quarta-feira, 2 de setembro de 2015

A melhor solução para o Novo Banco é o canibalismo

A Resolução Bancária é uma filosofia errada. 
Imagine que quer vender o seu carro em segunda mão e um amigo disse-lhe estar interessado.
Na sua mente, "o carro vale pelo menos 1000€" mas, na mente do seu amigo, "o carro vale no máximo 500€".
Se vender pelos 1000€, o seu amigo vai pensar que se aproveitou da amizade para o explorar enquanto que, se o vender por 500€, vai pensar que, afinal, o seu amigo só se quis aproveitar da sua amizade.
Afinal, um pequeno negócio vai por em causa uma amizade de anos.

A solução é "ir ao mercado."
Vão os dois dar uma volta pelos stands de usados da sua redondeza. Imaginemos que visitando 3 stands onde regateiaram o preço de compra de de venda, obtiveram 3 propostas:
   Stand 1 - "Como o vou vender por uma máximo de 850€, só lhe posso dar 550€ por ele"
   Stand 2 - "Como o vou vender por uma máximo de 750€, só lhe posso dar 500€ por ele"
   Stand 3 - "Como o vou vender por uma máximo de 800€, só lhe posso dar 450€ por ele"
O máximo que consegue pela venda do seu carro são 550€ enquanto que o mínimo que o seu amigo consegue para comprar o carro são 750€.
Então, o justo será fazer um preço de 650€ que resulta de dividir a margem dos stands a meio (550€ + 750€)/2

Vejamos o problema da Resolução Bancária.
O modelo de Resolução tem um grave problema que ficou evidente na falência do BES.
Como o fundo de Resolução garante as perdas da falência, está aberta a porta do inferno de que o BES-Angola foi uma amostra.
Passo 1 - Peço 100 milhões € emprestados a um "amigo angolano".
Passo 2 - Abro um banco em Portugal com 100 milhões € de capital.
Passo 3 - 10 mil "meus amigos" abrem uma conta onde metem, cada um, 100 mil €, fazendo um total de 1000 milhões € de depósitos (um Core Tier 1 confortável).
Passo 4 - Empresto todos o activo, os 1100 milhões €, a "outro amigo angolano" que vai à falência.

Passo 5 - O Fundo de Resolução toma a obrigação de pagar os 100 mil € a cada um dos "meus amigos."
Passo 6 - O "outro amigo angolano" paga 200 Milhões € ao "amigo angolano" (100 milhões de juros), fica com 100 milhões € de comissão e dá-me o resto.
No final - Fico com o Banco Mau que não tem activos e tem como passivo os meus 100 milhões € de capital que acabo por perder. Mas também fico com os 800 milhões € que recebo do meu "outro amigo angolano".

Já estão a perceber como funcionou a falência do BES + BES Angola?
É que, como disse o Álvaro Sobrinho, "o dinheiro nunca entrou em Angola"!

No BES deveria ter sido liquidado no mercado.
Realizava-se uma sessão de liquidação do BES em que se chamavam todos os potenciais compradores, incluindo todos os accionistas e credores do BES.
Cada cliente, cada contrato, cada balcão, cada empregado, eram negociados entre os compradores potenciais que aparecessem a jogo numa sessão especial da bolsa de valores. 
No fim de realizadas todas as transacções pelo preço que desse, não haveria ninguém a demandar fosse quem fosse porque as transacções tinham sido realizadas de forma transparente.

Fig. 1 - O BES deveria ter sido desmembrado mas ainda não é tarde para desmembrar o NB

O valor apurado das vendas.
Pegava-se no dinheiro todo, seriavam-se os encargos do BES da forma que a lei diz dever ser (primeiro, os depósitos bancários, e, depois, continuava-se por ai abaixo) e pagavam-se os que houvesse dinheiro para pagar. 
Quando acabasse o dinheiro, não se pagava mais nada, onde não há, rei perde.
Era uma falência justa e transparente em que não haveria Banco Bom a quem as pessoas pudessem vir no futuro a pedir contas.

O BES faliu, ponto final.
Se faliu, terá que haver prejudicados.
Ao criar-se uma divisão entre "activos e obrigações boas" e "activos e obrigações maus" sem haver uma avaliação pelo mercado, todo o processo está manco, vai ser vítima de demandas judiciais e de manifestações.
Todos os que caíram no Banco Mau vão querer que os tribunais ou os políticos façam com que os seus activos passem para o Banco Bom.
Isto é um problema que se vai arrastar anos e anos e anos nos tribunais e nas campanhas eleitorais pelo que a venda do Novo Banco está inviabilizada a menos que o Fundo de Resolução assuma, como fez o Estado na venda do BPN, os riscos.
E era isso que queriam os chineses até porque o Banco de Portugal e a CMVM podem-se lembrar, daqui a uns meses, que o Novo Banco tem que assumir encargos que hoje acham que não.
Se me lembro, o Banco de Portugal, chegou a dizer que o BES teria que assumir todo o papel comercial que vendeu nos seus balcões e só voltou atrás porque o Novo Banco representa encargos para o sistema bancário!
Ninguém sabe o que pensará o Carlos Costa quando o Novo Banco for chinês. 

Agora, a solução só pode passar pelo canibalismo. 
Nunca é tarde de mais para resolver os problemas pelo que, agora, ainda é tempo para arranjar uma boa solução.

Tem que se voltar ao mercado.
Juntar todos à mesa e começar a transaccionar os activos e os passivos do Novo Banco.

Fase 1 - A opção.
São chamados o BES em termos colectivos (Banco Mau) e todos os seus accionistas e credores em termos individuais para, querendo, comprar no todo ou em parte o capital do Novo Banco ao valor nominal.
Esta fase tem por fim evitar futuras questões legais pois, se não quiserem comprar, não se podem queixar.

Fase 2 - A dispersão.
O capital do Novo Banco sobrante da Fase 1 é disperso pelos responsáveis pelo financiamento do Fundo de Resolução Bancária (pelos bancos a operar em Portugal) proporcionalmente à sua cota de mercado e ao valor nominal. Se da Fase 1 não resultar nenhuma venda, teremos a CGD, BCP, BPI e Santander Totta com 65% do capital do Novo Banco.

    Banco   .  Activos . Quota .  Capital no NB
    CGD       .  100,2 .  25%  .  1216M€
    BCP        .   76,6  . 19%   .    929M€
    BPI          .  42,6  .  11%  .    517M€
    Santander .  41,5  . 10%   .    503M€
    Pequenos . 143,0  . 35%  .   1735M€

Como actualmente são os bancos a assumir os riscos da venda do NB, continuarão assim os riscos e prejuízos distribuídos por todos.

Fase 3 - A digestão.
O capital, os  activos e os passivos do Novo Banco são aberto à negociação (em bolsa) podendo assim uns bancos desfazerem-se da sua posição e outros reforçarem-na ao preço que der.
Também poderão ser comprados activos e passivos individuais, contratos, balcões, clientes e trabalhadores.
A negociação é aberta a todos os agentes económicos, accionistas ou não do Novo Banco. 
Nesta sessão também serão transaccionados os activos e passivos do Banco Mau.

