sexta-feira, 19 de Setembro de 2014

Os migrantes, a concorrência e o comércio

A Europa está a sofrer uma invasão. 
Todos os dias ouvimos nas notícias que milhares de pessoas se metem em barcos sem qualquer capacidade de navegação e fazem-se à Europa. Naturalmente, centenas delas acabam afogadas.
Também vemos imagens de centenas de pessoas a tentar saltar o muro que bordeja Ceuta (que já foi nossa).
Mas porque será que isto está a acontecer?

A explicação parece simples.
É que há países onde o saldo populacional (diferença entre nascimentos e mortes) é muito elevado e, em simultâneo, o nível de vida é muito baixo. Pegando apenas em 10 países que nos estão mais próximos, cada ano nascem mais 11 milhões de pessoas do que as que morrem e o nível médio de vida é de apenas 1/4 do português (Ver, fig. 1). 

Mas em Lisboa não se consegue viver bem com 4800€/mês.
Considerando apenas a Etiópia e a Eritreia, há um "excesso" anual de 2,5 milhões de pessoas que, no seu país, têm um rendimento médio de apenas 4,5% do rendimento português. Quer isto dizer que, se em Portugal vivemos com um salário médio nas ordem dos 900€/mês, nestes países têm que viver com um salário médio na ordem dos 40€/mês, já corrigido das diferenças de preços (em termos de Paridade do Poder de Compra). 
Bem sei que um burguês disfarçado de comuna (o Marinho e Pinto) diz que para viver bem em Lisboa são precisos mais de 4800€/mês líquidos. Com esta honestidade, este homem ainda vai chegar a primeiro-ministro antes do António Costa e pelo PCP. 

Fig. 1 - Comparação do nível de vida português com o de alguns países próximos (Dados: Banco Mundial, médias de 2010-2012)

 Mas não há barcos a caminho do Golfo Pérsico.
A Arábia Saudita, Kuwait, Qatar, Emirados Árabes Unidos têm um nível de vida superior ao europeu e, mesmo assim, não há barcos cheios de desgraçados a tentar desembarcar nas suas costas. E a Etiópia está muito mais próximo do Golfo que da Europa.
Se calhar, não é a diferença nos níveis de vida per si que justifica haver tantas pessoas a morrer no Mediterrâneo. Deve ser outra coisa qualquer.

A razão não está no rendimento mas na estado social e no salário minimo.
Os países mais pobres são mais pobres porque as pessoas produzem menos.
E produzem menos porque têm baixas qualificações, biaxo nível tecnológico e não existe capital.
Vamos supor que, de repente, nós investíamos na Etíopia. Claro que esse investimento iria induzir um aumento na produção de cada etíope mas, como o nosso capital precisava ser remunerado, o rendimento do etíopes não aumentaria significativamente. 
Se a tecnologia e o capital forem remunerados de acordo com o seu contributo para a produção, um etíope terá sensivelmente o mesmo salário na Europa que tem na Etiópia.
O problema é pagarmos mais que o salário de equilíbrio além de o nosso "estado social" subsidiar os que conseguem chegar cá mas não se importa com os que ficam lá. 

Um colega meu estudou este assunto (o Américo).
Construiu um modelo em que deu ao capital o nome de Terra, à remuneração do capital a Renda e o Salário  a diferença entre a produção e a renda.
Vamos imaginar uma situação em que há uma quantidade fixa de terra, 10 arrendatários e que a renda da terra é de 10% do que produzem. Vamos ainda imaginar que existem etíopes disponíveis, tantos quantos quisermos desde que o salário se«ja maior que  30 €/mês.
O aumento do número de pessoas faz aumentar a produção e a renda (em precentagem e em valor) mas faz baixar o salário até que atinge o valor de reserva dos etíopes (de 30€/mês). 
Agora vamos imaginar que as 10 pessoas iniciais são trabalhadores portugueses. Como o seu salário baixa, é preciso cobrar um imposto aos donos da terra para compensar essa perda. Se inicialmente a entrada dos emigrantes vai reduzir a renda líquida da terra, quando entram muitas pessoas (mais de 15 e menos de 39) já ficam todos melhor, incluindo os trabalhadores e os etíopes.

Fig. 2 - A entrada de imigrantes aumenta a produção e a remuneração do capital mas baixa os salários (das actividades em concorrência mas aumenta o das complementares)

No Golfo Pérsico.
Nesses países existem os nacionais que estão protegidos pelo "estado social" e os estrangeiros que são   mão-de-obra contratada no mercado internacional ao preço de concorrência. 
Vamos supor um empreiteiro que precisa de 5000 trabalhadores para construir uma estação de liquifação de gás natural. Primeiro, faz prova de que é um tipo de trabalho que não se adequa aos sauditas. Depois, vai à India, ao Nepal, ao Bangladesh, à Etiópia, à Eritreia, ao Egipto ou ao Sudão e contrata 5000 trabalhadores ao  salário de mercado. É tudo uma questão de oferta e de procura. 
Apesar de um saudita ganhar 5000€/mês, o empreiteiro vai conseguir contratar trabalhadores por um salário de 150€/mês.

Mas isso é uma exploração!
Os esquerdistas dizem que pagar aos imigantes um salário na ordem dos 150€/mês quando pagam 5000€/mÊs aos nacionais é uma exploração. Mas  não se preocupam nada que essas mesmas pessoas estejam a ganhar nos seus países ainda menos. 
As opções morais têm sempre que ser tomadas tendo em consideração as alternativas. 
Primeiro, os etíopes e eritreus vão voluntariamente para a Arábia e podem ir embora quando bem o entenderem. Então, temos que comparar duas situações:
     H1 => Um saudita ganha 4000€/mês e um etíope (a trabalhar na Etiópia) ganha 40€/mês.
     H2 => Um saudita ganha 5000€/mês e um etíope (a trabalhar na Arábia) ganha 150€/mês.

O que será melhor para os etíopes?
Concerteza que é H2 e por isso é que vão voluntariamente para lá. 
No fundo, o discurso esquerdista é um discurso hipócrita. Se for lá longe, lá na terra deles, até podem morrer de fome mas aqui, perto de nós, não os queremos explorar.

Nós podíamos receber um milhão de imigrantes.
Estes imigrantes seriam o motor não só de uma agricultura de mão de obra intensiva mas também iriam dar mais musculo à nossa industria tradicional. Claro que as pessoas estão a pensar que os nossos sectores tradicionais como o textil, o vestuário, o calçado, o mobiliário, estão aperder postos de trabalho. Mas se inundassemos esses sectores com salários de 150€/mês, passaríam a ser muito mais competitivos e, desta forma, ganharíam rapidamente cota de mercado nos países europeus. 
No final poderíamos ter ocupação para a nossa mão de obra cada vez mais escolarizada e preparada e ajudar esses países menos desenvolvidos. 

E acabávamos com os afogamentos.
1 => Permitir a permanência na Europa dependente do contrato de trabalho. 
O empregador procurava por esse mundo fora um trabalhador e assim que o contratasse ele poderia entrar em Portugal. O empregador teria que prestar uma caução com o valor da totalidade dos salários mais a viagem de volta. 

2 => O imigrante teria que manter a ligação à comunidade de origem.
Uma forma de garantir esta condição seria adoptar o exemplo da Suíça, limitar a duração do contrato a um máximo de 9 meses em cada ano. 

3 => O salário, horário de trabalho e demais condições de trabalho seriam livremente negociados entre as partes, em concorrência com o resto do mundo.
Também se poderiam-se impor condições mas pouco exigentes, por exemplo, um salário mínimo de 1,00€/hora e, no máximo, a pessoa poder trabalhar 100h/semana.

As migrações e o comércio internacional.
Se o salário pago traduzisse o contributo do trabalhador para a produção, a pressão demográfica diminuiria porque o salário de um trabalhador particular seria quase igual nos diversos países do mundo. 
Neste caso, o comercio internacional substitui o movimento das populações. 
Em vez de a Alemanha ter lá portugueses a produzir carros, é melhor trazer as fábricas de carros para Portugal e importar os carros.
Se abrirmos as fronteiras ao comercio, haverá muito menos pressão para que as populações se movam. 
Pensemos nos romenos. Antes de entrarem na UE pensava-se que nos iriam invadir. Realmente nos primeiros anos esse fenómeno aconteceu um pouco mas, com a liberdade de comercio, as pessoas ficaram lá.

Faltam os não transaccionáveis.
Há bens que não se podem transportar e que, por isso, não podem ser produzidos nos países pobres.

A venda do Novo Banco não terá perdas.
O Horta Osório afirmou que a venda do Novo Banco vai ter perdas para os bancos a operar em Portugal mas não vai haver.

