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domingo, 1 de novembro de 2015

48 - A apresentação

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (47 - A infância)    





48 - A apresentação
Naqueles dias que decorreram até à reunião da confraria onde o Rúben iria apresentar o seu projecto, as ideias foram evoluindo. Assim sendo, na hora combinada, já estava tudo estudado e pronto a ser exposto aos confrades. Por ser o presidente da confraria, foi o Alberto que abriu a reunião.
– Boa noite amigos confrades, como sabem, há umas dezenas de anos a nossa aldeia que fica na Europa foi destruida, quase todas as pessoas que lá viviam foram mortas, as casas destruidas de forma que hoje, a nossa terra é uma sombra do que foi no passado. Agora, os descendentes dos que tentaram destruir o nosso povo vivem atormentados com esse crime pelo que, para se tentarem redimir deste crime histórico, aprovaram a Lei do Retorno na qual reconhecem o direito a todas as pessoas do nosso povo de regressar à aldeia. Assim, está aberta a possibilidade das pessoas descendentes dos habitantes originais da nossa aldeia ancestral poderem ir viver para lá, com igualdade de direitos com as pessoas do Vale. O problema é que, como todos nós sabemos,  nascem poucas crianças na nossa comunidade, não mais de 40 por ano, pelo que, pensando que as crianças continuarão a vir ao mundo pela decisão dos seus pais, essa lei não terá utilidade prática e que, portanto, a nossa aldeia ancestral estará definitivamente condenada ao desaparecimento. Mas, porque há quem pense de forma diferente, o Sr. Rúben e o Sr. Dr. Cerejeira vão fazer uma pequena apresentação sobre a forma de transformar esta lei aparentemente inútil numa oportunidade para ressuscitar a nossa comunidade ancestral.
As pessoas estavam curiosas sobre o que o Sr. Rúben iria dizer e, por causa dessa curiosidade, a sala estava a rebentar pelas costuras, com mais de 1000 pessoas, a maior parte de pé, e muitas mais ainda lá estariam se coubessem. Depois das palmas, fez-se então um silêncio sepucral.
– Boa noite. Como sabem, nasci na aldeia faz muitos e muitos anos e, por isso, estou a ficar velho e próximo da eternidade. Quando era criança, a miséria era grande, os ataques eram frequentes, o monte pouco dava e o foral era elevado mas, pelo menos na minha memória, éramos uma comunidade viva e onde as pessoas viviam relativamente  felizes e com confiançaa certeza de que o nosso povo perduraria ao longo dos séculos. Mas a tragédia tocou-nos e a grande maioria das milhares de pessoas que viviam na aldeia, mais de 9000, desapareceram de um dia para o outro e as casas e tudo o demais foi destruido. Decorridos estes anos todos há a possibilidade de refazermos aquela comunidade mas, para isso, temos que arranjar milhares e milhares de pessoas o que  parece impossivel já que somos apenas 3000 e nascem-nos apenas 40 crianças por ano. Como nunca me dei por derrotado, penso que para grandes problemas temos que encontrar soluções novas e, com esta máxima, peço-vos que ouçam o que o Sr. Dr. Cerejeira tem para vos dizer sobre como a medicina nos podem ajudar a trazer a nossa aldeia de volta.
– Boa Noite, eu sou médico e o Sr. Rúben incumbiu-me de investigar uma forma de, usando as melhores práticas médicas, propor uma forma de arranjarmos pessoas suficientes para repovoar a nossa aldeia que fica na Europa sem sobrecarregar as nossas famílias. Imaginando que cada jovem que for para a aldeia vai ter um filho, a questão a que tenho que responder é como será possível produzir 4500 jovens. A minha ideia é que esse número seja distribuido ao longo de 30 anos, numa média de 150 jovens por ano. Depois de muito discutirmos, existe uma solução técnica perfeitamente testada e com sucesso garantido que é recolher aqui os gametas dos nossos casais, óvulos e espermatozoides, implantar os embriões resultantes em mulheres de substituição que serão contratadas e viverão num pais africano e, depois, quando tiverem 10 anos de idade, as crianças passarão a viver na nossa aldeia como filhos adoptivos de um casal, 20 crianças por casal. Como será preciso que cada um dos nossos casais tenha cerca de 7 crianças, a única coisa que fica em aberto e para a qual será preciso fazer estudos experimentais, é saber até que ponto é possível duplicar os ovócitos para conseguir, com uma recolha de óvulos, atingir as 7 crianças.
Depois do silêncio, explodiu um borburinho "Mas como será isso possível? Como vai ser possível financiar isso" ouvia-se de várias partes da sala.
– Bem, como já disse, em termos médicos, é completamente possível e em termos económicos, o Sr. Rúben vai-vos dizer como pensa financiar este projecto. Vou então passar a palavra ao Sr. Rúben.
– Obrigado Dr. Alberto, vou então passar à parte do financiamento. Segundo informação recolhida, o processo médico costará cerca de 10000€ e sustentar a criança desde que nasce até atingir a maioridade deve custar 40000€. Assim, serão precisos 50000€ para produzir um jovem. Claro que, para produzirmos 4500 jovens, serão precisos muitos milhões de euros mas, pensando que este investimento vai ser distribuido ao longo de algumas dezenas de anos, será possível arranjar o financiamento necessário. Depois, da mesma forma que o Sr. Dessilva conseguiu financimento para nossa viagem para cá porque nos comprometemos a pagar esseinvestimento com o nosso trabalho, estes 50 mil € vão ser amortizados por cada jovem mediante a entrega de 10% do seu rendimento durante os 50 anos da sua vida activa. Cono todos nós nos disponibilizamos para pagar a nossa vinda para cá, também os nossos jovens terão que pagar esses 50 mil € soubendo que esse é o preço de terem sido dados à vida.
Criou-se novo burburinho na sala. "Mas as crianças vão ser filhos de quem? Será ético obrigar os jovens a pagar a sua vida? E se os jovens não quiserem viver na aldeia? E se volta a aparecer a doença? "
– Calma que eu vou responder a todas as perguntas.
– As crianças vão ser adoptadas, teremos que arranjar casais que se voluntariem para viver em África com as crianças, talvez 20 crianças por casal, para lhes ensinar a nossa língua e serem a ponte emocional e cultural das crianças com a nossa aldeia. Depois, essas famílias vão, depois, viver para a aldeia até que as crianças se tornem adultas. Teremos que discutir se será necessário dizer a cada criança quem são os seus pais genéticos ou se essa informação se irá perder, havendo apenas uma identificação de quem é irmão de quem.
– É difícil imaginar como podemos impor a alguém "Só nasces se pagares 10% do rendimento que vais ter durante a vida". Mas, por um lado, esta imposição não é nada de novo relativamente aos pais que têm um filho pensando que este vai cuidar deles durante a velhice. E quanto à imposição não será algo verdadeiramente obrigatória, mas estou persuadido que todos os jovens irão pagar a sua parte nos custos de terem sido dados à vida.
– Os jovens vão viver na nossa aldeia entre os 10 anos de idade e serem adultos mas a obrigatoriedade para viverem na aldeia não será total. Penso que, tal como nós temos soudades do local onde fomos crianças, os nossos jovens vão mater uma ligação com a nossa aldeia mas, se quiserem vir viver para junto de nós ou para outro local qualquer, não haverá problema nenhum nisso, continuarão a ser um reforço para que o nosso povo perdure no tempo.
– Finalmente, se a doença voltar, não vos vou dizer como o problema poderá ser resolvido mas não podemos deixar de caminhar porque há o risco de cairmos. Quando uma criança nasce há o risco de não corresponder ao que os pais anseiam mas isso não pode fazer com que deixem de ter, de todo, filhos. Vamos indo e vamos vendo.
A discussão continuou até que mais ninguém quis fazer perguntas.
– Sendo que não há mais questões - disse o Alberto - vou então dar por fechada esta reunião. Agora, cada um de nós vai para casa pensar nesta questão, discutir com os seus familiares as vantagens e inconvenientes deste projecto e, daqui a uma semana, vamos proceder a uma votação em que todas as pessoas se vão pronunciar quanto a avançar ou não com o projecto do Sr. Rúben. No caso de o projecto ser aprovado, daremos então início aos procedimentos para que possamos dar início à produção das crianças.

