sexta-feira, 17 de Outubro de 2014

O Orçamento de Estado de 2015

Poderia dizer que o OE2015 está bem. 
Se me centrasse no meu umbigo, na minha conta bancária, no meu egoísmo então, o Orçamento de Estado para 2015 estaria muito bem. De facto, vou ser aumentado em 1,9% quando a inflação se antecipa vir a ser de zero. Desta forma, num ano que continua a ser de forte consolidação orçamental, pelo menos em teoria, o meu rendimento (e o de muitos mais funcionários públicos) vai aumentar. 

Mas isto é negativo.
Como o Tribunal Constitucional, por ter sido proposto pelo governo socialista do Sócrates, aceita o corte até 10% dos salários como constitucional então, o Passos deveria mantê-lo até que houvesse novamente um governo socialista que o cortasse. 
Se eles o fizeram, eles que o desfizessem. 

Reparemos nas dificuldades de 2015.
Em 2009-2010 o défice foi na rodem dos 10% do PIB.
Em 2014 o défice vai ficar, depois de muita maquilhagem, nos 4,8% do PIB. De de facto vai ser novamente de 10% porque há muitas dívidas que é preciso reconhecer e os 4900M€ do BES. Mas o governo fala, mesmo assim, de que atingiu os 4,0% porque existem despesas que a troika aceita como não fazendo parte do "défice económico".
Mas fiquemos nos 4% do PIB. Então, entre 2010 e 2014 houve uma consolidação anual de 1,5% do PIB, qualquer coisa como 2500 milhões€ por ano (por ano).
E, como se lembram, essa consolidação obrigou a um grande esforço de austeridade pública.

O que é isso de milhões de euros por ano por ano?
Normalmente, olhamos para o PIB, a despesa pública, a receita fiscal, o défice como se fossem em euros mas não são.
O PIB português não é 171210956  (2013) mas sim 171210956 por ano
Igualmente, o nosso PIB é de 19545€ por hora e de 375,24€ por minuto.
Dito assim, que o nosso PIB é de 375,24€ por minuto, não parece nada comparável com 171210956€ por ano mas é exactamente a mesma coisa.
O défice público, porque é uma percentagem do PIB, também é em euros por ano pelo que, para o reduzir, é preciso uma austeridade também em euros por ano, uma austeridade para sempre, e não apenas milhares de milhões de euros como dizem os esquerdistas.

Fig. 1 - Tenho um bom curriculum mas aviso já que o meu forte não é fazer as contas do orçamento. 


Reduzir um défice (em € por ano) e a austeridade (em €).
Para eu reduzir o défice em um euro para sempre so nos próximos 100 anos vai-me obrigar a uma austeridade de 100€. 
Se o défice em 2010 era de 17 mil milhões € (por ano) e em 2014 vai ser de 6800€ (por ano), para reduzir a défice em 10 mil milhões € (por ano) obriga, ao longo de 4 anos, a uma austeridade de 25 mil milhões € e não de 10 mil milhões €.
E, manter o défice nos 2,5% do PIB vai obrigar apenas nos próximos 10 anos (e relativamente a 2010), uma austeridade de 230 mil milhões €. 
A comparação que os esquedistas fazem é comparável à comparação entre a velocidade do nosso carro (em km por h) e o espaço percorrido (em km).
Se um carro viaja a 200 km por hora e outro a 5 km por hora, será que conseguem dizer qual dos veículos percorreu maior disntância em km?
Claro que não pois precisamos do tempo. Se o rápido andou um minuto, percorreu 3,33km enquanto que o lento se andou uma hora, percorreu 5,00km, mais que o rápido.

Sendo o défice uma velocidade, a redução do défice é uma (des)aceleração.
Então, as unidades de redução do défice são euros por ano por ano.
Euros por ano ao quadrado.

Mas a meta para 2015 deslizou para os 3,7% do PIB.
Exactamente 3,7%. Diz claramente no quadro III.1.1 do relatório do OE2015 que o défice vai ser de 3,7% mas também haverá despesas de 1 % do PIB que a troika acha que não são despesas relevantes pelo que o "défice para efeitos da troika será de 2,7% do PIB"
Portugal acordou com a Troika o deslizar das metas acordadas pelo PS de Sócrates no Memorando de Entendimento e esse deslizar apontava para que, em 2015, o défice fosse de 2,5% do PIB. Então, entre 2014 e 2015 também seria preciso reduzir um esforço de consolidação comparavel ao que vivemos entre 2011 e 2014, 1,5% do PIB.
Mas o governo, precisando abriu os cordões à bolsa por causa das eleições, deslizou as metas para 3,7% do PIB.
Será, relativamente aos 4,8%, uma consolidação de 1,1% do PIB.

Temos o crescimento.
O que dizem os especialistas é que o crescimento económico de 1,5% do PIB vai fazer com que o défice reduza automaticamente de 4,8% do PIB para qualquer coisa próxima dos 4,0% do PIB. Com mais PIB há mais receita pública (impostos, taxas, etc.) e menos despesa pública (subsídio de desemprego, etc.). Somando os dois efeitos, um crescimento de 1,5% do PIB melhora as contas públicas em 0,8% do PIB.
Este efeito jogou contra o Passos em 2011, 2012 e 2013 mas já começou a jogar a favor em 2014, razão proque em 2014 não houve aumento das taxas de imposto.
Somando o efeito do crescimento com o "deslize", a consolidação para 2015 ficou reduzida a apenas 0,3% do PIB, uma quinta parte do que, à partida, seria obrigatório fazer. 

Mas não deveria ter havido deslizamento sem autorização. 
Uma coisa era a Troika dizer que "podem deslizar para 3,7% porque o défice primário (sem juros) já está positivo, em 0,9% do PIB, permitindo assim uma redução na dívida pública de 3,5 pontos percentuais".
Notar que, para reduzir a nossa dívida pública de volta aos 60% do PIB em 20 anos (como prevê o Tratado Orçamental) teremos que reduzir a cada ano a dívida pública em 3,36 % do PIB e em 2015 está prevista uma redução de 3,50% do PIB!

E que falta faz o acordo com a troika?
As taxas de juro dispararam como já não se via há muito tempo.
Depois de estarem nos 2,95%/ano (dívida a 10 anos), ontem saltou quase para os 3,80%/ano.
Para vermos a enormidade deste aumento, se se aplicasse a toda a nossa dívida pública implicaria um aumento da despesa em juros em 1800 milhões € por ano.
Este aumento implicaria a revisão em alta do défice em 1,0% do PIB.
Mas, no entretanto, a troika não disse nada de negativo pelo que os investidores acalmaram um pouco e o aumento caiu de 0,85 pontos para 0,35 ponto que, mesmo assim, terá (a manter-se) um impacto no orçamento de 0,45% do PIB, o dobro do deslize não acordado.

Fig. 2 - Evolução da taxa de juro implícita na dívida pública portuguesa depois do anúncio do OE2015

As cheias em Lisboa.
Este nervosismo indica que, se viermos a ter um governo que diga "acabou a austeridade", voltamos rapidamente às taxas proibitivas de 2011.
Eu acho interessante o António Costa, depois de dizer que o Passos Coelho é um incompetente, vir também dizer que precisa da sua ajuda para resolver os problemas das inundações em Lisboa.
Por este andar, ainda vamos ver o Passos a presidente da câmara de Lisboa.

Fig. 3 - Até é mais agradável passear na Lisboa pós-Costa.

São eleições e é preciso ganhá-las.
Eu agora sou um político no activo. Ando em campanha eleitoral. Umas pessoas tratam-me mal e outras  pedem-nos coisas.
Ambas as coisas são boas porque revelam que as pessoas atribuem probabilidade à possibilidade de eu vir a ser eleito. Como as pessoas não são estúpidas, quanto mais uns se zangarem e outros me pedirem coisas, mais provável é que eu ganhe. 
Mas o político que quer ganhar eleições tem que prometer coisas. Tem que ser prudente "não posso aumentar os vossos salários" mas tem que se ver o que se pode fazer. 
Claro que eu penso "Prometer isto vai, depois, causar problemas" mas tem que ser, é guerra é guerra, bombardear e depois ver se há feridos.

Aquela da devolução da sobretaxa.
Foi uma forma de acomodar a descida da sobretaxa exigida pelo Portas e a necessidade de controlar o défice.
Mesmo o deslize foi para dar margem ao Portas.
É a política. É assim aqui, em Angola, na Serra Leoa mas também na Alemanha, no Luxemburgo e na Suécia.

E o Ébola?
Existem cada vez mais notícias nas notícias mas a coisa está a caminho de estar controlada.
Em meados de Setembro, todos os dias o número de novos casos aumentava 3%. Passado um mês, cada dia o número de novos casos "só" aumentava 2%.
Se a diminuição continuar a esta velocidade, daqui a 2 meses a doença acaba com "apenas" mais 4000 doentes relativamente aos que existem actualmente.
Mas a pressão não pode abrandar e. por isso, é que é importante que a comunicação social não pare a pressão.
Se não for assim, de um momento para o outro, a doença torna a explodir.