Vejamos porquê.
Vamos supor hipoteticamente que o Novo Banco vale 900 milhões € e que, tal como o BIC comprou o BPN, aparece alguém que oferece esses 900M€.
Neste caso, os bancos a operar em Portugal terão que assumir um prejuizo de 4000M€. Então, é melhor oferecerem os 4900M€ que é um preço imbatível e digerirem em si o Novo Banco (liquidarem). Apesar de terem, de facto, prejuízo, a prazo têm menos prejuízo que no caso de deixarem que o Nova Banco seja vendido porque retiram um concorrente do mercado.

Fig. 3 - Tínhamos a nossa roupa toda depositada no Novo Banco

Na Ébola, infelizmente, começam a dar-me razão.
Em Portugal existem muitas pessoas que acreditam em maus olhados, bruxedos e outras crendices.
Não há pessoas que acreditam que foram os americanos que mataram o Hugo Chaves com cancro? 
Agora imaginemos as pessoas africanas. Muita gente de lá muita gente pensa que são os Médicos sem Fronteira que andam a matar as pessoas. 
Com uma evolução que considero optimista (fim da doença em 31 de Março de 2015), vamos chegar ao fim do ano com 50 mil casos e teremos um total de 100 mil casos até ao controle total. 

Fig. 4 - Evolução da taxa de crescimento dos casos da Ébola e possível evolução (optimista)

Mas não estou nada optimista. 
Nem eu nem a ONU que declarou ontem a Ébola como uma ameaça à paz e à segurança mundial (ver).
Cada 3 semanas, duplica o número de casos.
Se demorar um ano a controlar a doença, teremos 1 milhão de casos.

Pedro Cosme Costa Vieira

domingo, 14 de Setembro de 2014

A pensão dos homens e das mulheres

Sendo o Portuendes um comentador habitual, tenho que responder à sua questão. 
Sabendo nós que os anos de trabalho e os anos de reforma devem conformar-se com a esperança média de vida , haverá algum dia em que a separação óbvia entre homem e mulher será realizada?

A esperança de vida.
Todos os pares de anos o INE compila a idade das pessoas que morrem na Tabela de Sobrevivência. 
Com os dados é fácil calcular a idade média das pessoas mortas. É este número que se usa como a Esperança Média de Vida à Nascença.

Quem nasce hoje vai viver mais anos.
Porque a idade média usa pessoas que nasceram há muitos anos para trás. como de ano para ano a média da idade dos mortos aumenta, naturalmente quem nasce hoje vai durar muito mais.
Como nos países da OCDE cada ano que passa a idade média de morte avança 0,2 anos, mantendo-se esta regularidade, quem nasce hoje num países desenvolvido vai, em média, morrer aos 96 anos (não vindo a Ébola por aí fora). 

Quem nasce hoje tem que trabalhar mais.
Assumindo que precisamos trabalhar metade da vida, se cada ano as pessoas vivem mais 0,2 anos, é preciso que a idade de reforme também aumente cada ano 0,1 anos.
Alguém que tenha hoje 30 anos, vai ter que trabalhar até aos 65 + 35*0,1 = 68,5 anos de idade.
Alguém que nasça hoje vai ter que trabalhar até aos 65 + 65*0,1 = 71,5 anos de idade.

As mulheres duram mais que os homens.
Sim, é verdade. Nos países da OCDE as mulheres duram mais 6 anos que os homens pelo que, aparentemente, é uma injustiça termos todas a mesma idade de reforma.
Pegando nos dados da tabela de sobrevivencia 2000-2002, os homens deveriam-se reformar 3 anos mais cedo que as mulheres. Os homens deveriam trabalhar até aos 63 anos e as mulheres até aos 65 anos.
Em alternativa, os homens deveriam ter a sua pensão majorada em 25%.


As reformas deveriam sofrer uma reforma.
Deveriam ter uma parte assistencial do tipo do Rendimento Mínimo.
Deveria ter uma parte que resultasse da capitalização dos descontos (da TSU)
Deveria ter uma parte de Seguro de Vida (cobrir o risco de invalidez).
E, sem qualquer dúvida, as mulheres deveriam receber uma pensão menor que os homens (ou trabalhar mais 3 anos).

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 12 de Setembro de 2014

Umas respostas a umas perguntas

O Ricardo Mendes costuma-me fazer "off-line" umas perguntas interessantes para partilhar com os demais amigos que seguem o meu blogg.
Algures nas centenas de posts que eu já escrevi, sei que já falei nisto mas nunca é demais repetir estes assuntos porque existe uma confusão nos media sobre estas coisas.

Mas primeiro, vamos à grande verdade: "se pegássemos em todos os economistas do mundo e ligássemos cabeça de cada um aos pés de outro numa fila bicha, não iam parar a lado nenhum".
Mas temos que reconhecer que hoje se vive muito melhor do que se vivia há 50 anos atrás e isso resulta do conhecimento, seja da engenharia, da medicina, da enfermagem, da história ou da economia.

1 Para que servem os bancos comercias?
Servem, principalmente, para intermediar entre poupadores e gastadores. 

As pessoas poupam para 1) pretendem comprar no futuro um bem valioso; 2) têm medo de, no futuro, terem um necessidade ou uma quebra de rendimento; 3) quando formos velhinhos o nosso rendimento vai ser melhor.

As pessoas pedem emprestado porque 1) pretendem comprar agora um bem valioso para o qual não têm dinheiro; 2) aconteceu um imprevisto de que resultou uma necessidade ou uma quebra de rendimento; 3) são jovens e precisam de dinheiro para estudar; 4) um empreendedor tem uma ideia que precisa de financiar.

Agora vêm os bancos comerciais.
Se eu preciso poupar, ao emprestar a uma pessoa concreta passo a viver o risco de nunca vir a receber esse dinheiro. 
Os bancos comerciais, por terem muitos devedores, conseguem compensar os que bancarrotam com os que pagam bem. Vamos supor que 1% das pessoas não paga o crédito. Então, basta uma diferença de 1% entre a taxa de juro que paga aos depositantes e a taxa de juro que cobra aos devedores para que esse risco seja anulado.

Vamos aos automóveis
O Ricardo é mecânico de automóveis. Os bancos "era como se existisse um intermediario entre mim e o meu cliente ... [que cobraria] uma comissão." 
Vamos imaginar, como acontece nos empréstimos, que o orçamento do carro era sempre o mesmo valor, por exemplo, 10% do valor de mercado. Agora, um mecânico particular com apenas alguns concertos por mês para fazer, passaria a correr um rico muito grande de ir à falência. Tal como fazem os seguros (contra a quebra de vidros ou reboque), mediante um pequeno pagamento, o intermediário compensaria os prejuízos com os lucros, retirando o risco aos pequenos mecânicos.

Porque o Estado americano interveio na GM?
Primeiro, os governantes são eleitos pelos votos dos eleitores. Se as sondagens disserem que a maioria da população quer uma intervenção, os governantes podendo, são "obrigados" a fazer essa intervenção.
Segundo, normalmente, a taxa de juro a que os estados se consegue financiar é muito menor que a taxa de juro que as empresas conseguem. Então, há negócios que são viável com intervenção pública e não o são se forem deixados à sua sorte.
Terceiro, há empresas que têm um impacto positivo na sociedade que, pelo menos no curto prazo, são dificeis de substituir. 
Mas a regra que leva, no longo prazo, a crescimento económico e melhoria das condições divida das pessoas, é deixar falir as empresas que não financiar-se no mercado. Mas todos os países têm que adoptar esta regras pois, caso contrário, haverá problemas.

 Para que serve a taxa de referencia do banco central?
O banco central tem como única função controlar o nível de liquidez na economia (a quantidade de notas em circulação) o que é conseguido observando a taxa de inflação. 
Se a taxa de inflação for baixa, é preciso aumentar a liquidez e, caso contrário, diminuir a liquidez.
A principal forma de aumentar a liquidez é imprimir notas e entrega-las ao governo para que gaste esse dinheiro (o governo passará a cobrar menos impostos que a despesa). Para diminuir a liquidez é rpeciso que o governo entregue notas ao BC que as distroi (o governo passará a cobrar mais impostos que a despesa).
Mas o BC tem outros instrumentos para actuar no curto prazo.
A taxa de desconto é uma forma de actuação de curto prazo: se a taxa diminuir, passará a haver mais notas em circulação e, se aumentar, passará a haver menos notas.
O lucro do BC com a emissão de novas notas e as taxas de juro que cobra são entregues ao governo como "dividendos" (Portugal recebe cerca de 850 M€ por ano do BCE).
Há muitas reuniões porque é muito dificil controlar a inflação. Porque o sistema monetário interfere com a Economia e com as transacções com o resto do mundo, a inflação é muito dificl de controlar.

