sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

O emprego e a mensagem de Natal do Passos Coelho

O Passos Coelho apresentou a sua terceira mensagem de Natal.
Falou de coisas do Natal (banalidades) mas referiu três pontos que vou detalhar porque penso serem os mais importantes:
1) A correcção do desequilíbrio das contas externas, 
2) A redução do desemprego e o aumento do emprego e
3) O crescimento da economia.
Nos últimos 2.5 anos, Portugal conseguiu resultados que nunca pensei ser possível de atingir.
Confesso que me enganei redondamente, felizmente.

Fig. 1 - Passados 2,5 anos, parece que a criancinha está a querer começar a caminhar


1) O equilíbrio das contas externas.
Hoje pode-se dizer que foi fácil corrigir o défice da balança corrente mas tal não corresponde minimamente à verdade porque o défice externo é a droga dos governantes.
O défice externo incha a economia o que leva ao aumento do rendimento disponível das pessoas. Assim, apesar de esse efeito ter como contrabalanço o endividamento externo,  rende votos a quem o promove. 
Foi o défice externo que permitiu ao Guterres, Santana Lopes e Sócrates fazer obras públicas e pagar pensões e subsídios para além da receita do Estado que, canalizado para as pessoas, permitiu que o consumo das famílias fosse maior do que a nossa economia produzia. 
A promoção da compra de carros novos (o incentivo ao abate) e casas (os créditos bonificados) também levou as famílias ao endividamento que os bancos captavam no exterior.
Se olharmos para os 6 anos do socratismo, todos os meses foram metidos 150€ no bolso de cada português. Cada um, novo, velho ou assim assim e 150€ é muito dinheiro.

Fig. 2 - Balança Corrente portuguesa, euros por mês per capita (dados: BPortugal)

O problema já vinha do tempo do Guterres + ... + Santana Lopes.
O Guterres herdou do Cavaco Silva uma situação equilibrada mas, mês após mês, a situação foi degradando-se até chegarmos ao pântano dos 130€/mês. Veio o Durão com o discurso do "estamos de tanga" e, cortando 2.5€ cada mês, conseguiu reduzir em 2 anos o défice externo para metade (65€/mês). Mas a guerra foi tão grande que foram os próprios do PSD + CDS que o puseram a andar daqui para fora.
O Santana Lopes + Portas são indistintos do Sócrates: mais e mais défice externo até chegarmos em 2008 aos 180€/mês.
O Passos Coelho conseguiu reduzir a BC ao dobro da velocidade do Durão, 5€ a cada mês, conseguindo manter os do PSD no sitio deles e o Portas amarrado ao acordo de austeridade.
Isto só pode ser classificado como notável.

Fig. 3 - Balança Corrente 1:1995-10:2013 (dados: BPortugal)

2) A redução do desemprego e o aumento do emprego.
O que normalmente é usado como medida do desequilíbrio do mercado de trabalho é a taxa de desemprego que se calcula dividindo o total de pessoas que dizem estar à procura de emprego a dividir pelo total de pessoas activas (as desempregadas à procura de emprego mais as que têm emprego por conta própria ou de outrem).

    Taxa de Desemprego = Desempregados / (Desempregados + Empregados)

Então, a taxa de desemprego pode reduzir não só porque as pessoas encontram emprego mas também porque as pessoas desanimam de procurar emprego ou emigram.
Mas também pode acontecer o contrário, a malandragem deixam a inactividade porque acabou a mama dos diversos subsídios e de poderem viver à custa das pensões dos velhotes e passam a desempregados (começam a procurar emprego).

Fig. 4 - O número de pessoas inactivas que podem trabalhar mas que não procuram emprego aumentou em 150 mil (dados: INE)

O emprego caiu 15% mas as horas trabalhadas caíram apenas 5%.
Em 2008 o emprego começou a cair tendo acumulado até ao 1T2013 um total de 15%. Metade desta perda foi na recta final do Sócrates e outra metade na recta inicial do Passos Coelho. Então, em 12 empregos existentes em 1998, um perdeu-se com  o Sócrates e outro com o Passos Coelho.
Mas a perda do emprego em 15% foi acompanhada pelo o aumento em 10% do tempo médio que cada pessoa empregada trabalha. Assim, as horas trabalhadas reduziram-se apenas em 5%.

