terça-feira, 29 de novembro de 2011

O que diz o estudo BofA-Merrill Lynch

Um leitor, o Francisco, em nota de desafio, apresentou-me um link em que a BofA-Merrill Lynch avisa os seus clientes de que a Zona Euro pode acabar.
Que não considera ainda um cenário muito provável mas que deve ser considerado na análise de risco.

Primeiro, considera mais provável a saida de apenas um país (de cada vez?).
    A) Se a Alemanha sair, o Euro desvaloriza.
    B) Que se sair a França ou qualquer país dos PIIGS que o Euro valoriza

Segundo, acha menos provavel que o Euro acabe de todo e cada país volte à sua moeda.
Prevê que alguns países valorizarão a sua moeda
    Alemanha, Holanda e Irlanda
Outros países desvalorizarão
    Espanha, França, Itália e Portugal

A notícia que aparece no dinheirovivo é uma tradução automática que deturpa completamente o anúncio.



Porque valorizam ou desvalorizam as moedas.
As contas de um paíse com o exterior condensam-se na Balança Corrente.
Quando a BC está deficitária, a moeda desvaloriza. Caso contrário o país endivida-se face ao exterior.
Quando a BC está superavitária, a moeda tem tendência a valorizar. Caso contrário, o país fica credor face ao exterior (como a China, o Japão, a Alemanha, o Luxemburgo e poucos mais)
Vejamos as balanças correntes média e já sabemos quem vai desvalorizar e quem vai valorizar (fonte: Banco Mundial).

Se um país que vai desvalorizar sair, o euro valoriza e vice-versa.


Country NameMédia BC (2005-2010)BC 2010CorrecçãoValorizaçãoPIB (2005-2010)Val. Euro
Greece-11,6-10,61,0-40%2,3%+0,9%
Portugal-10,8-9,90,9-38%1,8%+0,7%
Cyprus-7,9-2,75,3-29%0,2%+0,0%
Malta-7,8-5,12,7-29%0,1%+0,0%
Spain-7,6-4,63,1-28%10,1%+2,8%
Estonia-7,43,611,0-28%1,9%+0,5%
Slovak Republic-5,1-3,41,7-20%0,6%+0,1%
Ireland-3,40,53,9-16%1,8%+0,3%
Slovenia-3,1-0,82,3-15%0,3%+0,0%
Italy-2,5-3,5-1,0-13%16,2%+2,1%
France-1,2-1,7-0,6-9%20,8%+1,8%
Belgium0,91,00,1-3%3,7%+0,1%
Austria3,12,8-0,34%3,1%-0,1%
Finland3,53,1-0,35%2,1%-0,1%
Germany6,15,7-0,413%28,7%-3,7%
Netherlands6,67,20,515%6,1%-0,9%
Luxembourg8,78,0-0,821%0,4%-0,1%

Fig. 1 - Valorização da moeda local e do Euro no caso de um país individual sair da Zona Euro.


Pedro Cosme Costa Vieira

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Será possível criar um Euro 2 para os PIIGS?

Um leitor que vive na Alemanha colocou esta questão que se discute muito por lá.
A minha resposta é NÃO por questões políticas, geográficas e económicas.

As questões políticas.
Ao longo dos ultimos 1500 anos, a  Europa tem sido terreiro de luta entre 6 super-potências
     A Rússia
     A Alemanha
     A França
     O Reino Unido
     Os Otomanos
     Os Árabes
Na União Europeia degladíam-se três dessas superpotências que deveriam dar origem a 3 zonas Monetárias.

Fig. 1 - Zonas de influência cultural das super-potências europeias

O Reino Unido sempre lutou (e luta) para que não se criasse a Zona Euro.
Os Alemães não queriam mas sentiram-se obrigados pelo que é conhecido como "Vergonha pela II Guerra Mundial".
Os Franceses usaram a fragilidade moral alemã para criar a Zona Euro na qual eles se querem assumir como lideres.