Pode acontecer, 
o que não acredito, que o resultado final seja o Novo Banco continuar a operar como um banco comercial mesmo que mais pequeno. Mas, o mais certo, é que o NB desapareça totalmente, que seja totalmente digerido pelo sistema bancário.
E, havendo tantos bancos em Portugal, o seu desaparecimento não irá deixar os consumidores sem alternativas. 

Fig. 2 - Nasceu com um pequeno problema mas o resultado final nem foi mau de todo.

Pedro Cosme Vieira

35 - A volta

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (34 - O comboio)    


35 – A volta
No quarto dia de terem partido, já quando era quase noite, os carregadores, os pastores, os burros e os cães chegaram de volta à aldeia. Muitas pessoas se abeiraram para saber notícias da viagem, pais, filhos, irmãos, cunhados, tios, primos e vizinhos dos jovens que partiram. Também estava à porta da aldeia o Sr. Costa ansioso por ouvir notícias da boca do Dessilva, seu hóspede e já amigo que, estranhamente, não voltou.
– Homens, o que se passou? Onde está o Sr. Dessilva? Não me digam que ele não aguentou a viagem! Ai meu Deus que aconteceu a tragédia que eu tinha antecipado!
– Não Sr. Costa, não aconteceu nada disso, o Sr. Dessilva até mostrou uma vitalidade impressionante. Veja só que o Joaquim, o filho da Isabel do Jonas, aquele fortalhaço, é que esteve quase a morrer enquanto que o Sr. Dessilva se manteve sempre fresco como uma alface, o homem é de fibra! O que aconteceu é que ele seguiu viagem para Amesterdão. O senhor nem imagina as dificuldades por que passamos para chegar à Cidade e, depois, o que o Sr. Dessilva teve que fazer para que as nossas pessoas conseguissem embarcar no comboio, fomos tratados de forma pior que tratam os animais, pior do que nos tratam os do Vale. Vendo o que se passou, calculou que, se não fosse no comboio, nunca as nossas pessoas conseguiriam atravessar a fronteira e, sacrificando-se como eu nunca pensei ser possível numa pessoa de tão fino trato, foi com os nossos jovens numa carruagem de carga. Eu nem imaginava como era o mundo que nos rodeia, nós estamos protegidos aqui na nossa terra mas, fora daqui, o mundo é mau. Mesmo depois de o Sr. Dessilva ter pago mais de 3000€ pelos bilhetes de comboio, tiveram que ir todos numa carruagem de carga.
– Mas então o Sr. Dessilva foi para Amesterdão? E se ele não voltar? Estou a ver que ainda me vão acusar de ter ajudado um farsante a mandar aqueles nossos jovens para a escravatura ou talvez mesmo para a morte!
– Não, não Sr. Costa, bastaram aqueles 2 dias para vermos que o Sr. Dessilva é um homem às direitas, um anjo que desceu dos céus, mesmo que os nossos jovens se percam, que sejam reduzidos à escravatura ou mortos, não será por ele não tentar com o máximo das suas forças e dinheiro para que tudo corra bem. E ele disse que voltaria e tenha a certeza que vai voltar assim que o possa fazer, até mandou uma carta a relatar o que se passou e o que pensa fazer. Temos que ter esperança pois o Sr. Dessilva, até hoje, sempre cumpriu o que prometeu, ponho as minhas mãos no fogo por ele.
– Dê-me então essa carta se faz favor. Pegando na carta, deu-lhe uma vista de olhos e depois leu-a em voz alta “Amigos, vou-vos ler a carta que o Sr. Dessilva escreveu hoje de manhã”
“Amigo Costa,
Eu tinha planeado meter os jovens no comboio e voltar com os carregadores à aldeia mas as coisas complicaram-se muito pelo que tenho que seguir viagem até Amesterdão. É que antecipo que, sozinhos, nunca conseguirão passar a fronteira.
Aguarde por mim que tenho fé que, no mais tardar, daqui por 15 dias já estarei de volta.
Tenho a certeza que vai tudo correr pelo melhor, com a vontade de Deus.
Newman Dessilva”
– O Sr. Costa não imagina como o Sr. Dessilva faz as coisas acontecer. Ele mexe-se como uma enguia, usa as palavras de tal forma que laça o mais avisado. Veja só que, na estalagem, ele começou por perguntar quanto o estalajadeiro levava para dar pouso e comida aos animais. Depois, quando o estalajadeiro disse que não nos deixava pernoitar porque não passávamos de animais, ele pegou na palavra que ele tinha dito relativamente à pernoita dos animais e, já que éramos todos animais, podíamos também ficar junto com os burros e com o cães. Deu ali a volta ao homem como eu nunca pensei ser possível e ainda nos deu sopa quente para lá e para cá, claro que também ajudou ter dado 500€ ao homem!
– Sabe que, se ele fez fortuna na vida, é porque tem capacidades que nós não temos.
– E havia de ver o que se passou no embarque no comboio, o homem parece que advinha o futuro. Primeiro, ficamos longe da estação e foi ele sozinho comprar os bilhetes, largou mais de 3000€ na bilheteira. Depois chamou-nos e, como tinha previsto, assim que chegamos perto da estação, veio o chefe dizer que não podíamos entrar porque no comboio já não havia mais lugares. Nessa altura o Sr. Dessilva apareceu com os bilhetes na mão e o chefe ficou derrotado. E a preparação da viagem, o ter levado a lenha e aquela chaleira especial que mandou fazer, o ter obrigado as pessoas a levar as mantas, se não fosse a sua antecipação dos perigos, a sua força e o seu dinheiro, a grande maioria das pessoas teria ficado no monte morta e, os que escapassem, estariam hoje de volta connosco pois ninguém teria conseguido embarcar. O homem, com aquelas falinhas mansas, faz autênticos milagres.
No meio daquela multidão que se juntou também estava a Isabel do Zenão, a sua irmã Júlia e a filha Maria José.
– O Sr.a Isabel, chegue-se aqui. Sabe, o seu filho, o Joaquim, aqui em baixo é muito forte mas, lá em cima, é como uma criança – disse um dos pastores e todos se riram – Quando chegou ao cimo do monte, foi-se abaixo de tal maneira que se não fosse o conhecimento do Sr. Dessilva, ele tinha batido a bota. Começou por ter falta de ar, depois começou a delirar e, por fim, caiu redondo no chão, já quase não falava e mal respirava. O que o safou foi o Sr. Dessilva ter-lhe dado logo chá quente com mel e tê-lo posto em cima de um burro embrulhado em mantas. Logo à noite, nas orações, não se esqueça do Sr. Dessilva pois, se não fosse aquele homem, por esta hora o Joaquim já estaria morto, algures enterrado naquela neve do cimo do monte que tivemos que atravessar. O Joaquim e mais alguns que cá em baixo se diziam muito fortes!
– Diga-me jovem pastor, e o Sr. Dessilva ficou bem? – Perguntou a Júlia.
– Como eu já disse, parecia uma alface. Nós todos a fraquejar e o homem sempre fresco. Aquele homem só pode ser de outro mundo, faz-me lembrar a história do Profeta Moisés que abriu o mar mas, neste caso, o Sr. Dessilva abriu o cume do monte para que pudéssemos passar. Aquele homem vai durar pelo menos até aos 100 anos!
– E ele e o António deram-se bem na viagem? – A Júlia estava preocupada porque sabia que se iria repetir o trajecto da outra viagem trágica em que o pai do António, o Alberto, morreu às mãos do Abel, do agora Newman Dessilva. E como a fisionomia do António era parecida com a do pai ...
– Sr. Júlia, nem imagina como aqueles homens se dão bem, é tal a amizade que, quem não o soubesse, diria que eram pai e filho. Sim, sim, o Sr. Dessilva até parecia ter um sentimento pelo António mais forte do que teria se fosse pai dele, uma coisa inexplicável, para onde ia um, logo ia o outro atrás.
A Júlia tinha passado noites em claro a pensar no crime que o Abel tinha cometido, passando vezes sem conta pela sua cabeça a pergunta “Será que  um homem que cometeu tamanho crime se pode redimir?” A morte do Alberto foi uma grande tragédia que não poderia ser anulada, terminar assim a vida de um jovem, e ninguém poderia apagar as consequências do seu desaparecimento, o sofrimento da viúva e do seu filho, tudo o que poderia acontecer e que não acontecer, a crianças que poderiam ter nascido e que não nasceram. “Será que o Abel pode compensar tudo isso com o esforço que, enquanto Dessilva, está agora a fazer para que aqueles casais tenham uma nova vida na América?” Quando o Abel matou o Alberto e roubou as ovelhas, estava apenas a pensar no seu futuro, teve pensamentos egoístas, queria fugir da miséria em que vivia mas de uma forma cobarde, sem se preocupar com quem deixava para trás. Mas decorridos tantos anos, parece que naquele dia, Deus, vendo a perdição daquele povo e não podendo intervir directamente, o escolheu para que fosse a pessoa que ia por esse mundo fora à procura de ajuda. E, para isso, num primeiro momento, Deus encheu-o de egoísmo para, logo depois, lhe ter mudado o pensamento a ponto de, enquanto Dessilva, ter dedicado toda a sua vida de trabalho para, agora, poder ser dada uma segunda vida àqueles jovens cujos pais e avós o Abel deixou para trás. Talvez Deus tenha obrigado o Abel um para que o Dessilva pudesse salvar muitos mais, talvez tivesse sacrificado um homem para salvar todo um povo. 

