segunda-feira, 29 de junho de 2015

Calma, calma, que não aconteceu nada.

A Grécia fechou os bancos e nada nos aconteceu. 
Nos últimos dias os esquerdistas bem anunciaram aos 4 ventos de que hoje Portugal iria ser vítima de um "ataque dos especuladores internacionais" que iriam fazer a Maria Luís engolir toda a sua bazófia.
Mas, como eu sempre o disse, nada aconteceu.
As taxas de juro que medem o nosso risco de curto prazo mantiveram-se praticamente inalteradas.
As obrigações de dívida pública portuguesas a 2 anos desvalorizaram 0,2%, o que é totalmente insignificante, mantendo-se a taxa de juro bem abaixo da taxa de inflação prevista para os próximos 2 anos pelo BCE (1,4%/ano).

Fig. 1 - Só à lupa é que se vê alguma coisa.

Mas a comunicação social diz que as taxas de juro estão a subir muito.
Mas é totalmente mentira.
Se a taxa de juro subiu de 0,063%/ano para 0,177%/ano é totalmente insignificante mas, em termos relativos, podemos dizer que a taxa de juro aumentou 181% mas isso é nada sobre uma taxa inicial (de ontem) que é praticamente zero. 
Seria como termos uma formiga em casa que, relativamente a ontem, triplicou de tamanha, o que, naturalmente, meteria medo a ninguém.

Fig. 2 - Afinal, nem à lupa se vê qualquer diferença entre o que se passa hoje e o que se passou nos outros dias.

E na Grécia?
Está tudo muito bem e, se estiver mal, que se aguentem que eu não quero saber.
Eles é que estão no caminho certo, no caminho do crescimento e do emprego pelo que devem continuar nele.
Na Guiné-Bissau é muito pior e ninguém se preocupa e é um povo nosso irmão.

Querem saber o que irá acontecer no dia 6 de Junho à 1h da madrugada?
O Tsipras vai fazer a campanha dele contra o acordo mas, no dia 5 de Junho à noite, o povinho grego vai votar que sim. Por isso, o Tsipras, por volta da meia noite vai dizer na televisão pública grega que os esquerdistas reabriram "Sou contra mas cumprirei a vontade democrática do povo grego".
Quando der 1h da madrugada, a Sr.a Merkel vai falar ao povo alemão para dizer "Vou pedir ao Bundestag para que inicie os procedimentos com vista à realização de um referendo a perguntar se o povo alemão aceita os termos do acordo das instituições europeias com o Estado Grego, mas eu vou fazer campanha contra esse acordo pois julgo que prejudica o povo alemão."

Fig. 3 - Vamos então ver se os gregos vão gostar quando a Sr.a Merkel aplicar aos alemães a democracia à moda do Varofáquis.

Onde pára o António Costa?
Ninguém sabe.

Fig. 4 - Parece-me que há uns anos já vi algo parecido com isto.

Pedro Cosme Vieira

domingo, 28 de junho de 2015

16 - A operação

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (15 - A recusa)    




16 – A operação 
Lá foram aquelas 8 mulheres pela calada da noite em direcção à casa da Maria Zé. 
– O Francisco não me vai abrir a porta. Como a Júlia esteve lá, a Maria Zé vai desconfiar e vai proibi-lo de me abrir a porta. O meu filho é muito respeitador do que diz a mulher pelo que não vai fazer nada.
– Vamos então mudar de estratégia, apanhemos um pouco de caruma para podermos fazer uma fogueira à porta de casa deles. Quando a luz da fogueira começar a entrar pelas frinchas, o Francisco vai acreditar que há um incêndio e vão sair cá fora para ver o que se passa. Também vamos bater no porco para ele grunhir, dando assim a sensação de que está em perigo. Vai cair como um patinho.
As mulheres chegaram e o cão começou logo a ladrar. Entraram no pátio em total silêncio, colocaram a caruma num monte a acenderam-na com a vela do lampião. A Júlia deu sinal a uma das filhas que foi bater com uma chibata no porco que, imediatamente, começou a grunhir. Também as ovelhas se agitaram e começaram a balir. Passado um ou dois minutos, quando a fogueira já estava alta, a mãe do Francisco bateu violentamente à porta gritando “Francisco, Francisco, estás-me a ouvir, sou a tua mãe, anda cá fora que há um incêndio na cozinha, anda cá ver, anda rápido que precisamos apagar isto para que não mate os animais e não pegue fogo à casa. Eu calhou ver o lume de minha casa e vim cá a correr mas estou sozinha, preciso que me venhas ajudar a pedir socorro senão isto arde tudo. Deve ter sido algum bandoleiro que saltou o muro e que veio meter fogo aqui. Abre a porta rápido que vais morrer ai dentro juntamente com a tua mulher e as tuas crianças. Ouve, o porco está assustado, está a adivinhar que vai morrer queimado. Anda daí meu filho.
O Francisco, ouvindo aquele burburinho, não resistiu, levantou-se da cama, calçou uns chinelos, tirou a tranca da porta, abriu-a e deu três passos em direcção à cozinha “Mãe onde está o incêndio? Mas isso é apenas uma fogueira.” Nesse mesmo momento, as mulheres que estavam encostas à parede, entraram de rompante dentro da casa, fecharam a porta e trancaram-na. “Mas que se passa? O que está a acontecer?” disse o Francisco meio atordoado.
– Xiiiuuu, anda cá meu filho, anda cá, vem para aqui, para a minha beira, para conversarmos à beira da fogueira. São as tuas tias e cunhadas que vêm resolver o problema pois a tua mulher está confusa da cabeça. Não te preocupes que tudo vai correr pelo melhor.
Entretanto, dentro da casa, como entraram em silêncio, as mulheres conseguiram prender a Maria Zé ainda na cama. Uma a segurar em cada braço e cada perna, dominaram-na completamente. As crianças ficaram assustadas mas foi ao quarto uma das tias para as sossegar. “Xiu, xiu, isto não é nada, são os serandeiros na brincadeira, vejam, trouxe-vos rebuçados e vou-vos contar a história da Fuga do Egipto”. A Isabel pôs o xaile branco pela cabeça, pegou no Levi que estava a dormir no quarto da Maria Zé e pediu ajuda à Júlia. “Júlia, vamos para a arrecadação para me ajudares a ver se a criança nasceu mesmo doente. Pela minha experiência, vejo que sim mas tu percebes mais disto.” A Júlia fez-lhe um teste demorado, avaliou se a criança conseguia agarrar as coisas, se segurava a cabeça, se tinha algum controle do tronco mas nada. “É doente, não tenho dúvida nenhuma de que nasceu doente. Mas agora o que vais fazer? É que eu não trouxe o meu saco”. A Isabel tirou uma fralda que estava em cima da mesa e disse “Mas eu resolvo o assunto, agora eu trato de tudo.” Abriu a fralda em cima da caixa da roupa, deitou em cima dela o Levi que chorava a plenos pulmões e embrulhou-a totalmente tapando-lhe a cabeça. Depois, abriu a caixa do milho e, com as mãos, afastou o cereal para um dos lados. Pegou na criança embrulhada na fralda, meteu-a naquele buraco e ainda arrumou um pouco mais para que pelo menos metade da criança ficasse já enterrada no milho. Finalmente, com a mão direita segurou a criança e, com a esquerda, puxou o monte de milho que tinha feito num dos lados da caixa para que a criança ficasse totalmente enterrada no cereal. A criança quase que se deixou de ouvir abafada pelo milho “Pronto, dentro de um minuto ela cala-se e, depois, é só esperar uma meia hora para termos a certeza de que o problema está resolvido” Assim que a criança de deixou de ouvir disse “Vamos agora falar com a Maria Zé para ver como ela está.”
A Maria Zé estava a gritar e a tentar morder as irmãs mas não conseguia por serem 4 contra uma. Quando a mãe chegou chamou por ela com voz de comando “Maria Zé, Maria Zé, sou eu, a tua mãe Isabel, pára de fazer esse teatro e ouve o que eu tenho para te dizer”.
– Mãe, Mãe o que está aqui a fazer? Quem são estas mulheres que me estão a agarrar?
– São as tuas irmãs a quem eu tive que pedir ajuda porque não abriste a porta à Tia Júlia. Eu sei que foi Deus que te toldou o pensamento para me experimentar e, por isso, viemos cá para te resolver o problema. Não te preocupes que agora está tudo bem, o Francisco está lá fora com a mãe e as crianças estão acompanhadas, não te preocupes que está tudo resolvido.
– E onde está o Levi que dormia aqui ao meu lado, onde está o meio Levi? Ainda há pouco o ouvi chorar e agora não ouço nada, onde meteram o meu filhinho?
– O teu Levi já não está entre nós, Deus chamou-o para junto dele. Como sabes, nasceu com a doença e, por causa disso, teve que ser devolvido ao Criador.
– Mas mãe, a Tia Júlia está aí? Foi ela que o matou com o defumadouro? Mas não me cheira a alecrim, o que aconteceu à minha criança, quem a matou?
– Minha filha, já te disse, o teu filho não morreu, apenas foi devolvido a Deus porque nasceu com a doença. Não foi ninguém que o matou, foi a doença, aquela maldição que nos acompanha e contra a qual não podemos mostrar fraqueza. Tens que ser forte e aceitar o teu destino. Temos todos que ser fortes e avançar para o futuro. Esta tua criança já é passado e agora tens que pensar nas que continuam vivas e aceitar as que terão que vir para substituir a que partiu. É o nosso destino e é assim que temos que viver a nossa vida.
Entretanto a Maria Zé foi-se acalmando, foi-se conformando com o seu destino e o tempo foi passando. A certa altura, a Isabel disse “Podem abrir a porta que eu preciso falar com o Francisco”. O Francisco entrou e a Isabel disse “Francisco, o Levi foi para junto do Criador. Agora, pega na tua mulher e ide passar a noite a casa da tua mãe que nós tratamos das crianças.”
– Mas que é feito do Levi? Onde está a criança?
– Já partiu para junto do Criador, não te preocupes. Como já deverias saber, a criança nasceu com a doença e, por isso, não pode continuar entre nós, veio a este mundo para condenar as tuas outras crianças à morte mas já não o vai poder fazer. Veste-te, pega na tua mulher e vai passar a noite a casa da tua mãe que veio connosco.
Soltaram as mãos e as pernas da Maria Zé que, talvez por achar que nada mais podia fazer, tomou uma posição submissa. Pegou na roupa que tinha na cadeira e vestiu-se à frente de todos. O Francisco também se vestiu e, depois, saíram os dois cá para fora. “Mãe, vamos então passar a noite a sua casa”.