Vamos pensar no Euro 1.
É um Zona Monetária completamente viável.
Em 2012 a Alemanhã vai abandonar a Zona Euro e criar a Zona Euro 1 na qual vai ter total poder de condução da politica monetária.
Nessa altura a Áustria, Luxemburgo, Bélgica, Holanda, Estonia e Finlandia vão pedir para aderir.
E vão ser aceites.
As condições de pertenca à Zona Euro 1 serão mais restritivas que as actuais condições. Os países vão ter que fazer um plano para ter, num prazo de 10 anos,
      1. Dívida Pública menor que 40% do PIB
      2. Endividamento externo menor que 40% do PIB
      3. Défice Público Zero
      4. Contas externas (Balança Corrente) Equilibradas.
Eventualmente, outros paíse podem vir a aderir ao Euro 1
    Letónia, Lituania, R. Checa, R.Eslovaca, Suécia, Dinamarca e Polónia. Mais remotamente poderão entrar a Roménia e a Hungria.

A inviabilidade política do Euro 2
A Françã é contra a existência do Euro 2 porque, por um lado, não quer pertencer ao Euro 2 pois seria uma demonstração de fraqueza.
Por outro lado, não quer ficar no Euro 1 com a Alemanha a marcar as condições de acesso e de condução do BCE1.
Como a França precisa dos PIIGS na Zona Euro para ter contra-peso político para afrontar a Alemanha, vai semrpe torpediar a criação do Euro 2.

A inviabilidade económica do Euro 2.
A França defende muito os PIIGS porque são a sua zona de influência mas não vai querer ficar numa Zona Monetária com eles e sem a Alemanha.
Se ficasse no Euro 2 teria que fazer o papel actual da Alemanha e resgatar a Grécia, Portugal, Itália e a Espanha.
Diz logo o Sarkozy: NEM PENSAR NISSO.

Porque não avançam já com as Euro  2 Bonds?
Prova de que estamos todos a querer mamar na Alemanha é que a França não avança com, juntamente com os PIIGS, a emissão obrigações solidárias.
As tão faladas Euro Bonds não precisam da assinatura da Alemanhã. Os PIIGS mais a França podem emitir obrigações solidárias e, caso um país não as pague, os outros países pagam-nas.
Diz logo o Sarkozy: NEM PENSAR NISSO.
O que a França quer é, caso algum país falhe, que a Alemanha pague.
  
Fig. 2 - As francesas são muito bonitas mas é sabido que não têm onde mamar.

A França não quer ficar no Euro 2 com os PIIGS.
E depois, a Espanha também não quer ficar associado aos caloteiros,
E a Italia vem logo dizer que "nós não somos como os gregos",

As questões geográficas
Depois fica Portugal com os Gregos.
Aquilo é tão longe. Nem temos o mesmo papa.
Escolhe outro, amigo.
NÃO QUEREMOS

Concluindo.
No final de 2012 haverá o Euro 1 com a Alemanha como decisor com um número restrito de países.
Depois, cada um dos outros países da actual Zona Euro, incluinda a França, terá a sua própria moeda.

Será que o Fim do Euro vai ser o fim da UE?
Vai dar problemas porque a saida da Zona Euro do PIIGS vai ser em bancarrota.
E a França vai ter que pagar taxas de juro altíssimas. E pode entrar em Bancarrota.
Os PIIGS mais a França vão-se lançar num discurso  muito violento contra a Alemanha.
O actual discurso da "falta de legitimidade democrática" que começa a ganhar volume nos comunas e nos faxistas (o Freitas do Amaral e outros) é o princípio dessa guerra de palavras.
Por isso, a UE vai ter um retrocesso muito grande.
A Alemanha vai-se virar a Leste (à Russia e China) e nós vamos ficar encostados uns aos outros.

Pedro Cosme Costa Vieira

domingo, 27 de novembro de 2011

Porque é que os salários equilibram a economia

O salário e o equilíbrio da economia.
O McMan pediu para eu explicar porque a descida dos salários (dos privados) é fundamental para o equilíbrio da nossa economia.
A nossa economia tem 4 grandes desequilíbrios.
A) O Défice Público - Estado tem um despesa muito maior (+20%) que a receita;
B) O Desemprego - No mercado de trabalho o número de pessoas que querem trabalhar é muito maior (+700mil) que o número de empregos que existem (ao ordenado vigente);
C) O Défice Corrente - O que importamos do exterior é muito maior (+40%) que aquilo que exportamos (mais outras verbas);
D) A Falência do Sistema Bancário - A taxa de juro a que os bancos se conseguem financiar é muito maior (+ 5 pontos percentuais) que a taxa de juro que os bancos recebe dos seus devedores (contratos indexados à EURIBOR).