– Graças a Deus que assim aconteceu pois bem precisam um do outro. O António porque foi criado sem pai e o Sr. Dessilva porque nunca soube o que era ter um filho. Graças a Deus que se tiveram um ao outro. 

Próximo capítulo

domingo, 30 de agosto de 2015

34 - O comboio

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (33 - A estalagem)    




34 – O comboio
Da aldeia até à cidade ainda eram 40 quilómetros mas que, havendo uma estrada de terra batida, que, apesar de por vezes subir, não era nada comparável ao que tinham vivido na travessia da montanha. Também, por ser ao longo do vale, a neve era muito menos, não mais de 10 cm. Assim, apesar de estarem com os corpos cansados da travessia da montanha feita na véspera, mesmo parando várias vezes para beber chá quente, para comer qualquer coisa e para dar de beber e comer aos animais, pouco depois das 18h chegaram às portas da cidade, onde pararam para comer pois, a partir dai, os burros voltariam à aldeia e haveria menos oportunidades para recarregar as energias.
O comboio seria, se viesse à tabela, às 22h mas convinha chegar com tempo porque ainda não tinham bilhetes, o que, depois do que viveu na estalagem, preocupava o Dessilva. Comeu às pressas e disse para o António “Vou à estação comprar os bilhetes. Anda comigo e vocês fiquem aqui e só avancem quando o António vos vier chamar.” .
O camaninho para a estação ainda demorava 20 minutos a bom caminhar, tempo durante o qual o Dessilva foi planeando uma estratégia. A ideia seria o Sr. Dessilva ir sozinho comprar os bilhetes e, depois, avisar o António para que fosse chamar as outras pessoas.
Chegando à estação, o Dessilva dirigiu-se à bilheteira “Boa tarde, precisava comprar bilhetes em terceira classe para a Estação Central de Amesterdão para o comboio das 20h00. Quanto é que custa cada bilhete?”
– Boa noite meu senhor, estou a ver que o sr. não é daqui pois, porque já faz noite, é boa noite.
– Boa noite, realmente o Sr. tem razão, eu não sou daqui, sou americano e lá, boa noite é depois das 20h.
– Pois eu vi logo. Mas diga então o que o trás cá.
– Precisava de bilhetes de comboio, em terceira, adultos e crianças, quanto é o preço?
– Deixe ver aqui no preçário, bilhete para Amesterdão, Estação Central, vendo aqui, deixe ver, custa, custa, aqui está, um adulto 103,40€ e uma criança até aos 12 anos custa 51,70€. Quantos bilhetes pretende o senhor?
– Pretendo 32 bilhetes de adulto e um bilhete de criança, tudo em terceira classe, e aviso que também temos alguns embrulhos.
– Não tem problema nenhum pois na carruagem de 3.a classe tem sempre espaço suficiente para as pessoas e para as malas e, se vier cheio, mando meter mais uma carruagem. 32 bilhetes de adulto e um de criança, deixe-me fazer a conta, 32 vezes 103,40 mais 51,70, são 3360,50€. Mas isto é alguma excursão?
– Sim, sim, é uma excursão a Amesterdão – Tirando uns maços de notas de um bolso  – Tem aqui o seu dinheiro, três de 1000 dá 3000 mais 20, 40, 60, .... 340, 360 euros e ainda uma moeda de 50 cêntimos para fazer a conta certa.
– Tome então os 33 bilhetes. Desejo-lhes muito boa viagem para si e para os seus companheiros.
O Sr. Dessilva meteu os bilhetes ao bolso, saiu da estação e, no sítio combinado, lá estava o António “ António, já tenho os bilhetes, vai chamar as pessoas”
– E quanto é que custaram?
– Isso agora não interessa, precisamos é meter as pessoas no comboio.
O António foi o mais rapidamente que conseguiu “Vamos, vamos, podemos avançar para a estação, o Sr. Dessilva já tem os bilhetes”.
Assim que aquelas pessoas se tornaram visíveis, a cidade criou-se um certo reboliço. Alguém entrou na estação a gritar “Chefe, chefe, vem aí uma multidão de fulanos do monte com cães e burros e parece que pretendem apanhar o comboio.” Ouvido o aviso, o chefe dirigiu-se rapidamente à porta central para fechar a estação mas as pessoas já lá estavam “O que é que pretendem daqui?”
O António que ia à frente tomou a palavra “Queremos embarcar no comboio que vai para Amesterdão.”
– Isso não vai ser possível, não vale a pena entrar na estação porque a bilheteira está fechado porque já não há bilhetes, o comboio que vem aí vai cheio. Se não têm bilhete, não podem entrar, vão-se embora e venham cá na próxima semana a ver se há bilhetes.”
– Mas Sr. Chefe, então deixe-nos entrar porque nós temos bilhete para embarcar no comboio que vem aí, para o comboio das 20h00, já compramos e pagamos os bilhetes na 3.a classe e o Sr. Chefe prometeu que havia lugar e que, mesmo vindo o comboio lotado, que seria acrescentada uma carruagem – atacou o António num tom amigável mas firme.
– Mostre-me então esses bilhetes, mostre-mos pois eu sei bem que não lhe vendi nenhum bilhete, ainda não estou assim esquecido. Se não lhe vendi nenhum bilhete, como pode estar a dizer que os tem? Mostre-me então esses bilhetes? – O António apontou para o Sr. Dessilva.
– Aquele senhor é o nosso terratenente, estamos aqui por conta dele pois vamos trabalhar para as suas terras, ele vem aí, vai já ver que tem os bilhetes para que nós possamos embarcar no comboio que vai para Amesterdão.
– Não pode ser, o Sr. aí, venha aqui se faz favor que este homem está a levantar uma calúnia sobre o senhor. Diz ele que o senhor comprou bilhetes para estales todos, se calhar, até para os burros! Diga-lhe que isso é mentira, que comprou bilhetes mas para montanhistas que hão-de chegar a qualquer momento.
– Não, não, Sr. Chefe, para os burros não mas, realmente, eu ainda há pouco estive na bilheteira a comprar 33 bilhetes, lembram-se? Estão aqui na minha mão e são para mim e para essas pessoas, são pessoas que vão trabalhar nas minhas terras – disse o Dessilva em voz muito baixa quase ao ouvido do Chefe.