“Não foi desta que me venceste” pensou a Isabel relativamente a Deus. “Eu e a Júlia ficamos aqui com as crianças e vocês já podem voltar para as vossas casas. Amanhã de manhã eu deixo as crianças a alguém aqui da vizinhança e vou tratar de tudo pois a Maria Zé não vai estar com cabeça para nada.”

Capítulo seguinte (16 - A operação)

sábado, 27 de junho de 2015

O Grexit e o futuro do Euro

Toda a gente diz que ninguém sabe o que irá acontecer. 
Mas eu sei. 

Vamos ao câmbio fixo.
O regime de câmbios fixos existe o país A,tem a sua moeda fixa relativamente à moeda do país B. 
Por exemplo, o Peso Argentino teve câmbio fixo (1 para 1) com o Dólar Americano entre 1991 e 2001.
Se no país A a política de salários e preços for expansionista relativamente ao país B, as contas de A com B começam a desequilibrar-se (a Balança Corrente fica deficitária) e o endividamento externo começa a aumentar. Este desequilíbrio também leva ao aumento da taxa de desemprego em A, a diminuição do desemprego em B e a emigração de A para B.

Com o tempo
Se o povo da país A pensar que a economia se baseia no consumo e não na produção e que o salário é um direito e não uma contra-partida pelo que se produz (e o país B não quiser aumentar a sua inflação ) então, a economia de A vai contraindo e o endividamento externo vai-se tornando crescente o que faz aparecer o risco do país A ter que abandonar o câmbio fixo e desvalorizar a sua moeda.
Este risco cambial é uma força altamente destruidora das relações de câmbio fixo. Por esta razão, a evidência empírica indica que todas as relações de câmbio fizo do passado acabaram por fracassar.

Fig. 1 - A nova nota Grega em primeira mão.

Será a Zona Euro um regime de câmbios fixos?
Os especialistas dizem que sim e, se o for, também está condenada ao fracasso, demore muito ou demore pouco, vai acabar por acabar. 
Mas, de facto, não é um regime de câmbios fixos.
"Não é?" - o estimado leitor está agora a perguntar - "Deve haver nessa cabecinha um engano qualquer porque o nosso Escudo tem câmbio fixo com o Euro, 200$482 = 1,00€." vai pensar.
Mas não é um verdadeiro regime de câmbios fixos porque o nosso velhinho Escudo não está fixo relativamente à moeda de nenhum país mas sim a um cabaz com, além do escudo, 20 moedas e 20 economias.
Está outra vez a pensar "Portugal mais 20 economias dá 21 e a Zona Euro só tem 19 países, o fulano está a meter os pés pelas mãos."
Não, não, é que ainda existe a Kosova (os kosovares dizem que o nome é feminino) e Cabo Verde.
Assim, o Euro é um instrumento supra-nacional mais parecido com o Ouro que com um papel moeda.
O Euro é gerido pelo BCE como uma entidade supra-nacional que tem que manter a inflação de 2,0%/ano na média dos países que usam o Euro como moeda.
Em teoria o Euro pode subsistir mesmo que nenhum país o use como moeda transformando-se na média de uma cabaz das moedas de todos os países da União Europeia.

E se o país A tiver uma inflação superior a 2,0%/ano?
Tendo ambos Euros, para o país A ter inflação acima dos 2%/ano, o país B irá ter uma inflação abaixo dos 2%/ano. Esta diferença nas taxas de inflação vão fazer actuar as forças económicas.
1) Os bens do país A ficam mais caros que os do país B o que faz com que as empresas do país A não consigam vender as suas produções.
2) As empresas do país A começam a ajustar descendo os salários (os custos diminuem o que leva à queda da inflação).
3) Se os salários não poderem descer (por ser inconstitucional)começam os despedimentos. 
4) Se os despedimentos forem inconstitucionais, as emrpesas começam a falir.
5) O Estado vai pagar subsídios de desemprego, tomar conta das emrpesas falidas e contratar funcionários públicos o que aumenta a despesa pública que tem que ser financiada com endividamento  externo crescente.
5) Se a economia não ajustar pelos salários, como não é possível um endividamento eterno, as pessoas vão ter que emigrar para o país B (onde a inflação sendo menor, a economia reage em sentido contrário).

Será que isto já aconteceu em algum lado?
Aconteceu e está a acontecer repetidamente em Portugal e um pouco por todo o Mundo. 
Por exemplo, entre 1960 e 2015 a população portuguesa aumentou 17% mas a população de Mértola diminuiu 75%. Em 1960 Mértola tinha 26026 habitantes e hoje tem 6750.
É que as pessoas em Mértola não estavam disponíveis para ter salários mais baixos que em Lisboa.

