quinta-feira, 27 de outubro de 2022

A e-scooter é a maior inovação no transporte de passageiros dos últimos 100 anos.

Os ecologistas defendem que só podemos andar a pé.

Dizem essas pessoas que deveríamos viver próximo dos locais de trabalho, laser, estudo, etc. de forma a ser possível deslocarmo-nos apenas a pé.

Também os bens e serviços que consumimos também deveriam ser produzidos próximo de nós para não haver necessidade de os transportar.

Isto não faz qualquer sentido porque as pessoas têm gostos e capacidades diferentes e dão valor à diversidade de bens e serviços. Além disso, há bens que têm de ser obrigatoriamente produzidos longe de nós como, por exemplo, as bananas (que precisam de calor) e os cereais (que precisam de vastas pradarias que apenas existem no "novo mundo").

Se existem 100000 marcas e modelos de vestuário, não é  possível costurar todos no mesmo local. Bem sei que o Mao Tsé Tung defendia "um mesmo modelo, do mesmo tamanho e da mesma cor, feito do mesmo material para todos" mas a uniformização dos modelos não é o caminho para a felicidade das pessoas (que é o que a sociedade como um todo deve procurar).

Também a existência de economias de escala obriga a que certos bens sejam produzidos num local e distribuídos para todo o mundo. Todos nós já ouvimos falar dos processadores produzidos em Taiwan  e na Coreia do Sul e utilizadas nas máquinas feitas um pouco por todo o mundo.

Também bens como "ver a Torre Eiffel" e "comer peixe grelhado à beira mar" apenas são localmente produzidos (ver com os próprios olhos a Torre Eiffel obriga a deslocar a Paris).

Também as discotecas não podem ficar no mesmo local em que as pessoas dormem!!!!

Se alguém for feliz em ver ao vivo o seu "clube do coração", mesmo que viva no estádio, vai ter de se deslocar porque metade dos jogos são em locais distantes (como equipa visitante).


Para sermos felizes, as pessoas, bens e serviços têm de se deslocar.

Parece estranho eu "perder tempo" a explicar que somos mais felizes se nos pudermos deslocar e se os bens e serviços se deslocarem mas, na mente dos ecologistas, isso não é claro.

Tentei ensinar a alunos de letras, que todos ganhamos se exportarmos bens de "tecnologia intensiva" para África e importarmos de lá bens "de mão de obra intensiva". Não só nós europeus ganhamos (teremos acesso a bens pouco sofisticados a preços baixos) como ganham os africanos por terem acesso a bens de elevada tecnologia que não são capazes de produzir. 

Perguntei-lhes também porque quando vamos ao supermercado existem 100 marcas diferentes de detergente da roupa. Acontece que umas pessoas preferem cheiro a lavanda e outras cheiro a sabão. Também na gelataria há gelados de chocolate, de morango, baunilha e pistácio e vende-se de tudo. Isto traduz que as pessoas são diferentes nos gostos, preferências e capacidades.

Chamaram-me neo-colonialista, racista, xenófobo e fui despedido!!! Sim é verdade, ser professor em Portugal é hoje tão perigosa como o ser no Irão estando a diferença apenas no facto de as "verdades" em Portugal não serem as mesmas que as "verdades" no Irão.


Vamos ao que interessa, à movimentação das pessoas.

As pessoas não têm bem noção disso mas a primeira "invenção" nos transportes foi a domesticação do  burro que aconteceu há cerca de 7000 anos na África Oriental, para os lados da actual Etiópia / Sudão.

O burro foi uma grande inovação porque pode transportar um passageiro (ou uma carga de 60kg, ainda hoje o café se mede em "sacas" de 60 kg) a uma velocidade idêntica à de um humano, 4 a 5 km/h.

Claro que podem dizer "um humano consegue caminhar 60km num dia, exactamente a distância percorrida por um burro" mas a frase está incorrecta, deveria ser dito "há alguns humanos, poucos e bem treinados, que conseguem percorrer 60km num dia, de longe a longe" enquanto que, em cima de um burro, qualquer pessoa consegue percorrer essa distância, todos os dias.

Fig. 1 - Pedi ao Gabinete de Mobilidade da Câmara Municipal de Lisboa para meter uma ciclovia por baixo da linha de comboio da Ponte 25 de Abril.

Pode parece estranho, mas a roda só foi descoberta 1500 anos depois da domesticação do burro.

A roda obriga a haver uma estrada pavimentada enquanto que o burro caminha pelo mesmo caminho que o humano.

Antes da roda foi inventada a "carroça de arrasto" que já era um melhoramento importante. Reduz em 75% a carga suportada pelo burro com a perda de haver atrito que, posteriormente, a roda veio a diminuir. Arrastar a carga sobre uma vara (um carro rudimentar) tem muito menos atrito que arrastar a carga e continua a permitir andar em caminho não pavimentado.

O Cantinflas viajava sempre assim!

Fig. 2 - Arrastar a carga em cima de uma vara diminui a carga suportada pelo burro em 75%.


A Câmara Municipal de Lisboa respondeu-me.

Disse que a ponte era da Lusopontes.


A Lusopontes respondeu-me.

Disse que a ponte era da Infraestruturas de Portugal.


A Infraestruturas de Portugal respondeu-me.

Num email extenso tentou provar ser impossível meter uma ciclovia na ponte. Gostei do cuidado tido na resposta, pessoas educadas. 

Se a ciclovia não pode ser por baixo por i) ter uma plataforma técnica e ii) a ponte ter de ter 70m até à água.

Fig. 3 - Tabuleiro da Ponte 25-de-Abril.

Mas se reduzissem 0,15cm em cada faixa de rodagem e aproveitassem a margem que ainda existe entre a faixa de rodagem e os cabos de suspensão, cabe uma ciclovia com 1m de largura em cada sentido.


Fui buscar estatísticas ao INE sobre passageiros em 2019 (ver Quadro III.37).

Relativamente aos transportes rodoviários de passageiros, 80% das viagens são urbanas/suburbanas nas quais cada português fez 45 viagens no ano, com um percurso médio de 5,8 km e em veículos com taxa de ocupação de 18,1%.

Em média, um autocarro de 50 lugares leva o motorista mais 9 passageiros! As pessoas pensam que os autocarros andam sempre cheios por causa do "enviesamento do observador": nos autocarros cheios andam mais pessoas (e nos vazios não anda ninguém) pelo que a maioria das pessoas observa que os autocarros andam cheios quando a realidade é o contrário.


Porque andam os autocarros vazios, dão tanto prejuízo e os passageiros estão insatisfeitos?

Porque a pessoa i quer-se movimentar do ponto Ai para o ponto Bi no momento Hi e, como as pessoas são diferentes, esses pontos e momentos são diferentes. O autocarro tem de recolher múltiplas pessoas com necessidades diferentes o que obriga a pessoa a andar a pé até apanhar o transporte e a ter de utilizar um horário que não é o pretendido.

O transporte tem um preço monetário, por exemplo, 0,50€/viagem a que temos de acrescentar um preço "psicológico" por ter que percorrer parte do percurso a pé e por ter que se ajustar ao horário. 

Na tentativa de satisfazer os passageiros (diminuir o "preço total" da viagem), tem de haver muitas carreiras e com elevada frequência de passagem o que torna a taxa de ocupação muito baixa e o sistema deficitário.


Porque a trotinete é revolucionária.

1 = É um transporte individual que pode ir exactamente do ponto Ai para o ponto Bi no momento Hi.

2 = Em ambiente urbano é muito rápido. Faz 25km/h enquanto que os transportes rodoviários fazem apenas 10km/h.

3 = Ocupa pouca via. Uma rua normal de cidade de 6 m de largura permite dois sentidos com 3 vias para cada lado, o que acomoda um tráfego de 6 mil trotinetes por hora. Em termos automóveis, a via não permite mais de 500 veículos por hora.

4 = Ocupa pouco lugar de estacionamento. Um lugar de estacionamento de um automóvel ao longo da via tem 2,2m de largura e 6 m de comprimento. Neste mesmo espaço cabem 25 trotinetes e ainda sobram 50 cm para alargar o passeio.

