quarta-feira, 27 de maio de 2015

7 – A penitência

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (6 - A confissão)


7 – A penitência
– Sabes minha filha, eu conheço a Júlia desde que ela era jovem e inocente, fui já eu quem a casou e quem lhe baptizou os filhos.
– Mas Sr. Padre, o Sr. deve estar a confundir pois ela nunca teve filhos, toda a gente sabe que ela nunca teve filhos, ela mesmo me disse variadíssimas vezes que nunca teve filhos!
– Deves pensar que eu estou a ficar cansado da cabeça pois sempre ouviste dizer isso mas teve filhos e logo quatro que eu baptizei naquela pia baptismal que está ao fundo da igreja, na mesma em que te baptizei a ti e ao teu Simeão. Naquele tempo já constava que alguém fazia o defumadouro para evitar a doença e, não sei se era verdade porque nunca falamos nisso, também constava que esse alguém era a minha própria mãe. Vê só como o mundo dá voltas, é que todos sofremos da mesma maldita doença e, no passado, seria a minha mãe que tratava disso. Ao longo da minha vida sempre pensei ser errado acabar com a vida desse inocentes e por isso, quando me fiz padre, decidi que o defumadouro tinha que acabar de uma vez por todas. O meu antecessor, o Sr. Padre Félix, disse-me para eu não mexer no assunto porque as consequências seriam terríveis, muito mais grave do que eu antecipava mas eu achava que era um pecado tão grave, que violava de forma tão grosseira o mandamento “Não Matarás” que comecei a pregar que em circunstância alguma poderia ser usado o defumadouro para decidir quais as crianças que poderiam viver e as que deveriam morrer, isso só poderia ser uma escolha de Deus. Na minha missão contra a prática, na preparação para o casamento obrigava os noivos a jurar perante Deus de que não iriam aplicar o defumadouro às crianças. Pensava eu que, com muita fé, Deus iria levantar a maldição sobre a nossa gente. Eu sabia que as pessoas faziam tábua rasa sobre o que eu pregava continuando a fazer o que sempre fizeram mas a Júlia, por ser uma pessoa de grande fé, aceitou as minhas palavras. O problema é que o primeiro filho nasceu doente. Veio com o marido falar comigo e eu disse-lhes para aceitarem porque era a vontade de Deus, que se tivessem fé, Deus haveria de curar a criança. Aceitaram as minhas palavras e, com dificuldades, foram-no criando até que veio o segundo filho que também nasceu doente. Eu pedi ajuda às pessoas mas elas responderam-me que “Cada um de nós tem que resolver os nossos problemas. Não vou, como o Sr. Padre diz, arder eternamente no fogo do inferno e, depois, ainda sustentar quem vai para o Céu. Que aguente como eu aguento.” Pensando que Deus não poderia estar sempre distraído, mandei-os ter o terceiro e depois o quarto mas todos nasceram doentes. Eu fiquei de rastos, como podia Deus fazer tal maldade? Na altura até perguntei ao Dr. Acácio se a ciência podia explicar o nascimento de 4 doentes seguidos ou se seria mesmo uma maldição de Deus e ele disse-me que era pouco provável mas que poderia acontecer, que a culpa seria da estatística e não da mão de Deus.
– Mas, Sr. Padre, será que ninguém sabe disso, de que ela teve 4 filhos? E que é feito dessas crianças? Ela é minha tia e eu nunca ouvi falar disso...
– Os mais velhos sabem mas, como, entretanto, aconteceu algo de muito terrível, eu decretei que pecaria gravemente quem dissesse uma única palavra que fosse sobre o sucedido, que iria arder eternamente no fogo do Inferno. As crianças foram crescendo mas nunca chegaram a caminhar, falar ou sequer a comer pela sua própria mão. Aquela mulher e o marido, que também era teu parente pois era primo direito do teu pai, tinham uma canseira indescritível. Criar, sem terem leira nem beira, 4 crianças com aquele nível de dependência era algo inimaginável pelo que, pensava eu, o destino deles só poderia ser o Céu.
– E o que aconteceu a essas crianças?
– Um dia, já teria o mais velhinho uns 10 anos, estava eu a dormir e ouvi um burburinho na rua, alguém a praguejar contra Deus, a dizer coisas que, de tão terrível, não as posso repetir. Eu vim à janela e vi a Júlia com um archote a dizer que se ia matar mas que antes iria pegar fogo à igreja e, mesmo ,matar-me pois não passava de um enviado do Demónio. Vesti qualquer coisa e fui lá fora com a Santa Cruz numa mão e a caldeirinha da água benta na outra para tentar tirar-lhe o Diabo do corpo. A Júlia era uma pessoa tão temente a Deus que aquilo só poderia ser obra do Diabo, tinha que estar possessa pelo Satanás. Abeirei-me dela, benzi-a e perguntei-lhe “O que se passa mulher de Deus, o que te aconteceu de tão terrível para estares assim, vai de retro Satanás” e atirei-lhe com fartura de água benta. “Ai Sr. Padre que o meu marido foi-se abaixo, cometeu uma loucura. Venha comigo rapidamente que eu já não sei o que fazer à minha vida. A minha cabeça vai explodir, alguém me mate pois Deus abandonou-me de vez.”
– Mas afinal o que lhe tinha acontecido? – Perguntou a Maria Zé.
– Calma que já lá vou. A Júlia foi a correr feita louca e eu fui atrás dela, com a língua de fora, rumo a casa dela, lá no fundo da aldeia. Quando cheguei lá já estava a clarear e vi um vulto dependurado na laranjeira que tinham à porta, era o marido que se tinha enforcado. “Que tragédia”, pensei eu, “e agora o que vai ser das crianças doentes?” O cão estava danado ladrando com uma intensidade como nunca tinha visto. Aquele ladrar era respondido ao longe por latidelas de outros cães um pouco por toda a aldeia e o uivo dos lobos no monte. “Entre Sr. Padre, entre para ver a extensão da desgraça.” Disse a Júlia.
– Mas o marido não tinha morrido num acidente qualquer?
– Calma que isso é tudo para abafar a verdade. Eu entrei na casa, entrei directamente na sala e, como não havia luz, apenas notei um cheiro estranho e que o chão estava muito escorregadio e com uma substância que colava aos meus sapatos. “Que porcaria por aqui vai, nunca pensei que a Júlia fosse tão porca”, pensei eu, “Júlia traz uma vela que não vejo nada”. Enquanto eu olhava para o chão, a Júlia veio do quarto com uma vela e aí reparei que o chão estava cheio de sangue, parecia um lago. Como eu estava a olhar para o chão, a Júlia chamou pela minha atenção “Olhe para aqui Sr. Padre, olhe para aqui, olhe para cima da mesa, veja como estão os meus anjinhos”. Olhei e tive um choque terrível. Sobre um lado da velha mesa estavam alinhadas as 4 cabecinhas, organizadas da mais velhinha para a mais nova e, do outro lado, os corpos das 4 crianças, também organizados do maior para o mais pequenino. Coisa terrível, parecia um talho, o marido tinha, com o machado de rachar lenha, cortado fora a cabeça dos seus filhos. Quando vi aquilo, deu-me tamanha volta ao estômago que pensei que ia morrer, que me ia sair fora tudo o que tinha cá dentro.
– Sr. Padre, mas ninguém soube dessa tragédia? Como é possível o meu tio ter matado os 4 filhos e ninguém o saber?
– Abafamos aquilo como pudemos. Dissemos que, durante a noite, parte da casa tinha ruído e que tinha matado todos os cinco. Que a Júlia tinha escapado porque tinha ido, naquele momento, à retrete e que, por ter sofrido a desgraça de ver os filhos e o marido mortos de uma só vez, tinha virado do juízo. Para que tudo parecesse verdade, naquele mesmo dia foram uns homens de segredo deitar abaixo parte da casita onde viviam.
– Então é por isso que a Tia Júlia vive naquele anexo que foi galinheiro. Coitada, nunca mais deve ter tido coragem para entrar dentro da casa.
– Fizemos o funeral enterrando todos os cinco na mesma cova, naquela campa cuja lápide refere o nome do marido dela. Depois, a Júlia virou mesmo do juízo, ficou semanas na casa paroquial, atada de pés e mãos para que não se matasse. Foram semanas em que só praguejou. Todos os dias fazíamos uma novena a ver se recuperava. Um dia, quando já não havia esperança, como por milagre, calou-se e voltou ao seu estado normal até hoje.
– Sr. Padre, isso foi verdadeiramente terrível. Agora compreendo porque a Tia Júlia é uma pessoa tão triste. Realmente, em presença disso, o meu problema não tem importância nenhuma, imagino como terá sido perder ao mesmo tempo o marido e todos os quatro filhos. Coitada, tinha-lhe tanta raiva e agora sinto pena dela, já compreendo porque, quando lhe fomos pedir para fazer o defumadouro, pediu a Deus para a libertar do fardo.
– E sabes minha filha, no fundo fui eu o culpado por pelo menos parte da tragédia. Se ela tivesse feito o defumadouro, seria certo que as crianças teriam morrido mas, morreram na mesma e, no final, a Júlia ainda teria marido e, quem sabe, teria tido mais filhos saudáveis. Ao pensar que estava a evitar um pecado grave, estava a causar uma tragédia muito maior na qual nem as crianças que eu queria proteger escaparam. O Sr. Padre Félix quis avisar-me e eu, por sobranceria, por pensar que sabia mais dos desígnios de Deus que ele, não ouvi os seus conselhos.
– O Sr. Padre fez o que lhe pareceu certo à luz das Sagradas Escrituras.
– Pois parecia-me que sim mas o resultado foi catastrófico. Desde esse tempo, sei que os defumadouros passaram a ser feitos pela tua tia Júlia. Era uma mulher atormentada por aquela tragédia que tomou essa missão como penitencia. Minha filha, quanto ao teu pecado, não compete ao homem julgar o seu semelhante, isso é tarefa que temos que deixar a Deus.
– Mas Sr. Padre, como posso eu ter perdão se, no fundo, sinto um certo alívio pelo que aconteceu? Como pode Deus perdoar-me se eu não estou arrependida? A única coisa que posso prometer é que isto nunca mais se vai repetir porque nunca mais terei filhos.
– Minha filha, primeiro tens que recordar que Jacó enganou seu pai Isaque dizendo que era o Saúl e que, mesmo sem nunca se ter arrependido, Deus lho perdoou a ponto de ter sido ele quem deu origem ao povo eleito. Depois, o teu futuro não está mais nas tuas mãos. No meu julgamento, mantenho que tens que cumprir o mandamento “Crescei e multiplicai-vos” que Deus ordenou a Adão e, depois, repetiu a Noé, pelo que a penitência vai ter que ser exactamente ao contrário do que estás a pensar. Como prova perante Deus de que não foi nenhum sentimento egoísta que te levou a desejar e a aceitar a morte do teu Simeão, tens que ir ao altar prometer a Deus que, em substituição do Simeão, vais ter mais quatro filhos, ouve bem, quatro filhos. Reza agora o Acto de Contrição e, depois, vai à tua vida.
Enquanto a Maria Zé recitava o Acto de Contrição, as lágrimas vieram-lhe aos olhos de alegria por o seu pecado, afinal, ter perdão aos olhos de Deus mesmo sem sentir arrependimento. “Criar mais 4 filhos vai ser difícil mas Deus há-de-me ajudar”. Enquanto rezava, o padre Augusto decretou, fazendo o sinal da cruz, Ego te absolvo a peccatis tuis in nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti.