Fig. 4 - Evolução da taxa de crescimento dos novos casos de Ébola (dados, WHO)

Pedro Cosme Vieira

sábado, 11 de Outubro de 2014

Cada um tem o que quer

A acção. 
Ontem, estava eu em acesa discussão com o meu amigo PM que é esquerdistas, altas criticas contra o Passos Coelho e, no geral, contra tudo e contra todos e eu disse-lhe apenas.
- Eu sou contra a crítica porque defendo a acção. Ser velho é criticar tudo sem avançar com ideias nem nos disponibilizarmos para a acção. Se o mundo está mal, temos que pegar nas nossas forças e mudá-lo.
- Ai mas é impossível mudar o que está mal.
- Eu tenho o meu blog que me dá trabalho mas que é a minha acção para que o mundo possa melhorar. Se achas que é impossível mudares o mundo com as tuas ideias e acção é porque não lhes reconheces valor. 
- Tens razão.
E eu pensei, a minha ideia venceu, a partir de agora, talvez o meu amigo se torne mais construtivo e veja que o "outro caminho" não passa de uma miragem enganadora. 

A democracia em acção.
No meu emprego andam em eleições para director. Em todo o sítio existem facções, umas mais à esquerda e outras mais à direita, umas do FC do Porto e outras do Benfica, umas admiradoras do bagaço e outras do copo de leite. Por isso, no meu emprego surgiram duas listas, a A e a B. 
Todos têm as suas qualidades e os seus defeitos. Uns são mais conversadores outros menos; vestem melhor e outros pior, uns são altos e outros baixos mas todos têm muito valor. 
Acontece que a coisa está muito dividida, tudo muito empatado e, por causa disso, o combate tem, de dia para dia, subido de tom. Se a princípio éramos todos companheiros, ao longo do tempo, cada vez mais uns são de uns e outros são de outros.  Lentamente, estamos todos a tornarmo-nos inimigos dos outros.
Mas eu sou um desalinhado e penso que isso é errado, cada pessoa tem as ideias que tem e isso não pode por em causa o relacionamento entre as pessoas.
Por causa da forma como eu vejo o mundo, decidi que era preciso avançar. Mesmo sem ter, à vista dos meus colegas, uma competência especial, decidi que ia abandonar o conforto do meu sofá e lançar-me para dentro da jaula das feras.

A força da democracia é que cada qual tem os governantes que quer.
Agora, o meu nome está em discussão. Estou em campanha mostrando-me exactamente como sou, bem disposto, brincalhão e gozão. Mas sou mesmo assim e, se não mudei até agora, não vou mudar mais.
Depois, haverá eleições e será escolhido um director que, tenho quase a certeza, serei eu.

É o equilíbrio de Hotelling.
Vamos imaginar que eu tenho um território onde existem diversas lojas e clientes espalhados pelo território. O que provou Hotelling (1929) é que o equilíbrio em que cada lojista maximiza o seu lucro consiste em todos se localizarem no centro do território.
Isto não parece ter lógica pois, aparentemente, se um se afastar consegue captar mais clientes mas isso não acontece porque os outros vão atrás dele.
No meu caso, com as posições estremadas como estão, aparecendo eu no meio, no ponto de equilíbrio de Hotelling, venço.
Para ser director de uma faculdade de economia, tenho que por em prática o que diz a teoria económica.

As pessoas têm o que gostam.
Mas vamos imaginar que, por hipótese académica, é outro o eleito.
Então, nesse tempo, as pessoas não poderei dizer "este fulano é um mau director" porque tiveram a oportunidade de escolher outro e não o fizeram.
Um povo pode gostar de governantes gordos e outro de governantes magros mas é assim que funciona a democracia: cada um é que sabe o que é melhor para si. Nas Filipinas até há aqueles que se fazem pregar numa cruz. É assim que querem, é assim que se faz.
Não é Deus, o papa ou o Pinto da Costa que vai escolher o futuro director mas as pessoas.
Vamos ver no que dá.

Fig. 1 - Eu fui eleito com 61,09% dos votos e a Rainha de Inglaterra nunca foi eleita.

Ontem a minha futura vice-directora lançou um livro.
A minha colega de gabinete é de uma das listas, é da A, e eu, mesmo não sendo de lista nenhuma, ao candidatar-me acabo por ser seu opositor. Mas quero-a como minha vice-presidente porque é uma pessoa extraordinária em termos de competência e humanos. É que eu gosto pouco de trabalhar.
E ontem lançou um livro onde estava a minha colega e deputada europeia Elisa Ferreira.
Como sabem, é esquerdista, e eu "ataquei-a" com uma pergunta.
"Sou Pedro Cosme da Faculdade de Economia do Porto"

Depois, passei ao ataque.
É que um director de uma faculdade de economia de referência tem que ser capaz de confundir o mais resistente dos esquerdistas. Tem que intervir para apresentar a verdade.
"Existem zonas monetárias maiores que a Zona Euro como, por exemplo, os USA, a China, a Índia, a Indonésia mas nessas zonas monetárias existem muito maior flexibilidade do mercado de trabalho. Se os nossos políticos e os nossos povos não estiverem preparados para tornar o nosso mercado de trabalho idêntico ao dessas xona monetária. Se a esquerda continuar com a ilusão de que o ajustamento nominal viola o princípio da confiança mas a desvalorização cambial não, se continuarem a batalhar nos ´direitos adquiridos´ nominais, a Zona Euro não tem futuro."

Nem queiram imaginar a resposta.
Foi de uma dureza inimaginável, o verniz estalou todo, diria mesmo que a chapa rebentou, os meus opositores até se riram à gargalhada.
"Isso é uma ideia muito perigosa"
"Devia estar melhor preparado quando faz perguntas"
"Porque isso dos salários baixos"
Eu levantei o dedinho
"Desculpe interromper mas, tanto quanto eu sei, nos USA os salários são bastante superiores aos portugueses".
"Bem, bem, bem, bem, retomando a cassete, os baixos salários ...."
E ficou-se pela cassete, não veio nenhuma ideia, nenhum estudo, nada, apenas que eu não estava preparado.
Ah, veio o do costume, o Krugman, que aparece sempre que um esquerdista não sabe o que dizer.
Faz-me lembrar a minha falecida tia Clara: se não fizeres o que eu te mando, Deus vai-te castigar.

Mas como é que ela sabe o que Deus fazer? 
Pensava eu, se Deus é omnisciente, isto é, sabe tudo, é um sabichão, e a minha tia sabe o que Ele vai fazer então, sabe tanto ou mais do que Ele.
Será que a minha tia é o próprio Deus em figura de vaca?

Fig. 2 - Desiste disso de director, olha que vais sofrer, olha que Deus castiga-te!

O que será uma ideia perigosa?
Vamos supor que eu dizia que "nessas zonas monetárias as pessoas andam de pernas para o ar e que, por isso, também temos que passar a andar de pernas para o ar."
Isto não me parece que tivesse perigo algum.
Uma ideia é perigosa se conseguir mudar o mundo.
Eu sou perigoso porque tenho ideias capazes de mudar o mundo.
Eu, avançando no instante em que o diabo esfregou o olho, com a ideia do Hotelling na cabeça, vou ser  capaz de derrotar quem tem um grande exército há meses no terreno e que já julgava ter a vitória no papo.
A ideia do liberalismo, no mercado de trabalho, no mercado de bens e serviços, no mercado de capitais, no mercado externo é o motor de arranque, em meados dos anos 1970, do crescimento da China.
Em 1977 o PIB per capita chinês estava em 10€ por mês e em 2014 está em 322€/mês. Foi um crescimento no rendimento das pessoas de 8,7% por ano.
E não teve ajudas de ninguém, da UNICEF, Cruz Vermelha, nada.
Por oposição, em 1977 o PIBpc da Guiné Bissau era de 23€/mês e em 2014 está nos 23€ por mês. Foi um crescimento no rendimento das pessoas de 0,0% por ano.

Então, apresentei uma ideia que é mesmo perigosa.
A Etiópia adoptou, há pouco mais de 10 anos, o modelo de liberalismo chinês. Desde então, tem crescido quase 10%/ano.
A Índia, Indonésia, Bangladesh e até o comunistíssimo Vietname estão a adoptar o liberalismo e a Europa esquerdista quer continuar a marretar na tecla de que os direitos adquiridos são uma conquista da humanidade.
Que é preciso voltar aos investimentos públicos, aos salários mínimos alucinantes, à conversa do "outro caminho, o caminho do crescimento e do emprego, o caminho do leite e do mel, o caminho do Maná".

Calou!
Mais interessante foi que as tropas da minha colega, em peso na segunda fila, atrás de mim, iminentes e reputados economistas (esquerdista), ouviram e calaram. Penso que, quando chegaram a casa, esvaziaram o frasco de sais de frutos ou, como, desde que o Passos fez o preço descer de 56€ por caisa para 2,6€ por caixa, se usa, esvaziaram a caixa do Omeprazol.

