Um dos projectos aloucados do Sócrates era a subsidiação de uma fábrica de painéis fotoelétricos em Abrantes.
O problema dos governantes ignorantes e loucos é que qualquer fala-barato, prometendo que vai criar 2000 ou 3000 postos de trabalho, os convence a dar-lhes centenas de milhões de euros em incentivos que o povo, mais tarde, tem que pagar.
É COMPLETAMENTE FALSO.
Que aquele mago (que diz ir fazer a tal fábrica "mesmo que não tenha incentivos") tenha tudo vendido para a Alemanha, de facto vá fazer seja o que for.
Neste momento, existe um grande excesso de capacidade produtiva de painéis solares (ver German and Chinese Solar Firms Battle for Survival, Der Spiegel) o que torna a teoria do tal mago (a quem o Sócrates prometeu 1000 milhões€) uma alucinação total.
"Since making solar modules is no longer difficult, more and more companies have entered the sector in recent years, not only in Germany and China, but also in Japan and Korea [...] then, one manufacturer after the other has filed for bankruptcy, more than half a dozen in Germany alone since December [ ... and] by contrast, there are 12,000 people working in the production halls underneath Zhu's office in Wuxi." ver, Solar Firms Battle for Survival.
Na fábrica de painéis solares do Zhu, os trabalhadores têm o ensino secundário completo e ganham 1.70€/h (um salário de 300€/mês) enquanto que o nosso salário mínimo (para pessoas com a 4ª classe) é de 4.5€/h.
Esta interpretação do fenómeno fotoeléctrico valeu a Einstein o prémio Nobel da física de 1921 e não a sua muito mais famosa Teoria da Relatividade.
Em termos tecnológico, a base do sistema são os Díodos Fotovoltaicos que são empacotados em Painéis Solares que são, depois, dispostos em estruturas de suporte que formam as Quintas Solares, por exemplo, a Topaz Solar Farm tem um preço de projecto de 2000 Milhões USD, uma potencia nominal de 55MW e potencia média efectiva de 125MW (22.8% da potência nominal) o que dá 16000USD/Mw.
A energia foto-eléctrica tem vantagens e inconvenientes.
Tem três principais vantagens.
B) O custo de produção dos díodos deriva principalmente da investigação (os ordenados dos investigadores que se traduzem em patentes) o que faz com que, uma vez feita uma descoberta, a sua vantagem dure para todo o futuro.
Por causa de ser um processo acumulativo, o cujo custo de produção dos diodos fotoeléctricos diminui ao longo do tempo. Nos últimos 50 anos, o custo de produção dos diodos fotovoltaicos tem reduzido 7%/ano.
C) A investigação e a produção utiliza mão de obra escolarizada onde os países desenvolvidos têm uma vantagem competitiva.
Actualmente os díodos fotovoltaicos custam cerca de 1000USD/kw de potência nominal mas o custo do painel é de 2200USD/kw. Se somarmos o equipamento de suporte, o custo final andará nos 3000USD/kw.
B) As instalações solares são caras.
Custando cerca de 3000USD/kw de potencia nominal, como produzem apenas 20% da potencia nominal, o investimento em potência efectiva é próximo de 15000USD/kw (a Topaz Solar Farm tem um investimento projectado de 16000USD/Mw). Para uma duração do equipamento de 25 anos, uma taxa de juro de 5%/ano e uma perda de eficiência de 2%/ano, o custo de capital da energia fotoeléctrica é próximo de 150USD/Mwh (para 10%/ano, sobe para 225USD/Mw).
Nós pagamos na nossa conta de electricidade 125€/Mwh.
Acrescentam aos custos de capital, os custos de exploração e manutenção que também são elevadas (é preciso lavar regularmente os painéis e os suportes metálicos têm muito trabalho de manutenção). O custo final de produção da energia eléctrica com origem solar fica acima dos 200€/Mwh.
E ainda acrescem os custos de distribuição.
