domingo, 1 de maio de 2011

O não cumprimento dos serviços mínimos tem que doer

A minha primeira medida de médio prazo
É terminar com as greves nas empresas públicas que dão centenas de milhões de euros de prejuízo por ano e que são autêntico terrorismo social. Terá que ser criminalizado o não cumprimento dos serviços mínimos e o seu não cumprimento tem que passar a ser justa causa para o despedimento.
A chave para a eficiência é a concorrência
Imagine que se propõe correr a Maratona de Santo Aleixo dos Mendigos pelo prémio do 1.º lugar que são 1000€. Se não houver mais concorrentes, não vai treinar. Chegado o dia, vai a passo, pára para almoçar, dorme uma sesta, depois faz mais um pouco, lancha numa esplanada e, quando chegar à noite, com sorte já vai a meio. Paciência. Acaba-se amanhã, se Deus quiser. Senão, é mais dia, menos dia. Os 1000€ já estão no papo.
Se houver mais concorrentes, já não pode ser bem assim. Para trazer o prémio vai ter que treinar e, na prova, andar ligeiro e esforçar-se.
Figura 1 – A concorrência aumenta o nível do desempenho
 A função dos sindicatos
A concorrência obriga-nos a um esforço redobrado, a ir buscar forças que nem sabíamos que possuíamos. Isto passa-se em todas as vertentes da vida até na economia.
Quando um agente económico não tem concorrência, um monopolista (um vendedor) ou monopsonista (um comprador), então, tem poder de mercado para impor o seu preço. Se tiver concorrência, perde esse poder porque há a alternativa do preço dos concorrentes: tem que se esforçar mais e baixar o preço para conseguir vender/comprar.
Relações económicas desequilibradas
A economia é feita de relações de troca entre partes que sofrem diferentes níveis de concorrência. Por exemplo, existem três operadores de telemóvel e 10 milhões de consumidores. Então, um operador tem mais poder de decidir o preço que um consumidor. Como a concorrência aumenta a eficiência económica então, quando existem poucos concorrentes, a lei proíbe que estes combinem as suas decisões: a Lei da Concorrência. Se houver muitos concorrentes, não é tão importante que alguns se combinem.
Quando só há três empresas no mercado, se os seus administradores se reúnem a jogar um golfezinho, a Entidade da Concorrência fica logo de orelha guiada.
Figura 2 – É só um joguinho. Não estamos a combinar nada.

No sec. XIX, a relação entre as empresas e os seus trabalhados era muito desequilibrada: por um lado, as empresas tinham poucos concorrentes (a contratar trabalhadores) e, por outro lado, os trabalhadores tinham muitos concorrentes (a oferecerem-se para trabalhar). Então, os salários eram bastante menores que a produtividade do trabalho. Isso já não se passa actualmente. Por exemplo, em Portugal, o salário médio pago pelas grandes empresas é 3.3 vezes o salário médio pago nas pequenas empresas.
Figura 3 – Dimensão das empresas, peso no emprego, nos salários e salário médio (Fonte: INE, 2007)

Claro que os políticos portugueses, do BE ao PP, falam muito que as nano-micro-mini-médias empresas são muito boas e que as grandes empresas são o diabo mas é por serem demagógicos e isso, pensam, dar votos.
Figura 4 – Nano-micro camião TIR
Justificado na hipotética mas inexistente falta de concorrência na contratação de trabalhadores, foi permitido que os trabalhadores se associassem em sindicatos e combinassem os salários. Essa autorização, em violação da Lei da Concorrência, favorece os trabalhadores (que são 38% da população, fonte: INE) mas desfavorece todas as outras pessoas (que são 62% do total).
O efeito dos sindicatos e da greve
O efeito dos sindicatos é negligenciável porque, primeiro, os trabalhadores são móveis entre sectores de actividade, segundo, é pequena a percentagem de trabalhadores sindicalizados e, terceiro, existem muitos sindicatos.
Mesmo o direito à greve não tem efeito quase nenhum porque as empresas portuguesas têm excesso de stocks de forma que um atraso na entrega de um ou dois dias não causa prejuízo. Além disso, nas nossas empresas os custos variáveis são a principal componentes pelo estar parada é quase igual a estar em laboração. Como a greve tem pouco efeito e o trabalhador deixa de receber o salário, quase ninguém faz greve.
O terrorismo social
Como os trabalhadores querem ter muito poder de pressão chamando para si salários superiores à sua produtividade e não são capazes de o fazer contra os seus empregadores, têm que usar meios contra a sociedade. A questão já não é a greve causar a máxima pressão sobre a empresa mas pretende causar o máximo prejuízo ao país. Isso acontece, principalmente, nas empresas públicas que são monopolistas.
Como pode um camionista parar o camião no meio da autoestrada, atirar pedras a outros camiões e não lhe acontecer nada?
Vivemos num bananal.
A CP, a REFER, a RTP, a TAP, a TRANSTEJO, etc.
Sob a desculpa de que prestam um serviço público, as empresas públicas são um prejuízo terrível. Para tentar diminuir o prejuízo, o Estado condiciona a entrada nestes sectores de empresas privadas transformando as empresas públicas em monopólios o que, já de si, é mau para a eficiência económica.
Como são monopolistas, se os trabalhadores fizerem greve, os clientes não têm alternativas. Então, a greve nas empresas públicas causa um grande prejuízo social. E a greve é sempre desenhada para causar o máximo prejuízo social com o mínimo custo: são sempre num dia da semana, das 7h às 9h.
Os governos, fracos e demagógicos, cedem ao ponto de um pica da CP ganhar mais de 2000€/mês (dados do CP). Resulta nas empresas públicas darem prejuízos colossais que temos que pagar.