O Passos Coelho e o Costa.
O Passos Coelho foi eleito pelo povo português. Eu e outras pessoas saímos de casa, fizemos o sacrifício de ir ao local de voto para que o Sócrates e a sua corja fossem atirados borda fora e para que o Passos Coelho pudesse começar a governar o nosso querido país.
Confesso que, nesse dia, fui votar mais para me ver livre do Sócrates (em quem tinha votado havia uns tempos) do que para meter lá o Passos pois não o via com estaleca para governar Portugal na difícil situação em que o socratismo nos tinha metido.

Acontece que a coisa até está a correr bem.
A nossa discussão pública anda em volta do défice público e da dívida pública e esses números não estão, em termos absolutos, bem. Mesmo que este ano consigamos 4%, é muito défice.
Mas não podemos olhar só para o valor actual de 4% (ou 4,8%) per si mas temos que ver a tendência e para antes a tenacidade do governo.

Vejamos a febre.
A nossa temperatura deve estar nos 37.ºc. Imaginem que vamos à loja de um africano qualquer e que, no dia seguinte, a nossa temperatura sobe para os 40.ºc (o equivalente a 4% de défice de 2014). Pensam logo "Meu Deus, devo estar com Ébola".
Agora vamos imaginar que a temperatura vai subindo, subindo até que atinge os 50.ºC e que se mantém nessa temperatura durante 3 dias (o equivalente ao défice de 10% de 2009-2011). Pensamos que vamos mesmo morrer antes de o Costa dizer qual é o "outro caminho".
Mas, vem um novo doutor, o Passos, e passados apenas 3 dias, a temperatura volta aos 40.ºc.
O que pensam? "Já estou safo desta."
O interessante é que a temperatura está nos mesmo 40.ºc que, dias antes, nos tinham levado a pensar que a morte estava perto mas agora já achamos que estamos safos.

Estaremos mesmo safos?
Totalmente safos.
Claro que há aqueles casos do cão e da enfermeira espanhóis que foram contaminados com Ébola.
Se fosse eu a mandar, metia aqueles todos que amavam o cão, e obrigava-os a serem lambidos pelo bichinho. Não lhes deveria fazer mal nenhum ou será que fazia? Penso que o matavam com as próprias mãos.
Voltemos ao que interessa.
Desde 15 de Setembro, de dia para dia, o número de casos de Ébola em termos percentuais e mesmo em termos absolutos está a diminuir.
O problema é que ainda muitas mais pessoas vão morrer antes da epidemia acabar.
A dinâmica das epidemias é mesmo assim mas a coisa está controlada.

Fig. 3 - Número de novos casos de Ébola em termos percentuais (dados, WHO)

E a dívida pública?
É exactamente o mesmo fenómeno que o Ébola.
O Passos está a conseguir controlar as contas públicas mas o dinamismo da despesa, as contas escondidas nas empresas públicas, nas autarquias e nos serviços autónomos, têm feito com que a dívida reconhecida tenha continuado a crescer e já esteja nos 130% do PIB.
Mas esta dívida já existia só que não estava reconhecida.

Será que conseguimos pagar uma dívida de 130% do PIB?
Diz o Pacto de Estabilidade que precisamos reduzir a nossa dívida em 2% do PIB por ano pelo que teremos 33 anos para voltar a uma dívida de 60% do PIB. E, para um crescimento de 1,2%/ano, conseguimos atingir essa meta se tivermos um défice de 0,5% do PIB.

Será possível ter, com uma dívida massiva, um défice de 0,5% do PIB?
 É possível porque vamos pagar de juros pela actual dívida pública de 130% do PIB menos do que pagávamos, há uns anos, pelos  60% de dívida.
Reparemos os dados de mercado.
Para um prazo de 5 anos, a taxa de juro está nos 1,6%/ano e, entre 2006 e 2009, estava nos 3,7%/ano.
Então, 60% de dívida custavam 2,2% do PIB em juros enquanto que agora, os 130% custam 2,1% do PIB em juros.
Como podem os xuxas dizer que, no tempo deles, nos podíamos endividar à força toda porque a dívida pública era sustentável se pagávamos em serviço da dívida do que pagamos agora?
Se colocarem esta questão a um xuxa vão ouvir:
"Isso é uma ideia muito perigosa"
"Devia estar melhor preparado quando faz perguntas"

Agora é só continuar.
Continuar o combate ao Ébola.
Continuar a política de consolidação orçamental.
Continuar com a minha campanha para director.
Ainda há muitos espinhos pelo caminho, ainda muitas pessoas vão morrer de Ébola, ainda muitos sacrifícios teremos que passar, anda muito vou ter que ouvir sem o querer mas o caminho está a ser percorrido.

Fig. 4 - O gordo ainda vai ter que fazer muita dieta mas as gajas já estão boas.

As sondagens são impressionantes.
A única coisa do Sócrates que valeu a pena foi o dinheiro que se gastou a aumentar a escolaridade da nossa população.
Não é que, "depois de 3 anos da mais dura austeridade de que temos memória" (palavras do Costa) as sondagem colocam empatados o PS liderado pelo salvador da humanidade e o PSD+PP liderados pelo diabo e pela peste?
34,6 para o PS e 34,2 para o PSD+PP com uma margem de erro de 3 pontos percentuais.
O nosso povo sabe mesmo separar a verdade da intrugisse do "outro caminho".

Até pr'á semana.

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 3 de Outubro de 2014

Missão Impossível

Ok, o António Costa ganhou o PS. 
O Seguro bateu-se com valentia mas não foi capaz de resistir ao regresso do D. Sebastião. 
No final das contas, por cada voto que o Seguro teve, o Costa teve 2. 
Foi bom para o Costa. 
Foi bom para a velha guardar, onde se inclui o desaparecido Ferro Rodrigues, sair da naftalina. 

Mas aguarda-o uma missão impossível. 
A jornalista pediu-se para comentar a vida futura do Costa e. depois, escreveu um material que pode ser visto aqui => ("Missão impossível" de Costa vai ser compatibilizar expectativas com realidade). 
É que o homem diz que não se compromete com nada mas anuncia aos ventos que vai por "outro caminho" o que me traz à lembrar um famoso discurso do Samora Machel (alegadamente): 
Meus Camarada, quando Frelimo tomou o poder, Moçambique estava na borda do precipício, agora, com Samora, já deu três passo na frente. 

Fig . 1 - O Passos meteu-nos à beira do precipício e, com o Costa, Portugal vai dar um passo em frente.

Será o "outro caminho" o voltar ao caminho do Sócrates? 
O Costa, no início da sua caminhada, disse que temos que continuar a obra do Sócrates, continuar a sua "política de crescimento". 
Nos 6 anos que durou o reinado do Sócrates, cada português (famílias, empresas e estado) endividou-se (a preços de 2005) 13500€ face ao exterior. 

Endividamo-nos 187€/mês, que se juntou ao nosso rendimento.
Seis anos em que, além do que produzimos, no fim do mês tivemos mais 187€ para gastar. Naturalmente que vivíamos melhor que agora que estamos sem esses 187€ por mês
Interessante que até 2008 estivemos taco a taco com a Irlanda e a Espanha mas, em 2009, a Irlanda começou uma politica de austeridade. Nós continuamos. 
O nosso socialista Sócrates manteve-nos taco-a-taco com o seu camarada Zapateiro da Espanha. 
Foi, como se diz agora, copy e paste do princípio ao fim.

Fig. 2 - Endividamento do tempo do Sócrates (dados: Banco Munidal)

Agora, quanto crescemos no tempo do Sócrates?
Se estivemos um endividamento externo massivo, nós mais a Espanha e a Irlanda devemos ter tido um crescimento colossal. O caminho do Sócrates e o do seu camarada Zapatero (e daquele camarada grego muito gordo e que se endividou ainda mais) deve ter atirado o nosso PIB per capita para valores astronómicos. 
O PIB per capita deve ter aumentado googles de € por pessoa.
Vou então confirmar isso nos dados, esperem um pouco, estou a ver, a ver, já fiz o download, agora fazer o gráfico, mau isto tem um erro qualquer, não pode ser, eu estou a ver mal.
Fazer outra vez a query, fazer o download dos dados, meter no Excel, fazer novamente o gráfico, eu devo estar a ver mal. Não pode ser.
Os dados do Banco Mundial dizem que, em 2011 relativamente a 2004, o nosso PIB per capita ficou praticamente na mesma.
Isto não pode ser, os dados do Banco Mundial foram martelados pelo desaparecido gasparzinho a partir do FMI. 

Fig. 3 - Crescimento económico (PIBpc) do tempo do Sócrates (dados: Banco Mundial)

O caminho do Sócrates não é o "outro caminho".
Definitivamente, voltar atrás não vai ser o "outro caminho" sobre o qual o Costa tem prometido a salvação do nosso povo.
E como eu preciso desesperadamente desse "outro caminho" porque já me habituei a estes últimos 4 mesitos sem cortes.