5 = Pode-se facilmente carregar até casa. Comparando com a bicicleta, a trotinete é fácil de transportar no elevador (o comprimento está dimensionado para caber em todos os elevadores) e pode ser transportado mesmo pelas escadas (pesa entre 12kg e 14kg enquanto que a bicicleta pesa mais de 20 kg).

6 = Gasta menos energia que os transportes públicos. O consumo médio de uma trotinete, medido na tomada, é de cerca de 1,5kwh/100km (ao preço de 0,20€/kwh, dá 0,03€/km) o que é equivalente a 0,5 litros aos 100 km. O autocarro gasta cerca de 2 litros aos 100 km por passageiro.

7 = Tem custo total muito baixo. 


Eu comprei a trotinete para experimentar a sensação.

Não tinha necessidade nenhuma mas queria avaliar este novo modo de locomoção. Comprei uma marca barata, Awovo pro, que, em termos físicos, é perfeita. 

Já posso dizer que sou um trotineteiro experiente pois já percorri 2187km. Nos meus percursos variados, em cidade, em estradas nacionais (Já fiz Aveiro-Ovar, Ovar-Espinho na N-109; Ovar-Torreira, Ovar - São João da Madeira e Oliveira de Azemeis na N-327 e muito mais, só ainda não andei em auto-estrada!) e mesmo em terra batida, aconselho a 100% pneus maciços. Apesar de tremerem um pedaço, é altamente aborrecidas ter um furo a 10km de casa e custa pelo menos 15€ remendar o pneu.

Pensei eu que o "brinquedo" não ia prestar, que eu não me iria conseguir equilibrar em cima da coisa e que não seria possível fazer viagens úteis mas enganei-me completamente.

Faz-se no meio da cidade, mesmo em hora de ponta, facilmente uma viagem de 8km em 30 minutos o que de autocarro demora uma hora e a pé 2h e deixa-nos cansados. 

O único problema que tive foi com a bateria mas deram-me uma nova que eu meti em paralelo.

Para quem não quer correr riscos nem experimentar marcas desconhecidas, no meu intender e sem ter experimentado, a melhor solução actual é a XIAOMI Mi Pro 2 que tem boa potência, 300W, muito boa autonomia. 

Uma pessoa com 80kg, para entrar em rotundas, vencer as subidas e arrancar no semáforo precisa de 300W. E consegue, com facilidade, atingir 35km/h que é a velocidade máxima aceitável para viajar numa trotinete em segurança (o máximo que fiz foi 40km/h, em piso muito bom, e fiquei assustado).

A autonomia tem de ser "exagerada" porque o vendedor dá valores optimistas e vai diminuir ao longo da vida da trotinete. Por exemplo, uma pessoa que faz um percurso num sentido de 7,5km e tem de voltar sem carregar precisa dos 45 km anunciados pela XIAOMI Mi Pro 2. Os 45 km anunciados são 35 km reais. Pensando que ao fim de 500 cargas a capacidade está reduzida a 50%, estamos a falar de 17km em "fim de vida", uma pequena margem relativamente aos 17km de "fim de vida" da bateria.
Quem fizer 15 km/dia, 6 dias por semana, "esgota" as 500 cargas em cerca de 4 anos. Se a autonomia for menor, também a bateria irá durar menos tempo.

Consegue-se hoje XIAOMI Mi Pro 2 por 480€ na Worten. 

A XIAOMI Mi Pro 2 só tem um problema, é que tem um "rated power" de 300W e nos comboios só permitem o transporte de trotinetes com "potência máxima contínua" de 250 W. Actualmente não há problema pois não está regulamentado como se mede a "potência máxima contínua" e se é a mesma coisa que "rated power" mas ninguém sabe como será o futuro mas não estou a ver o pica a ver o modelo para garantir que a potência é 250W e não 300W.


Não aconselho trotinetes mais potentes.

Mais potencia leva o preço para os 800€ a 1000€ e não compensa porque "é proibido transportar nos comboios", têm muito mais peso (já não se conseguem carregar pelas escadas) e estão muito mais sujeitas a serem roubadas!!!!

Além disso, não é seguro andar a mais de 30km/h. digo isto porque já tive um acidente a cerca de 18km/h e a coisa é perigosa (levei 3 pontos no sobrolho).


Aconselho a que experimente.

A minha primeira experiência foi com uma trotinete "alugada" mas que estava desligada. Sim, as trotinetes andam mesmo que não a aluguemos. montei-me em cima de uma de dei ao pé a ver se me equilibrava. 

Depois, aconselho a que experimentem uma já eletrificada e que, nos primeiros 500km, andem a uma velocidade máxima de 15km/h.

Finalmente, nunca, em qualquer circunstancia, retire uma das mãos do guiador. Se precisar tirar a mão, pare primeiro pois se não parar, vai malhar no chão com a cabeça (que foi o que me aconteceu).

Fig. 3 - Há muitas coisas que se podem fazer só com uma mão mas andar de trotinete não é uma dessas coisas.

Imaginemos uma cidade 20x10 km2.

Uma cidade rectangular com 20 km de comprimento e 10 km de largura, com as ruas formando uma rede perpendicular.


Fig. 4 - A cidade de Lisboa cabe num rectângulo 20km x 10km

Imaginando que as pessoas estão uniformemente distribuídas pela cidade e que se deslocam de um qualquer ponto A para outro qualquer ponto B, escolhidos de forma uniforme, o percurso médio será de 10km (em 80% dos casos será < 15km).

Se a pessoa caminhar a 4km/h, cada viagem média vai precisar de 2h30m.

Se for utilizada uma trotinete a 15km/h, cada viagem média vai precisar de 40m e em 80% dos casos menos de 1h.

Fig. 5 - Distribuição das distâncias percorridas 

Vamos agora meter uma linha de BUS a cortar a cidade.

A linha de BUS vai cortar a cidade a meio no sentido do comprimento, havendo uma paragem a cada 1000 metros. Neste caso, a distância média percorrida a pé reduz-se para 5,5 km e o percurso médio de BUS será de 6,7 km. 

Se a pessoa caminhar a 4km/h e o BUS viajar a 15km/h, cada viagem média vai precisar de 1h50m (sem contar com o tempo de espera na paragem).

Para reduzir a distância média percorrida a pé para 1000m, terá de haver 10 linhas de BUS espaçadas 1000 metros entre si. Neste caso, o tempo da viagem média reduz-se para 42m (sem contar com o tempo de espera na paragem), mesmo assim, superior ao tempo da viagem de trotinete porque esta vai evitar andar a pé (vai exactamente deste a origem até ao destino).

Ao haver mais linhas, a frequência terá de ser menor (o tempo de espera na paragem será maior) e a taxa de ocupação acabará por ser pequena, o que encarece o sistema de transportes colectivos.


Eu a mandar, metia uma ciclovia na Ponte 25 de Abril.

Para meter uma ciclovia na Ponte 25-de-abril existem duas soluções técnicas.

Na primeira solução técnica, reduz-se as actuais 6 faixas de rodagem, 3 em cada sentido, para 5 vias mais uma ciclovia com dois sentidos (cada pista com 1,6 m de largura). Esta solução é simples de implementar mas acanhada porque reduz uma faixa de rodagem para os automóveis e apenas permite uma ciclovia com 3,2m de largura.

Na segunda solução técnica, suspende-se sobre o canal do comboio um novo canal com 7,5 m de largura e 3,5 m de altura, o que permite manter as actuais condições de tráfego rodoviário e rodoviário e acrescentar uma ciclovia com capacidade para 12000 veículos por hora. 

O canal da ciclovia começaria a descer numa rampa com 6% de inclinação ficando os acessos distantes dos acessos rodoviários à ponte. 

O percurso seria de 4km e o atravessamento demoraria de cerca de 10 minutos.


O problema é que não há decisores políticos audazes.

Portugal não cresce porque estamos sempre no mesmo marasmo.

Mais autocarros, mais linhas de metro, mais barcos mas de tudo que meta dinheiros públicos mas nada de soluções audazes e que poderiam fazer a diferença.

Meter uma ciclovia na Ponte 25 de Abril? Preferem falar numa terceira ponte ou num TGV onde vão ser enterrados milhares de milhões de euros.


sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Afinal, de que trata a Ciência Económica?

Fala-se muito de Economia e de Ciência Económica mas o que é isso?

