domingo, 7 de junho de 2015

10 - O almoço

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (9 - A substituição)  


10 – O almoço
Em termos de calorias, a alimentação tinha o pão de milho como um pilar e o caldo à lavrador como outro. Depois, havia o leite e o queijo das ovelhas e das cabras, os ovos e frangos da capoeira, a carne do porco e o arenque salgado que vinham de longe em barricas de madeira e que eram compradas no Vale.
A preparação do pão de milho, a broa, era feita ao fim da tarde. Juntavam-se 30kg a farinha de milho com água a ferver e amassava-se a mistura durante uns minutos. Tendia-se a massa, lançavam-se duas mãos-cheias de sal, peneiravam-se 2 kg de farinha de centeio por cima e juntava-se o fermento que era um quilograma de massa guardada da amassadura anterior. Voltava-se a amassar tudo e, depois, faziam-se bolas com cerca de 3 kg que se deixavam 3 horas a fermentar. Finalmente, metiam-se essas bolas de massa no forno previamente aquecido com lenha que, depois de fechado hermeticamente, cozia o pão durante toda a noite. O pão de milho, mesmo não sendo um alimento completo, era barato e, nos tempos de maior aperto, é a bóia de salvação. Para o sustento de uma semana, um adulto precisava apenas de 4 kg de farinha que custavam menos de 1€ e, para uma criança, era preciso metade desse peso. O pão comia-se durante o dia sempre que a fome apertava, sem mais nada, barrado com banha de porco ou em sopas de café ou de leite e, durante as refeições, como acompanhamento do caldo à lavrador.
Para fazer o caldo metia-se uma panela ao lume meia cheia de água com um fio de azeite, uma talhada de carne de porco salgada, uma cebola cortada às rodelas e feijão demolhado de véspera. Passada meia hora, entravam na panela as batatas e as verdura colhidas momentos antes no quintal, tudo cortado ao bocadinhos. Quando já estava tudo cozido, para engrossar juntava-se uma colherada de farinha de milho. A carne, depois de cozida, era cortada em tantas fatias quantas as pessoas na mesa, nunca calhando mais de 30 g por cabeça. Normalmente a refeição acabava com um pouco de queijo mas, em alguns dias especiais, ainda havia meio arenque cozido com batatas e couves, tudo regado com um pouco de azeite e vinho azedo.
Para beber havia a água que se ia buscar à fonte e o vinho carrascão feito de uvas que se cultivavam um pouco por todas na borda dos campos.
O almoço começou como era o costume, broa com fartura e caldo à lavrador mas, como era um dia especial, acabou com um arroz à cabidela em que o frango “morreu sem ter culpa nenhuma no sucedido”. Também não faltou o vinho tinto “que aguenta mais tempo no pipo que o branco” e um refresco de limão feito com água fresca acabadinha de trazer da fonte que distava pouco mais de 100 metros da casa, mesmo encostada ao moinho.
Para sobremesa vieram uns figos secos e broa barrada com um pouco de mel de abelha. Finalmente, a refeição terminou com um chá de erva cidreira acabadinho de fazer e, para os homens, um cálice de aguardente.

Depois do almoço, foram todos continuar os seus trabalhos e a Maria Zé foi para sua casa, juntamente com a mãe, ultimar o funeral do Simeão que seria dali a apenas algumas horas.

Capítulo seguinte (11 - A multiplicação)

sexta-feira, 5 de junho de 2015

O Emprego e o Crescimento - Balanço de 10 anos

Agora que o mandato do Governo está a terminar
É tempo de fazer um balanço que tem que passar pela comparação entre os 6 anos dos governos do José Sócrates e os 4 anos do governo do Passos Coelho + Paulo Portas.
É importante fazer esta análise porque aquele muito feio que parece um sapo (não tenho nada contra quem se parece um sapo mas não gosto em particular do Dr Ferro Rodrigues) veio dizer que o próximo governo será mais do mesmo.
Será a continuação das "políticas neoliberais"  actuais ou será a "reposição do caminho de crescimento e emprego" do antigo governo do Sócrates.
Vou então comparar os 6 anos de "emprego e crescimento" com os 4 anos de "austeridade, empobrecimento e de destruição de empregos" como dizem os esquerdistas.

Fig. 1 - Dizer que alguém é "feio como um sapo" é xenófobo. E logo eu que até agrado muito às sapas. 

Vamos ao desemprego.
Na voz dos esquerdistas, porque acreditam que o povinho não tem memória, os governos do Sócrates foram de grande diminuição da taxa de desemprego. Mas isso não corresponde minimamente à verdade.
No mês em que o Sócrates tomou posse (Março de 2005) a taxa de desemprego era de 8,5% da população activa, de tal forma enorme que o Sócrates anunciou na sua campanha eleitoral que iria criar 150 000 postos de trabalho líquidos.
Acontece que no mês em que o Sócrates se foi embora a taxa de desemprego estava nos 11,3%.
Assim, nos governos do PS entre Março de 2005 e Junho de 2011 a taxa de desemprego aumentou de 8,5% para 11,3%, mais 3,8 pontos percentuais.

Ainda na voz dos esquerdistas, as políticas "neoliberais" do governo de direita fizeram disparar o desemprego mas isso também não é verdade.
No mês em que o Passos Coelho tomou posse (Junho 2011), a taxa de desemprego era de 12,3% da população activa e em Abril último o INE.pt avançou que a taxa de desemprego estava nos 13,0% da população activa.
O desemprego aumentou no tempo do Passos Coelho mas apenas 0,7 pontos percentuais. E continuando a tendência dos últimos 2 anos, vamos chegar a Outubro de 2015, mês das eleições legislativas, com uma taxa de desemprego inferior aos 12,3% de Junho 2011.

Fig. 2 - Evolução da taxa de desemprego nos últimos 10 anos (dados: www.ine.pt)

Vamos ao crescimento.
Na voz dos esquerdistas, os governos do Sócrates foram de grande crescimento do PIB mas isso não corresponde minimamente à verdade.
No trimestre em que o Sócrates tomou posse (1.ºT de 2005) o PIB trimestral foi de 43,486 mil milhões € e no trimestre em que se foi embora (2.ºT 2015) o PIB foi de 44,324 mil milhões € o que traduz uma taxa de crescimento do PIB de 0,30%/ano.
Também na mesmas vozes de burro, o governo "neoliberal" do Passos Coelho foi de grande empobrecimento. De facto, se compararmos o previsível PIB no 3.ºT de 2015 (42950 mil milhões €) o crescimento foi negativo (-0,66%/ano) mas não foi nada da calamidade que os esquerdistas anunciam.
Além disso, depois do período de estabilização da economia (correcção das contas com o exterior), a economia começou a crescer 1,3%/ano. Assim, depois de atingir um mínimo de -9,6%, já recuperou 2,2%.

Fig. 3 - Evolução do PIB trimestral nos últimos 10 anos (dados: www.ine.pt)

Ainda falta o emprego.
Ninguém pode ser obrigado a trabalhar pelo que o nível de emprego não é uma variável normalmente usada para medir o estado do mercado de trabalho. Além do mais, a população portuguesa está a diminuir, muitos imigrantes ucrânianos foram para a Polónia e jovens decidir ir à aventura por essa Europa fora.
Como sabem, seria muito fácil aumentar emprego se a p-----da dos barcos decidisse dar à costa nas praias algarvias (e os deixássemos trabalhar).
Mas porque os esquerdistas dizem que o "governo neoliberal" destruiu muitos empregos, vamos ver as estatísticas do INE.
Aqui o Sócrates está empatado com o Passos Coelho. No tempo do Sócrates houve a "destruição" de 300 mil postos de trabalho e no tempo do Passos Coelho houve a "destruição" de outros 300 mil postos de trabalho.
Como a "destruição" de empregos não acrescenta nada á leitura da taxa de desemprego, nos últimos tempos o número de empregos está a aumentar 50 mil por ano (e a taxa de desemprego a diminuir 2 pp por ano).

Fig. 4 - Evolução do Emprego mensal nos últimos 10 anos (dados: www.ine.pt)

E a produtividade.
Os esquerdista dizem que o "governo neoliberal" destruiu a economia o que, a ser verdade, implicaria que, ao nível da riqueza produzida por dia de trabalho (a produtividade), teria que haver uma diminuição.
Mas aqui não se vê nenhuma diferença entre o tempo do Sócrates, o tempo do Passos Coelho e o tempo dos anteriores governos.
O que se vê é que a produtividade do trabalho tem aumentado 1%/ano, sempre estável.
Este resultado é conhecido da literatura e traduz que o ajustamento das economias ao longo do ciclo económico (entre os períodos de crescimento e de contracção) não se faz pela redução da tendência da produtividade mas pelo desemprego.
Assim, no governo "neoliberal" não só não se observa qualquer destruição da economia nem no tempo do Sócrates uma especial "criação de riqueza".