Porquê 2%/ano de inflação?
Já foram experimentados os valores 0%/ano (e.g., China 1998-2003), 1%/ano, 2%/ano, 2,5%/ano e mais taxas e nenhum deles é melhor que o outro.
Acontece que isto é como o lado em que os carros andam na estrada, com o passar dos anos, os principais países foram introduzindo o valor de 2%/ano como meta para que a taxa de cambio entre as moedas não tenha alterações nominais (se a China tinha 0%/ano o Reino Unido 2,5%/ano então, em média a moeda chinesa valorizaria 2,5%/ano relativamente à libra).

Porque nao adoptamos a postura da islandia?
A Islândia tem moeda própria que pode valorizar e desvalorizar relativamente às outras moedas. Este regime chama-se de "câmbios flexíveis". Nós temos "cambio fixo" relativamente aos outros parceiros da Zona Euro.
Existem opiniões a favor dos câmbios flexíveis (ajustamento mais rápido) e câmbios fixos (custos de transacção). É quase como haver benfiquistas e portistas, ninguém chega a conclusão de quem é o melhor.
Quanto à falência do país, não houve necessidade. Para os devedores, deixar de pagar é bom mas também temos que ver o lado dos credores que andaram a poupar dinheiro.
Uma falência descontrolada pode por em causa as relações entre os estados. Por exemplo, a Espanha poderia passar a desviar a água do Rio Tejo e do Rio Douro para o Sul (rasgando os contratos feitos entre o Franco e o Salazar) alegando que não tinhamos cumpridos os nossos contratos relativamene à divida pública.

2 - A nossa capacidade de pagar a divida nao é uma anedota?
Em termos totais, a dívida pública portuguesa é muito grande mas, em termos individuais, os valores são relativamente pequenos. 
Cada português deve cerca de 20 mil €. Se pensarmos que uma pessoa concluir o ensino obrigatório (12.º ano) custa ao Estado 60 mil €, vemos que a dívida é relativamente pequena.
Corresponde a que uma pessoa, durante os 50 anos de actividade o Estado conseguir cortar ou aumentar os impostos em 30£/mês. 
O pagamento da nossa divida em 50 anos implica apenas reservar 2% da despesa pública para juros e amortizações.
A nossa dívida pública é 130% do PIB e a do Japão é 230% do PIB e ninguém diz que o Japão está na bancarrota.

3 Porquê cortar salários e pensões.
Quando em 2008 chegou a crise do sub-prime, o problema não eram os salários públicos, pensões, subsídios de desemprego, etc. necessários de pagar 2008 mas das regras vertidas na lei que introduziam mecanismos automáticos de aumento da despesa pública. 
Cada 3 anos, os funcionários mudavam de escalão, estando desemrpegado com mais de 52 anos, iam para a reforma, se o marido e a mulher estivessem desempregados, recebiam um complemento e podiam estar não sei quantos anos a receber.
Tudo isso era explosivo e fez com que logo em 2009 o défice saltasse para 10% do PIB.
Os cortes, de facto, não existem pois o total de salários públicos e de pensões que o Estado paga hoje é ainda maior que o que pagou em 2011.
Os governantes (que, diga-se a verdade, teve a sua semente no tempo do Cavaco Silva) prometeu no passado o que sabiam que não podiam dar mas "quem vier que feche a porta". 

4- E quando as máquinas fizerem tudo?
AS máquinas nunca farão tudo. As máquinas permitem que sejam feitas coisas que de outra forma não seria preciso fazer.
Seria possível cortar uma árvore sem haver machados?
Seria possível fazer tábuas sem haver serras?
Seria possível haver Multibanco se não houvesse computadores?
Seria possível voar se não houvesse aviões?
Seria possível alimentar 7125 milhões de pessoas se não houvesse tractores?

"Quando inventarem uma máquina para lavar roupa, outra para lavar a louça e houver restaurantes a cada esquina, a mulher não vai servir para nada" (desconhecido do sec. XIX)

Enquanto pessoas não precisamos de trabalho mas sim de bens e serviços para consumir. 
Daqui a 100 ou 200 anos, se no entretanto o Ébola não nos matar a quase todos, as pessoas vão passar 6 meses de férias a viajar um pouco pelo mundo em bons hoteis e em bons aviões e, nos restantes 6 meses, 70% das pessoas vai trabalhar no sector do turismo.
Hoje uma pessoa compra um carro novo por 10000€ que corresponde a 12 meses de salário médio.
Em 1960, um carro muito pior custava 50 contos que correspondia a 60 meses de salário médio.
E porquê? Por causa das máquinas. E hoje trabalham muito mais pessoas a fazer automóveis que havia em 1960. Mais de 10 vezes.

Pedro Cosme Costa Vieira

quarta-feira, 10 de Setembro de 2014

A inflação e o crescimento

Volta e meia, 
os esquerdistas falam da necessidade de aumentar a taxa de inflação para aumentar o crescimento da Zona Euro. 
O problema é que a inflação não se relaciona com o crescimento económico. É tal qual como pensar que rezar Avé-Marias faz chover ou que assobiar conquista as gajas boas que vemos na rua. 

Abram bem os olhos.
Para ver se encontram alguma relação, coloquei num gráfico a taxa de inflação e a taxa de crescimento do PIB per capita de muitos países do Mundo, médias das décadas 1974-83; 1984-93; 1994-2003 e 2004-2014. Os dados são do Banco Mundial e apresento apenas as taxas de inflação entre 0%/ano e 20%/ano.

Fig. 1 - Só com uns óculos muito especiais é que se vê aqui uma relação entre inflação e crescimento do PIBpc.

Viram alguma coisa?
Quem conseguiu ver alguma relação, também ouviu no debate Costa / Seguro que o PS tem ideias sobre como deve ser a governação do nosso país sem austeridade e sem nos mandar outra vez para a bancarrota.

Fig. 2 - "Bobi, como encontraste uma relação entre inflação e crescimento, encontra-me agora uma ideia do Costa ou do Seguro".

O que será ser contra?
Como sou contra a pena de morte, se eu ficasse a mandar no Mundo, a pena de morte acabava imediatamente.
O Seguro e o Costa são contra a Sobretaxa do IRS, o aumento do IRS do Gasparzinho, o fecho das maternidades, o fecho dos hospitais, o fecho dos Estalaleiros Navais de Viana do Castelo, o fecho dos tribunais, haver tantos professores desempregados, os cortes nos subsídios de desemprego, os cortes no RSI, os cortes nos salários dos funcionários públicos e nas pensões, etc., etc., etc.
Pensava eu que, sendo contra isto tudo, quando chegassem ao governo iriam acabar com isto tudo.
Se está mal, se eu lutei para que isto nunca acontecesse, se sou contra então, quando chegar lá, isto vai tudo à vida.
Mas não. Vai ficar tudo na mesma.
O máximo que poderá acontecer é que não haverá mais cortes mas isso já o Passos também prometeu.
Afinal, o Passos está a fazer o que eles também fariam mas são do contra.

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 5 de Setembro de 2014

Quais serão as ideia do Costa e do Seguro?

Ontem estive a falar com PM, um esquerdista. 
Claro que a conversa começou com "Isto está tudo de pernas para o ar, o Passos Coelho está a destruir a nossa economia, estamos próximos do fim do mundo." 
- OK, se o Passos nos está a destruir, temos que voltar às "políticas de crescimento" do Guterres e do Sócrates. O problema é que essas políticas que estiveram associadas a um endividamento externo massivo não fizeram com que crescêssemos, antes pelo contrário. Para não ficar preso na discussão "é efeito da crise internacional" ou "foi ajudado pela expansão alemã" vou usar a Holanda, um país da nossa dimensão e que pertence à Zona Euro, para retirar esses efeitos todos. Em 1992, altura em que foi assinado o Tratado de Maastricht, o nosso nível de vida era 48,5% do nível de vida holandês. Quando o guterrismo-socratismo acabou, em 2011, a relação tinha-se reduzido para 44,6% (ver, Fig. 1).
- Não porque nesse tempo o governo socialista já estava preso à política de austeridade de Maastricht. Temos que nos libertar desse espartilho de austeridade imposto pelos países do Norte.
- Então, temos que voltar ao tempo da Ditadura ou do Cavaco pois foi nessas alturas que houve crescimento económico.
- Mas, se a economia esteve estagnada com o Sócrates por culpa das políticas erradas do BCE,  quando o Passos Coelho a economia começou a cair.
- Pelo menos já viste que com o Sócrates a economia esteve estagnada mesmo com elevado endividamento externo mas os dados dizem que a economia começou a cair em 2005, exactamente quando o Sócrates entrou. Em 2004 tínhamos 47,3% do PIB holandês e atingimos em 2007, antes da crise do sub-prime, 45,1%. Logo, o Sócrates endividou-nos e o PIB pc corrigido do efeito externo diminuiu rapidamente. Estranhamente, foi no tempo do Passos Coelho que a queda parou (ver, Fig. 1).
- Não, bem, não, não percebes nada de economia, nem que mas também, és um burro, isto deriva de, não é possível ter-se uma conversa séria contigo. 

