sexta-feira, 29 de Agosto de 2014

A execução orçamental e o Rectificativo

Tudo tem um ponto de vista positivo. 
A execução orçamental está a resvalar um pedaço. 
Em 2013 o défice foi de 4,9% do PIB e em 2014 tem que ser de 4% do PIB pelo que seria de pensar que este ano o défice fosse menor do que o do ano passado em 125 Milhões€ por mês. 
Mas a realidade mostrou-se ao contrário, fechamos o Julho de 2014 com um défice maior em 55 M€ por mês.
Este défice traduz que, em média, cada português deveria ter pago mais (em impostos e taxas) ou recebido menos (em salários de funcionários públicos ou pensões) 18€/mês.
E não nos podemos esquecer que o défice público "económico" de 2013 (sem receitas extraordinárias) foi bastante maior, na ordem dos 5,8% do PIB (relatório do OE2014, Quadro I.2.5. Previsões orçamentais) .

Fig. 1 - No outro dia fui à praia e reparei que a moda é o "bikini orçamento": não consegue cobrir quase nada.

A dívida pública aumentou.
Se o défice resvalou, naturalmente, a dívida pública também resvalou pois o governo precisou endividar-se mais para tapar o desvio. É que tudo o que o Estado gasta sem ter receita para isso tem que ir para dívida pública.

Mas onde está o ponto positivo?
É que uma parte substancial desse desvio está na minha conta bancária. 
Em Junho, Julho, Agosto mais o subsídio de férias foram repostos os valores de 2010 do meu salário o que  custou muito dinheiro ao orçamento de estado mas veio para mim. 
Faz-me lembrar a Lei de Lavoisier: nada se perde, tudo se transforma.

O retificativo não corrigiu o desvio.
Para corrigir o desvio seria preciso arranjar até ao fim do ano pelo menos 1800 milhões €. Se pensarmos que o crescimento previsto do PIB em 1% induz um efeito positivo no orçamento de 0,5% do PIB, já só serão precisos 1000 milhões €, 100€ por cada português.
E o orçamento retificativo não fez nada. Limitou-se a rever umas previsões para valores totalmente inatingíveis em falar de poupanças genéricas e receitas extraordinárias. Falam em concessões e privatizações de coisa que só dão prejuízo como seja os transportes públicos.
Um exemplo irrealista é pensar que um aumento de 1% no PIB vá causar um aumento de 0,7 pontos na receita fiscal e 0,3 pontos na receita da Segurança Social. Isso traduziria que todo o crescimento do PIB iria para impostos mesmo sem aumento das taxas (O IRS e o IRC teria que ser de 70%).

Mas terá lógica não fazer nada?
Não tem lógica mas o governo tem que ponderar, por um lado, os movimento sociais e, por outro, o défice.
Pensa o governo que, como parte substancial da derrapagem foi devido ao chumbo do Constitucional no corte dos salários dos funcionários públicos que será parcialmente substituido já em Setembro (foi uma despesa extraordinária), as actuais taxas de imposto, regras de atribuição dos subsídios e racionalização dos serviços públicos serão suficientes para corrigir o défice público automaticamente.
Como temos eleições daqui a um ano e os opositores internos do PSD estão sempre a ver se há uma entre-aberta para poderem atacar, o Passos tem que manter tudo calmo. 

Os juros vão melhorar.
Em 2014 os juros pagos serão 7900M€ e o défice público está orçamentado para ser  6900M€ pelo que, mesmo com um "pequeno" desvio até meio ponto, já vamos ter um défice primário positivo (sem juros). 
O quantitativo pago em juros é elevado (cerca de 10% da despesa pública) o que, como as taxas de juro estão baixas, acaba por ser bom porque tem potencial para descer. Actualmente a média da taxa de juro da dívida pública está nos 3,7%/ano (porque a dívida vem do passado) e as taxas de juro já desceram para mínimos históricos, a 5 anos o Estado já se consegue financiar abaixo dos 2,0%/ano. Isto traduz que há margem para, num horizonte temporal de 5 anos, a despesa pública em juros diminuir 4000 milhões €.
Só esta componente tem potencial para, sem o governo mexer em nada, reduzir o défice público em dois pontos.

Dizia um jovem economista.
- O sr. dr., queixando-se constantemente que não tem dinheiro, porque é que vai almoçar todos os dias a um restaurante e dos caros? Não seria melhor fazer como eu que trago umas sandes de casa.
- Não homem, vê-se mesmo que não percebes nada de economia. Imagina que tens um azar na vida, por exemplo, a tua mulher põe-te os patins. Onde é que vais poupar, nas sandes para depois morreres de fome? Eu vou ao restaurante para, caso tenha um grande azar, ter onde cortar.

O desemprego caiu de forma assustadora.
Uma óptima notícia, o desemprego está nos 14% da população activa.
É uma notícia extraordinária que traduz que a economia está a ajustar.

Não me acredito, não pode ser, o Mundo vai acabar.
Na França, desde 1998 que o horário de trabalho é de 35 horas por semana.diriam os nossos constitucionalistas da esquerda que o seu fim é impossível porque "violaria o principio da confiança".
Pois é, mas acabou. No fim de Julho o senado francês acabou com esta limitação "sem terem de pagar horas extraordinárias".
Mas não era o Holland que ia defender o Estado Social e as Conquista da Civilização contra a malvadez dos alemães?
Realmente, no curto prazo a redução do horário de trabalho pareceu combater o desemprego mas, comparando com a Alemanha, foi um resultado de curto prazo e ilusório. Actualmente, a taxa de desemprego alemã é menos de metade da taxa francesa.

Fig. 2 - Evolução da taxa de desemprego na Alemanha e na França (dados: Banco Mundial)

O PIB per capita da França está a afastar-se desde 1974 do PIB per capita da Alemanha, perde mais de 0,4 % por ano. Não parece muita diferença mas é porque, primeiro, as taxas de crescimento dos países desenvolvidas é relativamente baixa (no período 1975-2013, Alemanha = 1,85%/ano, USA = 1,85%/ano, França  = 1,40%/ano) e, depois, ao longo dos anos vai somando, desde 1975 o PIB per capita da França já perdeu 20% relativamente ao da Alemanha e continua a divergir.
Este problema parece estar a agravar-se. Nos últimos 8 anos, o PIB pc alemão aumentou 1,67%/ano enquanto que o francês aumentou apenas 0,25%/ano (e o americano, 0,43%/ano).

Fig. 3 - Evolução d PIB per capita francês relativamente ao alemão (dados: Banco Mundial)

O problema da França não é a austeridade.
Podem pregar muito contra a sr. Merkel mas o problema está na Alemanha mas sim em quem não cresce. O problema dos doentes não é haver pessoas saudáveis.
É um problema que já vem desde 1975, são os "Direitos Sociais" e o "Estado Social" mais avançados do Mundo.
Mas o problema acaba sempre por acabar no problema de não ser possível distribuir riqueza se a economia não criar riqueza.
Dar direitos a (quase) todos parece uma coisa boa mas também implica impor obrigações e como já não fica (quase) ninguém a quem impor essas obrigações, as conquistas têm que ir à sua vida.

E o que é que o António Costa (e o Seguro) tem dito?
Mais tempo? Acabou.
Espiral recessiva? Já ninguém fala disso.
A carta? Ainda alguém se lembra do romance da carta?
O Holland, salvador da Europa? Já morreu.
Reestruturar a divida para que a taxa de juro passe a ser 3%/ano? Já está abaixo de 2%/ano.
O que terão os socialistas mais para dizer?

Lembrei-me de uma coisa.
O Costa costuma falar dos "economistas americanos, prémios Nobel, que são contra a austeridade europeia".
Mas esquece-se de dizer que, nos USA as pessoas podem trabalhar a partir dos 12 anos de idade; para despedir uma pessoas basta diz-lhe "Rua"; o pré-aviso para despedir é de 15 segundos e o trabalhador tem direito a receber quando é despedido um mês por cada milhão de anos de tempo de serviço.

Fig. 4 - Meus Deus, não penses que me despedes assim sem mais nem menos pois eu tenho os meus direitos, é que já tenho 1947 anos de serviço. Pelas minhas contas, aplicando a Lei Americana tenho direito a um indemnização correspondente a 2,8 minutos de salário.