Será o "outro caminho" o caminho do Passos?
Não pode ser porque é exactamente esse "caminho de austeridade" que o Costa, juntamente com o seu camarada Holland, dá a entender que vai combater.
Não promete nada mas, quando diz que é contra os aumentos dos impostos, dos cortes de salários e das pensões, se chegar ao poder, vai anular essas coisas.
Eu rezo todos os dias para que o homem consiga fazer isso.

O Costa vai ser Prémio Nobel da Economia.
O problema do Costa, ou a sua oportunidade, é que o "outro caminho" não existe (ainda!) na ciência económica.
Há o "caminho" keynesiano que diz que a despesa pública e o investimento público são os motores do crescimento económico. Este caminho faz parte da ideologia esquerdistas e foi este o "caminho de crescimento" que o Sócrates, a Grécia e a Espanha seguiram entre 2005-2011. O problema é que este caminho não só não trouxe crescimento mas também nos endividou até ao tutano.
Há o "caminho" clássico/liberal que diz que a flexibilização dos mercados e a diminuição do Estado fazem com que os privados se tornem o motor do crescimento económico. É este o caminho adoptado pelo Passos Coelho e que o Costa não quer seguir. Este caminho liberal deu grandes resultados, por exemplo, no Chile que se tornou o país mais rico da América do Sul.
Não há mais caminho nenhum.

Então qual vai ser o caminho do Costa? 
Vai ser um caminho que ainda ninguém conhece, vai propor um novo quadro para o pensamento da ciência económica que o vai levar, de certeza absoluta, a ser prémio Nobel da economia.
Esse "caminho Costa" vai ser uma lufada de ar fresco que vai salvar os esquerdistas que ainda existem por esse mundo fora, como seja o camarada Holland.
Coitado do short, é short, short, mas chega para a viola. O moço é danado para o mulherio.

Fig. 4 - Lá vai o Holland na moto com a sua gaja

Eu vou a Fátima a pé.
Para verem como eu não tenho uma mente fechada, todas as noites, nas minhas rezas, penso sempre ao Espírito Santo (ao verdadeiro) que ilumine o camarada Costa a ponto de ele conseguir ver o "outro caminho". Já prometi mesmo que irei a Fátima a pé, ir e vir 100 vezes seguidas e sem beber água nem comer, se o Costa encontrar o seu "outro caminho". 
Um caminho em que o Salário Mínimo Nacional vá para pelo menos os 600€/mês, que o IRS volte aos níveis de 2009, que as regras de aposentação, de acesso ao rendimento mínimo e os salários dos funcionários públicos voltem ao que eram em 2010 e que sejam actualizados, já não peço muito, à taxa de inflação.
Se o homem encontrar este caminho, vou mesmo fazer um pedido ao Papa Xico para que passe a ser, enquanto vivo, cardeal patriarca de Lisboa e, mal morra, daqui a 100 anos, santo milagreiro.

Aquilo de Hong Kong vem da Crimeia.
Se as pessoas de um território podem declarar independência, o mundo entra em convolução porque as regiões mais ricas vão querer declarar a independência. 
O argumento na Escócia e na Catalunha para se tornarem independentes é que pagam mais impostos ao país do que recebem. Mas isso acontece a todas as regiões ricas e chama-se solidariedade territorial. 
Se for legal a Crimeia ou a Catalunha declarar a independência com base num referendo local, também será legal a independência de Hong Kong, de Macau, de Taiwan, de Cabinda, do Algarve ou do arquipélago das Berlengas (só é preciso o voto do faroleiro).

Fig. 5 - Quero a independência das minhas montanhas (são falsas mas são boas)

Mas não há só más notícias. Também temos o Ébola.
Há uns dias apareceu um caso nos USA o que pode ter criado nas pessoas um certo receio de que a epidemia do Ébola esteja descontrolada.
Mas não.
Acreditando nos dados da OMS - Organização Mundial de Saúde, a batalha está a ser ganha pois, desde meados de Setembro, de dia para dia a taxa de aumento do número de infectados tem estado a diminuir.
Estamos com 8 mil contaminados e ainda vamos ter muitos mais contaminados e mortos. Mas, continuando na tendência actual, lá para finais de Março a batalha estará ganha com apenas 60 mil mortos o que, para África, não é nada. 
Recordo que na África Sub-sariana, morrem anualmente  mais de 500 mil de malária (400 mil crianças abaixo dos 5 anos, ver). 60 mil acima ou abaixo não é nada.

Fig. 6 - Desde o dia 15 de Setembro que a taxa de aparecimento de novos casos de Ébola está a diminuir (dados, OMS)

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 26 de Setembro de 2014

As ilegalidades do Passos Coelho

O Passos foi denunciado pelo anónimo. 
Disse o anónimo que, "no passado", o Passos foi deputado com exclusividade e recebeu dinheiro de uma empresa qualquer. 
Como estão a ver, o problema de meter tudo "no passado" é como meter tudo "no mar", são coisas muito grandes. 
"No passado" D Afonso Henriques e o D Manuel II governaram o mesmo país (mas não em simultâneo).
"No mar" tomei banho ao mesmo tempo que a Irina (mas calhou em locais muito distantes).

O que se terá provavelmente passado.
O Passos Coelho foi deputado com exclusividade algures no passado, entre 1991 e 1999.
O Passos Coelho recebeu dinheiro da Tecnoforma algures no passado, 2ntre 2001 e 2007.
Foi tudo no passado mas não ao mesmo tempo.

Mas há alguém que nunca tenha cometido uma ilegalidade?
Tenho a certeza que, ao longo da sua vida, o Passos Coelho violou a Lei variadíssimas vezes, talvez tantas ou mais do que qualquer um de nós.
  Há alguém que nunca tenha copiado num teste?
  Há alguém que nunca tenha feito um pedido para arranjar um emprego para um filho?
  Há alguém que nunca tenha excedido a velocidade máxima?
  Há alguém que nunca tenha calcado um risco contínuo?
  Há alguém que nunca tenha estacionado num sítio proibido?
  Há alguém que nunca tenha metido umas despesa duvidosa no IRS?

Eu já cometi muitas violações à Lei. Por exemplo, ando há 4 anos no Judo e, nesse tempo, já tive umas 400 aulas. Será que no dia 20 de Setembro de 2011 meti dinheiro no parcómetro ou será que me esqueci?
Eu sou muito esquecido pelo que tenho a certeza que ... ... ... me esqueci.
Não me esqueci de que me esqueci porque me esqueci sempre, nunca meti dinheiro na máquina. 

Até Cristo pecou.
Há uma passagem num evangelho qualquer em que Jesus diz "alguém que nunca tenha pecado, atire a primeira pedra" e ninguém atirou, nem Ele próprio o que revela que o próprio Jesus cometeu pecados.
Todos nós já pecamos, todos, até o Papa Francisco.

Vamos aos verdadeiros crimes.
Na Segunda Guerra Mundial, a máquina de guerra alemã foi baseada na industria pesada alemã de que o Grupo Krupp era o expoente máximo. Produziram carros de combate, canhões, aviões, de tudo um pouco para dar cabo do canastro ao povinho um pouco por toda essa Europa fora.
Acontece que, no fim da guerra, proprietários, além de verem os bens confiscados, foram metidos na cadeia. O Alfried Krupp foi condenado a 12 anos de cadeia.
E quanto anos esteve preso? 
30 meses.
E depois, o que lhe aconteceu? 
Voltou a ser o dono do império Krupp.
E porquê? 
Porque o grupo estava de rastos e o Krupp era a única pessoa que podia por outra vez a industria pesada alemã a funcionar.
E deu resultado?
Se deu, em poucos anos, a Alemanha voltou a ter uma potência industrial.

Perdoemos ao homem qualquer falhazinha que ele era jovem e inconsciente.
Dizia-se na altura que "se se matassem todos os alemães que cometeram crimes de guerra, deixaria de haver alemães pois os únicos inocentes que existiam já tinham sido mortos pelos que estavam vivos".
Nós precisamos do Passos. Se o Cavaco e a Ferreira Leite já lhe perdoaram a vida negra que ele lhes fez viver, também temos que o perdoar  qualquer as falcatroazita que ele possa eventualmente ter feito.  

Fig. 1 - Nesta imagem vê-se claramente que o anónimo é o Rui Rio.

Quem era o anónimo?
Claramente o Rui Rio em conluio com o António Costa.
É que o homem está a ficar sem tempo, está a ficar sem espaço de manobra. O Costa disse que o seu adversário era o Rio.
O óptimo seria o Passos demitir-se hoje, o Costa ganhar no Domingo e o Rio entrar triunfante na Segunda-feira. 
Mas, pelo hoje, já fracassou.
O Rio já passou à história, e escrevo declaradamente história com letra pequena. Não vai passar de um autarcazeco equivalente ao Cabral (será que alguém se lembra deste?).

