O Pedro Passos Coelho está a coordenar um estudo.
Com o título "Bloqueios versus Reformas: uma visão para Portugal", também coordenado por Sérgio de Sousa Pinto e Nuno Botelho, podemos reduzir as conclusões do estudo a uma frase bombástica e que tem sido repetida vezes sem conta "A economia portuguesa não cresce por causa do baixo crescimento da produtividade". Para dar ainda mais força a esta frase, o estudo tem o apoio da Faculdade de Economia do Porto (que, agora, acrescentou 'Gestão' ao nome).
É uma frase que ouvimos de políticos, economistas, universidades, instituições europeias e jornais repetir vezes sem fim parecendo uma explicação profunda e que, portanto, mostra como podemos ter uma economia mais dinâmica, basta aumentarmos a produtividade.
O problema é que estamos a dizer a mesma coisa usando palavras diferentes.
Podem ver um comentário mais 'científico' em: Lapalisse: Economy Fail to Grow Because Productivity Does Not Grow
É equivalente a dizer que as pessoas são gordas porque têm peso a mais.
É que a produtividade do trabalho é apenas o PIB dividido pelo trabalho utilizado. Em termos simples:
Produtividade = PIB / número de trabalhadores
Portanto, dizer que o PIB não cresce porque a produtividade não cresce é, em boa medida, dizer que o PIB não cresce porque o PIB por trabalhador não cresce.
É como dizer que um automóvel demora demasiado tempo a chegar ao destino porque circula demasiado devagar.
É verdade? Evidentemente que é verdade, é mesmo a Verdade de Lapalisse "O soldado está morto porque morreu".
A verdadeira questão é outra: porque a pessoa tem peso a mais?
O que tem de ser respondido é porque é que a produtividade não cresce e não ficarem os estudos dos sábios enredados em pescadinhas de rabo na boca:
A Economia não cresce porque a produtividade não cresce e a produtividade não cresce porque a economia está estagnada.
A viagem demora muito tempo porque o carro vai devagar e o carro vai devagar porque a viagem demora muito tempo.
Nunca ouvi verdades mais verdadeiras.
A Verdade é que a Europa está a divergir dos Estados Unidos da América.
Em 1960 Portugal era muito pobre pelos padrões europeus, estando com pouco mais de 35% do PIB per capita das 5 maiores economias europeias (EUR5 = Alemanha, Reino Unido, França, Espanha e Itália). Acontece com, aderindo À EFTA em 1959, teve em 13 anos um período de grande crescimento que acabou no dia 25-de-abril de 1974, onde atingiu 52% do PIB pc dos EUR5.
Actualmente, passados 53 anos, estamos melhor em termos absolutos mas em termos relativos estamos quase na mesma, convergimos 0.1 pp por ano (concentrados nos 10 anos do Cavaquismo) e, desde 1990, estamos apenas alinhados.
Estamos muito contentes por um ano ganharmos uma décima face a Europa que logo no ano seguinte perdemos. Digamos que, se com "os nossos problemas todos" não perdermos distância face À Alemanha já temos de nos dar por muito felizes.
Não é mais do que a frase muitas vezes repetidas nos anos do "Respeito a Deus" quando as pessoas iam como sardinhas em lata na camioneta "Que seja assim no Céu e já ficamos todos contentes".
O problema é a Europa estar a divergir há 45 anos da economia dos USA.
Interessante é que a convergência de Portugal com a Europa dos últimos anos, anunciada em grandes letras, se deve apenas ao "afundar" da Europa face aos USA no seguimento da COVID-19.
O problema que ninguém quer discutir: Crescer não é uma operação gratuita
Quando se fala de aumentar a produtividade, rapidamente aparecem as palavras mágicas: inovação, tecnologia, investimento, capital humano, empreendedorismo, digitalização, inteligência artificial, investigação e desenvolvimento.
Para investir é preciso poupar.
Se uma sociedade quer construir máquinas, fábricas, infra-estruturas, software ou novas tecnologias, não pode consumir hoje todos os recursos que produz. A ideia é antiga. Ramsey, em 1928, formalizou precisamente o problema da escolha entre consumo presente e consumo futuro.
Austeridade é uma palavra maldita.
Para termos mais amanhã, termos mais capital produtivo, temos de abdicar de alguma coisa hoje, temos de consumir menos hoje, ter menor nível de vida hoje, viver em austeridade, não há grande mistério.
Falar do Estado Social é tabu.
É perfeitamente legítimo que uma sociedade queira proteger os seus cidadãos. É legítimo garantir cuidados de saúde, medicamentos, subsídios de desemprego, pensões, apoio à pobreza e outras formas de protecção social. O problema não está necessariamente na existência desses direitos, o problema é que os direitos das pessoas fazem com que estas não tenham incentivos para se adaptarem ao mundo em constante mudança.
Uma economia dinâmica exige mobilidade.
Um trabalhador tem de aprender uma nova profissão, mudar de empresa, mudar de cidade. Uma empresa tem de abandonar as actividades antiga para investir nas nova. O capital investido numa tecnologia obsoleta pode simplesmente perder valor.
Tudo isto é doloroso.
Reparem como nas universidade portuguesas se persegue quem apresenta ideias polémicas?
Como eu fui despedido apenas por falar dos problemas da imigração, pobreza e exclusão social?
Reparem como as universidades estão a proibir o uso da Inteligência Artificial, a fazer exames de avaliação que qualquer modelo fraquito tem 20 valores?
O sistema criado para proteger o nível de vida acaba por levar à sua destruição.
O sistema americano oferece muito menos protecção social do que os sistemas europeus. Para um trabalhador, perder o emprego significa perder uma parte importante da segurança económica associada ao emprego, incluindo o seguro de saúde proporcionado pelo empregador.
Isto é socialmente duro.
Mas cria também incentivos poderosos para a adaptação.
Mudar de emprego. Mudar de profissão. Mudar de cidade. Aprender uma nova competência. Aceitar uma actividade diferente.
O trabalhador paga uma parte maior do custo da transformação económica.
Mas, precisamente por isso, a economia pode adaptar-se mais rapidamente.
Na Europa tudo são ameaças, a Inteligência Artificial vai destruir os empregos, vai destruir os direitos, vai mesmo fugir aos impostos e acabar com a humanidade.
Claro que todos sabemos que na Idade da Pedra quem usasse flechas com Silex era condenado ao apedrejamentos e, por isso, o Silex foi durante dezenas de milhares de anos um artefacto muito raro.
Claro que todos sabemos dos livros de História que houve movimentos a destruir máquinas a vapor usando exactamente a mesma argumentação, que a humanidade iria cair na pobreza estrema porque deixava de haver trabalho para os pobres, mas não interessa recordar o quão errados estavam estes antepassados dos europeus.
Queremos mais crescimento? Então temos de fazer sacrifícios.
O problema é que se algum político afirmar esta verdade, não tem votos.
É muito mais fácil anunciar uma nova estratégia europeia para a produtividade do que dizer a um trabalhador que a profissão que exerce há vinte anos vai deixar de existir.
É muito mais fácil anunciar subsídios para salvar uma empresa do que explicar que os recursos dessa empresa, incluindo os trabalhadores, são mais produtivos noutra actividade.
E é muito mais fácil dizer que precisamos de aumentar a produtividade do que explicar como vamos aumentá-la.
terça-feira, setembro 15, 2026




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