Voltemos ao Califado do Levante.
O ISIS tomou uma base qualquer na Síria de onde saiam os helicópteros e os aviões que matavam indiscriminadamente.
Os do ISIS "julgaram-nos" e, tal como no Julgamento de Nuremberga, condenaram-nos à morte por crimes contra a humanidade.
Em Nuremberga enforcaram-nos por acharem que era pior que os fuzilar.
Os do ISIS foram mais humanos e fuzilaram-nos.
Faz-me lembrar os tempos de 1974 quando pensavamos que, ficando as colónias interegues aos "turras", seriam matanças sem fim.
Mas o Mundo é isso mesmo, uns matam-se, dão cabo das riquezas que têm (como os líbios) e, depois, queixam-se que são pobres e desgraçados. Mas não compete aos americanos tomar conta do povo por esse Mundo fora.

Fig. 5 - Podem dizer que mataram muitos mas a população em Angola + Moçambique aumentou de 16,4 milhões (1973) para 47,3 milhões (2013).

E o número de mortes não é significativo.
Em 1960, a Síria mais o Iraque tinham 11,9 milhões de pessoas (Portugal 8,9) e agora têm 55 milhões (e Portugal 10,5). Para manter a proporção, ainda podem morrer mais 40 milhões.
Nos últimos 4 anos morreram em acções violentas na Síria 50 mil pessoas por ano e no Iraque umas 15 mil no Iraque. Mas mesmo que morram 15 vezes mais, um milhão de pessoas por ano, a população ainda vai continuar a aumentar.
Se olharmos para o gráfico da população, ninguém nota que existe guerra.

E com vai a Ébola?
Está cada vez pior.
Está tão mal que a WHO dava resultados 3 vezes por semana e esta semana, só deu resultados uma vez.
E é um problema muito mais grave que o ISIS porque se propaga. Para matar uma pessoa a tiro é preciso caça-la e dar-lhe um tiro. Para matar outra é rpeciso novamente caça-la e mata-la. EUma pessoa morre de Ebola e, no entretanto, contamina 5. Depois, cada uma destas pessoas morre e contaminam 125 que, quando morrem já contamina 635.
Cada pessoa atacada torna-se, automaticamente, um novo "terrorista".
No último relatório, em 6 dias houve tantas pessoas contaminadas como tinha havido nos primeiros 6 meses da epidemia, 76 por dia que se vai traduzir dentro de 20 dias em 68 mortos.

Fig. 5 - Evolução diária de novos contaminados com Ebola (dados: WHO)

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 22 de Agosto de 2014

O Mundo parece estar louco

Os últimos meses têm sido de loucura. 
Pelo lado dos homens, a Rússia invadiu a Ucrânia, a Líbia entrou em nova guerra civil, a Síria continuou com a matança dos inocentes, Gaza voltou ao tempo dos bombardeamentos sem fim à vista, o BES foi à falência, o Costa iniciou uma guerra fratricida com o velho amigo Seguro e o Rui Rio mostrou as garras ao Coelho. 
Pelo lado de Deus, veio o Ébola com uma força que já não se via desde 1918 quando a pneumónica matou milhões de pessoas.
Será que isto são, como dizem as Testemunhas do Senhor Jeová, os sinais de que nos aproximamos do fim do Mundo?

Fig. 1 - "Nós somos testemunhas do Senhor Jeová e estamos aqui para anunciar que o fim do Mundo está próximo" - Entrem, entrem meninas, vamos lá a uma rapidinha e, depois, o Mundo já pode acabar. 

Cheguei a ter esperança na Rússia.
Em 1990 o nível de vida da Rússia era equivalente ao de Portugal e 1,9 vezes o nível de vida do Brasil.
Depois da queda da URSS, a coisa piorou muito e atingiu o seu nível mais baixo em 1998. Nesse ano o nível de vida russo caiu ao nível do do Brasil. Reparem bem como o Brasil é uma potência com pés de barro, a Rússia não é tida como um pais rico e, mesmo assim, no seu pior ano, o nível de vida  russo igualou o brasileiro! 
Por coincidencia ou não, nos 10 anos depois que o Putin foi eleito presidente, a Rússia teve um crescimento impressionante, 7,3%/ano em termos de PIB per capita, comparável ao crescimento da China. Naturalmente, o povo aceitou um regime mais musculado porque pensava ser fundamental para o aumento do seu nível de vida.
Portugal é uma miséria, desde 1999 que estamos numa estagnação total. Nem o "choque tecnológico" que o Sócrates acompanhou com 180 mil milhões € de endividamento externo nos ajudou.

Fig. 2 - Evolução do PIBpc ppp do Brasil, Rússia e Portugal (dados: Banco Mundial)

Porque será que a Rússia parou de crescer?
O problema russo é que, desde a crise do sub-prime de 2008, o nível de vida só tem crescido 0.8%/ano o que não é nada para quem estava habituado a 7,3%/ano.
O problema esteja no facto de a Rússia ter atingido o nível de PIB que existia nos finais da URSS. Provavelmente o crescimento de 1998-2008 foi uma recuperação do terreno perdido e, depois desse ano, voltou o crescimento anémico que viveu nos anos 1980.
Agora a economia tem que se liberalizar e privatizar, as barreiras ao comércio principalmente com a Europa têm que diminuir mas a realidade tem evoluído no sentido contrário: mais estado e mais barreiras ao comércio.
O certo é que estes 5 anos de praticamente estagnação tornou os russos mais nervosos. E não há nada melhor para se ser estadista que uma guerra com os vizinhos desgraçados.

O Brasil nem está mal.
Nos últimos 10 anos, 2003-2013, o nível de vida cresceu 2,7%/ano enquanto que nos 10 anos anteriores, 1993-2003, tinha crescido apenas 1,0%/ano. Mas também não está bem, ainda precisa crescer durante 20 anos a 2,7%/ano para atingir o actual nível de vida português, e nós achamo-nos desgraçados e falidos! 

Fig. 3 - O Brasil está bem, principalmente nas suas praias que são de uma beleza extraordinária.

O Mundo Islâmico é um problema complexo.
Há já milhares de anos que se desenrola uma guerra entre as quatro interpretações do Livro de Moisés, os Judeus, os Cristãos, os Sunitas e os Xiitas.
Até meados do séc. XIX , o vencedor de uma guerra tinha o direito de matar e escravizar quem bem entendesse (Antes da convenção de Genebra). Os povos queriam-se explorar uns aos e o povo vencido tinha que se render de forma incondicional. Enquanto não fosse a rendição, o que tivesse maior poder bélico matava gente até, se houvesse necessidade, não sobrar ninguém.
Por exemplo, os europeus diziam aos nativos por esse mundo fora "toca a andar daqui para fora, ide para longe da vista, lá para o meio do deserto que queremos estas terras". Se eles fossem, boa viagem, se não fossem, matavam-nos.

Os problemas vêm da "civilização".
No tempo antigo, as guerras era definitivas, o vencedor "passava pela espada" todos os vencidos, fossem, homens, mulheres ou crianças.
Por exemplo, quando em 70 AD os romanos tomaram Jerusalém, 1,1 milhões de pessoas foram mortas e 100 mil feitas escravos (Josephus). Lá, não ficou nenhum nativo vivo.
Agora, como não se matam os vencidos, as guerras de atrito continuam por tempo indeterminado.

O ISIL retomou a guerra do antigamente.
Quando vencem uma batalha, matam toda a gente, matam os soldados vencidos, matam os velhos, matam as mulheres e matam as crianças. Falta-lhes aquilo que denominamos de "humanidade".
Mas eu já tinha previsto isto.
Na Síria, 3/4 da população é sunita mas o regime do Assad é xiita. Naturalmente, se houvesse democracia o governo seria sunita pelo que os apoiantes do Assad não querem eleições. No entretanto, já matou 200 mil sunitas, com bombas, gás venenoso, fome e sede. Só prisioneiros, executou mais de 10 mil.
O problema é que, com o tempo, os sunitas começaram-se a radicalizar e começaram a matar civis xiitas e de outras minorias.
Agora é um problema de grande dimensão e com tendência para piorar. Os xiitas da Síria pensam que se conseguem manter no poder mas apenas estão a tornar o problema cada vez pior.
No fim, vamos a assistir a matanças históricas como já existiram mesmo no Séc XX mas de que não nos queremos lembrar:
   1915-18 => 1,5 milhões de arménios às mãos dos turcos
   1932-33 => 7 milhões às mãos do Estaline e dos comunistas
   1937-38 => 300 mil de chineses em Nankim às mãos dos japoneses
   1938-45 => 6 milhões de judeus às mãos dos nazis.
   1975-1979 => 2 milhões mortos de cambojanos às mãos do Pol-Pot e dos comunistas
   1994 => 800 mil no Ruanda às mãos uns dos outros
   1992-1995 => 200 mil bósnios às mãos dos sérvios

Como se poderão resolver os problemas do Mundo Islâmico?
O que foi feito no Afeganistão e no Iraque não é a solução. Prova de que o Bush era mal assessorado é o facto de esta solução ter sido tentada no Vietname e não ter resultado.
Não funciona porque, enquanto houver protecção americana, os locais não conseguem criar um exército operacional. Viu-se como o exército iraquiano, mesmo tendo o equipamento bélico mais avançado do mundo, foi derrotado em poucos dias por umas centenas de guerrilheiros armados de metralhadoras enferrujadas.