Fig. 1 - PIB per capita português em comparação com o holandês, 1960-2013 (dados: Banco Mundial)
Entre 1960 e 2002, convergimos com a Holanda 0.66 pontos percentuais por ano e, a partir de 1992, passamos a divergir 0,19 pontos percentuais por ano. Alguma coisa tem que ser feita de diferente.

Os preços estão a diminuir.
- As economias europeias estão a corrigir os desequilíbrios das contas externas.
- Mas isso é à custa da redução das importações.
- Diminuição das importações e aumento das exportações que, diz a teoria económica, resultam da diminuição dos nossos preços face ao exterior diminuem. Isto vê-se no facto da nossa taxa de inflação estar 1 ponto percentual abaixo da média da zona euro.
- Isso não interessa, isso é um avanço do grande capital e da especulação.
- Mas estão a diminuir, tens que reconhecer este facto.
- Sim, mas sim, os preços estão a diminuir.
- Trata-se de uma desvalorização da nossa taxa de câmbio real o que aumenta as exportações e a entrada de turistas e diminui as importações e a saída de turistas. Isso é o mecanismo de equilíbrio das contas externas. E isso está a acontecer em Portugal e, principalmente, na Grécia face à zona euro. No nosso caso ainda temos a vantagem de os nossos preços já terem caído 5% relativamente aos da Espanha que é o nosso principal parceiro comercial. E em 2014 continuam a cair.
- Não, bem, não, não percebes nada de economia, nem que mas também, és um burro, isto deriva de, não é possível ter-se uma conversa séria contigo.

Fig. 2 - Índice de Preços no Consumidor relativamente à média da Zona Euro, desde a implementação dos câmbios fixos, 1999-2013 (dados: EuroStat)

A nossa economia já não precisa de novo financiamento externo.
- As taxas de juro desceram em todos os países. Não foi só em Portugal que as taxas de juro desceram mas também na Grécia desceram. E isso foi por causa do BCE ter mudado de política.
- Não é verdade que as taxas de juro tenham alguma coisa a ver com a política do BCE porque esta  mantém-se a mesma: procura cumprir o seu mandato que é fazer com que a inflação na Zona Euro seja de 2%/ano. Como a inflação está bastante abaixo deste valor, o BCE tem que fazer alguma coisa para aumentar a quantidade de moeda em circulação pois faz-se inflação com mais moeda. A diminuição das taxas de juro é por, genericamente, os países do Sul já não terem necessidades de novo financiamento externo. No caso Português, entre 1995 e 2011 Portugal endividou-se uma média de 13,4 MM€ por ano, um total de 210MM€. Nos últimos 24 meses, não precisamos de novo endividamento.
- Não, bem, não, não percebes nada de economia, nem que mas também, és um burro, isto deriva de, não é possível ter-se uma conversa séria contigo.

Fig. 3 - Endividamento Externo desde 1/1/1996 (dados: Banco de Portugal)

Mas não se consegue controlar o défice público.
Durante 2013 parecia que Portugal estava condenado ao fracasso porque as taxas de juro tinham estabilizado num nível proibitivamente alto. Por exemplo, a taxa de juro a 10 anos ficou parada nos 6,0%/ano. Nessa altura o discurso oficial era que "se a taxa de juro descer para 4,5 a 5%, já não precisamos de segundo resgate". Acontece que, como por milagre, depois da Mensagem de Natal do Cavaco, os financiadores do nosso país convenceram-se de que nos estamos a esforçar para pagar a dívida pública. Então, o quarto milagre de Fátima aconteceu: as taxas de juro a 10 anos estão em volta dos 3,0%/ano (ver, Fig. 4). Sendo assim, podemos fazer de conta de que em 2014 o défice vai ser de 4,0% do PIB e que em 2015 vai ser de 2,5% do PIB.
Não vai ser mais isso é o que defendem os esquerdistas pelo que devem estar contentes.

Fig. 4 - Evolução da taxa de juro da República a 10 anos (dados: Investing)

Grande parte das "despesas extraordinárias" são recuperáveis
Algumas, como a "regularização" da dívida das empresas públicas não tem mais recuperação mas os 4900M€ que Estado injectou no BES /  Novo Banco vão ser totalmente recuperada mas o BES tinha lá garantias públicas. Vamos ser optimistas.

Vamos agora ao Ébola.
Quando as coisas são terrivelmente terríveis nós temos tendência para não pensar nelas.
O Ébola é um desses casos, ninguém quer pensar nisso mas a coisa vai mesmo chegar cá e não vai demorar nem seis meses.
Os factos são que:
    1 => 90% das pessoas infectadas morrem.
   2 => Hoje contaminam-se 150 pessoas por dia enquanto há um mês, contaminava-se 50.
   3 => A Nigéria teve um caso em 27/Julho e disse que estava tudo perfeitamente preparada mas, em 21Ag já tinha 21.
   4 => O foco no Zaire já leva quase 100 contaminados.
   5 => Nos mais de 2000 mortos, só um é que é branco!

O que devemos fazer?
Daqui a 1 mês haverá 450 novos casos por dia, daqui a dois meses 1500, no Ano Novo 5000 e, daqui a 6 meses, haverá 100000 novos casos por dia.
100000 por dia é uma enormidade. Na Segunda Guerra Mundial morreram 30000 pessoas por dia, daqui a 6 meses a Ébola vai estar a matar o triplo.
O plano de combate não pode passar pelos actuais hospitais pois já estão cheios e ocupados por pessoas doentes que são particularmente vulneráveis ao Ébola.
O governo tem que começar rapidamente a trabalhar na contingência de, no espaço de algumas semanas,  ter que criar uma rede de isolamento com pelo menos 100 mil camas.
Como a chave do sucesso é o isolamento, a melhor solução será, em cada cidade, adaptar os apartamentos de uma zona habitacional para hospital.
Vai mesmo ser preciso cercar essas zonas com contentores de forma a que não entre nem saia ninguém..

Escrevi qualquer coisa que saiu no Diário de Notícias.
A Ana Margarida, que é uma pessoa muito simpática, desafiou-me a escrever qualquer coisa sobre as medidas do BCE e se isso terá algum impacto na nossa economia.
O BCE tem que controlar a inflação "abaixo dos 2,0%/ano mas próximo". Como agora está nos 0,3%/ano, muito abaixo da meta, tem que fazer alguma coisa. Mas, em termos médios, desde que existe Euro, a inflação foi de 1,95%/ano. Não está mal.
Podem ver aqui => Comentário no Dinheiro Vivo sobre a intervenção do BCE

Fig. 5 - Evolução da inflação na Zona Euro e média desde 1/1/1999 (dados: BCE).

Será que me esqueci de referir o que dizem o Costa e o Seguro?.
Não, não me esqueci. É que não dizem nada.
Antes falavam do Holland, de que ele seria o modelo da actuação da nova esquerda.
Agora fazem-me lembrar o meu amigo PM "Não, bem, não, não percebes nada de economia, nem que mas também, és um burro, isto deriva de, não é possível ter-se uma conversa séria contigo."

Fig. 6 - São estes os sapatos que estão a alimentar as nossas exportações.

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 29 de Agosto de 2014

A execução orçamental e o Rectificativo

Tudo tem um ponto de vista positivo. 
A execução orçamental está a resvalar um pedaço. 
Em 2013 o défice foi de 4,9% do PIB e em 2014 tem que ser de 4% do PIB pelo que seria de pensar que este ano o défice fosse menor do que o do ano passado em 125 Milhões€ por mês. 
Mas a realidade mostrou-se ao contrário, fechamos o Julho de 2014 com um défice maior em 55 M€ por mês.
Este défice traduz que, em média, cada português deveria ter pago mais (em impostos e taxas) ou recebido menos (em salários de funcionários públicos ou pensões) 18€/mês.
E não nos podemos esquecer que o défice público "económico" de 2013 (sem receitas extraordinárias) foi bastante maior, na ordem dos 5,8% do PIB (relatório do OE2014, Quadro I.2.5. Previsões orçamentais) .

Fig. 1 - No outro dia fui à praia e reparei que a moda é o "bikini orçamento": não consegue cobrir quase nada.