Fig. 5 - Evolução da produtividade do trabalho nos últimos 10 anos (dados: www.ine.pt, em €/dia de trabalho, cálculos do autor considerando 20% de amortização e 1/3 como remuneração do capital)

Mas, então, o governo "neoliberal" foi igual ao governo do "emprego e crescimento"?
Sim, tenho que concluir que foram mais ou menos iguais.
No Sócrates o desemprego cresceu mais que no Passos Coelho (0-1).
No Sócrates o PIB cresceu ligeiramente mais que no Passos Coelho (1-1).
No Sócrates os empregos destruídos foram os mesmos que no Passos Coelho (1,5-1,5).

Mas há uma coisa que vai desempatar as contas.
É que nos governos do Sócrates houve uma endividamento massivo de Portugal e dos portugueses face ao exterior, coisa que o Passos Coelho não conseguiu fazer.
Nos 6 anos de mandato do Sócrates, houve um endividamento face ao exterior de quase 100 mil milhões €, dinheiro que depois foi preciso ir a correr com as calças na mão pedir à Troika. Foram "apenas" 125€/mês por cada português o que traduz que, nesses 6 anos, uma família de 4 pessoas gastou mais 600€/mês que a riqueza que conseguia criar.
Nos 4 anos de mandato do Passos Coelho, houve um pagamento de dívidas (poupança) face ao exterior de 8325 milhões € o que traduz que, neste 4 anos de governo "neoliberal" cada português poupou face ao exterior 18€/mês, 72€/mês numa família de 4 pessoas.

Fig. 6 - Contas de Portugal com o exterior, Balança corrente (dados: Banco de Portugal)

Nos governos socialista endividamo-nos 100MM€ e no Passos Coelho pagamos 8MM€.
Se em termos de performance económica (medida pelo desemprego+emprego+crescimento), o Passos conseguiu um empate com a "política de Emprego e Crescimento" dos governos socialistas, o facto de o ter feito sem recorrer ao endividamento externo e ainda termos pago alguma coisinha (já 8% do que foi pedido no tempo do Sócrates) dá uma clara vantagem ao governo "neoliberal".
No Sócrates o endividamento aumentou 100MM€ e no Passos Coelho diminuiu 8MM€ (1,5-2,5).

Venha então mais do mesmo.
Mais que esse mais do mesmo não seja as políticas malucas que o Costa quer retomar do tempo do Sócrates como passarmos a ser exportadores de energia ou líderes nas carripanas eléctricas.
Faz-me lembrar a maluqueira do Salazar de nos tornar "independentes na produção de trigo" o que levou não só à destruição do solo em vastas zonas do Alentejo como à fome.

Hoje tenho que falar do Ebola.
Já não se fala deste problema mas o problema persiste.
O número de novos casos está a diminuir para metade a cada 100 dias mas ainda existem cerca de 25 novos casos por dia o que é muito se pensarmos que, tirando esta epidemia, cada surto tem em média 140 casos.
Mas, lentamente, se tudo correr como está a correr, lá para Outubro 2015 será anunciado o fim da epidemia.
Vai coincidir a re-eleição do Passos Coelho com o fim do Ebola.

Fig. 7  - Número de novos casos de Ébola por dia (dados: wiki)

Hoje não há fotos de gajas boas.
Uma gaja toda boa (a Valeriivna) mandou-me um e-mail a dizer "o professor esqueceu-se que hoje faço anos."
Na volta mandei-lhe um bolo virtual.
A resposta foi "precisa urgentemente de ler os Evangelhos."
Ai meu Deus, livra-me dos mais pensamentos.

Fig. 8  - Feliz aniversário Valeriivna!

Agora é mesmo para acabar, quanto custarão os 4pp de corte na TSU?
A TSU são 34,75% do salário pelo que os 4 pp traduzem uma perda de receita da SS de 11,5%.
Como a receita da TSU são 14346M€/ano, haverá uma perda 1650M€/ano, 6600 milhões€ nos 4 anos.

Bem sei que o PS diz que isso vai criar emprego.
Mas se vai criar emprego porque é que a medida não é imediata e para todo o sempre?
E se cria emprego, porque não se reduz a TSU a zero?
É porque é uma história da carochinha.
Reduzir a TSU até pode criar emprego mas é preciso cobrir esse buraco com outros impostos (o IRC) e isso distroi emprego.
A menos que o Costa pense que pode voltar novamente aos défices de 10% do PIB do tempo do Sócrates.

O PS está tão enganado como o Syriza!
Ou então, quer enganar o povinho com miragens.

Pedro Cosme Vieira

quarta-feira, 3 de junho de 2015

9 – A substituição

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (8 - A revelação)  