– Isto não pode ser, o senhor enganou-me, estas pessoas não podem embarcar junto com os outros passageiros, não pode ser, eu vou ser despedido, venha alí que eu devolvo-lhe o dinheiro.
Enquanto caminhavam, o Sr. Dessilva disse “Não, não, não pense nisso, estas pessoas vão ter que embarcar juntamente comigo pois preciso delas nos meus campos”. No entretanto, o Sr. Dessilva pegou numa nota de 10€ e juntou-lhe mais uma nota de 20€, depois outra e entregou as 3 notas ao chefe da estação que, olhando para um lado e para o outro, as meteu discretamente no bolso.
– Ai que a minha vida vai começar a andar para trás – e ficou a pensar em voz alta com a mão na cabeça – mas não podem entrar neste comboio de maneira nenhuma, se alguém o sabe, serei logo despedido. Bem, o melhor que posso fazer é metê-los numa carruagem de carga, não tenho outra hipótese, vou mandar pôr palha para que se possam deitar durante a viagem Entrem naquela carruagem de carga ali ao fundo o mais discretamente possível, vão por este caminho com os burros e entrem pela porta que tem lá ao fundo directamente para linha de forma que ninguém os veja e os burros, nem pensem em metê-los na carruagem. O sr concorda com isso? O Sr., dou-lhe um lugar na primeira classe.
– Se não consegue fazer melhor, aceito a carruagem de carga.
– Então, o Sr. fique aqui para confirmar que, quando o comboio chegar, eu mando atrelar a carruagem. Tenho ali uma boa carruagem, que tem aquecimento a lenha que vai dar para o aquecimento e para poderem fazer chá ou café para beber durante a viagem que ainda vai ser longa. Vamos ver se escapo desta confusão. E que faço aos burros?
– Com os burros não tem que se preocupar que são para ficar, só preciso  que me indique um sítio onde se possam abrigar para passar a noite?
– Podem ficar no coberto que tem do lado de fora da estação, lá ao fundo. Mas que partam antes do Sol nascer para que ninguém os veja pois não quero ter problemas.
Aquela pequena multidão e os burros perderam-se logo na escuridão. Foram até a referida carruagem onde os embrulhos que os burros levavam foram sendo carregados. Os embrulhos eram pequenos, tinham algumas peças de roupa e alguma coisa para se comer na parte da viagem que faltava. Alguns homens foram ao armazém indicado pelos ferroviários buscar uns fardos de palha para dar de comer aos burros e para poderem passar a noite de forma mais confortável. “À cautela, encham também este pipo de água e levem-no pois a porta vai ficar fechada por fora até à fronteira e pode acontecer que o comboio precise parar pelo caminho por causa do nevão.” disse o chefe que, estranhamente, se tinha muito empenhado em viagem se tornar num sucesso.
No entretanto, o Sr. Dessilva tirou do bolso um papel e uma caneta e encostou-se a escrever uma carta. Depois, meteu-a num envelope e entregou-a um dos pastores que o acompanharam no monte. “Vais levar esta carta para o Sr. Costa. A viagem, como viram, está-se a complicar pelo prevendo que, quando chegarmos à fronteira, as coisas ainda vão piorar muito. Por isso, vou ter que seguir viagem até Amesterdão. Hoje, vão ter que pernoitar no coberto que existe ao fundo da estação, já falei com o chefe da estação e podem ficar aí, não é nada de especial mas sempre dá para abrigar da neve. Comam que ficam aí com alguma coisa. Amanhã partam cedo e, à noite, vão pernoitar na mesma estalagem onde passamos ontem a noite, já está tudo pago, o estalajadeiro ainda vos vai servir uma sopa quente, dar palha para os animais e alguns mantimentos para que possam voltar a casa. Agradeço-vos e desejo-vos boa viagem.
– Igualmente Sr. Dessilva, que para chegar a Amesterdão vai precisar mais da sorte do que nós – disseram os carregadores e os pastores.
O embarque correu bem. O Comboio chegou, atrelaram a carruagem de carga onde estavam as pessoas e, no fim, o Sr. Dessilva também entrou na carruagem, para ficar junto dos seus. Como combinado, veio o chefe da estação que entregou um papel al Sr. Dessilva.
– O Sr. faça favor de levar este recibo do frete da carruagem.
Sr. Dessilva olhou e dizia “Carruagem de carga para Amesterdão, 547,50€”
– Então, tenho que pagar esta quantia?
– O Sr. deixe ficar pois já pagou os bilhetes que não vai usar. A viagem vai correr bem, já enviei um telex para que a carruagem possa seguir até à fronteira sem ser mais verificada.
A carruagem foi fechada e selada por fora para que ninguém sentisse curiosidade de a abrir.

Afinal, pensou o Sr. Dessilva, o chefe tornou-se bastante colaborativo o que é estranho pois só lhe dei 50€. Mas a razão não foi esse. É que, uma vez o comboio partindo sem os 33 passageiros, o chefe iria anular os bilhetes e, descontando os 547,50€ da carruagem, meter ao bolso os 2813€ da diferença.

Capítulo seguinte

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

O Durão Barroso deixou-me muito desanimado.

Sempre pensei que o José Manuel fosse um bom candidato presidencial. 
Quando o Cavaco Silva defendeu que o futuro Presidente da República tem que ser uma pessoa com experiência em política internacional (ver) fiquei a pensar que o Durão Barroso estava a ser cozinhado para ser o candidato do PSD+PP. Mais fiquei convencido pela relutância com que os eternos candidatos a candidatos (Marcelo, Santana Lopes, Alberto João Jardim) se têm mostrado prudentes.
Pensava eu que seria um bom candidato.
Mas a última intervenção na "universidade de verão do PSD", desiludiu-me pela contradição, impreparação e pobreza do discurso.