O Passos Coelho está a tentar meter o Défice Público na trajectória acordada com a Troika.
Mas há os outros desequilíbrios que estão a destruir a nossa economia e que apenas a descida dos salários conseguem equilibrar de forma eficiente (o B, C e D).

Já expliquei porque os salários equilibram o mercado de trabalho.
Quando existe desemprego, o "pedido à fada madrinha" deveria ser que houvesse crescimento económico. Como eu não acredito em fadas madrinhas, a única solução é reduzir o salário.
  1 - O Stiglitz é Prémio Nobel mas está errado
  2 - O Stiglitz é Prémio Nobel mas está errado - 2
  3 - Os salários e o equilíbrios da economia

Havendo uma redução no salário, as empresas passam a querer contratar mais trabalhadores e menos pessoas querem trabalhar.
Com uma redução de 25% nos salários, prevejo que, dos 700 mil desempregados, 500 mil seriam absorvidos pelas empresas e 200 mil deixariam de querer procurar trabalho.

Mas a diminuição dos salários tem um efeito negativo nas contas públicas.
Tem como efeito directo uma redução nas contribuições da Segurança Social, SS, e do IRS.
Por exemplo, uma redução de 14.3% dos salários (os 2 subsídios) levará a uma redução de 14.3% nas contribuições para a SS (próximo dos 2 mil milhões€) e uma redução de 20% no IRS (próximo dos 3 mil milhões €). A quebra de receitas totais estará próximos dos 5 mil milhões €.
Estamos a falar numa redução na receita do "Orçamento do Estado" na ordem dos 3% do PIB.
Este número assusta o Passos Coelho.

Fig. 1 - Ai meu Deus, quando ele vir que as minhas mamas são apenas 3% do que parecia mata-se.

Mas resolvia-se facilmente
Dividia-se a descida do salário pago ao trabalhador de forma a manter a receita fiscal.
Um subsídio reduzia o salário pago pela entidade patronal e o outro subsídio ia para a SS e o IRS.
E aumentava-se o horário de trabalho para as 45h/s.
Um aluno meu que trabalha defende que o horário de trabalho deveria aumentar para 50h/s.

Mas temos que ver o efeito dos salários nos outros desequilíbrios da Economia.
Os desequilíbrios da economia portuguesa não são só as contas públicas.
O trabalho é responsável por 65% da riqueza criada nos países da OCDE. Então, para o PIB aumentar é preciso que mais pessoas trabalhem (e durante mais horas).
Uma redução do salário leva a que mais pessoas arranjem trabalho.

Fig. 2 - A beleza resulta do equilíbrio nas proporções


Uma redução dos salários levará a um aumento do PIB.
Parece estranho porque as pessoas raciocinam à moda, errada, keynesiana.
Caem no erro de ver o PIB do lado da despesa quando tem que ser visto do lado da produção.
Seria óptimo aumentar a produção pelo lado do investimento e da inovação mas não temos capacidade de aumentar o investimento porque não temos poupança interna (está em 10% que é abaixo da taxa de depreciação do capital, 15%) nem temos quem nos empreste dinheiro.
A quantidade de capital em Portugal "se está reduzindo rápido mesmo".
Para produzir mais é preciso que mais pessoas trabalhem e durante mais horas.

Uma redução dos salários levará a uma aumento do consumo.
Como importamos mais do que exportamos (consumimos mais do que produzimos), o consumo tem que diminuir relativamente ao nível actual.
Não há volta a dar a isto.
Mas essa redução será menor se os salários reduzirem

A) a diminuição dos salários aumenta o rendimento das famílias.
Nas famílias temos as pessoas empregadas (que recebem salário) e as desempregadas (que não recebem nada). Se os salários se mantiverem no nível actual quem está desempregado não conseguirá arranjar emprego e muitas das pessoas actualmente empregadas vão perder o emprego (+1000 por semana).
A evidência empírica diz que, enquanto a taxa de desemprego estiver elevada (acima dos 10%), uma redução do salário leva a um aumento do rendimento das famílias.
Isto acontece porque existe um aumento mais que proporcional no número das pessoas empregadas.
Claro que reduz o rendimento de quem está empregado (e que conseguiria manter o emprego) mas aumenta o rendimento das pessoas desempregadas (e que arranjam emprego) e das que não conseguiriam manter o emprego.

