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segunda-feira, 4 de agosto de 2014

A reestruturação do BES

O problema do BES foi a desconfiança.
A situação contabilistica do BES não é desesperante.
Olhando para o Relatório e Contas do 1T2014 do BES, em 31 de Março 2014 o banco tinha 7017 milhões € de Capital próprio e 82817 milhões € de  activo bancário:

     ATIVIDADE (milhões de euros)
     Ativo                                => 82817M€
     Crédito a Clientes (bruto) => 51001M€
     Depósitos de Clientes       =>36242M€
     Capital Próprio                 =>  7017M€
Relatório e Contas do Grupo Banco Espitito Santo referente ao 1.º trimestre 2014, p. 6


Se dividirmos o capital próprio pelo activo, temos um rácio de CP/Activo de 8,5%.

Depois, veio o 2.º trimestre.
O prejuízo descoberto no 2.º trimestre foram de 3577 milhões €.
Temos que acreditar que o Vítor Bento fez o trabalho de forma totalmente correcta. A não ser verdade então este homem não faz diferença relativamente ao Salgado. 
Nessa situação, o capital próprio de BES está reduzido para

     7017 - 3577 = 3440 milhões €

Se o capital próprio é de 3440 milhões €, o BES tem um rácio CP/Activo de 4,2% que é metade do exigido, >8%, mas que ainda está bastante positivo (nos meus cálculos não pondero o capital pelo risco porque não tenho acesso a esses dados). 

De onde virá a desconfiança?
De haver uma teia de créditos entre empresas do grupo e que não é transparente. 

Até podem ser gajas boas mas não tenho muita confianças

O que vai ser feito agora?
Se houvesse um aumento de capital de 4900M€ proporcional ao capital contabilistico (3440M€), os actuais accionistas ficariam com 41% do banco capitalizado. Se o aumento de capital fosse proporcional à capitalização bolsista (670M€), os actuais accionistas ficariam com 12% do banco capitalizado.
Como não havia possibilidade de acordo, foi decidido separar a parte em que o capital foi aumentado, do resto do banco.  
Por um lado, alguém entra com 4900M€ para criar o "Novo Banco" que compra os activos do BES sobre a qual não existem problemas de avaliação (na ordem dos 50000) e os passivos (depósitos e obrigações do banco). Esta compra será avaliada ao valor nominal.
Por outro lado, fica o BES com os activos de maior risco e sobre os quais não há acordo sobre a avaliação. Em princípio vão ficar no BES os activo do GrupoBES na ordem dos 30 mil€ e passivos sem garantias (capital próprio o obrigações subordinadas). 
Os que eram proprietários do BES até ontem, continuarão proprietários do "novo" BES que ficará esvaziado do negócio de banca comercial.  

Será que o Novo Banco vai dar prejuizo?
Se for gerido de forma eficiente, será um banco viável.
O problema do BES tem sido as perdas associadas ao financiamento das emrpesas do grupo e não ao negócio bancário. Por isso, enquanto existir, será um banco como outro qualquer.

Será que o banco "Novo BES" irá falir?
Se falir é porque o Vítor Bento falhou na avaliação dos prejuízos. 
Agora, se a sua avaliação foi bem feita, se em Angola as coisas correrem menos mal, o capital contabilistico de 3440M€ ainda vai permitir que o BES funcione de forma razoável como SGPS ou mesmo como banco de investimento.
Em termos contabilisticos, cada acção deste "Novo BES" vale 0,65€ e a última transacção do BES foi a 0,12€.
Terá sido apenas pânico ou o Vítor Bento, afinal, fez mal as contas?
Só o futuro permitirá clarificar este ponto.

Casei com uma mulher de burka que me parecia com boas proporções e, no final, saiu-me esta

Em Portugal não há produto bancário para tantos bancos.
Não há depósitos nem há créditos estando o nossos sistema bancário sobredimensionado.
Cada terriola tem 5 ou 6 balcões quando só precisa, no máximo, de 2. 
Por isso, os bancos têm que reduzir o número de colaboradores e de balcões. 
Prevejo que os activos do Novo Banco vão ser distribuidos pelo sistema bancário e, depois, será encerrado.
Serão uns milhares de trabalhadores que vão para o desemprego mas é algo inevitável. 
Se os 2000 do BPN tivessem sido despedidos, não teria sido táo grande o prejuizo e, talvez, agora não fosse necessário liquidar o BES de forma tão urgente.

Pedro Cosme Costa Vieira

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

A mentira de que o nosso calçado está cada vez mais competitivo

É uma coisa incrível como avançam com mentiras e ninguém se dá ao trabalho de as refutar.
Uma das recentes grandes mentiras é que as exportações do calçado português têm aumentado exponencialmente sendo um produto conceituado e dos mais caros do Mundo.
Pensei eu que havendo tantos economistas em Portugal (só no Banco de Portugal há mais de 400 a receber salários elevados), alguém deveria dizer que esta notícia não tem qualquer correspondencia com a realidade.
Ainda esperei uns dias porque sou malandro e também quero dar a vez ao meus detractores de avançarem com alguma coisa.
Não apareceu nada pelo que eu tive que iniciar a minha investigação.

Fig. 1 - Compre sapatos portugueses. Mas, se quiser experimentar o conforto, vai-lhe ficar caro.


Primeiro fui ao INE ver as exportações a preços correntes.
Os preços correntes incluem a subida dos preços (a inflação) pelo que seria de esperar, dado o anunciado na TV, um aumento exponencial das exportações de calçado.
Para meu grande espanto, nos primeiros 7 meses de 2000 exportamos uma média de 144.0 milhões € / mês de calçado enquanto que em 2012 estamos a exportar uma média de 137 milhões €/mês (ver, Fig. 2).
Em 2000-2012 houve uma redução nominal de 4.8%

Fig. 2 Exportações de calçado português, preços correntes (dados: INE, grafismo do autor)


Há o consolo de estarmos a melhorar relativamente a 2010
Depois do máximo de 2002 (147M€/mês), a situação foi-se degradando até que em 2006/2010 atingiu uma média de 110M€/mês.
Pronto, aceito que daí para cá as exportações de calçado aumentaram em termos nominais 25% mas é pouco para dizer que é um grande sucesso.
Então como vamos classificar o ano de 2002?
É como aquele que apanha um murro que lhe parte o nariz e fica todo contente porque não lhe partiram os óculos.