Fig. 2 - Mértola é muito bonita mas nunca lá estive.

Com a saída da Grécia não vai acontecer nada ao Euro.
Vai acontecer o mesmo que aconteceria se um país qualquer entrasse no Euro, nada.
Quando em 2001 a Argentina "quebrou" a associação com o Dólar Americano o que é que aconteceu ao Dólar? Será que o Dólar Americano acabou? Não me consta.
Vai passar a haver o risco de qualquer país sair do Euro mas esse risco é de cada país individual e não do Euro enquanto moeda. Esse risco de saída do Euro vai-se materializar em diferenças na taxa de juro de longo prazo, o que já acontece. Por exemplo, a dívida pública espanhola e Italiana a 10 anos paga  1,8% de taxa de juro e a dívida alemã paga 0,6%/ano (média de Maio 2015).

E poderá a Grécia continuar a usar o Euro?
Concerteza como Mértola sempre usou a mesma moeda que o resto de Portugal.
Se o BCE decidir manter a liquidez, nos próximos dias o sistema bancário vai acalmar passando a funcionar normalmente.
O governo poderá fazer mais despesa e contratar mais funcionários públicos (alegadamente pagos em Euros) desde que consigam cobrar impostos ou quem lhe empreste Euros. Como os gregos não vão aumentar os impostos (seria a tal Austeridade) e ninguém vai lhes vai emprestar Euros de forma voluntária, começarão a ser introduzidos "títulos de dívida convertíveis", TDC, para pagar parte da despesa pública, por exemplo, o salário é de 1000€/mês, a pessoa recebe 500€/mês mais 500€/mês em TDC que começará a ser utilizada como uma moeda local com câmbio flexível com o Euro.
Uma despesa pública que em condições normais custaria 1000€ vai custar 1500€ pois o governo vai pagar 750€ em notas e outros 750€ em TDC (supondo um câmbio no mercado negro de 1TDC = 0,33€).
Lentamente, a TDC entrará em circulação como moeda local havendo um mercado de câmbio. Se o governo teimar em aumentar a despesa pública e diminuir a receita fiscal, mais e mais TDCs terão que ser emitidos pelo que o câmbio com o Euro será cada vez menor. Assim, os salários vão descendo pois a metade em TDCs valerá cada vez menos.

Fig. 3 - És boa e eu queria dar uma volta nisso mas imagino que não aceites TDCs.

O TDC vai ganhar vida e, a prazo, haverá notas e moedas a dizer TDC.
Se o país A (a Grécia) não quiser resolver o problema dos salários em euros elevados, a prazo vai ficar sem a população que vai ter que emigrar para a Alemanha.
Se o país A (a Grécia) não quiser resolver o problema do défice público, terá que emitir mais e mais TDC e pagar uma percentagem dos salários nesta nova moeda o que, desvalorizando, fará diminuir os salários reais.
Mas, como observamos a crise em Mértola que já dura há mais de 50 anos, também veremos esse fenómeno no pais A.

O que é a democracia na óptica dos esquerdistas?
É o Syriza, com 2,25 milhões de votos, ter legitimidade democrática para desgovernar a Zona Euro que tem 334,57 milhões de pessoas.
Porque o Syriza foi eleito com votos correspondentes a 0,67% da população da Zona Euro, tem legitimidade democratica para dizer como deve ser governada a Zona Euro.
Bem, o Staline foi eleito com menos votos.
Que mandem lá na zonazinha deles.

E como estamos de pre----lhada.
Eu tenho observado coisas muito interessante.
1) Ainda não ouvi ninguém dizer que Portugal tem que receber os tais 3,52% dos imigrantes que chegam à Grécia, Itália e Hungria. Estão a chegar cerca de 2000 por dia pelo que deveríamos receber 70 por dia, 25 mil por ano.
2) Nenhum dos entrevistados diz "Eu atravessei o Mediterrâneo porque o meu sonho de sempre foi viver na Itália" nem "Eu atravessei o Mediterrâneo porque o meu sonho de sempre foi viver na Grécia" e muito menos "Eu atravessei o Mediterrâneo porque o meu sonho de sempre foi viver em Mértola."

Estão a ver onde eu quero chegar?
Eu estive a perguntar à minha empregada ex-ucraniana porque veio para Portugal. 
Porque, em 2001, constava que se viajasse para Portugal com visto de turista, se, uma vez chegando cá, conseguisse nos 30 dias arranjar emprego tinha logo um visto de residência. 
E assim foi. Em 2004 veio ela e o filho (com visto de turista).
Mas queria ir para Inglaterra mas não conseguiu visto.
Por mais refugiados que entrem na Europa, tendo liberdade de circulação, nem um quererá vir para Portugal.
Se não nos pomos a pau (literalmente) e "obrigamos" as portuguesas a ter filhos à força toda, quando eu passar a centenário (daqui a 50 anos), Portugal estará reduzido a 1 milhão de habitantes (e Mértola a 2 ou 3 velhotes).

Pedro Cosme Vieira.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Estará mesmo o desemprego abaixo do de Abril de 2011?

Esta semana estalou uma pequena polémica.
O Ministro Mota Soares, depois de um longo desaparecimento, veio dizer que hoje temos um número de desempregados inferior ao número que existia no dia em que o PS assinou o Memorando de Entendimento com a Troika (17 de Abril de 2011).
Foi objectivamente isto que o homem disse depois de ter passado uns longos meses escondido no mesmo lugar em que está o António Costa (está a pensar o que há-de dizer sobre a Grécia).
Claro que os esquerdistas do PS e mais vieram dizer que isso não passava de uma fábula.
 
Fábula?
Mas, sendo a fábula uma histórias em que as personagens são animais, então, os esquerdistas acham que o desempregados são animais!
Mas confesso que o meu primeiro pensamento foi "É impossível que depois de 4 anos de espiral recessiva, de destruição neoliberal, de empobrecimento e de austeridade pouco inteligente haja menos desempregados que em Abril de 2011, no fim de um período de 6 anos em que os esquerdistas do PS aplicaram as políticas de emprego e crescimento que dizem vir a ser, se vierem a ganhar as eleições de Outubro de 2015, o outro caminho que nos vai levar ao enriquecimento e à prosperidade (para o qual o Sócrates precisou de um massivo endividamento público e externo!).
 
Fig. 1 - O Mota Soares é o Varofáquis português mas em ponto pequenino (numa lambretazita).

Esta semana senti-me derrotado.
Tenho passado dias de grande angústia pois não quero aceitar que o Mota Soares meteu o pés pelas mãos (faltou à verdade) e os esquerdistas aproveitaram para, pela primeira vez na vida, dizer algo de verdadeiro.
Dei voltas e voltas na cama a tentar racionalizar o comportamento do Mota Soares. Será que o homem anda na lambreta sem capacete e, naquele dia, estava com a cabecinha sobre-aquecida por causa do Sol?
 
Hoje fui sem esperança, ver as estatístricas ao www.ine.pt.
Pensei que seria a minha derrota final.
Diz lá no INE que em Abril de 2011 havia 658,7 mil desempregados mas não tem dados para Junho de 2013. Os últimos dados que tem são 669,8 mil desempregados em Abril 2015, próximo do valor de 2011 mas acima.
Mas o Mota Soares falou em Junho de 2015 pelo que tive que espetacular como terá evoluído o desemprego em maio e em Junho para os quais não tenho dados.
 
A Ciência nunca diz "não sou capaz de dizer nada".
Para estimar o número de desempregados em Junho de 2015 peguei na série desde o valor máximo do desemprego ( 1 T 2013) e calculei a variação média mensal. Obtive -1,22%/mês.
  