A dívida pública aumentou.
Se o défice resvalou, naturalmente, a dívida pública também resvalou pois o governo precisou endividar-se mais para tapar o desvio. É que tudo o que o Estado gasta sem ter receita para isso tem que ir para dívida pública.

Mas onde está o ponto positivo?
É que uma parte substancial desse desvio está na minha conta bancária. 
Em Junho, Julho, Agosto mais o subsídio de férias foram repostos os valores de 2010 do meu salário o que  custou muito dinheiro ao orçamento de estado mas veio para mim. 
Faz-me lembrar a Lei de Lavoisier: nada se perde, tudo se transforma.

O retificativo não corrigiu o desvio.
Para corrigir o desvio seria preciso arranjar até ao fim do ano pelo menos 1800 milhões €. Se pensarmos que o crescimento previsto do PIB em 1% induz um efeito positivo no orçamento de 0,5% do PIB, já só serão precisos 1000 milhões €, 100€ por cada português.
E o orçamento retificativo não fez nada. Limitou-se a rever umas previsões para valores totalmente inatingíveis em falar de poupanças genéricas e receitas extraordinárias. Falam em concessões e privatizações de coisa que só dão prejuízo como seja os transportes públicos.
Um exemplo irrealista é pensar que um aumento de 1% no PIB vá causar um aumento de 0,7 pontos na receita fiscal e 0,3 pontos na receita da Segurança Social. Isso traduziria que todo o crescimento do PIB iria para impostos mesmo sem aumento das taxas (O IRS e o IRC teria que ser de 70%).

Mas terá lógica não fazer nada?
Não tem lógica mas o governo tem que ponderar, por um lado, os movimento sociais e, por outro, o défice.
Pensa o governo que, como parte substancial da derrapagem foi devido ao chumbo do Constitucional no corte dos salários dos funcionários públicos que será parcialmente substituido já em Setembro (foi uma despesa extraordinária), as actuais taxas de imposto, regras de atribuição dos subsídios e racionalização dos serviços públicos serão suficientes para corrigir o défice público automaticamente.
Como temos eleições daqui a um ano e os opositores internos do PSD estão sempre a ver se há uma entre-aberta para poderem atacar, o Passos tem que manter tudo calmo. 

Os juros vão melhorar.
Em 2014 os juros pagos serão 7900M€ e o défice público está orçamentado para ser  6900M€ pelo que, mesmo com um "pequeno" desvio até meio ponto, já vamos ter um défice primário positivo (sem juros). 
O quantitativo pago em juros é elevado (cerca de 10% da despesa pública) o que, como as taxas de juro estão baixas, acaba por ser bom porque tem potencial para descer. Actualmente a média da taxa de juro da dívida pública está nos 3,7%/ano (porque a dívida vem do passado) e as taxas de juro já desceram para mínimos históricos, a 5 anos o Estado já se consegue financiar abaixo dos 2,0%/ano. Isto traduz que há margem para, num horizonte temporal de 5 anos, a despesa pública em juros diminuir 4000 milhões €.
Só esta componente tem potencial para, sem o governo mexer em nada, reduzir o défice público em dois pontos.

Dizia um jovem economista.
- O sr. dr., queixando-se constantemente que não tem dinheiro, porque é que vai almoçar todos os dias a um restaurante e dos caros? Não seria melhor fazer como eu que trago umas sandes de casa.
- Não homem, vê-se mesmo que não percebes nada de economia. Imagina que tens um azar na vida, por exemplo, a tua mulher põe-te os patins. Onde é que vais poupar, nas sandes para depois morreres de fome? Eu vou ao restaurante para, caso tenha um grande azar, ter onde cortar.

O desemprego caiu de forma assustadora.
Uma óptima notícia, o desemprego está nos 14% da população activa.
É uma notícia extraordinária que traduz que a economia está a ajustar.

Não me acredito, não pode ser, o Mundo vai acabar.
Na França, desde 1998 que o horário de trabalho é de 35 horas por semana.diriam os nossos constitucionalistas da esquerda que o seu fim é impossível porque "violaria o principio da confiança".
Pois é, mas acabou. No fim de Julho o senado francês acabou com esta limitação "sem terem de pagar horas extraordinárias".
Mas não era o Holland que ia defender o Estado Social e as Conquista da Civilização contra a malvadez dos alemães?
Realmente, no curto prazo a redução do horário de trabalho pareceu combater o desemprego mas, comparando com a Alemanha, foi um resultado de curto prazo e ilusório. Actualmente, a taxa de desemprego alemã é menos de metade da taxa francesa.

Fig. 2 - Evolução da taxa de desemprego na Alemanha e na França (dados: Banco Mundial)

O PIB per capita da França está a afastar-se desde 1974 do PIB per capita da Alemanha, perde mais de 0,4 % por ano. Não parece muita diferença mas é porque, primeiro, as taxas de crescimento dos países desenvolvidas é relativamente baixa (no período 1975-2013, Alemanha = 1,85%/ano, USA = 1,85%/ano, França  = 1,40%/ano) e, depois, ao longo dos anos vai somando, desde 1975 o PIB per capita da França já perdeu 20% relativamente ao da Alemanha e continua a divergir.
Este problema parece estar a agravar-se. Nos últimos 8 anos, o PIB pc alemão aumentou 1,67%/ano enquanto que o francês aumentou apenas 0,25%/ano (e o americano, 0,43%/ano).

Fig. 3 - Evolução d PIB per capita francês relativamente ao alemão (dados: Banco Mundial)

O problema da França não é a austeridade.
Podem pregar muito contra a sr. Merkel mas o problema está na Alemanha mas sim em quem não cresce. O problema dos doentes não é haver pessoas saudáveis.
É um problema que já vem desde 1975, são os "Direitos Sociais" e o "Estado Social" mais avançados do Mundo.
Mas o problema acaba sempre por acabar no problema de não ser possível distribuir riqueza se a economia não criar riqueza.
Dar direitos a (quase) todos parece uma coisa boa mas também implica impor obrigações e como já não fica (quase) ninguém a quem impor essas obrigações, as conquistas têm que ir à sua vida.

E o que é que o António Costa (e o Seguro) tem dito?
Mais tempo? Acabou.
Espiral recessiva? Já ninguém fala disso.
A carta? Ainda alguém se lembra do romance da carta?
O Holland, salvador da Europa? Já morreu.
Reestruturar a divida para que a taxa de juro passe a ser 3%/ano? Já está abaixo de 2%/ano.
O que terão os socialistas mais para dizer?

Lembrei-me de uma coisa.
O Costa costuma falar dos "economistas americanos, prémios Nobel, que são contra a austeridade europeia".
Mas esquece-se de dizer que, nos USA as pessoas podem trabalhar a partir dos 12 anos de idade; para despedir uma pessoas basta diz-lhe "Rua"; o pré-aviso para despedir é de 15 segundos e o trabalhador tem direito a receber quando é despedido um mês por cada milhão de anos de tempo de serviço.

Fig. 4 - Meus Deus, não penses que me despedes assim sem mais nem menos pois eu tenho os meus direitos, é que já tenho 1947 anos de serviço. Pelas minhas contas, aplicando a Lei Americana tenho direito a um indemnização correspondente a 2,8 minutos de salário.

Voltemos ao Califado do Levante.
O ISIS tomou uma base qualquer na Síria de onde saiam os helicópteros e os aviões que matavam indiscriminadamente.
Os do ISIS "julgaram-nos" e, tal como no Julgamento de Nuremberga, condenaram-nos à morte por crimes contra a humanidade.
Em Nuremberga enforcaram-nos por acharem que era pior que os fuzilar.
Os do ISIS foram mais humanos e fuzilaram-nos.
Faz-me lembrar os tempos de 1974 quando pensavamos que, ficando as colónias interegues aos "turras", seriam matanças sem fim.
Mas o Mundo é isso mesmo, uns matam-se, dão cabo das riquezas que têm (como os líbios) e, depois, queixam-se que são pobres e desgraçados. Mas não compete aos americanos tomar conta do povo por esse Mundo fora.

Fig. 5 - Podem dizer que mataram muitos mas a população em Angola + Moçambique aumentou de 16,4 milhões (1973) para 47,3 milhões (2013).

E o número de mortes não é significativo.
Em 1960, a Síria mais o Iraque tinham 11,9 milhões de pessoas (Portugal 8,9) e agora têm 55 milhões (e Portugal 10,5). Para manter a proporção, ainda podem morrer mais 40 milhões.
Nos últimos 4 anos morreram em acções violentas na Síria 50 mil pessoas por ano e no Iraque umas 15 mil no Iraque. Mas mesmo que morram 15 vezes mais, um milhão de pessoas por ano, a população ainda vai continuar a aumentar.
Se olharmos para o gráfico da população, ninguém nota que existe guerra.