FIM

domingo, 25 de outubro de 2015

47 – A infância

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (46 - A técnica)    


47 – A infância
Bem, já avancei muito no projeto – pensou o Rúben – já tenho os bebés algures no meio de África e, agora, preciso pensar o que lhes vou fazer para os transformar em homens e mulheres adultos. Claro que poderia pensar em trazê-los para aqui, para junto de nós, ou para a nossa aldeia na Europa mas isso ficaria caríssimo e, na aldeia, não há pessoas suficientes para o acolhimento de tantas crianças. Também não podem ficar em África pois, depois, não se sentirão parte da nossa aldeia, é que as pessoas são como os peixes, sentem pertença ao local onde foram crianças. A única solução será um misto de lugares, vão viver em África até terem uma certa idade, talvez 10 anitos, para ser económico e, depois, vão para a nossa aldeia até se tornarem adultos para ganharem ligação ao nosso povo. No entretanto, vêm passar uns tempos à América para conhecerem a nossa confraria.
Vou começar por me concentrar na infância. Primeiro, os gâmetas são recolhidos aqui e na aldeia e, depois, em África multiplicam-se os zigotos e fazem-se os pré-embriões que serão implantados nas mães de substituição. Por uma questão de comodidade, todos os pré-embriões serão transferidos ao mesmo tempo o que fará com que os 7 irmãos fiquem com a mesma idade o que, não parecerá natural mas não há nada que diga que causa problemas às crianças. Multiplica-se os zigotos até termos 42 pré-embriões que se transferem para 14 mães de substituição e das quais irão resultar as 7 crianças.
Ser mãe de substituição vai ser um emprego permanente. A mulher recebe um ordenado mensal para ter a criança e tratar dela. Se, no entretanto, quiser prorrogar o contrato de trabalho, irá tentar voltar a engravidar. Assim, as mães de substituição vão poder ter um emprego estável até pelo menos aos 45 anos de idade.
Se vão nascer 150 crianças por ano, haverá 180 mães de substituição que, se as crianças partirem com 10 anos, vão tratar de 1500 crianças com idades variadas. Dá 8 crianças por cada mulher, o que não me parece muito.
Mas as crianças não poderão ser criadas apenas pelas mães de substituição porque vai ser preciso ensinar-lhes a nossa língua e a nossa cultura. Vai então ser preciso que um casal, com espírito de missão, já viver junto delas como seus pais adotivos para não só serem professores como também para serem o elemento de ligação familiar das crianças à realidade que vão encontrar quando forem viver para a aldeia.
A relação dos pais biológicos com as crianças será flexível, tanto podendo de ser pais incógnitos como, no extremo oposto, irem viver em África e, depois, na aldeia com as suas crianças. Como caso intermédio, manterão uma ligação diária com os filhos  biológicos usando a internet.
Em termos naturais, um casal não pode ter muito mais de 20 filhos. Então, o natural será que cada cada casal adote vinte e tal crianças, os filhos de 3 casais biológicos, passando assim a haver a necessidade de que partam para África 7 casais adotivos por ano. Para reduzir o tempo de permanência dos casais adotivos em África, cada um vai receber 20 crianças recém nascidas e outras 20 crianças com 5 anos. Passados 5 anos, levarão as crianças mais velhinhas para a Aldeia e, as mais pequeninas, passarão para o segundo casal adotivo. Se for assim, será preciso haver em África 35 casais adotivos, o que será suficiente para serem, além de pais adotivos de 40 crianças, os professores do ensino básico para todas as crianças em idade escolar.
Para produzir 150 crianças por ano será preciso uma comunidade com 180 mães de substituição, 35 casais adotivos e um total de 1500 crianças, um total de 1750 pessoas. Se fosse para produzir 150 mil crianças por ano, seria necessária uma cidade com 1,75 milhões de pessoas!
Quando as crianças tiverem 10 anitos e a escola primária concluída, os pais adotivos e as suas 20 crianças vão viver para na nossa aldeia como se fossem uma família. Vão frequentar a escola, calcorrear aqueles mesmos caminhos do monte que eu calcorreei quando era criança e, assim, tornar a dar vida à nossa aldeia.
Com 10 anitos as crianças ainda vão a tempo de desenvolver uma ligação forte de pertença à aldeia e já são autónomas o suficiente para que seja possível um casal dar atenção e apoio a 20 crianças. Não vai ser uma família como estamos habituados a ver porque as crianças terão todas a mesma idade e serão, em termos genéticos, filhas de 3 casais diferentes  mas, mesmo assim, vai ser uma família funcional.
– Sr. Rúben. Sr. Rúben ! Por favor, acorde que está aqui o Sr. Alberto para o levar a casa – disse uma das empregadas da confraria.
– Sim, sim, eu não estou a dormir, passei um bocadinho pelas brasas mas estava com o pensamento ativo! Oh Alberto, sobre a conversa que tivemos esta manhã, estive a falar com o Dr. Cerejeira e já avancei bastante, existe uma solução técnica para fazermos as 150 crianças por ano sem haver necessidade que as nossas mulheres tenham que estar grávidas!
– E isso é mesmo possível Sr. Rúben? Não estará a confundir?
– Não, não, disse-me o Dr. Cerejeira que podemos contratar mães de substituição!
– Ah, assim já ouvi falar nisso mas será praticável!
– sim, é praticável, arranjam-se as mães de substituição num país pobre, talvez em África, está tudo pensado!
– Mas isso, provavelmente, vai custar muito dinheiro!
– Custa o que custar e vamos fazer como o Sr. Dessilva fez quando nos trouxe para cá, cada criança vai, ao longo da vida ativa, pagar o seu custo de produção.
– E o Sr. Rúben está a pensar que serão as crianças a pagar a sua vida?
– Exatamente! Vão ser as pessoas a pagar o custo de as darmos à vida, arranjamos quem financie o projeto como se fosse um investimento normal e, depois, as crianças quando forem adultas amortizam esse investimento!
– E acha ético fazer um contrato com pessoas que ainda não existem?
– Claro que sim, calculo que cada criança vai custar 50 mil € pelo que será preciso que paguem 100€ por mês durante 50 anos. Nenhuma pessoa se vai recusar a pagar 100€ por mês sabendo que é para compensar o ter sido trazida à vida.
– E depois o que vai fazer às crianças?
– Já está tudo pensado. Agora, só preciso de combinar com o Dr. Cerejeira para fazermos uma apresentação à confraria. Ficam em África até aos 10 anos e, depois, vão viver na aldeia com um casal adotivo, cada casal vai tratar de 20 crianças.
– Então o Sr. Rúben acha mesmo que isso é possível? Acha mesmo que vamos poder aproveitar a abertura que aconteceu nas mentalidades dos europeus? Acha mesmo que essa lei que aprovaram lá na Europa vai permitir o renascer da nossa aldeia?
– Sim, sim, penso que temos aqui uma oportunidade única na História de repormos o que foi destruído, agora só preciso que marques uma reunião da confraria para que eu possa apresentar o meu plano para que as pessoas possam decidir.
– Concerteza que sim, vou já anunciar essa reunião.