Os curdos, mesmo sem armas, mostraram ser mais competentes.
Então, a solução terá que passar pela criação de micro-quase-estados, como já existem, por exemplo, no Líbano ou em Israel, que, formalmente, fazem parte de um país, seja o Iraque, a Síria ou Israel mas que, de facto, se auto-governam, são independentes, e inimigos entre si.
Uns quase-estados serão aliados dos USA e dos países ocidentais e outros serão inimigos. Os USA traçarão fronteiras de facto e darão apoio aéreo aos  aliados sempre que os vizinhos os tentem invadir.

E depois?
Na Segunda Guerra Mundial, no dia 9 de Março de 1945 os americanos bombardearam Tóquio com bombas incnediárias matando 100000 e perguntaram "Rendem-se?" e os japonas disseram "Não".
No dia 6 de Agosto de 1945 mandaram uma bomba atómica sobre Hiroxima matando 200000 e perguntaram "Rendem-se?" e os japonas disseram "Não".
No dia 9 de Agosto de 1945 mandaram uma bomba atómica sobre Nagasaki matando 50000 e  perguntar "Rendem-se?" e os japonas disseram "Sim".
Vamos supor que os japonas diziam "Não", chumbavam com outra bomba atómica no dia 19 de Agosto, depois, uma a cada 10 dias (que era o tempo que demorava a fazer cada bomba atómica) até dizerem que sim ou até não haver mais japonas.
E os americanos eram civilizados mas até os civilizados se zangam.
A coisa terá que ser tratada como vemos em Gaza. Os Hamas mandam morteiros, apanham com um bombardeamento que mata aí umas 30 criancinhas ranhosas.
Mandam mais morteiros, chumbam com mais bombardeamento.
E isto vai continuar até dizerem "já chega" ou deixar de haver criancinhas em Gaza.

Fig. 4 - Nagasaki levou com o Fat Man, 21 milhões de kg de TNT, e ficou tudo terraplanado. Até as árvores dos montes desapareceram a perder de vista. E ninguém falou em crimes de guerra. 

O BES está a evoluir bem.
Afinal, todos os activos do BES passaram para o Novo Banco e todos os problemas que eu identifiquei acabaram por ser ultrapassados.
1=> Todas as contas à ordem vão ser pagas (apenas os "familiares" Espírito Santo têm que provar a licitude dos saldos"
2 => Todas as obrigações não subordinadas vão ser pagas
3 => O lucro que o Novo Banco venha a ter da venda dos activos será para pagar as obrigações subordinadas e entregue aos accionistas do BES.

A situação liquida do BES era muito melhor do que era a do BPN. 
Sendo assim, a "gestão controlada" vai correr melhor.
Mas a má notícia (para os accionistas do BES) é que a Tranquilidade vai ser vendida por 50 milhões € quando valia 700 milhões €. Pelos visto, tinha muito "papel comercial do GES" que só serve para limpar o traseiro.

A Ébola está cada vez pior.
Isto é que são más notícias.
Há minutos foram tornados públicos os dados referentes a 20 de Agosto e a epidemia está totalmente descontrolada.
Cada dia estão a ser contaminadas 70 pessoas e, em princípios de Setembro, já teremos 100 novos casos por dia.
Já há em Monróvia um bairro da lata em isolamento compulsivo com 50000 pessoas.
No Zaire (RD Congo), que fica a milhares de km de distancia, apareceram 13 mortes suspeitas.

A Nigéria é um caso gravíssimo.
Uma pessoa deslocou-se da Libéria para a Nigéria no dia 27 de Julho de 2014.
Estando as autoridades avisadas do perigo, monitorizaram todas as pessoas e identificaram imediatamente este caso.
Seria de pensar que a coisa estava controlada mas já há 16 casos e 5 mortos.
Afinal, a Ébola é muito mais difícil de controlar do que têm anunciado.

Mas há os 2 americanos que escaparam com um medicamento.
Escaparem 2 pessoas em 3 dá ideia de que o medicamento dá resultado mas, mesmo assim, morrerá muita gente. Além do mais, o medicamento é muito difícil de produzir (só haverá mais doses em Dezembro) e existe a dúvida se, por as 3 serem brancas, não poderá a Ébola ser naturalmente menos mortal nas pessoas caucasianas.

A taxa deveria estar a diminuir.
Como já apresentei no poste da semana passada, a epidemia segue um processo de difusão que, inicialmente a taxa de aparecimento de novos casos aumenta, depois há um período com taxa constante e, quando se consegue controlar a epidemia (ou já não há mais pessoas para contaminar), a taxa começa a diminuir. O que observo nos dados é que a taxa está a aumentar o que traduz que a epidemia está descontrolada.
Cada dia, a coisa vai de mal para pior, o número de infectados (e de mortos) duplica a cada 25 dias. A esta velocidade, vamos fechar o ano com 83 mil infectados e 45 mil mortos.

Fig. 5 - Taxa de crescimento do número de pessoas infectadas (ver).

E a guerra entre o Costa e o Seguro?
Lá continua.
A boa notícia é que as taxas de juro da República estão cada vez mais baixas. A 5 anos atingiu hoje  um mínimo de 1,76%/ano, abaixo da taxa de inflação esperada para os próximos 5 anos (que é de 1,9%/ano).
Isto é extraordinário porque os caloteiros esquerdistas diziam que iríamos à bancarrota com o Passos se a taxa de juro nominal fosse superior a 3,0%/ano, e já está muito, muito abaixo.
Calaram-se.

Fig. 6 - Taxa de juro da dívida pública a 5 anos.

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 15 de Agosto de 2014

As guerras que nos rodeam

Neste Agosto fresco e regado, vivemos um mês bem quente, com guerras que começam no Ébola e acabam no PS passando pelo Constitucional, por Israel, Iraque e Ucrânia.

A guerra do Ébola está muito difícil. 
Não podemos entrar em pânico sempre que uma doença mata, algures no mundo, 100 ou 200 pessoas. Mas numa doença em que 90% das pessoas morrem, temos sempre que estar atentos. No actual surto de Ébola as coisas estão-se a descontrolar. 

Há que ter pensamento positivo.
Mas não podemos desanimar.
Primeiro, o vírus do Ébola "sabe" que, para sobreviver, não pode matar todas as pessoas. 
Os vírus são como uma chave que tem que encaixar no DNA da sua vítima. Como as pessoas são diferentes (existe diversidade genética), o vírus não consegue encaixar em todas as pessoas. Por isso é que, por exemplo, nem todas as pessoas são infectadas pela gripe e o efeito da doença é maior numas pessoas que noutras. 
No caso do Ébola, os dados passados mostram uma mortalidade de 66% (muito menos que os 90% que eu costumo anunciar) e não sabemos que percentagem das pessoas é imune à doença (que até poderá ser elevada). Os dados também mostram que é possível controlar os surtos. Nos 17 maiores que já aconteceram, só foram contaminadas, em média, 141 pessoas. 
Olhando para os dados passados, podemos ficar descansados (ver, Quadro 1). 

Ano País Casos Mortos
1976  Zaire 318 280
1976  Sudan 284 151
1979  Sudan 34 22
1994  Gabon 52 31
1995  Zaire 315 250
1996  Gabon 37 21
1996  Gabon 60 45
2000  Uganda 425 224
2001  Gabon 122 96
2002  Congo 143 128
2003  Congo 35 29
2004  Sudan 17 7
2007  Zaire* 264 187
2007  Uganda 149 37
2008  Zaire* 32 14
2012  Uganda 24 17
2012  Zaire* 77 36
  Média 140,5 92,6
  Mortalidade   66%
Quadro 1 - Número de contaminados e mortos nas 17 maiores ocorrências de Ébola (ver, *o Zaire chama-se agora RD Congo) 

E no pior dos cenários, termina o "aquecimento global".
Mesmo que aconteça a pior dos cenários (toda a gente ficar contaminada e a mortalidade ser de 90%),  ainda sobreviverão 750 milhões de pessoas que são mais que suficientes para continuar com a nossa espécie para a frente. Assim, não é desta que a humanidade se vai extinguir. E as florestas vão crescer, os oceanos ficarão novamente povoados de bacalhau extra-grandes e as emissões de CO2 vão diminuir drasticamente e as centrais nucleares vão encerrar todas. 