E com vai a Ébola?
Está cada vez pior.
Está tão mal que a WHO dava resultados 3 vezes por semana e esta semana, só deu resultados uma vez.
E é um problema muito mais grave que o ISIS porque se propaga. Para matar uma pessoa a tiro é preciso caça-la e dar-lhe um tiro. Para matar outra é rpeciso novamente caça-la e mata-la. EUma pessoa morre de Ebola e, no entretanto, contamina 5. Depois, cada uma destas pessoas morre e contaminam 125 que, quando morrem já contamina 635.
Cada pessoa atacada torna-se, automaticamente, um novo "terrorista".
No último relatório, em 6 dias houve tantas pessoas contaminadas como tinha havido nos primeiros 6 meses da epidemia, 76 por dia que se vai traduzir dentro de 20 dias em 68 mortos.

Fig. 5 - Evolução diária de novos contaminados com Ebola (dados: WHO)

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 22 de Agosto de 2014

O Mundo parece estar louco

Os últimos meses têm sido de loucura. 
Pelo lado dos homens, a Rússia invadiu a Ucrânia, a Líbia entrou em nova guerra civil, a Síria continuou com a matança dos inocentes, Gaza voltou ao tempo dos bombardeamentos sem fim à vista, o BES foi à falência, o Costa iniciou uma guerra fratricida com o velho amigo Seguro e o Rui Rio mostrou as garras ao Coelho. 
Pelo lado de Deus, veio o Ébola com uma força que já não se via desde 1918 quando a pneumónica matou milhões de pessoas.
Será que isto são, como dizem as Testemunhas do Senhor Jeová, os sinais de que nos aproximamos do fim do Mundo?

Fig. 1 - "Nós somos testemunhas do Senhor Jeová e estamos aqui para anunciar que o fim do Mundo está próximo" - Entrem, entrem meninas, vamos lá a uma rapidinha e, depois, o Mundo já pode acabar. 

Cheguei a ter esperança na Rússia.
Em 1990 o nível de vida da Rússia era equivalente ao de Portugal e 1,9 vezes o nível de vida do Brasil.
Depois da queda da URSS, a coisa piorou muito e atingiu o seu nível mais baixo em 1998. Nesse ano o nível de vida russo caiu ao nível do do Brasil. Reparem bem como o Brasil é uma potência com pés de barro, a Rússia não é tida como um pais rico e, mesmo assim, no seu pior ano, o nível de vida  russo igualou o brasileiro! 
Por coincidencia ou não, nos 10 anos depois que o Putin foi eleito presidente, a Rússia teve um crescimento impressionante, 7,3%/ano em termos de PIB per capita, comparável ao crescimento da China. Naturalmente, o povo aceitou um regime mais musculado porque pensava ser fundamental para o aumento do seu nível de vida.
Portugal é uma miséria, desde 1999 que estamos numa estagnação total. Nem o "choque tecnológico" que o Sócrates acompanhou com 180 mil milhões € de endividamento externo nos ajudou.

Fig. 2 - Evolução do PIBpc ppp do Brasil, Rússia e Portugal (dados: Banco Mundial)

Porque será que a Rússia parou de crescer?
O problema russo é que, desde a crise do sub-prime de 2008, o nível de vida só tem crescido 0.8%/ano o que não é nada para quem estava habituado a 7,3%/ano.
O problema esteja no facto de a Rússia ter atingido o nível de PIB que existia nos finais da URSS. Provavelmente o crescimento de 1998-2008 foi uma recuperação do terreno perdido e, depois desse ano, voltou o crescimento anémico que viveu nos anos 1980.
Agora a economia tem que se liberalizar e privatizar, as barreiras ao comércio principalmente com a Europa têm que diminuir mas a realidade tem evoluído no sentido contrário: mais estado e mais barreiras ao comércio.
O certo é que estes 5 anos de praticamente estagnação tornou os russos mais nervosos. E não há nada melhor para se ser estadista que uma guerra com os vizinhos desgraçados.

O Brasil nem está mal.
Nos últimos 10 anos, 2003-2013, o nível de vida cresceu 2,7%/ano enquanto que nos 10 anos anteriores, 1993-2003, tinha crescido apenas 1,0%/ano. Mas também não está bem, ainda precisa crescer durante 20 anos a 2,7%/ano para atingir o actual nível de vida português, e nós achamo-nos desgraçados e falidos! 

Fig. 3 - O Brasil está bem, principalmente nas suas praias que são de uma beleza extraordinária.

O Mundo Islâmico é um problema complexo.
Há já milhares de anos que se desenrola uma guerra entre as quatro interpretações do Livro de Moisés, os Judeus, os Cristãos, os Sunitas e os Xiitas.
Até meados do séc. XIX , o vencedor de uma guerra tinha o direito de matar e escravizar quem bem entendesse (Antes da convenção de Genebra). Os povos queriam-se explorar uns aos e o povo vencido tinha que se render de forma incondicional. Enquanto não fosse a rendição, o que tivesse maior poder bélico matava gente até, se houvesse necessidade, não sobrar ninguém.
Por exemplo, os europeus diziam aos nativos por esse mundo fora "toca a andar daqui para fora, ide para longe da vista, lá para o meio do deserto que queremos estas terras". Se eles fossem, boa viagem, se não fossem, matavam-nos.

Os problemas vêm da "civilização".
No tempo antigo, as guerras era definitivas, o vencedor "passava pela espada" todos os vencidos, fossem, homens, mulheres ou crianças.
Por exemplo, quando em 70 AD os romanos tomaram Jerusalém, 1,1 milhões de pessoas foram mortas e 100 mil feitas escravos (Josephus). Lá, não ficou nenhum nativo vivo.
Agora, como não se matam os vencidos, as guerras de atrito continuam por tempo indeterminado.

O ISIL retomou a guerra do antigamente.
Quando vencem uma batalha, matam toda a gente, matam os soldados vencidos, matam os velhos, matam as mulheres e matam as crianças. Falta-lhes aquilo que denominamos de "humanidade".
Mas eu já tinha previsto isto.
Na Síria, 3/4 da população é sunita mas o regime do Assad é xiita. Naturalmente, se houvesse democracia o governo seria sunita pelo que os apoiantes do Assad não querem eleições. No entretanto, já matou 200 mil sunitas, com bombas, gás venenoso, fome e sede. Só prisioneiros, executou mais de 10 mil.
O problema é que, com o tempo, os sunitas começaram-se a radicalizar e começaram a matar civis xiitas e de outras minorias.
Agora é um problema de grande dimensão e com tendência para piorar. Os xiitas da Síria pensam que se conseguem manter no poder mas apenas estão a tornar o problema cada vez pior.
No fim, vamos a assistir a matanças históricas como já existiram mesmo no Séc XX mas de que não nos queremos lembrar:
   1915-18 => 1,5 milhões de arménios às mãos dos turcos
   1932-33 => 7 milhões às mãos do Estaline e dos comunistas
   1937-38 => 300 mil de chineses em Nankim às mãos dos japoneses
   1938-45 => 6 milhões de judeus às mãos dos nazis.
   1975-1979 => 2 milhões mortos de cambojanos às mãos do Pol-Pot e dos comunistas
   1994 => 800 mil no Ruanda às mãos uns dos outros
   1992-1995 => 200 mil bósnios às mãos dos sérvios

Como se poderão resolver os problemas do Mundo Islâmico?
O que foi feito no Afeganistão e no Iraque não é a solução. Prova de que o Bush era mal assessorado é o facto de esta solução ter sido tentada no Vietname e não ter resultado.
Não funciona porque, enquanto houver protecção americana, os locais não conseguem criar um exército operacional. Viu-se como o exército iraquiano, mesmo tendo o equipamento bélico mais avançado do mundo, foi derrotado em poucos dias por umas centenas de guerrilheiros armados de metralhadoras enferrujadas.

Os curdos, mesmo sem armas, mostraram ser mais competentes.
Então, a solução terá que passar pela criação de micro-quase-estados, como já existem, por exemplo, no Líbano ou em Israel, que, formalmente, fazem parte de um país, seja o Iraque, a Síria ou Israel mas que, de facto, se auto-governam, são independentes, e inimigos entre si.
Uns quase-estados serão aliados dos USA e dos países ocidentais e outros serão inimigos. Os USA traçarão fronteiras de facto e darão apoio aéreo aos  aliados sempre que os vizinhos os tentem invadir.