Capítulo seguinte (48 - A apresentação)

domingo, 18 de outubro de 2015

46 – A técnica

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (45 - A lei do retorno)    





46 – A técnica
Tem que dar – pensou o Rúben – tenho que arranjar uma forma de dar utilidade à lei do retorno. Para que se deram ao trabalho de fazer a lei do retorno quando parece evidente ser impossível arranjar pessoas que queiram retornar? Talvez os do Vale não procurassem mais do que uma forma de redimir o massacre daquela noite sem, de facto, fazerem nada. Mas as intenções não interessam, o que interessa é que temos que arranjar uma forma de os ajudar a redimir os seus pecados passados. O problema é que ninguém vai ter 6 ou 7 filhos para os mandar para a Europa! – Nesse momento veio-lhe à mente a sua infância, as pregações do padre que havia lá na aldeia, o Padre Augusto, e que falava com o Espírito Santo – Vai ter que ser uma coisa assim, vir uma inspiração divina ...
O Rúben ficou com aquela pergunta na cabeça, como conseguir convencer alguém a criar e educar filhos para, depois, os enviar para a Europa? Durante os pensamentos, inclinou a cabeça para o lado e caiu no sono.
– Sr. Rúben, acorde por favor! – Era o Dr. Cerejeira, um médico já reformado que também gostava de ir conversar à confraria – Acorde que o sono é o princípio da morte.
O Dr. Cerejeira tinha sido das primeiras crianças a nascer na América de um casal da aldeia. Sendo muito inteligente, estudou com a ajuda da confraria e fez-se médico.
– Bom dia Dr. Cerejeira, eu não estava a dormir, estava apenas a passar pelas brasas, ainda bem que apareceu pois estou às voltas com essa lei do retorno, o Sr. Dr. já ouviu falar disso?
– Já, já, quem é que não ouviu falar! Querem remediar o massacre mas, agora que o mal já está feito, não há nada que possam fazer para o remediar. Se mataram as pessoas como é que agora as podem trazer de volta à vida?
– Pensando assim, nunca nenhuma falta poderia ser redimida! Lembre-se que uma floresta arde e volta a nascer mas com outras árvores. Com os povos passa-se o mesmo, as pessoas morrem mas outras nascem para ocupar o lugar de quem partiu.
–Até pode ser, bem sei que o Sr. Rúben tem saudades da infância vivida no meio desse monte, mas não há nada que, agora, possa trazer aquela aldeia de volta à vida. REceio mesmo que, mais ano menos ano, não haverá uma única pessoas a viver lá.
– Tenho saudades de ser criança, da beleza da natureza e da camaradagem que lá existia mas nenhumas saudades da miséria com que vivi a minha infância, de como os meus pais sofreram para que eu não morresse de fome. Eram tempos muito duros.
– Acredito que sim, que, mesmo com a miséria, lhe sobrem memórias bonitas da sua infância mas, agora, mesmo que as condições de vida lá nessa aldeia tenham melhorado muito, penso que ninguém vai querer partir daqui para voltar a viver lá.
– Quando soube da lei, pensei que haveria pessoas interessadas em ir mas, depois de falar com algumas, tive que me convencer de que não há ninguém, talvez os velhos como eu mas nós não contamos, seria apenas para irmos ajudar as estatísticas das mortes. Mas ainda não me dei por derrotado, ainda tenho esperança que possa ser encontrada uma solução, é que se fizeram a lei para que se pudessem redimir do passado, nós também temos que fazer um esforçosinho para aproveitarmos esta oportunidade. Sendo que o Sr. Dr. chegou enquanto eu estava com estes pensamentos, só pode ser um sinal do Espírito Santo a dizer que este problema se pode resolver com a tecnologia médica.
– Mas resolver o problema como?
– Segundo contas que estive a fazer com o Alberto, para um dia voltar a haver na Europa tantas pessoas como as que foram mortas, será preciso fazer aparecer a partir do nada, em termos mitológicas, a partir do barro, 150 pessoas todos os anos e durante 30 anos. Isso é uma enormidade pois, sendo nós poucos, cada um dos nossos casais terá que ter 7 filhos além dos que já têm, o que nos pareceu impossível de todo.
– Totalmente de acordo, nenhum casal vai querer ter 7 filhos para os mandar para a aldeia. Mas eu, enquanto enviado do Espírito Santo, com é que entro na equação qeu vai resolver o problema?
– É que temos que pensar numa forma diferente de fazer essas 150 crianças!
 – Que eu saiba, as crianças apenas se fazem de uma maneira, a maneira tradicional!
– Sim e não, também existe a medicina, a procriação medicamente assistidas! E se as crianças que precisamos fossem feitas usando os últimos avanços tecnológicos?
– Mas isso não resolve nada pois é preciso ter, na mesma, uma mãe que dê a criança ao mundo e uma família que crie e eduque a criança!
– Eu estava a pensar em algo mais industrial e menos humano, recolhiam-se óvulos e espermatozoides dos nossos casais e, depois, arranjavam-se mulheres de substituição algures num país pobre, talvez em África. Assim, talvez já fosse possível arranjar as 150 pessoas por ano sem sobrecarregar ninguém, seria apenas uma aplicação financeira, as pessoas seriam criadas desde pequeninas até serem adultas com o objectivo específico de irem viver para a nossa aldeia e pagariam uma mensalidade por as termos dado à vida!