E se fossemos todos iguais?
Já estão a ver o problema da "pureza étnica" preconizada pelo nazismo. É que, quando viesse uma doença destas, morria toda a gente. Uma espécie mesmo que tenha muitos indivíduos, se tiver baixa diversidade genética (ter havido, algures no passado, menos de 100 indivíduos) está condenada à extinção. 

E será que o Ébola está controlado?
O problema agora é que já temos mais de 2000 casos, 15 vezes o valor médio observado no passado, e a mortalidade aproxima-se dos 90%, muito acima da média do passado (ver, Fig. 2).
Para sabermos se o surto está controlado temos que encaixar os dados disponíveis no modelo de difusão que é o aplicável às epidemias.
Neste modelo exponencial o número de casos infectados aumenta a uma taxa que é variável. Na fase inicial, de instalação da doença, a taxa de crescimento é pequena e vai aumentando, depois há um período de crescimento descontrolado (a taxa constante) até que chega ao ponto de inflexão, a partir do qual a doença se considera controlada. Se daqui a 5 anos colocarmos os dados num gráfico em escala logarítmica, iremos ver um S (ver, Fig. 1). A questão que temos que saber é em que parte do gráfico estamos.

Fig. 1 - Modelo de difusão do Ébola

É preciso ajustar o modelo aos dados do Ébola.
Existem dados disponíveis desde o dia 25 de Março 2014 até ao dia ao dia 11 de Agosto 2014 (ver, actualizações). Primeiro, este surto é diferente em magnitude dos verificados no passado porque, houve encobrimento. Sabe-se hoje que o primeiro caso surgiu na Guiné Conacri no dia 9 de Dezembro de 2013 mas só passados 106 dias, no dia 25 de Março de 2014 é que foi tornado público, quando já havia 86 casos e 59 mortes. Assim, em vez de ser preciso conter um foco, foi preciso fazer face a 86 focos. 
Depois, em princípios de Abril foi possível atingir o ponto de inflexão pelo que, em meados de Maio, parecia que o surto estava totalmente dominado com um total de 270 casos. O problema é que foi sol de pouca dura pois, de repente, o Ébola entrou numa nova fase de expansão descontrolada . Olhando agora para os dados, não se vê nenhum ponto de inflexão pelo que há qualquer dúvida de que a doença está descontrolada (ver, Fig. 2). 

Fig. 2 - Número de contaminados com Ébola (ver, actualizações) => está descontrolado.

Quando teremos outro ponto de inflexão?
Muitas pessoas estão a lutar para que seja conseguido o mais rapidamente possível mas nunca se sabe quando o conseguirão. As notícias falam, na melhor dos cenários, que será lá para o fim do ano. 
Entretanto, cada dia, o número de pessoas infectadas aumenta 2,5% o que traduz que, enquanto não se atingir o ponto de inflexão, cada mês mais que duplica o número de contaminados. 

Os especialistas já falam que este surto de Ébola pode matar um milhão de pessoas.
Se não se conseguir inflectir a tendência, no final de 2014 teremos 65 mil contaminados e, em meados de 2015, já teremos 6 milhões de contaminados. E, ainda resulta do modelo de difusão que, depois de atingir o ponto de inflexão, ainda muitas pessoas serão infectadas. 
Se o descontrole continuar até meados de 2015, teremos 10 milhões de mortos, mais que todas as guerras que aconteceram desde 1945.

Mas não é muito trágico.
Em África há cerca de 1000 milhões de pessoas e em 1600 havia 116 milhões. 
Se o Ébora ficar apenas em África, não será muito grave (para nós) pois apenas fará a população africana voltar aos valores da época dos descobrimentos. 
Moçambique voltará aos 2 milhões e Angola aos 1,5 milhões da época dos descobrimentos.
Vamos a ver no que dá. 

Fig. 3 - Vai ser uma pena o Ébola levar-te mas, temos que ter paciência

A guerra do PS.
Dizem os especialista que não se conseguem ganhar guerras com apenas bombardeamento aéreo porque as pessoas escondem-se. Para os tirar dos buracos é preciso ter "cães" no terreno. 
É exactamente isso que se está a passar no PS em que o "cão" do Costa é o Seguro e o "cão" do Seguro é o Costa. 
Cada um obriga o outro a revelar quais são as suas estratégias de governação e, afinal, são um manado de nada.

"Precisamos de austeridade inteligente".
É a frase mais vazia de conteúdo que pode um burro imaginar.
Afinal vão "vamos fazer tudo que o Passos faz mas de forma inteligente".
Ao menos isso, de forma inteligente.

Fig. 4 - A"austeridade inteligente" aplicada pelo socialista Holland à França "apenas" reduziu o crescimento económico a 1/3 do que era no tempo da "austeridade estúpida" do "neo-liberal" Sarkozy.

A guerra do Constitucional.
Em 2011 eu escrevi que era impossível diminuir a despesa pública. Que, na melhor das hipóteses, o Passos Coelho iria mantê-la constante. E parece que vai ser esse o caso. 
Mas também é um bocado de teimosia. 

O Constitucional está como eu.
Tem que haver uma mexida nas pensões que torne mais semelhantes as reformas do passado com as reformas que recebem as pessoas que se reformam hoje. 
Não faz qualquer sentido ter duas pessoas que começaram a trabalhar exactamente no mesmo dia e, porque a pessoa A se aposentado em 2000 e a pessoa B fez o sacrifício de trabalhar mais 14 anos e recebeu menos 14 anos de pensão, a pessoa B ficar a receber uma pensão muito menor que a pessoa A. 
O Constitucional chumbou os cortes nas pensões porque diz que esta diferença tem que ser corrigida. 
Só em 2014 as "novas reformas" levaram um corte de 10% e as outras ficaram na mesma. 

Mas ainda vou falar da guerra em Israel.
Vamos imaginar uma economia onde existe uma grande empresa e várias pequenas em que o custo de produção da empresa grande é 0.45€/u. e a das pequenas é de 0.50€/u.
Em termos de lucro, o óptimo global será que todas cobrem um preço como se fossem monopolistas, vamos imaginar que esse preço é de 1.00€/u.
O problema desta estratégia é que, se uma das pequenas empresas diminuir o preço para 0.99€/u., fica com os clientes (quase) todos. Seremos então levados a pensar que a grande empresa tem que descer o preço para 0.99€/u. e que, continuando a guerra de descontos, vamos acabar com um preço pouco acima dos 0.50€/u, com lucros esmagados.

O que é que isto terá a ver com a guerra?
É que, sempre que uma pequena empresa descer o preço (para 0.99€/u.), a grande empresa faz uma promoção em que desce o seu preço "50% em cartão" (para 0.50€/u.). 
Os clientes sabendo disto, quando veem que uma pequena empresa está a fazer uma promoção, não compra porque sabe que na empresa terá no dia seguinte "50% de desconto em cartão".
A pequena empresa aprende rapidamente que se afixar um preço abaixo do preço de monopolista, não vende nada.

Israel está a explorar esta mesma estratégia.
Em 12 de Julho de 2006 Israel sofreu uma pequena invasão do Hezebola vinda do Líbano que matou 3 militares, feriu 2 e capturou 2. Israel atacou com bombardiamento de artilharia pesada e aéreo as zonas controladas pelo Hezebola. No final, no Líbano morreram 1200 pessoas (e 157 israelitas, uma relação de 7,6 para 1) e houve enorme destruição de infraestruturas.
Desde essa altura, nunca mais houve ataques a partir do Sul do Líbano, importantes, e sempre que é disparado um tiro, Israel retalia com bombardeamento de artilharia.

Na Faixa de Gaza aconteceu o mesmo. 
Em 30 de Junho são encontrados mortos os 3 jovens raptados. 
Começaram aí "pequenas operações" e a serem disparados rockets de Gaza.
No dia 8 de Julho Israel começa os bombardeamentos na Faixa de Gaza.
No final, morreram 2000 pessoas na Faixa de Gaza e 67 israelitas (uma relação de 30 para 1).
Agora, sempre que é disparado um rocket, Israel bombardeia um sítio qualquer.
O mais certo é que não haja mais ataques a partir da Faixa de Gaza.