As greves nas empresas públicas têm que acabar
Este problema já foi identificado e vertido na lei no Artigo 601.º  do Código do Trabalho - os serviços mínimos - que é uma forma de, mantendo o direito à greve, diminuir o terrorismo social. Mas ninguém cumpre o serviço mínimo e não acontece nada.
Os serviços mínimos terão que ser maximizados e, terão que ser feitas alterações legislativas de forma a que sejam mesmo cumpridos.
Aditamento ao Código Penal
Artigo XXX - Desobediência a ordem de cumprimento dos Serviços Mínimos
1 — Quem não obedecer a ordem legítima de cumprir serviços mínimos, dada por autoridade competente, com advertência de que a desobediência constitui crime, é punido com pena de multa de 60 dias de salário.
2 — Quem inibir outro de cumprir os serviços mínimos, é punido com pena de multa de 120 dias de salário.
3 — Quem, em acordo com o Art 601.º do Código do Trabalho, for requisitado e não cumprir os serviços mínimos, é punido com pena de multa de 240 dias de salário.


Aditamento ao Código do Trabalho
Artigo 601.º - Incumprimento da obrigação de prestação dos serviços mínimos
1 - No caso de não cumprimento da obrigação de prestação de serviços mínimos, sem prejuízo dos efeitos gerais, o Governo pode determinar a requisição ou mobilização, nos termos previstos em legislação especial.
2 - O não cumprimento pelo trabalhador requisitado ou mobilizado da obrigação de prestação de serviços mínimos, sem prejuízo da vertente criminal, é justa causa para o despedimento.
3 – A reincidência no não cumprimento da obrigação de prestação de serviços mínimos, sem prejuízo da vertente  criminal, é justa causa para o despedimento.
Figura 5 – Não queres trabalhar, rua
Pedro Cosme Costa Vieira

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O Passos Coelho não vai a Primeiro-ministro

As taxas de juro não param de subir atingindo os 12%/ano e o povo português não sabe o que fazer. Ainda agora as sondagens dão o Sócrates à frente do Passos.
O povo sabe que o Sócrates é mau e que nos levou à bancarrota, mas não tem confiança no Passos porque os dois são em tudo semelhantes: Desde pequeninos que são políticos; Obtiveram o curso em escolas manhosas; Têm um discurso com convicção mas sem conteúdo; A única experiencia de vida é a carreira no partido.
Tenho a convicção que o Passos dará um melhor Primeiro que o Sócrates mas não é uma convicção forte. Diz, desdiz, fala de coisas que não interessam, não diz nada sobre o importante, os do PSD atacam-no, ele responde torto. Tenho eu dúvidas e têm os eleitores.
O Pedro tem que fazer o sacrifício último de desistir de ser candidato a primeiro-ministro e indicar um nome que cause impacto. O PSD ganhando as eleições, o Passos vai para presidente da Assembleia da República.  
Ou isto ou nada porque o Sócrates vai ganhar. Em 2009, a Ferreira Leite também começou à frente do Sócrates, desvalorizou as sondágens e perdeu.
Figura 1 - Evolução das sondagens nas Legislativas de 2009
O Sócrates  em campanha eleitoral é mais forte que o Kadaffi.
O Vítor Bento ou o Bagão Félix são bons nomes para primeiro-ministro.
Mas um nome mesmo bom era eu. Eu tenho a certeza que dou um bom Primeiro.

Figura 2 - Io sono un primo-ministro così bella e non siamo in bancarotta
Eu mesmo a primeiro-ministro

Como o Churchill, só prometo sangue, suor e lágrimas.
No dia em que tomar posse, vou:
1) Decretar o fim dos Subsídios de Natal e de Férias nos salários e nas pensões.
2) Subir o IVA para 30%.
3) Permitir a subida a taxa de juro dos créditos à habitação.
Depois logo vou estudar os dossiês a ver onde cortar mais.
Garanto que Portugal não vai à bancarrota.
Amigo Pedro,
Sabes que não vais ganhar e Portugal precisa de um bom governo. Assim, tens que fazer o sacrifício de desistir de te anunciares como futuro Primeiro-ministro.
Anuncia já que indicarás para Primeiro-ministro o Pedro Cosme, para Ministro das Finanças o Bagão Felix, que ficas Presidente da Assembleia da República e que o Nobre volta para o Sri Lanka.
Portugal precisa de ti.
Um abraço,
Figura 3 - O amanhã de ontem é o ontem de amanhã. Não te safas.