Depois, fui ver o valor a preços constantes.
Os preços constantes, ou reais, retiram o efeito do inflação. Pequei no índice de preços no consumidor -IPC calculado pelo INE e passei os preços correntes a preços constantes de 2000.
Agora, de um máximo atingido em 2000 de 138.5M€/mês, fomos reduzindo até o mínimo de 2010 de 87.8M€/mês. Em 2011 houve uma pequena recuperação, 16%, mas agora está estacionário nos 101.6M€/mês (a preços de 2000).
Depois de cair 36.7% entre 2002 e 2010, há uma recuperação de 16% e já é um grande sucesso à escala mundial (ver Fig. 3).
Entre 2002 e 2012, m termos reais, as exportações CAÍRAM de 26.7%.

Fig. 3 - Exportações de calçado português, preços reais (dados: INE, grafismo do autor)


Agora só falta ver o emprego.
Como os salários não diminuiram em termos reais e muito menos em termos correntes, se não se exporta mais em valor, ou o emprego desceu no sector ou virou-se para o mercado interno.

Fig. 4 - Entre 2000 e 2012, o emprego no Couro diminuiu 6% (dados: INE, grafismo do autor)

Agora ver quanto se exporta, em termos reais e por trabalhador.
Parece estranhíssimo atendendo ao fuguetório que um trabalhador do sector do calçado que exportou  valor de 100€, actualmente apenas exporta 73€ (em termos reais).
Houve uma pequena melhoria entre  tendência de 2006/2010)  mas não chegou a nada (ver Fig. 5).

Entre 2000 e 2012, a exportação por trabalhador do calçado português reduziu 25%.
A nossa industria de calçado perdeu capacidade de exportação pelo que se virou para o mercado interno.
  
Fig. 5 - Entre 2002 e 2012, as exportações por trabalhador diminuíram 25% (dados: INE, grafismo do autor)


Mas o que aconteceu de tão especial em 2002?
Já quase ninguém se lembra, mas foi aí que começou a crise que estamos a sentir agora com toda a força (ver, fig 6).

Fig. 6 - Evolução do desemprego em Portugal (dados: INE, grafismo do autor)

Não conseguimos digerir (em câmbios fixos) a  crise de 2002 e foram-se acumulando desequilíbrios. Depois, somou-se a crise do subprime de 2008 e veio tudo rebentar em 2010.
O acumular destes desequilíbrios é a prova provada da nossa incapacidade cultural de ajustar a nossa economia em câmbios fixos relativamente aos nossos principais parceiros comerciais.
E isto porque viver em câmbios fixos obriga a ajustar os custos nominais do trabalho (por exemplo, a tal transferência da TSU para o trabalhador, o fim do Contrato Colectivo de Trabalho ou o aumento do horário de trabalho) e não temos povo nem políticos para isso.

Por isso tudo, agora é na hora certa para abandonar o Euro.
Agora é o tempo certo porque já não estamos numa situação de emergência, os alemães estão com boa impressão do nosso ministro Gaspar pelo que o processo pode ser tranquilo.
Só voltando a ter moeda é que nos conseguiremos governar porque o câmbio não perdoa asneiras, actuando imediatamente para corrigir os desequilíbrios.

Concluindo.
O nosso serviço público dos media está cheia de má qualidade informativa.
Não basta meter milhões na RTP, a LUSA e demais entidades publicas que têm muito pessoal mas que devem ter sido escolhidos mais pela boa aparencia física que pela qualidade técnica.
Acredito que essa falta de capacidade de analisar de forma critica a informação é um misto de incompetência e de falta de zelo.
Quanto aos pensadores e comentadores da praça, não fazem o trabalho de casa. Dizem que leêm muitos livros mas apenas sabem repetir o que já se ouviu em algum lado.
Nota final: umas alunas minhas da AIESEC vão fazer um evento qualquer e pediram-me se eu lhes fazia um pouco de publicidade.
Pensando eu na sua formação em Marketing Criativo, lancei-lhes o desafio de fazerem um anúncio pelo menos tão bom como o meu anúncio ao calçado português (da Fig. 1). Nesse caso,disse que o publicava com todo o gosto.
Penso que estão (estamos) todos à espera de ver a competencia das moças em termos do tal Marketing Criativo.

Fig. 7 - Vendemos burkas para todas a ocasiões.

Pedro Cosme Costa Vieira

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A União Europeia também vai acabar, brevemente

A formação de alianças é uma resposta à adversidade do meio ambiente.
Aqueles programas de animais que dá nas TVs às 12h de Domingo são uma aula prática sobre a dinâmica que levou à criação da União Europeia e que justifica a sua existência.
Vemos nesses programas que, quando num território existem leões, os búfalos juntam-se em grandes grupos com os machos do lado de fora protegendo, com uma muralha de cornos afiados, as fêmeas e crias.
Em resposta ao ambiente hostil, os machos abdicam dos seus interesses individuais (comer e ter as fêmeas só para si) e cooperam na defesa da própria vida e da manada.
Quando não existem leões, os búfalos espalham-se pela pradaria e os machos concentram-se nos seus interesses individuais lutando todo tempo com os seus iguais para os atingir.

Porque será que se formam grupos?
Porque o perímetro da circunferência aumenta linearmente enquanto que a área do circulo aumenta ao quadrado. Então, 15 machos formando uma muralha exterior de cornos protegem uma área onde cabem 15 fêmeas (1 fêmea para cada macho) enquanto que 30 machos protegem uma área onde cabem 60 fêmeas (4 fêmeas para cada macho).
Se, em condições adversas, um macho fica sozinho, é imediatamente submetido pelos leões.
A defesa à adversidade externa é a força que mantém unido o grupo.