Fig. 5 - Índice do número de pessoas a trabalhar e do número de horas trabalhadas (dados: INE e cálculos do autor)

 Realmente, o emprego aumentou em 120 mil.
Se facto, se olharmos para o número de pessoas a trabalhar, no 1T2013 estava 4433,4 mil pessoas a trabalhar e no 3T2013 estavam 4553,6 mil o que traduz que no 3T estavam a trabalhar mais 120200 pessoas que no 1T, mais 2,7%.. Isto são dados do Instituto Nacional de Estatística (Fig. 5).
Podíamos dizer que as pessoas estão trabalhar mas poucas horas mas se e olharmos às horas, houve um aumento ainda mais forte, de 5,7 milhões de hora/semana trabalhadas, 3,6%.
Olhando para a variação entre trimestres (Fig. 6) parece que nestes últimos 2 trimestres o emprego cresceu relativamente à tendência.
O emprego está mesmo a melhorar mas vamos ver se nos próximos tempos a coisa se aguenta.

Fig. 6 - Variação do emprego relativamente ao trimestre anterior (dados: INE e cálculos do autor)


3) Crescimento da economia.
Os keynesianos acreditam que, primeiro, a economia cresce e, passados uns trimestres,  o desemprego começa a descer.
Mas estamos a ver que a causalidade é exactamente ao contrário. Primeiro, o emprego aumenta e, ao mesmo tempo, a economia cresce. Em 2 trimestres o número de horas aumentou 3,5%  e o PIB aumentou 1,4%. (e a produtividade desceu 2,1%).
Apesar de a produtividade por hora ter diminuído nos últimos 2 trimestres, tem-se mantido uma tendencia de crescimento de 1.2%/ano (Fig. 6). No cáluclo da produtividade do trabalho retirei 18% para a amortização do capital e 1/3 para a remuneração do capital.
(eu tinha aqui uma referencia ao Sócrates mas eu tirei porque, provavelmente, deve-se a uma quebra das séries do INE, base 1998 para a base 2002, que decidi "corrigir").

Fig. 6 - Produtividade do trabalho por hora (dados: INE e cálculos do autor)

Concluindo.
Considerando os problemas da nossa economia, 2013 foi um ano extraordinário.
Claro que o défice público foi um pouco elevado e a despesa pública derrapou mas isso deve-se a eu ter recebido o Subsídio de Férias.
Mas só depois de ver os Estaleiros Navais de Viana do Castelo definitivamente encerrados é que posso dizer que estou esperançado no bom sucesso deste governo.

Mas espero que todos tenhamos um bom 2014.
Parece que actualmente, mais grave que os cortes, são os larganços.
Um vive animado com os filhos e com as finanças, últimamente muito difíceis, da casa e, de repente, aparece alguém a dizer "apanhei o teu homem com a minha mulher".
Depois, chora, chora, chora e diz a toda a gente que nunca mais lhe perdoa mas com a certeza que vem aí um enorme pedido de desculpa, umas re-juras de amor eterno colossais, um rastejar como os soldados que vinham da guerra de África faziam em Fátima para, depois de dizer mil vezes que não, vir o momento do perdão.
Mas não. O que vem é o desamigamento seguido por um poste "só para amigos" que conta a história de um pássaro grande que vivia numa gaiola pequenina e que acaba por se libertar. O poste termina com um cometário "Como o pássaro está, finalmente, livre, sexta-feira à noite encontramo-nos no XPTO para curtir até rebentar".
Tal como o Exterminador Implacável desligou a luzinha quando mergulhou no ferro fundido, segue-se o desligamento total e para todo o sempre.

Fig. 7 - Eras tão boa que decorridos estes anos todos, ainda não recuperei de me teres torcado por esse mentecapto.

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Ano novo, resgate velho

Os últimos dias do ano costumam ser de balanço.
É o tempo de avaliar tudo o que vivemos no ano passado para ajustar a trajectória da nossa vida em direcção aos nossos objectivos de médio prazo. Os alunos olham para as notas a ver se têm que reduzir as noitadas e reforçar o estudo ou, pelo contrário, se podem relaxar um pouco mais. Os adultos olham para o saldo das contas a ver se é preciso ajustar o nível de vida em baixa ou se, pelo contrario, podem ligar o aquecimento e planear umas férias reforçadas.
Para os portugueses, o ano de 2013, e já antes o tinham sido 2011 e 2012, foi um ano  difícil porque em meados de 2010 sofremos as consequencias de durante muitos anos os governos de Portugal não fazerem contas à vida.
Como não há bem que sempre dure, em meados de 2010 começou a ser difícil o Estado arranjar financiamento o que piorou ao ponto de em 2011 o Sócrates ter sido obrigado a pedir um resgate de 78 mil milhões €. Mas como não há almoços dados, Portugal teve que assinar um memorando de entendimento onde se obrigou a equilibrar as contas públicas e a anular o défice externo.

O sintoma da doença foi a subida das taxas de juros.
Se o principal acontecimento que mostrou que algo estava a correr mal com as nossas contas públicas e com a economia foi a rápida subida da taxa de juro da dívida pública, podemos olhar para esta variável como indicador da evolução do processo de ajustamento que iniciamos em meados de 2010 com o PEC 1, PEC 2 e PEC 3.