Fig. 3 - Descendo a bandeirada para metade triplico n.º de clientes pelo que o meu rendimento aumenta 50%.

B) Uma redução dos salários levará ao aumento das exportações.
Actualmente Portugal importa 5MM€ por mês e exporta 3.5MM€ por mês.
A diminuição dos custos do trabalho faz aumentar as exportações (em quantidade) pela redução do preço.
A evidência empírica diz que, para balanças corrente desequilibradas, o aumento da quantidade exportada é bastante maior que a diminuição dos preços (a elasticidade da procura é maior que 1) pelo que uma desvalorização dos salários em 14.3% ( os 2 subsídios) leva a (minha estimativa) 
     Diminuição dos preços em 9.3% (65% do custo total) que leva a um
     Aumento da quantidade exportada em 27.9% pelo que (elasticidade quantidade exportada / preço de 3) 
     Aumento do valor das exportações em 17%

C) Uma redução dos salários permitirá aumentar as importações.
Se mantivermos os salários actuais, as importações terão que se reduzir em 30% (de 5MM€ para 3.5MM€).
Se os salários diminuírem 14.3%, as importações "apenas" têm que diminuir 18% (para 4.1MM€).
Relativamente à situação em que os salários se mantêm, haverá um aumento das importações (+0.6 MM€).
Como nas importações existem bens essenciais (como petróleo e alimentos), este efeito é muito positivo para o bem estar dos portugueses.


Juntando o aumento do rendimento das famílias com o aumento relativo do nível das importações.
Uma redução dos salários levará a um aumento do bem-estar, em média, das famílias.
E ainda há o problema do subsídio de desemprego apra o qual não há dinheiro.

O grave problema das análises que se focam no impacto negativo da descida dos salários
     A. Pensar que o consumo e a receita fiscal se podem manter no nível de 2010.
     B. Pensar que Portugal apenas tem desequilíbrios nas contas públicas.
     C. Olhar apenas para aos problemas de curto prazo.

Mas existem outras variáveis que ajustam automaticamente os desequilíbrios da economia
Existe a taxa de juro.
A elevada taxa de juro a que estamos sujeitos também é uma "tentativa" por parte do mercado ajustar a Balança Corrente.
No entanto, esta variável é terrível pois vai levar à falência total do sistema bancário e da economia do país.
Se pensar que a seu crédito à habitação vai aumentar para 12%/ano, para um crédito de 100mil€ a 25 anos terá que pagar 1010€/mês.
A redução dos salários, equlibrando a balança corrente, leva à redução das taxas de juro.
A Irlanda estava a pagar 14%/ano e, assim que conseguiu equilibrar a Balança Corrente, a taxa de juro desceu imediatamente para 8%/ano.

Existe a emigração.
Já escrevi num post que a emigração não é um variável boa porque, a cada ano, 7% dos emigrantes perdem a ligação ao país. Se hoje emigrarem 100 portugueses, daqui a 13 anos só 13 deles mantém ligações a Portugal.
Emigrar é deitar os portugueses borda-fora.

Existe a falência dos bancos.
Os bancos falindo, os depositantes ficam sem o seu dinheiro. Claro que o Governo e o Cavaco dizem que o nosso sistema financeiro é sólido mas, sólido é o granito e também parte.
Os depósitos vão à vida e automaticamente o mercado de crédito equilibra (entra em colapso).

A probabilidade de perdermos metade dos nossos depósitos nos próximos 2 anos é de 50%.
O Geverno e o Cavaco também dizem que não há nenhuma razão para a taxa de juro da dívida pública estar (a 2 anos) nos 20%/ano e está.
Esta taxa de juro traduz que atiramos uma moeda ao ar e, se sair cara, fica tudo bem.
Se sair coroa só recebemos metade do dinheiro que temos depositado (como foi o acordado com a Grécia e ainda querem pagar menos).
O estimado leitor pode pensar que "a dívida pública não tem nada a ver com os nossos depósitos".
Pois não mas quando a República Portuguesa declarar bancarrota os bancos têm tanta dívida pública e de empresas públicas que declaram imediatamente a falência.
E quem vai garantir o Fundo de Garantia dos Depósitos? O Louçã? É que o FGD não tem dinheiro e a República não tem a quem o pedir emprestado.