– Sim, em termos técnicos isso é possível mas nunca foi aplicado a essa escala e com um objectivo dessa natureza. Para ajudar um casal que tem dificuldades procriativas é uma coisa mas para refazer a população de uma aldeia que foi exterminada no passado nunca foi sequer imaginado e, muito menos, tentado.
– Então o Dr. Cerejeira acha que isso é mesmo tecnologicamente possível!
– Perfeitamente possível, a recolha dos gâmetas, a fertilização, o desenvolvimento do zigoto até a obtenção dos pré-embriões e, finalmente, a sua posterior implantação no útero de uma mulher dando origem a uma gravidez são tudo tecnologias perfeitamente compreendidas e testadas, com já milhares de sucessos. O único problema é não só a escala como também, em termos éticos, as crianças nascerem fora de uma família e para dar cumprimeto a um objectivo pré-determinado e que inclui um encargo financeiro.
– Vamos deixar os problemas éticos para depois pois primeiro tenho que imaginar o processo produtivo. Recolhiam-se aqui os gâmetas e, depois, enviavam-se para um país onde seriam feitos os outros procedimentos, apenas teríamos que ter casais que se disponibilizassem a fazer a doação dos gâmetas!
– Mas ainda há algumas dificuldades. É que para um casal para ter esses 7 filhos que pretende enviar para a aldeia, será preciso obter uma média de 80 óvulos por mulher o que obriga a uns 5 procedimentos de recolha, o que não é nada agradável.
– Mas então não é um óvulo, uma criança? Para 7 crianças não basta recolher 7 óvulos?
– Não, nem perto disso, em termos estatísticos, num ciclo de estimulação hormonal em que se consigam recolher 16 óvulos, 4 vão falhar a fertilizados e outros 4 vão falhar o desenvolvimento pelo que se vão obter apenas 8 pré-embriões. Actualmente, o processo que vai da recolha até ao pré-embrião tem um sucesso na ordem dos 50%.
– E daqui nascem 8 crianças!
– Também não pois a implantação tem uma taxa de sucesso relativamente baixa, depois de transferidos para o útero, em média, são precisos 6 pré-embriões para termos uma criança.
– Mas isso é uma perda muito grande, perdermos essas crianças todas por falhas técnicas!
– Talvez seja por falhas técnicas mas essas perdas também acontecem numa gravidez natural. De facto, não sabemos quantas falhas são por dificuldades de implantação e quantas são por o pré-embrião ter falhas genéticas.
–Temos que arranjar forma de reduzir o número de ciclos. E não será possível duplicar os ovócitos como acontece com os gémeos verdadeiros?
– Pois, isso até poderá ser tecnicamente possível mas nunca foi testado e até é proibido. Se a fertilização in vitro já coloca problemas éticos, muito mais problemas colocará fazer as crianças como se fossem salsichas, centenas iguais. Até poderia ser possível mas não pode ser feito, já imaginou saber que foram feitas mais 200 indivíduos geneticamente iguais a si?
– Isso não me afligiria em nada. Eu sou eu de forma independente dos outros serem ou não geneticamente iguais a mim,  o meu pensamento e tomada de consciência seriam sempre os meus. Mas eu não estava a pensar em 200 mas apenas num número que permitisse ter as 7 crianças com apenas um ciclo de recolha, talvez 4 iguais!
– Assim já é uma ideia mais razoável mas a estatística não funciona bem assim e até talvez seja possível fazer melhor do que isso, talvez parte das causa da falha na implantação não sejam erros genéticos e, por isso, a multiplicação dos ovócitos possam permitir que nasçam crianças que, de outra forma, nunca nasceria. O problema é não haver dados que permitam calcular quantos ovócitos falham devido a terem erros genéticos. Sem fazer ensaios, não posso dizer nada mas a ideia já me parece razoável, talvez nascessem alguns gémeos mas controlávamos esta questão impondo um número máximo às cópias transferidas, por exemplo, 4 cópias!
– O Dr. está a ver como isto está a avançar com a sua ajuda? Ainda é capaz de pensar que não foi o Espírito Santo que o enviou? Vamos imaginar que se conseguiam recolher 16 ovócitos dos quais resultavam 8 ovócitos. Multiplicando por 4 teríamos 32 que, dividindo por 6, já dava quase 5,5 crianças, muito próximo do pretendido. Se implantássemos 5 cópias de cada pré-embriões já seríamos capazes de conseguir as 7 crianças de uma só recolha, o que diz a este meu número?
– Bem, é tecnicamente possível mas, sem ensaios, não posso garantir nada, tanto pode acontecer que tenhamos 5 gémos iguais como apenas2 ou 3.
– Já estou a imaginar todo o processo, recolhem-se aqui os gâmetas, enviam-se para um sítio qualquer e faz-se lá a fertilização e a multiplicação dos ovócitos e, depois, os pré-embriões são implantados nas mães de substituição e espera-se que nasçam as crianças.
– Gostei muito desta nossa conversa mas a sua continuação tem que ficar para outro dia porque ainda tenho que ir visitar os meus netos.
– Não só conto com a continuação desta nossa conversa como já dou como certo que o Dr. Cerejeira me vai ajudar na elaboração do projecto que hei-de apresentar à confraria.
– Concerteza que pode contar com o meu contributo, vou começar já a trabalhar nisso.