Fig. 2 - Número de pessoas desempregadas (dados: INE)
 
Afinal, hoje há mesmo menos pessoas desempregadas do que havia em 2011.
Aplicando esta taxa de variação aos valores de Abril de 2013 obtenho 653,2 mil como o valor médio do número de pessoas desempregadas para Junho de 2015 (661,6 mil para Maio).
Se em Abril de 2011 havia 658,7 mil desempregados, hoje há menos  5,5 mil desempregados.
E, pensando que a saída do Euro da Grécia não vai ter impacto no nosso país, em Setembro de 2015, na véspera das eleições, haverá 630 mil desempregados, menos 23,2 mil desempregados que no dia da assinatura do Memorando.
 
Mas é uma "estatística rápida".
Então é preciso calcular uma medida do erro do estimador e, a partir dai, o grau de confiaça da estimativa.
Aplicando o estimador aos meses desde Abril de 2013 até Abril 2015, calculo que o erro padrão é de 18,5 mil. Este número indica que a probabilidade do INE vir dizer que o desemprego em Junho 2015 é inferior ao valor de Abril de 2011 é de 60%.
Vamos ver que já só faltam 2 meses para sair a estatística.
 
Não pode ser mas é.
Depois de 4 anos de austeridade, de espiral recessiva, de agenda neoliberal destruidora, posso afirmar com confiança de 60% que hoje há menos desempregados do que havia em Abril de 2011, no fim de um período de 6 anos de crescimento e glória em que os esquerdistas do PS tiveram a oportunidade e mão livre  para aplicar as políticas do "outro caminho" alavancadas no endividamento público e externo massivo, políticas que o Passos Coelho, no entretanto destruiu.

Mas a taxa de desemprego ainda está superior.
A minha "estatística rápida" aponta para 12,7% em Junho 2015 quando em Abril de 2011 era de 12,3%.
ainda são 4 décimas a mais mas em Setembro a coisa, em termos de taxa, já vai estar abaixo.
A diferença entre a evolução da taxa de do valor deve-se à diminuição da população activa em 200 mil pessoas (de 5355 mil para 5152 mil).
 
E como ficará a Grécia?
Vai borda fora.
Quando no dia 27 de Janeiro de 2015 a Grécia bloqueou o aprofundamento das sanções à Rússia por causa da invasão do Leste da Ucrânia, a Alemanha (em sociedade com a Polónia e o apoio do Reino Unido e de todos os demais países europeus que estiveram ocupado pela URSS) decidiram que a Grécia não tinha mais lugar dentro da União Europeia.
Agora vai borda fora da Zona Euro e, daqui a um anito, borda fora da União Europeia.
O Varufáquis e o Tsipras não compreenderam que tinham tocado o bicho alemão com uma vara demasiado curta.

Queriam 6 meses.
No dia 25 de Janeiro os esquerdistas gregos disseram que em 6 meses arrumavam a casa.
Que iam subir impostos e fazer as coisas necessárias mas de forma inteligente para equilibrarem as contas públicas e re-iniciarem o crescimento e o emprego de uma vez por todas.
E o que fizeram passados 5 meses?
Aumentaram a despesa pública e reduziram a receita fiscal.
E o que vão fazer nos próximos 3 anos e 7 meses?
Prometer uma coisa e fazer exactamente o seu contrário.

Agora, se se quizerem mesmo manter na Zona Euro. 
Têm que fazer aquilo que os comunas acusaram o Gasparzinho de fazer: só lhes sobra "ir para além da Troika" e falar com os "funcionários" da troika muito de mansinho.
Têm que se deixar dessa ilusão da renegociação, voltar a pegar no Memorando de Entendimento de 2012 (o segundo resgate grego) e dar-lhe cumprimento a 110%.

Mas será a dívida pública grega pagável?
Os esquerdistas dizem que não, dizem que 175% do PIB não se pode pagar.
Mas o Japão tem uma dívida pública de 238% do PIB e ninguém diz que não é pagável.
Em 1820 e em 1945 o Reino Unido tinha uma dívida pública na ordem dos 250% do PIB e conseguiu paga-la.
Se a Grécia tiver um superávite primário de 2,0% do PIB, o que não é nada da especial, poderá pagar toda a sua dívida pública em menos de 70 anos. O que é preciso é ter a vontade que parece que nunca tiveram.

Fig. 3 - Evolução futura da divida pública grega com um superávite primário de 2% do PIB e crescimento do PIB de 2%/ano

Mas isso de pouco interessa?
Alguém se lembra da dívida de guerra da URSS?
Depois a invasão alemã da URSS, os americanos forneceram pelo Corredor Persa, Ártico e Vladivostok bens no valor de milhares de milhões de dólares. Não só alimentos como camiões, aviões e todo o tipo de equipamento num total de 16,3 milhões de toneladas.
A URSS usou esse armamento não só para derrotar os nazis como para invadir a europa de Leste.
Alguma vez os soviéticos disseram que não pagavam?
Alguma vez os americanos mandaram a factura à URSS?
Alguma vez os soviéticos pagaram?
Nunca, nem um cêntimo.
E hoje ninguém fala disso.

Fig. 4 -  Não tires já que ainda tenho 150 trabalhos e 250 testes de GInf para ver.

Pedro Cosme Vieira

quarta-feira, 24 de junho de 2015

15 - A recusa

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (14 - A existência)    



