000%/mês, "apenas" 55% por dia. Um dia ganhávamos 100$ para logo no dia seguinte já termos sido aumentados para 155$ e, passada uma semana, já ganharmos tanto num dia (2150$) como, antes uma semana, num mês inteiro.
Em 10 anos de "políticas de crescimento" à PS, baseado em expansão monetária para financiar uma despesa pública crescente, o Zimbabué perdeu 56.7% do seu PIB (ver, quadro 1).
 Isto é que verdadeiramente resolver crises à socialista, aguenta, aguenta.
200020012002200320042005200620072008200920102011
Crescimento-6,1%-6,5%-12,1%-13,6%-8,2%-7,7%-4,4%-5,5%-14,1%-1,3%9,0%9,3%
Acumulado-6,1%-12,2%-22,8%-33,3%-38,8%-43,5%-46,0%-49,0%-56,2%-56,7%-52,8%-48,4%
Quadro 1 - Evolução do rescimento do PIB no Zimbabué (dados: indexmundi)


Aí, a nossa moeda de facto seria outra qualquer (apesar de legalmente termos escudos, na rua só veríamos euros).
No final, o ajustamento ter mais ou menos inflação, vai ficar na psicologia das pessoas e na demagogia dos governantes mas acontece sempre mais rapidamente que em câmbios fixos.
Se houvesse inflação de 20%/ano e o governo congelasse as pensões e os salários dos funcionários públicos, seria constitucional. Como a nossa mais alta magistratura pensa que isso é substancialmente diferente de cortar o subsídio de férias então, a falta de conhecimento dos nossos órgãos de soberania não permite continuarmos na Zona Euro.

Não se ganha competitividade, apenas se equilibra a economia.
A desvalorização é uma descida do preços do bens que vendemos ao exterior (e um aumento do preço dos bens importados) não sendo um ganhar de competitividade mas apenas um ajustamento da nossa economia à competitividade que temos.
Como tudo na vida, há uma taxa de cambio que equilibra a economia.
A taxa de desvalorização da moeda será igual à taxa de inflação menos os ganhos de produtividade relativamente aos nossos parceiros comerciais.
Se tivermos uma desvalorizações de 0.1%/dia, que não parece nada do outro mundo, no fim do ano acumulamos quase 50% de desvalorização.
Ganhar competitividade é aumentar os salários reais (a moeda chinesa está a valorizar-se 3%/ano face ao USD, ver Fig. 4, com uma inflação superior à americana em cerca de 2%/ano, o que traduz ganhos de 5%/ano na competitividade).

Fig. 4 - Nos últimos 3 anos a moeda chinesa valorizou quase 10% face ao USA com inflação mais elevada, o que traduz verdadeiros ganhos de competitividade (tradingeconomics)

Pergunta ainda o Diogo
Já que os custos do factor trabalho estão altos, as empresas podem estar a investir em tecnologias mais capital intensivas. Se for o caso, a produtividade por trabalhador está a aumentar. Ou seja, pode não seguir logicamente que mais desemprego implique quebras na produção.

Normalmente, este efeito acontece (apesar de ligeiro), mas da produção total (que se chama produtividade total do factores por trabalhador) há que pagar os outros factores (o capital e a tecnologia). Apesar da produtividade aumentar, a parte destinada ao trabalho diminui porque apenas os trabalhadores mais produtivos continuam empregados.
Mais uma vez, há um valor em equilíbrio de pleno emprego em que o total destinado a salários é máximo.
No caso português a PTF por trabalhador está estável (mas com tendencia negativa) o que traduz que não estamos a ficar mais produtivos mas também que não se assiste a uma destruição qualitativa da estrutura produtiva (destroe-se proporcionalmente à perda de empregos).
fig. 5 - Produtividade total dos factores por trabalhador (Dados: Eurostat, cálculos e grafismo do autor)
Finalmente, a Ferreira Leite.
O Diogo termina com a justificação para a Ferreira Leite (e outros recauchutado da direita), que na campanha contra o Sócrates anunciava cortes a torto e a direito e chegou mesmo a afirmar que a hemodiálise tinha que ser repensada, ter vindo agora dar um derrote no Passos Coelho e no Gasparzinho gritando aina mais alto que o Sócrates, o desmiolado que a austeridade tem que acabar.
Aguenta o CES Manuela.

2. Em Portugal, por estarmos em câmbios fixos, as políticas fiscais são eficazes para aumentar o produto. Logo, não admira que os governos as tenham vindo a adoptar (nem que seja para ganhar eleições). Ora, essas políticas expansionistas resultaram em défices orçamentais (ainda que as politicas tomadas não tenham feito o produto crescer).
Na mesma lógica, em câmbios flexíveis, os governos usariam políticas monetárias expansionistas...

Mas em câmbios flexíveis (com o escudo) os políticos seriam diferentes.
Porque essa política seria no mesmo dia vista como errada Tal como não se pode esconder o Sol quando nasce, o Banco de Portugal teria que deixar desvalorizar o escudo (por falta de reservas cambiais) o que encareceria imediatamente a gasolina, e por aí fora.
As (potenciais) tendências inflacionistas não me preocupam porque o aumento da inflação e a desvalorização, contrariamente a serem um problema, são o que obriga os governos demagógicos a abandonar as políticas monetárias expansionistas.
Mostro apenas o exemplo do Zimbabué que em 2007 um maluco (o Mugabe) pensou que emitir moeda faria todos serem ricos e esse mesmo maluco, em 2009, chegou à conclusão que isso era uma loucura total. Actualmente, esse mesmo maluco decresta que a inflação te que andar nos 2,5%/ano.
Até o pior dos governantes, até aqueles que aprenderam economia no, no, no, ... na Independente e se dizem ter sido o melhor aluno de não sei quê aprenderão rapidamente que a politica monetária expansionista faz perder eleições.
  

Fig. 6 - O mesmo maluco que levou a inflação a milhões%, trouxe-a cá para baixo.
Fig. 7 - Mesmo maluco, aprendeu. Actualmente, a inflação no Zimbabué está igual à inglesa!

Apenas há 7 países no mundo com inflação elevada.
O tradingeconomics diz que apenas há 7 países no Mundo com taxa de inflação superior a 20%/ano.
São eles a Síria (50%/ano), Sudão (48%/ano), Irão (39%/ano), Malawi (38%/ano), Sudão do Sul (24%/ano), Venezuela (24%/ano) e Bielorússia (23%/ano).
É para este clube que os esquerdistas no querem empurrar. As pessoas dos dois países mais ricos deste grupo (Irão e Venezuela) têm um nível de vida (traduzido pelo GDPpc ppp) que é metade do nosso.
E há quem diga por aí que a crise está que não se pode aguentar! Experimente cortar o seu rendimento a metade, e ficamos conversados sobre o "outro caminho" que os esquerdista dizem ter para o nosso querido país.

No lo podemos olvidar.
Não nos podemos esquecer que o Santana Lopes deu cabo do Durão Barroso e que os seu governo governo (de curta duração) com o Bagão Felix como Ministro das Finanças, foi dos mais despesistas que Portugal teve.
E agora, os recauchutados do PSD com o Rui rio à cabeça estão a preparar o assalto ao poder para implementar a tal "política de crescimento".
Ainda vamos ter no PSD e PP quem venha defender um governo com o Santana Lopes, o Sócrates e o Alberto João.
Temos que gritar bem alto,
no pasarán

Pedro Cosme da Costa Vieira

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