Eu fui acusado de ser racista e despedido porque referi numa aula a alunos de letras que nos países africanos as pessoas são pobres enquanto que nos países da OCDE são ricas.

Mas todos sabemos que, apesar de haver pobres nos países da OCDE e ricos em África, o africano médio é pobre (tem acesso a poucos bens e de baixa qualidade) e "ocidental" médio é rico (tem acesso a maior quantidade de bens e de melhor quantidade).

Claro que ninguém se acredita no que acabo de relatar mas aconteceu mesmo.

A Ciência Económica procura compreender porque existem sociedade pobres em oposição às sociedades ricas.

Vamos ver se consigo dar alguma intuição para o problema (o que não é fácil).


1 = O valor resulta dos gostos do consumidor.

Eu entro numa frutaria. 

Eu gosto mais de umas frutas do que de outras o que, em termos económicos, traduz que dou mais valor às frutas de que gosto mais.

O valor sendo subjectivo, está profundamente escondido no nosso cérebro. Desta forma, quando entro na frutaria, ninguém sabe a que frutas dou mais valor. 

Vamos supor que dou mais valor às maçãs do que às pêras. Apesar de à entrada ninguém saber desta minha preferência, quando faço a compra, revelo os meus gostos. 

Vamos supor que as pêras estão a 1,00€/kg.

A) Em termos qualitativos, se as maçãs estiverem 1€/kg, eu ao comprar maçãs revelo que prefiro as maçãs às pêras. Dou mais valor às maçãs mas ainda ninguém sabe quanto mais.

B) Vamos aumentando o preço das maçãs. Se eu comprar maçãs até um preço de 1,50€/kg e se a 1,51€/kg ou mais eu passar a comprar pêras, em termos quantitativos, estou a revelar que o valor que dou às maçãs é 1,5 vezes o valor que dou às pêras.

Se uniformizarmos o valor das pêras como 1, para mim, as maçãs valem 1,5.


2 = Numa economia eficiente, os bens são consumidos por quem lhes atribui maior valor.

Na frutaria há 300 kg de pêras e 700 kg de maçãs que vão ser consumidos por 1000 pessoas, 1kg por pessoa.

Vamos supor que o valor das pêras é uniformizado a 1 e que cada pessoa dá um valor às maçãs relativamente às pêras, por exemplo, 1,32; 1,56; 1,22; 0,96; 0,74: 1,20; 0,85; ...; 1,29; 1,23. Como já vimos, uma pessoa que dá às maçãs o valor relativo de 0,74 compra maçãs quando o preço está relativamente inferior a este valor e pêras quando está superior.

Agora, tenho de atribuir a fruta de forma a ser máximo a soma dos valores individuais. Assim, será óptimo atribuir os 30 kg de pêras às 30 pessoas que atribuem menor valor às maçãs.

Numa simulação que construí no Excel, o valor é uniforme entre 0,30 e 1,70. Se atribuir aleatoriamente a fruta, o valor médio será 1 enquanto que se atribuir as maçãs a quem lhes atribui mais valor, a média será 1,14.


Parece simples mas é muito complicado.

Na simulação, serão atribuídas maçãs a quem lhes dá um valor superior a 0,70. Uma pessoa com valor 0,90 atribui maior valor às pêras mas vai ficar com maçãs pois há menos pêras.

Isto traduz que, se numa fila indiana (será racismo dizer fila indiana?), perguntar às pessoas "Maçãs ou pêras?", a entrega não vai ser óptima pois todas as primeiras com valor inferior a 1 vão querer pêras quando estas apenas devem ser entregues às pessoas com valor inferior a 0,70.

Mas complicado se torna se houver muitas frutas diferentes. Se, por exemplo, houver 100 frutas diferentes, cada pessoa terá um valor diferente para cada uma das 99 frutas (as pêras têm o valor 1).

Desta forma, o socialista que vai entregar as frutas tem de conhecer os 99 valores atribuídos por cada uma das pessoas (havendo 1000 pessoas, será preciso conhecer 99000 valores). Depois, é fácil fazer as contas que fazem resultar da entrega da fruta o máximo o valor possível.

 

E onde entra o dinheiro das pessoas?

No exemplo apenas considero a compra da fruta contra dinheiro mas cada agente económico faz compras e vendas. A maior-parte de nós vende trabalho e compra bens e serviços.

Podemos então estender o problema considerando quantidades positivas (as compras) e quantidades negativas (as vendas).

Uma pessoas decidem vender mais trabalho tendo, assim, mais rendimento que lhes permite comprar mais bens enquanto que outras decidem vender menos trabalho tendo, assim, menos rendimento, comprando menos bens.

A restrição orçamental obriga a que a soma de tudo o que vendemos tenha de ser igual à soma de tudo o que compramos (mais a poupança/endividamento).

A soma das poupanças das pessoas é exactamente igual à soma do endividamento das pessoas. Se alguém poupa, terá que alguém se endividar e vice-versa

 

Mas pode um país ser rico sem produção?

Claro que não.

A produção é um "problema da transformação". A produção é a destruição  de alguns bens (aquisição de inputs) para produzir outros bens (venda de outputs) a que os consumidores atribuem maior valor. 

Vamos supor que uma pessoa dá um valor de 1,00/kg de maçãs, 1,00/kg de açúcar e 1,50/kg de doce de maçã. Então, transformando 1kg maçãs + 1kg açúcar em 2kg de doce de maçã, aumentamos o valor de 2 para 3.

A relação de transformação traduz a tecnologia.

A economia são milhares de milhões de decisões individuais que têm de ser compatíveis



A economia de mercado.
Há milhões de bens e serviços, milhões de processos produtivos e milhões de trabalhadores / consumidores e, para a economia ser eficiente, é preciso conhecer os gostos de cada um relativamente a cada bem e as tecnologias disponíveis.
A única forma de nos aproximarmos da eficiência é havendo um sistema de preços (e salários) onde vão ser compatibilizadas as possibilidades de produção, as tecnologias e os gostos das pessoas.
Para uma economia ser rica é necessário que o mecanismo de preços funcione bem, não havendo preços determinados de forma administrativa pelos governos.

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

Fala-se novamente na Energia Nuclear mas já não faz sentido

Durante anos fui defensor da Energia Nuclear mas não mais faz sentido fazer centrais nucleares.

Se decidíssemos hoje fazer uma central nuclear e as pessoas estivessem maioritariamente convencidas que era o melhor para Portugal, com projecto, avaliações de impacte ambiental e construção, não estaria a funcionar antes de 2030.

O investimento total numa central de 1000 MW seria na ordem dos 7000 milhões €. Esse investimento seria então amortizado em 60 anos, resultando um encargo (com taxa de juro de 2%/ano) de 200 milhões € / ano.

Assumindo uma "carga" de 85% do tempo, estamos a falar num custo de 0,03€/kwh a que temos de acrescentar 0,01€/kwh para combustível e funcionamento.

No total, conseguiríamos electricidade a 0,04€/kwh, o que é um valor bastante baixo.

Fig. 1 - No últimos 365 dias, na Península Ibérica a electricidade foi transaccionada a uma média de 0,1896€/KWh, variando o preço ao longo do dia.

Qual é então o problema?

Esqueçamos o armazenamento dos resíduos e o risco de acidente.

O problema é ser um investimento de longo prazo o que introduz atraso na resposta ao problema de HOJE e introduz risco tecnológico!

Por um lado, apenas haveria produção em 2030 quando precisamos de energia hoje mesmo. Por outro lado, seria necessário pagar 0,04€/kwh até 2090, podendo haver inovações tecnológicas que tornem este valor demasiado elevado.


O risco tecnológico vem dos painéis solares.

Vamos supor que o investimento solar é de X€/KW, que a produção é de 1250h/ano, que a amortização é em 20 anos com uma taxa de juro de 2,5%/ano e que os custos de manutenção são 20%.

Para termos um custo menor do que os 0,04€/kwh da energia nuclear, o valor do investimento terá de ser inferior a 625€/kwh e, por incrível que possa parecer, nos dias de hoje o investimento já é ligeiramente inferior a este valor.


Tenho então que concluir em favor da energia solar.