Porque se desfazem os grupos?
Pertencer a um grupo também tem um lado negativo pois os indivíduos mais fortes, que poderiam derrotar todos os seus irmãos, têm que partilhar com os mais fracos a erva e as fêmeas.
Então, existe também uma força de repulsão que faz os individuos querer ser independente: a não partilha dos recursos escassos.
É por esta última razão, a partilha do petróleo, que o Kuwait nunca se quis unir ao Iraque.

Fig. 1 - A CEE, no contexto da Guerra Fria, construiu uma muralha de cornos 

Como construímos as nossas amizades de infância? 
Havia um matulão que queria bater em toda a gente e nós, os fracotes, formávamos um grupo que, pelo número, se tornava mais forte que o matulão individualmente. 
As amizades da guerra são das mais fortes que existem porque os soldados, em presença de um ambiente extremamente hostil, têm que formar grupos coesos e desenvolver uma confiança cega nos camaradas.
Por essa razão é que, na Gestão, nos programas de "Team Building" os indivíduos são colocados em ambientes onde se sintam desconfortáveis.

O tamanho e coesão do grupo é um equilíbrio entre as forças de repulsão e de atracção.
Quando a ameaça externa aumenta, a força de atracção sobrepõe-se à força de repulsão tornando o grupo maior e mais coesa. Quando a ameaça externa diminui, a força de repulsão torna-se dominante e o grupo diminui de dimensão e de intensidade.

Onde esta conversa explica a existência da União Europeia?
Quando a CEE - Comunidade Económica Europeia foi fundada em 1957, vivia-se na Guerra Fria e os países eram muito fechados.
Era muito pequeno o comércio de bens e serviços (as taxas alfandegarias eram muito elevadas).
Não havia mobilidade de pessoas. Os mais velhos recordam que era quase impossível obter um passaporte; que para se ir comprar uns caramelos a Espanha era preciso Visto e éramos revistados à saída e à entrada;  que era impossível ir trabalhar para um país estrangeiro.
A situação mais grave foi a construção da "Cortina de Ferro" para evitar que as pessoas saíssem da Europa de Leste.

Fig. 2 - No pós-WWII, a Europa Ocidental ficou cercada pela ameaça soviética a Leste e a islâmica a Sul

Mas essa fase foi, lentamente ultrapassada tendo a ameaça soviética acabado em 1991 com a queda do muro de Berlim e o comércio internacional no Mundo foi crescendo a uma cadencia constante. De 12% do PIB em 1960, o comercio internacional aumentou até os actuais 27% do PIB (ver, Fig. 3).

Fig. 3 - O comércio internacional tem aumentado 0.32 pp por ano
(dados: Banco Mundial, grafismo do autor)

O comércio internacional é muito importante
Porque permite que os países se especializem nas actividades em que têm vantagens comparativas. Por exemplo, em Portugal importamos algodão que usamos na tecelagem de lençóis que exportamos com lucro. Como o nosso clima não permite cultivar algodão, se não houvesse comércio internacional não poderíamos produzir e exportar têxteis e vestuário.

O comércio internacional da União Europeia tem aumentado mas ...
Mas esse aumento está paralelo com a média mundial. Assim, não resulta directamente do processo de integração europeia mas antes de cada vez mais países tomarem consciência de que a abertura das economias, as exportações e as importações e a movimentação de capitais, pessoas e ideias, é um factor muito importante do seu desenvolvimento.
Essa tomada de consciência levou a que, de um mínimo de 13 países em 1949 e apenas 26 em 1961 (no GATT), actualmente já façam parte da OMC - Organização Mundial do Comércio 156 países.
Actualmente, até Cuba e o Zimbabwé acham vantajoso pertencer à OMC.
O crescimento do comércio internacional que se observou no interior da União Europeia (de 20% do PIB em 1960 para os actuais 40% do PIB) está em paralelo com o que se tem observado na média do Mundo (ver, Fig. 4).
Fig. 4 - O comércio internacional nos países da UE e no Mundo (dados: Banco Mundial, grafismo do autor)

E até houve zonas do Mundo, fora da UE, onde o crescimento do comercio internacional foi muito superior. Por exemplo, a China e a Índia aumentaram o comércio internacional de cerca de 3.5% do PIB em 1970 para cerca de 30% do PIB actualmente (+ 0.6 pp/ano).
Por contrário, o Brasil mantém-se uma economia muito fechada tendo apenas subido de 7% do PIB (nos anos 1960) para os actuais 12% do PIB.

Como as ameaças acabaram, vêm ao de cima as forças que afastam os países
A principal força que empurra a UE para a dissolução é as pessoas do Sul da Europa acharem-se com direito a ter o mesmo nível de vida económico das pessoas do Norte da Europa e os do Norte da Europa não estarem disponíveis a transferir parte do seu rendimento para que essa ideia se materialize.
Quando havia a ameaça soviética, a Alemanha via essas transferencias como o "preço da paz". Agora que a Rússia se tornou um país quase normal, acabou a necessidade de pagar por uma coisa que está naturalmente garantida.
Os países do Norte da Europa não estão mais disponíveis para ajudar ao sustento dos do Sul pois têm o guarda chuva da Organização Mundial do Comercio, a ameaça da União Soviética acabou e a ameaça islâmica não se está a mostrar perigosa (e afecta mais os países do Sul que lhe estão mais próximos).

A tese de termos direito ao mesmo que os alemães é perigosíssima porque parece justa.
Porque diabo não podem os portugueses ter o mesmo rendimento que os alemães se somos todos feitos de carne e osso e até trabalhamos mais horas?
Vejamos com uma comparação como esta tese é perigosa.
Imagine que os habitantes da Quinta do Mocho (um bairro de Sacavém, Lisboa onde a generalidade das pessoas é pobre, tipo favelados do Brasil), se achavam com o direito de viver tão bem como os do Restelo (bairro fino de Lisboa) tendo as mesmas casas, os mesmos carros, passar férias nos mesmos sítios, etc.
Como é que isto se iria fazer?
Só se fosse com um generoso subsídio para a maioria das pessoas que vive no mocho pago com um pesado imposto sobre as que vivem no Restelo.
Caso contrário, os do Mocho dariam cabo do Restelo.