A crise do sub-prime.
Em meados de 2007 começou a transpirar que a crise, que mais tarde foi apelidada de Crise do Sub-Prime, se aproximava mas isso até foi, em termos financeiros, bom para o nosso governo (do Sócrates+Teixeira dos Santos) porque, como os investidores se afastaram dos activos de maior risco, as taxas de juro da divida pública desceram acentuadamente para os valores mais baixos de (quase) sempre: 1,09%/ano a 2 anos, 1,74%/ano a 3 anos e 3,69%/ano a 10 anos.
Como o Sócrates + Teixeira dos Santos se quiseram tornar estadistas à custa do crédito alheio, atiraram o nosso défice público visível (pois muita coisa foi desorçamentada) e o défice externo para mais de 10% do PIB.

Fig. 1 - Foi-se o tempo em que todo o fiel farrapo ia de férias ao Brasil.

A onda do mar parece que traz mas leva.
As ondas da praia, primeiro, parece que nos querem afastar do perigo para logo nos puxarem com toda a violência para as profundezas do mar salgado. 
A fuga ao risco financeiro foi igual.
Primeiro, em 2008, as taxas de juro da divida pública portuguesa começaram por diminuir porque os investidores pretendiam afastar-se rapidamente dos activos com risco. Como Portugal parecia um país como outro qualquer, os investidores emprestaram, sem limite, dinheiro ao nossos Estado a taxas de juro muito baixas.
O problema é que o Sócrates gastou demais e, em princípios de 2010, os investidores começaram a ser mais selectivos, separando uns países dos outros. Por a nossa dívida estar a crescer a uma velocidade supersónica (segundo o Sócrates, foi por azar), nós caímos no lote dos potencialmente caloteiros pelo que a nossa taxa de juro começou a descolar das taxas dos outros países.
Quando a taxa a 10 anos se aproximou dos 7%/ano, o Teixeira dos Santos finalmente viu que nos estava a encaminhar para o abismo pelo que, segundo as palavras do Sócrates, "foi-se abaixo" e pediu ajuda à Troika.
Fechamos 2011 com uma taxa de juro a 10 anos acima dos 17%/ano. Imaginando a amortização de 100 mil € em 50 anos, em princípios de 2010 a mensalidade seria de 370€ e passaria, em finais de 2011, para os 1370€.

Fig. 2 - Depois de um mínimo de 3,8%/ano, a taxa de juro começou a subir rapidamente até atingir valores acima dos 17%/ano.


2012 foi um ano de emergência.
Nos finais de 2011, eu (e muitas mais pessoas) estava com a certeza de que Portugal ia bancarrotar a curto prazo e que teríamos que abandonar o Euro. Até levantei umas centenas de euros para, no mais que certo retorno ao Escudo, nos meses da transição ter algum dinheiro para meter gasolina no meu carrinho.
Mas o Gasparzinho, com a sua calma, disse sempre que a coisa estava controlada e, passo a passo, mês após mês, durante 2012 conseguiu trazer as taxas de juro (a 10 anos) para baixo dos 7%/ano que era barreira psicológica criada pelo Teixeira dos Santos.

2013 consolidou a taxa de juro.
Durante 2013 a taxa de juro estabilizou nos 6%/ano. Se até meados de Maio  parecia que as taxas iriam continuar a descer, esse movimento não se traduziu numa tendência. Assim, vamos fechar 2013 com os mesmos valores com que abrimos o ano.
Desde finais de 2011 já foi muito conseguido mas estamos há 12 meses estáveis numa taxa que é 2,2 pontos percentuais superior aos 3,8%/ano de 2009 (mas apenas 1 pp acima do valor de 2008).
  
                País            2009         2013     Diferença (pp)
---------------------------------------------------------
   Grécia           4,6%       8,7%         +4,1
  Portugal         3,8%       6,0%         +2,2
  Espanha         3,8%       4,1%         +0,3
   Itália             4,1%       4,1%           0,0
  Irlanda           4,7%       3,5%         -1,2
---------------------------------------------------------
  França            3,5%      2,4%         -1,1
Alemanha          3,2%       1,8%         -1,4 
                UK                3,8%       2,9%        -0.9 (libras)
                  USA               3,6%       2,9%        -0,7 (dólares)
 Tabela 1 - Diferença ente as taxas de juro em 2009/10 e actuais (dados: www.investing.com)

6%/ano é uma taxa de juro elevada mas possível.
Atendendo à dimensão da nossa divida pública que está nos 130% do PIB, para a repor nos 60% em 30 anos, por cada 1% a mais de taxa de juro precisamos de cortar na despesa pública ou aumentar impostos do orçamento de estado em 1% do PIB, cerca de 1650 milhões €.
Então, a diferença entre termos 3,2%/ano (da Troika) e ir ao mercado pagar 6,0% deixa um buracos nas contas públicas de 4500 Milhões €. 