Eu sou o maior e só não faço mais porque os palhaços não deixam

A crise do Euro.
O argumento foi que a Crise das Dívidas Soberanas não foi uma crise da Euro nem da Europa mas sim dos governos de cada país europeu, mais crise nuns que noutros. Repetiu nesta frase para defender as instituições europeias (que fizeram muito mais que o Plano Marshall) e combater os políticos (e governos) que usam as instituições como desculpa para a sua incapacidade em resolver problemas que eles próprios criaram.
O argumento foi "os políticos são fracos porque atiram para os outros o que são responsabilidades suas"
Concordo que Portugal ter entrado em 1999 para uma zona monetária onde estava a Alemanha teve a vantagem da diminuição da taxa de juro a que a economia se financiava mas, teve a desvantagem de as pessoas e os governos usaram essa descida na taxa de juro para endividarem o país de forma insustentável.
A impreparação foi demonstrada pela repetição exageradamente desta ideia como que a fazer minutos e por não mostrar dados que pudessem fortalecer a argumentação.
Por exemplo, falou de que a intervenção das instituições foi maior que o Plano Marshall mas não apresentou os números.

Depois, passou para a crise dos refugiados.
Agora, pensei eu, que fosse dizer que era um assunto que cada país teria que resolver mas não, falou da Europa como um colectivo.
"A Europa deve ter portas abertas" mas, e agora caiu na falha que tinha apontado aos governos europeus, "não podem estar escancaradas por causa dos palhaços, dos xenófobos e dos racistas".
Isso mesmo, a Europa só não recebe todas as pessoas que queiram vir viver para cá (ou para lá, já que ninguém quer vir para Portugal) por causa dos palhaços, dos xenófobos e dos racistas.

Faz como eu digo e não como eu faço.
Afinal, tal como os políticos europeus se escondem atrás das instituições europeias para não mostrarem as suas fraquezas, o Durão foi a correr esconder-se atrás de uma minoria abjecta para dizer "eu até quero que todos sejam recebidos mas os racistas não me deixam".

O problema é que a União Europeia só tem democracias.
Sendo os palhaços, xenófobos e racistas não passam de uma minoria insignificante sem qualquer legitimidade nem poder para influenciar os resultados eleitorais, não há que ter medo "deles".
Seria como dizer que "temos que liberalizar os roubos e assaltos por causa dos palhaços, dos ladrões e dos assassinos."
Mas ninguém pensa o código penal com medo dos palhaços, dos ladrões e dos assassinos pelo que não estou a ver como os políticos europeus podem ser influenciados ao ponto de quererem receber toda a gente e não o poderem fazer por causa de uma minoria .

Depois, atacou políticos concretos.
Começou por falar na Marie Le Pen, do problema que é os franceses colocarem-na bem colocada nas sondagens para as próximas presidenciais francesas. Mas, depois, arrependeu-se lembrando-se que a Marie só pode ser eleita se a maioria dos franceses for palhaço, xenófobo e racista, não sendo de bom tom um antigo chefe da Europa dizer isso da maioria dos eleitores franceses.
Estou a ver que, na cabeça do Durão. a democracia francesa se equipara à da Guiné-Bissau onde, dizem, os traficantes de droga tomaram conta das instituições.

Depois, falou do Trump.
Apelidando-o de palhaço, xenófobo e racista.
Mas, sendo o Trump um palhaço, sem ideias como diz, os americanos só podem ser imbecis.
Estranho como um país de imbecis pode ser o líder tecnológico mundial.
Não competirá a cada país ter as leis que bem entender quanto à entrada de estrangeiros?
Será que compete ao Durão dizer as leis de imigração dos USA?
Muita presunção!

Eu não tenho culpa de te enganar, a culpa é do palhaço

Afinal é fraquito e gordo.
Os EUA são uma democracia muito mais consolidada que as democracias europeias. Enquanto nós  europeus andávamos a brincar ao Nazismo, o Fascismo, Franquismo, Estado Novo e Estalinismo eles mantinham-se democráticos.
E porque não falou no Maduro ter expulso os colombianos?

Imigrantes potenciais.
Vou fazer uma lista dos 8 países mais populosos de onde os refugiados vêm.
Só nestes 8 países que têm um nível de vida menor que 10% da média da União Europeia (medido pelo PIB per capita em paridade de poder de compra do Banco Mundial), há mais pessoas que em toda a UE.

País PIBpcppc População Nivel de vida
European Union 34658 508,3 100%
8 países 3245 551,8 9%
       
Pakistan 4619 185,1 13%
Bangladesh 2991 158,5 9%
Ethiopia 1432 96,5 4%
Sudan 3940 38,8 11%
Afghanistan 1893 31,3 5%
Syrian Arab Republic 2500 23,3 7%
South Sudan 3838 11,7 11%
Eritrea 1180 6,5 3%
Dados: Banco Mundial

Quem diz que podemos manter uma politica de portas abertas, não sabe mesmo o que está a dizer, está apenas a empurrar o problema para outros, para os alemães, os ingleses e os palhaços.

Isto das presidenciais está a ficar complicado.
É que não estou a ver ninguém de jeito.

Pedro Cosme Vieira

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Vamos defender o fim das quotas da Sardinha

Será que o sistema de quotas para a Sardinha (Sardina pilchardus) deve acabar?. 
Sendo eu liberal, defendendo que as pessoas devem ser livres de fazer o que bem lhes der na cabeça, tenho que defender o fim das quotas de pesca. 
Se no passado não havia quotas e, mesmo assim, o mar tinha peixe, tenho que ver o que, no entretanto aconteceu para que, hoje, haja quotas da sardinha. 
Sei que, se conseguir uma argumentação em favor do fim das cotas, voltarei a ser famoso pois todas as associações de pescadores vão puxar por este meu texto.
Amanhã mesmo, este texto será abertura nos telejornais.

O problema é o nosso mar ter pouco peixe.
Portugal tem uma imensidão de mar mas que é pouco produtivo. Concentrando-me nas 200 milhas das águas continentais (360 mil km2, estimativa minha) que são as águas mais produtivas, pegando na média dos últimos 45 anos de pescado descarregado nos portos portugueses, anualmente foram descarregas 235 mil toneladas (dados do INE) o que dá uma produtividade de 235/360 = 650kg por quilómetro quadrado e por ano de mar. 
Isto é muito pouco, a produtividade do nosso melhor mar é de 0,65 gramas de pescado por cada m2 por ano.
Fala-se muito que o problema do nosso Mar é a UE ter obrigado a abater os barcos, mas o problema não é esse é a falta de produtividade que resulta da falta de Fósforo das nossas águas.

Fig. 1 - E eu que nem gosto de peixe!

O problema não é a falta de barcos mas sim a falta de Fósforo.
A cadeia alimentar dos mares começa na fotossíntese que se pode resumir esquematicamente na equação seguinte (não estequiométrica):
      CO2 + HNO3 + H3PO4 + H2O + Algas + Luz ->  C106H263O110N16P + O2
Se o  dióxido de carbono, CO2 , e a água, H2O,  não faltam nos oceanos, já os nitratos, HNO3, e o Fósfato, H3PO4, são raros no nosso mar o que leva a que as algas tenham dificuldade em crescer.  
Como as algas são comidas por uns bichinhos pequeninos (o zooplancton) e os bichinhos pequeninos são comidos pelos peixes, havendo pouca produção de algas, haverá pouca produção de peixes.