Fig. 5 - Moleque de favela já nasce com cara de marginal.

Agora vemos que o argumento da igualdade Norte-Sul não tem lógica.
À escala da Europa passa-se o mesmo não sendo possível acabar com as diferenças que existem entre o Norte e o Sul.
Viver na Europa do Sul tem vantagens (clima, vida relaxada) e inconvenientes (menor produtividade) não sendo possível manter as vantagens e exigir a anulação dos inconvenientes.
Por contrapartida, os Alemães quereriam o clima e o relaxe do Sul da Europa.
Isso só aconteceria se os alemães fossem viver para o Sul e todos fossem trabalhar para a Alemanha.
Isso não é fisicamente possível.

Mas subsistem algumas ameaças.
Como já não podemos justificar a existência da Zona Euro (e, em última análise, da UE) e as consequentes transferências de recursos do Norte para o Sul com as vantágens internas e ameaças externas, queremos justificar a sua existência com as ameaças internas, com o cataclismo do seu fim.
Todos rezamos para que a dissolução da Zona Euro e da União Europeia cause um prejuízo terrível principalmente à Alemanha e demais países do Norte.
É quase como os suicidas que procuram, com a sua explosão, causar no inimigo mais do que um morto.
Se ouvirmos o discurso dos esquerdistas, vai ser terrível porque a Alemanha não terá para onde exportar os seus Mercedes.

Mas isso é tudo mentira
Uma União Europeia em que cada país mantem as suas contas equilibradas é um factor de progresso da Alemanha mas tem que ser pesado o custo que a UE tem ao contribuente alemão e o benefício comercial que daí retira.
Neste momento, os custos estão maiores que os benefícios.

Fig. 6 - Amor, fiz 5 operações plásticas para ficar mais elegante. Acreditas?

Nós não só importamos da Alemanha como também exportamos para lá.
Portugal exporta 500 milhões de euros de bens para a Alemanha onde os automóveis têm um peso de 30%.
E será mais difícil para os países do Sul da Europa competir no mercado mundial que à Alemanha.


Fig. 7 - Importações e Exportações para a Alemanha (dados: INE, grafismo do autor)


Fig. 8 - Por cada euro que importamos da alemanha, exportamos 0.90€ (dados: INE, grafismo do autor)


Acabado ou reduzido o projecto União Europeia, continuaremos todos sob o guarda-chuva da OMC.
E manter-se-ão os acórdos multilaterais enquanto forem do interesse mútuo dos países onde se inclui, por exemplo, o FMI e a Interpol.
Estando a aumentar as forças de divisão (o custo de manutenção) e a diminuir as forças de união (os ganhos do comercio e as ameaças externas), é de prever que a UE vá diminuindo de intensidade transformando-se, a média prazo, em algo parecido com o MERCOSUR, depois a uma associação do tipo dos PALOPs e, finalmente, à nossa "mais velha associação do mundo" com a Inglaterra (transforma-se em nada).

Fig. final - Do quarto do hotel onde estou de férias vê-se Manhattan. Vamos amor, cansar.


Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 13 de julho de 2012

A exportações não estão a aumentar como diz o governo

As exportações, diz o Governo, aumentam a grande velocidade
mas, de facto, estão apenas a retornar ao valor de 2008.
Se olharmos para a série de longo-prazo das exportações vemos que, antes de entrarmos na Zona Euro (de termos passado para o regime de câmbios fixos relativamente à maioria dos nossos mercados de exportação), as exportações cresciam 7.0%/ano e, desde então, a sua taxa de crescimento ficou reduzida a 1.4%/ano (ver, Fig. 1).
O facto de o PIB (ver, Fig. 2) e as exportações (ver, Fig. 1) terem passado a crescer apenas de forma anémica e o desemprego ter aumentado continuamente (ver, Fig. 3), ilustra que a nossa economia não consegue lidar com os câmbios fixos.
O Euro, ao fixar o câmbio da nossa moeda relativamente aos nossos principais parceiros comerciais, tornou-se uma camisa de forças que os nossos governantes e cidadãos não conseguem desatar.

Como não nos sabemos governar em Câmbios Fixos, temos que retornar ao Escudo.
Assim, a crise que vivemos começa há 10 anos atrás quando a nossa economia não conseguiu digerir a crise de 2003, o que se foi propagando no tempo e resultou numa marretada fatal quando a Europa foi atingida, em 2009, por uma nova crise, a do Subprime.

Fig. 1 -Evolução das exportações portuguesas, preços constante, 1993-2012
(dados: INE, grafismo meu)

Fig. 2 -Evolução do PIB português, 1996-2012
(dados: INE, grafismo meu)

Fig. 3 -Evolução da taxa de desemprego portuguesa, 1993-2012
(dados: INE e Banco Mundial, grafismo meu)

O Ajustamento
Dizer que a economia portuguesa já ajustou (leia-se: os salários já reduziram o suficiente) porque as exportações estão a crescer mais de 10%/ano é TOTALMENTE EXAGERADO pois é apenas o fenómeno de curto prazo de reposição dos valores anteriores à crise do Subprime (rever, Fig. 1).
Em 2009 houve uma quebra de 20% nas exportações que, entretanto, tem sido anulada pela convergência com à tendência de longo-prazo.

Mas o Défice Comercial tem reduzido.
Sim, o DC está a reduzir desde 2008. Desta forma, não é algo que resulte da politica (de austeridade) do actual governo mas é uma tendência que começa com a Crise do Subprime (ainda no tempo do Sócrates).
A subida da taxa de juro que se iniciou em 2008 (que quantifica a dificuldade de acesso ao crédito externo) é a força que faz corrigir a balança comercial pela impossibilidade de comprarmos produtos importados a crédito (rever, Porque é que a taxa de juro equilibra a economia, 2011). 