Tratamento mais aprofundado.
Para quem estiver interessado em dar uma vista de olhos ao tratamento teórico da questão do salário como instrumento de equilíbrio da economia, escrevi este texto que aconselho que leiam:
Vieira, P.C.C. (2010), "O problema do crescente endividamento de Portugal à luz da New Macroeconomics", FEP-WP, 363.


Finalmente: McMan espero ter sido convinvente porque utilizei 4 horas do meu Domingo a escrever este post.

Pedro Cosme Costa Vieira

sábado, 26 de novembro de 2011

O Cavaco está maluco: o BCE não pode salvar a Itália nem ninguém

Por cada 100€ em depósitos bancários apenas existem 6.50€ em notas e moedas.
A economia europeia, por ser sofisticada, precisa de dinheiro para funcionar. Esse dinheiro são o outside money (notas e moedas), e o inside money (cheques, transferências bancárias e cartões sobre contas bancárias).
Como a moeda circula rapidamente, a quantidade de notas em circulação é muito pequena.
Na Zona Euro existem em circulação apenas 882.1 MM€ em notas e moedas corresponde a 9.36% do PIB (fonte:  BCE, Set2011).
Cada ano o BCE emite mais 50MM€ em notas e moedas.
Como a dívida externa italiana é de uma dimensão muito maior, 1850 MM €, não existe possibilidade de o BCE resgatar a Itália.
O Cavaco precisa urgentemente de uma pessoa competente para fazer umas contas e o aconselhar porque está a entrar no discursos ché-ché do Soares, Otelo e do Emplastro ("o Pinto da Costa é o meu pai").

Fig. 1 - Esta Bella Ragazza propõe-se a oferecer o sut a quem ajudar a pagar a dívida italiana. Ai que vou ter que largar mais uns 500€ para ajudar. Se fosses minha vizinha, derretia o meu ordenado todo a ajudar-te.

Recordando os posts passados
A construção desta minha conclusão tem uma certa sequência que é necessário ver:
1. O governador do BCE veio-me consultar sobre como salvar a Itália - 1
2. O BCE não pode imprimir notas
3. A inflação é um fenómeno puramente monetário


Quando depositamos o nosso carro numa garagem ele fica lá.
Mas quando depositamos dinheiro num banco não.
Em Portugal existem 245 mil milhões de € em depósitos bancários (fonte: Banco de Portugal, Set2011) e existem apenas 16 mil milhões de € de notas e moedas (fonte: BCE, set 2011, cálculo proporcional à ZE).
Agora imagine que tem 50000€ depositados no banco. De facto só lá depositou 3250€ em notas e moedas pois não se trata de um depósito mas de um empréstimo ao banco que o empresta a outra pessoa.

Teoria Quantitativa da Moeda
A quantidade de dinheiro que as pessoas pretendem deter, M, é uma decisão racional que está dependente de várias variáveis.

M é crescente com o PIB nominal
Como o dinheiro é principalmente usado para facilitar as trocas, quanto maior o PIB maior será a quantidade de moeda que as pessoas querem deter.

M é decrescente com a taxa de juro
Se eu, em vez de ter moeda, transferir o valor para um crédito, recebo uma taxa de juro. Então, ter moeda na mão dá-me um prejuízo igual à taxa de juro que perco.
A taxa de juro é igual à taxa de inflação mais a taxa de juro real pago na economia no período em que detenho a moeda (o período futuro).