Como funciona o stock de peixe.
Os peixes, tal como os humanos, nascem uns a partir dos outros. 
Numa espécie de bacanal (mas sem vinho) juntam-se milhares de peixas com milhares de peixes, fazem sexo à distância descarregando para a água os óvulos e os espermatozoides que nadam à procura de óvulos dando, os que são fertilizados, origem a uns peixes muito pequeninos. 
No caso da sardinha, uma só sardinha liberta 60000 óvulos. Se a sardinha viver 8 anos, terá libertado durante a sua vida cerca de 500 mil óvulos. Pensando que cada sardinha adulta pesa 80g, se todos os óvulos de uma sardinha dessem uma sardinha adulta, não haveria problemas com os stocks porque cada casal daria origem a 40 toneladas de peixe. Podiam-se pescar todas as sardinhas pois bastaria que escapassem 3 tonelada de sardinhas para se pescarem no ano seguinte 90 mil toneladas.
O problema é que a fertilização falha muito e os peixinhos são muito comidos por outros peixes.

Como são determinas as quotas da sardinha.
O que dizem os especialistas é que existe uma percentagem máxima do stock que pode ser pescado sob o risco de os peixes acabarem. No caso da sardinha, não poderá em cada ano ser pescado mais de 20% do stock.
No início do período de pesca, as autoridades das pescas e do mar estimam a tonelagem que existe (e a idade das sardinhas) e atribui para pesca uma percentagem do total existente. Se, por exemplo, existem 300 mil toneladas de sardinhas então, poderão ser pescadas 60 mil toneladas. Já se houver 100 mil toneladas, só poderão ser pescadas 20 mil toneladas.
Se a idade média das sardinhas for pequena, a quota diminui.

Mas antigamente não havia quotas!
Coloquemo-nos no antigamente e imaginemos que existiam 300 mil toneladas de sardinhas no nosso mar.
As sardinhas formam cardumes, vamos imaginar um valor médio de 100 toneladas por cardume. Neste caso, teríamos 3000 cardumes espalhados pelos 360 mil km2 da nossa placa continental o que, em média, faria com que a distancia média entre cardumes fosse de 11 km.
No antigamente os barcos eram pequenos, com uma máquina a vapor, não havia sonar, as redes eram pequenas e não havia rádio. 
O barco saia para o mar às cegas e, para encontrar sardinhas, tentavam ver o comportamento das gaivotas e outros indicadores mas era um processo de tentativa e erro. 

Estão a imaginar 
A dificuldade em encontrar as sardinhas? 
Depois, quando era descoberto um cardume, o barco não conseguia pescar os peixes todos porque era pequeno e as redes também e não podia avisar os outros pescadores (não havia rádio). 
Agora imaginemos que um ano o stock de sardinhas diminuía para 100 mil ton. Neste caso, a distância entre os cardumes aumentava para 20 km o que faria com que fosse muito mais difícil encontrar e pescar as sardinhas.
Então, este sistema às cegas não tinha necessidade de quotas porque era estável: 
Se havia mais stocks => era mais fácil encontrar as sardinhas => pescava-se mais
Se havia menos stocks => era mais difícil encontrar as sardinhas => pescava-se menos

Depois veio o sonar.
Com o sonar, o barco detecta muito facilmente todos os cardumes. É só sair ao mar, ligar o sonar e carregar o barco.
Agora, mesmo que o stock seja menor, basta aumentar a potência do sonar para logo pescar as poucas sardinhas que existem. E, se o sonar não for suficiente, ainda há os aviões de reconhecimento e os satélites.

Mas os pescadores dizem que vêm sardinhas no mar.
Vêm sardinhas porque usam o sonar. Se desligarem o sonar, não vão ver sardinha nenhuma.

Fig. 2 - O cheiro das sardinhas a assar faz-me lembrar a minha infância.

Aquele programa que da Discovery da pesca do atum rabino.
Depois da descoberta das redes de pesca porque será que aqueles bacanos pescam o atum com uma cana de pesca?
É que a pesca do atum rabino com rede está proibida.
Seria muito mais eficiente usar redes mas isso levou à quase extinção da espécie. Então, tiveram que ser proibidas.
Agora, não existem cotas mas apenas para os barcos que pescarem com cana, linha e anzol.
E porque será que, quando o peixe se aproxima do barco, o arpoeiro não se atira à água?
Porque é proibido pescar atum rabino estando dentro de água. 
O arpejador pode-se atira à água mas tem que arpoar o bicho enquanto ainda está fora de água (a voar). Se atingir o peixe estando já dentro de água, é crime, vai preso e paga uma multa terrível.

Fig. Nos finais dos anos 1960 pescavam-se a nível mundial, 2,2 milhões de toneladas de sardinha por ano e, nos anos 1980, as pescas passaram para 13 milhões de toneladas por ano, o que levou ao esgotar dos stocks (fonte).

Afinal, é possível defender o fim das quotas da sardinha.
E é simples, basta acabar com:
   i) O sonar, 
   ii) As redes de cerco, 
   iii) A informação a partir dos aviões e dos satélites de reconhecimento, 
   iv) A comunicação via rádio
   v) Os motores a explosão (meter os barcos outra vez a andar a vapor).
Assim, já posso defender o fim das quotas da sardinha mas, penso, que nenhuma associação de pescadores vai querer esta solução.

A culpa é do progresso tecnológico.
Se deixarmos os pescadores actuais pescar todas as sardinhas que encontrem usando o sonar e as redes de cerco, num prazo máximo de 5 anos, não haverá uma única sardinha no nosso mar.

E os peixes do mar não são dos pescadores.
Os pescadores não são os donos do mar nem das sardinhas que lá nadam. Os donos somos nós, todos os portugueses, mesmo os que vivem no meio da serrania.
E, muito menos, as sardinhas são propriedade dos pescadores actuais.
Por isso, mais nada pode ser feito do que impor quotas e o governo tem que as defender por todos os meios.
Se os actuais pescadores acharem que não é rentável ser pescador, têm que mudar de profissão.
Também eu queria muito ser caçador de elefantes no Alentejo mas, por não ser rentável, tive que mudar de profissão.

Fig. 3  - Também acabaram os capadores de porcos!