9 – A substituição
A mãe continuou.
– Eu sentia uma revolta interior que não parecia poder ter fim. Não compreendia porque Deus me tinha feito tamanha maldade. Ai, a tua avó disse que aquela revolta passaria se eu me fosse confessar, que o meu problema não era diferente do das outras pessoas e que o Padre Augusto, falando com o Espírito Santo, encontraria uma solução. E eu assim o fiz, um dia fui pedir ao Padre Augusto para me confessar mas a coisa não foi fácil porque eu não aceitava o que Deus me tinha feito. Cheguei lá e disparei logo “Sr. Padre, eu afoguei o meu filho, ele tinha a doença e eu tinha que olhar primeiro pelo meu marido e pelos meus outros filhos, se Deus não gosta é problema Dele.” Mas o Padre respondeu deferente do que eu tinha antecipava, em vez de me recriminar, foi compreensivo, “Minha filha, eu compreendo o teu desespero, sabes que fizeste mal, que quebraste os mandamentos mas, ao menos, estás arrependida”. O problema é que eu não estava arrependida, nem um bocadinho pelo que voltei ao ataque: “Não, nem pense nisso, nem acho que fiz mal nem estou arrependida do que fiz. Quem deveria estar arrependido era o Sr. Padre que me obrigou a ter filhos quando já sabia que poderiam nascer doentes e, depois, Deus pois tinha o poder de o evitar e não o fez. Afoguei-o e, se fosse hoje, tornava a afogá-lo, não me arrependo de nada, de nada mesmo. Bem sei que me vai dizer a mesma lengalenga que disse à minha irmã Júlia, mas não vale a pena perder o seu tempo porque já basta a miséria a que Deus me condenou. Como sei que não me vai dar absolvição, o melhor é mandar-me já embora.”
– E, então, a mãe ficou com a sua alma perdida para todo o sempre!
–– Realmente o Padre Augusto não me deu a absolvição. Disse “Como não te mostras arrependida, tenho que aguardar pela inspiração do Espírito Santo. Por agora, vais ali ao altar rezar três Avé-Marias e um Padre-Nosso pela alma da tua criança e vai-te em paz que eu depois digo-te o que o Espírito Santo me disser.” Eu fui-me embora convencida de que nunca mais teria perdão e, por isso, deixei mesmo de aparecer à missa. Já que a minha alma estava perdida, seria um perdição completa.
– Mas agora a mãe vai à missa!
– Exactamente porque, passados uns dias, o Padre Augusto apareceu aqui em casa, entrou de mansinho por essa mesma porta e disse “Estive a ler, rezar e meditar à espera da inspiração do Espírito Santo e hoje essa inspiração chegou. Agora, espero que aceites a penitência que terás que cumprir para que Deus te perdoe.” Eu não acreditei que viesse dali nada de surpreendente mas decidi-me a ouvir ouvi calada, a ver o que o Padre ia dizer. Eu nem acreditava que o Espírito Santo tivesse falado com o Padre Augusto quanto mais que o Espírito Santo poderia ter encontrado uma solução para a minha alma perdida. “Afogaste a tua criança porque não querias sofrer o que a tua irmã sofreu, mas agora também vais ter que sofrer mas de forma diferente, de uma forma mais produtiva. Para ultrapassares esse teu pecado, essa tua monstruosidade da qual dizes não teres sido tocada pelo arrependimento, vais cumprir o mesmo que os outros, nem mais nem menos, pois se não estás arrependida é porque Deus não o quis, vais ter que ter mais 4 filhos. No fundo, o Espírito Santo fez-me ver que o não teres sido tocada pelo arrependimento é, já de si, uma penitência muito dura pelo que não te pode ser exigido mais do que é exigido aos outros, aos que se arrependem. Vais à igreja e prometes perante Deus que vais cumprir esta penitência e serás perdoada, a tua alma votará ao caminho da salvação, assim me disse o Espírito Santo e assim será.”
– Mas a mãe disse que não, sabendo que eles poderiam nascer doentes, a mãe não podia aceitar ter mais filhos. Eu também disse que ia ter mais 4 filhos mas não estou a pensar em cumprir a promessa!
– Realmente, na altura eu tinha decidido que o melhor era não ter mais filhos mas, se o próprio Espírito Santo tinha dito ao Padre Augusto que eu ficaria perdoada se tivesse mais 4, eu só tive que cumprir a minha penitência. E tu também o terás que fazer, se prometeste perante Deus, tens que o cumprir.
– Teve então mais filhos?
– Claro que tive, então se tens 8 irmãos é porque eu tive filhos. Repara as voltas que o destino dá, passado um ano tive um filho rapaz a que dei o nome de Joaquim, é este o irmão a que te referes, dei-lhe o mesmo nome para que mais ninguém se lembrasse de que tive outro que morreu. Depois tive outro rapaz e o terceiro foi uma rapariga, nasceste tu.
– Eu?
– Sim, tu. Agora pensa bem, tu apenas nasceste porque eu matei o Joaquim e o Padre Augusto ou o Espírito Santo, nem sei bem quem, me aplicou como penitência eu ter mais 4 filhos. Se não fosse eu ter matado o Joaquim, tu nunca terias chegado a nascer, terias sempre ficado no céu dos pardais, perdida no ventre da galinha. Tu fazes parte da minha redenção.
A Maria Zé ficou calada, a pensar, sem querer acreditar, “Se não fosse a morte desse Joaquim, eu nunca teria nascido. Foi preciso a minha mãe matar o meu irmão para que eu pudesse estar viva. Eu sempre pensei que tinha nascido da vontade dos meus pais quando, afinal, nasci para redimir um pecado hediondo.”
– Agora já estás calada mas vais ter que dizer alguma coisa. Diz lá se fiz bem ou mal, vamos fazer o tempo andar para trás, para aquele minuto em que eu estava a afogar o teu irmão Joaquim com as próprias mãos, naquele minuto o que me dirias? Mata-o e faz com que eu nasça ou salva-o e deixa-me no céu dos pardais? Vá lá, ainda há pouco estavas com tantas certezas, responde-me agora, fiz bem ou fiz mal?
– Bem, agora já não sei, é um choque saber que nasci porque a mãe matou esse meu irmão. Agora, eu ter que dar a minha vida em troca da desse meu irmão que nem cheguei a conhecer? Eu quero dizer que, nesse minuto, diria “Salva-o” mas amo a minha vida demais para o garantir que o diria mesmo.
– Então agora já não és tão rápida a julgar-me, perdeste o pio?
– Não é isso, é que fiquei confusa por um mal dar origem a um bem, a morte de alguém ter dado origem à minha vida. Mãe, tenho que aceitar que, pela minha parte, fez bem porque eu não trocaria a minha vida pela de mais ninguém. E, além do mais, a sua vida teria sido de sofrimento e curta.
– Então já me estás a dar razão?
– Em parte sim. Mas, pensando agora no facto de a penitencia a ter obrigar a ter 4 filhos e de ter tido mais, talvez eu não resulte apenas desse seu crime, talvez eu resulte da vontade de Deus.
– Pois foi, tive mais filhos mas a causa continuou a ser a maldita doença. É que, depois de nasceres, tive a quarta criança da penitência, a Catarina. Senti-me finalmente redimida do meu pecado e o Padre Augusto também. Disse-me ele que, depois do que tinha acontecido à Júlia, também se sentia mais aliviado por, comigo, tudo ter corrido pelo melhor. Fez um baptizado especial, com cantoria e sermão e até me ajudou nos bolinhos de bacalhau e no vinho. Foi uma festa bonita de que não te lembras porque eras muito pequenina, ainda mal andavas.
– Não mãe, eu lembro-me mesmo da minha irmã Catarina pois ainda é viva ... ou será que era outra e deu o mesmo nome a esta que eu conheço?
– Pois foi. Como já tinha tido os 4 da penitência, com os teus dois irmão mais velho, já somava 6 crianças para criar pelo que, na altura, não pensava mesmo ter mais filhos. Já tinha tido mais do que pensava ser possível criar com os poucos rendimentos que tínhamos mas a maldição não mo permitiu. Com o passar dos meses, a Catarina tornou-se cada vez mais parecida com o Joaquim de forma que fui mostrá-la ao Dr. Acácio que empatou, engoliu em seco e apenas disse “Está um pouco atrasada para a idade mas há crianças mais atrasadas e outras mais adiantadas que não deixam de ser normais”. Vi logo que ele tinha medo que eu lhe fizesse o mesmo que tinha feito ao outro. Esperei um mesito, cheia de esperança de que não fosse a doença mas, como com o passar do tempo a criança ia ficando cada vez mais atrasada, um dia enchi-me de coragem e, de manhã cedo, apliquei-lhe o mesmo tratamento que tinha aplicado ao outro, levei-a até ao ribeiro e afoguei-a. Por ser a segunda criança a morrer-me nas mãos, as pessoas pareceram ficar meio desconfiadas mas ninguém disse nada porque, no fundo, compreendiam o que se tinha passado. Apenas o teu pai, depois do funeral, chegou a casa um bocado tocado pelo vinho e disse-me “Mulher, uma criança à tua guarda morrer afogada é um acidente mas duas já me parece desmazelo”. Eu só lhe disse “Preferias que te acontecesse o mesmo que aconteceu ao teu primo, ao marido da minha irmã Júlia?”. Calou-se até hoje. Depois, eu já sabia que tinha que começar tudo de novo, aceitei nova penitência, mais 4 filhos para substituir a que tinha matado. Parecia que Deus se estava a rir de mim, quando estava quase livre, atacou-me outra vez mas eu não dei parte de fraca, virei-me para Deus e disse-Lhe “Não penses que vou desistir, hei-de cair e tornar a levantar-me vezes sem conta. Se a penitência é ter filhos, toca a ter filhos mas, aviso desde já, se mos mandares avariados devolvo-Tos mais depressa do que o Diabo pisca o olho. Não vou quebrar.” Na altura eu tinha 30 anos, 5 filhos vivos para sustentar e mais 4 para fazer nascer. Era muita carga para uma família que vivia na maior das pobrezas mas eu só pensava “Mais vale um pobre vivo que um rico morto”. A primeira criança desta segunda penitência nasceu saudável mas a segunda também precisou do tratamento. Como ainda me faltava cumprir duas crianças, o padre Augusto disse-me “O Espírito Santo sabe que já sofreste muito pelo que, por esta, faz-te um desconto” e só me obrigou a ter mais uma criança a somar às 2 que ainda me faltavam. Como estas 3 crianças nasceram saudáveis, fiquei-me pelas 9 que tenho vivas mais as 3 que afoguei. E, no fim, Deus ajudou-me porque, mesmo com muita fominha, sobreviveram todas.
– Mas mãe, estou a ver que é isso que me vai acontecer. Agora tenho que ter mais 4 mas, como um deles pode nascer doente, depois são mais 4 e mais 4 até não ter mais fim.
– Não filha, também não exageremos. Pelo que eu sei, quando a pessoa chegar a 12 filhos, o Padre Augusto diz “Já tiveste tantos como Jacob” e fica-se por ali. Como vês, eu tive 12 e fiquei-me por ali. Foram muitos mais do que eu queria ter quando me casei, tinha pensado ter 2 ou 3 filhos, mas o destino obrigou-me a criar 9 e a ter que afogar 3 com as minhas próprias mãos. Foi uma vida muito difícil mas não me arrependo de nada do que fiz porque considero que foi tudo vontade de Deus a quem agradeço tudo o que tenho. Vivi muitos dias de fome e de frio, muito castigada pela Natureza e por Deus mas nunca quebrei a minha força de viver. Apenas posso garantir que, se fosse hoje, tornaria a afogar os que afoguei e a criar os que criei. Espero que a história da minha vida te tenha feito ver que a morte do teu Simeão não foi nada que já não tenha acontecido a outras pessoas, não é mais que o preço que temos que pagar para sermos diferentes e, quando tiveres as tuas 4 crianças da penitência, vais ver que valeu a pena. Agora vou acabar de fazer o almoço que esta conversa abriu-me o apetite.