E o aumento do salário minímo?
Em termos económicos é um erro mas, em termos políticos, é totalmente acertado.
É errado porque, relativamente ao PIB per capita, o nosso salário mínimo é muito elevado.
É acertado porque foi acordado entre os representantes dos patrões e dos empregados.
É acertado porque, mesmo descendo a taxa da TSU de 34,75% para 34%, a Segurança Social recebe mais. Em 485€ recebia 168,54€ e em 505€ recebe 171,70€.
Por isso, o Passos ser contra o aumento causaria um enorme desgastante político.

Eu já defendi um desconto na TSU.
Para integrar no mercado de trabalho as pessoas menos produtivas que vivem no interior do país, o Salário Mínimo deveria ajustar ao nível de vida concelhio.
Os 505€/mês, com subsídios, correspondem a 725€/mês para o empregador e 524€/mês para o trabalhador.
A minha ideia seria que esse custo diminuísse nos concelhos com menor PIB, por exemplo, haver um desconto de metade da diferença para a média nacional, parte suportada pelo desconto na TSU de forma a que, no mínimo, o trabalhador recebesse 419,22€/mês (o IAS que só é pago 12 x por ano <=> 360€/mês).

Concelho     PIB      SMN-empregador  SMN-Empregado        TSU
País            100%           725€                         450€               11% + 23%
Alcobaçã    80%             652€                         430€                 8% + 19%
Almeida      60%             580€                         410€                 5% + 15%
Alandroal    40%             507€                         384€                 2% + 11%
Celorico      23%             453€                         363€                 0% +  7%

* No cálculo do SMN do empregador uso 12 meses e do empregado uso 14 meses.

Haver SMN igual causa desertificação.
As terras têm PIB per capita diferente porque não há infra-estruturas. Mesmo assim, há pessoas que preferem viver nessas terras mais pobres e ter um emprego. Mas ser o SM igual em Lisboa (PIB de 385% da média) e em Resende (PIB de 26% da média) faz com que as empresas de Resende, que são menos produtivas, não possam contratar as pessoas que querem trabalhar mesmo que por um salário mais baixo porque têm aqui a sua casa e as suas relações sociais.
Seria como termos o mesmo SMN que o Luxemburgo, 1874€/mês: as empresas faliam todas.

O Passos sobreviveu.
Concluo o dia com a certeza que o Passos vai sobreviver ao caso Tecnoforma e o aumento do SMN é um passo largo para a reeleição.
Estou cada vez com mais esperança de que o Passos ganhem as legislativas de 2015.

Fig. 2 - Estou cada vez com mais esperança (de que esse piscar de olho seja para mim)

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 19 de Setembro de 2014

Os migrantes, a concorrência e o comércio

A Europa está a sofrer uma invasão. 
Todos os dias ouvimos nas notícias que milhares de pessoas se metem em barcos sem qualquer capacidade de navegação e fazem-se à Europa. Naturalmente, centenas delas acabam afogadas.
Também vemos imagens de centenas de pessoas a tentar saltar o muro que bordeja Ceuta (que já foi nossa).
Mas porque será que isto está a acontecer?

A explicação parece simples.
É que há países onde o saldo populacional (diferença entre nascimentos e mortes) é muito elevado e, em simultâneo, o nível de vida é muito baixo. Pegando apenas em 10 países que nos estão mais próximos, cada ano nascem mais 11 milhões de pessoas do que as que morrem e o nível médio de vida é de apenas 1/4 do português (Ver, fig. 1). 

Mas em Lisboa não se consegue viver bem com 4800€/mês.
Considerando apenas a Etiópia e a Eritreia, há um "excesso" anual de 2,5 milhões de pessoas que, no seu país, têm um rendimento médio de apenas 4,5% do rendimento português. Quer isto dizer que, se em Portugal vivemos com um salário médio nas ordem dos 900€/mês, nestes países têm que viver com um salário médio na ordem dos 40€/mês, já corrigido das diferenças de preços (em termos de Paridade do Poder de Compra). 
Bem sei que um burguês disfarçado de comuna (o Marinho e Pinto) diz que para viver bem em Lisboa são precisos mais de 4800€/mês líquidos. Com esta honestidade, este homem ainda vai chegar a primeiro-ministro antes do António Costa e pelo PCP. 

Fig. 1 - Comparação do nível de vida português com o de alguns países próximos (Dados: Banco Mundial, médias de 2010-2012)

 Mas não há barcos a caminho do Golfo Pérsico.
A Arábia Saudita, Kuwait, Qatar, Emirados Árabes Unidos têm um nível de vida superior ao europeu e, mesmo assim, não há barcos cheios de desgraçados a tentar desembarcar nas suas costas. E a Etiópia está muito mais próximo do Golfo que da Europa.
Se calhar, não é a diferença nos níveis de vida per si que justifica haver tantas pessoas a morrer no Mediterrâneo. Deve ser outra coisa qualquer.

A razão não está no rendimento mas na estado social e no salário minimo.
Os países mais pobres são mais pobres porque as pessoas produzem menos.
E produzem menos porque têm baixas qualificações, biaxo nível tecnológico e não existe capital.
Vamos supor que, de repente, nós investíamos na Etíopia. Claro que esse investimento iria induzir um aumento na produção de cada etíope mas, como o nosso capital precisava ser remunerado, o rendimento do etíopes não aumentaria significativamente. 
Se a tecnologia e o capital forem remunerados de acordo com o seu contributo para a produção, um etíope terá sensivelmente o mesmo salário na Europa que tem na Etiópia.
O problema é pagarmos mais que o salário de equilíbrio além de o nosso "estado social" subsidiar os que conseguem chegar cá mas não se importa com os que ficam lá. 

Um colega meu estudou este assunto (o Américo).
Construiu um modelo em que deu ao capital o nome de Terra, à remuneração do capital a Renda e o Salário  a diferença entre a produção e a renda.
Vamos imaginar uma situação em que há uma quantidade fixa de terra, 10 arrendatários e que a renda da terra é de 10% do que produzem. Vamos ainda imaginar que existem etíopes disponíveis, tantos quantos quisermos desde que o salário se«ja maior que  30 €/mês.
O aumento do número de pessoas faz aumentar a produção e a renda (em precentagem e em valor) mas faz baixar o salário até que atinge o valor de reserva dos etíopes (de 30€/mês). 
Agora vamos imaginar que as 10 pessoas iniciais são trabalhadores portugueses. Como o seu salário baixa, é preciso cobrar um imposto aos donos da terra para compensar essa perda. Se inicialmente a entrada dos emigrantes vai reduzir a renda líquida da terra, quando entram muitas pessoas (mais de 15 e menos de 39) já ficam todos melhor, incluindo os trabalhadores e os etíopes.

Fig. 2 - A entrada de imigrantes aumenta a produção e a remuneração do capital mas baixa os salários (das actividades em concorrência mas aumenta o das complementares)

No Golfo Pérsico.
Nesses países existem os nacionais que estão protegidos pelo "estado social" e os estrangeiros que são   mão-de-obra contratada no mercado internacional ao preço de concorrência. 
Vamos supor um empreiteiro que precisa de 5000 trabalhadores para construir uma estação de liquifação de gás natural. Primeiro, faz prova de que é um tipo de trabalho que não se adequa aos sauditas. Depois, vai à India, ao Nepal, ao Bangladesh, à Etiópia, à Eritreia, ao Egipto ou ao Sudão e contrata 5000 trabalhadores ao  salário de mercado. É tudo uma questão de oferta e de procura. 
Apesar de um saudita ganhar 5000€/mês, o empreiteiro vai conseguir contratar trabalhadores por um salário de 150€/mês.

Mas isso é uma exploração!
Os esquerdistas dizem que pagar aos imigantes um salário na ordem dos 150€/mês quando pagam 5000€/mÊs aos nacionais é uma exploração. Mas  não se preocupam nada que essas mesmas pessoas estejam a ganhar nos seus países ainda menos. 
As opções morais têm sempre que ser tomadas tendo em consideração as alternativas. 
Primeiro, os etíopes e eritreus vão voluntariamente para a Arábia e podem ir embora quando bem o entenderem. Então, temos que comparar duas situações:
     H1 => Um saudita ganha 4000€/mês e um etíope (a trabalhar na Etiópia) ganha 40€/mês.
     H2 => Um saudita ganha 5000€/mês e um etíope (a trabalhar na Arábia) ganha 150€/mês.

O que será melhor para os etíopes?
Concerteza que é H2 e por isso é que vão voluntariamente para lá. 
No fundo, o discurso esquerdista é um discurso hipócrita. Se for lá longe, lá na terra deles, até podem morrer de fome mas aqui, perto de nós, não os queremos explorar.

Nós podíamos receber um milhão de imigrantes.
Estes imigrantes seriam o motor não só de uma agricultura de mão de obra intensiva mas também iriam dar mais musculo à nossa industria tradicional. Claro que as pessoas estão a pensar que os nossos sectores tradicionais como o textil, o vestuário, o calçado, o mobiliário, estão aperder postos de trabalho. Mas se inundassemos esses sectores com salários de 150€/mês, passaríam a ser muito mais competitivos e, desta forma, ganharíam rapidamente cota de mercado nos países europeus. 
No final poderíamos ter ocupação para a nossa mão de obra cada vez mais escolarizada e preparada e ajudar esses países menos desenvolvidos. 