Pedro Cosme Vieira

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

33 - A estalagem

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
______________________

Ver o capítulo anterior (32 - A cumieira)    


33 – A estalagem
Quando chegaram às proximidades da aldeia do Norte, já estava escuro, o Sol já se tinha posto fazia bem mais de uma hora, o ar estava frio e cortante e tinha começado a nevar um pouquinho. Pensando que as 30 pessoas iriam assustar o estalajadeiro, o Dessilva gizou uma estratégia que passava por negociar as condições do alojamento em degraus, primeiro um estábulo e só depois, se possível, uns quartos. Também era fundamental que o estalajadeiro já tivesse recebido a encomenda postal enviada pelo Jacob a partir de Amesterdão com os salvo-condutos necessários para que as pessoas pudessem fazer a viagem.
O Dessilva seguiu para a aldeia sozinho. Passando pelas casas olhou para um lado e para o outro e foi pensando para si “A aldeia tem algumas casas novas mas, tirando isso, está tal e qual como há 40 anos atrás”. Foi andando e descobriu a mesma estalagem onde tinha estado havia tantos anos. Entrou e, naturalmente, não reconheceu ninguém, naquela noite o senhor que hoje estava ao balcão ainda não deveria ser nascido. 
– Boa noite Sr. Estalajadeiro, chamo-me Newman Dessilva e penso que recebeu uma encomenda postal que me é dirigida!
– Boa noite, então o senhor é que é o Newman da Dessilva, tenho, tenho, recebi um pacote que lhe é dirigido, tenho-o mesmo aqui debaixo do balcão, faça favor mas dê-me também para cá 5€ pelo trabalho que tive e pelo depósito.
– Com certeza – O Dessilva tirou da carteira uma nota de 20€ e entregou-a ao estalajadeiro –Já está na sua mão mas não precisa dar-me já o troco que ainda vamos fazer negócio.
­– Negócio como?
– É que eu preciso de um local para pernoitar.
 – Se precisa de um local bom e barato para pernoitar, veio mesmo ao sítio certo. Temos o quarto perfeito, uma coisa feita mesmo à medida da sua fineza pois vejo, pela roupa, que é montanhista. Arranjo bom e barato, por 25 €, com boa cama, boas áreas e casa de banho com água quente e ainda tem direito a jantar, não falta aqui variedade e, amanhã, pequeno almoço com tudo do que há de melhor aqui na aldeia, pão fresquinho, chá, leite, queijos de ovelha, cabra, vaca e de mistura, enchidos e doces de todo o tipo. Vai ver que é barato, 25€ com os 5€, já só tem que me dar mais 10€.
– Então, vai mesmo ser aqui que eu vou pernoitar, mas o negócio ainda não acabou. O que eu também pretendo é um local para abrigar os animais que me acompanham e que deixei à entrada da aldeia, 20 burros que carregam as minhas tralhas, 8 cães que me defenderam dos lobos e, naturalmente, ainda as pessoas que os conduzem.
– Sim, isso arranjasse, tenho um bom curral mesmo à porta da aldeia, faço-lhe 5€ por cabeça o que inclui lenha para aquecer água pois, com este frio, não é bom dar água gelada aos animais, e ainda ração para eles encherem o bandulho. Se fosse cliente conhecido, fazia-lhe uma atenção mas, não o conhecendo, leva com a tabela, nem mais nem menos, 5€ por cabeça.
Aquele preço era para regatear, o mais certo é que ficasse nos 2€ mas o Dessilva não o iria fazer pois ainda tinha o problema de ter que arranjar um local para que as pessoas pudessem passar a noite.
– Eu conheço esse seu curral pois já aqui estive faz mais de 40 anos mas o Sr. não me pode conhecer pois é novo de mais e nenhuma memória reconheceria uma cara 40 anos depois! Na altura meti lá 250 ovelhas!
– Pois diz muito bem, eu nem 40 anos tenho, nesse tempo era o meu pai que Deus já lá tem que era o estalajadeiro. Mas ter estado aqui há 40 anos ainda não o faz cliente habitual.
– Aceito então os 5€ por cabeça.
–  Óptimo – disse o estalajadeiro com cara de ter feito um grande negócio – 30€ a somar a 28 vezes 5€ dá, deixe-me fazer a conta aqui na lousa, 170€, já me deu 20€, faltam 150€! – Já havia muito tempo que uma noite não rendia tanto dinheiro e, muito menos, quase apenas pela renda do curral.
O Dessilva foi a um dos bolsos interiores do casaco, tirou um maço de notas e começou a passar notas de 20€ para cima o balcão que ia contando em voz alta “20, 40, 60, 80, 100, 120, 140, 160, cá estão 160€, com os 20€ que já lhe dei, soma 180€.”
  Tenho então que lhe dar 10€ de troco.
– O melhor ainda não pois ainda temos que continuar o negócio! é que também estou acompanhado por umas pessoas que levo para trabalhar nas minhas terras que ficam longe daqui, mais para Norte, é que por aquelas terras não existe gente que preste para para trabalhar pelo que, constando-me que havia gente forte por estes lados, vim buscar 31 jovens e uma criança. Naturalmente, também vou precisar de um local onde possam passar a noite e ainda uma sopa quente.
– Bem, como o senhor chegou do Monte, primeiro, vou ter que ver quem são essas pessoas, se forem quem eu penso, vai ser impossível fazer essa parte do negócio. Mas, primeiro, temos que tratar dos animais e, depois, vamos tratar das pessoas que o acompanham.
Porque já estava noite, o estalajadeiro acendeu um lampeão e lá foram os dois homens a apanhar neve que se estava a tornar cada vez mais espessa “Isto ainda se vai transformar numa noite de tempestade” – disse o estalajadeiro para manter conversa com o cliente – “É este o curral que lhe digo, como vê, isto é bastante grande, como disse, até já o conhece por dentro sabendo que cabem aqui mais de 250 ovelhas”. Era mesmo aquele o curral onde, há mais de 40 anos, o Sr. Dessilva tinha pernoitado na sua fuga da miséria. As lágrimas vieram-lhe imediatamente aos olhos.
– Passa-se alguma coisa senhor?
– Não, não, não é nada, é o vento frio que me fere os olhos.
– Pode então, pode dizer aos carregadores para meterem aqui os animais e que também podem pernoitar junto deles. Agora, onde é que estão essas tais pessoas que o acompanham para que as possa ver?
– Estão às portas da aldeia, são uns 250 m daqui.
– Vamos então até lá para ver o que posso fazer.
Quando chegaram às pessoas o lampião pintou um quadro deprimente de que o Dessilva, por já estar habituado, ainda não tinha dado conta. Era um magote de pessoas todas vestidas de forma andrajosa, roupa preta cheia de remendos, suja da viagem, com mantas também remendadas enroladas pelo corpo e a tapar a cabeça, os homens com barbas compridas e, uns com um chapéu e outros com um gorro pretos, encebados, e as mulheres com um lenço a tapar quase toda a cara, todos muito magros, só mesmo pele e osso. As pessoas estavam encostadas aos burros a tentar uma protecção contra a agrura do tempo. “Mau, isto está mau, não vai ser possível resolver o seu problema, os burros, os cães e os carregadores meto-os no curral porque já fechamos negócio mas o resto não, não posso mete-los na estalagem, os vizinhos matavam-me se soubesse que eu os metia dentro de portas, incendiavam-me a estagem nunca mais teria nenhum cliente” e, virando costas, voltou para a estalagem. O Sr. Desilva só disse “Vamos conversar” e seguiu o estalajadeiro de volta à estalagem. Quando reentraram o estalajadeiro foi claro “Não posso meter em minha casa animais fazendo de conta de que são pessoas. São animais cheios de pulgas e de piolhos, devia-me ter sido verdadeiro, ter-me dito que precisava de abrigo para animais, burros, cães e de outra espécie.”