Fig. 4 -Evolução do défice comercial português, preços constante, 1993-2012
(dados: INE, cálculo do autor, grafismo meu)

A correcção acontece à custa das importações.
Como, relativamente a 2008, as exportações só aumentaram 0.2MM€/mês então, o Défice Comercial reduziu de 2.00MM€/mês para 0.8MM€/mês principalmente à custa de uma redução das importações em 1.0MM€/mês (de 5.0MM€/mês para 4.0MM€/mês).

Fig. 5 -Evolução do défice comercial português, preços constante, 1993-2012
(dados: INE, cálculo meu, grafismo meu)

Por cada 100€ de correcção da balança comercial relativamente a 2008 (o ano pré-crise),  83.5€ resultam de uma diminuição nas importações e apenas 16.5€ resultam de um aumento nas exportações.

É o problema da dinâmica da economia.
A economia tem uma dinâmica própria que é independente daquilo que as pessoas ou os governos querem ou anunciam.
Dizem os comunas que "Portugal alienou a soberania económica" mas essa nunca existiu.
Existem as forças de mercado a que nos temos de sujeitar ou passar para uma economia do tipo da Coreia do Norte em que o Estado decide tudo. Mas nesse país as pessoas têm toda a soberania para passar fome,  frio, andar a pé e morrerem como puderem.
Alguém ter a liberdade de decidir que o seu ordenado vão ser 20000€/mês é a mesma coisa que decidir que nunca terá um emprego.

Fig. 6 - Eu ter decidido, usando da minha soberania, que quero esta para minha amante, estou a decidir que nunca terei uma amante. Não me falta soberania de decisão mas falta-me o cacau do Ronaldo.
(fonte: uns país cuidadosos)

O governo pode decretar que "o preço da gasolina passa a ser 0.10€/l" mas, depois, onde a vão as pessoas que actualmente vendem gasolina buscar o produto a esse preço?
Vamos, com os nossos submarinos, invadir o Irão?
Será que o Chaves Comuna da Venezuela nos vai vender gasolina a 0.10€/l para mantermos a nossa soberania económica?
O hipotético governo do Louçã também pode vir a decidir contratar mais 50000 professores e 25000 médicos e enfermeiros. E pode-os contratar mas o ordenado terá que ir para calote porque não há dinheiro.

Diz o do sindicato dos médicos para o ministro da saúde
     - Os médicos exigem um mínimo de 35€/hora porque menos é uma indignidade.
Diz o sr. ministro.
     -O governo está disponível a pagar 100€/hora mas os médicos portugueses têm que fazer o que fazem os seus colegas da "nossa" Guiné.
     - Claro que sim. Mas o que é que eles fazem que nós não saibamos fazer?
     -No fim do mês, o ordenado vai para calote e prometemos em nome do Estado Português e respeitando a Constituição que, quando for possível, irão receber esses ordenados com a taxa de juro paga pelo Tesouro Alemão porque somos tão sérios como eles.
     - E quando será isso?
- O ano 1386 foi o ano subsequente a 1385 logo, o ano 2150 será o subsequente a 2149.

Se os comunas e broquistas dizem que o Estado deve pregar o calote a torto e a direito, isso aplica-se a todos, inclusive aos seus salários e subvenções. Tal qual se faz na "nossa" Guiné onde a Troika não entra.

Fig. 7 - São 35€/hora / Dou-te 100€/h se fizeres o a Lizete faz: vai para calote.
(fonte: General Motors)


Com as importações passa-se o mesmo que com as "meninas da vida".
Se não há dinheiro, não há brincadeira.
O Passos Coelho não decretou que as pessoas estavam proibidas de importar. O problema é que, não havendo crédito nem dinheiro para pagar as importações, estas acabam.
O único crédito que existe é o previsto no Memorando de Entendimento e na "cedência de liquidez" do BCE aos bancos portugueses.
Se amanhã entrarem 100€ líquidos por um destes dois mecanismos então, será possível manter um défice comercial de exactamente 100€. Caso contrario, o défice comercial anula-se automaticamente.
Por cada 1€ a menos, serão menos 0.83€ de importações (e mais 0.17€ de exportações).

O Governo está muito pessimista.
O Passos Coelho dizer (com base numa alegada previsão do INE) que vamos atingir o equilíbrio da balança comercial em 2013, é exageradamente pessimista porque indica que o nosso governo antecipa que o crédito externo vai piorar.
O Governo está a imaginar que,  em 2013, uma vez acabado o plano de ajuda da Troika, o dinheiro vai secar deixando de ser possível manter o actual nível de importações.
Se as exportações mantiverem a tendência de longo-prazo, as importações precisam reduzir anda mais 600M€/mês para a balança corrente equilibrar.

Será grave diminuir as importações?
Depende muito do que deixamos de importar.
Vamos ver o que o INE diz sobre as nossas importações e como evoluiu o processo de ajustamento.
Se pegarmos nos dados sobre as importações, em cada 100€ importados e a variação foram

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                   Classe de bens                                      Peso         Variação (2008/2012)     
     Alimentos e bens industriais relacionados       ->  14.5€                 -  4%
     Produtos químicos                                         ->  13.5€                +  4%
     Petróleo e coisas relacionadas com energia    ->  13.5€                + 28%
     Maquinas, computadores, electrodomésticos ->  17.0€                 - 40%
     Automóveis e demais veículos                       ->  12.0€                 - 43%
     Aço e produtos metalúrgicos                         ->   6.0€                  - 35%
                        Remanescente                            ->  23.5€
---------------------------------------------------------------------------------------
     Quadro 1 - Principais rubricas das importações e sua variação 2008/12 (dados: INE, cálculo meu)

O problema da consolidação pela redução das importações
É negativo, extraordinariamente negativo, porque as rubricas que aumentam são a energia e as que reduzem são bens de investimento.
Apesar de o Sócrates nos ter obrigado a "investir" milhares de milhões de euros em eólicas (que agora nos custam centenas de milhões de euros por ano de juros que temos que pagar na conta de electricidade), a importação de energia aumentou 28%.
A importação de máquinas, equipamentos, computadores, material eléctrico e material circulante reduziu em 40% o que indica que o ajustamento da balança comercial acontece pela quebra abrupta do investimento (os televisores, frigoríficos e automóveis adquiridos pelas famílias, por serem bens duráveis, seriam investimento das famílias).