Pois se hoje o custo solar se compara ao custo nuclear e a tendência do solar é descer, pensando num horizonte temporal até 2090, com toda a certeza que a electricidade produzida com painéis solares vai ficar bastante mais barata que a produzida com centrais nucleares.


Mas a electricidade nuclear é diferente da electricidade solar!

Apesar de electricidade ser sempre electricidade, como bem económico, não é bem assim. 

Ambas as tecnologias são "não controláveis", isto é, não é possível o gestor da rede decidir aumentar ou diminuir a quantidade produzida em função das necessidades. Mas as tecnologias são "contrárias", a electricidade produzida numa central nuclear é em quantidade constante ao longo do dia e da noite enquanto que a electricidade produzida com painéis solares só está disponível enquanto há luz solar.

Se houvesse apenas energia nuclear, seria preciso "destruir" energia durante os períodos de menor consumo (durante a noite) enquanto que se um dia houver apenas energia solar, será preciso armazenar energia durante o dia e durante o verão para gastar durante a noite e durante o inverno.

A energia solar obrigará a controlar o mercado do "lado da procura" (quando houver pouca eletricidade, o preço terá de ser superior) porque armazenar energia tem custos.


Uma solução económica e ecológica para armazenar calor para o Inverno.

Os países do Norte da Europa precisam de calor durante o Inverno. Vamos supor uma comunidade com 1000 casas em que cada casa gasta 10kw em aquecimento durante 6 meses. Estamos a falar de 45000 MWh o que é uma imensidão de energia para guardar em baterias (corresponde a 1 milhão de baterias de 45KWh).

Mas podemos guardar toda essa energia num "poço" com 60 metros de diâmetro e 100 metros de profundidade, cheio de granito britado. Durante o Verão e nas horas em que há produção excedentária de electricidade solar, o granito vai ser aquecido a uma temperatura na ordem dos 650.º C. Depois, durante o Inverno, a energia acumulada vai ser utilizada no aquecimento das casas. 

Tecnologicamente simples, não utiliza recursos naturais importantes, não tem impacte ambiental significativo e é bastante económico.

É preciso pensar em soluções deste tipo para podermos, no futuro, utilizar mais a energia eléctrica com origem solar pois no Inverno e de noite, não há luz solar.

Fig. 2 - Da mesma forma que os nossos governantes querem vender gás natural à Alemanha sem sermos produtores, também podemos utilizar mega solários para produzir electricidade solar durante a noite.

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

O que a Liz Truss tentou fazer no Reino Unido não é liberalismo, é socialismo

A nova primeira-ministro do UK tentou descer impostos e fracassou.

Como o governo do UK é conservador, vieram logo os nossos esquerdistas, onde se inclui o Pacheco Pereira, gritar "Perguntei à Iniciativa Liberal se o que se está a passar não é o que eles defendem como a solução para Portugal".

Os da IL nada disseram porque são "filhos" deste blog e eu ainda não expliquei verdadeiramente o que é o liberalismo e como isso não tem nada a ver com diminuir os impostos das empresas e dos que ganham mais.

Para isso, vou usar como exemplo a "habitação".


1 = Um estado totalmente não liberal.

O Estado constrói as casas onde bem entende, reparte as casas pelos candidatos como bem entende, cobra a mensalidade que bem entende.

Agora, temos duas situações quanto ao financiamento. 

Na primeira, existe "equilíbrio orçamental" em que os custos das casas são integralmente pagos pelas rendas. 

Na segunda, existe "défice orçamental" em que os custos das casas são parcialmente pagos pelas rendas e outra parte são pagos por um "imposto" sobre os lucros das empresas onde os residentes trabalham.

Em qualquer das formas de financiamento, não existe liberalismo porque é o Estado quem decide a localização, a atribuição e o financiamento. 

Fig. 1 - Liberalismo é deixar a criança brincar na lama (mesmo que não gostemos).


2 = Um estado totalmente liberal.

São os particulares quem decide onde vão ser localizadas as casas, cada comprador decide onde quer morar e quanto está disponível para pagar de mensalidade. 

Todas estas decisões são tomadas de forma livres e individual com com restrições. Por exemplo, a escolha livre de um individuo que ganha 1000€/mês não tem a mesma liberdade que a escolha de outro indivíduo que ganha 10000€ por mês.

Digamos que é como comparar o caracol com lagartixa. Ambos têm total liberdade para se deslocarem mas o caracol tem mais restrições (anda mais devagar, não pode circular em superfícies secas nem pode apanhar sol directo).


3 = Um estado parcialmente liberal.

O estado vai limitar a liberdade do indivíduo com "regulamentação". Por exemplo, vai limitar a altura dos edifícios a 22,5 m e a profundidade das caves a 10m.

A regulamentação faz sentido quando existem "falhas de mercado" (vou já explicar com um exemplo) mas, geralmente, não faz sentido.

Mesmo quando faz sentido, a ciência económica prova que deve ser feita com "grandezas do mercado".

No exemplo, a Câmara Municipal impor ao construtor do imóvel uma taxa crescente com o número de pisos é economicamente melhor do que proibir a construção em altura.


Vejamos um exemplo numérico (valores razoáveis).

A construção de um imóvel de um piso é 800€/m2.

A construção em altura tem um sobre custo de 5% por piso. 

A Câmara Municial cobra uma taxa por m2 que aumenta 50€/m2 por piso. 

O aumento dos custos e a taxa traduz que os edifícios com mais pisos ficam mais caros:

Fig. 2 - simulação do custo total de cada piso


Numa área nobre da cidade onde os imóveis valem 3000€/m2, o promotor irá fazer edifícios com 1+19 pisos, já noutra área onde valem apenas 1000€/m2, o edifício já só terá 1 + 2 pisos.

Se o decisor político quiser edifícios mais baixos, aumenta o valor da taxa.

A imposição de uma taxa é economicamente mais eficiente do que a proibição porque: 

A) Nos locais de maior valor serão construidas mais casas (e nos locais de menor valor menos casas)

B) O dinheiro recebido pelo Estado vão ser usados na construção de parques, vias de comunicação, equipamentos sociais e ainda na ajuda às pessoas com menores recursos.

C) O sistema está menos sujeito a corrupção.


Mas o que é uma falha de mercado?

No Mar existem peixes e se se pescarem muitos peixes num ano, no ano seguinte não haverá peixes. Se a pesca for livre e houver muitos pescadores, os peixes não têm tempo para crescer e se reproduzirem e podem mesmo desaparecer.

Os automóveis a velocidade elevada causam acidentes cujo prejuízo não é totalmente pago pelo automóvel. Se, por exemplo, atropelam e matam um peão, não existe forma de compensar esse prejuízo. Mesmo quando o ferido é o condutor, causa despesa nos hospitais. Desta forma, o Estado impõe limites à velocidade máxima dos veículos.


A Liz Truss não é liberal.

Pretendia descer os impostos das empresas e das pessoas com rendimentos mais elevados mas nunca falou em dar mais liberdade aos cidadãos.

Por exemplo, no Reino Unido pode-se andar em trotinetes partilhadas mas é proibido andar em trotinetes particular (alguém é capaz de imaginar um argumento válido para esta proibição?). A Liz não veio dizer que esta proibição vai acabar.

Se as proibições e regulamentos sobre as empresas e os particulares se mantinham os mesmos, não podemos dizer que o plano da Liz é liberalizante.

Pelo contrário, a Liz Truss é socialista pois pensa que havendo défice público, vai estimular a economia. Isto não é mais do que o "multiplicador keynesiano" tão invocado pelos socialistas e que está mais do que provado que não existe. Um estimulo económico público hoje tem como efeito o aumento da inflação e das taxas de juro e um futuro aumento dos impostos.


Ser liberal não é diminuir impostos mas diminuir as proibições.

Na União Soviética não havia impostos. Não havia IVA, IRS, ISP nem imposto sobre o tabaco.

Na Coreia do Norte ainda não há impostos.

E estas economias são totalmente não liberais, isto é, o indivíduo não pode decidir onde vai trabalhar, o que vai fazer, o que vai consumir, onde vai morar ou como se vai deslocar. 


Os da Iniciativa Liberal têm-se enredado no IRS e nas contas do estado.

Concentram o liberalismo em "IRS de 15% para todos" e no Orçamento do Estado e perdem-se.