Iraque e Ucrânia.
Eu defendo que cada povo deve ter o seu país. Defendo que os países devem ser formados por uma grande maioria de pessoas que partilhem a mesma cultura. E se 25% dos países do Mundo têm menos de 1,5 milhões de habitantes, há muitos povos perdidos por esse mundo fora que também deveriam ter um país.
Eu defendo que os 650 mil Yazidis, os 1,5 milhões de cristãos, os 6 milhões de Curdos do norte do Iraque e os 3 milhões da Síria, devem formar um país. 
Depois, quando a Turquia for uma democracia de facto, e o Irão se democratizar, o Curdistão deve unificar-se num país que terá 40 milhões de pessoas.
40 milhões é um povo muito grande que quer ter um país e que não os deixam.
Desapareciam 90% dos problemas da zona.

A Rússia deveria negociar. 
Também acho que a fronteira entre a Ucrânia e a Rússia devia ser ligeiramente alterada. Mas essa alteração deveria ser negociada e não ser um acto de guerra como aconteceu na Crimeia.
Por exemplo, a Ucrânia cedia à Rússia a Crimeia e mais uns terrotoriozitos e a Rússia fornecia à Ucrânia gás natural a um preço baixo durante 50 anos. 
O gás natural russo tem que passar pela Ucrânia para chegar à Europa pelo que é um monopólio bilateral que não tem solução. A Ucrânia precisa de gás.
Resolviam-se vários problemas com uma conversinha.
Pena o Putin sonhar que é chefe de uma superpotência.

Fig. 5 - Os tubos do gás natural russo passam pela Ucrânia porque foram feitos no tempo da URSS e os polacos odeiam os russos.

Pedro Cosme Costa Vieira.

sábado, 9 de Agosto de 2014

A expropriação do BES

Sabíamos muito pouco sobre a situação do BES. 
Há uma semana sabíamos que: 
1) o BES precisava de um aumento de capital de 4900 M€. 
2) Não havia condições para conseguir, de um dia para o outro, investidores privados que pudessem avançar com essa pipa de massa. 
3) As entidades públicas* acharam que não havia condições para confiar ao BES os necessários 4900 M€. 

* Apesar de publicamente o processo ter sido conduzido pelo governador do Banco de Portugal, foi desenhado pelo Passos Coelho + Maria Luís + Gasparzinho. Sim, tive a informação (não confirmada => tipo Marques Mendes) de que o Passos lhe telefonou. 

Continuamos a saber pouco.
Só consegui numa frase da Maria Luís - "se o Novo Banco tiver lucro será entregue ao BES" - ficar a saber mais ou menos como vai ser a estratégia para evitar que, no futuro, o Estado venha a ser condenado a indemnizar os accionistas do BES.

Na liquidação do BES terão que ser seguidas as regras do rateio do activo.
Uma instituição abre falência porque o activo é menor que o passivo. Neste caso, a Lei obriga a seriar os credores por prioridades.
No caso da falência de um banco (agora chama-se insolvência) também existem credores prioritários:
Primeiro, é pago o BCE porque está garantido por activos sem risco, por dívida pública. 
Segundo, são pagos os depositantes.
Terceiro, são pagos os obrigacionistas "normais" e os créditos de outros bancos.
Quarto, são pagos aos obrigacionistas subordinados.
Finalmente, o que sobrar é dividido pelos accionistas. 

As classes com maior prioridade recebem primeiro e, apenas se sobrar alguma coisa, é que a classe seguinte recebe.

O Novo Banco é um "lote de liquidação" do BES.
Na liquidação do BES, os activos e passivos foram apartados em dois montes tendo-se chamado a um o "Novo Banco" e a outro o "BES". 

Novo Banco => No primeiro lote foram colocadas as classes de passivos com prioridade (BCE, depositantes e obrigacionistas "normais"). Ainda não foi tornado público o balanço do Novo Banco mas se os 4900 M€ forem exactamente 8% do activo, o balanço terá 61250 milhões € de activo/passivo. 
Naturalmente, também foram transferidos créditos neste montante, de empresas, de clubes de futebol, de hipotecas de casas, etc. Como os activos têm sempre algum risco, foram "desvalorizados" não se sabendo quanto (i.e., em termos nominais, o activo é superior ao passivo de forma a que o risco de haver prejuízo para o Fundo seja praticamente zero).
As desvalorizações serão proporcionais ao risco, por exemplo, uma desvalorização de 10% para o crédito ao consumo e de 1,5% para o crédito imobiliário com hipoteca.

BES => Neste lote ficaram os passivos com menor prioridade (obrigações subordinadas e acções) e o valor remanescente do activo do BES que andará nos 20000 milhões €.  
Neste velho BES ficaram os activos com maior risco, os créditos das empresas do Grupo Espírito Santo, o BES-Angola e outros banquitos que eles tinham por esse mundo fora. Não interessam as reservas porque as perdas serão suportadas pelos detentores do capital próprio (accionistas e obrigacionistas subordinados).

Não compreendo.
Porque o velho BES não é entregue aos seus proprietários. Em termos contabilisticos este lote tem uma situação líquida positiva de 2500 M€ pelo que poderia e deveria continuar a operar com uma administração nomeada pelos seus proprietários, os accionistas. E, em termos contabilísticos, até tem capital suficiente para continuar a operar como banco comercial. E até já tem alguns depósitos (dos accionistas com mais de 2% de capital) não havendo qualquer justificação para que estas contas não possam ser movimentadas.
Os proprietários é que, posteriormente, decidiriam se havia necessidade de pedir protecção de credores ou não.
O que se passará com o BESI? Será que continua a operar normalmente?

Terá havido acordo na partilha?
Não sei se os accionistas do BES foram chamados a pronunciarem-se sobre a partilha dos activos entre o BES e o Novo Banco. Ainda ninguém falou sobre isto mas penso que não houve acordo. 
Como não houve acordo (penso eu), tecnicamente, o BES foi expropriado. Se a administração do velho BES for entregue aos seus proprietários ainda podemos falar de "protecção de credores" mas tendo o Banco de Portugal nomeado uma administração para o BES, tratasse mesmo de uma expropriação.

Qual a lógica do Banco de Portugal ter nomeado uma administração para o BES?
Se o BES já não é um banco, o BP não tem jurisdição sobre o mesmo.
Se é uma empresa que pedir protecção de credores, teria que ser um tribunal a declarar a insolvência e a nomear uma administrador judicial.
Não se passou nada disso. O BP nomeou uma administração para uma empresa que já não faz parte do Sistema Financeiro e que não foi declarada insolvente.
Como o BES não é um banco, a sua liquidação, como disse o governador do BP que iria acontecer, só pode ser decidido depois de ouvidos os credores e tem que ser decretado por um tribunal.

O problema é que as expropriações têm que ser pagas.
Os detentores de créditos onde se incluem os accionistas podem  ir para tribunal tentar obter um indemnização de forma semelhante ao que aconteceu com a Yukos. Se Portugal não actuar de forma séria, tal como a Rússia foi condenada a pagar 50 000 milhões de dólares, um dia o Estado Português também poderá vir a ser condenado.

Como se pode o Estado proteger?
Garantindo que tudo fez para proteger os direitos de todos credores onde se incluem os accionistas do BES. Neste sentido, foram dados dois passos muito importantes:
1 => A taxa de juro dos 4900M€ é baixa, menor que o BES conseguiria no mercado. Isso indica que o Estado não se quer aproveitar do seu poder de império que tem sobre o BES.
2 => O lucro que do Novo Banco e as mais valias da venda do Novo Banco serão entregues ao velho BES para pagar aos seus credores (a Maria Luís disse isto no Parlamento)..

O futuro do Novo Banco deve ser a liquidação.
O anuncio do BP de que "existem estrangeiros interessados na tomada de uma posição no Novo Banco" é uma total mentira semelhante à afirmação de que "o BES é um banco sólido" feita horas antes de se descobrir que estava falido.
É semelhante a dizer que existem muitos bancos interessados na aquisição dos bancos falidos gregos.
É uma alucinação tipo da dos da Guiné-Bissau quando declaram um embargo a Portugal.
Os bancos estrangeiros querem é sair de Portugal.
E manter o Novo Banco aberto será para, ano após ano, acumular prejuízo.