– Amen

Capítulo seguinte (7 - A revelação)

domingo, 24 de maio de 2015

6 - A confissão

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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6 – A confissão
A Maria Zé chegou à casa paroquial pouco passava das 10h30. Puxou o arame da sineta – tlim, tlim, tlim – e passado um ou dois minutos apareceu a criada do Sr. Padre, a Menina Encarnação.
– Bom dia Sra. Maria José, o que a traz por cá? Vejo que vem de preto pelo que não deve ser coisa boa.
– Sabe Menina Encarnação, o meu filho mais pequenino, o Simeão, morreu durante a noite e eu vinha cá para falar com o Sr. Padre e tratar do funeral. Já havia alguns dias que estava meio doente, não queria comer, ainda pensei chamar o Sr. Dr. Acácio mas como pensei que a doença não fosse grave e o dinheiro não gosta de aparecer lá por casa, adiei a coisa e agora, durante a noite, o meu menino morreu.
– Eu não tenho filhos mas toda a mãe quando tem um filho tem que se preparar para a eventualidade de o perder. A Sr. Maria Zé sabe que a vida é um constante apegamento às pessoas que amamos e despegamento quando as perdemos. E parece que Deus vê um certo pecado na felicidade do amor de mãe pois quanto mais alegria a mãe retira da sua criança, mais sofre quando Deus lha tira.
– É isso mesmo Menina Encarnação, estou aqui por dentro que não me aguento mas tenho que ir buscar forças onde as não tenho pois a vida tem que seguir em frente. Eu estive há pouco na casa do Sr. Costa e a Menina Dulcinha disse-me que se o sino tocasse hoje de manhã o funeral ainda poderia ser hoje, na missa das 18h. É que está calor e pode ser uma doença que ponha em causa a saúde pública.
– Eu imagino o que está a sofrer, imagino que quando morre um filho é um tempo de enorme desgosto mas, realmente, é preciso tratar das coisas práticas. Entre, entre e sente-se aqui que o Sr. Padre Augusto vem já, foi há igreja rezar pela salvação das nossas almas e tratar de uns assuntos de papeladas mas não demora. Entre que eu vou preparar uma limonada pois, neste tempo de calor, só faz bem e, depois, vou mesmo dar uma saltadinha à igreja a ver se apresso a coisa.
Naquele tempo de espera, a Maria Zé reviveu tudo o que se tinha passado na noite anterior. Como tinha lutado mas sem convicção e rezado mas sem fé na cura e na salvação do filho. Por causa dessa falta de convicção e por ter feito o contrato com a Tia Júlia achava-se muito culpada pela morte da criança. Mas, mais grave do que ter participado na morte, era não estar arrependida. No fundo, no fundo, estava conformada com o que tinha acontecido e até, em certa medida, contente e aliviada porque “não podia criar uma criança assim tão doente”. Não tinha orgulho no que tinha feito mas também não tinha vergonha. E se não estava arrependida como é que poderia ter o perdão de Deus? Estava mesmo condenada à perdição, afinal a ideia nobre de ter filhos, de dar cumprimento aos mandamentos de Deus, tinha-a condenado à perdição eterna, estava agora condenada a arder no eterno fogo do Inferno.
O Sr. Padre tanto pode ter demorado muito como pouco porque os pensamentos fizeram a Maria Zé perder a noção do tempo. Foi então que o Sr. Padre Augusto entrou na pequena sala de espera.
– Bom-dia Maria Zé, o que te traz por aqui minha filha? – Disse o Sr. Padre mal entrou na pequena sala.
– Abençoe-me Sr. Padre que venho aqui procurar o conforto dos Mandamentos de Deus. É que o meu filho mais pequenino, o Simeão, morreu-me durante a noite. E também venho pedir se pode marcar o enterro para ainda hoje, para logo à tarde. Disse-me a Menina Dulcinha que era o melhor que poderia ser feito por causa do calor que está. Sabe Sr. Padre, também estou com um peso na consciência porque não fiz o suficiente para evitar que a minha criança morresse.
– Por agora deixa-te disso da culpa pois precisamos primeiro tratar dos assuntos práticos. Oh Encarnação, vai a casa do Sr. Mariazinha dizer-lhe que item que r à igreja dobrar o sino para anunciar o funeral para ainda hoje e diz-lhe também para abrir uma cova para uma criança pequena. Depois, quando vieres, preparas a casula branca pois, sendo o funeral de um anjinho, merece a casula da inocência e da pureza. Maria José, vamos agora até à igreja para ouvir o que ias dizer mas agora sob a protecção do segredo da confissão.
A Igreja distava menos de cem metros da casa paroquial que foram percorridos em silêncio sepulcral. À frente ia o padre vestido com a batina preta, o chapéu preto e as mãos entrelaçadas com um terço de pérolas brancas atrás das costas. A Maria Zé perseguia-o a rezar avé-marias em pensamento. Chegados à sacristia, o padre meteu a chave à porta e abriu-a – “Aguarda ali que já lá te vou abrir a porta lateral da igreja” – entrou e fechou a porta novamente com duas voltas de chave. Ainda demorou lá dentro uns bons minutos, talvez a rezar junto do Santíssimo a pedir inspiração divina. Depois, abriu a porta lateral – “Entra minha filha, vamos para o confessionário” – Afinal aquele tempo tinha servido para vestir a alva.
A Maria Zé ajoelhou-se – “Abençoe-me Sr. Padre porque pequei por actos e omissões, por minha culpa, minha única culpa.”
– Deus te abençoe.
– Eu não posso ter perdão pois eu sou a responsável, por actos e omissões, pela morte do meu Simeãozinho.
– Deus compreende que na miséria em que vivemos nem sempre os país podem dar às suas crianças uma alimentação boa, Deus sabe e compreende.
– Mas Sr. Padre, a minha criança não morreu de fome ...
– Eu sei minha filha, eu sei tudo o que se passou ontem à noite em tua casa, eu sei que a tua Tia Júlia esteve ontem em tua casa para fazer o defumadouro à tua criança e que ela não resistiu.
– Mas como é que o Sr. Padre já sabe disso? Foi o Espírito Santo que lho disse?
– Não, nada, não foi nada disso, foi uma coisa mais terrena. É que a Júlia antes de ir a tua casa passou por aqui para rezar e para falarmos um pouco. Quando te ouvi dizer que a tua criança morreu durante a noite, somei dois com dois e descobri logo que essa tua criança não resistiu ao defumadouro. Sabes minha filha, vês que cá na nossa aldeia morrem muitas crianças, em cada 10 que eu baptizo, morrem umas 3 ou 4 antes de fazerem a comunhão. Deus deve querer que seja assim, se não é a fome é o tifo, se não é o tifo é o sarampo e se não é uma coisa nem outra, é o defumadouro, pelo que já estou habituado a estas tragédias.
– Mas Sr. Padre, o defumadouro não mata ninguém, o meu outro filhinho, o Rúben, também teve o defumadouro e não lhe aconteceu nada de mal. Não foi o defumadouro que matou a minha criança mas antes a Tia Júlia ter fechado a tampa da caixa da roupa onde tinha metido o meu filho juntamente com o fogareiro em brasa. Foi a caixa estar fechada que asfixiou a criança e o grave é que eu sabia que a criança ia asfixiar e não fiz nada para o evitar. Escondi-me atrás de uma esperança sem sentido de que iria acontecer o milagre da cura.
–Quando nascemos já sabemos que vamos morrer e se Deus permitiu que isso tivesse acontecido é porque queria a tua criancinha junto dele, tens que ter paciência. É sempre triste ver um filho morrer mas são os caminhos do Senhor para ver até onde vai a tua fé. Para ti é um sofrimento sem igual para para a tua criança, por esta hora já está no Céu.
– Mas senhor padre, eu não me fiz entender pelo que vou ter que ser mais clara, a minha criança morreu porque a Tia Júlia a matou e com a minha conivência. Não foi Deus que a chamou foi o meter do fogareiro em brasa numa caixa fechada juntamente com a minha criança. Não foi mais que uma Lei da Natureza, meter a criança com carvão a arder numa caixa fechada era certo que ela ia morre asfixiada e eu deixei que isso acontecesse. E isto não pode ter perdão, eu estou condenada à danação eterna.
– Mas minha filha vens aqui ser juiz ou ser réu? Vens aqui procurar perdão de Deus ou condenares-te?