Capítulo seguinte (47 - A infância)

domingo, 11 de outubro de 2015

45 – A lei do retorno

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (44 - A destruição)    




45 – A lei do retorno
Quando nesse dia a noite caiu, a aldeia do Monte havia centenas de casas e mais de 9000 pessoas mas, quando se fez novamente dia, as casas e currais estavam arrasadas e as pessoas tinham desaparecido, a maioria morta e incinerada. Naquela manhã parecia que a destruição seria para todo o sempre, que nunca mais haveria condições para que as pessoas pudessem voltar à aldeia mas, com o passar do tempo, talvez porque o massacre tenha sido orquestrado e executado por uma minoria não representativa do que pensavam as pessoas do Vale ou isso não passasse de uma desculpa e tivesse sido apenas o passar do tempo, todo começou a normalizar. Passados apenas alguns meses, quem não conseguiu ou não quis emigrar para a América voltou à aldeia e começou a reconstruir a sua vida.
Passaram-se 10 anos, depois 20, 30 e mais anos e no Vale foi crescendo a consciência de que haveria uma responsabilidade colectiva, mesmo por quem ainda nem era nascido nesse tempo, pelo crime daquela noite. Atendendo a que aquele crime contra a humanidade nunca poderia ter acontecido, ao longo dos anos a autarquia do Vale foi ajudando na reconstrução da aldeia do Monte.
O problema é que a aldeia que outrora era uma comunidade viva, com mil casas lotadas, transformou-se numa garfadinha de pessoas perdida no meio de um monte.
Como fase final da reconciliação com o seu passado, no Vale aprovaram a Lei do Retorno, lei que permite que os descendentes das pessoas que viveram na Aldeia do Monte possam voltar a viver lá em condições de igualdade com as pessoas do Vale, isto é, sem mais perseguições nem necessidade de pagamento do foral.
O mecanismo de naturalização previsto nesta lei á relativamente simples. A primeira condição é que a pessoa fale, mesmo que com dificuldade, a língua dos seus antepassados e, a segunda condição, é que tenha algum documento, mais não seja passado pela confraria americana ou do Monte, a dizer que tem na sua árvore genealógica antepassados nascidos na aldeia do monte.
Quando a notícia da Lei do Retorno chegou ao Monte, as poucas mais de 200 pessoas que lá viviam, ficaram entusiasmadas, viram ali a oportunidade para ressuscitar a comunidade que estava quase morta e, por isso, enviaram-na logo para a confraria americana pensando que muitas pessoas quereriam aproveitar a oportunidade. Mas na América, a lei não foi recebida com muito entusiasmo, é que, por terem passado tantos anos, as pessoas já se sentiam americana até porque a maioria já tinha lá nascido. Quem é que, no seu juízo perfeito, iria querer deixar uma vida confortável na América, os amigos, o emprego e os familiares, para ir viver no meio de um monte qualquer perdido no meio de nenhures? Talvez, no máximo, uma meia dúzia de pessoas idosas com uma nostalgia romântica de voltar ao local da sua origem. No entanto, o tema não deixou de ser central nas conversas.
– Essa lei não vai levar a lado nenhum, a Aldeia do Monte é coisa do passado. É algo que nunca mais pode ser recuperado – disse o Alberto que era o presidente da confraria. Era neto do António Espírito Santo, bisneto do Alberto que o Dessilva, enquanto Abel, tinha matado no cimo do monte com uma facada no coração para poder roubar as ovelhas, crime esse que acabou por dar origem à comunidade que hoje vive na América, e também neto do Levistone pois um filho de Levistone casou com uma filha do António. O segredo de que foi o Newman Dessilva que matou o pai do António ficou com o Jonas, o Dessilva e a Júlia até ao dia em que morreram.
– Tenho que te dar razão, apesar de eu ter muitas ligações à nossa aldeia, de me recordar dos tempos da minha infância, como as coisas estão, a nossa aldeia está condenada ao desaparecimento. Apesar de viverem lá duas centenas de pessoas, se nada for feito de radicalmente diferente, daqui a 20 ou 30 anos não vai lá sobrar ninguém – Disse o Rúben que era a criança filha da Maria José do Zenão que tinha emigrado, primeiro, para Amesterdão onde aprendeu a arte de ourives e, depois, para a América para trabalhar na ourivesaria do tio, o Sr. Jonas.
Depois de o Sr. Jonas morrer, dado que os filhos não se interessavam pelo negócio, a sua quota na ourivesaria ficou para o Rúben.
O Rúben já estava velhote pelo que quem estava na ourivesaria era o seu filho mais novo, o Newman, nome escolhido em homenagem ao Newman Dessilva.
O Rúben por vezes ia à ourivesaria mas, a maior parte dos dias, passava-os na confraria onde encontrava os velhos amigos para conversar e para jogar umas cartas. Hoje de manhã encontrou o Alberto.
– Repare Sr. Rúben, vamos imaginar que a confraria abraça o projecto de refazer a comunidade que existia no dia do massacre, vamos supor que decidimos fazer tudo o que estivesse ao nosso alcance para fazer com que a Aldeia do Monte volte a ter vida, volte a ter milhares de habitantes. O primeiro problema será saber como podemos materializar essa vontade, onde é vamos arranjar as pessoas, de que cartola iremos tirar esses milhares de pessoas!
– Bem Alberto, no meu tempo havia um pouco mais de 9000 pessoas mas penso que não é preciso arranjar essas pessoas de um dia para o outro, sei lá, por exemplo, se fosse ao longo de 30 anos, só seriam precisas 300 pessoas por ano o que já me parece um número muito mais trabalhável.
– E acha que 300 pessoas por ano é um número mais trabalhável? O Sr. Rúben desculpe-me mas não acho um número nada trabalhável. Vamos fazer umas contas simples para o Sr. Rúben ver que esse número é uma enormidade inatingível. Estão registadas na confraria pouco mais de 3000 pessoas e temos uma média de 40 nascimentos por ano. Agora, para podermos arranjar mais 300 pessoas por ano, por cada criança que nasce, terão que nascer mais 7 crianças e meia, digamos que cada um dos nossos casal terá que ter, além dos filhos que já tem, mais 15 crianças! O Sr. Rúben perdoe-me a franqueza, mas isso é totalmente impossível, ninguém vai ter 15 filhos com o objectivo de os enviar para a Europa. Não é de todo possível até porque o nosso problema não é a falta de espaço nem de falta de perspectivas de futuro para as crianças aqui na América, o problema é os pais não quererem ter esses 15 filhos. Não é possível convencer as pessoas a ter 15 filhos além dos que já têm!
– Sim, realmente, dito assim já me parece impossível, obrigaria a que cada casal tivesse 17 ou 18 filhos. Tenho que dar a mão à palmatória, tenho que reconhecer que tal é impossível. E se reduzíssemos esse número para metade? Imaginando que os casais que vão para a aldeia também irão ter filhos, poderíamos enviar apenas 150 pessoas por ano!
– Apenas 150 por ano? Mesmo assim é impossível, não dá, não dá, não vale a pena desenvolver mais essa ideia porque não passa de uma ilusão, o Sr. Rúben desculpe mais uma vez a minha franqueza mas isso é um projecto sem pés nem cabeça, a Aldeia do Monte foi destruída naquela noite e, agora, está condenada à morte lenta mas total, ponto final. Seria preciso cada um dos nossos casais ter 10 filhos para, depois,  mandar a mairia essa aldeia dos nossos antepassados.
– Realmente, dito assim, também já me parece impossível. Mas também parecia impossível quando o Sr. Dessilva disse que 30 casais viriam para a América e, no final, viemos milhares de pessoas.
– Não dá Sr. Rúben, um filho dá muito trabalho a ter e a criar, quanto mais, ter e criar 10.