A agenda liberal tem de passar pela identificação das proibições que não fazem qualquer sentido.

Têm de perguntar "Porque é proibido fazer edifícios 50 pisos?" e nunca aceitar "Porque é assim há muitos anos", "Porque eu quero assim" ou "Porque acho os edifícios feios".

Não basta descer o IRC para incentivar o investimento, é preciso acabar com as proibições.

sábado, 15 de outubro de 2022

Pedi à Câmara de Gaia uma ligação para trotinetes na Arrábida

O problema da micro-mobilidade é que os decisores políticos andam de carro.

No longínquo 1988 fui mineiro, melhor dizendo, fui "trainee mining engineer" numa empresa sul-africana. Uma coisa que aprendi é que regularmente o engenheiro tem de ir à frente de trabalho usando os mesmos meios de um mineiro pois só assim consegue identificar os problemas destes trabalhadores.

Com a micro-mobilidade (bicicletas e trotinetes) passa-se o mesmo, o decisor político apenas consegue melhorar o sistema global de transportes se utilizar todos os meios que gere.


Vejamos o exemplo do TGV e comparemos com o IC-19.

Os decisores políticos andam a grande velocidade, com batedores em mota, excedendo largamente os limites de velocidade do cidadão normal. Sendo assim, a sua visão está concentrada na velocidade.

Em Lisboa no IC-19 / A - 37 que liga Lisboa a Sintra ao longo de 16 km. Nesta via circulam uma média de 200 mil pessoas por dia (enquanto que entre Porto e Lisboa circulam 20 mil pessoas por dia) que  nas horas de ponta demoram bem mais de uma hora a percorrer. Esta velocidade média é menor do que a velocidade de uma viagem em bicicleta ou trotinete e os decisores políticos não se preocupam porque não andam por lá!!

Os autocarros em Lisboa transportam uma média de 400 mil passageiros por dia a uma velocidade média de 10km/h (demora 40 minutos a fazer uma viagem de 7km).

Vamos supor que uma decisão política qualquer diminuía o tempo médio de viagem nos autocarros lisboetas em 5 minutos, isso compararia com a diminuição do tempo de viagem entre Porto e Lisboa em 100 minutos!!!!!!!!

No entanto, os esquerdistas querem enterrar milhares de milhões de euros numa linha ferroviária Porto e Lisboa onde circulam menos de 20 mil pessoas por dia. E além disso, vai ser um buraco de prejuízos (não há no Mundo nenhuma linha de TGV que seja rentável). 

Voltemos à trotinete / bicicleta.

Estive a estudar como poderia ir desde o Porto até ao Arrábida Shopping de trotinete. Estudei mapas e descobri um caminho bom que liga a Rua do Campo Alegre ao shopping (são apenas 1700m).

Do lado Poente toma-se a Travessa de Estrecampos e do lado Nascente toma-se a Rua da Gólgata.

O problema é do lado de Gaia pois o passeio / berma não tem continuação, acaba contra o Rail!!!!

As pessoas correm o risco de andar na via rápida para poderem entrar no passeio já em cima da ponte onde existe uma pequena fresta entre o rail metálico e o rail de betão.

Fig.1 - Ligação pedonal entre a Rua do Campo alegre e o Arrábida Shopping

O que pedi à Câmara Municipal de Gaia.

Pedi que faça a ligação entre o passeio/berma nascente da Ponte da Arrábida à Rua Manuel Moreira Barros.

Essa ligação pode ser logo feita no princípio da rua ou por uma rampa o início do viaduto.

Basta cortar uns arbustos, meter uma máquina a nivelar e compactar as terras e despejar um bocado de cimento.

Com muito pouco investimento vai ser possível melhorar em muito a micro-mobilidade na travessia  poente do Douro.

A ligação foi interrompida quando há 30 anos a ponte passou de 2 para 3 faixas e nunca mais foi reposta porque, no entretanto, nenhum engenheiro / doutor fez aquele percurso a pé ou de bicicleta.

Falta em Portugal a cultura do decisor "ir ver no terreno", coisa que aprendi com os anglo-saxónicos.

Fig.2 - Ligação pedonal entre a Ponte da Arrábida e a Rua Manuel Moreira Barros


O vereador da mobilidade deveria meter-se numa trotinete.

Fosse em Lisboa, Porto ou na mais remota das terriolas, o vereador deveria meter-se numa trotinete e ir dar uma volta pela sua cidade. Só ai é que poderia ganhar consciência de onde estão os problemas.

Onde está o empedrado que não deveria estar, onde estão os buracos que deveriam estar tapados, onde é preciso colocar parqueamento e locais de carregamento para os micro-veículos (sim, as trotinetes  e bicicletas eléctricas também precisam de ser carregadas, não são apenas os carros eléctricos).


Agora tenho uma questão!

Será que as bicicletas/trotinetes podem circular nas vias rápidas?

Vamos imaginar o IC-19 / A-37. Vamos supor que se alargava 2 metros de cada lado e metia-se ali uma ciclovia separada dos carros com um rail de betão. Nas entradas/saídas, metiam-se semáforos. 

Talvez fosse possível e seria uma obra muito mais mais barata e importante para diminuir o tempo médio que as pessoas gastam em viagens do que meter milhares de milhões de euros para se poder ir do Porto a Lisboa em 1h15m. Chegados a Lisboa, gasta-se uma ou duas horas a ir da Estação do Oriente ao Rossio.

Fig. 3 - O meio sonho é fazer pirâmides, como os estúpidos do CHEGA não deixam, faço TGVs.

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

Será que as pessoa congelam se não tiverem aquecimento?

Aproximamo-nos do tempo frio e há falta de energia.

Vivemos um crise energética que se traduz, junto do consumidor, pelo aumento do preço. A questão que se coloca é, se a Rússia cortar totalmente o gás à Europa Ocidental, as pessoas poderão viver sem aquecimento?

A resposta é "Com certeza que sim" mas vestidos com roupa com 10 cm de espessura:

Camisola interior + camisa + três camisolas + 2 anorakes;

4 pares de ceroulas + 2 pares de calças;

Meias e pantufas;

Barrete;


Vejamos as contas.

Vou considerar a temperatura mais extrema possível dentro de uma casa, 30 graus negativos, e ver o balanço energético.

Perdemos calor quando respiramos a aquecer o ar que expiramos. Respiramos cerca de 600 litros por hora, cada litro tem 1,3g de ar e um calor específico de 0,24kcal/g.

A respirar perdemos cerca de 15W.

Perdemos calor através da  pele, o que protegemos com roupa. Usando 10cm de roupa (bem sei que é muito), com uma perda de 0,05kW/m/ºK, perdemos 60W. 

Somando as duas parcelas, dá 75W o que, traduzidos em calorias por dia, são 1600 kcal por dia, mais do que a energia que um adulto usa diariamente.


Com roupa grossa, os esquimós aguentam o rigor do inverno dentro de uma casa feita de gelo. 


Conclusão!

Roupinha no corpo poupa dinheiro, evita emissões de CO2 e é eficaz a afastar qualquer frio.

E roupa não me falta.


quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Sempre que nos aproximamos da bancarrota, surge o TGV

Os socialistas têm um fetiche com ir do Porto a Lisboa por terra em 1h15.

Portugal tem muitos problemas de que resulta que praticamente não crescemos há mais de 20 anos. Se no tempo do Cavaco Silva a nossa economia cresceu 3,7% por ano, desde 1999, tem crescido apenas 0,7%/ano. 

A principal razão para não crescermos é os governos socialistas serem populistas, ganhando eleições com promessas de políticas de rendimentos (aumento desenfreado do salário mínimo nacional) sem tomar em consideração que temos câmbios fixos relativamente aos nossos principais parceiros comerciais.

Este modelo é copiado a partir da Venezuela onde, apenas em Agosto de 2018, o Desgoverno aumentou o salário mínimo em 3300%.

Evolução do PIB português entre 1980 e 2022 (dados, Worldbank)

O nosso crescimento anémico tem feito com que nos atrasemos relativamente aos parceiros mais pobres da Europa que, um após outro, nos têm ultrapassado em termos de nível de vida.

Sendo os socialistas populistas, endividam cada vez mais o país para cumprir com as suas políticas desastrosas.