Capítulo seguinte (7 - A penitência)

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Eficiência à Pareto e os imigrantes 3

A entrada de refugiados pode ser bom para todos.
Depois de terem interpretado os meus postes no sentido de eu ser racista (mais do que eles próprios), esforcei-me por mostrar que a entrada massiva de refugiados/trabalhadores de África ou da Ásia (baixa qualificação) numa economia tem riscos mas que também pode pode ser vista como uma oportunidade para a economia receptora.

Mostrei no primeiro poste (ver o poste
Que a entrada incondicional de refugiados irá reduzir o salário de mercado dos trabalhadores portugueses. Naturalmente, inicialmente o desemprego aumentará mas,  quanto mais flexível (mais rapidamente descer o salário), mais rapidamente o desemprego vai para o seu nível de equilíbrio.  Quantifiquei mesmo (usando um modelo calibrado) que a duplicação no número de trabalhadores numa economia levará a uma queda de 20% nos salários (no curto-prazo), perda parcialmente compensada pelo aumento da rentabilidade do capital.
Por "entrada incondicional" quero dizer que os refugiados têm os "mesmos direitos" dos portugueses.

O meu resultado é pessimista.
Como a entrada com "igualdade de direitos" causando prejuízo aos trabalhadores portugueses (que, juntamente com os seus dependentes, forma a maioria do eleitorado), o nosso egoísmo não permite a entrada.

Mostrei no segundo poste (ver o poste
Que a entrada com condições (com "desigualdade de direitos") em Portugal (e na Europa) dos refugiados pode ser em simultâneo boa para nós portugueses e para os imigrantes.
Pelo nosso lado (dos trabalhadores portugueses), começamos por impor as condições necessárias para que a entrada dos refugiados não nos cause prejuízo. Estimei que será suficiente que os refugiados paguem uma sobretaxa de TSU de 10% sobre os rendimentos auferidos.
Pelo lado dos refugiados, se vierem (podendo ficar onde estão) aceitando as nossas condições, revelam que, mesmo com "desigualdade de direitos", a entrada no nosso país é positiva para as suas vidas.
Também mostrei (com dados de Israel) que a entrada de trabalhadores não aumenta a taxa de desemprego (a velocidade de ajustamento depende da flexibilidade do mercado de trabalho) e pode mesmo permitir a exploração de "economias de escala".

O meu resultado é optimista.
Este meu resultado dá esperança aos desafortunados do Mundo. Mediante um contrato à Coase, é possível uma economia receber os refugiados e todos ficarem a ganhar.
Mas esta solução obriga a que os esquerdistas deixem o discurso hipócrita do "somos todos iguais" para, usando depois o argumento "humanista" do "não temos capacidade para lhes dar o que els merecem", barrar-lhes a entrada e deixa-los a morrer na "terra deles".

Fig. 1 - Macau foi uma Zona Franca criada em território arrendado pela China qem 1557 e em que Portugal era o Estado de Bandeira. Hoje é a região do Mundo com maior nível de vida (5x o nosso  poder de compra)

Mas, nos comentários, surgiram "problemas para além das questões económicas."
Supondo que Portugal aceitava 20 milhões de refugiados.
A argumentação foi que (amigo Louçã, estas ideias não são minhas, são dos meus queridos leitores e eu não vou fazer nenhum juízo de valor sobre elas pois não sou um esquerdista retórico):

Com o "contrato dos 10%" (mais 20% sobre o aumento dos juros, rendas e lucros) ficamos todos numa situação económica melhor mas ficamos em minoria dentro do nosso país.
Como os refugiados têm religião, língua e cultura diferentes das nossas que quererão transmitir aos seus filhos (previsionalmente, muitos) a prazo, quando os filhos adquirirem direito de voto, desaparecerá o Portugal que conhecemos actualmente. 

Vou então resolver este problema.
Se já respondi à questão económica, agora tenho que responder à questão da potencial "invasão cultural".
Penso que a minha solução (copiada um pouco de Macau e Hong -Kong com aplicação do conceito de extraterritorialidade) é uma forma boa para ambas as partes (portugueses e refugiados) sendo que se alguém tiver outra solução, peço que avance com ela para enriquecer a discussão.

As Zona Francas.
Um pouco por todo o mundo existem Zonas Francas pelo que devem responder a um problema económica concreto.

Fig. 2 - A Autoeuropa de Palmela é uma Zona Franca.

O problema que resolvem.
Vamos supor uma empresa japonesa que funciona no Japão onde tem 1000 trabalhadores, compra matérias primas um pouco de todo o mundo, paga impostos no Japão e vende para os Estados Unidos.
Esta empresa não nos afecta em nada mas, se a atraíssemos para Portugal, mesmo que não pagasse impostos, teríamos lucro na parte em que contrataria trabalhadores portugueses e compraria bens intermédios localmente.
Uma Zona Franca, ZF, permite que a empresa estando fisicamente em Portugal, responda perante uma legislação especial (que lhe dê, por exemplo, isenções fiscais).

O que nós ganhamos com isso?
Se a empresa estando no Japão não nos dá qualquer benefício, estando no nosso território mas dentro de uma "redoma de vidro" onde não conseguimos cobrar impostos nem mandar em nada parece que não nos dará qualquer lucro.
Mas dá pois, motivado pela proximidade, a empresa japonesa vai precisar contratar trabalhadores portugueses e adquirir bens e serviços locais.
Assim, Portugal tem benefícios indirectos.

Como funciona uma Zona Franca.
Em termos de bens é  micro-país "meio estrangeiro" encravado dentro de Portugal.
Os bens com destino à ZF que vêm do Resto do Mundo e os bens com destino para o Resto do Mundo atravessam Portugal em contentores lacrados que não são controlados nem pagam impostos.
Existe, como se fosse outro país, uma alfandega para controlar os bens que saiem da ZF para Portugal e, sendo caso disso, são cobrados impostos alfandegários.

As pessoas que saiem da Zona Franca não são controladas.
É só "meio estrangeiro" porque a generalidade da legislação portuguesa aplica-se ao território da ZF. Em particular, as empresas localizadas na ZF apenas podem contratar trabalhadores que tenham visto de trabalho (working permit) em Portugal e têm que obedecer à generalidade da legislação nacional onde se inclui o Código do Trabalho.
Se, por exemplo, a empresa japonesa quiser contratar 100 trabalhadores marroquinos (ou japoneses), terá que garantir que têm autorização de residência em Portugal. Por outro lado, se um trabalhador matar outro dentro da ZF terá cometido um crime em Portugal, sendo julgado num tribunal português segundo a lei portuguesa e, uma vez condenado, cumprindo a pena numa cadeia portuguesa.
Como existe esta restrição sob as pessoas, não é necessário a alfandega controlar os passaportes à das pessoas que saiem da ZF.