Mas a maturidade da dívida pública é muito menor que 10 anos.
Tem que haver alguma dívida a 10 anos porque é o prazo usado para medir a "taxa de juro de longo prazo" prevista no tratado de Maastricht mas a quantidade poderá ser pequena, abaixo 5% do total da nossa dívida. Então, estando 35% da dívida nas mãos da Troika a um prazo médio acima dos 15 anos (remuneradas a 3,2%/ano), podemos colocar a maior parte da nossa dívida em maturidades entre 2 (taxa nos 3,13%/ano) e os 3 anos (taxa nos 3,88%/ano). Desta forma é possível gerir a coisa com uma taxa de juro média igual à que pagávamos antes da crise do sub-prime (na primeira metade de 2008).

Fig. 3 - A taxa de juro da dívida pública a 2 anos está inferior ao valor de 2007/8.

Estaremos em Maio de 2014 em condições de sair do resgate à Irlandesa?
É muito difícil porque sendo preciso colocar 150 mil milhões € num prazo médio de 2,5 anos, o rolamento da divida pública vai obrigar a obter 5 mil milhões € de crédito por mês o que nos coloca sob pressão constante.

É possível 
1) Se as taxas de juros se mantiverem, apesar de altas, estáveis de forma nos valores actuais o que torna possível uma taxa de juro média abaixo do 4%/ano,
2) Se a trajectória de consolidação orçamental continuar na ordem dos 1700M€ por ano (1 pp por ano) de forma a começar a ver-se uma redução da divida pública.
3) Se o crescimento económico voltar à tendência dos 1.8%/ano.
E isto é possível e vê-se na estabilização das taxas de juro que os agentes económicos também acreditam ser possível
O problema é que, ao mais pequeno incidente, podemos ficar de novo sem acesso ao crédito.

Primeiro é preciso dar cumprimento ao Resgate Primeiro.
Mas, como já toda a gente sabe, o ajustamento previsto no Memorando de Entendimento e no posterior Tratado Orçamental (um défice público de 0,5% do PIB e uma divida pública de 60% do PIB) vai demorar muitos anos a atingir, mais de 20 anos.
Não vale a pena pensar que vem aí um segundo resgate com mais medidas de austeridade quando ainda não cumprimos as metas previstas no Primeiro Resgate.
1) Equilíbrio das Contas Externas => Já Está.
2) Equilíbrio das Contas Públicas => Estamos na metade. Reduzimos de 10% para 5,5% e é preciso reduzir outro tanto para 1% do PIB.
3) Mercado de Trabalho => Estamos a 3/4.
4) Saneamento das empresas públicas => Estamos atrasados mas a caminhar. Parece que os ENVC já estão quase resolvidos mas ainda falta, em termos mais visíveis, a TAP, a RTP e as empresas de transportes públicos.

O resgate foi um sucesso.
Se, como anunciou o Teixeira dos Santos, não precisamos da ajuda externa se a taxa de juro a 10 anos estiver abaixo dos 7.0%/ano então, o objectivo está completamente cumprido.
Em termos financeiros voltamos à situação com folga (nas palavras do Sócrates e do Teixeira dos Santos aquando da apresentação do OE2009) que tínhamos em 2008.

O Desemprego vai no bom caminho.
Claro que a taxa de desemprego está elevada mas, depois de um máximo de 17,7% no 1.T2013, reduziu para 15,5% no 3.T2013.
Como já corrigimos o défice externo é possível que o desemprego continue a cair de forma que o Passos Coelho acabe a legislatura com uma taxa de desemprego inferior aos 12,4% da sua tomada de posse.

Fig. 4 - A dieta custou mas assim que juntei esta fotografia ao curriculum,  arranjei logo emprego como secretária de direcção.

Vou só falar um pouco do Chumbo do corte das pensões.
Eu escrevi num poste que o corte deveria ser para todos.
O Passos deve agora criar uma comissão que, rapidamente, escreva um relatório descritivo da situação financeira da Segurança Social e da Caixa de Aposentação e que avance com uma reforma estrutural de todo o sistema.
No meu entendimento o ajustamento deverá ter

1 - Aplicar as actuais regras de cálculo das pensões da segurança social a todos os actuais pensionistas (e futuros da CGA).
2 - Considerar um período de ajustamento das pensões (parece-me aceitável 15 anos).
3 - Calcular a diferença entre a pensão actual (ou a obtida com as regras actuais da CGA) e o valor obtido pela aplicação da regra geral actual e dividi-la pelos anos de ajustamento.
4 - Corrigir cada ano a pensão de TODOS os pensionistas no valor obtido em 3.