Capítulo seguinte (46 - A técnica)

domingo, 4 de outubro de 2015

44 – A destruição

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (43 - O mistério)    





44 – A destruição
– Mas vocês viram alguma coisa? Viram pessoas mortas, viram feridos, viram o que fizeram aos mortos?
– Bem, Sr. Dessilva, de facto não vimos nada disso, nós apenas ouvimos!
– Diga então homem o que ouviu que já estou a ficar nervoso.
– Ora então foi o seguinte: Como agora é Verão e os pastos estão muito longe da aldeia, nós o 5 passamos a noite no monte. Tínhamos as ovelhas cercadas num redil e estávamos a dormir quando, a meio da madrugada, acordamos com o ecoar de um grande estrondo que vinha dos lados da aldeia, seguido de tiros. Como se calhar já disse, do sítio onde estávamos não conseguíamos ver a aldeia mas eu cheguei-me ali abaixo ao miradouro a ver se conseguia descobrir o que se estava a passar.
– E viu alguma coisa?
– Vi mas, como estava noite fechada, não sei bem o que vi. Havia archotes acesos e pareceu-me ver militares dentro da aldeia. Também ouvi muitos tiros e, agora, gritos e também o sino e começou a tocar a rebate. Depois, voltei para junto dos meus companheiros para lhes contar o que tinha visto.
– Mas então, não viu nenhum morto nem ferido!
– Não, não vi porque estava muito longe e era noite fechada, só sei que o sino tocou muito tempo. Quando o sino se calou ficamos esperançados que o ataque tivesse acabado mas, no dia seguinte, começaram a aparecer aqui no monte pessoas que, disseram, vinham a fugir da Aldeia, agora está nevoeiro senão via um dos acampamentos onde estarão mais de 100 pessoas, estão acampadas a uns 3 quilómetros daqui, junto à ribeira. Elas é que referiram o que se tinha passado, repare, repare, vem ali uma delas, olhe ali! É o Pereira, oh Pereira, anda cá falar ao Sr. Dessilva, anda cá dizer o que viste!
O Pereira estava a uma distância de uns 100m, se tanto, e, ouvindo chamar pelo seu nome e vendo que estava ali o Sr. Dessilva, veio o mais rapidamente que as pernas o conseguiam fazer.
– Boa noite Sr. Dessilva – o Sol, no entretanto, já se tinha posto – boa noite, o Sr. Dessilva nem vai acreditar no que eu lhe vou dizer.
– Diga lá homem que eu sou só ouvidos!
– Estava eu a dormir e ouvi um grande estrondo seguido de tiros. Como, ultimamente, temos tido ataques para roubar ovelhas, pensei logo que fosse mais um mas, era vez. era diferente porque, em vez de entrarem em silêncio, usaram um bomba para deitar uma parte do muro abaixo. Depois, mal entraram, começaram aos tiros a tudo o que mexia, fossem, homens, mulheres ou crianças. Além disso, eram militares fardados e não ladrões vestidos de preto para não serem vistos.
– Mas o Pereira conseguiu escapar!
– Eu e muitas mais pessoas porque, primeiros, com o barulho do rebentamento, dos tiros e do sino a tocar a rebate fez com que toda a gente se tivesse levantado. Depois, vendo que esses militares disparavam contra as pessoas, toda a gente tentou fugir para o mais longe possível, saltar o muro e vir para o monte. Claro que muitas foram baleadas e morreram a tentar fugir. Se a noite e o nevoeiro permitiram que os atacantes tivessem chegado à aldeia sem serem vistos, também permitiram que muitas pessoas tivessem escapado como eu.
– Mas então o Pereira viu mortos!
– Se vi, vi centenas e centenas de pessoa a serem abatidas a tiro, caminhei sobre centenas de cadáveres, eu só escapei entre as balas por sorte do destino e porque os militares não conseguirem ter poder de fogo suficiente para matar toda a gente que tentava fugir.
– Meu Deus, eu não posso acreditar no que me está a dizer, isso não pode ter acontecido!
– Mas acredite que aconteceu, quem não conseguiu fugir, neste momento está morto. Eu consegui esgueirar-me pelo meio dos campos, saltar o muro e refugiar-me no mato mas vi muitas pessoas a cair à minha direita e à minha esquerda. Uma das que caiu foi a minha mulher e não sei nada das minhas crianças que também devem estar mortas.
– Então o Pereira viu os cadáveres?
– Se vi, como já lhe disse, vi centenas e centenas de cadáveres, centenas de pessoas baleadas e ainda a gritar por socorro humano e por misericórdia divina.
– Desculpe mas eu não posso acreditar nisso, vou ter que ver com os meus próprios olhos. O Pereira disponibiliza-se a vir comigo até um sítio de onde eu possa ver a aldeia? Não é que eu desconfie do que está a dizer mas estou a rezar a Deus para que seja mentira, a maior alegria da minha vida seria o Pereira ser um mentiroso e ter, apenas, sonhado com isso.
– Sr. Dessilva, eu também queria que assim fosse mas não é. Vamos arrancar já, vamos usarmos a noite para nos podermos aproximar sem sermos vistos, o Sr. Dessilva vai ter que vestir um casaco escuro pois, com essa roupa clara, vão avistá-lo da aldeia, o que pode ser perigoso. . Com a noite e o nevoeiro, estamos a 4 horas de distância da aldeia, se partirmos agora, teremos tempo para nos aproximarmos, vermos o mais que conseguirmos ver e ainda voltarmos antes de ser novamente dia.
– Vamos então.
Lá foram o Dessilva e o Pereira. Passado pouco mais de horas de marcha, avistaram a aldeia no meio do nevoeiro, ainda a um par de quilómetros. O Dessilva tirou a sua luneta e começou a perscrutar a aldeia à procura de pessoas. Realmente, não via vivalma, todas as casas estavam destruídas, iluminadas por uns braseiros já quase apagados. O muro da aldeia também estava, em parte, caído, talvez por acção da bomba.
– Pereira, olhe aqui pela luneta, realmente não se vê vivalma e parece que foi tudo arrasado, nem a igreja escapou, mas como podemos ter a certeza de que mataram as pessoas?
– Sr. Dessilva, acredite que quem ficou para trás está morto, apenas escaparam as pessoas que conseguiram fugir para o monte. Eu penso que esses braseiros serviram para incinerar os cadáveres porque, enquanto subíamos o monte, começamos a sentir um cheiro muito forte a carne queimada que penso ter vindo desses braseiros.
– Mas também poderia ser a queimar animais, o cheiro da lã queimada é muito forte! Não será possível que tenham levado as pessoas para o Vale?
– Não Sr. Dessilva, acredite que não levaram ninguém. Até era possível que tivessem levado os rapazes para os vender aos turcos como escravos e as raparigas para abusar delas mas não foi isso que aconteceu. Vamo-nos aproximar um pouco mais que penso ser seguro pois já não se vê nenhum dos atacantes.
– Vamos então que também me parece que já não está lá ninguém.
Aqueles dois homens foram-se aproximando com cautela pois ainda poderia estar alguém à espreita para os matar mas não havia ninguém. Entraram na aldeia numa parte em que o muro estava caído e foram caminhando, por entre as casas destruídas, a caminho dos braseiros.
Os braseiros eram numas valas com 3 ou 4 metros de largura, escavadas no terreno inclinado. Assim, eram abertas de um lado e prolongavam-se pelo terreno uns 15 ou 20 metros. Realmente, o braseiro resultava de terem sido feitas fogueiras misturando as madeiras que saíram da demolição das barracas com os cadáveres dos habitantes da aldeia. Aqueles braseiros arderam durante dias e dias e, agora que já não havia mais cadáveres nem madeira para queimar, estavam a chegar ao seu fim. Ainda se viam ossos humanos vermelhos, cor de brasa.
– Bem, agora não tenho dúvida de que aconteceu mesmo a destruição da nossa aldeia, nem a Igreja escapou! Só nos sobra voltar para Norte e começar já a trabalhar para que as pessoas que estão perdidas pelo monte se possam salvar.