Como deverá ser liquidado o Novo Banco.
Como, em termos legais, são os bancos que actuam em Portugal que vão financiar as eventuais perdas da operação do Novo Banco, os seus activos e passivos devem ser divididos pelos bancos do sistema. O operação de desmantelamento do Novo Banco traduz um aumento de 25% no balanço dos bancos.

Tabela 1 - Peso relativo dos bancos dos 11 maiores bancos portugueses (excluindo CGS, BES, BESI e Novo Banco, detêm 95% do activo).
 Nome Activo Passivo Capital Próprio
 Millennium bcp 28% 28% 23%
 Banco BPI 15% 15% 11%
 Santander Totta 14% 14% 12%
 Barclays 9% 10% -1%
 Montepio 9% 8% 12%
 Banif 6% 6% 8%
 CCCAM 5% 5% 9%
 Popular 3% 3% 6%
 BII 2% 3% 1%
 BBVA 2% 2% 3%
 Banco BIC 2% 2% 3%
Fonte: Associação de bancos Portugueses, 1.º semestre 2013 (ver)

Será a expropriação à prova de bala?
Será desde que,
1=> O velho BES seja rapidamente devolvido aos seus proprietários.
2 => Globalmente, os critérios de seriação dos créditos sejam respeitados. 
Os credores do BES, independentemente de terem caído no Novo Banco ou no BES, têm que ser tratados da mesma forma. Os riscos para o Tesouro surgirão de o Novo Banco pensar que está legalmente desvinculado da seriação de créditos do velho BES.



Primeiro risco => A administração nomeada pelo BP para o velho BES vir a ser declarada como inapta, causadora de grandes prejuízos para os proprietários do banco. 

Segundo risco => tem a ver com a violação da seriação dos créditos.
A) Serem pagas obrigações que estão no Novo Banco e não serem pagos depósitos que estão no velho BES. Eu não faço ideia do total de depósitos que ficaram no BES e de qual o risco de o activo não chegar para os pagar (mas devem ser poucos). 
B) A indemnização do trabalhadores que vão ser despedidos serem pagas sem respeitar a seriação dos créditos. Se metade dos actuais 10000 trabalhadores for para o desemprego e cada um levar 50000€, soma 250 milhões €.

Terceiro risco => em teoria são os bancos que vão pagar eventuais prejuízos do Novo Banco. Mas se a administração violar a seriação dos créditos ou for considerada inapta, vão conseguir atirar o prejuízo para o Estado.

Será o risco elevado?
Se a coisa não se arrastar como os Estaleiros Navais de Viana do Castelo, anos e anos a dar prejuízo, provavelmente os contribuintes vão ficar a salvo.
Provavelmente mas, como mete despedimentos, tenho dúvidas.
Muitos dos problemas do BPN resultaram da manutenção dos 2000 trabalhadores ao serviços mesmo sem haver negócio bancário para fazer.


Como se faz um banco sem capital?
O problema das nossas empresas é que o próprio Capital Próprio é capital alheio.
Isto funciona bem quando as empresas dão lucro mas, quando dão prejuízo, não têm onde acomodar as perdas e o sistema desfaz-se.

1) O capital está totalmente nas famílias que o depositam nos bancos.

A) Uma pessoa pede 11 mil € a um banco.
B) Cria um "grupo" com 11 empresas,  E1, ... , E11, cada uma com 1000€ de capital próprio (que é crédito pessoal obtido em A).
C) As empresas pedem crédito bancário de 4 mil € dando o seu activo como garantia. Ficam com 5 mil€ de activo e uma autonomia financeira de 20%.
D) Cada uma das empresas faz um aumento de capital para 6000€ em que as entradas de capital são das outras empresas, 500€ cada uma. Cada uma das empresas ficará com capital próprio de 6000€ em que o passivo são dívidas de 4000€ ao banco e 1000€ de capital do investidor que também o deve ao banco.
E) Com capital próprio de 6000€, podem aumentar o endividamento bancário para 24000€.
F) AS 11 empresas fundam um banco em que cada uma "mete" os 30 000€ que tem de activo, somando 230 mil€. Para um rácio de 8%m podem aceitar depósitos até 4.1 milhões €.
G) Usam o dinheiro dos depositantes para "emprestar" às 11 empresas e o crédito pessoal.

Começando com nada, o investidor controla  11 empresas que têm 330 mil euros de capital do Banco e só deve 11 mil euros. 

2) O capital continua, indirectamente, nas famílias que têm depósitos do banco criado. 
O capital próprio é zero.
Entretanto há uns aumentos de capital que conseguem convencer uns distraídos e umas participações cruzadas com outras empresas com accionistas distraídos (tipo, PT) e os "donos do banco" são donos sem lá terem metido um euro. 
Recebem ordenados chorudos, e, enquanto houver lucros, são empresários de sucesso. Se o sistema começa a acumular prejuízos, o baralho de cartas desmorona-se e, quem quiser, que se aguente.
Como disse o Ulrich, "Ai aguenta, aguenta".

É toda boa mas, sendo insuflável, se tem um furo, reduz-se a nada.

Pedro Cosme Costa Vieira

terça-feira, 5 de Agosto de 2014

O Ebola é pior que a guerra nuclear e que o BES

Nos anos 1950-1990 viveu-se o medo do Inverno Nuclear. 
Diziam os pacifistas que havia armas nucleares para destruir o Mundo várias vezes. 
Dividindo as 17300 bombas atómicas pelos 10% da superfície seca da Terra com maior densidade populacional, rebentaria uma bomba atómica a cada 30 km. Em termos de destruição, se cada bombas atómicas matasse, como em Hiroshima, 150000 pessoas (o que é ppouco provável), as bombas atómicas "só" matariam 2,6 mil milhões de pessoas.35% da população mundial. 
Bem sei que a destruição seria muito grande, cidades a arder, e que muito mais pessoas morreria de fome e de doenças resultantes da radiação mas penso que seria um exagero dizer que a Terra seria destruída várias vezes. 
Mas, apesar de as bombas atómicas parecerem ser um grande perigo, como dependem da vontade destruído do Homem e parecem ser armas suicidas, ainda não se concretizou. 

Fig. 1 - O perigo eram as bombas atómicas (que atacavam aos pares)

Mas o Ébola é um perigo maior que as bombas atómicas.
Digo que é pior porque não depende de nós. 
Os vírus atacaram-nos continuamente e, por isso, é que grande parte do nosso DNA é dedicado ao combate das infecções. 
Os animais e as pessoas co-evoluem com as doenças ao longo de milhares de anos e o DNA vai  evoluindo por mutação e selecção de forma a que as se vão tornando relativamente benignas.
Por exemplo, foi o que aconteceu com o Sarampo na Europa. 
Acontece que de vez em quando, motivado pela movimentação das populações, grupos que nunca estiveram expostas a uma doença são contaminadas. Quando em 1498 o Sarampo foi levado pelos Europeus para a América acidentalmente, nos índios teve um efeito devastador matando 95% dos nativos do continente americano.
Aconteceu o mesmo com a Peste Negra que na Ásia era uma doença sem grande taxa de mortalidade, e que, quando apareceu na Europa em meados do séc. XIV, matou metade da população. 
As doenças víricas não afectam todas as pessoas. Como temos exemplo com a Gripe, a nossa diversidade genética faz com que umas pessoas fiquem doentes e outras não. 

Fig. 2 - Evolução dos casos de Ébola 2014 (ver actualização)

O aumento não mostra quebra.
A primeira má notícia é que a taxa de difusão da doença está nos 2,3%/dia e que não mostra vontade de diminuir (ver, Fig. 2). E enquanto a taxa de difusão for maior que zero, o número de pessoas contaminadas vai aumentando.
A segunda má notícia é que, ao fim de 30 dias, 90% das pessoas contaminadas estão mortas.
A boa notícia é que 10% das pessoas contaminadas, ao fim de 30 dias estão novamente saudáveis.

Mas a OMS diz que a mortalidade é de "apenas" 55%
Pois diz mas está errada. Realmente, se dividirmos o número de mortos pelo número de contaminados dá "apenas" 55% mas é preciso ter em atenção que a doença incuba durante 21 dias. 
Acompanhando os doentes, ao fim de 30 dias, 90% estão mortos.
Os 55% é só para motivar as pessoas a ir para os centros de isolamento.