Portugal deve 275 mil milhões de euros.

Quando a taxa de juro estava nos 4%, Portugal gastava cerca de 10000 milhões € por ano em pagamento de juros. Quando as taxas de juro desceram para zero, era tempo para Portugal usar a poupança em juros para amortizar a dívida mas não, gastou ainda mais. 

Agora, como os juros estão a explodir, vamos cair novamente na bancarrota.


Já alguém fez um estudo sobre a necessidade de haver TGV?

Já alguém perguntou se alguém está disponível a pagar mais do dobro do actual preço de uma viagem de comboio para reduzir o tempo da viagem para metade?

Não.

Na década de 1980, viajaram de comboio em todas as "ligações nacionais" (excluindo os comboios suburbanos) uma média de 36 mil pessoa por dia. Na década de 2010, já só viajaram 20 mil pessoas por dia, uma queda de quase 2%/ano.

Essa tendência de queda mantém-se hoje, com uma diminuição de ano para ano no número de passageiros.

O projecto para o TGV vai ter 64 comboios de 634 assentos o que dá 40 mil lugares por dia, mais do dobro de todos os passageiros que actualmente circulam em todos os comboios nacionais. 


No nossa sorte é que, como em 2011, vem aí a bancarrota.

Em 2020-2021 a taxa de juro a 10 anos estava nos 0,25%/ano. Em poucos meses, disparou para 3,3%/ano. Mais um pouco, caímos outra vez nos míticos 7%/ano do tempo do Sócrates+Teixeira dos Santos.

Vamos ouvir gritar "Perdoa-nos Passos que não sabíamos o que fazíamos".




segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Será que o Costa nos preparou para as nuvens negras que vejo no horizonte?

Há várias verdades na vida e uma delas é que as crises se repetem.

Por mais que se contestem os avanços da ciência económica, há algo que não pode ser colocado em questão. É que a economia tem tendência para crescer ao longo do tempo mas sofre de ciclos económicos, isto é, em metade dos anos o crescimento económico é maior do que a média e em outra metade dos anos a economia cresce menos que a média. Em particular, há anos em que a economia regride.

Olhando para os dados desde 1960 do PIB per capita, Portugal cresceu 2,76%/ano e os USA 1,93%. Em média, por cada 5 anos em que houve crescimento económico, houve um ano em que houve contracção da economia, crise.

O crescimento económico permite que produção média de cada português seja cerca de 5,3 vezes o que produzia em 1960€.


Se alguém gritar "Abriguem-se que vem ai uma crise económica" vai sempre acertar.

As crises económicas são como a morte, é certa mas a hora é incerta. Alguém dizer, "a crise é para o ano" está sujeito a erro mas "vem ai uma crise" acerta sempre.

A questão que coloco é se, tendo havido uma crise em 2008 a que tivemos muita dificuldade em responder por causa da fragilidade das contas públicas, havendo hoje uma crise, estamos mais preparados.


Pois parece que não!!!!

No início da crise de 2002 (de que já ninguém se lembra, quando o Durão Barroso disse "estamos de tanga") a dívida pública era 60% do PIB.

No início da crise do sub-prime (quando o Sócrates disse "o PEC 4 vai resolver tudo"), a dívida pública estava aumentada para 73% do PIB.

Actualmente, a dívida pública está em 118% do PIB. Deveria ter diminuído de acordo com a seta a vermelho para estarmos hoje na mesma situação que tínhamos em 2008!!!!!!!!!

Dívida pública portuguesa em % do PIB (Pordata)


A dívida aumenta a cada crise até explodir-nos.

Em 2011 o Passos Coelho, com muitos sacrifícios, conseguiu safar-nos da bancarrota.

Imagino que agora já não haverá quem nos salve, vai mesmo acontecer a banca rota.

Se compararmos o que aconteceu durante o Passos Coelho (queda do PIB per capita de 6,8%) com o aconteceu com os esquerdistas gregos (queda de 25%) podemos prever o que vem aí.

Evolução do PIB per capita português e grego relativamente a 2007


quinta-feira, 15 de setembro de 2022

O problema é que não há gás, logo, não há eletricidade.

No senso comum  a crise resulta dos preços elevados da energia.

Mas a realidade é totalmente diferente, a crise resulta de não haver gás russo.

O ano passado, por cada 100 kwh consumidos na Europa Ocidental, 10kwh foram gás natural importado da Rússia. De repente, a Rússia cortou o fornecimento desse gás natural havendo então necessidade de cortar no consumo.

Temos então que reduzir o nosso consumo de energia em 10% e 40% de consumo de gás.

Não há como dar volta a isto, não vale a pena subsidiar o consumo de energia porque não há energia suficiente para mantermos o nível de consumo do ano passado.


O corte na oferta é ainda superior a 10%.

É que houve redução na produção de petróleo russo (que poderia ser usado em substituição do gás natural) e na produção de fertilizantes de síntese (produzir um kg de nitrato de amónia gasta 1,5 m3 de gás natural).

Já estão a ver porque a UE quer que cortemos 15% no consumo de energia e o Costa foi lá dizer que "Portugal não precisa poupar até podendo substituir a Rússia como fornecedor de gás natural à Alemanha"?


Não será possível arranjar alternativas?

Muito difícil porque é difícil aos outros produtores de energia aumentar de forma tão substancial a sua produção num curto prazo. 

Além disso, aumentar a produção obriga a investimentos de milhares de milhões de euros a amortizar em 50 anos. E se, por exemplo, o Qatar investe 100 mil milhões € a aumentar a capacidade de produção e liquifação de gás natural e, daqui a um ou dois anos, a Europa Ocidental faz as pazes com a Rússia e deixa de comprar o gás ao Qatar? Quem fica com o prejuízo?

Prova de que se procuram alternativa à energia russa é observar-se o aumento explosivo na procura de carvão (e consequente aumento do preço). Em 2019 o carvão foi transaccionado a 62€/ton (e em 2020 a 50€/ton) e nos últimos 3 meses foi transaccionado a 360€/ton, um aumento de 480%.


Como vamos obrigar as pessoas a consumir menos energia?

Existem três soluções possíveis.

1= As pessoas reduzem de forma voluntária o seu consumo (desligam o aquecimento e o ar condicionado, andam mais de vagar e reduzem as deslocações de automóvel, consomem menos produtos intensos em energia como aço e alumínio).

2 = O Estado impõe racionamento. Por exemplo, desliga a electricidade nas casas em que gastem mais de 100kwh / pessoa por mês.

3 = Aumenta-se o preço da energia quer pelas "forças do mercado" quer cobrando taxas adicionais sobre o consumo de energia.


Não se pode subsidiar o consumo de energia!!!!

O preço tem aumentado porque não há energia disponível e as pessoas não querem, de forma voluntária, diminuir o consumo em 15%.

Se não vão a bem, têm de ir a mal, o preço tem de subir até as pessoas se sentirem obrigadas as reduzir o consumo de energia em 15%.


Vamos supor a seguinte situação.

O Costa é o chefe de comitiva de 100 pessoas vão fazer uma viagem pelo deserto com a duração 20 dias. No início da viagem cada pessoa recebe 100 moedas de "1 Neuro", um total de 10000 Neuros.

A água é vendida a 1 Neuro cada litro.

Sendo assim, cada pessoa pode comprar e consumir 5 litros de água por dia.

Começou a viagem e o camião de apoio pensava levar 10000 litros de água quando  apenas levava 9000 litros (houve um erro na conversão de libras para kg).

Ao fim de 10 dias, o condutor do camião deu conta do erro, reparou que já só tinha 4000 litros de água e as pessoas ainda tinham 5000 Neuros na carteira. A solução que encontrou foi aumentar o preços da água para 1,25 Neuros/litro. Desta forma, as pessoas vendo que tinham menos poder de compra, reduziram o consumo para 4 litros por dia.

A ideia do chefe de comitiva foi "Para que não passem sede, vou dar 10 Neuros a cada pessoas".

Mas o que as pessoas precisam é de água no camião, não é de Neuros no bolso pois o problema não é o preço elevado mas sim o não há mais água para consumir.


Não há alternativa à austeridade.