Capítulo seguinte (45 - A lei do retorno) 

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

43 – O mistério

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (42 - O lucro)    




43 – O mistério
Apesar das cartas de chamada, da garantia de que as pessoas tinham emprego e alojamento garantidos e de haver algum fundamento na lei para que os vistos fossem emitidos, as dificuldades eram mais do que muitas. Então, o Levinstone, mesmo contra os seus princípios, teve que seguir o conselho do Jonas, mediante um suborno de 1000€ por cabeça a um funcionários bem colocado, as dificuldades desapareceram. Com os vistos na mão e trabalho lucrativo para as pessoas da aldeia, no terceiro inverno fizeram-se 5 viagens que somaram 160 jovens e algumas dezenas de crianças o que implicou um investimento ligeiramente superior a 600 mil €. Mas foi um bom investimento pois os lucros aumentaram de 10000€ por semana para 35 mil € por semana.
No quarto Inverno, movidos pela ganância do Levinstone, do Goldman e do Dacosta, a chegada dos jovens acelerou ainda mais. O Sr. Costa saia da Aldeia na segunda feira de madrugada, pernoitava na estalagem e, na terça feira à noite chegava à cidade onde os jovens e algumas crianças embarcavam na carruagem de carga. Depois, voltava para a aldeia onde chegava na quinta - feira à noite, começando imediatamente a preparar a viagem da próxima segunda-feira.
As pessoas partiam no comboio da teça-feira à noite e, na quinta-feira, quando chegavam à fronteira, estava lá o Sr. Dessilva à espera, para o caso de haver algum problema. Depois, seguiam até Amesterdão na companhia do Sr. Dessilva que tratava do embarcar das pessoas no transatlantico. Tudo feito de forma célere para que pudesse estar na fronteira na quinta-feira seguinte.
Semana após semana, a aldeia perdia 32 jovens e algumas crianças, sempre mais do que 10, que se iam reunir com os pais.
O Dacosta já geria um prédio inteiro, com mais de 20 apartamentos e estava a negociar outro. O Levinstone, além da construção civil, tinha expandido os seus negócios para a metalomecânica e o Goldman tinha crescido enormemente estando agora a fornecer fardas para a polícia.
Os lucros eram enormes pelo que, mais e mais pessoas foram sendo chamadas, a ponto de as viagens se terem prolongado pela Primavera, pelo Verão e, novamente, pelo Outono e novamente pelo Inverno sem interrupção. Saiam tantos jovens a ponto de, na Aldeia, praticamente deixar de haver pessoas com idades entre os 20 e os 30 anos. O Estalajadeiro, o chefe da estação, o funcionário da imigração, o Levinstone, o Goldman e o Dacosta parece que tinham encontrado uma mina de ouro.
Uma certa quinta-feira, o Dessilva estava na fronteira e, quando chegou o comboio, ficou estranho de não vir atrelada no fim a carruagem de carga que deveria trazer os jovens em transito para a América. Foi falar com o chefe da estação alegando que estava à espera de uma carga que não tinha chegado.
– Realmente, eu sei que todas as semanas vem uma carruagem com carne de porco salgada cujo destino é Amesterdão e o destinatário é o Sr. Newman Dessilva mas hoje, estranhamente, não veio nada. Acho estranho até porque o meu colega costuma sempre mandar um telex a anunciar que a mercadoria foi verificada não precisando de ser vista e hoje não disse nada. Deixe que eu mando um telex ao meu colega da estação onde a carruagem costuma ter origem.
Passado um pouco, veio um funcionário trazer um papelinho ao Sr. Dessilva com o telex que tinha chegado e que dizia apenas que “O fornecedor, o Sr. Costa, não apareceu. Vieram hoje dois almocreves à estação dizer que estão à espera que o Sr. Dessilva venha para tentar resolver o problema grave que aconteceu com a mercadoria.”
O Dessilva ficou preocupado. “O que será que poderá ter acontecido? O mais certo é que as pessoas tenham sido interceptadas à chegada da aldeia do Norte e reenviadas para o Monte. Tenho que partir imediatamente.”
Quando o Dessilva chegou à Cidade, ao descer os dois almocreves que vieram da aldeia tentar encontrar o Sr. Dessilva viram-no do fundo da estação e desataram a correr.
– Sr. Dessilva, Sr. Dessilva, Sr. Dessilva, graças a Deus que veio – gritaram os almocreves enquanto corriam para junto do Dessilva. Neste momento criou-se um certo rebuliço pois os almocreves não podiam entrar no cais de embarque antes de receberem ordem.
– Calma, calma, estou aqui, as malas estão aqui dentro – disse o Dessilva com a mão no ar também para acalmar as restantes pessoas.
– Sr. Dessilva, Sr. Dessilva, aconteceu uma tragédia, uma tragédia terrível. Aconteceu o pior – gritaram ainda à distância os almocreves. Os outros almocreves, com os burros, também se foram aproximando a passo ligeiro da carruagem do comboio onde era preciso ir buscar as malas dos outros passageiros.
– O quê, o que estão para aí a dizer? – É que, como as viagens estavam a correr tão bem, o Dessilva já se tinham esquecido da contínua ameaça que pairava sobre as pessoas da aldeia.
– Mataram quase todas as pessoas da aldeia, ainda fugiram algumas para o monte mas a maior parte morreu, nem o Padre Augusto escapou!
Como as outras pessoas que estavam no cais ouviram a conversa, gerou-se um burburinho “Mataram quem? Quem é que morreu? De que aldeia está ele a falar?”
– Isto não é nada, estes meus carregadores estão a delirar, estão com muita febre e já não comem há vários dias pelo que não dizem coisa com coisa – e, em simultâneo piscou o olho aos almocreves a quem disse baixinho, pensando mesmo que estavam a delirar, “Chiu que esta gente não pode ouvir isso que estão a dizer, vamos falar ali para o fundo. Moços, carreguem as malas e vamos lá para fora.”
O Dessilva não acreditou em nada do que os almocreves tinham acabado de dizer querendo apenas saber o que tinha acontecido, porque a viagem não tinha sido feito e onde estava o Sr. Costa.
– Já lhe dissemos Sr. Dessilva, não houve viagem porque mataram as pessoas- O Sr. Costa está de cabeça perdida, anda pelo monte à procura da Menina Dulcinha que não se sabe se está vivo ou morta. Precisamos da ajuda de alguém pois, neste momento, as pessoas que conseguiram fugir andam perdidas pelo monte, centenas, sem terem abrigo nem o que comer.
– Arranjem então os burros para partirmos imediatamente para a estalagem que ainda temos muitas horas de viagem.
– Mataram tanta gente, velhos novos e crianças – não se cansavam os almocreves de repetir como que em estado de transe.
– Isso não pode ser, vocês estão a confundir, mas vocês viram isso? Viram alguém morto?
– Bem, nós não, pois não chegamos a ir à aldeia. Depois de termos deixado as pessoas no comboio, fizemos a viagem de retorno com o Sr. Costa e, já no meio do monte, encontramos pastores que nos disseram para não voltarmos para a aldeia porque tinham-na destruído e matado quase toda a gente. O Sr. Costa não acreditou pelo que nos aproximamos um pouco da aldeia para vermos o que se tinha passado mas, no entretanto, cruzamos com muitas pessoas que vinham a fugir e tivemos medo. O Sr. Costa continuou viagem sozinho a ver se sabia notícia da filha.
– Eu não me acredito, onde é que estão essas pessoas que fugiram?
– Estão no monte Sr. Dessilva. O Sr. Dessilva precisa fazer um milagre para que não morra toda a gente, são precisos cobertores e comida.
– Só posso actuar de+pois de saber o que realmente aconteceu, Temos, tenho, que ir até lá para ver com os meus próprios olhos.
“Claro que poderia ter havido uma ataque e que poderia ter havido mortos mas quase todas as pessoas? Isso era impensável, era impossível, matarem milhares de pessoas sem mais nem menos? Aquela notícia tinha que estar exagerada e em muito.” – pensou o Dessilva.
Chegaram à estalagem já noite fechada. O Dessilva tentou saber notícias junto do estalajadeiro. Realmente dizia-se que tinha acontecido algo na aldeia do Monte mas ninguém tinha visto nada. Eram um diz que disse de que tinham matado “quase todas as pessoas”. Mas não havia confirmação de nada.
No dia seguinte, ainda o Sol não tinha nascido, o Sr. Dessilva partiu com os dois almocreves em direcção ao Monte. Partiram mesmo sem a protecção de pastores imaginando que a veio da viagem encontrariam alguém com cães.
Apesar de não acreditar de que tivesse acontecido uma tragédia como a relatada, o Sr. Dessilva, decidiu que “à cautela, vamos levar cobertores para podermos passar a noite ao relento e mantimentos que dêem para 5 dias, suficientes para a viagem de ida e de volta.”
Quando chegaram ao cimo do monte, ainda não eram 12h, avistaram ao longe um rebanho de ovelha com dois ou três pastores. O Sr. Dessilva tirou uma luneta do bolso para tentar descobrir se os pastores eram realmente da aldeia. “Vamos ao encontro deles que são dos nossos, assobiem-lhes!” Como os pastores estavam já na encosta, passado pouco mais de meia hora, deu-se o encontro com o primeiro pastor.
– Então o que se passou lá em baixo? – perguntou o Dessilva.

– O Sr. Dessilva nem vai acreditar, mataram toda a gente e levaram as ovelhas e tudo de valor que havia na nossa aldeia. Neste momento só lá estão os militares que vieram do Vale.

Capítulo seguinte (43 - A destruição)

domingo, 27 de setembro de 2015

42 - O lucro

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (41 - A notícia)    