E não seria possível dar as mesmas condições a todas a firmas portuguesas?
Não porque isso teria um impacto (negativo) muito grande na receita fiscal.
Avaliado que a empresa japonesa nos causa benefício, tem que ser desenhada uma isenção fiscal suficiente para a atrair para cá (por exemplo, uma isenção total de IRC).
Mas a aplicação da isenção total de IRC a todas as empresas portuguesas teria um impacto em termos de redução da receita fiscal na ordem dos 5 mil milhões € por ano.

Segmentação do mercado fiscal.
A ZF vai permitir "segmentar" o "mercado de impostos" sendo cobrada uma taxa mais elevada às empresas que não podem deslocalizar-se e uma taxa mais baixa às que se podem deslocalizar.
Aplicando o trabalho "equilíbrio de corpos sólidos" do Pareto, a taxa de imposto terá que ser menor nas empresas em que a "elasticidade da mobilidade" for maior.
Se a elasticidade da mobilidade da empresa A é 1 quer dizer que por cada aumento de 1% no IRC, a empresa desloca 1% da sua actividade para o exterior.
Para maximizar a receita de IRC as taxas terão que ser diferenciadas:
Vejamos um exemplo com 4 empresas em que cada uma facturação de 10000€ e tem uma margem de lucro de 10% sobre a facturação.
Se a taxa de IRC for igual para todas as empresas, a taxa que maximiza a receita de IRC é de 33% que é de 500€. O nível de actividade é de 15000€.

Empresa  elasticidades  IRC(fixo)    deslocaliza
A    =>         1      =>      33%      => 33%
B    =>        1,5     =>     33%      =>  50%
C    =>         2      =>      33%      =>  67%
D    =>        10     =>      33%      =>  100%

Se a taxa de IRC for variável, a receita fiscal será de 566€ e o nível de actividade no país de 20000€.

Empresa  elasticidades  IRC(variável)  deslocaliza
A    =>         1      =>      50%         => 50%
B    =>        1,5     =>     33%         =>  50%
C    =>         2      =>     25%         =>  50%
D    =>        10     =>      5%         =>   50%

Fig. 3 - Fui-me embora porque na Holanda as pens são deste tamanhinho.


Extraterritorialidade.
No caso dos navios e dos aviões (e das embaixadas) existe extraterritoriedade que é um estatuto muito mais forte que o das Zonas Francas "normais".
A extraterritorialidade faz com que no interior do navio (ou do avião) não se aplique a legislação do país onde ele se encontre mas sim a legislação do Estado de Bandeira.
Por exemplo, um navio de uma empresa portuguesa registado no Panamá poderá ter marinheiros das filipinas sem working permit português pois no interior do navio aplica-se a lei do Panamá que não se importa com isso.
Se um filipino matar um malaio a bordo do navio, mesmo que esteja atracado no Porto de Lisboa, será julgado no Panamá, sob a lei do Panamá e cumprirá pena no Panamá.

Os navios e os aviões são zonas francas "fortes".
Quando um navio (ou um avião) entra num país, a entrada e saída de bens são tratados como entradas e saídas do Panamá (do Estado de Bandeira). Desta forma, o trânsito de bens entre o navio e países terceiros em contentor fechado não são controlados (nem tributados).
Acresce que os passageiros também são tratados como se tivessem residência no Panamá, precisando mostrar o passaporte e ter visto de entrada no país onde o navio está atracado.
Também se uma criança nascer a bordo do Navio, legalmente terá nascido no Panamá.
O interior do navio goza de extraterritoriedade.

O interior do navio (avião) não é uma democracia.
O interior do navio (do avião ou da embaixada) é uma ditadura absoluta em que o Rei Sol é o capitão da embarcação (ou o embaixador).
Apesar de os passageiros serem residentes do navio (ou do Avião), não podem votar para eleger o capitão nem fazer um referendo à rota.
Uma vez registado o Capitão pelo dono da embarcação em acordo com o Panamá, as outras pessoas a bordo do navio só têm que obedecer ou atirarem-se ao mar.

Vamos então à minha solução.
Eu meti, finalmente, o meu pedido à Presidente da Assembleia da República para Portugal me permitir receber os refugiados que eu quiserem.
É um modelo semelhante ao contrato de arrendamento de Macau (de 1557) e Hong-Kong (de 1899).

A ZF será uma empresa privada.
Artigo 1.º) O Estado Português concede ao requerente um território para que possa aí instalar uma Zona Franca, ZF, capaz de dar acolhimento a refugiados sem distinção da sua origem nacional ou qualquer outra condição.
Artigo 2.º) A ZF é uma entidade empresarial.
Artigo 3.º) O território terá que ser adquirido ou arrendado pela entidade promotora da ZF.

A ZF é um misto entre um navio e uma embaixada.
Artigo 4.º) O território da ZF mantem-se como parte integrante do território de Portugal.
Artigo 5.º) O território da ZF tem um estatuto de extraterritorialidade relativamente a Portugal semelhante, com as necessárias alterações, ao espaço interior de um navio (CNUDM III).
Artigo 6.º) Portugal concessiona o território à ZF por 100 anos, renovável por períodos consecutivos de 25 anos.
Artigo 7.º) No caso de Portugal não pretender renovar o contrato de concessão tem que avisar a ZF com pelo menos 20 anos de antecedência.
Artigo 8.º) A ZF terá um Estado de Registo.
Artigo 9.º) As leis e convenções internacionais em vigor no território da ZF serão as leis e convenções internacionais em vigor no Estado de Registo que terá obrigatoriamente que transcrever para a ordem jurídica interna da ZF todas as directivas europeias. 
Artigo 10.º) O Estado de Registo da ZF está dependente da aceitação por parte de Portugal.

O importante é aproveitar o livre comérico com a UE.
Artigo 11.º) Apesar do estatuto de extraterritorialidade relativamente a Portugal, a ZF é parte integrante da Zona Euro (pertença subsidiaria de Portugal) com quem mantém liberdade de movimento de bens, serviços, capitais e pessoas (relativamente aos residentes no Espaço de Schengen).

Agora vem a resposta ao "problema cultural").
Artigo 12.º) Os residentes da ZF e os seus descendentes são Cidadãos Ultramarinos do Estado de Registo (situação juridica comparável à da “British Overseas Citizenship”) o que traduz que, relativamente a Portugal, ao Espaço de Schengen e à UE, os cidadão da ZF são estrangeiros não residentes.

Questões sem grande importância.
Artigo 13.º) Os cidadãos da ZF têm o direito de a abandonar para qualquer país ou território que autorize a sua entrada.
Artigo 14.º) A ZF tem como línguas oficiais o Português e o Inglês.
Artigo 15.º) A ZF pagará ao Estado Português uma renda anual de 1000€/ha/ano actualizável anualmente à taxa de inflação.
Artigo 16.º) O Estado Português compromete-se a facilitar a ligação da ZF às infra-estruturas europeias, entre outras, às auto-estradas, portos, aeroportos e redes eléctrica, de abastecimento de água e de telecomunicações.
Artigo 17.º) O Estado Português compromete-se a emitir salvo-condutos para todos os cidadãos da ZF que pretendam deslocar-se de e para zonas internacionais e países terceiros.

E o que acontece no fim dos 100 anos?
Artigo 18.º) Findo o contrato de concessão, o território usado pela ZF terá que ser devolvido livre de residentes.
Artigo 19.º) A ZF compromete-se a acumular anualmente reservas financeiras no valor mínimo de 10% do seu PIB para, na eventualidade de não haver renovação do contrato de concessão, ser possível a ZF pagar os custos da recolocação dos seus cidadão noutro país.

Eu penso que resolvi à "questão cultural" levantadas nos comentários.
As pessoas e os seus filhos serão "naturais ultramarinos" do Estado de Bandeira (que poderá ser, por exemplo, o Panamá)  o que traduz que usarão passaportes do Panamá para poderem sair da ZF. Assim, apesar de estarem em território que pertence a Portugal (tal como o navio pertence a um português) serão residentes do Panamá (o hipotético Estado de Bandeira).
Naturalmente, também poderão ser cidadão do país de naturalidade mas haverá casos em que isso não será possível não só por nenhum país os reconhecer como seus cidadão como por desorganização administrativa.

E há ainda a questão do "facto consumado."
Depois de estarem na ZF, cria-se um facto consumado em que é impossível mandar as pessoas para outro lado qualquer. A constituição obrigatória de reservas foi a solução que imaginei para ser possível, no caso de não renovação da concessão, de os descendentes dos actuais refugiados poderem, daqui a 100 anos, ser aceites noutro sítio qualquer.
É que o dinheiro abre muitas portas.
Juntando o dinehiro ao previsível aumento da escolaridade e riqueza da população da ZF, este problema não será um problema.
E daqui a 100 anos jé estaremos todos mortos e com os ossos já derretidos pela água da chuva.