15 – A recusa
A Maria Zé começou logo a tentar dar cumprimento ao que tinha prometido a Deus e, passado uns meses, a tentativa deu resultado: nasceu um menino que, por conselho da mãe, tomou o nome do seu irmão que tinha morrido no defumadouro, Simeão, para que nunca mais houvesse recordação dessa criança. Desta forma, o erro de Deus ficou anulado com a única diferença da criança ter ficado um anito mais nova. Dada a experiência de ter observado o desenvolvimento do Rúben, normal, e do antigo Simeão, doente, o desenvolvimento do novo Simeão foi fazendo com que a Maria Zé ganhasse confiança de que a sua criança tinha nascido livre da doença de forma que, quando, aos 4 meses, a tia Júlia apareceu para fazer o defumadouro, não houve qualquer drama. Mais tempo foi passando e nasceu a Raquel e, logo a seguir, a Sara, duas meninas cheias de saúde e de energia, nunca parando quietas. A vida estava muito difícil porque era preciso criar 4 crianças e 2 adultos com os 100€ por mês que o Francisco ganhava a trabalhar como pastor e mais algum rendimento que resultava das ovelhas e da agricultura de sobrevivência que a Maria Zé fazia no campo dentro do muro que lhe tinha sido atribuído e ao Francisco. Mas lá se iam aguentando e, afinal, já só faltava uma criança para cumprir a penitência.
Um dia de Verão nasceu mais um rapaz, o Levi, que seria o último da promessa. A Maria Zé ficou um pouco apreensiva porque a mãe tinha feito o mau presságio de que Deus, por ser brincalhão, ia voltar a atacar exactamente quando ela pensasse que já estava livre. E, realmente, aconteceu o pesadelo que lhe costumava perturbar as noites, no momento em que já via a porta de saída da prisão aberta de par em par, no último momento, quando um pé já quase estava fora, veio uma corrente de ar e a porta, muito lentamente como que levando a noite toda, fechou-se. O Levi chorava de mais e, cada dia que passava, parecia que ficava mais atrasado. O tempo foi andando até que, certo dia, aconteceu o que já estava planeado desde há anos, quando a noite já era fechada, o cão ladrou e bateram à porta “Maria Zé, sou eu, sou a Júlia, a tua tia”. A Maria Zé ainda estava a pé e o seu corpo estremeceu todo. “Ai meu Deus que ela vem para matar o meu Levi, o que é que eu posso fazer? Não lhe posso abrir a porta. Vou-me calar e manter a porta fechada”.
– Abre a porta mulher que fizeste o pacto comigo e com Deus e eu sei que estás ai porque tens a vela acesa. Abre a porta, cumpre a tua palavra, eu disse-te que o pacto era irrevogável e tu disseste perante Deus que o aceitavas. Agora não podes recuar.
A Maria Zé fez um sinal ao Francisco para que se calasse “Vai lá para o quarto que eu trato disto, a Tia Júlia quer matar-nos o Levi”. O Francisco era muito boa pessoa pelo que nem abriu a boca.
– Abre a porta mulher.
A Maria Zé aproximou-se da porta e, em voz baixa para que as crianças não acordassem, disse “Vá-se embora que eu sei que vem cá para matar o meu Levi, vá-se embora que eu amo muito o meu filho. Vá-se embora, desapareça da minha porta e nunca mais cá volte.”
Nesse momento o Francisco tomou parte na conversa, baixinho. Por ter uma fé cega e pretendendo honrar a palavra dada, ficou do lado da Tia Júlia “A tua Tia Júlia só vem cá fazer o defumadouro que nós próprios lhe encomendamos antes de nos casarmos. Não te lembras? Isso não é nada, deixa a mulher entrar que não vai resultar em nada. Temos que ter fé em Deus.”
– Cala-te que tu és um burro, não vês que ela vai matar a nossa criancinha? O Levi tem a doença, cala-te e vai-te deitar. – “Vá-se embora que eu não lhe vou abrir a porta”.
– Deixa-te disso mulher que não pode ser, fizeste o pacto, vais ter que o cumprir, custe o que custar.
– Vá-se embora, não me puxe para o inferno, vá-se embora senão saio aí fora e ainda a mato.
Por causa da discussão, o ladrar do cão foi-se tornando cada vez mais desesperado. A Tia Júlia não sabia mais o que fazer pelo que foi-se embora a falar sozinha “O filho não é meu, não sou eu que tenho que o criar, para que me vou aborrecer? Vou-me embora para a minha casinha onde estava tão bem e de onde nunca deveria ter saído” Lá foi aquele vulto escuro a caminhar no meio da escuridão total apenas iluminada por um pequeno lampião que segurava com a mão mas, pelo caminho, tendo passado pela casa da mãe da Maria Zé, a sua irmã Isabel, decidiu bater-lhe à porta para contar o sucedido.
– Isabel, Isabel, sou eu, a tua irmã Júlia, acorda que venho cá por causa da tua filha Maria Zé.
– Eu ainda estou a pé, já vou – ouviu-se de dentro da casa, um som abafado pelo ladrar do cão – já vou, aguarda só um minuto para eu destrancar a porta – e, realmente, passado um minuto, abriu-se a porta – entra, entra que a noite foi feita para as coisas que não podem andar de dia. Mas que te trás cá? Pareces aflita. Afinal qual é o problema com a minha filha?
– Venho agora de lá. Tinha combinado ir lá fazer o defumadouro ao Levi e ela não me abriu a porta pelo que, antecipo eu, já sabe que a criança nasceu com a doença. Disse mesmo que, se não me viesse embora, me matava. Eu já não tenho idade para me aborrecer com isso pelo que me vim embora.
– Mau, isso é muito mau, estou a ver que ela desistiu de lutar contra a maldição a que estamos condenados. Não, isto não pode ficar assim, nunca podemos desistir, temos que lutar sempre. Estou mesmo a ver que isto é Deus a querer brincar comigo, deu a volta à rapariga porque, quando foram os meus, viu que não me conseguia quebrar pelo que agora vai usar a minha filha para ver se eu tenho a fibra que sempre Lhe anunciei. Não pode ser, não vou quebrar agora, não, não, se dei cabo, quer dizer, resolvi o problema dos meus e eram meus, não é agora que vou deixar que a minha filha ponha tudo a perder. Não, vou eu mesma resolver isto.
– Mas o que podemos fazer?
– Eu vou resolver isto, deixa-me pensar. Como ela tem a porta trancada por dentro vou precisar de arranjar um estratagema para entrar, não vai poder ser à bruta. Já sei, vou buscar a mãe do Francisco que o vai chamar cá para fora e, depois de ele abrir a porta, eu entro.
– Mas ela é muito mais forte do que tu pelo que vai dar luta e tu precisas de liberdade de acção.
– Vou precisar de quem a agarre, já sei, vou chamar as minhas filhas que moram aqui ao lado, criei-as para alguma coisa. Vais também tu e vou ainda chamar as nossas irmãs que moram ali ao fundo da rua. Espera aqui um pouco que vou ver quem arranjo.
A Isabel lá foi apressada pela noite. Primeiro, bateu à porta das filhas que moravam mesmo ali ao lado, 3 mais os maridos e os 13 filhos, “Meninas, preparem-se que precisamos de ir a casa da vossa irmã Maria Zé que está passada da cabeça. Eu ainda preciso ir chamar a mãe do Francisco e venho já.” Depois bateu às portas das irmãs e, finalmente, à porta da mãe do Francisco que ficou muito preocupada e acedeu logo a fazer parte do ajuntamento “Já todas passamos por isso pelo que temos que nos ajudar umas às outras. O meu filho não tem estrutura para aguentar isto”. Passado uma meia hora, a Isabel já estava de volta a casa com as filhas, as irmãs e a mãe do Francisco. Com a Júlia, eram 8 mulheres.

– Meninas, vamos fazer assim, a mãe do Francisco chama o filho enquanto nós nos mantemos em silêncio. Depois, mal ele abra a porta, entramos, trancamos a porta para ele não ir em socorro da mulher e vamos todas directas ao quarto. Vocês amordaçam a Maria Zé enquanto eu retiro a criança do quarto e resolvo o problema. Amanhã de manhã, logo se vê no que deu. Estou a pensar e ainda preciso ir a casa buscar o xaile branco, eu tenho a fé que o xaile branco nos liga a Deus.

Capítulo seguinte (16 - A operação)

domingo, 21 de junho de 2015

14 - A existência

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (13 - O cortejo)    