A Maria Zé ficou a pensar. Se a mãe não tivesse, há vinte e tal anos, afogado o tal Joaquim, hoje, nem ela nem os irmãos mais novos estariam vivos. Se uma vida não tem preço como se poderia comparar a vida das três crianças doentes que morreram afogados com as vida dos 7 saudáveis que nasceram para os substituir? Parecia-lhe mesmo uma comparação impossível de fazer até porque era uma das 7 crianças que nasceram em substituição das que foram “devolvidas ao Criador” pela mãe.

Capítulo seguinte (10 - O almoço)

domingo, 31 de maio de 2015

8 - A revelação

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (7 - A penitência)  


8 – A revelação 
Como a Maria Zé combinou com a Dulcinha que só voltaria a casa quando tudo estivesse pronto para o funeral, depois da confissão decidiu ir para casa dos pais. Pelo caminho foi matutando na penitência proposta pelo Sr. Padre Augusto, “Mas se o Simeão morreu, já não há nada que possa ser feito, nada que o possa trazer de volta à vida. Por isso, não compreendo como ter mais 4 filhos me pode redimir deste pecado”. Assim que chegou ao casebre dos pais e viu a mãe à porta, vestida de preto para marcar o luto, disse “Mãe, o meu Simeão morreu e Deus nunca mo perdoará”.
– Minha filha, Deus há-de perdoar-te porque já nada podes fazer para o trazer de volta à vida. Bem sei que tens o teu coração apertado mas o que lá vai, lá vai. Vais ver que, com o tempo, tudo passa e tudo esquece.
– Mas mãe, fui eu que causei, mesmo sem o saber, esta tragédia. Porque ninguém me avisou de que o defumadouro era isto? Agora, nunca mais poderei ser perdoada porque o Simeão não pode mais ser trazido à vida.
– Dizes que ninguém te avisou porque não quiseste ouvir o que a Tia Júlia te disse. Agora tens que ter pensamentos positivos, fazer com que tudo o que aconteceu no passado fique no passado. A morte do Simeão já é passado e nada podes fazer para mudar esse passado. Se o Sr. Padre Augusto diz que a tua redenção passa por teres mais 4 filhos, só tens que acreditar nas suas palavras e cumprir a penitência que ele decretou, se estiveste implicada no fim de um cristãozinho, naturalmente que podes reparar essa perda tendo mais quatro cristãos. Agora pode-te parecer estranho mas, com o tempo, vais ver que a penitência é justa e equilibrada que mais não pode ter sido que não uma inspiração do Espírito Santo.
– Mas mãe, e o sofrimento do Simeãozinho, quem o pode reparar?
– Isso já sabes que ninguém. A morte não pode ser reparada porque é irreversível mas o que não tem cura, curado está. E a morte também não é assim tão grave porque todos nascemos condenados a morrer seja por uma causa ou por outra. Tens é que pensar que a tua criancinha, mais dia, menos dia, iria morrer da doença e que tu, no entretanto, não tinhas como a criar. O mais certo era morrer mesmo de fome ou de tifo e arrastar o teu outro filho Rúben com ele. Agora, tens que olhar para o futuro e reparar a tua falha junto dos que continuam vivos. Se o Sr. padre diz que essa reparação passa por teres mais 4 filhos, só tens que lhe dar cumprimento.
– Mãe, não me consigo convencer ...
– Então, vejo-me obrigada a revelar-te um segredo que me acompanha desde há muitos anos para veres como algo mau pode dar origem a algo bom. Repara bem no que te vou dizer: apesar de teres 8 irmãos, eu tive mais filhos mas que tive que matar por terem nascido com a doença.
A Maria Zé estava a olhar para o chão e, como que ferrada por uma abelha, levantou rapidamente o olhar – “Eu lembro-me de quando morreu aquela menina pequenina, também terá sido vitima do defumadouro?”
– Não, não me estou a referir a menina nenhuma, estou-me a referir ao Joaquim.
– Mas o Joaquim está vivo, o meu irmão Joaquim está vivo, morra lá ao fundo da aldeia, ainda esteve em minha casa não faz nem um mês, a mãe só pode estar confundida ou a querer indrominar-me.
– Não, não, não estou a confundir, esse Joaquim é outro. O que estou a falar já morreu, podes pedir ao Padre Augusto para te mostrar o assento do baptizado. Era um menino tão bonito, tão vivinho, com um olhar felino, era igualzinho ao teu pai. Nunca me passou pela mente que tivesse a doença mas, com o passar dos meses, foi ficando para trás, não se desenvolvendo como deveria ser. Vivia com o meu coração tão apertado porque pouco antes tinha acontecia uma tragédia à Júlia de que não te posso falar.
– Sabe mãe, eu sei dessa tragédia porque há pouco o Padre Augusto contou-ma e foi mesmo terrível.
– Pois então já deves imaginar o meu aperto. Quando comecei a desconfiar de que alguma coisa estava mal, fui consultar o Dr. Acácio que me disse logo “Tenho más notícias, a tua criança tem a doença. Custa-me ser eu a dizer-to e aperta-me o coração ver o teu sofrimento mas não há nada que a medicina possa fazer”. Fiquei arrasada, gritei, chorei, andei por esses montes desorientada. Como não saia da minha mente o que tinha acontecido à minha irmã, à tua Tia Júlia, fiquei tomada pelo medo de ver o teu pai a ser levado à loucura. Naquele tempo a miséria era ainda pior do que agora pelo que sabia que tinha que ser eu a resolver o assunto pois os homens dizem-se muito fortes mas, de facto, não têm fibra. Não disse nada a ninguém, pensei toda a noite no que haveria de fazer e, pela manhã, conclui que tinha que devolver o Joaquim ao Criador.
– Mas então, quer dizer que a Tia Júlia matou esse Joaquim da mesma forma que matou o meu Simeão?
– Não digas que a tua tia matou o Simeão pois ele morreu por causa da doença e muito menos teve algo a ver com o que aconteceu ao Joaquim. Realmente falava-se num defumadouro milagroso mas eu não acreditava em nada disso e, além do mais, não sabia quem o fazia. Naquele tempo eu era uma mulher tesa, não era mulher para empurrar para os outros o que tinha que ser feito por mim. De manhã cedo peguei no gigo com a roupa suja, pousei o teu irmão em cima, meti tudo à cabeça e fui ao ribeiro como quem vai lavar a roupa. Fui muito cedo para que não estivesse ninguém por lá. Quando cheguei ao ribeiro, peguei no teu irmão, virei-o de barriga para baixo e mandei-o à água, sempre a empurrar para baixo para que não viesse ao de cima.
– Ai mãe que coisa terrível me está a dizer, eu nem quero acreditar que isso aconteceu mesmo.
– Foi isso mesmo, afoguei-o com as minhas próprias mãos. O coitadinho ainda se debateu debaixo de água, lutou para salvar a sua tenra vida mas eu não o larguei. Eu rezava a pedir perdão pelo que estava a fazer mas aquilo tinha mesmo que ser feito. Foi uma questão de um minuto mas que me pareceu uma eternidade. Depois, foi ao fundo e eu fui ainda lavar umas peças de roupa de forma a ter a certeza de que a criança tinha sido devolvida ao Criador.
– Mãe, não conte mais que isso é terrível de mais, é de uma insensibilidade extrema, matar o filho com suas próprias mãos ...
– Não, tu tens que ouvir porque pensas que as coisas se resolvem por si, que caiem do Céu sem mais nem menos, que chamas alguém para fazer o que tu deverias fazer e depois sais a gritar que assassinaram a tua criança. Depois de calcular que a criança já estaria definitivamente morta, desatei a correr em direcção às casas a gritar “Socorro que a minha criança caiu ao rio”. Corri como uma desalmada com a esperança de que acontecesse um milagre que sabia ser impossível mas os milagres são isso mesmo, a alteração das Leis da Natureza criadas por Deus. Antes que chegasse às casas já as pessoas vinham de lá a correr “Onde caiu a criança” e eu apontei para o local onde a tinha afogado. Quando as pessoas a descobriram, a corrente já a tinha arrastado uns 20 metros. Gritavam “Rápido que ainda pode estar viva” mas eu sabia que já estava morta e bem morta. Houve uma pessoa que se atirou à água e lhe aplicou respiração boca-a-boca mas a criança não reagiu, estava mesmo morta. Alguém foi, no entretanto, chamar o Dr. Acácio que, quando chegou, disse logo que não havia nada a fazer. Chamou-me ao lado para me dizer em voz baixa “Eu não imaginei que isto acontecesse assim tão rápido e desta forma tão desumana, nunca pensei que fosses capaz desta atrocidade”.
– Mas mãe ...
– Eu digo-te o que lhe disse “Apenas corrigi o erro da Natureza. Se calhar pensou que eu era como a minha irmã, mulher de ficar à espera que alguém resolvesse os seus problemas, mas eu sou diferente, faço logo o que tem que ser feito, agora que está feito, acabou-se o problema.”
– Mas mãe, isso que fez não pode ter mais perdão. Não há nada que possa ter feito que reparasse esse pecado.