C) São precisas instalações de grandes dimensão. Por exemplo, para substituir uma central nuclear de 1000MW serão precisos 12 000 000 m2 de painéis solares formando uma quinta solar com 50 000 000 m2 (a instalação seria um quadrado com 7km de lado). A manutenção de uma instalação desta dimensão é muito dispendiosa (imaginemos uma limpeza semanal dos 12 000 000 m2 de vidro que formam os painéis e os milhares de kilómetros dos ferros usados nos suportes que é preciso pintar regularmente).
A Topaz Solar Farm, com 125Mw de potência média, projecta ter 25 000 000 m2.
D) Durante a maior parte do tempo (durante a noite e nas horas próximas), não há luz pelo que não há produção de electricidade. Então, é preciso ter outro equipamento (parado durante o período em que há luz) que forneça energia durante a noite, o que duplica os custos.
E) No Norte da Europa existe pouca luz solar.
O Sócrates não deveria ser louco de todo pelo que deveria ter alguma ideia na cabeça.
Primeiro: usou um modelo de previsão errado.
Erro: Como só funciona quando há Luz (uma média de 6h por dia à potencia nominal) é preciso ter um sistema alternativo para fornecer electricidade durante os períodos de pouca luz, o que encarece o sistema. A energia fotoeléctrica só será economicamente competitiva com o carvão para um custo de produção de 20€/Mwh.
B) O custo de produção dos díodos fotoeléctricos têm diminuído 7%/ano.
Erro: O preço dos díodos fotoelétricos (cerca de 5000USD/Mw efectivo) são apenas 33% do investimento total. Então, a taxa de redução dos custos de produção são bastante inferiores a 7%/ano. Supondo que a taxa de crescimento é 1/3 deste valor (minha previsão), teremos 2.33%/ano.
Previsão do Sócrates: Diminuir de 200€/Mwh para 60€/Mwh à taxa de 7%/ano -> 18 anos
Previsão correcta (a minha): Diminuir de 200€/Mwh para 20€/Mwh à taxa de 2.33%/ano -> 100 anos
Para os díodos fotoeléctricos ficarem mais eficientes e baratos é preciso investigar.
Assim, fazer quintas fotoeléctricas ou construir os painéis em nada aumenta a nossa capacidade de criar bens exportáveis com valor.
Seria a repetição da Kimonda que deslocalizou para Portugal a produção de microchips de memoria mas que, rapidamente, se tornou não competitiva porque não tínhamos patentes e era muito mais barato produzir na Coreia do Sul.
Foi errado na co-geração - Se era mais eficiente então não era preciso subsidiar.
Foi errado nas eólicas - Se o vento não custava nada não era preciso garantir um preço tão elevado à custa dos consumidores.
Foi errado na solar-eléctrica - Fazer quintas solares em nada aumenta a nossa capacidade competitiva, muito pelo contrário. E só daqui a 100 é que será um tecnologia competitiva para ligar à rede.
Foi errado nos carros eléctricos - Quando deu conta que havia excesso de produção, tentou corrigir um erro com outro erro pois os carros eléctricos são caríssimos (são precisas 7 baterias igual às dos nossos carros, 50Ah, para acumular a energia de 1 litro de gasóleo).
Foi errado nas barragens reversíveis - São investimentos muito grandes para uma rentabilidade negativa.
Foi errado nos biocombustíveis - Quando há fome no mundo, é um crime contra a humanidade usar alimentos (milho, soja, etc.) para fazer combustível.
Foi errado nos resíduos florestais - Era preciso queimar toda a madeira que se produz em Portugal para fazer funcionar as centrais que se subsidiaram. E os resíduos da floresta devem ficar no local pois têm um papel biológico muito importante como alimento a fungos, insectos e melhoramento das características biológicas do solo.
É interessante como o Sócrates não conseguiu acertar em nada.
Tudo o que fez foi errado.
O que deveria ser feito de agora para a frente
Em vez de se subsidiar a produção de electricidade e de equipamentos em que a maior parte do valor é importado deve-se investir na investigação feita nas universidades em parceria com empresas.
Mesmo que depois os painéis sejam produzidos na China, o valor estará na patente e na capacidade de criar novas soluções e não tanto em reproduzir o que já se sabe fazer.