Por exemplo, se a pessoa recebe actualmente 1200€/mês e a nova regra de cálculo indicasse um valor de 900€/mês, dividiam-se os 300€ por 15 anos e aplicava-se uma redução anual de 20€ na pensão.
Passará a ser uma regra igual para todos e, pela suavidade, permitirá o ajustamento as expectativas e não se aplicar tão violentamente às pessoas mais velhos (pois, entretanto, morrem).

Eu defendo uma nova regra de cálculo em que as reformas têm
=> a parte fixa (e.g., 100€/mês);
=> a parte proporcional aos anos de trabalho (e.g., 10€/mês por cada ano de trabalho) e
=> a parte que resulta de 80% do valor capitalizado que a pessoa descontou para o sistema.
Os restantes 20% do valor capitalizado (mais as transferências do OE) serviriam para pagar a parte não contributiva das pensões.

Mas o Passos continua em modo de emergência.
No governo o Portas é contra o aumento dos impostos mas ninguém se entende quanto aos cortes.  Cada um empurra para os outros e quando chega a hora de fechar o Orçamento, é preciso avançar com medidas avulsas.
O corte de 10% nas pensões da CGA é mais uma demonstração deste desentendimento mas a alternativa seria o caos total.
Vamos ter esperança no Pai Natal.

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

A avaliação dos professores, os salários e a imigração

Todos os jovens fazem a mesma pergunta:
Qual a justiça de o Cristiano Ronaldo ganhar tanto dinheiro e ter uma namorada tão boa e eu não ter nada?
A razão está no facto de, apesar de também termos duas pernas e dois braços, não sermos capazes de criar riqueza na mesma medida que o Ronaldo.
É das diferenças na capacidade de gerar riqueza (determinada por sorte seja à nascença ou depois) que resultam as diferenças nos nossos salários.
Muitos mais treinaram futebol nos mesmos sítios em que o Ronaldo mas, porque já eram diferentes à partida, o Cristiano  transformou-se no "melhor do mundo" e os outros ficaram-se pelos "solteiros contra casados".
(Mas, mesmo assim, o Ronaldo teve que emigrar!)

Fig. 1 - Porque não temos todos direito a uma Irina? (e, depois, o que aconteceria às simpáticas?)

Com se transforma a capacidade de gerar riqueza num salário?
Se ouvirmos a argumentação dos esquerdistas (ou direitistas como a Marine Le Pen) sobre a  necessidade de haver um salário mínimo digno e de haver entraves à imigração para combater a exploração do trabalho pelo capital, não conseguimos compreender como o Ronaldo ganha muito mais que 633,33€/mês, o salário mínimo espanhol.
Apesar de o mercado dos futebolistas ser altamente concorrencial, o Ronaldo não se aflige com isso porque é exactamente a concorrência que faz o seu salário ser elevado.

É a concorrência que transforma a capacidade potencial em efectiva.
Num mundo em que há concorrência entre os trabalhadores (por um salário mais elevado) e entre os empregadores (pelos trabalhadores mais produtivos) então, cada salário vai traduzir a quantidade máxima de riqueza que o trabalhador consegue produzir.
Cada trabalhador vai, saltando de lugar em lugar, procurar a empresa onde é mais produtivo e, cada empresa, contratando e despedindo continuamente os trabalhadores menos ajustados, vai procurando maximizar as capacidades produtivas das pessoas.
Se as empresas não puderem despedir, cada pessoa ficará para todo o sempre no seu primeiro emprego pelo que nunca poderão experimentar outras ocupações que poderiam ser melhores.

Vejamos o exemplo das macieiras (de Lucas, jnr.).
Existem macieiras altas e baixas e trabalhadores altos e baixos (metade de cada). Um trabalhador alto produz mais numa macieira alta e um baixo numa macieira baixas (1000kg/dia). Um mau ajustamento implica (um alto numa baixa e um baixo numa alta) menos produção (100kg/dia) e mais esforço humano.
Vamos supor um salário igual para todos de 2/3 da produção média. Então, se o ajustamento for perfeito (alto-alta e baixo-baixa), o salário médio será de 667kg/dia. Se o ajustamento for totalmente mau (alto-baixa e baixo.alta) o salário ficará nos 67kg/dia.
Mas não sabemos quais são as árvores altas nem as pessoas altas pelo que o ajustamento é aleatório, por tentativa e erro.