Esta dinâmica de consolidação já se verificou em 2002 (rever, Fig. 5) e traduziu-se pela diminuição da tendência de crescimento do PIB de cerca de + 4%/ano para + 1%/ano (rever, Fig. 2).
A consolidação actual traduz-se numa nova diminuição na taxa de crescimento do PIB potencial de cerca de + 1%/ano para - 1%/ano.

Criticar é fácil mas o que pode fazer o Governo?
Tem que actuar com mais força e convicção.
Não é dizer, decorrido mais de um ano, que as condições de privatização dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo estão definidas e que será para manter os postos de trabalho.
Então, temos que lá meter no dia da privatização 250 milhões de € e pagar os ordenados aos 700 que lá estão ao alto até se reformarem.
Tal e qual o que fizeram no BPN: pagar para privatizar.

Uma senhora, anteriormente com 120 kg, foi-se queixar ao nutricionista
- Sr. Doutor, no nosso memorando de entendimento, acordamos que eu, para voltar a ter 60kg, teria que fazer 30 minutos de exercício violento por dia e reduzir a comida em 25%.
- Decorrido 1 ano, estou com 100kg. Não valeu a pena.
- Vou passar a comer mais e cortar no exercício pois é assim que vou emagrecer.
Diz o médico:
- Minha Sr.a, não pense nisso pois vamos no bom caminho.
- 100kg é muito melhor que 120 kg mas ainda não é suficiente.
- Agora tem que passar o exercício para 60 minutos por dia e cortar a alimentação em mais 25%.

1. Descer os custos do trabalho
   A) Aumentar o horário de trabalho das 40h/semana para as 45h/semana
   B) Cortar os subsídios de férias e de natal nos trabalhadores do privado com um imposto
   C) Usar o valor obtido pela medida B) para
                C.1) Reduzir a TSU do empregador.
                C.2) Reduzir significativamente ou acabar com o IRS sobre os juros.
                C.3) Reduzir significativamente ou acabar com as mais valias dos investimentos.
                C.4) Reduzir significativamente ou acabar com o IRC.
                C.5) Manter o RSI, o rendimento mínimo, activo.

2. Permitir que as empresas desçam os salários
Alterar a legislação do trabalho de forma a permitir que as empresas desçam o salário de um trabalhador até 70% do salário base "acordado" no Contrato Colectivo de Trabalho.

Parecem medidas duras?
Então esperem pelo "não fazer nada" a que o Guterres e o Sócrates nos habituaram no período 1995/2011.
Os trabalhadores podem pensar que aguentam o seu salário e que o "capitalista" é que tem que pagar a crise. Mas o "produto potencial" vai continuar a contrair 1%/ano pelo que vamos empobrecendo.
Em 2001 estávamos no pântano (disse-o o Guterres)
Em 2002 estávamos de tanga (disse- o Durão Barroso)
Em 2011 estávamos numa situação muito difícil (disse-o o Teixeira dos Santos)
Em 2012 estamos em risco (disse-o o Gaspar)
Em 2020 estamos f... (digo-o eu, mas quem sou eu).

Querem que eu fale do Relvas?
Está como estaremos em 2020.
Não se safa.

Finalmente, as minas de Moncorvo
No tempo do Salazar também se faziam investimentos loucos.
Um deles foi tudo o que está relacionado com as Minas de Moncorvo:
A) a navegabilidade do Douro tinha por fim o transporte do minério de Moncorvo e foi um colosso financeiro que não teve qualquer aplicação digna. Bem, agora passam lá um cruzeiros mas o investimento foi colossal.
B) A siderurgia de Sines que não chegou a trabalhar também tinha por fim esse minério.
No entanto, o minério não presta nem nunca prestou.
"Parecia não haver preocupação quanto às características do minério. O seu baixo teor de ferro e o elevado teor de fósforo, que o tornavam de difícil comercialização nos mercados internacionais e impunham onerosos tratamentos para utilização na Siderurgias Nacional não estavam na primeira linha das preocupações."
Rocha Gomes, 1979, 67 – O jazigo de ferro de Moncorvo ,  (fomos colegas em 1989/1992 como responsáveis pela leccionação da disciplina de Prospecção Mineira, eu na FEUP e ele na FCUP).

De facto, não presta porque tem muito fósforo, o teor em ferro é baixo e o transporte é caro.
O fósforo é muito difícil de retirar do minério e, tornando o aço quebradiço, retira-lhe o valor.
Então, o minério de Moncorvo, apesar de existir em grande quantidade, não tem valor económico.
Parece-me que o Governo vai enterrar mais uns milhões num projecto ruinoso.

Amigo Paulo Portas: não interessam projectos que criem emprego mas apenas projectos que criem riqueza.
Quem acredita que mais emprego é mais riqueza (mesmo que sejam uns a abrir covas e outros a tapá-las) são os comunas e não os fulanos da direita como tu dizes ser.
AAAHHHAAAAA  o Miguel reencarnou em ti e ainda ninguém deu conta.


Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A EDP e os chinocas

A valores de mercado, os 21.35% da EDP que os chinocas nos compraram valem 1930M€ (2.39€/acção) e os chinocas pagaram 2690M€ (3.40€/acção). Com este diferencial de preço (+40%), o Passos não podia fazer nada mais que não fosse vender a EDP aos chinocas.
Além do mais este negócio já tinha sido assinado em Dezembro de 2010 na viagem que o Ministro das Finanças Teixeira dos Santos fez à China (fonte: anónima).

Vou agora identificar as oportunidades e ameaças deste negócio.