14 – A existência
Como ficou combinado, certo dia o Padre Augusto voltou ao consultório do Dr. Acácio para trocar mais umas palavras sobre as mortes das crianças.
– Salve Sr. Dr., venho cá hoje para discutir outro problema que me confunde e que, no outro dia, não tive tempo para lho colocar. Como é possível que as pessoas façam um contrato para que “sejam devolvidos ao Pai do Céu” os filhos que nascerem com a doença e, depois de as darem ao mundo, resultar uma forte sensação de perda quando é executado o que tinham planeado? Pessoalmente, penso que isto não tem qualquer racionalidade, será que o Sr. Dr. vê alguma racionalidade neste sentimento de perda?
– Realmente nunca tinha pensado nisso, parece irracional porque o que nunca existiu deveria ser igual ao que existe mas que, no entretanto, deixou de existir. Mais neste caso mais é estranho porque o pais das crianças não queriam que elas chegassem sequer a nascer mas, mesmo assim, sentem a sua perda.
– Pois é exactamente isso que eu penso, a sensação de perda não é racional mas, então, porque sentem os pais essa perda? Será que as pessoas não são racionais ou será o efeito da alma da criança que, uma vez criada, nunca mais tem fim?
– Não, não, esta sensação de perda tem que ter alguma racionalidade à luz da evolução das espécies. Pode ser irracional em termos individuais mas tem que ter alguma racionalidade quando olhamos para o colectivo.
– Quer então o Sr. Dr. que isto será parecido com o Mandamento Crescei e Multiplicai-vos? Mas como pode existir uma razão na óptica do colectivo que é contrária à razão na óptica do individuo?
– Tem que ser semelhante à racionalidade da estratégia da abelha que morre ao ferrar o atacante. A abelha ao condenar-se a morrer, o que não será racional, consegue proteger o enxame.
– Sim, estou a compreender que um acto de heroísmo possa sacrificar o indivíduo para favorecer o colectivo mas não estou a ver como o desgosto poderá proteger o colectivo.
– Charles Darwin avançou a teoria que tudo o que existe hoje resulta de um longo de um longo processo de evolução e, por isso, os sentimentos que existem contribuíram no passado para que hoje estejamos vivos. A sensação de perda apenas será racional se contribuir para o aumento da capacidade de sobrevivência dos povos ao longo das gerações.
– Mas os outros animais não têm memória suficiente para conseguirem separar o que nunca existiu do que já não existe pelo que não estou a ver como esse sentimento nos pode ajudar.
– Bem, os ratos têm uma estratégia de sobrevivência totalmente diferente da nossa, enquanto que o ser humano tem poucos filhos a quem prestamos muita atenção, o rato tem 10 filhos por mês aos quais presta pouca atenção. Em todos os casos tem que ficar garantido que, geração após geração, o número de indivíduos não diminui.
– Mas esse exemplo é contrário ao que o Sr. Dr. pretende defender pois indica que os pais, desde que tivessem mais de 2 filhos saudáveis, não deveriam sentir a perda dos que morreram porque nasceram com a doença.
– Exactamente, mas o desgosto não vem da razão individual mas foi impresso na nossa mente ao longo dos milénios. Imaginemos as gerações que nos precederam ao longo dos milhares de anos e que viveram em tempos muito mais difíceis do que o actual. Se a mãe pensasse “a minha criança morrer é igual a nunca ter nascido”, à primeira dificuldade abandonava a criança à sua sorte até porque poderia sempre pensar que iria ter outra quando os tempos fossem melhores. Depois, como os tempos nunca melhoravam, o povo extinguir-se-ia. Por isso, todas as mães têm que ter um lugar especial para recordar os filhos que morreram.
– O Sr. Dr. está quase a convencer-me de que realmente esse desgosto é importante.
– É importante mas também pode ser contraproducente. Se essa recordação existe com o objectivo de melhorar a probabilidade de sobrevivência do povo, não pode passar a funcionar como um entrave a essa mesmo sobrevivência.
– Mas uma entrave como?
– Porque repetidamente há pais que usam este desgosto como argumento para não terem filhos. Argumentam que lhes causa grande desgosto ter filhos condenados a uma vida de perseguição, fome e miséria. Mas isso é errado pois seria equiparado a um rato não ter filhos para se poupar do desgosto de os ver, na grande maioria, comidos pelos gatos. No fundo, os pais têm que assumir que a sensação de perda é um sentimento que tem por fim a sobrevivência do povo e que, portanto, têm que o ultrapassar tendo mais filhos exactamente nos tempos mais difíceis. Mesmo que antecipem que os filhos vão sofrer, têm que os ver como uma obrigação que têm para com o futuro longínquo do seu povo e, quando digo longínquo, digo daqui a 10 ou 20 mil gerações, daqui a  centenas de milhar de anos.
– Sabe Sr. Dr. eu nunca tinha pensado que o nosso povo existir daqui a 10000 gerações está totalmente dependente do que a geração actual pensa quanto a ter filhos mas, realmente, se hoje não tivermos filhos por uma causa qualquer, seja a doença, a miséria ou as perseguições, o certo é nosso povo desaparecer.
– Exactamente, coloquemo-nos há apenas 120 gerações atrás, nesse tempo vivia-se a escravidão no Egipto. Hoje todos somos descendentes desses escravos. Será que algum deles antecipou que, lutando pela vida e fazendo o sacrifício de criar filhos, estava a permitir que nós hoje estivéssemos aqui?
– Não, concerteza que não, nunca o imaginaram, nem eu alguma vez imaginei isso, que tenho antepassados que fizeram parte dos escravos egípcios falados na bíblia.
– Se nos colocarmos 120 gerações atrás, temos não só antepassados que foram escravos mas também que foram reis, faraós e imperadores, que foram generais e que foram soldados, que foram conquistadores e que foram conquistados.

– Eu não imaginava essa lógica pelo que, quando recebi a inspiração de que a penitência a aplicar quando as mães matam os filhos deveria passar por mais filhos, estava mesmo a ser guiado pelo Espírito Santo. Realmente, tenho que continuar a perdoar esses defumadouros e a ajudar as mães a ultrapassar a perda que representa a morte das crianças pois é isso que, em termos de povo de Deus, faz sentido. No inicio das nossas conversas penso sempre que não vai ser possível fazer luz nas questões que me perseguem mas, no fim, saio daqui totalmente confortado. Mais uma vez, muito obrigado.

Capítulo seguinte (15 - A recusa) 

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Meu Deus! O Anti-cristo vai à frente

É isso mesmo, uma sondagem dá o PSD+PP à Frente.
Na noite da vitória do PS nas eleições Europeias, o Costa atacou o Seguro com o argumento de que, contra o governo mais austeritário dos últimos 40 anos, não bastava ganhar por poucochinho. Passado um ano e já sob o mando do Messias Costa, as sondagens dizem que o PS+PP está a ganhar por poucochinho.

Ganhar não interessa.
Segundo a Teoria do Costa nem sempre é bom ganhar nem é mau perder. O mau é ganhar por poucochinho.
Afinal, o Costa veio para salvar o PS da vitória do poucochinho e, ao mesmo tempo, condenar o PSD+PP a essa terrível sina, a sina de ganhar por poucochinho.

Fig. 1 - Meter um poucochinho é pior que não meter nada (Confúcio).

E o PS do Costa até está a melhorar.
É que o PS do Seguro, em 12 de Julho de 2014, teve uma vitória de 31,5% e, agora, o PS do Costa está com uma derrota de 37,0%.
Para o Costa ganhar com 31,5% é muito pior que perder agora com 37%. 
Se o Seguro teve uma vitória de Pirro, o Costa vai ter uma "vitória" moral.

Fig. 2 - Há 500 anos atrás, um tal PS teve tantas vitórias morais que o primeiro ministro de então, um desconhecido Passos Coelho, ficou lá até estar totalmente careca.

Vêm ai os mais longos 2,5 meses de sempre.
Quando em 25 de Janeiro de 2015 o Syriza ganhou as eleições gregas, o Galamba do PS ainda veio dizer que foi uma grande vitória da esquerda e daqueles que se iriam unir ao PS para bater o pé à Sr. Merkel e à Austeridade neoliberal. Seria o inicio do "outro caminho".
Para já a frente seria Holland + Tsipras + Costa mas, a prazo, mais esquerdista iriam entrar no "novo caminho", no "caminho do emprego e do crescimento".

Mas, no entretanto, o Galamba calou-se.
É que, com o passar dos dias, ficou cada vez mais claro que o Syriza era uma "bad bank." Que quem se colasse a esse Bloco de Esquerda grego ir-se-ia queimar e em grande.
No dia 25 de Janeiro eu previ que os 7,5 meses que faltavam para as nossas eleições legislativas seriam mais que suficientes para todos vermos que "o outro caminho" é o caminho da perdição.
Previ então que era tempo de mais para o Costa fazer de morto e, realmente, estes últimos 5 meses foram -se tornando cada vez mais pesados.