M é crescente com o risco da economia
A moeda é a unidade de valor pelo que é o referencial sem risco. Quando na economia existe muito risco (nas crises), as pessoas querem entesourar moeda. Aqui sobressai a sua função de reserva de valor.
Podemos então formalizar a quantidade de moeda que as pessoas querem ter na carteira

M = A.(Y.P) - B.(p + r) + C.(risco) +  parte desconhecida
   Y = PIB real
    P = Nível geral de preços
    Y.P = PIB nominal
    p = Inflação esperada = DP
    r  = taxa de juro real
    M = quantidade de Moeda
    A, B e C parâmetros positivos
Podemos calcular os diferenciais (é como as derivadas)
    DM = A.(DY.P+Y.DP) - B.(Dp + Dr) + C.(Drisco)
    DM = A.(DY.P+Y.p) - B.(Dp + Dr) + C.(Drisco)

Agora, como a quantidade oferecida é determinada pelo Banco Central, podemos inverter a igualdade e simplificamos em incrementos relativos para determinar a taxa de inflação.

  p = DM + Dp + Dr - DY.P - C.(Drisco)  

Se o BCE aumentar a quantidade de moeda em circulação, a inflação aumenta proporcionalmente
Se o Banco Central for credível no seu mandato de manter a inflação de longo prazo (Dp + Dr = 0), então os preços aumentam proporcionalmente à quantidade de moeda emitida.
  p = DM  - DY.P - C.(Drisco)  

Por exemplo, se o BCE aumentasse a quantidade de moeda emitida em 10%/ano acima do que costuma fazer, a inflação passaria a ser 12%/ano.

O problema das crises.
O BCE tem a obrigação de manter a inflação nos 2%/ano. Quando a economia está em águas calmas a obrigação do BCE é relativamente simples de cumprir.
Quando se aproxima uma crise sabe-se que, a prazo, o PIB nominal vai diminuir (DY.P < 0 ) pelo que será preciso o BC diminuir a quantidade de moeda em circulação.
No entanto, nas crises há um grande aumento do risco ( C.(Drisco) > 0 ) que mais que compensa a queda do PIB.
Nas crise, em termos globais, é necessário o BCE emitir mais moeda.

Como é difícil adivinhar com certeza o futuro, quanto mais grave a crise mais dificuldade tem o BCE em controlar a taxa de inflação no curto prazo. Podemos ver na Fig. 1 que a crise do Sub-prime descontrolou a taxa de inflação e o mesmo está a acontecer com a crise da dívida soberana. No entanto, apesar da dificuldade e da variabilidade de curto prazo, em média, no período 2007/2011 o BCE conseguiu manter a inflação nos 2%/ano.

Fig. 2 - Evolução da taxa de inflação na Zona Euro, 2000-2012 (fonte: BCE)

O governador, Trichet, é o mesmo pelo que as dificuldades de controle da inflação no período 2007-2011 resultam apenas da severidade das crises.

Agora já podemos olhar para a divida soberana italiana
A divida externa italiana líquida é de 1857 mil milhões€.
Em média terá necessidades de financiamento na ordem dos 250mil milhões€ por ano.
O BCE, para um inflação de 2%/ano, emite por ano cerca de 50 mil milhões€ por ano (um aumento de 5% da massa monetária).
O quantidade máxima de moeda que o BCE consegue emitir são 130 mil milhões€, menos de metade do valor necessário para resgatar a Itália.
Os 130MM€ não dão nem para metade da Itália. Agora somemos a Grécia (50MM€/ano), Portugal (40MM€/ano), a Espanha (200MM€/ano) e temos necessidades de 550MM€ por ano.
O BCE, no máximo, pode salvar 20% da dívida dos PIIGS.

Os 130MM€ implica a Zona Euro passar a ter uma taxa de inflação de 50%/ano.
Os dados empíricos indicam que, quando a inflação é de 2%/ano, a quantidade de moeda detida pela economia é 10% do PIB. Quando a taxa de inflação aumenta para 100%/ano, a quantidade de moeda diminui para 1% do PIB.

     M/(Y.P) = 10% - 0.023 ln(p/2%)

Então, maximizando neste modelo o poder de emissão do BC, temos 1.4% do PIB para uma taxa de inflação de 54%/ano.
No caso da Zona Euro, PIB = 9400MM€ (fonte: BCE), temos um máximo de 130 Mil Milhões€.
Ultrapassando este limite, a taxa de inflação explode para as centenas ou milhares por cento por ano.

Fig. 3. Ajudar esta italiana causa mais inflação que tomar três pastilhas de Viagra.

Alguém acredita num inflação de 54%/ano?
Alguém acredita que a Alemanha, França, Luxemburgo, Holanda, Bélgica, e todos aqueles do Norte ficavam 1 minuto na Zona Euro se a taxa de inflação passasse a ser 54%/ano?
Alguém acredita que Portugal aguentava uma taxa de inflação de 54%/ano em solidariedade à Itália?