O Comércio Internacional.
Actualmente nenhum país pode viver isolado. Portugal precisa obrigatoriamente de importar energia (petróleo, gás natural e carvão), alimentos (cereais e rações para animais), matérias-primas (peles, algodão, tecidos, aços especiais, fosfato e minerais diversos) e máquinas & ferramentas sofisticadas.
Depois, temos que produzir alguma coisa para exportar de forma a poder pagar estas importações.
Nos últimos anos uma fatia muito grande das nossas importações (cerca de 20%, 17MM€/ano) fica para calote.
O dinheirinho da EDP vai dar para 2 mesinhos pelo que, pelo lado financeiro, não dá para grande coisa.

Fig. 1 - From China with love

A divisão internacional do trabalho
Ninguém nos empresta mais dinheiro.
Apesar de haver quem pense que a limitação das importações (voltar à agricultura e a andar de burro) pela imposição de  barreiras alfandegarias é a solução, no final isso levaria a uma quebra muito grande no nosso nível de vida.
O Comércio Internacional é um factor de progresso porque permite que cada pessoa (ou país) se especialize naquilo que é mais capazes de fazer.
Por exemplo, seria um erro tremendo Portugal produzir bananas ou ananazes em estufa quando nos países tropicais estes produtos se cultivam em campo aberto.
E não existem alternativas para substituir a energia e os alimentos que importamos.
É o comércio internacional que permite a viabilidade dos países pequenos, logo, permite vivermos em paz.


PaísPerc.PaísPerc.
 Espanha26,6% Brasil1,2%
 Alemanha13,0% EFTA1,1%
 França11,8% México1,1%
 Reino Unido5,5% Cabo Verde0,7%
 Angola5,2% China0,6%
 Países Baixos3,8% Moçambique0,4%
 Itália3,8% Rússia0,3%
 EUA3,6% Hong-Kong0,3%
 Bélgica2,9% Índia0,2%
Quadro 1 - Exportações portuguesas por destino, % do total, 2011 (fonte: INE)


Desde Janeiro de 2010 que ninguém nos quer emprestar dinheiro. 
Como, no curto prazo, não conseguimos equilibrar as nossas contas com o exterior e o Sócrates, o caloteiro diz que pagar as dívidas é uma brincadeira de crianças, mais ninguém nos empresta dinheiro.
Então, temos que vender os nossos activos. A brincar a brincar temos que vender tudo aos estrangeiros.
Os países governados exactamente da forma contrária ao que defende e praticou o Sócrates (que, no fim, classifica Portugal como "um país pequeno"), os que têm uma Balança Corrente positiva, são os que têm dinheiro para nos comprar os activos. Vejamos quem são:

 País BC(med)BC(2010) País BC(med)BC(2010)
 Japan9,6810,69 Sweden1,141,19
 China6,229,96 Iran0,960,96
 Germany4,677,06 Korea, Rep.0,921,32
 Saudi Arabia2,192,36 Malaysia0,901,01
 Russia1,841,17 Kuwait0,870,87
 Switzerland1,792,56 Venezuela0,780,35
 Norway1,591,45 Algeria0,710,71
 Singapore1,412,33 Libya0,550,55
 Netherlands1,321,74 Nigeria0,490,07
 Hong Kong1,140,93 Argentina0,480,22
Quadro 2 - Balança Corrente média (2000-2010) e de 2010 dos 20 países e regiões mais superavitários(fonte: Banco Mundial, mil milhões de euros por mês)

E a EDP não se iria conseguir financiar.
A EDP está estrangulada pela dívida. A prazo as empresas vão pagar a taxa de juro da República que é de 13%/ano (fonte: bloomberg)
Apesar da EDP tem em 2011 um lucro de 1200 milhões de euros sendo os custos financeiros de 1140milhões€.
Mas tem um de passivo consolidado de 29 mil milhões de Euros (Fonte: EDP).
Em 2011 os custos financeiros têm implícita uma taxa de juro de 3.93%/ano mas, se em média a taxa de juro subir para 6%/ano, a rentabilidade da EDP diminui para metade. Agora imaginemos que tinha que pagar 13%/ano: passava a ter um prejuízo de 1400M€/ano.
Já sei que muita gente diz que à EDP nunca seria exigida uma taxa de juro de 13%/ano. Mas também ouvi muita gente dizer, há um ano, que taxa de juro da dívida pública português nunca passaria os 7%/ano e já vai nos 13.5%/ano e sempre a subir.


Fig. 2 - A EDP está estrangulada pela dívida

A China mais o Japão e a Alemanha geram metade do superávite da corrente mundial.
 A China (juntamente com Macau e Hong Kong) é quem tem mais dinheiro no Mundo para investir no exterior tendo gerado em 2010 um superávite corrente de 150 mil milhões de euros.
O Japão também tem muito dinheiro mas não quer nada connosco. Tem investimentos directos muito importantes em Portugal (por exemplo, a Toyota) mas actualmente os destinos do investimento japonês são o tradicional EUA e a China.
A Alemanha tem dinheiro e mostrou vontade em adquirir a EDP. É o segundo destino mais importante das nossas exportações.
Dos restantes países com dinheiro (mas que têm bastante menos dinheiro que estes 3), mais nenhum mostra qualquer interesse por Portugal.

O objectivo da China e da Alemanha são antagónicos.
A China é tecnologicamente bastante mais atrasada que Portugal e precisa de tecnologia.
Em termos de electricidade o seu consumo total é 75 vezes o consumo português e aumenta 12%/ano o correspondente a instalar 8 redes eléctrica portuguesa cada ano. (Fonte: Banco Mundial).
A China pretende vir buscar tecnologia à Europa, via EDP. Na construção de centrais termoeléctricas, na gestão da rede, na construção de transformadores, etc.
A Alemanha é tecnologicamente mais avançada que Portugal e  pretendia exportar tecnologia. Faz aerogeradores que pretendia fornecer aos clientes da EDP por esse mundo fora.
O dinheiro vem do saldo comercial da China que tem um superávite (para a China) de 100 milhões€ por mês (fonte: INE). A minha fonte anónima referiu que no acordo (secreto) assinado em Dezembro 2010, a China comprometeu-se a investir o seu saldo comercial em Portugal. Assim, os 2700M€ resultam do défice comercial acumulado entre Janeiro de 2010 e Dezembro de 2011 e não de dinheiro que a China tenha ido buscar a algum lado para investir em Portugal.
Como Portugal não tem dinheiro para pagar as importações, entrega os activos.