Pedro Cosme da Costa Vieira

domingo, 10 de abril de 2011

O Tono do Passador morreu

Eu só me desloco à faculdade às terças e quintas-feiras.
Como me acabou de dizer a Joana, tenho um bom tacho. Levo uma vida simples pelo que não preciso de me ralar. Mas esta sexta-feira fui lá a uma reunião (para não dizer que não) mas ainda vim almoçar a casa. Depois, fui até ao café e estava a ler, com calma, o JN quando reparei numa pequena notícia: “Ovar - Homem morreu atingido por um ramo de uma árvore. António Carvalho, de 31 anos, vivia sozinho em S. Vicente de Pereira.” Era o Tono, o meu caseiro. Coitado do desventurado que, para cúmulo da desgraça, morreu a trabalhar.
O Tono era filho do Passador. O nome do pai advinha de nos anos 1960/70 fazer transportes para a França numa furgoneta Ford Transit a cair de podre. Tinha oito filhos e, sendo uma pessoa agradável em público, em casa derretia a mulher e os filhos de porrada e de fome. Viviam todos numa casa degradada do Pinha do Cruzeiro, 6x8m2, a quem nunca pagou renda. é o número 72, estranho sabendo que nesse beco sem saída só existe mais uma barraca.

Eu conhecia o Passador da minha juventude vivida na aldeia.
 Primeiro, porque é uma terra pequena e, depois, porque ele vendeu, por um conto de reis, uma filha a uma cunhada de um primo meu que estava na América.
Os filhos, um a um, foram abandonando a barraca materna, depois foi a mulher porque não aguentava mais e, finalmente, num dia de inverno o Tono foi-se embora.
Eu herdei, da minha tia menina Maria Clara, uma quinta-parte de uma casita e de um mato em S. Vicente de Pereira. Quando estou pior, vou até lá cortar mato e, por distracção, guardo os fetos num coberto de duas chapas de zinco enferrujadas. Num dia de inverno os fetos estavam amassados. Será que algum animal estava a dormir ali?

Dias depois, eu estava sentado no meio mato, num cadeira de encosto de plástico, a pensar na vida e a gozar a natureza e vejo aproximar-se um calmeirão de 1.85m.
– Boa tarde sr. Pedro, eu sou o Tono do Passador e queria-lhe pedir se me arrendava ali a casa porque eu não tenho onde ficar.
– Mau... mas tu és de uma família de caloteiros, o teu pai nunca pagou renda.
– Sim, o meu pai era um roleta mas eu não. Para não acabar com ele, saí de casa. Eu não posso pagar muito mas pago qualquer coisa.
– Gastas o dinheiro todo em vinho e mulheres. Não te arrendo nada.
Eu tinha tido um caseiro, que está preso, que me tinha dado muitos problemas e eu estava farto. Mas ai, deu-me um flash:
– És tu que dormes ali no barraco no meio do mato?
– Quem? eu? Não, não, bem, não, quem? quem? eu? eu? não, não sei …
Mas ai rematou:
– Ai custa tanto dormir ao relento sr. Pedro.
Ena pá, o que foste tu dizer. Eu em casa com 5 cobertores, uma botija de água quente e tenho frio e este homem vive ao relento, no meio do mato, em pleno inverno, com um frio de rachar, e nem a isso se acha com direito. Foi como se uma marreta me tivesse acertado na cabeça. Fiquei comovido.
– Fica para ai e, quando estiver calor, falamos da renda.
Vim a saber que o Tono estava a trabalhar para o Costeira nos pinhais, um primo meu a quem a minha mãe chama Papordão, e que ganhava 120€ por semana. Nem caixa, nem seguro, nem férias, nem nada. E que a mulher do Paralta, o meu colega de comunhão orelhudo, lhe lavava e passava a roupa por caridade.
O Tono viveu 20 meses na minha casita.
Nunca pagou renda, água ou electricidade. Como eu já tinha pago mais de 1000€ em água e electricidade, em Março obriguei-o a dar-me 480€. Pediu-os adiantados ao patrão. Na quinta-feira foi almoçar à Lígia com o Quim Soleiras, meu amigo, outro falido, e disse-lhe que no sábado me ia dar mais 80€. Morreu uma hora depois, atingido na cabeça por um ramo de um eucalipto. Hoje, domingo, fui a S. Vicente e tudo o que o Tono possuía nesta vida estava à porta de minha casa: dois pares de calças de ganga, quatro T-shirts, dois pares de cuecas, uma sweet-shirt, uma bicicleta e um balde de plástico. Coisa chocante, comovente.
Este post custou-me a escrever mas o Tono merece-o.
Qual herói de Fukushima, o Tono deu a vida para eu puder ter papel na secretária a um preço irrisório. Todos os dias, pessoas dão a vida para pudermos ter um país onde a CP, a REFER, o Metro, etc. dão milhões de euros de prejuízo e, mesmo assim, estão sempre em greve. Dão a vida para que o governo se pavoneie e se gabe que o nosso país é líder nas energias renováveis, nos TGV, nas pontes, nas auto-estradas, nos doutoramentos.
Nós, os escolarizados, urbanizados e com bons tachos, não podemos, com o nosso egoísmo, permitir que as vidas destes desafortunados se esfumem em PPPs, TGVs, OTAs, e outros projectos megalómanos.