E depois?
Na Segunda Guerra Mundial, no dia 9 de Março de 1945 os americanos bombardearam Tóquio com bombas incnediárias matando 100000 e perguntaram "Rendem-se?" e os japonas disseram "Não".
No dia 6 de Agosto de 1945 mandaram uma bomba atómica sobre Hiroxima matando 200000 e perguntaram "Rendem-se?" e os japonas disseram "Não".
No dia 9 de Agosto de 1945 mandaram uma bomba atómica sobre Nagasaki matando 50000 e  perguntar "Rendem-se?" e os japonas disseram "Sim".
Vamos supor que os japonas diziam "Não", chumbavam com outra bomba atómica no dia 19 de Agosto, depois, uma a cada 10 dias (que era o tempo que demorava a fazer cada bomba atómica) até dizerem que sim ou até não haver mais japonas.
E os americanos eram civilizados mas até os civilizados se zangam.
A coisa terá que ser tratada como vemos em Gaza. Os Hamas mandam morteiros, apanham com um bombardeamento que mata aí umas 30 criancinhas ranhosas.
Mandam mais morteiros, chumbam com mais bombardeamento.
E isto vai continuar até dizerem "já chega" ou deixar de haver criancinhas em Gaza.

Fig. 4 - Nagasaki levou com o Fat Man, 21 milhões de kg de TNT, e ficou tudo terraplanado. Até as árvores dos montes desapareceram a perder de vista. E ninguém falou em crimes de guerra. 

O BES está a evoluir bem.
Afinal, todos os activos do BES passaram para o Novo Banco e todos os problemas que eu identifiquei acabaram por ser ultrapassados.
1=> Todas as contas à ordem vão ser pagas (apenas os "familiares" Espírito Santo têm que provar a licitude dos saldos"
2 => Todas as obrigações não subordinadas vão ser pagas
3 => O lucro que o Novo Banco venha a ter da venda dos activos será para pagar as obrigações subordinadas e entregue aos accionistas do BES.

A situação liquida do BES era muito melhor do que era a do BPN. 
Sendo assim, a "gestão controlada" vai correr melhor.
Mas a má notícia (para os accionistas do BES) é que a Tranquilidade vai ser vendida por 50 milhões € quando valia 700 milhões €. Pelos visto, tinha muito "papel comercial do GES" que só serve para limpar o traseiro.

A Ébola está cada vez pior.
Isto é que são más notícias.
Há minutos foram tornados públicos os dados referentes a 20 de Agosto e a epidemia está totalmente descontrolada.
Cada dia estão a ser contaminadas 70 pessoas e, em princípios de Setembro, já teremos 100 novos casos por dia.
Já há em Monróvia um bairro da lata em isolamento compulsivo com 50000 pessoas.
No Zaire (RD Congo), que fica a milhares de km de distancia, apareceram 13 mortes suspeitas.

A Nigéria é um caso gravíssimo.
Uma pessoa deslocou-se da Libéria para a Nigéria no dia 27 de Julho de 2014.
Estando as autoridades avisadas do perigo, monitorizaram todas as pessoas e identificaram imediatamente este caso.
Seria de pensar que a coisa estava controlada mas já há 16 casos e 5 mortos.
Afinal, a Ébola é muito mais difícil de controlar do que têm anunciado.

Mas há os 2 americanos que escaparam com um medicamento.
Escaparem 2 pessoas em 3 dá ideia de que o medicamento dá resultado mas, mesmo assim, morrerá muita gente. Além do mais, o medicamento é muito difícil de produzir (só haverá mais doses em Dezembro) e existe a dúvida se, por as 3 serem brancas, não poderá a Ébola ser naturalmente menos mortal nas pessoas caucasianas.

A taxa deveria estar a diminuir.
Como já apresentei no poste da semana passada, a epidemia segue um processo de difusão que, inicialmente a taxa de aparecimento de novos casos aumenta, depois há um período com taxa constante e, quando se consegue controlar a epidemia (ou já não há mais pessoas para contaminar), a taxa começa a diminuir. O que observo nos dados é que a taxa está a aumentar o que traduz que a epidemia está descontrolada.
Cada dia, a coisa vai de mal para pior, o número de infectados (e de mortos) duplica a cada 25 dias. A esta velocidade, vamos fechar o ano com 83 mil infectados e 45 mil mortos.

Fig. 5 - Taxa de crescimento do número de pessoas infectadas (ver).

E a guerra entre o Costa e o Seguro?
Lá continua.
A boa notícia é que as taxas de juro da República estão cada vez mais baixas. A 5 anos atingiu hoje  um mínimo de 1,76%/ano, abaixo da taxa de inflação esperada para os próximos 5 anos (que é de 1,9%/ano).
Isto é extraordinário porque os caloteiros esquerdistas diziam que iríamos à bancarrota com o Passos se a taxa de juro nominal fosse superior a 3,0%/ano, e já está muito, muito abaixo.
Calaram-se.

Fig. 6 - Taxa de juro da dívida pública a 5 anos.

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 15 de Agosto de 2014

As guerras que nos rodeam

Neste Agosto fresco e regado, vivemos um mês bem quente, com guerras que começam no Ébola e acabam no PS passando pelo Constitucional, por Israel, Iraque e Ucrânia.

A guerra do Ébola está muito difícil. 
Não podemos entrar em pânico sempre que uma doença mata, algures no mundo, 100 ou 200 pessoas. Mas numa doença em que 90% das pessoas morrem, temos sempre que estar atentos. No actual surto de Ébola as coisas estão-se a descontrolar. 

Há que ter pensamento positivo.
Mas não podemos desanimar.
Primeiro, o vírus do Ébola "sabe" que, para sobreviver, não pode matar todas as pessoas. 
Os vírus são como uma chave que tem que encaixar no DNA da sua vítima. Como as pessoas são diferentes (existe diversidade genética), o vírus não consegue encaixar em todas as pessoas. Por isso é que, por exemplo, nem todas as pessoas são infectadas pela gripe e o efeito da doença é maior numas pessoas que noutras. 
No caso do Ébola, os dados passados mostram uma mortalidade de 66% (muito menos que os 90% que eu costumo anunciar) e não sabemos que percentagem das pessoas é imune à doença (que até poderá ser elevada). Os dados também mostram que é possível controlar os surtos. Nos 17 maiores que já aconteceram, só foram contaminadas, em média, 141 pessoas. 
Olhando para os dados passados, podemos ficar descansados (ver, Quadro 1). 

Ano País Casos Mortos
1976  Zaire 318 280
1976  Sudan 284 151
1979  Sudan 34 22
1994  Gabon 52 31
1995  Zaire 315 250
1996  Gabon 37 21
1996  Gabon 60 45
2000  Uganda 425 224
2001  Gabon 122 96
2002  Congo 143 128
2003  Congo 35 29
2004  Sudan 17 7
2007  Zaire* 264 187
2007  Uganda 149 37
2008  Zaire* 32 14
2012  Uganda 24 17
2012  Zaire* 77 36
  Média 140,5 92,6
  Mortalidade   66%
Quadro 1 - Número de contaminados e mortos nas 17 maiores ocorrências de Ébola (ver, *o Zaire chama-se agora RD Congo) 

E no pior dos cenários, termina o "aquecimento global".
Mesmo que aconteça a pior dos cenários (toda a gente ficar contaminada e a mortalidade ser de 90%),  ainda sobreviverão 750 milhões de pessoas que são mais que suficientes para continuar com a nossa espécie para a frente. Assim, não é desta que a humanidade se vai extinguir. E as florestas vão crescer, os oceanos ficarão novamente povoados de bacalhau extra-grandes e as emissões de CO2 vão diminuir drasticamente e as centrais nucleares vão encerrar todas. 

E se fossemos todos iguais?
Já estão a ver o problema da "pureza étnica" preconizada pelo nazismo. É que, quando viesse uma doença destas, morria toda a gente. Uma espécie mesmo que tenha muitos indivíduos, se tiver baixa diversidade genética (ter havido, algures no passado, menos de 100 indivíduos) está condenada à extinção. 

E será que o Ébola está controlado?
O problema agora é que já temos mais de 2000 casos, 15 vezes o valor médio observado no passado, e a mortalidade aproxima-se dos 90%, muito acima da média do passado (ver, Fig. 2).
Para sabermos se o surto está controlado temos que encaixar os dados disponíveis no modelo de difusão que é o aplicável às epidemias.
Neste modelo exponencial o número de casos infectados aumenta a uma taxa que é variável. Na fase inicial, de instalação da doença, a taxa de crescimento é pequena e vai aumentando, depois há um período de crescimento descontrolado (a taxa constante) até que chega ao ponto de inflexão, a partir do qual a doença se considera controlada. Se daqui a 5 anos colocarmos os dados num gráfico em escala logarítmica, iremos ver um S (ver, Fig. 1). A questão que temos que saber é em que parte do gráfico estamos.