E o Brasil?
Era uma proposta sem interesse nenhum para Portugal.
O Brasil Está a caminho da falência. Tem um défice corrente médio no período 2000-2010 de 388 milhões€ por mês e, em 2010, um défice de 1250 milhões€ por mês (fonte: Banco Mundial).
A proposta de compra da EDP pelo Brasil era uma vaidade pois, para realizar a operação, teriam que pedir o dinheiro emprestado à China.
Isso não fazia qualquer sentido.
Amigo, amigos, negócios à parte.

E
Seriam sempre os chinocas a ganhar porque o negócio já tinha sido fechado em Dezembro 2010. Era só uma questão de preço.


As ameaças - A EDP servir objectivos políticos
Olhando para a estrutura accionista da EDP (ver quadro 3), se os chinocas entrassem no mercado com "empresas de fachada" atingiriam rapidamente os 40% do capital da EDP abaixo do preço que pagaram.
Atendendo a que o acordo está assinado há bastante tempo, como os chinocas pagaram 3.40€/acção, se estivessem a comprar no mercado veríamos a cotação subido até aos 3.40€/acção (ver, fig. 3) e os volumes de negócios a aumentar (ver fig. 4).

Fig. 3 -Evolução da cotação da EDP, Jun2010-Dez2011 (fonte: Bolsa PT) 

Fig. 4 -Evolução da liquidez da EDP relativamente à média, Jun2010-Dez2011 (fonte: Bolsa PT) 

De facto a cotação da EDP não ter subido traduz que o chinocas estão a respeitar o acordado o que indica que, muito provavelmente, estão no negócio com um objectivo estritamente económico e com um comportamento totalmente ético. Só vão comprar quando forem autorizados a fazê-lo.
Acredito, temos que acreditar, que procuram uma parceria justa.


 Detentor
Percentagem
 Chinocas21,35%
 Iberdrola Energia S.A.U.6,79%
 Caja de Ahorros de Asturias5,01%
 José de Mello - SGPS4,82%
 Senfora SARL4,06%
 Parpública3,70%
 BCP + FUNDO DE PENSÕES3,37%
 Norges Bank2,76%
 Sonatrach2,23%
 Bancao Espírito Santo, S.A.2,12%
 Qatar Holding LLC2,02%
 Caixa Geral de Depósitos0,61%
 EDP (Acções próprias)0,87%
 Restantes Accionistas40,28%

Quadro 3 - Estrutura accionista da EDP (fonte: EDP)


Quais as oportunidades - O mercado asiático.
Comparando as exportações portuguesas com as importações totais dos países, a China é o 3.º país do Mundo que mais importa (6.0% do total) e com uma taxa média de crescimento das importações, 2000-2010, acima dos 15% por ano.

PaísExport. PortuguesasImport. TotalCrescimento
 USA3,6%16,5%2,4%
 Alemanha13,0%7,4%4,1%
 China0,6%6,0%15,8%
 Reino Unido5,5%5,1%2,8%
 Japão0,30%4,9%1,8%
 França11,8%4,1%2,4%
 Itália3,8%3,0%1,0%
 Países Baixos3,8%2,8%3,4%
 Coreia0,1%2,7%7,3%
 Taiwan0,1%2,5%*17,5%*
 Espanha26,6%2,3%2,9%
 México1,1%2,2%4,2%
 Bélgica2,9%1,9%2,3%
 Rússia0,3%1,4%13,4%
 Índia0,2%1,3%13,7%
 Brasil1,2%0,9%7,9%
Quadro 4 - Exportações portuguesas e mercados potenciais (fonte: Banco Mundial, INE e * tradingeconomics)

Além da sua importância individual, a China está-se a tornar o centro do comércio entre os países asiáticos que são o destino de 1.3% das nossas exportações mas que representam 14.3% das importações mundiais.
Mas para aproveitarmos essa oportunidade temos que alterar a forma de ver as relações comerciais.

É preciso fazer uma ZEE - Zona Económica Especial
Tal como a Europa criou Singapura, Macau ou Hong-Kong, Portugal tem a oportunidade de criar uma Zona Económica Especial.
A Zona Franca da Madeira - Caniçal é um descampado onde não há nada. Tanto quanto se vê do satélite,  tem duas dúzias pavilhões com meia dúzia de carros à porta.

Fig. 5 - Zona Franca da Madeira - Caniçal (fonte: Google Earth)

Se nos orgulhamos de termos criado Macau como um pedaço da Europa na China, agora está na hora de criarmos Sines como um pedaço da China na Europa.
O Porto de Sines é um recurso natural  que está muito desaproveitado e que não se vê que destino dar àquilo.
Com o piscar do olho da China, toda a zona pode ser rentabilizada criando-se uma Zona Económica Especial sob administração conjunta sino-portuguesa.


Fig. 6 - Zona Económica Especial de Sines

Começa-se por uma Carta Constitucional.
No qual, à semelhança de Hong Kong, é dado o primado à liberdade económica.
Em termos de governação, a ZEE fica com uma assembleia legislativa formada por 10 pessoas nomeadas pelo governo português, 10 pelo governo chinês e 10 eleitas por voto universal dos indivíduos com autorização de residência na ZEE.
Depois, o governador é eleito pela assembleia legislativa.
As leis ordinárias são da responsabilidade da ZEE sob respeito da Carta Constitucional.
Uma das grandes condições para o sucesso é a ZEE ter autonomia para dar residência a quem quiser.
Comparando com Macau, a ZEE de Sines pode atingir rapidamente os 500 mil residentes e transformar-se no motor da economia portuguesa.

Assim podemos aproveitar a enorme oportunidade que representa a China ter olhado para nós.
É a oportunidade de provarmos ao Mundo que Macau não foi um acidente mesquinho da História. Que os portugueses são mesmo universalistas.
E tirarmos bons lucros disso.

Pedro Cosme Costa Vieira

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