– Ai não, espera então até saberes a verdade toda e só depois é que podes dizer se eu fiz bem ou mal.

Capítulo seguinte (9 - A substituição)

quarta-feira, 27 de maio de 2015

7 – A penitência

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (6 - A confissão)


7 – A penitência
– Sabes minha filha, eu conheço a Júlia desde que ela era jovem e inocente, fui já eu quem a casou e quem lhe baptizou os filhos.
– Mas Sr. Padre, o Sr. deve estar a confundir pois ela nunca teve filhos, toda a gente sabe que ela nunca teve filhos, ela mesmo me disse variadíssimas vezes que nunca teve filhos!
– Deves pensar que eu estou a ficar cansado da cabeça pois sempre ouviste dizer isso mas teve filhos e logo quatro que eu baptizei naquela pia baptismal que está ao fundo da igreja, na mesma em que te baptizei a ti e ao teu Simeão. Naquele tempo já constava que alguém fazia o defumadouro para evitar a doença e, não sei se era verdade porque nunca falamos nisso, também constava que esse alguém era a minha própria mãe. Vê só como o mundo dá voltas, é que todos sofremos da mesma maldita doença e, no passado, seria a minha mãe que tratava disso. Ao longo da minha vida sempre pensei ser errado acabar com a vida desse inocentes e por isso, quando me fiz padre, decidi que o defumadouro tinha que acabar de uma vez por todas. O meu antecessor, o Sr. Padre Félix, disse-me para eu não mexer no assunto porque as consequências seriam terríveis, muito mais grave do que eu antecipava mas eu achava que era um pecado tão grave, que violava de forma tão grosseira o mandamento “Não Matarás” que comecei a pregar que em circunstância alguma poderia ser usado o defumadouro para decidir quais as crianças que poderiam viver e as que deveriam morrer, isso só poderia ser uma escolha de Deus. Na minha missão contra a prática, na preparação para o casamento obrigava os noivos a jurar perante Deus de que não iriam aplicar o defumadouro às crianças. Pensava eu que, com muita fé, Deus iria levantar a maldição sobre a nossa gente. Eu sabia que as pessoas faziam tábua rasa sobre o que eu pregava continuando a fazer o que sempre fizeram mas a Júlia, por ser uma pessoa de grande fé, aceitou as minhas palavras. O problema é que o primeiro filho nasceu doente. Veio com o marido falar comigo e eu disse-lhes para aceitarem porque era a vontade de Deus, que se tivessem fé, Deus haveria de curar a criança. Aceitaram as minhas palavras e, com dificuldades, foram-no criando até que veio o segundo filho que também nasceu doente. Eu pedi ajuda às pessoas mas elas responderam-me que “Cada um de nós tem que resolver os nossos problemas. Não vou, como o Sr. Padre diz, arder eternamente no fogo do inferno e, depois, ainda sustentar quem vai para o Céu. Que aguente como eu aguento.” Pensando que Deus não poderia estar sempre distraído, mandei-os ter o terceiro e depois o quarto mas todos nasceram doentes. Eu fiquei de rastos, como podia Deus fazer tal maldade? Na altura até perguntei ao Dr. Acácio se a ciência podia explicar o nascimento de 4 doentes seguidos ou se seria mesmo uma maldição de Deus e ele disse-me que era pouco provável mas que poderia acontecer, que a culpa seria da estatística e não da mão de Deus.
– Mas, Sr. Padre, será que ninguém sabe disso, de que ela teve 4 filhos? E que é feito dessas crianças? Ela é minha tia e eu nunca ouvi falar disso...
– Os mais velhos sabem mas, como, entretanto, aconteceu algo de muito terrível, eu decretei que pecaria gravemente quem dissesse uma única palavra que fosse sobre o sucedido, que iria arder eternamente no fogo do Inferno. As crianças foram crescendo mas nunca chegaram a caminhar, falar ou sequer a comer pela sua própria mão. Aquela mulher e o marido, que também era teu parente pois era primo direito do teu pai, tinham uma canseira indescritível. Criar, sem terem leira nem beira, 4 crianças com aquele nível de dependência era algo inimaginável pelo que, pensava eu, o destino deles só poderia ser o Céu.
– E o que aconteceu a essas crianças?
– Um dia, já teria o mais velhinho uns 10 anos, estava eu a dormir e ouvi um burburinho na rua, alguém a praguejar contra Deus, a dizer coisas que, de tão terrível, não as posso repetir. Eu vim à janela e vi a Júlia com um archote a dizer que se ia matar mas que antes iria pegar fogo à igreja e, mesmo ,matar-me pois não passava de um enviado do Demónio. Vesti qualquer coisa e fui lá fora com a Santa Cruz numa mão e a caldeirinha da água benta na outra para tentar tirar-lhe o Diabo do corpo. A Júlia era uma pessoa tão temente a Deus que aquilo só poderia ser obra do Diabo, tinha que estar possessa pelo Satanás. Abeirei-me dela, benzi-a e perguntei-lhe “O que se passa mulher de Deus, o que te aconteceu de tão terrível para estares assim, vai de retro Satanás” e atirei-lhe com fartura de água benta. “Ai Sr. Padre que o meu marido foi-se abaixo, cometeu uma loucura. Venha comigo rapidamente que eu já não sei o que fazer à minha vida. A minha cabeça vai explodir, alguém me mate pois Deus abandonou-me de vez.”
– Mas afinal o que lhe tinha acontecido? – Perguntou a Maria Zé.
– Calma que já lá vou. A Júlia foi a correr feita louca e eu fui atrás dela, com a língua de fora, rumo a casa dela, lá no fundo da aldeia. Quando cheguei lá já estava a clarear e vi um vulto dependurado na laranjeira que tinham à porta, era o marido que se tinha enforcado. “Que tragédia”, pensei eu, “e agora o que vai ser das crianças doentes?” O cão estava danado ladrando com uma intensidade como nunca tinha visto. Aquele ladrar era respondido ao longe por latidelas de outros cães um pouco por toda a aldeia e o uivo dos lobos no monte. “Entre Sr. Padre, entre para ver a extensão da desgraça.” Disse a Júlia.
– Mas o marido não tinha morrido num acidente qualquer?
– Calma que isso é tudo para abafar a verdade. Eu entrei na casa, entrei directamente na sala e, como não havia luz, apenas notei um cheiro estranho e que o chão estava muito escorregadio e com uma substância que colava aos meus sapatos. “Que porcaria por aqui vai, nunca pensei que a Júlia fosse tão porca”, pensei eu, “Júlia traz uma vela que não vejo nada”. Enquanto eu olhava para o chão, a Júlia veio do quarto com uma vela e aí reparei que o chão estava cheio de sangue, parecia um lago. Como eu estava a olhar para o chão, a Júlia chamou pela minha atenção “Olhe para aqui Sr. Padre, olhe para aqui, olhe para cima da mesa, veja como estão os meus anjinhos”. Olhei e tive um choque terrível. Sobre um lado da velha mesa estavam alinhadas as 4 cabecinhas, organizadas da mais velhinha para a mais nova e, do outro lado, os corpos das 4 crianças, também organizados do maior para o mais pequenino. Coisa terrível, parecia um talho, o marido tinha, com o machado de rachar lenha, cortado fora a cabeça dos seus filhos. Quando vi aquilo, deu-me tamanha volta ao estômago que pensei que ia morrer, que me ia sair fora tudo o que tinha cá dentro.
– Sr. Padre, mas ninguém soube dessa tragédia? Como é possível o meu tio ter matado os 4 filhos e ninguém o saber?
– Abafamos aquilo como pudemos. Dissemos que, durante a noite, parte da casa tinha ruído e que tinha matado todos os cinco. Que a Júlia tinha escapado porque tinha ido, naquele momento, à retrete e que, por ter sofrido a desgraça de ver os filhos e o marido mortos de uma só vez, tinha virado do juízo. Para que tudo parecesse verdade, naquele mesmo dia foram uns homens de segredo deitar abaixo parte da casita onde viviam.
– Então é por isso que a Tia Júlia vive naquele anexo que foi galinheiro. Coitada, nunca mais deve ter tido coragem para entrar dentro da casa.
– Fizemos o funeral enterrando todos os cinco na mesma cova, naquela campa cuja lápide refere o nome do marido dela. Depois, a Júlia virou mesmo do juízo, ficou semanas na casa paroquial, atada de pés e mãos para que não se matasse. Foram semanas em que só praguejou. Todos os dias fazíamos uma novena a ver se recuperava. Um dia, quando já não havia esperança, como por milagre, calou-se e voltou ao seu estado normal até hoje.
– Sr. Padre, isso foi verdadeiramente terrível. Agora compreendo porque a Tia Júlia é uma pessoa tão triste. Realmente, em presença disso, o meu problema não tem importância nenhuma, imagino como terá sido perder ao mesmo tempo o marido e todos os quatro filhos. Coitada, tinha-lhe tanta raiva e agora sinto pena dela, já compreendo porque, quando lhe fomos pedir para fazer o defumadouro, pediu a Deus para a libertar do fardo.
– E sabes minha filha, no fundo fui eu o culpado por pelo menos parte da tragédia. Se ela tivesse feito o defumadouro, seria certo que as crianças teriam morrido mas, morreram na mesma e, no final, a Júlia ainda teria marido e, quem sabe, teria tido mais filhos saudáveis. Ao pensar que estava a evitar um pecado grave, estava a causar uma tragédia muito maior na qual nem as crianças que eu queria proteger escaparam. O Sr. Padre Félix quis avisar-me e eu, por sobranceria, por pensar que sabia mais dos desígnios de Deus que ele, não ouvi os seus conselhos.
– O Sr. Padre fez o que lhe pareceu certo à luz das Sagradas Escrituras.
– Pois parecia-me que sim mas o resultado foi catastrófico. Desde esse tempo, sei que os defumadouros passaram a ser feitos pela tua tia Júlia. Era uma mulher atormentada por aquela tragédia que tomou essa missão como penitencia. Minha filha, quanto ao teu pecado, não compete ao homem julgar o seu semelhante, isso é tarefa que temos que deixar a Deus.
– Mas Sr. Padre, como posso eu ter perdão se, no fundo, sinto um certo alívio pelo que aconteceu? Como pode Deus perdoar-me se eu não estou arrependida? A única coisa que posso prometer é que isto nunca mais se vai repetir porque nunca mais terei filhos.
– Minha filha, primeiro tens que recordar que Jacó enganou seu pai Isaque dizendo que era o Saúl e que, mesmo sem nunca se ter arrependido, Deus lho perdoou a ponto de ter sido ele quem deu origem ao povo eleito. Depois, o teu futuro não está mais nas tuas mãos. No meu julgamento, mantenho que tens que cumprir o mandamento “Crescei e multiplicai-vos” que Deus ordenou a Adão e, depois, repetiu a Noé, pelo que a penitência vai ter que ser exactamente ao contrário do que estás a pensar. Como prova perante Deus de que não foi nenhum sentimento egoísta que te levou a desejar e a aceitar a morte do teu Simeão, tens que ir ao altar prometer a Deus que, em substituição do Simeão, vais ter mais quatro filhos, ouve bem, quatro filhos. Reza agora o Acto de Contrição e, depois, vai à tua vida.
Enquanto a Maria Zé recitava o Acto de Contrição, as lágrimas vieram-lhe aos olhos de alegria por o seu pecado, afinal, ter perdão aos olhos de Deus mesmo sem sentir arrependimento. “Criar mais 4 filhos vai ser difícil mas Deus há-de-me ajudar”. Enquanto rezava, o padre Augusto decretou, fazendo o sinal da cruz, Ego te absolvo a peccatis tuis in nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti.