Agora pedia-vos que subscrevessem a petição.
Tem lá um erro ou outro mas penso que é uma proposta equilibrada e que me vai fazer um homem rico e ainda ganhar o Prémio Nobel da Paz.
Depois disto ninguém pode dizer que Portugal não tem condições para abrigar os desgraçados que existem um pouco por todo o mundo.
Só 2 pessoas assinaram a petição (eu e outra) pelo que, se calhar, os portugueses não querem os refugiados cá. Ajude-me a ajudá-los.

peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT77218

Um bocadinho sobre o Equilíbrio de Nash e de Pareto.
O equilíbrio de Nash é quando ninguém quer mudar para melhor (se alguém mudar será para pior). Por causa disso, é um equilíbrio estável
O equilíbrio de Pareto é quando uma pessoa pode mudar para melhor mas vai prejudicar alguém. Assim, é diferente do de Nash onde ninguém quer mudar, sendo normalmente instável (requer auto-controlo).

Exemplo de equilíbrio de Pareto instavel (que não é equilíbrio de Nash).
Se todos nós fossemos sérios, não precisaríamos de ter fechadura nos automóveis (poupavamos essa despesa e o trabalho de fechar e abrir o carro). Este seria um equilíbrio de Pareto pois para alguém melhorar (roubar-nos o carro) nós piorávamos.
Mas, como sabemos, este equilíbrio de Pareto não é estável pois cada individuo tem incentivos para roubar o carro dos outros. Então não é um equilíbrio de Nash (não é estável).

Exemplo de equilíbrio de de Nash que não é de máximo social.
Em nossas casas o equilíbrio de Pareto é todos fazermos pouco barulho porque, apesar de perdermos liberdade, sabemos que o barulho perturba os vizinhos.
O equilíbrio de Nash será fazermos barulho quando nos apetece o que fará com que no nosso prédio seja uma barulheira toda a noite.

Fig. 4 - A Halle Berry é mesmo boa em equilíbrio em cima dos sapatos agulha (se calhar, falta uma vírgula a seguir a "boa").

Pedro Cosme Vieira

quarta-feira, 20 de maio de 2015

5 - A casa

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (4 - A preparação)



5 – A casa
O casebre era pequeno, 9 x 6 m2, com uma parede no sentido transversal usada para formar a dispensa onde estavam guardados 5 pipos de vinho, a caixa do pão com uma divisão maior para o milho e outra menor para o feijão e a caixa da roupa maior, cobertores, mantas e casacos para usar no Inverno. O quadrado que sobrava do casebre era dividido pela cumeeira numa metade que era a sala e na outra metade que eram dois quartos onde praticamente só cabiam a cama, uma caixa pequena para a roupa de vestir e um banco que também servia de mesinha de cabeceira. A sala tinha uma mesa formada por duas tábuas velhas, dois bancos corridos e, na parede, uma prateleira onde estava a louça em barro vermelho, seis pratos, outras tantas malgas e uma travessa, muita dela já costurada com arames enferrujados.
Fora da casa havia os anexos feitos em paus atados entre si e emassados com barro e palha. Eram a retrete, a cozinha e o galinheiro e, depois, a arrecadação para as batatas, o feno e as alfaias agrícolas e os currais do porco e das ovelhas. O casebre de um lado e os anexos do outro lado cercavam o pátio que, no seu conjunto, fazia a casa parecer uma cidadezinha muralhada em que o porteiro, um cão magro preso por uma corrente, ladrava ruidosamente, fosse dia, fosse noite, sempre que alguém passava por perto.
A menina Dulcinha meteu a chave à porta, abriu-a e entrou juntamente com o pai que levava debaixo do braço a urna com a roupa dentro. Com eles ia a Sra. Celeste para ajudar a lavar e a vestir a criancinha morta. O ambiente era de grande pobreza, as paredes escuras de nunca terem visto caiação. A criança estava no quarto, no seu bercinho de verga, rosadinha como se estivesse viva mas morta como já seria de esperar pois a Maria Zé não se ia enganar e o Milagre da Ressurreição do Lázaro só aconteceu uma vez na história bíblica. Logo a seguir chegou o Dr. Acácio.
– Bom dia. Está bom, Sr. Costa? Senhora e menina, então o que temos por aqui? – disse o Dr. Acácio.
– Sabe Sr. Doutor, é que a criancinha morreu de noite e, como quando morre uma criança a estes desgraçados aparece sempre o Polícia Vieira, como me pareceu haver uma certa duvida nas causas da morte, achei melhor chamar o Sr. Doutor. Venha ali até ao quarto que a criança está lá.
O Dr. Acácio entrou no quarto – “Mau, a criancinha está rosada o que não é bom sinal, o Polícia Vieira vai achar estranho uma criança morta estar rosada. Sabe menina, é que esta cor indica uma intoxicação com fumo o que, no Verão, é estranho. Vou ter que fazer alguma coisa para disfarçar esta cor de forma a poder escrever na certidão que morreu de doença gastrointestinal. Sra. Celeste, se faz favor, venha aqui lavar a criança.”
Com a criancinha lavada e seca, o Dr. Acácio foi à sua mala preta e tirou um boião com uma substância de cor escura azulada que parecia graxa para os sapatos. Com dois dedos foi escurecendo a cara e as mãozinhas da criança. Depois de estar num tom mais compatível com a morte, limpou as suas mãos com um lenço que também tirou da mala.
– Pronto, agora já está com a cor que eu queria, já parece morta. Vamos vestir a criancinha para eu ver se precisa de mais algum retoque. Sra. Celeste, antes de virem as pessoas ver a criança defunta é preciso fazer uma desinfecção geral da casa, pegar nesta roupa toda que teve contacto com a criança e mete-la numa barrela com lixívia. Não vá o diabo tecê-las, vou também afixar aqui um papel à porta a dizer que, como a criança morreu de doença contagiosa, os menores de 10 anos não podem entrar na casa. Menina Dulcinha, não se esqueça disto. – Virando-se para a menina Dulcinha – E o pagamento, está por sua conta Dulcinha?
– Está sim Sr. doutor – a Dulcinha, tirando do bolso uma pequena carteira, abriu-a e tirou duas notas de 10€ e outra de 5€ – faça favor Sr. Doutor.
Estando a certidão passada e o pagamento feito, o Dr. Acácio foi-se embora a pé e começou imediatamente a limpeza da casa.

– Sra. Celeste, estou a ouvir o sino da igreja o que indica que o funeral vai ser hoje. Tenho que ir rápido ao posto da polícia para tratar ainda de manhã dos papéis do enterramento, penso estar de volta dentro de uma horita. Fique a tratar de tudo e não se pode esqueça que, para receber as pessoas que vierem ao funeral, ainda é preciso fritar as pataniscas de bacalhau, encher 5 garrafões de vinho e fazer uma limonada para as crianças.

Capítulo seguinte (6 - A confissão)

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Eficiência à Pareto e os imigrantes - 2

O resultado mais importantes da Ciência Económica. 
Se o "João" tem à disposição as opções A, B, C, D e E  (imaginemos que são números dos sapatos) e tem informação sobre o impacto que cada uma das opções terá no seu bem-estar, se escolher, por exemplo, a opção A, fica revelado que ficará melhor com A do que se lhe for imposta qualquer uma das outras opções disponíveis.
O facto de o "João" ficar melhor quando opta por A, não implica que o "Joaquim" não fique melhor se optar por B (por o tamanho dos pés ser diferente).
É a falta de informação sobre "os números dos pés" (i.e., os gostos e preferências) das pessoas que faz com que o comunismo seja irremediavelmente pior que o capitalismo.
Pode parecer estranho mas a "exploração do homem pelo homem" é melhor para o homem que a "sociedade socialista perfeita".

Não podemos fazer um  julgamento moral sobre as decisões das pessoas.
Tem que ser cada pessoa a dizer qual é a melhor opção para si. Claro que as pessoas estão limitadas nas suas opções (o bom era ganhar o Euromilhões) mas a Economia trata exactamente disso, a melhor decisão do individuo sob a sua "restrição orçamental".
Não pode ser o "João" a dizer o que é melhor para o "Joaquim" usando argumentos morais do tipo "isso é degradante para a tua condição humana" pois isso só prejudica o "Joaquim" que se quer proteger.
Se o "João" não sabe o número do pé do "Joaquim", não pode decidir qual é o melhor par de sapatos para o "Joaquim".
Por exemplo, não posso proibir a prostituição por achar que é indigno para a prostituta pois, no final, apenas estarei a prejudicar a prostituta que quero proteger. Se a pessoa concreta se dedica voluntariamente a essa actividade é porque o seu bem-estar fica maior do que se se dedicasse a outra actividade para a qual tem aptidões. Pode até acontecer que a prostituta preferisse ser astronauta, mas essa actividade não está no seu espaço de opções, não está dentro da sua "restrição orçamental."