Certo dia estava um senhor na borda de uma ponte
Parecia que estava a pensar em se suicidar.
Aí, apareceu um cavalheiro com a barba por fazer e a cheirar mal e disse:
- Meu senhor que estás a pensar fazer uma loucura não o faças porque eu sou a tua fada madrinha. Pede-me um desejo que te será concedido.
- Minha fada madrinha? mas tens tão mau aspecto e és um homem.
- Não conheces a história da maça envenenada pela Fada Bruxa que adormeceu a Branca de Neve? Pois foi o que me aconteceu. Sou uma fada muito bonita e jovem envenenada. Agora, para eu quebrar este feitiço baixa as calças e vira-te de costas.
E assim aconteceu. Passados uns minutos (dizem que bons para um e mau para o outro), disse o suicida.
- Então agora já posso pedir que realizes o meu desejo.
- Meu filho que idade tens?
- 40 anos.
- E ainda acreditas nas fadas madrinhas? Então manda-te abaixo.

A economia discutida no barbeiro
O meu interesse pela economia surgiu no barbeiro. Tanta teoria interessante que surgia da mente daquele homem. O homem tinha solução para quase todos os problemas do mundo.
Desconfiei logo que nada tinha fundamento porque o homem apenas se dizia incapaz de curar os carecas. Então ele não sabia da ciência dele e sabia da ciência do Cavaco?
comecei a estudar economia e conclui que, afinal, o homem sabia tanto como o Cavaco.
Não sabia nada de nada.
Certo só sabia o número do autocarro que o levava para casa.
Nem sabia quanto custava o corte. Marcava no espelho 600$ e umas vezes dizia "deixe lá 400 paus", outras 500 e até me chegou a levar "300 paus porque você está magrinho".


A técnica dos demagógicos é não falar em números.
Ainda no outro dia vi um anúncio "venha fazer exercícios com o Dr. HU que faz bem aos rins, bexiga, figado, pulmões, coração, intestinos, e vigor sexual".
"Esqueceu-se" de dizer quanto bem fazia. Será que fazia melhor que dar uma caminhada? Não.
O Cavaco, Louçã e outros demagógicos também usam essa técnica:
O BCE pode injectar dinheiro na economia logo pode resgatar toda a gente.
Não dizem é que o BCE apenas pode emitir 50MM€/ano com um máximo de 130MM€ e que os PIIGS precisam de 550MM€/ano.
E mesmo a Alemanha só tem um superavit da balança corrente de 120MM€/ano.

Fig. 4. O BCE vai resgatar Portugal. O Pinto da Costa é o meu pai.

A inflação e o IVA
Emitir moeda é equivalente a aumentar os impostos.
Com uma taxa de inflação de 2%/ano, a emissão de moeda corresponde a uma receita de 0.5% do PIB (850M€/ano). Aumentando a inflação para 50%/ano, a receita aumentaria para 1.4% do PIB (2400M€/ano).
O IVA tem uma receita de 13500M€/ano.
Então, em vez de aumentar a inflação para 50%/ano podia-se subir o IVA de 23% para 25.5%.
Tenho a certeza que era melhor aumentar o IVA.

Será melhor a bancarrota ou a inflação?
O estimado leitor, se for esquerdista, comuna, broquista, está a pensar que eu cometi um erro de raciocínio.
Se, por exemplo, a Itália deve 100€, paga 3.5€/ano de cupão (juros) e devolve os 100€ daqui a 10 anos, se a taxa de inflação subisse para 50%/ano, em termos de poder de compra, a divida desvalorizaria para 8.61€.
Em vez da actual dívida de 1857MM€ a Itália passaria a dever apenas 160MM€.
Aí já o BCE poderia resgatar a Itália.

MAS ISTO SERIA UMA FRAUDE.
O que aconteceria é que os credores ficavam sem receber o seu valor.
O povinho que poupou e emprestou dinheiro à Itália (e demais países da Zona Euro) ficava sem 91.39% do seu dinheiro.
Por isso é que a taxa de juro da Grécia está nos 30%/ano, de Portugal nos 12%/ano e da Itália a caminho desses valores.
Os credores antecipam que nós os PIIGS são burlistas.
Entramos na Zona Euro prometendo que nunca mais íamos permitir a inflação e, uma vez apanhadas as poupanças dos incautos, pumba, atacamo-los com inflação.