O Costa não vai chegar ao dia das eleições.
Prevejo que os próximos 2,5 meses que faltam até às eleições legislativas, sondagem depois de sondagem, vão ser de tal dureza que o Costa não vai resistir.
Agora é apenas uma derrota que não presta por ser a primeira sondagem, uma derrota poucochinha, mas, depois de a Grécia bater com a cornadura na parede, o PS vai-se começar a afundar e o Costa não vai resistir.
Até prevejo que, no entretanto, o Mário Soares vá bate a caçuleta.

Más notícias de um lado, boas notícias do outro lado.
De um lado vêm as notícias da Grécia que, desde que o Syriza entrou, a recessão voltou, o desemprego voltou a crescer e, do lado de cá, os indicadores trazem notícias totalmente ao contrário.
Uma das boas notícias, diz o Piris de Lima eo Paulo Portas, é o crescimento das exportações.
De facto não estão a crescer astronomicamente como o Pires de Lima anuncia, estão a crescer 3,5%/ano, na tendência anterior à Crise do Sub-Prime de 2008, o que é uma "vitória de Pirro". 

Fig. 3 - Exportações portuguesas mensais (dados: www.ine.pt)

Vitória boa são as importações.
O Pires de Lima e o Portas não falam disto mas isto é que é muito importante.
É que os bens que exportamos têm muitas importações incorporadas. Exportamos gasolina e plásticos mas precisamos importar petróleo. Vendemos sapatos mas temos que importar pelarias.
Então a muito boa notícia: no tempo do PS, por cada euro de exportação importávamos 1,65€ de bens. Agora, por cada euro que exportamos já só importamos 1,20€ de bens.
Apesar de ainda parecer mau (ainda importamos mais 20% do que exportamos), está muito melhor e, depois, temos as contas do turismo e as transferências dos emigrantes que mais que compensam esta diferença (a soma das parcelas todas dá a Balança Corrente que está positiva em 25€/mês por pessoa).
Deus ajude a alma do Costa pois, na Terra, o homem está perdido.

Fig. 4 - Importações por cada euro de exportações (dados: www.ine.pt)

Pedro Cosme Vieira

quarta-feira, 17 de junho de 2015

13 - O cortejo

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (12 - O foral)    


13 – O cortejo
A Maria Zé chegou a sua casa acompanhada pela mãe pouco passava das 15h quando a Sr. Celeste e a Menina Dulcinha já tinham tudo preparado. Depois de terem retirado os bancos da sala para que coubessem mais pessoas, forraram as paredes com um pano branco, fininho como gaze. Colocaram a mesa no meio da sala que usaram para pousar a urna com a criança morta. No fundo colocaram flores. Contrariamente ao que era normal, a criancinha estava na urna deitada de lado, disposição criada pela Dulcinha para dar mais visibilidade às asinhas brancas que a criança tinha nas costas e que saiam parcialmente da urna. Lá fora estava a mesa da cozinha mas, desta vez, coberta com uma toalha branca de linho que a Dulcinha tinha trazido. Estavam lá várias travessas com pataniscas de bacalhau, broa cortada em fatias e malgas para que as pessoas pudessem beber vinho ou limonada.
– Menina Dulcinha, boa tarde, isto está muito bonito, está melhor do que no funeral das minhas criancinhas, ainda era a sua falecida mãezinha a fazer os funerais. Aquilo é que era uma boa pessoa, quando chegou ao fim ainda perdava pelo menos metade do preço dos funerais, também éramos tão pobres ...
– Boa tarde Sr. Isabel, o seu netinho morreu mas eu fiz o possível para que ficasse bonito como quando estava vivo. Tenho a certeza que Deus o recebeu no Céu e fez dele um novo anjinho.
– Pois foi, agora já disse à minha filha que a única forma de esquecer esta tristeza é ter outro e andar com a vida para a frente.
No entretanto, começaram a chegar as pessoas. Vieram irmãos, cunhados, sobrinhos mas a maior parte eram primos, naquela terra parecia que todos eram primos de todos. As pessoas entravam na sala, olhavam para a criança, benziam-se e tornavam a sair para comer uma patanisca, beber um pouco de vinho e dar dois dedos de conversa. “Coitadinho mas foi a vontade de Deus” era a frase que mais se ouvia como se a morte fosse algo banal. Mas também havia quem dissesse “Custa muito ver um filho morrer mas a gente acaba por ultrapassar isso”. Depois começaram a chegar as crianças, primeiro uma, depois outra e mais outra e, passado pouco tempo, já lá estava uma pequena multidão, talvez umas 30 crianças que, seguindo as ordens do Dr. Acácio, não puderam entrar na casa “para evitar os contágios”. Eram os primos em grau diverso que tinham aparecido com o incentivo extra da limonada e dos bolinhos de mel prometidos pela Dulcinha. Além do mais, as crianças gostam do espectáculo, depois de vestidas com as capinhas brancas forradas a penas que a Dulcinha tinha, formavam com os adultos vestidos com as capas vermelhas da confraria, um contraste de grande beleza cénica.
Quando pouco faltava para as 17h, o Padre Augusto apareceu vestido com a alva, toda rendada como se fosse uma combinação de mulher, sobre a batina preta e acompanhado pelo Sr. Mariazinha vestido com a capa vermelha da confraria e que trazia a caldeirinha com a água benta, a sineta e a cruz. Assim que chegou disse “Dominus vobiscum” a que os presentes responderam “Et cum spíritu tuo”. Depois, entrou na sala, pegou na caldeirinha e, com o aspersório, espalhou água benta pela urna e espaço envolvente repetindo “Dominus animam tuam in cælum” a que as pessoas respondiam “Amen”. Depois, benzeu-se “Levantemos a urna”.
O Sr. Costa que entretanto chegou pegou na tampa, pousou-a sobre  o caixão e pregou-a. Normalmente, o caixão era reaberto no momento do enterramento mas, neste caso, já ia definitivamente pregado porque “O Sr. Dr. Acácio disse que, uma vez saído de casa, o caixão não poderia mais ser aberto”.
Se fosse um adulto, seria usada uma carroça mas, como era uma criança pequenina, seria levada por 4 pessoas numa padeola, duas a pegar à frente e duas atrás. Quando o caixão saiu, começou a formar-se a procissão fúnebre. À frente ia o Sr. Mariazinha com a sineta na mão direita, sempre a tocar, e a caldeirinha na esquerda, depois ia o Sr. Padre com a cruz que segurava com as duas mãos, logo seguido pelo caixão e, finalmente, seguina as pessoas, primeiro as crianças com a capa branca ladeadas pelos homens da capa vermelha e, depois, as mulheres e o resto dos homens que não tinham capa.
O cortejo teve que se aperta para caber pelos becos da aldeia que foi necessário percorrer até chegar à Igreja que era insuficiente para abrigar todas as pessoas pelo que a maioria ficou cá fora, no pátio que circundava o templo, meio a conversar, meio a rezar “Pela alma do anjinho”. Latinorium para aqui, latinorium para ali e tornou a sair toda a gente como se tivessem entrado por engano. O cortejo tornou-se a formar para rumar ao cemitério que ficava fora do muro que cercava a aldeia mas, agora, já só formaram as criancinhas e as pessoas que tinham a capa vermelha pois as outras foram à sua vida.
O cemitério era fora do muro que circundava a aldeia, a uns 200m metros de distância. Tinha a forma de um quadrado com 100 m de lado e era cercado por um muro alto, com 2 metros de altura que tinha apenas uma porta virada para o caminho que saia da aldeia. A procissão demorou uns 10 minutos a percorrer a distância que mediava entre a igreja e o cemitério e, quando chegou ao seu destino, o dia estava quase a terminar “Rápido, que é preciso enterrar a criança antes que o Sol se ponha” disse o Sr. Mariazinha que tinha, depois do almoço, aberto meia campa e preparado tudo para o enterramento.
“Vem ali o polícia Vieira” – disse em voz baixa a Menina Dulcinha ao Sr. Costa, seu pai. “Deixa-o vir”. O polícia não era bem querido na aldeia porque, além de não ser uma pessoa dali, gostava de inventar multas e problemas com o único fito de receber umas prendazitas. Assim que chegou à beira das pessoas começou logo a falar em voz alta.
– Parem o enterramento. Sr. Costa, é preciso que abra o caixão para eu ver o estado do cadáver que isto cheira-me a esturro.
– Boa tarde Sr. Polícia Vieira, ao menos boa-tarde, não me custava nada abri-lo mas tenho aqui o atestado do Dr. Acácio a dizer que a criança morreu de tifo e, por haver perigo para a saúde pública, o caixão não pode ser aberto. Veja aqui, veja a cópia do atestado e o original da autorização oficial para o enterramento. Esta autorização veio do seu posto da polícia, veja que está assinada pelo oficial de serviço e tem o carimbo do Sr. Arquiduque. Mas o Sr. polícia faça o favor de ir ali falar com a minha filha que foi quem tratou da papelada...
O Polícia Vieira, enquanto lia os papeis, começou a dirigir-se para a Dulcinha que estava à porta do cemitério a falar com umas pessoas.
– Menina Dulcinha, precisamos de falar em particular, venha aqui se faz favor.
– Sim Sr. Comandante, passa-se algum problema com a papelada? É que fui eu quem foi tratar disso tal e qual como aprendi com a minha mãezinha que Deus lá tem e penso que não há nenhum problema.
– Com esta gente nunca se sabe o que vai sair, são piores do que os gatos. Têm filhos atrás de filhos e, quando lhes dá na cabeça, não se acanham nada em os matar com as próprias mãos. São como os animais.
– Não diga isso Sr. Comandante que somos todos criação do mesmo Deus. Mas tenho aqui uma coisinha para o Sr. Comandante tomar um café – a Dulcinha foi ao porta-moedas e retirou uma nota de 10€ – tome lá Sr. Comandante que o Sr. também se cansou a vir cá e, como vê, os papéis estão todos em ordem.
– Isto tem aqui umas coisitas que davam para uma multa mas hoje, por estar bem disposto, vou deixar a coisa passar.
O polícia virou costas e, sem mais nada dizer, foi-se embora com cara de poucos amigos. A Dulcinha olhou de longe para o pai e fez um sinal com a mão a dizer que o enterramento poderia continuar.
Passaram duas cordas pelo caixão de forma a que fosse possível descê-lo até ao fundo da cova que tinha 7 palmos de profundidade. Assim que retiraram as cordas, o Mariazinha pegou na pá e tapou-a a toda a velocidade. Estava tudo terminado. Aquele que tinha sido deixou defenitivamente de o ser.
– Paz à sua alma.