Vamos aos alienígenas.
Sendo dada a hipótese a uma pessoa, (por exemplo, da Eritreia), de comprar um bilhete da TAP e vir trabalhar para Portugal ganhando, por exemplo, 100€/mês, se essa pessoa optar por vir, então, revela que se sente melhor a viver e trabalhar cá por um salário considerado por nós de miséria do que ficar onde está agora. 

Vilfredo Pareto.
Pareto era filho de um italiano e de uma francesa, nasceu em França em 1848 e morreu na Suíça em 1923.
Por incrível que possa parecer, Pareto, que foi um dos mais importantes economistas de sempre, era Engenheiro Civil e foi o seu trabalho em Engenharia Civil que transformou a Economia. E o Walras que também é importantíssimo na Economia era Engenheiro de Minas (como eu)!
A sua tese de doutoramento em Engenharia Civil trata do equilíbrio de corpos sólidos ("Os princípios fundamentais do equilíbrio dos corpos sólidos"), metodologia que aplicou à Economia a partir de 1886, já com 44 anos, quando se tornou professor de economia na Universidade de Florença.
Pareto prova que o liberalismo económico (cada pessoa escolher o que acha melhor para si) é a melhor forma das pessoas melhorarem o seu nível de vida.

Fig. 1 - Estudo do Eng. Pareto => Quando uma estrutura super-critica está em equilíbrio, para diminuir a tensão numa barra (a vermelho) terá que haver aumento da tensão em pelo menos uma das outras barras (a preto).

E se a acção do outro me prejudicar?
Quando as pessoas não estão numa situação de equilíbrio de Pareto, é possível uma pessoa melhorar sem que a sua acção prejudique ninguém. Mas, quando as pessoas estão em equilíbrio, isso já não é possível, para uma pessoa melhorar, pelo menos uma outra pessoa vai ter que piorar o que é tal e qual o que acontece no equilíbrio super-crítico de estruturas (ver, Fig. 1).
Uma estrutura super-criticas é uma estrutura que tem "graus de liberdade", i.e., mais barras que as necessárias para que possa haver equilíbrio de forças.

Contrato à Coase.
Apesar de num equilíbrios de Pareto para uma pessoa melhorar outra tem que piorar, se o ganho de uma pessoa for maior que a perda da outra pessoa, é possível desenhar um contrato de compensação entre as pessoas que faça com que ambas fiquem melhor na nova situação (ambas ganham).

Exemplos de mecanismos de compensação.
Como andar de carro causa dano às outras pessoas (o fumo, as emissões de CO2 e o congestionamento das estradas), em vez de proibir os carros, o óptimo é o "colectivo" obrigar a pessoa que anda de carro a pagar um imposto (sobre o combustível e sobre o uso da estrada) que compense as pessoas prejudicadas.
Como fumar causa um previsível aumento da despesa do Serviço Nacional de Saúde, em vez de proibir fumar, o óptimo é o "colectivo" obrigar o fumador a pagar um imposto sobre o tabaco que compense o incremento previsível nas despesas médicas.
Como passar uma estrada em cima da minha casa causa incremento do bem-estar da "sociedade" (e um prejuízo para mim), o "colectivo" vai fazer a estrada indemnizando-me da perda.

E proibir fumar drogas?
A evidência diz que não causa mais dano (mais despesa à sociedade) do que fumar tabaco.
Então, em vez da proibição, deveria ser avaliado o prejuízo à sociedade e cobrado ao individuo um imposto que compensasse esse prejuízo.

O contrato de compensação entre o alienígena e os portugueses.
A entrada de imigrantes, sejam eritreus, somalis, nigerianos, birmanêses, bengalis, etc., causa um prejuízo directo aos trabalhadores portugueses (induz no curto-prazo uma diminuição nos nossos salários) e um benefício aos donos do capital (induz no curto-prazo um aumento nos lucros, juros e rendas).
Como o imigrante ao entrar no nosso país está a revelar que a sua situação melhora, vai estar disponível para pagar uma taxa que pague os prejuízos causados.
Agora, podemos desenhar um contrato com 3 partes, o imigrante, os donos do capital e os trabalhadores portugueses.

O que calculei no poste anterior (ver).
Que a duplicação no número de trabalhadores (correspondente à entrada no nosso mercado de trabalho de 5 milhões de trabalhadores) induz uma diminuição nos salários de 20% e um aumento nos lucros, rendas e juros de 60%. (No cálculo assumi que os salários não na ordem dos 55% do PIB, ver, PorData)
Se o incremento nos lucros pagar um IRC de 20% (que vai para os trabalhadores portugueses) então, o imigrante pagando uma sobretaxa de TSU de 10% sobre o seu salário mais do que compensa as perdas dos trabalhadores portugueses.
Se antes o salário disponível dos trabalhadores portugueses era 1000€/mês, com os imigrantes passam a ter 800€/mês. Mas, como o IRC aumenta 170€/mês e a sobretaxa de TSU sobre os imigrantes soma mais 80€/mês, os trabalhadores portugueses que vão receber esse valor como subsídio passam a ter um salário disponível de 1050€/mês.
Em vez da actual TSU de 11%, os imigrantes vão pagar uma TSU de 16% e os trabalhadores portugueses vão pagar uma TSU negativa de -10% (vão receber um subsídio).

Todas as pessoas ficam beneficiados.
Afinal, a Ciência Económica permitiu-me desenhar um contrato de compensação à Coase que faz com que a entrada (de 5 milhões) de imigrantes no nosso mercado de trabalho melhore o rendimento disponível dos trabalhadores portugueses (e o rendimento disponível dos donos do capital).
i) Se o candidato a imigrante sabe que vai pagar 10% de sobretaxa de TSU e, mesmo assim, que vir para cá viver e trabalhar, está a revelar que fica melhor vindo do que está hoje na sua pátria.
ii) Os donos do capital ficam com os seus lucros, juros e rendas aumentados.
iii) Por fim, a compensação dada aos trabalhadores portugueses vai fazer com que também fiquem melhor do que estão agora.

Mas não será a aplicação da sobretaxa de TSU aos imigrantes uma "escravatura"?
Nem pensar.
A diferença entre ser-se obrigado a recolher lixo porque não se arranja melhor emprego e ser escravo (mesmo que a recolher lixo) é que o escravo não pode escolher o trabalho nem o empregador.
O escravo é recolhe lixo quando queria apanhar morangos enquanto que o homem livre recolhe lixo porque, dadas as suas possibilidades, é o emprego que lhe dá mais bem-estar.
Quando os portugueses iam buscar as pessoas a África para os levar para o Brasil, isso era feito contra a vontade dos africanos.
O escravo não tem a opção de ir embora para a sua terra nem de trocar para um trabalho que ache melhor (mesmo que para nós não seja melhor).
Não se trata de escravatura porque o imigrante vem voluntariamente trabalhar para Portugal podendo ficar na sua terra e, além disso, a todo tempo pode voltar à sua terra natal.

Será que se sente escravo da sua mulher (homem)?
Não me vai dizer que a sua mulher (ou homem) é a coisa mais perfeita que existe no Mundo mas (dada a sua beleza, simpatia e riqueza) foi o melhor que conseguiu arranjar.
A economia é igual, dada a nossa capacidade (de sacrifício, de produzir, etc.) o nosso emprego foi o melhor que conseguimos arranjar e o que consumimos é o melhor que podemos pagar.

Fig. 2 - Com uma penezita que nem chega a 1MB, foram as maiores que eu consegui arranjar. Mas resolvo o problema fácil, dou biberão às crianças.

O amigo leitor não acredita que os imigrantes criem postos de trabalho.
Realmente é contra-intuitivo.
Se actualmente existem 1000 trabalhadores e só existem 900 empregos, então, parece evidente que aumentando o número de trabalhadores para 2000, vai passar a haver 1100 desempregados.
Esta dúvida está num extenso comentário do Fernando Gonçalves.

Ninguém acredita no que eu acabo de dizer porque não tenho credibilidade.
É difícil aceitar o que acabei de dizer porque vivemos num mundo intoxicado por esquerdistas e sindicalistas (todos cabeças de vento que se recusam a pensar).
Se eu tivesse a credibilidade dos "12 Sábios do PS", bastava-me dizer que a economia vai crescer num ano do Costa mais do que cresceu nos 6 anos do Sócrates para que toda a gente acreditasse.
No meu caso, vou ter que provar o que afirmo. Vou ter que responder à seguinte questão de investigação:

H1: A entrada de imigrantes aumenta o número de empregos da economia (?).

O que será que faz o número de empregos aumentar quase instantaneamente?
Isso acontece por duas vias.

1) Uma percentagem muito grande dos empregos que existem são de apoio directo às pessoas (cabeleireiros, restaurantes, limpeza das casas, recolha do lixo, ensino, saúde, construção de casas, etc.). Não estarei longe da verdade se afirmar que 3 em cada 4 empregos de uma economia são de apoio directo às pessoas.
Por esta via, a entrada de novas pessoas induz um aumento instantâneo no número de empregos.