Quando tivemos, em 2008-2011, a grave crise que se chamou do sub-prime/divida soberana, o Passos Coelho pregou que as crises só se podem ultrapassar reduzindo o consumo, isto é, com austeridade.

O Costa gritou que era uma política errada, que dar dinheiro às pessoas iria fazer a economia crescer.

Vamos ver se vai agora aplicar essa máxima que nos últimos 10 anos não se cansou de gritar.

Ainda no outro dia, no Parlamento, gritou "o que a Direita quer é voltar à austeridade" a que totalidade da Direita gritou GASTE-SE COMO SE NÃO HOUVESSE AMANHÃ.

Fig. 1 - Entre meados de 2019 e inícios de 2020, a dívida pública a 10 anos estava nos 0,3%/ano e, em 6 meses, saltou para os 2,78%/ano (tradineconomics). Nem na bancarrota do Sócrates o aumento foi tão rápido.


As pessoas não compreendem como o consumo se liga ao consumo.

Sempre que eu tentei ensinar esta ligação, falhei.

Quando os esquerdistas não compreendem como a economia funciona, atacam-me como se o problema fosse eu!!

E tudo começou com uma pergunta, numa conferência, que fiz há 20 anos ao Louçã "Estuda as crises na Economia Capitalista mas, sendo de esquerda, não deveria também estudar as crises nas Economias Socialistas? Será que por lá não há crises?"

Acabei perseguido e despedido não por ser incompetente nem por ter dito algo errado mas acusado de ser racista, xenófobo e misógino!


Mas vamos ao que interessa.

Se não há gás suficiente para o consumo, o preço vai aumentar o que incentiva os consumidores a gastar menos (e os produtores a utilizar tecnologias mais caras para substituir parte da falta).

Mas globalmente, no conjunto de todos os bens da economia, só há duas soluções.

1 = Os preços todos aumentam (há inflação) mas os salários mantêm-se iguais (diminui o poder de compra).

2 = Os salários aumentam de acordo coma inflação mas a taxa de juro aumenta (aumenta a poupança).

Estranhamente, o efeito do aumento da taxa de juro é igual ao efeito de o salário se manter constante!!!

É que, por um lado, diminuir o poder de compra faz diminuir o consumo e, por outro lado, aumentar a taxa de juro faz aumentar a poupança que é o mesmo que dizer que vai diminuir o consumo.


E se o Costa "compensar" o aumento dos preços da energia e aumentar os salários?

Como não faz nada para que a produção de energia aumente, apenas vai fazer com que os preços da energia aumentem ainda mais. O que o Costa deveria fazer era pedir às pessoas para que poupassem energia, vestindo mais roupa no Inverno.

Ao aumentar os salários (por exemplo, via Salário Mínimo Nacional), vai dar o sinal aos investidores que vem ai o descalabro À moda do Sócrates.


Como é que o Costa vai agora dar a volta ao problema?

Vai ter que fazer o que fez o Imperador Hiroito no fim da Segunda Guerra Mundial (passou rapidamente de guerreiro a pacifista, levando ao suicídio dos "falcões") .

Ver-se livres dos esquerdistas que querem mais e mais e mais como se até amanhã não fizesse mais sentido e rodear-se daqueles que se contentam com menos.

De qualquer forma, temos todos que nos preparar para a austeridade mas com outro nome, talvez, à moda do Putin, "reagrupar as tropas".

É a política real.

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

Uma contribuição para o fim da confusão na circulação das trotinetas

Quem tem uma trotineta eléctrica não sabe onde pode circular.

No dia 8 de Janeiro de 2021 entrou em vigor o Decreto-Lei n.º 102-B/2020, de 9 de Dezembro, que altera o Código da Estrada em favor da micro-mobilidade:

A) O velocípede (a bicicleta) passa a ter os mesmos direitos que os veículos com motor sem perder o direito de circular nas ciclovias. Desta forma, os automóveis têm de ceder prioridade às bicicletas que se apresentem pela direita, como se estas fossem automóveis.

B) A trotineta eléctrica é considerada uma bicicleta quando tem "motor eléctrico (...) com potência máxima contínua de 0,25 kW e atingindo a velocidade máxima em patamar de 25 km/h (...)  (Al. b, n.º 3 do art. 112º do CE).

Claro que existem problemas na definição de "potência máxima contínua" pois o que temos é uma brochura do vendedor, por exemplo, a Xiami Pro 2 refere "uma potência nominal de 300W e uma potência máxima de 600W". Como a trotineta não é homologada, ninguém sabe como os valores anunciados pelo vendedor se transformam em "potência máxima contínua" para efeito do CE.


E as trotinetes mais potentes?

Vamos aceitar que as trotinetas ligeiras, que anunciam um peso até 16 kg e 350W de potência nominal estão cobertas pela al. b), n.º 3 do art. 112º do CE e que, por isso, podem circular nas ciclovias desde que a menos de 25km/h.

Subsiste o problema de descobrirmos o que são as outras trotinetas, que anunciam 2000W de potência nominal e velocidade máxima de 60km/h.


Serão ciclomotores?

Uma leitura textual da definição de ciclomotor (têm duas rodas e potência máxima inferior a 4 kW  (Al. a, n.º 3 do artigo 107º do CE), levanos a pensar que as trotinetas mais potentes caiem nesta categoria.

Sendo assim, as trotinetas mais potentes têm de ter matrícula e os condutores têm de ter carta de condução.

Mas, se assim fosse, como todas as trotinetas caiem nesta classe, seriam todas ciclomotores!


Não, não são ciclomotores nem velocípedes.

As trotinetas menos potentes são velocípedes por causa da al. b) do n.º 3 do art. 112º do CE.

E as trotinetas mais potentes não são velocípedes mas também não são ciclomotores por causa n.º 5 do art. 112º do CE (falta o decreto regulamentar): "O regime de circulação e as características técnicas de trotinetas com motor elétrico (...) que não respeitem o disposto na alínea b) do n.º 3 são fixados por decreto regulamentar."


O que eu penso sobre as trotinetes mais potentes.

Como escrevem os advogados, será assim salvo se aparecer outra opinião.

As trotinetas potência elevada não precisam de ter matrícula nem o condutor precisa ter carta de condução (porque não são ciclomotores) mas não podem circular nas ciclovias (porque não são velocípedes). 

Pode circular nas estradas como se fosse um automóvel e nas vias BUS por ter duas rodas.

Não pode circular em auto-estradas porque não é um motociclo.


Será que as trotinetes podem circular nos passeios?

Sou inclinado a dizer que sim desde que com cuidado porque os peões têm prioridade de uso.

A Berma e o Passeio são uma superfície da via pública (...) que ladeia a faixa de rodagem;

A diferença é que a Berma "não é especialmente destinada ao trânsito de veículos" enquanto que o  Passeio "é especialmente destinada ao trânsito de peões";

Como a trotineta eléctrica pode circular na berma, sou de opinião de que também pode circular no passeio se não tiver mais por onde circular em segurança. 


No futuro vai haver problemas de convivência.

Quem tem poder é mais velho, tem dinheiro para bons carros, procurando limpar as estradas de qualquer empecilho à circulação acelerada das suas máquinas.

Quem é jovem e pobre não tem poder além do votito.

O que vai acontecer é que vão começar a aparecer campanhas a diabolizar a trotineta, dizendo que é muito perigoso, mostrando estatísticas com milhões de acidentes por dia.

Já começam a aparecer relatos de cegos que tropeçaram, velhinhos que têm medo de sair à rua e de jovens que abriram a cabeça mas será cada vez pior.

Basta ver a grande notícia de haver em Portugal 148 acidentes por ano de trotineta (ver) enquanto nada é dito sobre em 2021 terem sido feridos 3939 peões por atropelamento dos quais 51 morreram (ver).


terça-feira, 6 de setembro de 2022

O pacote anti-crise do Costa está errado mas o da oposição também está.

Há muitos anos tive uma cadeira que se chamava Estratégia.

Não me lembro grandemente do que lá aprendi mas o pouco que me lembro é importante: 

Tal como o capitão do navio em mar alterado consultar repetidamente o seu destino (não basta garantir que o navio está a andar), os governantes precisam repetidamente recordar quais são as funções do Estado.