– Amen

Capítulo seguinte (8 - A revelação)

domingo, 24 de maio de 2015

6 - A confissão

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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6 – A confissão
A Maria Zé chegou à casa paroquial pouco passava das 10h30. Puxou o arame da sineta – tlim, tlim, tlim – e passado um ou dois minutos apareceu a criada do Sr. Padre, a Menina Encarnação.
– Bom dia Sra. Maria José, o que a traz por cá? Vejo que vem de preto pelo que não deve ser coisa boa.
– Sabe Menina Encarnação, o meu filho mais pequenino, o Simeão, morreu durante a noite e eu vinha cá para falar com o Sr. Padre e tratar do funeral. Já havia alguns dias que estava meio doente, não queria comer, ainda pensei chamar o Sr. Dr. Acácio mas como pensei que a doença não fosse grave e o dinheiro não gosta de aparecer lá por casa, adiei a coisa e agora, durante a noite, o meu menino morreu.
– Eu não tenho filhos mas toda a mãe quando tem um filho tem que se preparar para a eventualidade de o perder. A Sr. Maria Zé sabe que a vida é um constante apegamento às pessoas que amamos e despegamento quando as perdemos. E parece que Deus vê um certo pecado na felicidade do amor de mãe pois quanto mais alegria a mãe retira da sua criança, mais sofre quando Deus lha tira.
– É isso mesmo Menina Encarnação, estou aqui por dentro que não me aguento mas tenho que ir buscar forças onde as não tenho pois a vida tem que seguir em frente. Eu estive há pouco na casa do Sr. Costa e a Menina Dulcinha disse-me que se o sino tocasse hoje de manhã o funeral ainda poderia ser hoje, na missa das 18h. É que está calor e pode ser uma doença que ponha em causa a saúde pública.
– Eu imagino o que está a sofrer, imagino que quando morre um filho é um tempo de enorme desgosto mas, realmente, é preciso tratar das coisas práticas. Entre, entre e sente-se aqui que o Sr. Padre Augusto vem já, foi há igreja rezar pela salvação das nossas almas e tratar de uns assuntos de papeladas mas não demora. Entre que eu vou preparar uma limonada pois, neste tempo de calor, só faz bem e, depois, vou mesmo dar uma saltadinha à igreja a ver se apresso a coisa.
Naquele tempo de espera, a Maria Zé reviveu tudo o que se tinha passado na noite anterior. Como tinha lutado mas sem convicção e rezado mas sem fé na cura e na salvação do filho. Por causa dessa falta de convicção e por ter feito o contrato com a Tia Júlia achava-se muito culpada pela morte da criança. Mas, mais grave do que ter participado na morte, era não estar arrependida. No fundo, no fundo, estava conformada com o que tinha acontecido e até, em certa medida, contente e aliviada porque “não podia criar uma criança assim tão doente”. Não tinha orgulho no que tinha feito mas também não tinha vergonha. E se não estava arrependida como é que poderia ter o perdão de Deus? Estava mesmo condenada à perdição, afinal a ideia nobre de ter filhos, de dar cumprimento aos mandamentos de Deus, tinha-a condenado à perdição eterna, estava agora condenada a arder no eterno fogo do Inferno.
O Sr. Padre tanto pode ter demorado muito como pouco porque os pensamentos fizeram a Maria Zé perder a noção do tempo. Foi então que o Sr. Padre Augusto entrou na pequena sala de espera.
– Bom-dia Maria Zé, o que te traz por aqui minha filha? – Disse o Sr. Padre mal entrou na pequena sala.
– Abençoe-me Sr. Padre que venho aqui procurar o conforto dos Mandamentos de Deus. É que o meu filho mais pequenino, o Simeão, morreu-me durante a noite. E também venho pedir se pode marcar o enterro para ainda hoje, para logo à tarde. Disse-me a Menina Dulcinha que era o melhor que poderia ser feito por causa do calor que está. Sabe Sr. Padre, também estou com um peso na consciência porque não fiz o suficiente para evitar que a minha criança morresse.
– Por agora deixa-te disso da culpa pois precisamos primeiro tratar dos assuntos práticos. Oh Encarnação, vai a casa do Sr. Mariazinha dizer-lhe que item que r à igreja dobrar o sino para anunciar o funeral para ainda hoje e diz-lhe também para abrir uma cova para uma criança pequena. Depois, quando vieres, preparas a casula branca pois, sendo o funeral de um anjinho, merece a casula da inocência e da pureza. Maria José, vamos agora até à igreja para ouvir o que ias dizer mas agora sob a protecção do segredo da confissão.
A Igreja distava menos de cem metros da casa paroquial que foram percorridos em silêncio sepulcral. À frente ia o padre vestido com a batina preta, o chapéu preto e as mãos entrelaçadas com um terço de pérolas brancas atrás das costas. A Maria Zé perseguia-o a rezar avé-marias em pensamento. Chegados à sacristia, o padre meteu a chave à porta e abriu-a – “Aguarda ali que já lá te vou abrir a porta lateral da igreja” – entrou e fechou a porta novamente com duas voltas de chave. Ainda demorou lá dentro uns bons minutos, talvez a rezar junto do Santíssimo a pedir inspiração divina. Depois, abriu a porta lateral – “Entra minha filha, vamos para o confessionário” – Afinal aquele tempo tinha servido para vestir a alva.
A Maria Zé ajoelhou-se – “Abençoe-me Sr. Padre porque pequei por actos e omissões, por minha culpa, minha única culpa.”
– Deus te abençoe.
– Eu não posso ter perdão pois eu sou a responsável, por actos e omissões, pela morte do meu Simeãozinho.
– Deus compreende que na miséria em que vivemos nem sempre os país podem dar às suas crianças uma alimentação boa, Deus sabe e compreende.
– Mas Sr. Padre, a minha criança não morreu de fome ...
– Eu sei minha filha, eu sei tudo o que se passou ontem à noite em tua casa, eu sei que a tua Tia Júlia esteve ontem em tua casa para fazer o defumadouro à tua criança e que ela não resistiu.
– Mas como é que o Sr. Padre já sabe disso? Foi o Espírito Santo que lho disse?
– Não, nada, não foi nada disso, foi uma coisa mais terrena. É que a Júlia antes de ir a tua casa passou por aqui para rezar e para falarmos um pouco. Quando te ouvi dizer que a tua criança morreu durante a noite, somei dois com dois e descobri logo que essa tua criança não resistiu ao defumadouro. Sabes minha filha, vês que cá na nossa aldeia morrem muitas crianças, em cada 10 que eu baptizo, morrem umas 3 ou 4 antes de fazerem a comunhão. Deus deve querer que seja assim, se não é a fome é o tifo, se não é o tifo é o sarampo e se não é uma coisa nem outra, é o defumadouro, pelo que já estou habituado a estas tragédias.
– Mas Sr. Padre, o defumadouro não mata ninguém, o meu outro filhinho, o Rúben, também teve o defumadouro e não lhe aconteceu nada de mal. Não foi o defumadouro que matou a minha criança mas antes a Tia Júlia ter fechado a tampa da caixa da roupa onde tinha metido o meu filho juntamente com o fogareiro em brasa. Foi a caixa estar fechada que asfixiou a criança e o grave é que eu sabia que a criança ia asfixiar e não fiz nada para o evitar. Escondi-me atrás de uma esperança sem sentido de que iria acontecer o milagre da cura.
–Quando nascemos já sabemos que vamos morrer e se Deus permitiu que isso tivesse acontecido é porque queria a tua criancinha junto dele, tens que ter paciência. É sempre triste ver um filho morrer mas são os caminhos do Senhor para ver até onde vai a tua fé. Para ti é um sofrimento sem igual para para a tua criança, por esta hora já está no Céu.
– Mas senhor padre, eu não me fiz entender pelo que vou ter que ser mais clara, a minha criança morreu porque a Tia Júlia a matou e com a minha conivência. Não foi Deus que a chamou foi o meter do fogareiro em brasa numa caixa fechada juntamente com a minha criança. Não foi mais que uma Lei da Natureza, meter a criança com carvão a arder numa caixa fechada era certo que ela ia morre asfixiada e eu deixei que isso acontecesse. E isto não pode ter perdão, eu estou condenada à danação eterna.
– Mas minha filha vens aqui ser juiz ou ser réu? Vens aqui procurar perdão de Deus ou condenares-te?