2) Depois, o desemprego é "causado" por os salários serem superiores à produtividade do trabalhador (se os salários diminuírem, são instantaneamente criados novos empregos).
Por esta via, a descida dos salários faz com que sejam criados os empregos que ficam a faltar (que não são de apoio directo às pessoas).

Vou buscar o exemplo de Israel.
Israel foi criado em 1949 com o fim de aceitar os judeus da diáspora. Por causa disso, de vez em quando, observa-se a entrada massiva de "novos" judeus.
A) Entre 1989 e 1995 Israel recebeu 1,1 milhões de judeus vindos da URSS e da Etiópia e,
B) Entre 1995 e 2006, recebeu mais 1,2 milhões de pessoas vindos do espaço da Ex.-URSS.
No espaço de 15 anos, Israel recebeu 2,5 milhões de imigrantes que corresponderam a mais de 50% da população de 1989.
Para o caso português, corresponde a recebermos 5 milhões de imigrantes, recebermos 1000 pessoas por dia durante 14 anos.
Agora vou usar os dados de Israel para medir o impacto da entrada massiva dos imigrantes no mercado de trabalho no número de empregos disponíveis na economia.

Vamos então aos dados.
Fui ao Banco Mundial buscar os dados.
Olhando para os dados referentes a Israel (ver, Fig. 3), vemos que em 2006 a taxa de desemprego era exactamente a mesma taxa de desemprego de 1989!
Não pode ser (segundo os esquerdistas), depois de num espaço de 15 anos terem entrado imigrantes que aumentaram a população em mais de 50%, a taxa de desemprego ficou exactamente na mesma!
Nos dois casos de entrada massiva de imigrantes, no imediato, por cada 5 pessoas que entraram, criaram-se 4 postos de trabalho. Depois, o posto de trabalho que ficou a faltar foi criado em menos de 3 anos.

Fig. 3 - Taxa de desemprego em Israel (Dados: Banco Mundial)

Ficou provado.
Consegui provar que a entrada massiva de imigrantes causa uma (quase) imediata criação massiva de postos de trabalho para absorver a nova mão de obra.
Fica provado que a entrada de imigrantes aumenta o número de empregos da economia.

E também temos o exemplo da Alemanha que, em 1989, recebeu mais de 10 milhões de novos habitantes (da RDA). Inicialmente a taxa de desemprego aumentou mas hoje a taxa de desemprego é metade da média da Zona Euro (ver, Fig. 4).

Fig. 4 - Taxa de desemprego na Alemanha (dados: World Bank)

E como evoluiu a produtividade em Israel?
Como no curto prazo a quantidade de capital fica a mesma, no meu poste anterior (ver) mostrei que produtividade diminui (14% no caso do número de trabalhadores duplicar). Mas, como a rentabilidade do capital aumenta (60% no caso do número de trabalhadores duplicar), o investimento vai aumentar o que repõe rapidamente a produtividade no nível anterior.
Vou avaliar a seguinte questão de investigação:

H1: A entrada de imigrantes diminui o PIB per capita da economia (?).

Vou agora buscar os dados concretos da economia de Israel usando o PIB per capita como medida da produtividade.

Olhando para os dados.
Não só a produtividade não diminuir como ainda teve um salto em 1994 (ver, Fig. 5).
Além disso, a taxa de crescimento acelerou.
Isto é totalmente ao contrário ao que seria de esperar.
Como é que com a entrada dos russos, ucranianos e etíopes a produtividade não só não diminuiu como cresceu?
Isso traduz que a entrada dos "novos" judeus, além de induzir um aumento no investimento, permitiu p explorar de "economias de escala" que existiam na economia (por exemplo, um policia tanto guarda 10 pessoas como 15 pessoas).
em termos de modelo traduz que a Economia é Y = 9 * N^0.35 * K^0.75 e não Y = 9 * N^0.30 * K^0.70 como a "minha" economia.
Fica provado que a entrada de imigrantes não diminui o PIB per capita.

Fig. 5 - PIB per capital em Israel (Dados: Banco Mundial)

Esta fase vai dar um poste do Louçã e uma primeira página do Jornal i.
Em termos simétricos, se a população diminui,r o desemprego não diminui porque entra em funcionamento o "mecanismo de criação de empregos" mas ao contrário. Acabam os empregos de apoio à pessoas e os outros também acabam por ser destruídos porque a rentabilidade do capital diminuiu. Este "efeito simétrico" verificou-se, por exemplo, na Ucrânia e no Ruanda onde, a população diminuiu significativamente mas o desemprego não diminuiu.
Por causa desta dinâmica, se matássemos todos os desempregados da Zona Euro, o desemprego cairia imediatamente para zero mas, rapidamente, tornaria ao nível actual de 11%.

Eu escrevi mesmo isto!
Óh Louça, eu escrevi mesmo que "Se matássemos os desempregados todos da Zona Euro o desemprego cairia imediatamente para zero", aproveita esta para entreteres os mentecaptos brochistas de esquerda que te seguem por seres o Deus Brainless.
E também vai dar uma capa no Jornal i e uma crónica do Bruno Nogueira.

No caso português, a criação de empregos será ainda mais rápido.
É que nós vivemos muito integrados num mercado que é pelo menos 50 vezes maior que a nossa economia, mercado esse que é concorrencial o que traduz que, quando um vendedor baixa um pouco o seu preço, as encomendas aumentam muito mais que proporcionalmente.
Então, a diminuição dos custos de produção induzida pelos baixos salários dos imigrantes induz um rápido aumento (quase ilimitado) de novas encomendas.

Para terminar, vamos ao dilema moral.
Quando os esquerdistas decretam que "o capitalista explora o trabalhador" assumem-se como julgadores morais da opção voluntária do trabalhador. Bem sabemos que as opções de cada um de nós estão limitadas pelos "recursos escassos" mas proibir a existência de empresas privadas com o argumento de que o capitalista explora o trabalhador é condenar o trabalhador a viver numa situação pior.
Se eu colocar um anúncio na Eritreia ou na Birmânia a dizer "venha trabalhar e viver para Portugal que temos um trabalho para si a ganhar 100€/mês" e se aparecerem candidatos é porque essas pessoas passam a viver melhor aqui do que estão.
Então, proibir que os 25 mil rohingya que estão perdidos no meio do mar à espera da morte venham para cá com o argumento de que "Eu sou uma grande humanista e, por isso, não aceito que venham para cá ser explorados pelo grande capital" é uma hipocrisia e uma falsidade.

Mas os comunas dizem que o meu dilema moral é um tetralema.

Opção 1 = Os Rohingya ficam onde estão (aquele povo que está a ser massacrado na birmânia longe da vista dos 1045998 portugueses que não são racistas, onde se inclui o Louçã, mas que se mantêm em silêncio sobre a situação destas pessoas a quem me acusam de eu, ao lhes ter chamado amarelados, os atirei para a morte certa no meio da mar ).

Opção 2 = Permitir que os Rohingya venham trabalhar e viver para Portugal (são 1 milhões) mas ficando a viverem nas condições que for possível sem haver prejuízo para Portugal. Nós queremo-las aqui mas, se não gostarem das condições, que fiquem onde estão.

Agora as outras duas opções dos esquerdistas:

Opção 3 = Os Rohingya apenas poderão vir para Portugal se lhes forem garantidos os mesmos direitos que os portugueses têm (e sem nos dar qualquer prejuízo).

Opção 4 = Vamos ajudar a Birmânia (mas sem termos qualquer prejuízo) a aceitar os Rohingya e a apoiá-los de forma a que se tornem um povo rico e feliz lá na terra deles.

Como devem ter visto na Euro-News, o primeiro francês Valls não os quer em França.
Não compreendo como o primeiro-ministro francês, um socialista dos quatro costado, não quer que a França receba a sua quota-parte (acho que se escreve assim e não cota-parte) de refugiados que chegam à UE.
É que, apesar de algumas cabeças de vento bem intencionado poderem pensar que as opções 3 e 4 existem mesmo, de facto são apenas uma forma de dizer que "eu não sou racista, sou um grande humanista, mas não quero cá essas pessoas." 
Ou será que é já um efeito da minha arma de antimatéria? Será que o Valls ouviu falar que "O Professor Racista diz que temos que afundar os barcos da pretalhada" e ficou instantaneamente com um cérebro racista?

Eu vou escrever uma petição à Assembleia da República.
Diz o Dalai Lama que "Não interessa se uma pessoa é boa ou má. Interessa é se faz coisas boas ou más" e eu, sendo mau, quero fazer uma boa acção.

Quero que Portugal aceite todos os refugiados que queiram vir viver e trabalhar para cá.
Assim, quero ajudar as pessoas boas, o Louçã e os seus esquerdistas seguidores, a fazerem algo de bom que sempre quiseram fazer mas que não se lembraram.
Tenho a certeza que o Louçã, assim como os demais 10459998 portugueses não racistas, vai subscrever a petição.
E também tenho a certeza que a Assembleia da República vai votar a minha petição por unanimidade (talvez haja uma abstenção do deputado "meu amigo" que não chegou a ser "meu amigo").