– Deixe-se disso homem, que aqueles burros, cães e homens são seres que me servem e de que preciso seja como carregadores ou arrendatários nas minhas terras, não quero saber se têm pulgas, piolhos ou carraças, o que eu quero saber é que se ficarem ao tempo, vão morrer e quem fica com o prejuizo sou eu. Por isso, se ainda há bocado me disse que fazia 5€ por cabeça de cada animal e agora diz que são todos animais, fazemos então esse preço, burros, cães e outros animais, tudo a 5 € por cabeça. São 20 burros, 8 cães, 5 carregadores, 2 pastores, 31 trabalhadores e uma criança, soma 67 cabeças, a 5€ dá 335€, mais os 30 €, são 365€ de que já lhe dei 160.
O estalajadeiro ficou calado por uns segundos e o Dessilva aproveitou este silêncio. Sem deixar o estalajadeiro pensar uma resposta, foi novamente a um dos bolsos interiores do casaco, tirou outro maço de notas e começou novamente a passar notas de 20€ para cima o balcão que ia contando em voz alta “180, 200, 220,  ...” por ali fora até fazer 380€, “Cá estão 380€, ainda tem que me dar 15€ de troco.”
Ao ver os 220€ em cima do balcão que somavam aos 160€ dos animais, o estalajador estremeceu e, apesar da linguagem corporal dizer que ia aceitar, no último segundo recuou.
– O senhor sabe que eu não sou homem de voltar com a palavra atrás mas não vou poder aceitar, dinheiro é dinheiro mas os meus vizinhos vão-me matar.
– Mas espere aí porque ainda não acabei. É que os burros, cães e carregadores vão voltar para trás, 35 cabeças fazem mais 175€, com os 15€ que tem que me dar de troco, são mais 160€. E pago já o retorno – continuando com o maço de notas na mão – 400, 420, 440, 480, faz 500€, agora não pode dizer que não. E se esta primeira viagem correr bem, se estas pessoas forem mesmo trabalhadores como ouvi dizer, mais viagens se seguirão e o ponto de apoio será sempre aqui. 
Finalmente, o estalajadeiro ficou cego com o dinheiro, “São 500€, é muito dinheiro, vai-me safar o mês e, no futuro, mais 500€ poderão cair-me no bolso” pensou ele.
– Bem, realmente, apanhou-me a palavra e eu não sou homem de voltar com a palavra atrás. Faço-lhe então por 500€ e aguardo o retorno dos animais e dos varregadores – esticou a mão que foi rapidamente apertada pelo Sr. Dessilva para selar o acordo.
O Sr. Dessilva vendo que o negócio ainda não estava bem firme, passou ao ataque "Então agora, por favor, mande o seu moço abrir a porta do curral que está um tempo de cortar à faca".
– Vou lá eu mesmo pois o moço pode dar com a lígua nos dentes. Vou eu mesmo tratar da palha para os burros e para que as pessoas se possam deitar. Vou também arranjar lenha para que possam aquecerem água para os animais e para fazerem um chá pois devem estar cheios de frio e de sede. Sabe senhor, há bocado eu posso ter sido um bocado duro mas fui colhido um pouco de surpresa por aquele aspecto deplorável e vou-lhe mesmo confessar, quando aparecem pessoas dessas por aqui as pessoas escorraçam-nas como se fossem a peste. Mas agora estou a ver que o senhor é boa pessoa e, para ter atravessa o monte para as ir buscar, o que não é nada fácil, mostra que precisa mesmo destas pessoas lá nas suas terras. Se não fosse ver em si um homem sério e de bom coração, deixava que passassem a noite ao tempo, não queria saber. O Sr. deve ser mesmo bom coração para pagar 500€ para que essas pessoas não fiquem ao frio, outro qualquer não se importaria e, se morresse algum, paciência,  muitos mais no Monte.
– É que eu penso que, no fundo, também são criaturas de Deus.
– Tem toda a razão. Por isso, também lhes vou mandar uma panela de sopa de feijão que a minha mulher tem ali feita e pôr outra ao lume para fazer mais pois as pessoas pareceram-me com necessidade de comer algo quente.
Atendendo a que lá fora a neve se tinha transformado numa tempestade, se não fosse o abrigo, concerteza que morreriam pessoas. Com as barrigas cheias com a sopa quente, as pessoas ficaram como novas. “Se nós comessemos sempre assim, ficávamos gordos como o porco no dia da matança” era o que mais se ouvia. As pessoas encostaram-se umas às outras em cima da palha e, dado o cansaço, imediatamente adormeceram profundamente como se estivessem num hotel de luxo. O Sr. Dessilva não chegou a usar o quarto, decidiu passar a noite “Com os arrendatários” mas sentiu-se melhor do que se estivesse no quarto de um rei. E como fizeram jeito as mantas.
Na manhã seguinte, pelas 6h da madrugada, os burros começaram a anunciar o dia zurrarando sem parar. Como eram 20 e estavam dentro do cural juntamente com as pessoas, tornou-se impossível que alguém continuasse a dormir. Lá se levantaram todos, puseram água a aquecer para lavar a cara e também para fazer um café turco. Mais broa de milho, chouriço e queijo de ovelha que ia nos alforges dos burros mas, desta vez, também havia uns ovos acabadinhos de cozer “Oferta do estalajadeiro”.
– O Sr. Dessilva é um autêntico anjo que nos apareceu. Olhe aqui, olhe aqui Sr. Dessilva – apontando para uma das pessoas – Veja aqui o Joaquim que ontem estava quase morto, veja como ele já arrebitou, está como novo, diz que não se lembra como veio aqui parar, a última coisa que se lembra é de ter passado o buraco no muro da aldeia!
– Bondi dia Joaquim, realmente ontem estavas mais para lá do que para cá mas não te envergonhes que é próprio da doença das alturas. Vai-se acumulando líquido nos pulmões e no cérebro e, se a pessoa não descer, acaba por morrer afogada. Mas eu também sabia que, depois de descermos e deixando passar uma noite bem dormida, isso ia ao sítio. Meninos, vamos apressar que ainda temos uns 50 km até à cidade e temos que chegar lá no máximo às 18h pois às 20 h passa o comboio que nos há-de levar a Amsterdão e precisamos de tempo para organizar a compra dos bilhetes.
– Mas o Sr. Dessilva vai connosco para Amsterdão? – Perguntou o António.
– Eu não pensava ir, como te disse, tinha planeado esperar aqui que os carregadores voltassem de vos levar à cidade e, nessa altura, retornar à aldeia com eles. Mas, vendo o que aconteceu aqui, vocês não vão conseguir chegar lá sem a minha ajuda, não vão conseguir embarcar no comboio quanto mais passar a fronteira. Pode ter custado muito atravessar a montanha mas o caminho ainda vai no princípio, é que é mais dificil atravessar o precoceito das pessoas do que as agruras do cume do monte. – Virando-se para as pessoas – Vamos lá meninos, vamos a carregar os burros que está na hora de partir.
À saida o sr. Dessilva ainda deu uma palavra ao estalajadeiro.
– Agradeço-lhe muito a sua hospitalidade e espero que esta sua hospitalidade se repita no futuro pois, se estes se mostrarem trabalhadores, ainda vou precisar de levar mais.
O estalajadeiro acenou positivamente com a cabeça e apertaram a mão.

Capítulo seguinte (34 - O comboio)

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