É melhor a bancarrota.
A bancarrota fará com que o nossa país não tenha mais credibilidade.
É melhor dizermos que não podemos pagar a nossa dívida e desvalorizamo-la.
Por exemplo, se multiplicarmos o prazo da dívida actual por 3 passando a dívida a 10 anos para dívida a 30 anos e pagarmos uma taxa de juro de 2.82%/ano (a taxa de juro alemã a 30 anos), corresponde a "perdoarem-nos" 2/3 da nossa dívida (a taxa de juro portuguesa a 30 anos é de 9.866%_/ano). Fonte: bloomberg.
A dívida a 100 dias passaria a ser 300 dias (à taxa de juro alemã para esse prazo).

Durante muitos e muitos anos o Estado não conseguirá financiamento. Mais nenhum velhinho vai entregar os seus euros aos certificados de aforro.

Ao pagarmos o valor nominal e a taxa de juro.
Em termos morais ficamos mais confortados.
Diremos "Nós não nos recusamos a pagar as nossas dívidas nem burlamos as expectativas quanto à inflação. Apenas não permitimos que os mercados especuladores sugassem o nosso sangue".

A inflação é muito pior.
A bancarrota fará com que o nosso país, durante muitos e muitos anos, não tenha credibilidade.
Mas a inflação tem não só este problema (o Estado não cumpriu a promessa de manter a inflação) como o sistema monetário perde a sua credibilidade.
A bancarrota destroi a credibilidade do Estado mas a inflação destroi isso e a credibilidade do Banco Central.
Nunca mais será possível fazer empréstimos de longo prazo (a taxa prefixada).

Outra maluqice do cavaco - o BCE comprar toda a dívida pública acima de 10%/ano
Outra maluquice do Cavaco é propor que o BCE anunciasse uma taxa de juro máxima para a dívida dos países, por exemplo, 10%/ano, e, caso essa taxa de juro fosse ultrapassada, o BCE comprava a divida toda.
Isto é uma maluquice. Vejamos porquê.
1. Portugal emite 1000M€ e o mercado exige 12%/ano pelo que o BCE compra a 10%/ano.
Passado um ano, Portugal tem que pagar 1100M€ ao BCE.
2. Portugal emite 2000M€ de dívida (paga os 1100MM€ e fica com dinheiro 900M€ fresco) que o BCE  compra a 10%/ano.
3. Portugal emite 3000M€ para pagar a dívida e ter mais dinheiro.
4. Daqui a 100 anos, o BCE ainda não recebeu nenhum e tem que comer pentiuns, resmas, aviões com milhares de  milhões de € de divida pública portuguesa. Seria um google de euros.
5. Para o BCE nos emprestar esse dinheiro, alguém tinha que o por lá: os burros dos alemães.
Nunca a gente iria pagar nada.

O Sócrates ainda lá estaria.

Se o BCE comprasse sempre a nossa dívida, ia ser uma delícia para o Sócrates. E o Oliveira Costa, mesmo de cadeira de rodas, ia ficar no então prospero BPN até morrer. Tinham que o embalsar como fizeram ao Lenine.
Nem o Duarte Lima precisaria de matar, alegadamente, a D. Rosalina pois não lhe faltaria dinheiro.
O Sócrates ia ficar PM até morrer e depois de bater a bota, vinha o neto do Guterres seguido do bisneto do Santana.
Só se os nossos parceiros da Zona Euro fossem burros como o Cavaco é que pensávamos em pagar fosse o que fosse.

Fig. 5. Voltei de Paris rejuvenescido para poder aguentar como PM mais 48 anos.

Finalmente uma curiosidade: no Mundo existe mais ouro que notas e moedas.
Existem no Mundo 168 mil toneladas de Ouro o que dá 24g pessoa. A 55€/g dá 1320€/pessoa.
A quantidade de moeda andará nos 900€/pessoa.
Interessante haver mais valor em ouro que em notas e moedas.

Pedro Cosme Costa Vieira

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