E acabávamos com os afogamentos.
1 => Permitir a permanência na Europa dependente do contrato de trabalho. 
O empregador procurava por esse mundo fora um trabalhador e assim que o contratasse ele poderia entrar em Portugal. O empregador teria que prestar uma caução com o valor da totalidade dos salários mais a viagem de volta. 

2 => O imigrante teria que manter a ligação à comunidade de origem.
Uma forma de garantir esta condição seria adoptar o exemplo da Suíça, limitar a duração do contrato a um máximo de 9 meses em cada ano. 

3 => O salário, horário de trabalho e demais condições de trabalho seriam livremente negociados entre as partes, em concorrência com o resto do mundo.
Também se poderiam-se impor condições mas pouco exigentes, por exemplo, um salário mínimo de 1,00€/hora e, no máximo, a pessoa poder trabalhar 100h/semana.

As migrações e o comércio internacional.
Se o salário pago traduzisse o contributo do trabalhador para a produção, a pressão demográfica diminuiria porque o salário de um trabalhador particular seria quase igual nos diversos países do mundo. 
Neste caso, o comercio internacional substitui o movimento das populações. 
Em vez de a Alemanha ter lá portugueses a produzir carros, é melhor trazer as fábricas de carros para Portugal e importar os carros.
Se abrirmos as fronteiras ao comercio, haverá muito menos pressão para que as populações se movam. 
Pensemos nos romenos. Antes de entrarem na UE pensava-se que nos iriam invadir. Realmente nos primeiros anos esse fenómeno aconteceu um pouco mas, com a liberdade de comercio, as pessoas ficaram lá.

Faltam os não transaccionáveis.
Há bens que não se podem transportar e que, por isso, não podem ser produzidos nos países pobres.

A venda do Novo Banco não terá perdas.
O Horta Osório afirmou que a venda do Novo Banco vai ter perdas para os bancos a operar em Portugal mas não vai haver.

Vejamos porquê.
Vamos supor hipoteticamente que o Novo Banco vale 900 milhões € e que, tal como o BIC comprou o BPN, aparece alguém que oferece esses 900M€.
Neste caso, os bancos a operar em Portugal terão que assumir um prejuizo de 4000M€. Então, é melhor oferecerem os 4900M€ que é um preço imbatível e digerirem em si o Novo Banco (liquidarem). Apesar de terem, de facto, prejuízo, a prazo têm menos prejuízo que no caso de deixarem que o Nova Banco seja vendido porque retiram um concorrente do mercado.

Fig. 3 - Tínhamos a nossa roupa toda depositada no Novo Banco

Na Ébola, infelizmente, começam a dar-me razão.
Em Portugal existem muitas pessoas que acreditam em maus olhados, bruxedos e outras crendices.
Não há pessoas que acreditam que foram os americanos que mataram o Hugo Chaves com cancro? 
Agora imaginemos as pessoas africanas. Muita gente de lá muita gente pensa que são os Médicos sem Fronteira que andam a matar as pessoas. 
Com uma evolução que considero optimista (fim da doença em 31 de Março de 2015), vamos chegar ao fim do ano com 50 mil casos e teremos um total de 100 mil casos até ao controle total. 

Fig. 4 - Evolução da taxa de crescimento dos casos da Ébola e possível evolução (optimista)

Mas não estou nada optimista. 
Nem eu nem a ONU que declarou ontem a Ébola como uma ameaça à paz e à segurança mundial (ver).
Cada 3 semanas, duplica o número de casos.
Se demorar um ano a controlar a doença, teremos 1 milhão de casos.

Pedro Cosme Costa Vieira

domingo, 14 de Setembro de 2014

A pensão dos homens e das mulheres

Sendo o Portuendes um comentador habitual, tenho que responder à sua questão. 
Sabendo nós que os anos de trabalho e os anos de reforma devem conformar-se com a esperança média de vida , haverá algum dia em que a separação óbvia entre homem e mulher será realizada?

A esperança de vida.
Todos os pares de anos o INE compila a idade das pessoas que morrem na Tabela de Sobrevivência. 
Com os dados é fácil calcular a idade média das pessoas mortas. É este número que se usa como a Esperança Média de Vida à Nascença.

Quem nasce hoje vai viver mais anos.
Porque a idade média usa pessoas que nasceram há muitos anos para trás. como de ano para ano a média da idade dos mortos aumenta, naturalmente quem nasce hoje vai durar muito mais.
Como nos países da OCDE cada ano que passa a idade média de morte avança 0,2 anos, mantendo-se esta regularidade, quem nasce hoje num países desenvolvido vai, em média, morrer aos 96 anos (não vindo a Ébola por aí fora). 

Quem nasce hoje tem que trabalhar mais.
Assumindo que precisamos trabalhar metade da vida, se cada ano as pessoas vivem mais 0,2 anos, é preciso que a idade de reforme também aumente cada ano 0,1 anos.
Alguém que tenha hoje 30 anos, vai ter que trabalhar até aos 65 + 35*0,1 = 68,5 anos de idade.
Alguém que nasça hoje vai ter que trabalhar até aos 65 + 65*0,1 = 71,5 anos de idade.

As mulheres duram mais que os homens.
Sim, é verdade. Nos países da OCDE as mulheres duram mais 6 anos que os homens pelo que, aparentemente, é uma injustiça termos todas a mesma idade de reforma.
Pegando nos dados da tabela de sobrevivencia 2000-2002, os homens deveriam-se reformar 3 anos mais cedo que as mulheres. Os homens deveriam trabalhar até aos 63 anos e as mulheres até aos 65 anos.
Em alternativa, os homens deveriam ter a sua pensão majorada em 25%.


As reformas deveriam sofrer uma reforma.
Deveriam ter uma parte assistencial do tipo do Rendimento Mínimo.
Deveria ter uma parte que resultasse da capitalização dos descontos (da TSU)
Deveria ter uma parte de Seguro de Vida (cobrir o risco de invalidez).
E, sem qualquer dúvida, as mulheres deveriam receber uma pensão menor que os homens (ou trabalhar mais 3 anos).

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 12 de Setembro de 2014

Umas respostas a umas perguntas

O Ricardo Mendes costuma-me fazer "off-line" umas perguntas interessantes para partilhar com os demais amigos que seguem o meu blogg.
Algures nas centenas de posts que eu já escrevi, sei que já falei nisto mas nunca é demais repetir estes assuntos porque existe uma confusão nos media sobre estas coisas.

Mas primeiro, vamos à grande verdade: "se pegássemos em todos os economistas do mundo e ligássemos cabeça de cada um aos pés de outro numa fila bicha, não iam parar a lado nenhum".
Mas temos que reconhecer que hoje se vive muito melhor do que se vivia há 50 anos atrás e isso resulta do conhecimento, seja da engenharia, da medicina, da enfermagem, da história ou da economia.

1 Para que servem os bancos comercias?
Servem, principalmente, para intermediar entre poupadores e gastadores. 

As pessoas poupam para 1) pretendem comprar no futuro um bem valioso; 2) têm medo de, no futuro, terem um necessidade ou uma quebra de rendimento; 3) quando formos velhinhos o nosso rendimento vai ser melhor.

As pessoas pedem emprestado porque 1) pretendem comprar agora um bem valioso para o qual não têm dinheiro; 2) aconteceu um imprevisto de que resultou uma necessidade ou uma quebra de rendimento; 3) são jovens e precisam de dinheiro para estudar; 4) um empreendedor tem uma ideia que precisa de financiar.

Agora vêm os bancos comerciais.
Se eu preciso poupar, ao emprestar a uma pessoa concreta passo a viver o risco de nunca vir a receber esse dinheiro. 
Os bancos comerciais, por terem muitos devedores, conseguem compensar os que bancarrotam com os que pagam bem. Vamos supor que 1% das pessoas não paga o crédito. Então, basta uma diferença de 1% entre a taxa de juro que paga aos depositantes e a taxa de juro que cobra aos devedores para que esse risco seja anulado.

Vamos aos automóveis
O Ricardo é mecânico de automóveis. Os bancos "era como se existisse um intermediario entre mim e o meu cliente ... [que cobraria] uma comissão." 
Vamos imaginar, como acontece nos empréstimos, que o orçamento do carro era sempre o mesmo valor, por exemplo, 10% do valor de mercado. Agora, um mecânico particular com apenas alguns concertos por mês para fazer, passaria a correr um rico muito grande de ir à falência. Tal como fazem os seguros (contra a quebra de vidros ou reboque), mediante um pequeno pagamento, o intermediário compensaria os prejuízos com os lucros, retirando o risco aos pequenos mecânicos.