42 – O lucro
Os meses foram passando e tudo foi correndo bem. Um dia, decorridos já quase 6 meses desde que chegou a segunda fornada de europeus, depois do almoço, o Levinstone apareceu na ourivesaria do Sr. Jonas.
– Boa tarde Jonas, então como vai essa vida?
– Boa tarde Levinstone, a que devo esta honra? Apareceres por aqui assim sem aviso está-me a deixar um pouco preocupado! Será que se passa alguma coisa com os europeus? Será que voltaram os problemas?
– Não, não, nada disso, está tudo a correr muito bem. Eu passei por cá apenas para conversar um pouco contigo sobre o investimento que fizeste na viagem e também queria saber se tens tido notícias do Dessilva.
– Sim, tenho tido, sente-se bem por lá, já lhe perguntei quando pensa voltar pois está-me a fazer falta aqui mas ele está muito apegado às pessoas que lá vivem, diz que sofrem muito.
– Pois o António também me tem dito que há por lá muita miséria.
– Pois até pode ser assim mas não vejo o mais que possamos fazer. Tu com o Goldman e do Dacosta já fizeram um grande investimento e ainda estão a mandar 3000€ por mês para ajudar as crianças. Eu e o Dessilva também tivemos que fazer um grande esforço financeiro para que estas viagens pudesse ir para a frente. Por isso, penso que não há nada mais que possamos fazer!
– Sim, não podemos fazer mais nada, para mim não é tanto a questão financeira mas já não tenho idade para ter mais dores de cabeça. Mas eu vim aqui não foi para falar dos que vivem na aldeia mas sim para falar do teu investimento e das pessoas que estão cá. Estive a falar com o Goldman e decidimos devolver-te o dinheiro que meteste no projecto, tu e o Dessilva.
– Darem-nos os 100 mil €?
– Sim, sim e com 25% de juros. Também pensamos em aumentar o salário que estamos a pagar aos nossos irmãos europeus, é que estamos com remorsos de lhes estarmos a pagar tão pouco ... Mas, como tu és o promotor da vinda das pessoas, tenho que te vir perguntar o que achas desta nossa ideia.
– Mas vocês não me podem pagar e aumentar os salários pois têm primeiro que recuperar o vosso investimento! As pessoas quando vieram para cá foi com a condição de terem esse salário durante 5 anos e ainda estamos muito longe dos 5 anos!
– Mas nós já recuperamos o investimento e já temos 125 mil € para te pagar.
– Mas recuperaram o investimento como? Mas que investimento?
– Os 225 mil euros que metemos no projecto!
– Não pode ser! Vocês já recuperaram o capital que meteram no projecto?
– Está totalmente recuperado, temos 125 mil euros para te dar e ainda mais 100 mil euros para o nosso lucro. Pensei que já o soubesses! Cada semana, estamos a ter um lucro na ordem dos 10 mil €. Por isso é que te vim dizer que te queremos devolver o dinheiro que tu e o Dessilva meteram no projecto.
O Jonas ficou calado durante longos segundos, a pensar, olhando para o ar, abanando a cabeça, franzindo os olhos.
– O que dizes Jonas? Toma lá o cheque dos 125 mil €. Então, não dizes nada?
– Não, não, não, não, estava aqui a pensar, esta tua informação colheu-me totalmente de surpresa, é que eu nem tinha pensado nisso Como, depois de teres feito muitas contas, tinhas dito que o salário não poderia ser maior, imaginei que irias demorar os 5 anos a recuperar o investimento e que, portanto, por agora estarias sem dinheiro!
– Sim, mas enganei-me nas contas, o investimento já está recuperado e já tivemos o lucro que esperávamos ter. Por isso, comecei a sentir remorsos por estar a ter um lucro tão grande à custa dos nossos irmãos europeus!
– Pois, mas o meu pensamento é diferente, se estes vieram com a obrigação de trabalhar com este salário, assim devem continuar, vocês não os podes aumentar.
– Mas assim vou ficar ricos à custa deles!
– Isso não é para aqui chamado, eles comprometeram-se a determinadas condições e, se tu estás a ter lucro, também poderias estar a ter prejuízo, foi um negócio que fizeram. Além do mais, tu ficas risco mas eles também ficam contentes por terem sido resgatados da miséria. A questão que eu estava agora a pensar é que, sendo assim, já há dinheiro para podermos mandar vir mais uma fornada de pessoas. O Dessilva disse-me que há muitas pessoas na aldeia que querem vir para cá e essa margem de lucro tem que se manter porque é um incentivo para que tu te esforces para que essas pessoas possam vir.
– Mas, Jonas, não podemos mandar vir mais ninguém! Como é que vamos convencer os da imigração? Se foi difícil arranjar autorização de entrada para os 64 que cá estão, agora, não vamos conseguir os vistos de entrada.
– Estás a ver o que eu estava a dizer? Já desanimaste! Agora imagina que, se vocês investirem esses 225 mil € na vinda de mais 64 pessoas, se te esforçares a arranjar o visto de entrada, o teu lucro vai duplicar! Eu quero é que te esforces e que, mesmo que movido pela ganância, mandes vir mais pessoas, os rapazes para ti, as raparigas para o Goldman.
– Oh Jonas, amigo, mas eu não faço ideia de como vou convencer os da imigração!
– Eu, conhecendo-te como conheço, sei que vais encontrar uma solução, se for preciso, suborna-os! Não me interessa, vira-te como puderes que o lucro está à tua espera, do Goldman e do Dacosta. Leva o cheque de volta e trata de mandar vir mais gente.
– Eu não tinha pensado assim! Se achas que eu tenho direito a esse lucro, vou então falar com o Goldman e com o Dacosta, vou ver as obras que há por ai a ver se arranjo trabalho para mais homens! Pelo Dacosta, penso que não haverá problema com os apartamentos mas não sei se o Goldman terá capacidade para meter as mulheres, já está a trabalhar de dia e de noite. Vou então falar com eles.
O Levinstone foi pela rua em direcção à obra a matutar no problema moral de estar a enriquecer à custa dos irmãos europeus. “Vou falar com o António a ver o que ele diz”.
– Boa tarde António, preciso colocar-te uma questão.
– Boa Tarde Sr. Levinstone, espero que não seja nenhum problema cabeludo!
– É um problema mas não desses que estás a pensar. Quando o Jonas e o Dessilva nos pediram para vos mandar as cartas de chamada, propusemos o salário de 3,50€/h para os homens e 2,50€/h para as mulheres porque imaginamos que a vossa capacidade de trabalho seria pouca. Acontece que, agora, achamos que vos estamos a explorar e, por isso, tínhamos pensado em vos aumentar o ordenado!
– Isso não me parece problema nenhum Sr. Levinstone, isso é uma óptima notícia!
– Sim, mas agora vem o problema. Como sabes, o Jonas, juntamente com o Dessilva, foi o promotor da vossa viagem e, por isso, é ele que tem a última palavra. Assim, fui falar com ele e, estranhamente, ele é contra!
– É contra? Mas isso não o afecta em nada! Porque razão é o Sr. Jonas é contra essa ideia?
– Argumentou ele que, havendo muitas mais pessoas na aldeia que querem vir para cá, que vocês foram os escolhidos mas que poderiam ter sido outros, que é vossa obrigação trabalhar a esse salário para que a margem de lucro me incentive a mandar vir mais pessoas da aldeia. O que é que pensas disto?
– Antes de poder responder, preciso saber se, no caso de o Sr. Levinstone nos aumentar, manda depois vir mais alguém.
– Não, nem pensar nisso, já tenho dores de cabeça que cheguem e não vou conseguir arranjar os vistos na imigração!
– E, se mantiver o nosso salário, manda vir mais pessoas?
– Bem, sabes como é a ganância humana! Se mantiver a margem de lucro que o contrato me permite ter, talvez ganhe ânimo, talvez me esforce para que venham mais pessoas. Até já estou a pensar em arranjar um sócio e procurar uma nova obra onde possa meter as pessoas.
– Então Sr. Levintone, não tenho dúvida nenhum. Mantenha os nossos salários como estão no contrato e esforce-se para que os nossos irmãos possam vir porque, lá na aldeia, estão a sofrer muito. Nós temos um contrato consigo de 5 anos e, tanto nós como todos os outros que mandar vir, iremos cumprir esse contrato até ao último dia. O Sr. Levinstone não tenha remorsos disso pois, se está a ganhar dinheiro, para nós e para todos os que vai mandar vir, o ganho é muito superior.
– E achas que, se arranjássemos vistos, quantas pessoas haverá na aldeia a querer vir?
– Meu Deus, mesmo com as condições impostas pelo Sr. Dessilva, nós fomos escolhidos de entre mais de mil candidatos! Se o Sr. Levinstone puder mandar vir mais 64 pessoas, ainda ficam centenas e centenas à espera sem poderem vir. Mas se não conseguir mandar vir 64, que venham os que for possível, nem que seja uma só pessoa já será melhor do que nada!
– O problema vai ser arranjar os vistos, vou falar com o Goldman a ver o que ele pensa.
– E eu queria também pedir uma coisa ao Sr. Levinstone que talvez o deixe aborrecido.
– Diz lá António, estou aqui para ouvir a ver se é possível.
– Gostávamos de mandar vir algumas das nossas crianças. Já cá estamos há mais de um ano, temos dinheiro para o bilhete, emprego, casa e, por isso, penso que já podemos mandar vir alguns dos nossos filhos. Eu também mandava vir o meu filho  mais velho, falei no talho e eles empregam-no. Se o Sr. Levinstone falasse com os seus sócios e achassem bem, mandávamos vir algumas crianças.
– Mas António, isso vai custar dinheiro, a viagem das crianças menores que 12 anos é só meio bilhete mas, depois aqui, vai ser preciso o alojamento e a alimentação!
– Se o Sr. Levinstone autorizar, nós cá nos arranjaremos, a minha nora fica a tomar conta das crianças. 
– Eu não vejo porque não hão-de vir, vou então também tratar disso, para que também possam vir algumas crianças.

Capítulo seguinte (43 - O mistério)

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