Capítulo seguinte (14 - A existência) 

terça-feira, 16 de junho de 2015

O sucesso dos últimos 4 anos

O Cavaco está com o gás todo.
O Ex.mo Sr. Presidente da República Portuguesa (o respeitinho fica bem) foi à Bulgária dizer que "há regras que não podem deixar de ser respeitadas, há procedimentos que todos têm de seguir e não podem ser abertas excepções para nenhum país" o que foi uma marretada de todo o tamanho na cabeça do Varoufakis (e na do nosso António Costa).
Mas será que os nossos últimos 4 anos foram mesmo de sucesso?
Aqui deixo a entrevista que dei a uma aluna de um curso pós-graduação em jornalismo (Sara Silva).
Um balanco do ajustamento da economia Portuguesa 2011-2015
14 de Junho 2015
Entre 2005 e 2011, 6 anos de governação socialista, a nossa economia viveu com um enorme desequilíbrio face ao exterior. Assim, neste período cada português endividou-se 150€/mês face ao exterior, uma família típica de 4 pessoas endividou-se em quase 45 mil €. Este endividamento entrou na nossa economia pelo défice público e pelo crédito bancário à habitação. Naturalmente que o endividamento massivo nos dava uma sensação de riqueza que não existia mas que era insustentável porque dependia de um crescente endividamento externo. Em 2011, tornou-se obrigatório dar inicio a um processo de ajustar da nossa economia que teve que passar pela adequação do nosso nível de consumo à nossa capacidade produtiva.
Decorridos 4 anos esse ajustamento foi um sucesso porque, começando com um défice externo de 150€/pessoa, no primeiro trimestre de 2015 a nossa economia conseguiu um superávite de 25€ por pessoa.
Tudo o resto que se discute na comunicação social como o ajustamento do défice público, as privatizações, a reforma da Segurança Social, apesar de mais apelativo, são marginais relativamente ao que era imprescindível fazer e que era o terminar do constante aumento do endividamento externo.
Será que havia alternativa ao ajustamento denominado por “Austeridade”? Não porque o financiamento externo acabou em meados de 2010. Se houvesse alternativas o Eng Sócrates não teria, em princípios de 2011, cortado em 10% os salários dos funcionários públicos nem o Prof. Teixeira dos Santos teria pedido ajuda às instituições europeias e ao FMI.
Fig. 1 – Evolução do nosso endividamento face ao exterior 2005:2015.
Acabou a entrevista.
O que irá agora acontecer à Grécia?
O Estado Grego vai deixar de pertencer à Zona Euro mas isso não quer dizer que os gregos deixem de pertencer. Tudo indica que vai ser adoptado um roteiro semelhante ao que eu sempre defendi (ver) acabando a Grécia no estado actual do Kosovo (circula lá o euro mas não têm voto no BCE nem a dívida pública do Kosovo é aceite como garantia).
Como vai ser o terceiro memorando.
1) As instituições europeias irão garantir, sem acordo do Estado Grego, que os depósitos bancários continuarão denominados em euros (no caso de um banco se tornar insolventes, até 100 mil €).  
2) O Estado terá que se amanhar como puder. Se quiser contratar mais funcionários públicos, subir pensões, abrir canais de televisão pública, etc., terá que arranjar forma de o pagar. Se quiser aumentar o Salário Mínimo para 50000€/mês, que aguente com os subsídios de desemprego como puder.
3) As dívidas do Estado Grego aos privados, hoje, a dívida a 10 anos está a ser transaccionada a 0,33 (por cada 1,00€ de dívida, as pessoas estão a aceitar 0,33€) o que traduz que vai arder na grande medida.
As dívidas às instituições vão ficar congeladas mas a capitalizar juros até um futuro em que a Grécia tenha mais condições de a pagar.
Estará a economia Grécia assim tão mal?
Não.
Realmente em 2008, a Grécia endividava-se face ao exterior em cerca de 15% do PIB (e nós em 10% do PIB) mas, desde meados de 2012, a sua economia está equilibrada face ao exterior (linha a vermelho da Fig. 2). Em 2013 tem um superávite de 0,6% do PIB e 0,9% do PIB em 2014 (Portugal teve 1,4% e 0,6%).
Assim, apesar de a Grécia ter uma taxa de desemprego muito elevada pela má cabeça de não quererem descer os salários nominais, o ajustamento face ao exterior foi um sucesso.

Fig. 2 – Evolução do endividamento grego face ao exterior 2005:2015 (a linha a vermelho traduz o equilíbrio).

A saída grega do Euro não será nenhuma catástrofe.
Como as contas com o exterior estão equilibradas, se o governo não seguir a ideia do Mugabe ou do Maduro de que o défice público e o salário mínimo resolvem os problemas da economia e que isso pode ser financiado pela emissão de moeda, não vai acontecer à Grécia nada de extraordinariamente mau.
E a nós, depois de uns dias de mar bravo, vamos voltar ao normal.

Pedro Cosme Vieira

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