quarta-feira, 13 de julho de 2022

O modelo de negócio das "trotinetes partilhadas" está completamente errado.

Este poste serve para introduzir conceitos de gestão "Modelo de Negócio".

Uma empresa pega em inputs (bens e serviços intermédios e matérias-primas) que, com trabalho e capital (equipamento, instalações e conhecimento) transforma no output (outros bens e serviços finais ou intermédios) que têm mais "valor" do que o custo de produção. A diferença, em termos de preços, será o lucro da empresa:

  Lucro = Preço de venda do output - (Preço dos inputs + Capital + Salários) 

Uma empresa para ser viável tem de ter um lucro, pelo menos, ligeiramente positivo.


Vamos ao Modelo de Negócio das trotinetes partilhadas.

Para o comum dos mortais, está certo o dito popular de que "já está tudo inventado" mas, para o empreendedor, existe disponível todo um mundo de novos produtos e novas oportunidades lucrativos.

Primeiro, o novo negócio tem de "criar valor", isto é, o valor atribuído pelos compradores ao novo bem ou serviço tem de ser maior do que o "valor destruído" na fabricação do produto. 

Segundo, o empreendedor tem de ser capaz de se apropriar de uma parte significativa desse valor criado.

Terceiro, a margem do empreendedor está limitada pelas alternativas que já existem no mercado, isto é, pela concorrência.


O valor criado pelas trotinetes partilhadas.

A pessoa pretende deslocar-se do ponto A para o ponto B, distantes 7,5km entre si. 

Se a pessoa for a pé, demora 2 horas. 

O valor da viagem da trotinete está em reduzir o tempo da viagem de 2 horas para 30 minutos. 

Supondo que a pessoa tem a trotinete em A e a pode deixar em B e que o custo do tempo são 10€/hora, então a viagem de trotinete cria um valor de 15€.


Agora, vamos ao custo de produção do transporte (o valor "destruído").

Vamos supor uma Trotinete Eléctrica Xiaomi Mi Electric Scooter Pro 2 que tem um preço de 445€,   uma autonomia de 40km (a 15km/h) e aguenta o equivalente a 500 cargas completas (20000km).

Custo = (445/20000 + 0,01)*7,5 = 0,25€ por viagem.


Se não houvesse concorrência.

A empresa vai poder cobrar um preço algures entre 0,25€ e 15€ por cada viagem.

Como o taxi tem um preço de 7,60€, a trotinete não pode cobrar mais do que este preço.

A trotinete BIRD/CIRC (é a mesma empresa) tem um preço de 5,50€ por viagem (1€ + 0,15€/min).


O preço da trotinete partilhada é 22 vezes o custo da trotinete pessoal!

Sendo que as trotinetes pessoais têm um custo na ordem dos 0,25€/viagem, o preço das trotinetes partilhadas é extraordinariamente elevado pelo que será de pensar que a BIRD/CIRC tem lucros enormes.

Nada mais errado pois a empresa tem é enormes prejuízos!!!!!!!!!! 

Em 2021 a empresa teve uma faturação de cerca de 200 milhões de euros para pagar custos na ordem dos 400 milhões de euros!!!!!!!

A empresa só seria rentável se cada pessoa tivesse pago 11€ por viagem, mais do que cobra um taxi (e que pode levar até 4 pessoas).


O que estará errado no Modelo de Negócio?

Está nos custos acrescentados para ser possível cobrar o preço ao consumidor.

A empresa tem um produto, a viagem de trotinete, que custa 0,25€ a produzir mas que, depois, precisa de um custo de 10,75€ para poderem ser cobrados os 0,25€!!!!!!

Digamos que a empresa incorre no grave erro de gestão de ter um "custo da embalagem e gestão" que é 43 vezes o custo de produção do produto.

Seria como ter um pão que custa 0,10€ a produzir mas, porque é entregue embrulhado em seda e por uma limusina, fica em 4,40€.

Não faz qualquer sentido.


Em que sentido tem de ser alterado o modelo de negócio?

A trotinete partilhada tem de se aproximar da trotinete pessoal o que se consegue alterando radicalmente o relacionamento com a trotinete partilhada.

O cliente toma a trotinete e só a vai deixar quando já não precisar dela. 

     Preço = 1€ por dia + 0,10€ por km + 0,50€ por troca + 2,50€ pela carga.

Será obrigação do cliente "tomar conta" dela. 

Se o cliente tiver necessidade de a deixar num local, esta fica bloqueada à sua espera. Se o cliente tiver necessidade de a deixar e apanhar outra noutro local, terá de pagar mais 0,50€.

Se o cliente carregar a trotinete, não precisa pagar a carga.

Se, por exemplo, o turista ficar 5 dias na cidade, percorrer 40 km por dia, pegou a trotinete com 90% de carga e devolve-a com 60% de carga. Terá de pagar.