Paz à tua alma pá.
Pedro Cosme Costa Vieira

sábado, 2 de abril de 2011

As energias renováveis são um erro colossal


Nos anos 1930 decidiu-se um plano para a produção energética que incluia três tecnologias: a hidroeléctrica, a térmica a carvão e a térmica a fuelóleo. Com pequenas adaptações, este plano foi implementado antes do fim do seculo XX. Nos últimos 15 anos o Estado implementou a politica megalómana de duplicar a potência de produção com um investimento de 15000 milhões de euros na tecnologia eólica o que não tem qualquer racionalidade económica e que se traduz num buraco financeiro de 1000 milhões de euros por ano.

A procura de energia eléctrica
Apesar de em termos individuais a quantidade procurada de electricidade ser imprevisível, em termos agregados, é variável mas tem um padrão razoavelmente estável. Observa-se uma variação do consumo ao longo do dia, da semana e do ano. A variação mais importante é em termos diários, indo de 3750Mw no período de Super Vazio (de madrugada) até 7500Mw no período de Ponta (entre as 18h30 e as 21h30). Em termos semanais, ao Domingo a quantidade procurada é menor em 1000Mw e, em termos anuais, em Dezembro a quantidade procurada é maior em 750Mw que a procurada em Maio.

 Figura 1 - Padrão de procura de electricidade ao longo do dia



Para responder à procura, existem várias soluções  técnicas para a produção de electricidade que têm diferentes custos e características.
A produção eléctrica
Um produtor eficiente procurará uma mistura de tecnologias de produção que permitam o menor custo de produção. Nos anos 1930 decidiu-se usar três tecnologias: hidroeléctrica, térmica a carvão e térmica a fuelóleo que foi implementada. 
Produção hidroeléctrica
É muito barata, entre 15€/Mwh e 25€/Mwh, mas é um recurso limitado porque depende de haver rios com elevados declives, é variável, imprevisível num horizonte temporal de um mês e não é controlável porque depende da chuva. Em termos económicos, porque são necessário grandes investimentos iniciais e não é controlável, o custo de oportunidade é quase nulo o que torna economicamente obrigatório que toda a energia hidroeléctrica produzida seja injectada na rede eléctrica.
A variabilidade da produção eléctrica resulta das alterações na pluviosidade. Em Portugal o factor de capacidade, FC, dos aproveitamentos hidroeléctricos é, em média, 25% mas varia ao longo do ano atingindo um mínimo em Agosto (na ordem dos 8%, 400MW) e um máximo em Dezembro (até 100%, 4837Mw). Como a electricidade não é armazenável, comparando com a quantidade procurada, há bastantes dias no Inverno em que, entre a 3h e as 7h, há excedente de produção que tem que ser destruída.
Figura 2 - Produção média anual hidroeléctrica (Mw)
Produção termoeléctrica a carvão
Também tem um custo baixo, entre 25€/Mwh e 35€/Mwh, tendo as vantagens de não ser um recurso escasso e de a potência produzida ser controlável. No entanto, uma máquina a carvão tem pouco controle: apenas produz com FC de 0% ou próximo de 100% e demora pelo menos uma semana a ligar. Assim, esta tecnologia não consegue responder às alterações da quantidade procurada ao longo do dia. Ao longo do ano, já é controlável ligando-se ou desligando-se uma das 12 máquinas existentes em Portugal. A potência máxima que pode ser injectada na rede eléctrica portuguesa usando o carvão é de 2486Mw.
Em termos económicos, por ter um baixo custo de produção, assumida a produção hidroeléctrica como um dado, tenta-se maximizar a produção termoeléctrica a carvão. A optimização incorpora a destruição de electricidade durante a noite (que tem um custo de oportunidade quase zero).
Produção termoeléctrica a gás natural e fuelóleo
A produção termoeléctrica a gás natural e fuelóleo é bastante mais cara que as anteriores, na ordem dos 40€/Mwh a 60€/Mwh. A principal vantagem desta tecnologia é a sua controlabilidade no curto prazo: pode-se ligar uma turbina a gás natural em 15 minutos e oscilar quase instantaneamente a sua potência entre 60% e 100%. Em termos económicos, apenas se utiliza quando não for possível cobrir as necessidades com produção hidroeléctrica e termoeléctrica a carvão. O custo de produção está muito dependente da cotação do petróleo. A potência máxima que se pode produzir é de 4941Mw.
A mistura de centrais eléctricas existentes com estas 3 tecnologias foi decidida na década de 1930 e lentamente implementada até ao fim do cavaquismo (1995) com a adaptação do gás natural. Foi desenhada para permitir responder a situações de seca extremas (pois o carvão mais o gás e fuelóleo podem atingir 7400Mw de produção) e construir uma mistura óptima na gestão corrente.
Um produtor eléctrico racional responde à quantidade procurada de electricidade tendo a produção hidroeléctrica como um dado do seu problema de minimização do custo de produção. Assim, planeia a uma semana de distância que máquinas a carvão devem ser ligadas e varia a produção eléctrica de curto prazo com as máquinas a fuelóleo e a gás natural. Apresento uma simulação para um dia de Inverno em que há um pequeno reforço da produção hidroeléctrica e térmica a carvão na hora de pico de consumo:

Figura 3 - Mistura óptima de produção electrica ao longo do dia

Produção eléctrica eólica
É uma tecnologia muito cara, na ordem dos 60€/Mwh a 70€/Mwh. Tal como a produção hidroeléctrica, obriga a grandes investimentos; tem um custo variável de produção baixo, na casa dos 10%; é um recurso limitado porque depende de haver locais com vento; é muito variável e muito imprevisível num horizonte temporal de um dia; a produção é maior no Outono/Inverno e não é controlável. Tem um FC média na ordem dos 20%. Dada a grande potência instalada, 10000Mw, e a variabilidade dos ventos, existem períodos em que a potência injectada na rede eléctrica é praticamente zero e outros em que é superior ao consumo total de pico, 8000Mw. Tem então as desvantagens da produção hidroeléctrica (não controlável e variável) e as desvantagens da produção a gás natural e fuelóleo (muito cara).
Acresce como desvantagem que no período em que há mais vento, o Inverno, também é quando há maior produção hidroeléctrica que já era excedentária em parte desse período. Então, a energia eólica é pouco aproveitável (ver, fig.3). No Verão, quando seria necessária para compensar a menor pluviosidade, também não há vento. Na primavera e Outono, a grande oscilação diária prejudica o uso das máquinas a carvão e obriga a expandir o uso das máquinas a gás que são uma tecnologia cara.
Independentemente de a electricidade produzida ter não uso, o Estado garante um preço próximo dos 75€/Mwh.
Figura 24 - A inutilidade de grande parte da produção electrica de origem eólica

O investimento feito em parques eólicos foi da ordem dos 15 mil milhões de euros que estão garantidos pelo Estado. Assim o Estado Português comprometeu-se a pagar, melhor dizendo, obriga os consumidores de electricidade a pagar, mais de 1300 milhões de euros por ano por uma mercadoria que vale, a preços de mercado, pouco mais que 300 milhões de euros por ano. Assim, a fachada de ir à ONU anunciar que somos dos países do mundo que temos maior produção eólica tem um custo para Portugal de mais de 1000 milhões de euros por ano. Este é mais um buraco financeiro que deveria estar contabilizado na Dívida Pública e que ajuda à descida do rating da república.
Centrais hidroeléctricas reversíveis
A electricidade não se pode armazenar em grande quantidade. Mas é possível, com as centrais hidroeléctricas reversíveis, usar os excessos de produção das máquinas a carvão durante a madrugada, que tem um custo de oportunidade quase nulo, para aumentar a produção durante a hora de ponta. Não é viável a transferência enérgicas a uma distância maior que um dia.
É um recurso muito escasso porque obriga a zonas com muito elevada inclinação e que permitam a construção de barragens com muito volume de água. Como tem um investimento que é o dobro de uma hidroeléctrica normal, o custo de produção ficará entre os 40Mwh e 50Mwh. Além disso, por cada Mwh produzido consome 1,5Mwh.
Esta tecnologia não tem grande interesse para mitigar o problema do excesso de produção eólica do Inverno porque nessa altura do ano já existe uma produção hídrica excedentária. Será mais um elevado encargo para o país que não resolve nada.
Carros eléctricos
Outra forma de tentar resolver o problema da irracionalidade do investimento megalómano em energia eólica é actuar do lado da procura. Assim, o Governo lembrou-se dos carros eléctricos. Mas isso, contrariamente ao anunciado, fica muito caro.
Um litro de gasolina tem 8.1 Mcal. Um automóvel que consome 6l/h, que tem um motor com rendimento de 45% então, terá uma potência útil média de 35cv que são 25Kw. Aparentemente custa 9.60€ porque o preço da gasolina é 1.60€/l. Mas nesse preço o custo é de apenas 0,68€/l a que acresce  0.12€/l da margem de comercialização e 0,90€/l de impostos. Assim, para o país, o custo do carro a gasolina é de 4,1€/h. O resto não é custo mas uma receita do Estado (1350 M€ por ano) e das bombas de gasolina.
O custo de produção da electricidade eólica é 0,070€/kwh a que tem que se acrescentar o custo do transporte da electricidade, 0,05€/kwh, mais as perdas na rede, na bateria e no motor eléctrico que soma pelo menos 30%. Então, o carro eléctrico a circular com a mesma potência custa 4.35€/h. Fica mais caro que o carro a gasolina e ainda temos que somar que um carro eléctrico é bastante mais caro que um carro a gasolina e é mais pesado pelo que gasta mais energia e tem pior performance.
Podem dizer que o custo de oportunidade da electricidade é zero mas então que a disponibilizem já a preço zero para consumo doméstico e industrial.
Produção termoeléctrica nuclear
É muito barata, entre 20€/Mwh e 25€/Mwh, mas, como o investimento é muito grande, a máquina nuclear tem que trabalhar com FC de 100%. Desta forma, o dimensionamento da produção nuclear tem que considerar apenas o consumo de Super Vazio que em Portugal é de 4000Mw. Como existe produção hidroeléctrica que cobre esse período durante 4 meses do ano, a opção nuclear não é viável em Portugal. Se acrescentarmos a variabilidade induzida na rede pela produção eólica, fica totalmente fora de questão.
Se Portugal quiser investir na tecnologia nuclear terá que ser para o mercado espanhol que tem um consumo em Super Vazio de 20000Mwh e pouca produção hídrica.