T1 - Os trabalhadores são inicialmente colocados aleatoriamente.
Neste caso haverá, em média, 50% de trabalhadores que encontram a árvore certa pelo que a produção média vai ser de 550kg/dia por trabalhador e o salário de 367kg/dia.

T2 - Os maus ajustados são despedidos e novamente re-colocados.
Neste caso, metade dos despedidos vão ajustar bem pelo que passará a haver 75% de trabalhadores na árvore certa. A produção média vai aumentar para 775kg/dia e o salário aumenta para 517kg/dia.

T3 - Os maus ajustados são novamente despedidos e re-colocados.
Nesta terceira iteração a produção média aumenta para 888kg/dia e o salário para 592kg, 60% acima da situação em que não havia tentativa e despedimento.

Se estendermos o modelo a centenas de capacidades e postos de trabalho diferentes concluímos que, sem flexibilidade no mercado de trabalho que permita repetidas tentativas e erro (despedimento), o nível de produção e os salários vão ser escusadamente baixos.

O Ronaldo estava no Andorinhas
e não criava riqueza mas os olheiros viram nele capacidade para, na estrutura do Sporting, gerar milhões e o Ronaldo viu que no Sporting poderia, com melhores treinadores, gerar muito mais riqueza e ter um salário muito superior ao que teria se continuasse no Andorinhas de St. António.
Mas mesmo assim, por vontade do Sporting o Ronaldo ainda lá jogaria mas a ganhar uns 1500€/mês. Depois veio o Manchester e, vendo a capacidade no puto, entrou em concorrência com o SCP oferendo-lhe logo uns milionários 200mil€/mês (e uma maquia para o SCP). Depois vieram mais e mais clubes (e mais e mais mulheres) a querer o homem de forma que agora já ganha mais de 1,5 milhões € / mês.

Não podemos ter medo da concorrência.
Quantos mais empregadores (maximizadores do lucro) e trabalhadores (maximizadores do salário) existirem no mercado, mais o salário de cada trabalhador se vai aproximar da sua capacidade máxima de gerar riqueza.
Quem tem valor, e todos temos pelo menos algum, vai sair beneficiado pela existência de empregadores maximizadores do lucro. Se, por exemplo, o Sporting não procurasse maximizar o valor de transferência do Ronaldo, no dia 6 de Agosto de 2003 não o teria posto a jogar frente ao Manchester e hoje, provavelmente, o moço seria roupeiro.
Se vivêssemos num mundo como os esquerdistas e o Papa Xico acham que seria perfeito (onde as pessoas não procurassem o lucro máximo), a nossa vida seria muito pior. É que ninguém procuraria o ajustamento entre as capacidades capacidades e os seus processos produtivos.
E mais produção implica melhor qualidade de vida.

Mas "se eu fosse despedido não arranjava mais emprego".
O Ronaldo não pensa assim  mas a maioria das pessoas pensa-o (e com razão) porque o nosso mercado de trabalho é muito rígido. Como os empregadores não conseguem experimentar quem se adequa melhor ao seu processo produtivo (porque há muitos entraves à rotação dos efectivos, i.e., ao despedimento), apesar de ser quase certa a existência de ocupações onde seríamos mais produtivos, mais felizes e onde poderíamos ter um salário superior, não temos a oportunidade de as experimentar.
Nem o empregador nos pode dar essa oportunidade (pois tem lá outro trabalhador pior do que nós que não pode despedir) nem nós podemos deixar o nosso emprego pois, em caso de algo correr mal, temos dificuldade em arranjar outro.

Vamos ao teste dos professores.
É o Estado que regula e controla o funcionamento das universidades e politécnicos (publicos e privados) e é também o Estado o empregador de muitos dos licenciados (os professores). Então, seria de pensar que bastava ao Estado regular a atribuição dos graus académicos para não precisar avaliar os candidatos aos postos de trabalho público.
O problema é que:
1) existe liberdade de ensinar pelo que o conteúdo dos cursos pode não ser adquado ao que o Estado quer para os seus trabalhadores;
2) existe bastante disparidade entre as notas das diversas escolas superiores;
3) há mais candidatos ao emprego público que lugares disponíveis, havendo necessidade de hierarquizar os candidatos e;
4) a licenciatura não avalia a pessoa num trabalho concreto pelo que há sempre a necessidade de avaliar como a pessoa se ajusta a cada uma das multiplas ocupações distintas.

Naturalmente
Quando se candidatam 100 pessoas para um emprego público de "especialista em redes de comunicação com licenciatura na área" existe uma entrevista e um teste de conhecimentos para escolher o melhor de entre todos os candidatos pelo que, havendo vários candidatos a cada lugar de professor,  também é aceitável que exista um teste para hierarquizar os candidatos.