Parece que há um pensamento atribuído ao Confúcio que condensa isso da "missão", "Não vale a pena correres se não sabes para onde precisas de ir".

O Costa (e a oposição) vai dar dinheiro às pessoas sem saber o que procura o Estado fazer.


Os recursos do Estado são cobrados de uns e entregues a outros.

O Costa não inventa "dinheiro", retira impostos, taxas e taxinhas a uns e dá subsídios, subvenções e auxílios a outros.

Esta função do Estado diz-se "redistributiva" e, em tese, retira mais aos ricos e entrega mais aos pobres. A função redistributiva existe porque alguém identificou que há uma tendência na Economia de Mercado para que os mais ricos fiquem mais ricos (e mais escolarizados) e os mais pobres (e menos escolarizados) fiquem mais pobres. Se não houver a função redistributiva do Estado, geração após geração, os filhos dos ricos e com mais escolaridade serão mais ricos e com mais escolaridade e vice-versa.

Por questões filosóficas (somos todos humanos) ou práticas (numa sociedade com grandes diferenças socio-económicas há mais violência), todos aceitamos que o Estado deve combater, em maior ou menor grau, a disparidade de rendimento das pessoas.


Será que dar 125€ a todos os português retirados de todos os portugueses vai resolver alguma coisa?

Não percebo a lógica mais que não seja propaganda.

As finanças mandam-me uma carta a dizer "Tem de pagar 1000€ hoje, tecle 123456789 no multibanco" e manda-me outra carta a dizer "O Estado deu-lhe 1000€, tecle 987654321 no multibanco para os receber".

Grande anúncio do Costa a dizer que me deu 1000€ mas, no final, não recebi nada porque fui eu quem paguei os 1000€.


Esses 125€ que vão para os contribuintes vêm dos contribuintes!

Em vez de dar 125€ a todos, o que se traduz em mais 600 milhões€ a pagar em impostos, dava apenas  aos que precisa, aos mais pobres, o que se seria realmente redistribuição.

Esse 125€ e todos os subsídios que vão ser dados sem olhar a quem abranger pessoas que não precisam, gastam isso num jantar, e que vão ser elas a pagar isso nos impostos.

Nada é gratuito, tudo tem de ser pago pelo contribuinte, isto é, pelos portugueses.


Vejamos as contas da CARRIS que diz que as viagens são grátis.

Peguei no relatório e contas de 2020 e concentrei-me em 2019 já que 2020 foi um ano anormal.

Os "Custos das Vendas" foram 104 milhões € e foram percorridos 490 milhões km x passageiro o que dá um custo de 0,214€/km (a viagem média tem 3,51 km e tem um custo de produção 0,75€) 

Uma trotinete custa 300€, dá para fazer uns 7500km o que dá 0,04€/km. Os custos de electricidade anda nos  0,005€/km a que se acrescenta 0,01€/km para manutenção (totaliza 0,55€/km).

Isto traduz que o custo da trotinete é 75% menor que o custo do transporte público.

Pode ser aborrecido quando chove mas é muito melhor andar de trotinete (não tem horário, vai de casa até ao destino e não é preciso esperar nas paragens) do que de autocarro.


Agora vai a pergunta.

Se se perguntar a um jovem "Pagas 0,75€ no autocarro ou 0,20€ de trotinete" que meio de transporte acham que o jovem vai preferir?

Claro que dizendo ao jovem "andas de graça no autocarro" escondendo que tem um custo de 0,22€/km, o jovem tem de andar de autocarro e assim ficar justificado o que não tem justificação.


Nos últimos 5 meses fiz 1800km de trotinete AOVO PRO.

Está como nova, não apresentando qualquer desgaste aparente. Havia quem dissesse "Essa marca branca, ao fim de um mês já não anda" mas não é verdade. Já tive um acidente (por minha má cabeça), deixei-a cair muitas vezes, andei por estradas e caminhos impróprios e mantém-se impecável.

E da minha experiência penso que quem faz as ciclovias por esse portugal fora nunca andou de trotinete.


Como deveriam ser as trotevias.

1 = Devem ser ao mesmo nível da estrada e apenas deve haver um traço contínuo (a linha de guia) a separar a estrada da trotevia (os pinos só servem para derrubar as trotinetes).

2 = O óptimo será ter pelo menos 1,00 metros mas basta ter 0,50 metros para não ser necessário estorvar os automóveis.

3 = Os carros têm de ter cuidado redobrado e facilitar pois cada trotinete na rua é menos um carro a estorvar. E lembrarem-se que quanto mais selvagens forem enquanto automobilistas, mais largas têm de ser as trotevias (e mais estreitas as vias destinadas aos automóveis)!



quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Portugal vai duplicar o PIB nos próximos 20 anos é a anedota do século.

Vou pegar apenas em 3 gráficos que mostram a evolução de Portugal nos últimos 52 anos.

No primeiro gráfico mostro a evolução do PIB  (o que traduz o nível de vida de cada português, em média) e localizar no tempo a entrada na UE-União Europeia e na ZE-Zona Euro. Os dados são do Banco Mundial.

Entre 1970 e 1999, o crescimento português foi de 3,5%/ano, o que sonha a SEDES. Mas de 2000 em diante, o crescimento reduziu-se para 0,6%/ano.

O que a SEDES está a pedir que voltemos a crescer entre 1970 e 1999. Pegar no que aconteceu entre 1970 e 1999, isto é, chamar de volta o Marcelo Caetano, a emigração massiva para a França. o período revolucionário e os 10 anos de Cavaquismo.

Parece-me difícil!

Fig. 1 - PIB português e evolução pedida pela SEDES

Mas mais grave é o que se acontece em comparação com os a Zona Euro.Entre 1970 o nosso PIB per capita convergiu com a média da Zona Euro 0,4 pontos percentuais por ano mas, a partir de 2000, está a divergir 0,1 ponto percentual por ano com a média da ZE.
O que a SEDES diz ser capaz de ensinar os governos e os portugueses a fazer aé a forma de passarmos a ter uma convergência de 1,8 pontos percentuais por ano.


Fig. 2 - PIB per capita português relativamente ao da ZE

Ainda estamos abaixo do PIB potencial de 2008.
Se ampliarmos com dados trimestrais do Banco de Portugal a evolução do PIB, vemos que a tendência de evolução do PIB potencial no período posterior à entrada na Zona Euro é de 1%/ano mas que, decorridos 14 anos da Crise do Sub-prime de 2008, ainda estamos abaixo da tendência de longo prazo.
Se em 14 anos ainda não retornamos à tendência de +1,0%/ano, como podemos sonhar em termos nos próximos 20 anos uma tendência de crescer 3,5%/ano.


Fig. 3 - Evolução do PIB trimestral entre 1995 e 2022 (dados, BP)


É impossível duplicar o nosso PIB nos próximos 20 anos.
É um discurso de candidata a miss mundo, terminar com o sofrimento na Terra, as alterações climáticas, a fome e a guerra, especialmente na parte que afecta as crianças e os lgbtqia+.
Atendendo a que a nossa economia está intimamente ligada às economias dos nossos parceiros da Zona Euro, não se prevê nos próximos anos descobertas de petróleo e gás natural, é impossível Portugal passar, de uma divergência de 0,1pp/ano para uma convergência de 1,8pp/ano com a ZE.
Nem que cá volte a Nossa Senhora de Fátima acompanhada pelo seu filho Jesus Cristo, ambos em corpo e alma.
Digamos que este livro da SEDES é um fair divers, uma anestesia para retirar o holofote da desgovernação do Costa que mais não faz do que encaminhar-nos para a pobreza.
Vamos duplicar o PIB mas, em vez dos 20 anos de vida sonhados, vai demorar 70 anos de vida vividos. 

O que diz o irmão rico ao irmão pobre?
- És tão rico, dá-me cem euros para me ajudar na prestação da barraca.
- Se começares hoje a trabalhar 12 horas por dias, daqui por 20 já não precisas dos meus cem euros porque já terás a casa mais do que paga.

Fig. 4 - Pai, eu gostava tanto que a Marisa fosse minha namorada! - Meu filho, se fores médico e trabalhares muito, daqui a 20 anos vais ter dinheiro suficiente para a conquistar. - Mas nessa altura, a Marisa vai estar velha e gorda! 



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