Fig. 1 - Modelo de difusão do Ébola

É preciso ajustar o modelo aos dados do Ébola.
Existem dados disponíveis desde o dia 25 de Março 2014 até ao dia ao dia 11 de Agosto 2014 (ver, actualizações). Primeiro, este surto é diferente em magnitude dos verificados no passado porque, houve encobrimento. Sabe-se hoje que o primeiro caso surgiu na Guiné Conacri no dia 9 de Dezembro de 2013 mas só passados 106 dias, no dia 25 de Março de 2014 é que foi tornado público, quando já havia 86 casos e 59 mortes. Assim, em vez de ser preciso conter um foco, foi preciso fazer face a 86 focos. 
Depois, em princípios de Abril foi possível atingir o ponto de inflexão pelo que, em meados de Maio, parecia que o surto estava totalmente dominado com um total de 270 casos. O problema é que foi sol de pouca dura pois, de repente, o Ébola entrou numa nova fase de expansão descontrolada . Olhando agora para os dados, não se vê nenhum ponto de inflexão pelo que há qualquer dúvida de que a doença está descontrolada (ver, Fig. 2). 

Fig. 2 - Número de contaminados com Ébola (ver, actualizações) => está descontrolado.

Quando teremos outro ponto de inflexão?
Muitas pessoas estão a lutar para que seja conseguido o mais rapidamente possível mas nunca se sabe quando o conseguirão. As notícias falam, na melhor dos cenários, que será lá para o fim do ano. 
Entretanto, cada dia, o número de pessoas infectadas aumenta 2,5% o que traduz que, enquanto não se atingir o ponto de inflexão, cada mês mais que duplica o número de contaminados. 

Os especialistas já falam que este surto de Ébola pode matar um milhão de pessoas.
Se não se conseguir inflectir a tendência, no final de 2014 teremos 65 mil contaminados e, em meados de 2015, já teremos 6 milhões de contaminados. E, ainda resulta do modelo de difusão que, depois de atingir o ponto de inflexão, ainda muitas pessoas serão infectadas. 
Se o descontrole continuar até meados de 2015, teremos 10 milhões de mortos, mais que todas as guerras que aconteceram desde 1945.

Mas não é muito trágico.
Em África há cerca de 1000 milhões de pessoas e em 1600 havia 116 milhões. 
Se o Ébora ficar apenas em África, não será muito grave (para nós) pois apenas fará a população africana voltar aos valores da época dos descobrimentos. 
Moçambique voltará aos 2 milhões e Angola aos 1,5 milhões da época dos descobrimentos.
Vamos a ver no que dá. 

Fig. 3 - Vai ser uma pena o Ébola levar-te mas, temos que ter paciência

A guerra do PS.
Dizem os especialista que não se conseguem ganhar guerras com apenas bombardeamento aéreo porque as pessoas escondem-se. Para os tirar dos buracos é preciso ter "cães" no terreno. 
É exactamente isso que se está a passar no PS em que o "cão" do Costa é o Seguro e o "cão" do Seguro é o Costa. 
Cada um obriga o outro a revelar quais são as suas estratégias de governação e, afinal, são um manado de nada.

"Precisamos de austeridade inteligente".
É a frase mais vazia de conteúdo que pode um burro imaginar.
Afinal vão "vamos fazer tudo que o Passos faz mas de forma inteligente".
Ao menos isso, de forma inteligente.

Fig. 4 - A"austeridade inteligente" aplicada pelo socialista Holland à França "apenas" reduziu o crescimento económico a 1/3 do que era no tempo da "austeridade estúpida" do "neo-liberal" Sarkozy.

A guerra do Constitucional.
Em 2011 eu escrevi que era impossível diminuir a despesa pública. Que, na melhor das hipóteses, o Passos Coelho iria mantê-la constante. E parece que vai ser esse o caso. 
Mas também é um bocado de teimosia. 

O Constitucional está como eu.
Tem que haver uma mexida nas pensões que torne mais semelhantes as reformas do passado com as reformas que recebem as pessoas que se reformam hoje. 
Não faz qualquer sentido ter duas pessoas que começaram a trabalhar exactamente no mesmo dia e, porque a pessoa A se aposentado em 2000 e a pessoa B fez o sacrifício de trabalhar mais 14 anos e recebeu menos 14 anos de pensão, a pessoa B ficar a receber uma pensão muito menor que a pessoa A. 
O Constitucional chumbou os cortes nas pensões porque diz que esta diferença tem que ser corrigida. 
Só em 2014 as "novas reformas" levaram um corte de 10% e as outras ficaram na mesma. 

Mas ainda vou falar da guerra em Israel.
Vamos imaginar uma economia onde existe uma grande empresa e várias pequenas em que o custo de produção da empresa grande é 0.45€/u. e a das pequenas é de 0.50€/u.
Em termos de lucro, o óptimo global será que todas cobrem um preço como se fossem monopolistas, vamos imaginar que esse preço é de 1.00€/u.
O problema desta estratégia é que, se uma das pequenas empresas diminuir o preço para 0.99€/u., fica com os clientes (quase) todos. Seremos então levados a pensar que a grande empresa tem que descer o preço para 0.99€/u. e que, continuando a guerra de descontos, vamos acabar com um preço pouco acima dos 0.50€/u, com lucros esmagados.

O que é que isto terá a ver com a guerra?
É que, sempre que uma pequena empresa descer o preço (para 0.99€/u.), a grande empresa faz uma promoção em que desce o seu preço "50% em cartão" (para 0.50€/u.). 
Os clientes sabendo disto, quando veem que uma pequena empresa está a fazer uma promoção, não compra porque sabe que na empresa terá no dia seguinte "50% de desconto em cartão".
A pequena empresa aprende rapidamente que se afixar um preço abaixo do preço de monopolista, não vende nada.

Israel está a explorar esta mesma estratégia.
Em 12 de Julho de 2006 Israel sofreu uma pequena invasão do Hezebola vinda do Líbano que matou 3 militares, feriu 2 e capturou 2. Israel atacou com bombardiamento de artilharia pesada e aéreo as zonas controladas pelo Hezebola. No final, no Líbano morreram 1200 pessoas (e 157 israelitas, uma relação de 7,6 para 1) e houve enorme destruição de infraestruturas.
Desde essa altura, nunca mais houve ataques a partir do Sul do Líbano, importantes, e sempre que é disparado um tiro, Israel retalia com bombardeamento de artilharia.

Na Faixa de Gaza aconteceu o mesmo. 
Em 30 de Junho são encontrados mortos os 3 jovens raptados. 
Começaram aí "pequenas operações" e a serem disparados rockets de Gaza.
No dia 8 de Julho Israel começa os bombardeamentos na Faixa de Gaza.
No final, morreram 2000 pessoas na Faixa de Gaza e 67 israelitas (uma relação de 30 para 1).
Agora, sempre que é disparado um rocket, Israel bombardeia um sítio qualquer.
O mais certo é que não haja mais ataques a partir da Faixa de Gaza.

Iraque e Ucrânia.
Eu defendo que cada povo deve ter o seu país. Defendo que os países devem ser formados por uma grande maioria de pessoas que partilhem a mesma cultura. E se 25% dos países do Mundo têm menos de 1,5 milhões de habitantes, há muitos povos perdidos por esse mundo fora que também deveriam ter um país.
Eu defendo que os 650 mil Yazidis, os 1,5 milhões de cristãos, os 6 milhões de Curdos do norte do Iraque e os 3 milhões da Síria, devem formar um país. 
Depois, quando a Turquia for uma democracia de facto, e o Irão se democratizar, o Curdistão deve unificar-se num país que terá 40 milhões de pessoas.
40 milhões é um povo muito grande que quer ter um país e que não os deixam.
Desapareciam 90% dos problemas da zona.

A Rússia deveria negociar. 
Também acho que a fronteira entre a Ucrânia e a Rússia devia ser ligeiramente alterada. Mas essa alteração deveria ser negociada e não ser um acto de guerra como aconteceu na Crimeia.
Por exemplo, a Ucrânia cedia à Rússia a Crimeia e mais uns terrotoriozitos e a Rússia fornecia à Ucrânia gás natural a um preço baixo durante 50 anos. 
O gás natural russo tem que passar pela Ucrânia para chegar à Europa pelo que é um monopólio bilateral que não tem solução. A Ucrânia precisa de gás.
Resolviam-se vários problemas com uma conversinha.
Pena o Putin sonhar que é chefe de uma superpotência.

Fig. 5 - Os tubos do gás natural russo passam pela Ucrânia porque foram feitos no tempo da URSS e os polacos odeiam os russos.

Pedro Cosme Costa Vieira.

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