Capítulo seguinte (7 - A penitência)

quarta-feira, 20 de maio de 2015

5 - A casa

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (4 - A preparação)




5 – A casa
O casebre era pequeno, 9 x 6 m2, com uma parede no sentido transversal usada para formar a dispensa onde estavam guardados 5 pipos de vinho, a caixa do pão com uma divisão maior para o milho e outra menor para o feijão e a caixa da roupa maior, cobertores, mantas e casacos para usar no Inverno. O quadrado que sobrava do casebre era dividido pela cumeeira numa metade que era a sala e na outra metade que eram dois quartos onde praticamente só cabiam a cama, uma caixa pequena para a roupa de vestir e um banco que também servia de mesinha de cabeceira. A sala tinha uma mesa formada por duas tábuas velhas, dois bancos corridos e, na parede, uma prateleira onde estava a louça em barro vermelho, seis pratos, outras tantas malgas e uma travessa, muita dela já costurada com arames enferrujados.
Fora da casa havia os anexos feitos em paus atados entre si e emassados com barro e palha. Eram a retrete, a cozinha e o galinheiro e, depois, a arrecadação para as batatas, o feno e as alfaias agrícolas e os currais do porco e das ovelhas. O casebre de um lado e os anexos do outro lado cercavam o pátio que, no seu conjunto, fazia a casa parecer uma cidadezinha muralhada em que o porteiro, um cão magro preso por uma corrente, ladrava ruidosamente, fosse dia, fosse noite, sempre que alguém passava por perto.
A menina Dulcinha meteu a chave à porta, abriu-a e entrou juntamente com o pai que levava debaixo do braço a urna com a roupa dentro. Com eles ia a Sra. Celeste para ajudar a lavar e a vestir a criancinha morta. O ambiente era de grande pobreza, as paredes escuras de nunca terem visto caiação. A criança estava no quarto, no seu bercinho de verga, rosadinha como se estivesse viva mas morta como já seria de esperar pois a Maria Zé não se ia enganar e o Milagre da Ressurreição do Lázaro só aconteceu uma vez na história bíblica. Logo a seguir chegou o Dr. Acácio.
– Bom dia. Está bom, Sr. Costa? Senhora e menina, então o que temos por aqui? – disse o Dr. Acácio.
– Sabe Sr. Doutor, é que a criancinha morreu de noite e, como quando morre uma criança a estes desgraçados aparece sempre o Polícia Vieira, como me pareceu haver uma certa duvida nas causas da morte, achei melhor chamar o Sr. Doutor. Venha ali até ao quarto que a criança está lá.
O Dr. Acácio entrou no quarto – “Mau, a criancinha está rosada o que não é bom sinal, o Polícia Vieira vai achar estranho uma criança morta estar rosada. Sabe menina, é que esta cor indica uma intoxicação com fumo o que, no Verão, é estranho. Vou ter que fazer alguma coisa para disfarçar esta cor de forma a poder escrever na certidão que morreu de doença gastrointestinal. Sra. Celeste, se faz favor, venha aqui lavar a criança.”
Com a criancinha lavada e seca, o Dr. Acácio foi à sua mala preta e tirou um boião com uma substância de cor escura azulada que parecia graxa para os sapatos. Com dois dedos foi escurecendo a cara e as mãozinhas da criança. Depois de estar num tom mais compatível com a morte, limpou as suas mãos com um lenço que também tirou da mala.
– Pronto, agora já está com a cor que eu queria, já parece morta. Vamos vestir a criancinha para eu ver se precisa de mais algum retoque. Sra. Celeste, antes de virem as pessoas ver a criança defunta é preciso fazer uma desinfecção geral da casa, pegar nesta roupa toda que teve contacto com a criança e mete-la numa barrela com lixívia. Não vá o diabo tecê-las, vou também afixar aqui um papel à porta a dizer que, como a criança morreu de doença contagiosa, os menores de 10 anos não podem entrar na casa. Menina Dulcinha, não se esqueça disto. – Virando-se para a menina Dulcinha – E o pagamento, está por sua conta Dulcinha?
– Está sim Sr. doutor – a Dulcinha, tirando do bolso uma pequena carteira, abriu-a e tirou duas notas de 10€ e outra de 5€ – faça favor Sr. Doutor.
Estando a certidão passada e o pagamento feito, o Dr. Acácio foi-se embora a pé e começou imediatamente a limpeza da casa.

– Sra. Celeste, estou a ouvir o sino da igreja o que indica que o funeral vai ser hoje. Tenho que ir rápido ao posto da polícia para tratar ainda de manhã dos papéis do enterramento, penso estar de volta dentro de uma horita. Fique a tratar de tudo e não se pode esqueça que, para receber as pessoas que vierem ao funeral, ainda é preciso fritar as pataniscas de bacalhau, encher 5 garrafões de vinho e fazer uma limonada para as crianças.