Meu Deus, como é possível sermos governados por pessoas tão incompetentes?
Nossa Senhora de Fátima, que apareceste para salvar Portugal, como permites que 30% do povo tenha intenção de votar nos incompetentes que nos levaram à bancarrota?

Fig. 5 - I'm the father of the electro-eolical-country, the bancarroted portugalo

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 18 de março de 2011

O porquê de tanta destruição em Fukushima


Quando travamos um carro a fundo ele não pára imediatamente acontecendo o mesmo com uma central nuclear.  Assim, se falhar a refrigeração, um reactor completamente desligado liquefaz-se ao fim de poucas horas. As centrais nucleares prevêm esta situação pelo que, acontecendo, é grave mas não é o fim do mundo.
A inércia
Todos sabemos que quando travamos um carro a fundo ele não pára imediatamente e que a distância de travagem é crescente com a velocidade a que vamos. À dificuldade em travar chama-se inércia do sistema. Por exemplo, um carro em piso bom e seco, a 100km/h pára em 60m e a 200km/h pára em 240m.
Uma central nuclear é como um carro a 130 000 km/h. Isto porque uma tonelada de combustível nuclear tem o poder energético de 130 000 toneladas de carvão. A densidade energética dentro do reactor nuclear é equivalente a ter 130kg de carvão em cada centímetro cúbico.
Como ao desligar o reactor nuclear não pára instantaneamente, é necessário continuar a arrefecê-lo. Num shutdown normal, a potência do reactor diminui à velocidade relativa de 3.5%/s. Por exemplo, depois de desligar um reactor com potência térmica de 3200MW, ao fim de 1 minuto, a potência reduz-se a 400MW. Em caso de emergência, a potência pode cair até 8%/s. A partir de uma potência de 7%, o decaimento fica mais lento. Por exemplo, ao fim de 15 minutos a potência é de 50MW, de 1 hora, a potência é de 35 MW e ao fim de 24h, a potência reduz-se a 15MW.
Figura 1 - Evolução da potência termica do reactor ao longo do tempo

 Como o volume do reactor é muito reduzido, estes níveis de potência ainda são muito grandes. A dilatação diferencial causada pelo calor que acontece nos diferentes matérias é suficiente para destróir o exterior do edifício da central nuclear. É como se aquecêssemos com um maçarico muito potente um copo de vidro: rachava logo o copo todo.
A altas temperaturas, acontecem ainda reacções quimicas que libertam hidrogénio (oxidação do Zircónio) o que foi o agente causador das explosões visíveis.
Será que nunca ninguém pensou nisto?
É sabido que num reactor nuclear pode acontecer uma falha total na refrigeração e que o reactor  completamente desligado, ao fim de algumas horas sem arrefecimento liquefaz-se, funde completamente.
Primeiro, funde o combustivel mas fica dentro do reactor (que é de aço). Foi o que aconteceu em Three Mile Island.
Segundo, o proprio reactor funde misturando-se com o combustivel e escorrendo para o chão da central como metal fundido.
Terceiro,  o combustivel e o reactor interagem com o betão do edificio e do chão decompondo-o e fundindo-o. O material fundido denomina-se de Corium que é uma espécie de lava.
Então, como estas situações foram estudadas, as centrais nucleares são construídas de forma a poderem resistir a esta possibilidade: o seu chão é ligeiramente enterrado, oval e feito em betão refractário (resistente ao calor) com uma espessura de 2m: é o fosso de segurança. Assim, se a central fundir completamente, fica como um alto-forno em que o material nuclear se mistura com o aço e com o betão.
No caso de o reactor fundir completamente, está previsto que seja coberto com areia refractária (alumina) podendo ser arrefecido com água.

Figura 2 - Solução técnica para uma fusão total do reactor nuclear


Um reactor nuclear fundir é muito grave mas não é o fim do mundo.
Haverá sempre fuga de muito material radioactivo para o exterior que é extremamente grave mas está prevista uma solução técnica que minimiza este problema. Perdem-se os elementos com baixo ponto de ebulição. Destes, o elemento mais grave é o Iodo 131 porque se acumula na tirode. No entanto, é um problema de curto prazo pois a sua actividade diminui rapidamente com o tempo: ao fim de 2 meses já desapareceu 99.5% da quantidade libertada.
A actividade do reactor, do corium, vai diminuindo e ao fim de umas dezenas de anos, todo o material pode ser reciclado e o local completamente descontaminado ou definitivamente sepultado (como virá a acontecer em Chernobyl).
Tenhamos esperança na capacidade e engenho da humanidade para resolver os problemas que vão surgindo associados ao progresso técnico.
E Chernobyl?
A União Soviética era um país relativamente pobre com ânsia de mostrar ao Ocidente progressos tecnologicos. Desta forma, apesar de saberem ser potencialmente mais perigoso, construiram centrais nucleares moderadas a grafite que são a solução mais barata. O perigo advém da grafite poder arder. Por outro lado, quando falhou a refrigeração, o reactor de Chernobyl estava à potência máxima e em Fukushima estava a 1.6% da potência máxima (quando a refrigeração falhou já tinham  decorridos 15 minutos desde o shutdown, fig. 1: ponto X ).
Também importante para a dimensão do acidente de Chernobyl foi o acidente ter sido tratado pelo exército que não tinha treino nem informação sobre como resolver tecnicamente o problema do incêndio da grafite.
Por fim, apesar de o reactor de Chernobyl não ter fundido completamente, as mais de 100 toneladas de grafite que existiam no seu interior incendiaram-se criando fumos radioactivos.
Figura 3 - Reactor de Chernobyl destruido vendo-se que tem fosso de segurança
O acidente de Fukushima é principalmente grave porque acontece num país que segue todas as regras de segurança mas a sua resolução também terá menos impacto negativo que Chernobyl e será útil no melhoramento das condições de seguraça de todas as centrais nucleares.