Estamos nós a discutir políticas de natalidade para os próximos 20 anos!
Quando, se a D. Inércia não estancar a difusão da doença, em finais de 2016 a doença já estará ultrapassada mas à custa da morte de 90% da população mundial. 
No Natal de 2016 Portugal terá um milhão de habitantes. Dentro de pouco mais de um ano teremos a população de 1415, quando roubamos Ceuta aos Mouros. 

Como será o Mundo com 10% da população actual?
Se formos nós a morrer, o mundo que se dane. Mas se escaparmos, vamos ter vantagens e problemas.
Primeiro, durante muitos anos não precisaremos de comprar carros. Damos uma volta pelos parques de estacionamento e pegamos nos que lá estiverem abandonados.
Depois, casas também teremos fartura, poderemos mesmo mudar para as melhores zonas. Será só chegar, ver as casas que estão vazias e entrar. 
Haverá muitos campos, estradas e fábricas para podermos tomar conta.
O problema é que, a economia global vai entrar em colapso por falta de trabalhadores e de consumidores. 
Não será possível manter as refinarias de petróleo a trabalhar se o consumo reduzir em 90%.
As fábricas, centrais eléctricas, sistemas de manutenção das estradas, tudo vai entrar em colapso.
Os 550 mil habitantes de Lisboa vão ficar reduzidos a 55 mil habitantes.
Os 12 milhões de habitantes da cidade de São Paulo vão ficar reduzidos a 1,2 milhões.

Mas isso nunca acontecerá.
Vamos ver se isto corre melhor que o BES que há uns dias estava sólido (palavras do sr. governador do Banco de Portugal) e só a marca "Banco Espírito Santo" valia 640 milhões € (ver) e hoje já nada disso existe.

Fig. 3 - Pouco mais de dois anos depois da queda do BES, 90% da população mundial já estava morta.

Pedro Cosme Costa Vieira

segunda-feira, 4 de Agosto de 2014

A reestruturação do BES

O problema do BES foi a desconfiança.
A situação contabilistica do BES não é desesperante.
Olhando para o Relatório e Contas do 1T2014 do BES, em 31 de Março 2014 o banco tinha 7017 milhões € de Capital próprio e 82817 milhões € de  activo bancário:

     ATIVIDADE (milhões de euros)
     Ativo                                => 82817M€
     Crédito a Clientes (bruto) => 51001M€
     Depósitos de Clientes       =>36242M€
     Capital Próprio                 =>  7017M€
Relatório e Contas do Grupo Banco Espitito Santo referente ao 1.º trimestre 2014, p. 6


Se dividirmos o capital próprio pelo activo, temos um rácio de CP/Activo de 8,5%.

Depois, veio o 2.º trimestre.
O prejuízo descoberto no 2.º trimestre foram de 3577 milhões €.
Temos que acreditar que o Vítor Bento fez o trabalho de forma totalmente correcta. A não ser verdade então este homem não faz diferença relativamente ao Salgado. 
Nessa situação, o capital próprio de BES está reduzido para

     7017 - 3577 = 3440 milhões €

Se o capital próprio é de 3440 milhões €, o BES tem um rácio CP/Activo de 4,2% que é metade do exigido, >8%, mas que ainda está bastante positivo (nos meus cálculos não pondero o capital pelo risco porque não tenho acesso a esses dados). 

De onde virá a desconfiança?
De haver uma teia de créditos entre empresas do grupo e que não é transparente. 

Até podem ser gajas boas mas não tenho muita confianças

O que vai ser feito agora?
Se houvesse um aumento de capital de 4900M€ proporcional ao capital contabilistico (3440M€), os actuais accionistas ficariam com 41% do banco capitalizado. Se o aumento de capital fosse proporcional à capitalização bolsista (670M€), os actuais accionistas ficariam com 12% do banco capitalizado.
Como não havia possibilidade de acordo, foi decidido separar a parte em que o capital foi aumentado, do resto do banco.  
Por um lado, alguém entra com 4900M€ para criar o "Novo Banco" que compra os activos do BES sobre a qual não existem problemas de avaliação (na ordem dos 50000) e os passivos (depósitos e obrigações do banco). Esta compra será avaliada ao valor nominal.
Por outro lado, fica o BES com os activos de maior risco e sobre os quais não há acordo sobre a avaliação. Em princípio vão ficar no BES os activo do GrupoBES na ordem dos 30 mil€ e passivos sem garantias (capital próprio o obrigações subordinadas). 
Os que eram proprietários do BES até ontem, continuarão proprietários do "novo" BES que ficará esvaziado do negócio de banca comercial.  

Será que o Novo Banco vai dar prejuizo?
Se for gerido de forma eficiente, será um banco viável.
O problema do BES tem sido as perdas associadas ao financiamento das emrpesas do grupo e não ao negócio bancário. Por isso, enquanto existir, será um banco como outro qualquer.

Será que o banco "Novo BES" irá falir?
Se falir é porque o Vítor Bento falhou na avaliação dos prejuízos. 
Agora, se a sua avaliação foi bem feita, se em Angola as coisas correrem menos mal, o capital contabilistico de 3440M€ ainda vai permitir que o BES funcione de forma razoável como SGPS ou mesmo como banco de investimento.
Em termos contabilisticos, cada acção deste "Novo BES" vale 0,65€ e a última transacção do BES foi a 0,12€.
Terá sido apenas pânico ou o Vítor Bento, afinal, fez mal as contas?
Só o futuro permitirá clarificar este ponto.

Casei com uma mulher de burka que me parecia com boas proporções e, no final, saiu-me esta

Em Portugal não há produto bancário para tantos bancos.
Não há depósitos nem há créditos estando o nossos sistema bancário sobredimensionado.
Cada terriola tem 5 ou 6 balcões quando só precisa, no máximo, de 2. 
Por isso, os bancos têm que reduzir o número de colaboradores e de balcões. 
Prevejo que os activos do Novo Banco vão ser distribuidos pelo sistema bancário e, depois, será encerrado.
Serão uns milhares de trabalhadores que vão para o desemprego mas é algo inevitável. 
Se os 2000 do BPN tivessem sido despedidos, não teria sido táo grande o prejuizo e, talvez, agora não fosse necessário liquidar o BES de forma tão urgente.

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 1 de Agosto de 2014

O número 3577

Um prejuizo de 3577 milhões de euros é uma coisa muito importante. 
Esta soma, imaginando tudo em notas de 5€, corresponde a qualquer coisa como 425 toneladas de notas (uma nota de 5€ pesa 0,6 g). 
Para assaltar um banco e levar esta soma precisaríamos de 17  camiões TIR cheinhos. 
Dividindo este prejuízo por cada um dos 4,5 milhões portugueses que temos empregado, teríamos que pagar 66€/mês, durante um ano. 
Mas, apesar de ser muito grande, isto é apenas uma parte das perdas do Grupo Espírito Santo. Outras perdas vão ser contabilizadas, por exemplo, na Portugal Telecom. 
Estas perdas tiveram um impacto imediato na vida das pessoas que colocaram as suas poupanças em acções dos grupos económicos expostos ao Grupo Espírito Santo. Por exemplo, em 1/1/2014 a cotação do Banco Espírito Santo era de 1,05€/acção e hoje andou nos 0,10€/acção. A cotação da Portugal Telecom era de 3,20€/ acção e hoje está nos 1,60€/acção. 
O BES atingiu uma cotação máxima de 17,32€/acção (Julho 2007). 
Uma pessoa muito rica porque tinha, em Julho de 2007, 10 milhões € em acções do BES, hoje terá 60 mil € (vou-me esquecer dos direitos dos aumentos de capital). Hoje tem 0,5% da riqueza que tinha em Julho de 2007, perdeu 99,5% da sua riqueza.
Se o Grupo Espirito Santo se endividou dando como garantias a sua posição no BES que valia qualquer coisa como 2000 milhões€, hoje só tem 12 milhões e deve, à sua conta, 2000 milhões €.

Já não podemos acreditar que o espírito-santo nos vai salvar

Será que vamos ter que pagar este buraco?
Directamente como pagantes de impostos, não mas a descoberta desta "perda de capital" vai ter impacto na economia, com empresas a falir e a redimensionar as suas operações o que causará redução da receita fiscal que precisaremos de tapar. Também vai causar desemprego. 
Podemos ter a certeza que estas perdas vão ser canalizadas pela economia e acabarão por cair, mais nuns que noutros, em cima de todos nós. 
Apesar de sermos invejosos, teria sido muito melhor que o BES tivesse anunciado lucros em Angola de 3577 milhões de euros. Sempre seriam uns 700 milhões € de IRC a entrar nos cofres do Estado. 