Mas dezenas de milhar nunca voltarão a ser professores.
As pessoas gostam de viver na ilusão e uma delas é a de que toda a gente pode ser professor numa escola pública a ganhar ordenados churudos. Apesar de isso ser possível há 50 anos porque só 3% da população tinha licenciatura, agora é impensável porque, felizmente, mais e mais pessoas têm um grau académico.
Agora é preciso adaptar a tabela salarial às novas dinâmicas do mercado. Há 50 anos o salário dos professores precisava ser elevado porque ser licenciado era raro mas agora, porque há muito mais licenciados, naturalmente que os seus salários (e dos dos professores em particular), têm que ajustar em baixa.
O ajustamento em baixa dos salários é a forma mais justa e eficiente de as pessoas perderem a ilusão de que vão ser professores e passarem a pensar noutras potenciais actividades profissionais.

Fig. 2 - Parece uma doença ter escolaridade mas a doença é os escolarizados quererem salários elevados o que leva os patrões a pensar que, depois da formação no posto de trabalho, eles se despedem.

Porque os salários dos licenciados têm que diminuir.
Localizemo-nos em 1960 onde existiam 3 pessoas licenciadas em cada 100 pessoas. Nesse tempo o salário médio era de 190€/mês (a preços de 2013) e estava dividido entre os licenciados (que ganhavam 1500€/mês) e os outros (que ganhavam 150€/mês). Os licenciados podiam ser uma elite com 10X os salários das outras pessoas porque havia poucos:
      150€ x 97% + 1500€ x 3% = 190€

Avancemos até 2013, o salário médio aumentou para 900€/mês porque o PIBpc aumentou, em média,  3%/ano.
Agora, o problema é que as pessoas de cada categoria (licenciados e outros) querem que o seu salário aumente na mesma proporção que aumentou o salário médio, 750€/mês para os outros e 7500€/mês para os licenciados, mas isso não é possível porque aumentou a proporção dos licenciados (os que ganhavam mais).
Pensemos que agora temos 20% de licenciados. Para ter um salário médio de 900€ e permitir que os salários mais baixos tenham aumentado à taxa de crescimento do PIBpc (para 750€/mês), os salários dos licenciados têm que ficar nos mesmos 1500€/mês de 1960.
      750€ x 80% + 1500€ x 20% = 900€

É uma ilusão que tem que ser desfeita.
Se achamos uma questão de justiça social que os salários mais baixos aumentem à taxa de crescimento do PIB, os salários dos licenciados têm que estagnar e, no futuro, diminuir porque o número de licenciados está a aumentar mais rapidamente que o crescimento do PIB (que está estagnado há 15 anos). Este problema é muito grave, por exemplo, no Brasil onde o Salário Minimo está obrigado por lei a aumentar à taxa de crescimento do PIB.
Os licenciados pensarem que podem manter o nível de vida dos liceniados da geração dos seus pais é uma total ilusão que tem que ser desfeita rapiramente sob pena de termos uma multidão de licenciados inactivo.
Se hoje é muito mais fácil ter uma licenciatura do que era há 50 anos, também temos que aceitar que o ganho patrimonial de a ter tem que ser menor.
Não é possível defendermos que o progresso deve trazer mais igualdade social e depois querer para nós um salários de minoria.
A média é a média e se há mais pessoas com  salário elevado (licenciados) esse salários tem que ficar relativamente menor.

Os 74 sirios que vieram da Guiné-Bissau e os 75 romenos que foram repatriados.
Quando falamos dos milhares que entraram na WWII com "vistos falsos" emitidos pelo Aristides da Souza Mendes dizemos que foi um heroi porque salvou pessoas que acabaram por ficar do lado certo da barricada.
Se nos compararmos com 1940, o que se passou na Guiné-Bissau foi exactamente o mesmo só que ainda não sabemos de que lado estas 74 pessoas irão ficar na História.
Também são seres humanos como nós que fogem de uma guerra terrivel e que usam passaportes alegadamente falsos.

Serão mesmo como nós?
Nós somos muito mais civilizados que qualquer povo do mundo porque temos leis que metem na cadeia quem "maltratar os animais domésticos". O problema é que preocupamo-nos muito com o peixe do aquário mas pouco com os peixes que vivem no mar e ainda menos com as pessoas que, por esse mundo fora, morrem de fome, guerra e miséria. E nós poderíamos fazer muito mais por essas pessoas e, mesmo assim, podiamos ficavar a viver melhor.

Os esquerdistas dizem que estamos a perder jovens para a emigração.
Se é mau a nossa joventude sair para ir trabalhar por esse mundo fora, deve ser bom receber a juventude desse mundo todo para vir trabalhar para cá.