Fig. 5 - Se eu tivesse uma pen de 20Gigas, queria esta mulher (dava para ter trigémios).

Pedro Cosme Vieira

domingo, 17 de maio de 2015

4 - A preparação

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
______________________
Ver o capítulo anterior (3 - O desgosto)



4 – A preparação
A Maria Zé ficou a gritar, inconsolável, absorvida pela dor e pela ideia de que tinha sido cúmplice de um crime de dimensão bíblica. Mas, com o decorrer dos minutos começou a alinhavar alguns pensamentos desculpabilizadores. “Só agora percebo porque as pessoas falavam no defumadouro como algo terrível. Em criança eu acreditava no que diziam, que as crianças que morriam eram anjinhos que Deus tinha colocado provisoriamente no meio de nós e que, naquela noite, tinha chamado de volta para junto Dele mas, afinal, agora sei que essas crianças, pelo menos algumas, morreram por causa do defumadouro. E, tanto quanto me recordo, ninguém foi presa por causa disso.”
Veio até à porta para apanhar a frescura daa madrugada e logo continuaram os pensamentos. “Pensando retrospectivamente, a velhota até tem razão. Quando lhe fui pedir para que evitasse ter que criar filhos deficientes, estava a rejeitar, de entre todos os milhares de anjinhos que tinha dentro de mim, os que eram doentes. E, realmente, ela não me disse que não nasceriam mas apenas que iria resolver o assunto da melhor forma possível. Que eu não iria ter filhos doentes para criar e, realmente, cumpriu o trato mas não da forma como eu tinha imaginado. É que naquele dia, ao dizer que não queria que nascessem crianças deficientes estava a dizer que não queria que o Simeão nascesse mas agora, depois de o ter dado à vida, nunca teria coragem de lhe dar fim. Qual a lógica de não querer que ele nascesse e, agora, estar triste por ele ter morrido? Se ainda hoje mo perguntassem eu diria que não queria que ele viesse ao Mundo porque não o poderia criar. A questão é que eu acreditei numa história de crianças. quiz acreditar no impossível, na ideia de que um simples defumadouro, mesmo que fosse com carvão da Terra Santa, iria evitar que os ovinhos com a doença fossem transformados em crianças. Mas, no fundo, eu sempre soube que isso era impossível. No fundo, apenas estava a ser covarde, a atirar para outra pessoa o problema que tinha que ser resolvido por mim mas que não conseguia enfrentar. Como fui injusta em lançar à Tia Júlia a praga do fogo do Inferno quando a sua vida, com o peso de todas as criancinhas que devem ter morrido às suas mãos, sei lá quantas, já deveria ser um inferno. Estou finalmente a ver que a Tia Júlia é uma vítima de todo este processo sacrificando-se pelos outros.”
Os pensamentos continuaram por longas horas intercalados com momentos de desespero pelo que só por volta das 9h da manhã, já o Sol ia alto, é que a Maria Zé tomou consciência de que tinha que ir tratar das consequências daquela noite. Provavelmente iria ser condenada a uma pena qualquer mas, pensando bem, já outras mortes tinham acontecido e ainda ninguém tinha sido castigado, talvez a chave estivesse em manter bico calado. Para publicitar o seu desgosto, vestiu-se com roupa preta e, depois, comeu um bocado de pão de milho com café frio feito de véspera e partiu para a casa do Sr. Costa a toda a pressa. Pelo caminho foi pedindo às pessoas que fossem avisar os pais e o marido do sucedido. Chegando a casa do Sr. Costa, bateu à porta suavemente porque o senhor era temperamental e não gostava nada de choradeira à porta de sua casa.
– Sr. Costa, sou a Maria Zé do Zenão. Não se aborreça mas eu preciso que me trate do funeral do meu Simeão que morreu durante a noite.
Aguardou um pouco em silêncio, sentada num dos três degraus que permitiam descer da porta para o nível do caminho, até que o Sr. Costa abriu a porta e, contrariamente ao que era seu costume, mostrou-se razoavelmente afável.
– Deixa lá isso mulher que acontece a qualquer um. Entra, entra, que é para isso que cá estou, entra para falares com a minha filha que vai tratar da papelada e da roupa. Vou-te dar um licorzinho e entretanto preciso saber o tamanho da urna, quem te morreu foi o Rúben ou o Simeão.
– Foi o Simeãozinho, o mais pequenino, só tinha 4 meses.
– Então, chega uma urna de 80 cm. Tens é que ter consciência que isto vai custar dinheiro, vai-te custar 200€.
– Mas Sr. Costa eu não tenho esse dinheiro, estou mesmo com dificuldades. Veja lá se me faz uma atenção. É que só tenho 75€ comigo.
– Deixa-te dessa conversa que isto dá despesa com o doutor, o padre, o coveiro e não nos podemos esquecer do Polícia Vieira que é um comedor. Vou ter que lhe dar qualquer coisa pois, assim que constar que te morreu a criança durante a noite, vai aparecer por aí como um abutre. O mais que te posso fazer é dares-me já esses 75€ e, depois, 10 mensalidades de 10€. Oh Dulcinha, Dulcinha, anda cá, estás a ouvir? Anda cá para tratares da papelada da criança da Maria Zé que “foi para junto do Pai”.
“Para falar do Oolícia Vieira”, pensou a Maria Zé, “é porque o Sr. Costa sabe que a minha criança morreu de causas não naturais mas vou manter o silencio pois é a minha única safa.”
A Dulcinha apareceu, era praticamente um criança, com uns 12 anos, mas a quem cabia, desde que a mãe tinha morrido de pneumonia havia poucos meses, a tarefa de fazer a roupa e tratar da papelada das criancinhas que morressem na aldeia. E, dada a mortandade, isso dava-lhe muito trabalho.
– Bom dia Sra. Maria Zé, é uma tristeza a sua criança ter morrido mas temos que ser fortes e andar para a frente. O meu pai vai tratar de fazer a urna e eu vou tratar do resto, é preciso avisar o Sr. Padre Augusto para tratar da cerimónia religiosa e o Sr. Mariazinha para tocar o sino e abrir a cova. Tenho ainda de tratar da certidão de óbito. Poderia ser o Sr. Padre a tratar disso mas, como a morte de uma criança levanta sempre problemas, o melhor é chamar o Sr. Dr. Acácio. Acha bem eu fazer uma roupinha toda em branco com uma asinhas? É o que se usa normalmente nos anjinho. Tenho aqui um pano de seda e penas, tudo vindo de Paris. Vai ver que fica muito bonito.
– Ai menina Dulcinha, o que me aconteceu foi uma tragédia. Nem sei o que me vai acontecer agora. É que a criança morreu em parte por meu desmazelo – cala-te burra, pensou ela.
– Vamo-nos esquecer da noite de ontem porque já nada se pode fazer para trazer a criança de volta à vida. E foi a senhora que a deu à vida, que teve as dores de parto, que lhe deu de mamar pelo que sabia, mais do que ninguém, o que era melhor para ela. Agora que está morta, tem que olhar em frente e lembrar-se do Rúben que precisa de si. Temos que olhar ao principio e ao fim e não ao que aconteceu pelo meio. Se há uns meses tinha um filho e hoje tem um filho, pelo meio tem que pensar que nada aconteceu. Agora tem que ser forte e não fazer como a mulher de Lot que olhou para trás e ficou transformada em estátua de sal.
Parecia estranho uma criança de apenas 12 anos ter aquela força toda mas, de facto, aquelas frases não passavam da repetição de uma cassete que tinha ficado na memória das conversas que ouvia da sua mãe.
– Dê-me agora a chave de sua casa, vá até à igreja rezar e aproveite para se confessar com o Sr. Padre que é uma pessoa muito sábia e compreensiva. Eu vou a sua casa com o Sr. Dr. Acácio e, depois das 13h, pode aparecer lá que já estará tudo pronto. Aproveite para pedir ao Sr. Mariazinha para tocar o sino ainda de manhã para que o funeral possa ser na missa de hoje das 18h e para abrir uma meia campa. É melhor fazer o funeral ainda hoje porque está muito calor e a criança morta pode tornar-se um problema de saúde pública.

A Dulcinha acompanhou a Maria Zé à porta e chamou por uma criança que andava por lá a brincar, deu-lhe meio euro e mandou-a ir dizer ao Sr. Dr. Acácio para às 11h ir ter a casa da Maria Zé pois era precisa uma certidão de óbito para uma criança que tinha morrido durante a noite. Voltou para dentro e agarrou-se à costura e, num ápice, aldrabou a roupinha com as asinhas que foi buscar a uma caixa de cartão. Depois, foi à oficina do pai e, estando a urna já pronta, forrou-a por dentro com pano também branco. Agora, era só pegar em tudo e rumar a casa da Maria Zé.

Capítulo seguinte (5 - A casa)

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