Vamos ver a minha lógica.
Como pessoas pagamos impostos, estou-me a lembrar do IRS, IVA, TSU, IMI, selo, produtos petrolíferos e tabaco. Em troca recebemos serviços de saúde, estradas, segurança, etc., e, quando ficamos necessitados, por exemplo, desempregados ou doentes, recebemos subsídio para não morrermos de fome e de doença. 
Mas as empresas também pagam impostos, só o IRC, imposto que se aplica apenas sobre as empresas, nos últimos 10 anos cerca de 4500 milhões € por ano. 
Sendo assim, quando as empresas estão à rasca, têm direito a serem socorridos com o imposto que ano após anos pagam para financiar o Estado. 
Nos últimos 10 anos as empresas pagaram cerca de 45 mil milhões € de IRC e o BPN custou na ordem dos 5000 milhões€. 

E como fica o Banco Espirito Santo?
O BES tem um activo na ordem do 80 mil milhões €, talvez um pouco menos. E tinha, antes do anúncio do prejuízo colossal, um capital na ordem dos 6000 milhões de €. Então, por cada 100€ de activo tinha 7,50€ de capital próprio e 92,50€ de dívida. 
O capital serve para cobrir os imponderáveis do negócio bancário e um imponderável aconteceu, o que reduziu o capital para menos de metade, 2,5 mil milhões€. Cada 100€ de activo tem agora 3,10€ de capital próprio. 
O capital próprio está bastante baixo, apenas 3% do activo mas, acreditando que os esqueletos foram todos descobertos, ainda é um número que afasta para muito longe a probabilidade de falência.

Mas a capitalização bolsista está bem pior.
O valor contabilistico de cada acção é de cerca de 0,45€ e a cotação actual é de 0,12€.
Isto traduz que o "mercado" está a avaliar os 2500 milhões€ de capital prórpio em apenas 675 milhões €. O mercado indica que anda há 1750 milhões € de prejuixo escondidos nas contas do BES. 
Mas o capital próprio ainda não está a zero!

Será que o BES vai precisar de ajuda pública?
Nas duas últimas semanas de Julho a cotação do BES esteve nos 0,45€/acção o que traduzia que os investidores sabiam que seria anunciado um prejuízo na ordem do apresentado, de 3577 milhões€.
O problema é que hoje a cotação está nos 0,11€/acção o que indicia que novas más notícias estão para ser reveladas. Pode ser apenas uma reacção nervosa do mercado mas o mais certo é serem más notícias, tipo, que a garantia do estado angolano ao BES Angola é inválida. 
Se se concretizar o que o mercado está a dizer, o BES vai precisar de um aumento de capital de pelo menos 5000 milhões € e não acredito que haja quem arrisque meter tanto dinheiro lá. 
Mas uma coisa é ser preciso meter lá 5000 milhões€ e outra coisa é esse dinheiro estar perdido como aconteceu no BPN. 
Vai ser preciso o Estado meter lá dinheiro mas não será nada parecido com o BPN que, antes da nacionalização, já tinha 2000 milhões € de capital negativo. Na pior das situações, o BES ainda tem 600 milhões€ de capital.

O "problema" é que precisamos de empresas.
As empresas, às vezes, dão problemas para a sociedade mas são imprescindíveis à economia. 
As empresas, por serem de responsabilidade limitada, servem para proteger os empreendedores de riscos incontroláveis. 
Se não houvesse empresas, haveria muito menos investimento em actividades de risco o que faria diminuir o crescimento económico. 
O comunismo/socialismo tentou criar uma sociedade sem empresas e sem empresários mas, como vimos na URSS, Cuba, Coreia do Norte, Moçambique, Guiné-Bissau, etc. etc., foi um caminho rápido para o empobrecimento.
As empresas são como o nosso automóvel: nós sabemos que nos pode matar mas não podemos viver sem ele.

É nesta altura que apetece ser um daqueles polícias que, com o povo encostado à parede, fazem a revista à procura de armas sabe-se lá onde. Mas esta imagem era para dizer que, apesar de sabermos que as mulheres nos podem dar cabo da vida, não podemos viver sem elas.

O comissário europeu.
Vem mesmo a propósito, depois de desaparecerem 3577 milhões de euros, o governo indicou para  comissário europeu  o Moedas. 
Bem sei que não devemos fazer piadas com o nome das pessoas mas vem mesmo a calhar.
Já agora, quem terão sido os comissários anteriores?
Ninguém se lembra pelo que ir para lá este ou outro qualquer, excepto para o próprio que passa a receber uma boa maquia livre de IRS, dá tudo no mesmo. 

A batalha de Gaza.
Aquilo está a ficar feio, quando chegar a 1800 mortos teremos uma morte em cada 1000 pessoas que lá vive. 
Para podermos enquadrar estes números noutras guerras, 

Batalha de Gaza (25 dias) => 0,9 morto por cada 1000 habitantes.
Guerra do Iraque (desde 2003) => 5 mortos por cada 1000 habitantes. 
Guerra da Síria (desde 2011) => 8 mortos por cada 1000 habitantes.

Mas comparemos com uma guerra a sério (Segunda Guerra Mundial), 
   Bielorússia  => 253 mortos em cada 1000 habitantes.
   Ucrânia  => 163 mortos em cada 1000 habitantes.
   Polónia  => 165 mortos em cada 1000 habitantes.
   Rússia => 127 mortos em cada 1000 habitantes.
   Timor (Segunda Guerra Mundial) => 120 mortos em cada 1000 habitantes.
   Alemanha (Segunda Guerra Mundial) => 100 mortos em cada 1000 habitantes.

E com matanças a sério (judeus na WWII), 
   Holanda => 915 mortos em cada 1000 habitantes.
   Jugoslávia => 890 mortos em cada 1000 habitantes.
   Lituânia => 880 mortos em cada 1000 habitantes.
   Polónia  => 877 mortos em cada 1000 habitantes.
   Grécia => 863 mortos em cada 1000 habitantes.

Em 1939 viviam na Polónia 3,2 milhões de judeus e hoje vivem lá 3200.
Estes números mostram o que é um verdadeiro genocídio, uma verdadeira "limpeza étnica". 
Por cada 1000 que lá viviam, agora vive lá 1.
Esta guerras da Síria, Iraque ou Gaza são pequenas amostras do que pode atingir a brutalidade de uma guerra.

Será Gaza viável?
Gaza tem 1,8 milhões de habitantes em 360 km2 (rendimento per capita de 800USD, ver) .
Singapura tem 5,3 milhões em 716 km2 (rendimento per capita de 61000USD, ver).
Gaza tem uma densidade de 5000 pessoas por km2 e Singapura tem de 7600 habitantes / km2.
Mesmo implementando uma "zona de segurança" ao longo da fronteira com 3 km de largura, Gaza fica com a mesma densidade de Singapura o que indica que é totalmente viável. 
Não pode ser um país agrícola mas pode ser uma cidade prospera. 
Por exemplo, a cidade de Manila nas Filipinas tem 43 mil habitantes por km2 e nos centros das cidades chegam a haver uma densidade até as 100 mil pessoas por km2. O Gueto de Varzóvia tinha uma densidade de 112 mil pessoas por km2 (380 mil pessoas em 3,4 km2).

A Gaza pode ser uma cidade rica principalmente porque está bem localizada (no Mediterrâneo) e tem acesso a energia barata (gás natural do Egipto). 
O problema é que para se desenvolver precisa de paz. E, apesar de, penso eu, a maior parte da população querer viver em paz, poucos fazem muito prejuízo. 

Não sei bem o que se passa na Líbia.
Quando foi a "Primavera Árabe" eu disse a uma colega minha, a APD, que estava muito entusiasmada com as revoluções comparando-as com o nosso 25-de-abril, que poderia ser o nosso 28-de-maio, altura em que começou a ditadura do Salazar.
Não sei o que irá na cabeça do líbios mas talvez tenha a ver com o petróleo estar no Leste, em Bengazi,  e 1/3 da população e o poder estarem no Ocidente, em Tripoli. 
E a Líbia é importantíssima para a Europa como potencial fornecedor de gás natural mas custa a estabilizar.

Os campos de petróleo líbios estão no deserto, entre Bengazi e Sirte.

São muitas guerras à nossa volta.
É a Ucrânia, o Iraque, a Síria, Israel, Líbia e o BES. 
A Europa está a ficar cercados por guerras.

Pedro Cosme Costa Vieira

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