Porque o Estado americano interveio na GM?
Primeiro, os governantes são eleitos pelos votos dos eleitores. Se as sondagens disserem que a maioria da população quer uma intervenção, os governantes podendo, são "obrigados" a fazer essa intervenção.
Segundo, normalmente, a taxa de juro a que os estados se consegue financiar é muito menor que a taxa de juro que as empresas conseguem. Então, há negócios que são viável com intervenção pública e não o são se forem deixados à sua sorte.
Terceiro, há empresas que têm um impacto positivo na sociedade que, pelo menos no curto prazo, são dificeis de substituir. 
Mas a regra que leva, no longo prazo, a crescimento económico e melhoria das condições divida das pessoas, é deixar falir as empresas que não financiar-se no mercado. Mas todos os países têm que adoptar esta regras pois, caso contrário, haverá problemas.

 Para que serve a taxa de referencia do banco central?
O banco central tem como única função controlar o nível de liquidez na economia (a quantidade de notas em circulação) o que é conseguido observando a taxa de inflação. 
Se a taxa de inflação for baixa, é preciso aumentar a liquidez e, caso contrário, diminuir a liquidez.
A principal forma de aumentar a liquidez é imprimir notas e entrega-las ao governo para que gaste esse dinheiro (o governo passará a cobrar menos impostos que a despesa). Para diminuir a liquidez é rpeciso que o governo entregue notas ao BC que as distroi (o governo passará a cobrar mais impostos que a despesa).
Mas o BC tem outros instrumentos para actuar no curto prazo.
A taxa de desconto é uma forma de actuação de curto prazo: se a taxa diminuir, passará a haver mais notas em circulação e, se aumentar, passará a haver menos notas.
O lucro do BC com a emissão de novas notas e as taxas de juro que cobra são entregues ao governo como "dividendos" (Portugal recebe cerca de 850 M€ por ano do BCE).
Há muitas reuniões porque é muito dificil controlar a inflação. Porque o sistema monetário interfere com a Economia e com as transacções com o resto do mundo, a inflação é muito dificl de controlar.

Porquê 2%/ano de inflação?
Já foram experimentados os valores 0%/ano (e.g., China 1998-2003), 1%/ano, 2%/ano, 2,5%/ano e mais taxas e nenhum deles é melhor que o outro.
Acontece que isto é como o lado em que os carros andam na estrada, com o passar dos anos, os principais países foram introduzindo o valor de 2%/ano como meta para que a taxa de cambio entre as moedas não tenha alterações nominais (se a China tinha 0%/ano o Reino Unido 2,5%/ano então, em média a moeda chinesa valorizaria 2,5%/ano relativamente à libra).

Porque nao adoptamos a postura da islandia?
A Islândia tem moeda própria que pode valorizar e desvalorizar relativamente às outras moedas. Este regime chama-se de "câmbios flexíveis". Nós temos "cambio fixo" relativamente aos outros parceiros da Zona Euro.
Existem opiniões a favor dos câmbios flexíveis (ajustamento mais rápido) e câmbios fixos (custos de transacção). É quase como haver benfiquistas e portistas, ninguém chega a conclusão de quem é o melhor.
Quanto à falência do país, não houve necessidade. Para os devedores, deixar de pagar é bom mas também temos que ver o lado dos credores que andaram a poupar dinheiro.
Uma falência descontrolada pode por em causa as relações entre os estados. Por exemplo, a Espanha poderia passar a desviar a água do Rio Tejo e do Rio Douro para o Sul (rasgando os contratos feitos entre o Franco e o Salazar) alegando que não tinhamos cumpridos os nossos contratos relativamene à divida pública.

2 - A nossa capacidade de pagar a divida nao é uma anedota?
Em termos totais, a dívida pública portuguesa é muito grande mas, em termos individuais, os valores são relativamente pequenos. 
Cada português deve cerca de 20 mil €. Se pensarmos que uma pessoa concluir o ensino obrigatório (12.º ano) custa ao Estado 60 mil €, vemos que a dívida é relativamente pequena.
Corresponde a que uma pessoa, durante os 50 anos de actividade o Estado conseguir cortar ou aumentar os impostos em 30£/mês. 
O pagamento da nossa divida em 50 anos implica apenas reservar 2% da despesa pública para juros e amortizações.
A nossa dívida pública é 130% do PIB e a do Japão é 230% do PIB e ninguém diz que o Japão está na bancarrota.

3 Porquê cortar salários e pensões.
Quando em 2008 chegou a crise do sub-prime, o problema não eram os salários públicos, pensões, subsídios de desemprego, etc. necessários de pagar 2008 mas das regras vertidas na lei que introduziam mecanismos automáticos de aumento da despesa pública. 
Cada 3 anos, os funcionários mudavam de escalão, estando desemrpegado com mais de 52 anos, iam para a reforma, se o marido e a mulher estivessem desempregados, recebiam um complemento e podiam estar não sei quantos anos a receber.
Tudo isso era explosivo e fez com que logo em 2009 o défice saltasse para 10% do PIB.
Os cortes, de facto, não existem pois o total de salários públicos e de pensões que o Estado paga hoje é ainda maior que o que pagou em 2011.
Os governantes (que, diga-se a verdade, teve a sua semente no tempo do Cavaco Silva) prometeu no passado o que sabiam que não podiam dar mas "quem vier que feche a porta". 

4- E quando as máquinas fizerem tudo?
AS máquinas nunca farão tudo. As máquinas permitem que sejam feitas coisas que de outra forma não seria preciso fazer.
Seria possível cortar uma árvore sem haver machados?
Seria possível fazer tábuas sem haver serras?
Seria possível haver Multibanco se não houvesse computadores?
Seria possível voar se não houvesse aviões?
Seria possível alimentar 7125 milhões de pessoas se não houvesse tractores?

"Quando inventarem uma máquina para lavar roupa, outra para lavar a louça e houver restaurantes a cada esquina, a mulher não vai servir para nada" (desconhecido do sec. XIX)

Enquanto pessoas não precisamos de trabalho mas sim de bens e serviços para consumir. 
Daqui a 100 ou 200 anos, se no entretanto o Ébola não nos matar a quase todos, as pessoas vão passar 6 meses de férias a viajar um pouco pelo mundo em bons hoteis e em bons aviões e, nos restantes 6 meses, 70% das pessoas vai trabalhar no sector do turismo.
Hoje uma pessoa compra um carro novo por 10000€ que corresponde a 12 meses de salário médio.
Em 1960, um carro muito pior custava 50 contos que correspondia a 60 meses de salário médio.
E porquê? Por causa das máquinas. E hoje trabalham muito mais pessoas a fazer automóveis que havia em 1960. Mais de 10 vezes.

Pedro Cosme Costa Vieira

quarta-feira, 10 de Setembro de 2014

A inflação e o crescimento

Volta e meia, 
os esquerdistas falam da necessidade de aumentar a taxa de inflação para aumentar o crescimento da Zona Euro. 
O problema é que a inflação não se relaciona com o crescimento económico. É tal qual como pensar que rezar Avé-Marias faz chover ou que assobiar conquista as gajas boas que vemos na rua. 

Abram bem os olhos.
Para ver se encontram alguma relação, coloquei num gráfico a taxa de inflação e a taxa de crescimento do PIB per capita de muitos países do Mundo, médias das décadas 1974-83; 1984-93; 1994-2003 e 2004-2014. Os dados são do Banco Mundial e apresento apenas as taxas de inflação entre 0%/ano e 20%/ano.

Fig. 1 - Só com uns óculos muito especiais é que se vê aqui uma relação entre inflação e crescimento do PIBpc.

Viram alguma coisa?
Quem conseguiu ver alguma relação, também ouviu no debate Costa / Seguro que o PS tem ideias sobre como deve ser a governação do nosso país sem austeridade e sem nos mandar outra vez para a bancarrota.

Fig. 2 - "Bobi, como encontraste uma relação entre inflação e crescimento, encontra-me agora uma ideia do Costa ou do Seguro".

O que será ser contra?
Como sou contra a pena de morte, se eu ficasse a mandar no Mundo, a pena de morte acabava imediatamente.
O Seguro e o Costa são contra a Sobretaxa do IRS, o aumento do IRS do Gasparzinho, o fecho das maternidades, o fecho dos hospitais, o fecho dos Estalaleiros Navais de Viana do Castelo, o fecho dos tribunais, haver tantos professores desempregados, os cortes nos subsídios de desemprego, os cortes no RSI, os cortes nos salários dos funcionários públicos e nas pensões, etc., etc., etc.
Pensava eu que, sendo contra isto tudo, quando chegassem ao governo iriam acabar com isto tudo.
Se está mal, se eu lutei para que isto nunca acontecesse, se sou contra então, quando chegar lá, isto vai tudo à vida.
Mas não. Vai ficar tudo na mesma.
O máximo que poderá acontecer é que não haverá mais cortes mas isso já o Passos também prometeu.
Afinal, o Passos está a fazer o que eles também fariam mas são do contra.

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 5 de Setembro de 2014

Quais serão as ideia do Costa e do Seguro?