     5*1,00€+ 40*5*0,10€ + (90%-60%)*2,50€ =25,75€

Se, um cliente pega de manhã a trotinete à saída do comboio com 90% de carga, faz 10km, demora 40 min e devolve-a com 75% de carga. Terá de pagar:

     1,00€ + 10*0,10€ + (90%-75%)*2,50€ =2,38€

Pegando noutra trotinete à noite para fazer o trajecto de volta, vai pagar 1,88€ (um total de 4,25€).

Se o cliente tomou uma trotinete com 30% de carga, ficou com ela no gabinete e devolveu-a com 85% de carga, vai pagar menos:

    1,00€ + 20*0,10€ + (30%-85%)*2,50€ = 1,63€

Este preço passa a ser inferior ao preço de um bilhete de autocarro.


Como é possível o cliente pagando muito menos para a empresa passar a ter lucro?

É que, ao considerar a possibilidade de o cliente tomar conta e carregar a trotinete, os custos de gestão ficam extraordinariamente diminuídos.

O cliente, durante algum tempo, vai considerar a trotinete como se fosse sua.


Vamos à minha trotinete particular.

Comprei-a no dia 1 de Abril e, em 100 dias fiz 1100 km, uma média de 11km por dia.

No entretanto tive um acidente a 20km/h que me obrigou a levar 3 pontos e a fazer um TAC. Por causa disso, ando agora de capacete (bem me diziam que deveria ser obrigatório). Ganhei respeito ao asfalto!

A principal regra de segurança é nunca tirar a mão do guiador, seja em que circunstâncias for. 

A segunda regra é olhar para trás apenas ligeiramente pois existe a tendência de, ao olhar para trás, guinarmos o guiador.

A terceira regra é abordar os obstáculos sempre na perpendicular

Mesmo as riscas brancas das passadeiras, porque têm uns milímetros de altura e são escorregadias, instabilizam a marcha. Nunca tentar subir da estrada para o passeio, mesmo quando este é rebaixado, sem ser na perpendicular.

A quarta regra é, em caso de dúvida, travar (que a queda será a menor velocidade :-).


Meti-lhe uma segunda bateria.

Em termos tecnológicos, quero falar deste projecto de engenharia.

A minha trotinete, AOVOPRO, não tem as características anunciadas (tem menos potência e menos autonomia) pelo que protestei pedindo que me enviassem outra bateria.

Depois de pensarem um bocadinho, mandaram-me uma bateria nova e eu decidi junta-la à que lá estava.

O meu irmão Rui (que é engenheiro na Toyota) abriu o compartimento da bateria, soldou uns cabos em paralelo aos cabos que saem da bateria (só cortou o isolamento, não chegando a cortar nenhum cabo) e colou a nova bateria ao poste do guiador.

Ligou o fio vermelho ao fio vermelho e o fio preto ao fio preto e já está, muito simples e ficou a funcionar perfeitamente bem.

Esquema da ligação em paralelo da segunda bateria (que ficou colada no exterior). A bateria tem de ter "controlador interno" mas não é preciso mudar o carregador nem fazer qualquer alteração interna.

As alterações que aconteceram.

Uso exactamente o mesmo carregador mas agora demora o dobro do tempo a carregar. Se antes demorava 3h45m, agora demora 7h30m. Isto é um inconveniente para quem tem muita pressa mas tem a vantagem de aumentar a duração da bateria (quanto mais lentamente se carregar, mais cargas a bateria aguenta).

A autonomia duplicou de 20km para 40km (a 15km/h). Isto traduz que a bateria que me enviaram é exactamente igual à bateria que estava instalada na trotinete (e que eu pensava ter um problema!).

Se andar a 30km/hora, a autonomia diminui para 30km.

Os modos de limitação de velocidade (ECO, LENTO e SPORT) descomandaram-se (aumentaram substancialmente) mas o limite fino (em km/h) continua a funcionar bem.

A relação entre a "carga da bateria" do computador de bordo e a autonomia alterou-se. Pego na carga indicada, multiplico por 52km e subtraio 12km para obter os quilómetros que ainda me sobram.

Relação entre a carga indicada e a autonomia (a 15km/h).

Estou muito contente com a trotinete.

É uma enorme liberdade estar num sítio qualquer e decidir "Vou ver aquela coisa que está a 5km daqui" e percorrer essa distância sem qualquer custo.

Já andei de comboio com ela e correu muito bem. Tem apenas o inconveniente de dentro da estação não se pode andar em cima dela (se estiverem a ver :-).

Aconselho a todas as pessoas mas reforço, capacete, roupa com manga comprida, nunca tirar a mão do volante, nunca olhar para trás nem tentar subir obstáculos na diagonal.

1 comentários:

Anónimo disse...

Não será que a empresa vende a informação obtida, dados de utilização, utilizadores, percursos, etc. a terceiros ?

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