Pedro Cosme Costa Vieira

quarta-feira, 16 de março de 2011

Progresso tecnológico e a qualidade de vida – Carvão versus Nuclear

A qualidade de vida
Para podermos viver temos que consumir bens e serviços, B&S, que são produzidos com recursos naturais e trabalho. Apesar de haver quem defenda que podemos aumentar a nossa qualidade de vida fazendo meditação transcendental, o mais certo é que tal aumento obrigue a que haja maior disponibilidade de B&S. Como os recursos naturais são limitados e não aumentam ao longo do tempo, parece lógico concluir não ser possível o aumento do nível de vida.
No entanto, quem tem memória sabe que agora vivemos melhor do que viviam os nossos pais porque o trabalho é mais produtivo. Os dados históricos dos últimos 30 anos confirmam esta impressão pois mostram que a produção de cada trabalhador português, a produtividade do trabalho, tem aumentado à média de 1,67%/ano. Mas o crescimento da produtividade não cai do Céu. Comparando, por exemplo, Portugal com o Brasil (de que há o mito de que é uma economia muito dinâmica), vemos que o mais natural é a estagnação:
Produtividade (PIB por trabalhador)

Progresso tecnológico
O crescimento da produtividade acontece por haver progresso tecnológico que se materializa na invenção de modos mais eficientes de produzir os B&S existentes e a criação de novos B&S com maior valor.
Se não houvesse progresso tecnológico ainda hoje viveríamos nas cavernas. Se não tivesse sido o progresso tecnológico dos últimos 30 anos, um trabalhador que ganha actualmente 1000€/mês, veria o seu salário reduzido para 665€/mês. Infelizmente, se o crescimento da produtividade foi induzido pelo endividamento externo, então será isso que vai acontecer.
Mas o progresso tecnológico também tem um lado negativo. É como aqueles medicamentos que fazem bem às dores de cabeça mas também fazem mal ao estômago. Umas pessoas só vêem o mal que o medicamento faz ao estômago enquanto que outras só vêem o bem que faz às dores de cabeça.

A radioactividade, os computadores, a internet, os transgénicos e a clonagem.
No último século houve grandes descobertas. Uma das grandes descobertas foi a radioactividade. Descoberta em 1896 por Becquerel como um fenómeno natural, decorreram apenas 50 anos até à explosão da primeira bomba nuclear e 60 anos até ao aparecimento dos primeiros reactores nucleares para a produção de electricidade.
Não existe qualquer controvérsia no uso da tecnologia nuclear nos tratamentos contra o cancro (a radioterapia) porque não existe alternativa. Foi a criação de um B&S complemente novo.
Já na produção de electricidade, a tecnologia nuclear é uma inovação na forma de produzir um B&S previamente existente, a electricidade, tendo como alternativa a anterior tecnologia: a produção à base de carvão.
Central terrmoeléctrica a carvão tipica

Se uma central nuclear tem um investimento inicial muito elevado (cerca de 5000€ por KW de potência instalada) e custos em combustível e operação muito pequenos, uma central a carvão tem um investimento inicial bastante inferior (cerca de 2000€ por KW de potência instalada) mas um custo em combustível bastante mais elevado. Com ambas as tecnologias, o custo de produção anda próximo dos 0.03€/KWh e, por terem grande inércia, apenas podem fornecer a potência eléctrica de “Vazio”.
Em termos de efeitos colaterais, as centrais nucleares produzem resíduos radioactivos e podem ocorrer acidentes com elevado impacto negativo enquanto as centrais a carvão usam um recurso natural não renovável (o carvão) e emitem CO2 para atmosfera.
Central terrmo-nuclear-eléctrica de Quinshan
Ponderando as vantagens e as desvantagens, actualmente não existe uma resposta clara sobre qual a melhor tecnologia. Um país que não tenha em consideração a emissão de CO2 para a atmosfera e tenha pouco capital deve optar por centrais a carvão enquanto que outro que pretenda reduzir as emissões de CO2 e tenha capital para investir deve optar por centrais nucleares.

No futuro, sendo o Carvão uma tecnologia mais antiga, baseada num recurso não renovável e com elevadas emissões de CO2 para a atmosfera, é provável que a decisão penda para o lado da tecnologia nuclear.