Ontem estive a falar com PM, um esquerdista. 
Claro que a conversa começou com "Isto está tudo de pernas para o ar, o Passos Coelho está a destruir a nossa economia, estamos próximos do fim do mundo." 
- OK, se o Passos nos está a destruir, temos que voltar às "políticas de crescimento" do Guterres e do Sócrates. O problema é que essas políticas que estiveram associadas a um endividamento externo massivo não fizeram com que crescêssemos, antes pelo contrário. Para não ficar preso na discussão "é efeito da crise internacional" ou "foi ajudado pela expansão alemã" vou usar a Holanda, um país da nossa dimensão e que pertence à Zona Euro, para retirar esses efeitos todos. Em 1992, altura em que foi assinado o Tratado de Maastricht, o nosso nível de vida era 48,5% do nível de vida holandês. Quando o guterrismo-socratismo acabou, em 2011, a relação tinha-se reduzido para 44,6% (ver, Fig. 1).
- Não porque nesse tempo o governo socialista já estava preso à política de austeridade de Maastricht. Temos que nos libertar desse espartilho de austeridade imposto pelos países do Norte.
- Então, temos que voltar ao tempo da Ditadura ou do Cavaco pois foi nessas alturas que houve crescimento económico.
- Mas, se a economia esteve estagnada com o Sócrates por culpa das políticas erradas do BCE,  quando o Passos Coelho a economia começou a cair.
- Pelo menos já viste que com o Sócrates a economia esteve estagnada mesmo com elevado endividamento externo mas os dados dizem que a economia começou a cair em 2005, exactamente quando o Sócrates entrou. Em 2004 tínhamos 47,3% do PIB holandês e atingimos em 2007, antes da crise do sub-prime, 45,1%. Logo, o Sócrates endividou-nos e o PIB pc corrigido do efeito externo diminuiu rapidamente. Estranhamente, foi no tempo do Passos Coelho que a queda parou (ver, Fig. 1).
- Não, bem, não, não percebes nada de economia, nem que mas também, és um burro, isto deriva de, não é possível ter-se uma conversa séria contigo. 

Fig. 1 - PIB per capita português em comparação com o holandês, 1960-2013 (dados: Banco Mundial)
Entre 1960 e 2002, convergimos com a Holanda 0.66 pontos percentuais por ano e, a partir de 1992, passamos a divergir 0,19 pontos percentuais por ano. Alguma coisa tem que ser feita de diferente.

Os preços estão a diminuir.
- As economias europeias estão a corrigir os desequilíbrios das contas externas.
- Mas isso é à custa da redução das importações.
- Diminuição das importações e aumento das exportações que, diz a teoria económica, resultam da diminuição dos nossos preços face ao exterior diminuem. Isto vê-se no facto da nossa taxa de inflação estar 1 ponto percentual abaixo da média da zona euro.
- Isso não interessa, isso é um avanço do grande capital e da especulação.
- Mas estão a diminuir, tens que reconhecer este facto.
- Sim, mas sim, os preços estão a diminuir.
- Trata-se de uma desvalorização da nossa taxa de câmbio real o que aumenta as exportações e a entrada de turistas e diminui as importações e a saída de turistas. Isso é o mecanismo de equilíbrio das contas externas. E isso está a acontecer em Portugal e, principalmente, na Grécia face à zona euro. No nosso caso ainda temos a vantagem de os nossos preços já terem caído 5% relativamente aos da Espanha que é o nosso principal parceiro comercial. E em 2014 continuam a cair.
- Não, bem, não, não percebes nada de economia, nem que mas também, és um burro, isto deriva de, não é possível ter-se uma conversa séria contigo.

Fig. 2 - Índice de Preços no Consumidor relativamente à média da Zona Euro, desde a implementação dos câmbios fixos, 1999-2013 (dados: EuroStat)

A nossa economia já não precisa de novo financiamento externo.
- As taxas de juro desceram em todos os países. Não foi só em Portugal que as taxas de juro desceram mas também na Grécia desceram. E isso foi por causa do BCE ter mudado de política.
- Não é verdade que as taxas de juro tenham alguma coisa a ver com a política do BCE porque esta  mantém-se a mesma: procura cumprir o seu mandato que é fazer com que a inflação na Zona Euro seja de 2%/ano. Como a inflação está bastante abaixo deste valor, o BCE tem que fazer alguma coisa para aumentar a quantidade de moeda em circulação pois faz-se inflação com mais moeda. A diminuição das taxas de juro é por, genericamente, os países do Sul já não terem necessidades de novo financiamento externo. No caso Português, entre 1995 e 2011 Portugal endividou-se uma média de 13,4 MM€ por ano, um total de 210MM€. Nos últimos 24 meses, não precisamos de novo endividamento.
- Não, bem, não, não percebes nada de economia, nem que mas também, és um burro, isto deriva de, não é possível ter-se uma conversa séria contigo.

Fig. 3 - Endividamento Externo desde 1/1/1996 (dados: Banco de Portugal)

Mas não se consegue controlar o défice público.
Durante 2013 parecia que Portugal estava condenado ao fracasso porque as taxas de juro tinham estabilizado num nível proibitivamente alto. Por exemplo, a taxa de juro a 10 anos ficou parada nos 6,0%/ano. Nessa altura o discurso oficial era que "se a taxa de juro descer para 4,5 a 5%, já não precisamos de segundo resgate". Acontece que, como por milagre, depois da Mensagem de Natal do Cavaco, os financiadores do nosso país convenceram-se de que nos estamos a esforçar para pagar a dívida pública. Então, o quarto milagre de Fátima aconteceu: as taxas de juro a 10 anos estão em volta dos 3,0%/ano (ver, Fig. 4). Sendo assim, podemos fazer de conta de que em 2014 o défice vai ser de 4,0% do PIB e que em 2015 vai ser de 2,5% do PIB.
Não vai ser mais isso é o que defendem os esquerdistas pelo que devem estar contentes.

Fig. 4 - Evolução da taxa de juro da República a 10 anos (dados: Investing)

Grande parte das "despesas extraordinárias" são recuperáveis
Algumas, como a "regularização" da dívida das empresas públicas não tem mais recuperação mas os 4900M€ que Estado injectou no BES /  Novo Banco vão ser totalmente recuperada mas o BES tinha lá garantias públicas. Vamos ser optimistas.

Vamos agora ao Ébola.
Quando as coisas são terrivelmente terríveis nós temos tendência para não pensar nelas.
O Ébola é um desses casos, ninguém quer pensar nisso mas a coisa vai mesmo chegar cá e não vai demorar nem seis meses.
Os factos são que:
    1 => 90% das pessoas infectadas morrem.
   2 => Hoje contaminam-se 150 pessoas por dia enquanto há um mês, contaminava-se 50.
   3 => A Nigéria teve um caso em 27/Julho e disse que estava tudo perfeitamente preparada mas, em 21Ag já tinha 21.
   4 => O foco no Zaire já leva quase 100 contaminados.
   5 => Nos mais de 2000 mortos, só um é que é branco!

O que devemos fazer?
Daqui a 1 mês haverá 450 novos casos por dia, daqui a dois meses 1500, no Ano Novo 5000 e, daqui a 6 meses, haverá 100000 novos casos por dia.
100000 por dia é uma enormidade. Na Segunda Guerra Mundial morreram 30000 pessoas por dia, daqui a 6 meses a Ébola vai estar a matar o triplo.
O plano de combate não pode passar pelos actuais hospitais pois já estão cheios e ocupados por pessoas doentes que são particularmente vulneráveis ao Ébola.
O governo tem que começar rapidamente a trabalhar na contingência de, no espaço de algumas semanas,  ter que criar uma rede de isolamento com pelo menos 100 mil camas.
Como a chave do sucesso é o isolamento, a melhor solução será, em cada cidade, adaptar os apartamentos de uma zona habitacional para hospital.
Vai mesmo ser preciso cercar essas zonas com contentores de forma a que não entre nem saia ninguém..

Escrevi qualquer coisa que saiu no Diário de Notícias.
A Ana Margarida, que é uma pessoa muito simpática, desafiou-me a escrever qualquer coisa sobre as medidas do BCE e se isso terá algum impacto na nossa economia.
O BCE tem que controlar a inflação "abaixo dos 2,0%/ano mas próximo". Como agora está nos 0,3%/ano, muito abaixo da meta, tem que fazer alguma coisa. Mas, em termos médios, desde que existe Euro, a inflação foi de 1,95%/ano. Não está mal.
Podem ver aqui => Comentário no Dinheiro Vivo sobre a intervenção do BCE

Fig. 5 - Evolução da inflação na Zona Euro e média desde 1/1/1999 (dados: BCE).

Será que me esqueci de referir o que dizem o Costa e o Seguro?.
Não, não me esqueci. É que não dizem nada.
Antes falavam do Holland, de que ele seria o modelo da actuação da nova esquerda.
Agora fazem-me lembrar o meu amigo PM "Não, bem, não, não percebes nada de economia, nem que mas também, és um burro, isto deriva de, não é possível ter-se uma conversa séria contigo."

Fig. 6 - São estes os sapatos que estão a alimentar as nossas exportações.

Pedro Cosme Costa Vieira

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