Capítulo seguinte (6 - A confissão)

domingo, 17 de maio de 2015

4 - A preparação

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (3 - O desgosto)




4 – A preparação
A Maria Zé ficou a gritar, inconsolável, absorvida pela dor e pela ideia de que tinha sido cúmplice de um crime de dimensão bíblica. Mas, com o decorrer dos minutos começou a alinhavar alguns pensamentos desculpabilizadores. “Só agora percebo porque as pessoas falavam no defumadouro como algo terrível. Em criança eu acreditava no que diziam, que as crianças que morriam eram anjinhos que Deus tinha colocado provisoriamente no meio de nós e que, naquela noite, tinha chamado de volta para junto Dele mas, afinal, agora sei que essas crianças, pelo menos algumas, morreram por causa do defumadouro. E, tanto quanto me recordo, ninguém foi presa por causa disso.”
Veio até à porta para apanhar a frescura daa madrugada e logo continuaram os pensamentos. “Pensando retrospectivamente, a velhota até tem razão. Quando lhe fui pedir para que evitasse ter que criar filhos deficientes, estava a rejeitar, de entre todos os milhares de anjinhos que tinha dentro de mim, os que eram doentes. E, realmente, ela não me disse que não nasceriam mas apenas que iria resolver o assunto da melhor forma possível. Que eu não iria ter filhos doentes para criar e, realmente, cumpriu o trato mas não da forma como eu tinha imaginado. É que naquele dia, ao dizer que não queria que nascessem crianças deficientes estava a dizer que não queria que o Simeão nascesse mas agora, depois de o ter dado à vida, nunca teria coragem de lhe dar fim. Qual a lógica de não querer que ele nascesse e, agora, estar triste por ele ter morrido? Se ainda hoje mo perguntassem eu diria que não queria que ele viesse ao Mundo porque não o poderia criar. A questão é que eu acreditei numa história de crianças. quiz acreditar no impossível, na ideia de que um simples defumadouro, mesmo que fosse com carvão da Terra Santa, iria evitar que os ovinhos com a doença fossem transformados em crianças. Mas, no fundo, eu sempre soube que isso era impossível. No fundo, apenas estava a ser covarde, a atirar para outra pessoa o problema que tinha que ser resolvido por mim mas que não conseguia enfrentar. Como fui injusta em lançar à Tia Júlia a praga do fogo do Inferno quando a sua vida, com o peso de todas as criancinhas que devem ter morrido às suas mãos, sei lá quantas, já deveria ser um inferno. Estou finalmente a ver que a Tia Júlia é uma vítima de todo este processo sacrificando-se pelos outros.”
Os pensamentos continuaram por longas horas intercalados com momentos de desespero pelo que só por volta das 9h da manhã, já o Sol ia alto, é que a Maria Zé tomou consciência de que tinha que ir tratar das consequências daquela noite. Provavelmente iria ser condenada a uma pena qualquer mas, pensando bem, já outras mortes tinham acontecido e ainda ninguém tinha sido castigado, talvez a chave estivesse em manter bico calado. Para publicitar o seu desgosto, vestiu-se com roupa preta e, depois, comeu um bocado de pão de milho com café frio feito de véspera e partiu para a casa do Sr. Costa a toda a pressa. Pelo caminho foi pedindo às pessoas que fossem avisar os pais e o marido do sucedido. Chegando a casa do Sr. Costa, bateu à porta suavemente porque o senhor era temperamental e não gostava nada de choradeira à porta de sua casa.
– Sr. Costa, sou a Maria Zé do Zenão. Não se aborreça mas eu preciso que me trate do funeral do meu Simeão que morreu durante a noite.
Aguardou um pouco em silêncio, sentada num dos três degraus que permitiam descer da porta para o nível do caminho, até que o Sr. Costa abriu a porta e, contrariamente ao que era seu costume, mostrou-se razoavelmente afável.
– Deixa lá isso mulher que acontece a qualquer um. Entra, entra, que é para isso que cá estou, entra para falares com a minha filha que vai tratar da papelada e da roupa. Vou-te dar um licorzinho e entretanto preciso saber o tamanho da urna, quem te morreu foi o Rúben ou o Simeão.
– Foi o Simeãozinho, o mais pequenino, só tinha 4 meses.
– Então, chega uma urna de 80 cm. Tens é que ter consciência que isto vai custar dinheiro, vai-te custar 200€.
– Mas Sr. Costa eu não tenho esse dinheiro, estou mesmo com dificuldades. Veja lá se me faz uma atenção. É que só tenho 75€ comigo.
– Deixa-te dessa conversa que isto dá despesa com o doutor, o padre, o coveiro e não nos podemos esquecer do Polícia Vieira que é um comedor. Vou ter que lhe dar qualquer coisa pois, assim que constar que te morreu a criança durante a noite, vai aparecer por aí como um abutre. O mais que te posso fazer é dares-me já esses 75€ e, depois, 10 mensalidades de 10€. Oh Dulcinha, Dulcinha, anda cá, estás a ouvir? Anda cá para tratares da papelada da criança da Maria Zé que “foi para junto do Pai”.
“Para falar do Oolícia Vieira”, pensou a Maria Zé, “é porque o Sr. Costa sabe que a minha criança morreu de causas não naturais mas vou manter o silencio pois é a minha única safa.”
A Dulcinha apareceu, era praticamente um criança, com uns 12 anos, mas a quem cabia, desde que a mãe tinha morrido de pneumonia havia poucos meses, a tarefa de fazer a roupa e tratar da papelada das criancinhas que morressem na aldeia. E, dada a mortandade, isso dava-lhe muito trabalho.
– Bom dia Sra. Maria Zé, é uma tristeza a sua criança ter morrido mas temos que ser fortes e andar para a frente. O meu pai vai tratar de fazer a urna e eu vou tratar do resto, é preciso avisar o Sr. Padre Augusto para tratar da cerimónia religiosa e o Sr. Mariazinha para tocar o sino e abrir a cova. Tenho ainda de tratar da certidão de óbito. Poderia ser o Sr. Padre a tratar disso mas, como a morte de uma criança levanta sempre problemas, o melhor é chamar o Sr. Dr. Acácio. Acha bem eu fazer uma roupinha toda em branco com uma asinhas? É o que se usa normalmente nos anjinho. Tenho aqui um pano de seda e penas, tudo vindo de Paris. Vai ver que fica muito bonito.
– Ai menina Dulcinha, o que me aconteceu foi uma tragédia. Nem sei o que me vai acontecer agora. É que a criança morreu em parte por meu desmazelo – cala-te burra, pensou ela.
– Vamo-nos esquecer da noite de ontem porque já nada se pode fazer para trazer a criança de volta à vida. E foi a senhora que a deu à vida, que teve as dores de parto, que lhe deu de mamar pelo que sabia, mais do que ninguém, o que era melhor para ela. Agora que está morta, tem que olhar em frente e lembrar-se do Rúben que precisa de si. Temos que olhar ao principio e ao fim e não ao que aconteceu pelo meio. Se há uns meses tinha um filho e hoje tem um filho, pelo meio tem que pensar que nada aconteceu. Agora tem que ser forte e não fazer como a mulher de Lot que olhou para trás e ficou transformada em estátua de sal.
Parecia estranho uma criança de apenas 12 anos ter aquela força toda mas, de facto, aquelas frases não passavam da repetição de uma cassete que tinha ficado na memória das conversas que ouvia da sua mãe.
– Dê-me agora a chave de sua casa, vá até à igreja rezar e aproveite para se confessar com o Sr. Padre que é uma pessoa muito sábia e compreensiva. Eu vou a sua casa com o Sr. Dr. Acácio e, depois das 13h, pode aparecer lá que já estará tudo pronto. Aproveite para pedir ao Sr. Mariazinha para tocar o sino ainda de manhã para que o funeral possa ser na missa de hoje das 18h e para abrir uma meia campa. É melhor fazer o funeral ainda hoje porque está muito calor e a criança morta pode tornar-se um problema de saúde pública.

A Dulcinha acompanhou a Maria Zé à porta e chamou por uma criança que andava por lá a brincar, deu-lhe meio euro e mandou-a ir dizer ao Sr. Dr. Acácio para às 11h ir ter a casa da Maria Zé pois era precisa uma certidão de óbito para uma criança que tinha morrido durante a noite. Voltou para dentro e agarrou-se à costura e, num ápice, aldrabou a roupinha com as asinhas que foi buscar a uma caixa de cartão. Depois, foi à oficina do pai e, estando a urna já pronta, forrou-a por dentro com pano também branco. Agora, era só pegar em tudo e rumar a casa da Maria Zé.

Capítulo seguinte (5 - A casa)

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