É como a RDA que continuou a fazer carros como sabia fazer a Alemanha em 1940. Enquanto com investigação a Alemanha Ocidental desenvolveu a tecnologia criando marcas de prestigio (as Mercedes, Audi e WW), os carros da RDA saiam da fábrica novinhos em folha mas já prontos para ir para a sucata.
Actualmente a maior parte das peças dos Mercedes já são feitas no exterior mas uma parte substancial do preço final é para pagar o trabalho intelectual de desenvolver soluções técnicas e a marca que apenas a Alemanha sabe fazer bem.
Estas pequenas redes isoladas têm um mercado potencial colossal no Médio Oriente, África e Índia.
Para povoações de 5000 habitantes pobres (consumo de 0.1 kw/habitante) será de investigar soluções técnicas com uma potencia média de 500kw e baterias de NA-S (uma quinta solar com 6000m2 de painéis e 30000m2 de área total).
Desenvolver a tecnologia das baterias electroquimicas: Para compatibilizar a produção com o consumo, as quintas solares têm que estar associadas a baterias electroquimicas. As que mostram melhor potencial em termos de custos são as baterias Sódio-Enxofre. É preciso criar grupos de investigação nesta tecnologia para avançar no projectos de baterias NA-S com uma energia na ordem dos 10Mwh (equiparado a 17000 baterias do nosso automóvel).
Baterias deste tipo são utilizadas experimentalmente no Japão associadas a geradores eólicos (produzidas pela NGK/TEPCO).
O Sócrates também queria fazer uma fábrica de baterias para submarinos (mas do tipo da velhina bateria de chumbo que temos no nosso pópó) sem haver em Portugal uma única pessoa a investigar baterias. Era mais uma coisa a subsidiar pois, fazer disso sabem os chinocas e com salários 1/4 dos nossos.
Desenvolver a montagem dos díodos: Mais que fazer investigação no desenvolvimento dos diodos fotovoltaicos, em termos de negócio, é mais importante diminuir os custos que vão entre os diodos e o custo final de produção. Assim, um caminho será investigar suportes mais baratos (os painéis), de mais fácil manutenção (a limpeza e degradação) e na estrutura de suporte dos painéis.
Será que as empresas que aproveitaram os subsídios estão ricas?
Há pessoas que fazem o que for preciso fazer desde que isso dê dinheiro.
Foi o caso do Bruno Tesch que ficou muito contente com a encomenda do seu pesticida para ser usado nos campos de extermínio nazis. Foi executado no dia 16 de Maio de 1946.
O caso das opções energéticas do Sócrates foi igual. Era por demais evidente que Portugal não podia pagar o que o Sócrates prometia mas não quiseram saber.
O povo também estava anestesiado porque confiou na conversa do Sócrates.
Não porque agora ninguém quer pagar.
Chamam-lhe as rendas excessivas quando, de facto, são tecnologias de custos elevados.
Mas quem pensava que se ia aproveitar das loucuras do Sócrates acabou por ser também uma das suas vítimas.
Foi anunciada esta semana a falência do projecto do Roquete onde se soube que a CGD meteu 16 milhões de euros em nada (e outro tanto ao BPI) e muitos mais irão apresentar falência.
Finalmente.
O blog ficou só para mim.
Não foi por nenhuma razão especial.
Nos últimos 7 meses, o meu amigo Pedro Araújo só teve tempo para escrever 4 posts e achou por bem desistir do projecto que lançou em finais de 2010.
Isto dos blogs é bom para funcionários públicos de nomeação definitiva.
Uma jovem entra numa esquadra.
- Sr. polícia acabei de ser violada.
- A menina é capaz de descrever o violador?
- Não vi nada porque estava muito escuro e eu fechei os olhos.
- Só sei que era funcionário público.
- Funcionário público? Se nem sabe se era preto ou branco como sabe que era funcionário público?
- É que, sr. guarda, eu é que tive que fazer o servicinho todo.
Pedro Cosme Costa Vieira
segunda-feira, agosto 13, 2012
