Será o acidente de Fukushima, e a radioactividade no geral, muito perigosos?
Está claro que um nível muito elevado de radiação mata os seres vivos (frita-os como uma mosca no microondas). E em termos celulares, é sabido que destroi o DNA podendo induzir cancro. Mas é controverso o efeito de níveis baixos de radiação (até 1000x a radioactividade natural) numa população: como vamos todos morrer, os estudos têm que comparar a esperança de vida de uma população sujeita a um nível “médio” de radiação com uma população sujeita a um nível “baixo” de radiação. Comparando, por exemplo, a população de Hiroxima com a população de outras cidades japonesas, não se observam diferenças populacionais significativas.
Existem em Portugal zonas na Beira Alta (zonas de falha na região de Nelas e Mangualde) onde foram medidos níveis de radioactividade superiores aos níveis observados nas zonas de exclusão absoluta de Chernobyl, >40 curries/km2. E não parece que haja diferenças significativas na esperança de vida das populações destes concelhos em comparação com a média nacional. Também ninguém se tem preocupado muito em medir as diferenças.
É minha opinião que o medo da radioactividade libertada nos acidentes das centrais nucleares é psicológico e não tem fundamento nos dados.

Pedro Cosme Costa Vieira

domingo, 6 de março de 2011

O aumento dos preços dos alimentos e a pobreza no Mundo

Nos últimos meses o preço dos produtos agrícolas tem aumentado significativamente, tendo, nalguns casos, triplicado. Contrariamente ao que se possa supor, tal aumento tem um efeito positivo na redução da pobreza a nível mundial porque os países mais pobres produzem principalmente destes produtos.

A evolução dos preços dos produtos agrícolas
O preço dos alimentos tem aumentado significativamente ao longo dos últimos 5 anos. Por exemplo, no período 2000-2006, o preço médio do milho era de 2,50USA$/bushel (que corresponderia, ao câmbio actual, a 0,07€/kg) e do trigo era de 3,75USA$/bushel (que correspondia, ao câmbio actual, a 0,11€/kg). Desde 2006, os preços triplicaram.
No entanto, o aumento não traduz que os preços estejam caros mas antes que estavam insustentavelmente baixos. Por exemplo, actualmente um pão de trigo (papo seco, molete, trigo) de 45g apenas contém 0,01€ de trigo.
Os preços dos alimentos estavam exageradamente baixos por causa dos subsídios à produção agrícola atribuídos nos países mais desenvolvidos distorcerem o mercado mundial.
Com o aumento dos preços, os políticos (tinha que falar destes) e os comentadores televisivos começaram a dizer que a fome ia atacar os países mais pobres. Mandaram jornalista procurar a miséria mas o que observaram foi exactamente o contrário: há forte crescimento económico nos países mais pobres. Tiveram que mandar os correspondentes voltar a casa porque o que lá lhes disseram foi que os produtos agrícolas anormalmente baratos é que levaram para a pobreza milhões de camponeses dos países do terceiro mundo porque são países iminentemente agrícolas. Não deu notícia.

Será que os países pobres não produzem alimentos?
A produção agrícola depende principalmente da disponibilidade de terrenos pelo que é, em valor absoluto, aproximadamente constante em todo o Mundo: cerca de 500€/ano por pessoa (paridade de poder de compra). Quer isto dizer que, tanto em Portugal (que é um países classificado como rico) como em Moçambique (que é um país classificado como pobre), se produzem 500€/ano por habitante na agricultura. Nós importamos e os moçambicanos exportam produtos agrícolas porque nós consumimos mais por cabeça (vale a pena ser rico).
Como a produção é idêntica em termos absolutos, em termos relativos, a agricultura tem um peso muito importante nos países mais pobres (mais de 30% da riqueza produzida) e um peso negligenciável nos países mais ricos (menos de 3% da riqueza produzida).
Como todos os países precisam importar coisas que não produzem (petróleo, medicamentos, máquinas e ferramentas, automóveis, etc.), os países pobres que apenas têm produtos agrícolas para exportar, estando os seus preços artificialmente baixos por causa dos subsídios atribuídos nos países mais ricos, caíram a níveis de pobreza perigosamente aflitivos. Felizmente a crise financeira veio impossibilitar que os governos continuassem a dar avultados subsídios a actividades que devemos deixar, por questões económicas e éticas, para os países mais pobres.

Os preços como estão, estão bem porque combatem a pobreza mundial
A resolução dos problemas da pobreza mundial não passa por mandar para lá umas sacas de farinha ou os Médicos sem Fronteiras mas pelo permitir que às pessoas que lá trabalham, possam vender os seus produtos agrícolas a preços não manipulados pelos países mais ricos.
Um aumento de 100% nos preços dos produtos agrícolas induz um aumento imediato de mais de 30% no rendimento dos países mais pobres e apenas uma diminuição de 1,5% dos países mais ricos (supondo que importam 50% do que consomem). Vale bem o sacrifício se pensarmos que nos países mais pobres vivem 5000 milhões de pessoas.
E a médio prazo, a riqueza dos países mais ricos também irá aumentar porque os países mais pobres ficarão com poder de compra para importar bens e serviços de elevado valor.
 Pedro Cosme Costa Vieira

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