Nós podíamos e deveriamos receber 5 milhões de trabalhadores imigrantes.  
Quando falam em imigração, pensamos logo que nos vêm roubar os postos de trabalho, fazer peditórios à porta dos supermercados e viver à custa de segurança social mas essa análise está errada.
O nosso problema é que raciocinamos como os "especialistas" que aparecem na TV que não percebem nada sobre o assunto.
Vejamos os erros:

Erro 1 - É desumano pagar 0,50€/h a um imigrante.
As OMT - Organização Mundial do Trabalho indica como salário de sobrevivência num país pobre, 2USD por 9h de trabalho que, corrigido das diferenças de preços (3:1) e do câmbio (0.75€/USD), traduz um salário de 6,00h numa jorna de trabalho de 12h (0,50€/h).
Se a OMT diz que é digno então, não podemos dizer que é desumano.
O que acontece é que somo hipocritas. Achamos que uma pessoa trabalhar VOLUNTARIAMENTE em Portugal por 0,50€/h é uma exploração mas essa mesma pessoa trabalhar por menos ou mesmo morrer à fome no seu país, já não é problema nosso.

Fig. 3 - Por amor de Deus, deixem-nos ir trabalhar na apanha da zeitona que estamos a morrer de fome.

Erro 2 - O número de empregos disponíveis é fixo.
Podemos pensar que, por haver uma certa quantidade de oliveiras, há automaticamente um certo número de postos de trabalho para apanhadores de azeitonas quer se pague 0,50€/h ou 100€/h.
Mas todos sabemos que isso não é minimamente verdade, sabemos que o número de empregos disponíveis diminui com o salário.
Se fosse possível contratar imigrantes a 0,50€/h, muitos postos de trabalho seriam criados, desde pastar cabras e ovelhas até cortar as acácias infestantes das nossas matas.
Assim, os imigrantes iriam criar, pelo baixo salário, os seus próprios postos de trabalho.

Erro 3 - Os baixos salários destroiem emprego.
Se um trabalhador ganhar 0,50€/h, o seu consumo vai ser muito pequeno pelo que essa pessoa não terá impacto na economia. Por outro lado, irá destruir, por substituição, empregos melhor remunerados.
Mas isto está errado porque, apesar de consumir (e produzir) pouco, produz alguma coisa.
E as coisas que produz, por exemplo, azeitonas, apesar de terem pouco valor acrescentado, potenciam o desenvolvimento (e não a destruição) das actividades que estão no seguimento, os lagares de azeite, o que cria empregos com salários superiores.
Sempre que as actividades que geram pouco valor acrescentado não possam ser deslocalizadas (são coisas não transaccionáveis) como, por exemplo, varrer estradas, arrumar quartos de hotel ou podar macieiras, um país ganha nivel de vida para os seus nacionais se contratar estrangeiros com baixos salários para realizar essas actividades. É assim que vive, por exemplo, a Suíça.

Erro 4 - O número de candidatos é fixo.
Em Portugal o SMN é de 5€/h (se contarmos com as transferências para a Segurança Social). Quando na India ou na África houvem falar deste valor, milhares de pessoas pobres sentem vontade de vir trabalhar para Portugal.
Se, pelo contrário, houvesse liberdade de contratação, o salário do imigrante iria descer por aí abaixo e, quando chegasse a 0.50€/h, já ninguém quereria vir trabalhar para Portugal.

Como deveria ser a nossa politica de imigração.
O que eu vou propor não sai da minha imaginação pois é apenas uma adaptação do que fazem na Suiça.

Primeiro.
Cria-se o Visto Especial de Trabalho Temporário, VETT.
O processo de emissão do visto parte de um contracto de trabalho que tem que dizer o dia de entrada, os meses de duração da estadia, o número de horas de trabalho, o salário horário e o dia de saida.
O empregador tem que prestar caução dos salários, alimentação, alojamento e da viagem de repatriamento.
Assim que termine o seu tempo de trabalho, o imigrante tem que retornar ao seus país.

Fig. 4 - Sou uma jovem de 15 anos que trabalha 14h/dia, 7 dias/semana por 40€/mês. 
Deêm-me uma oportunidade de ir para Portugal.

Segundo.
Fazia-se um Código de Trabalho para os VETTs.
1 - O salário mínimo fica reduzido a 20% do SMN, 0,725€/h;
2 - O salário fica limitado a um máximo de 80% do SMN, 2,90€/h (para acabar com a ideia de que os imigrantes são uma ameaça aos "postos de trabalho dos portugueses" );
3 - O horário de trabalho máximo aumenta para 72h/semana (12h/dia x 6 dias/semana).
4 - O empregador fica obrigado a pagar a viagem de vinda e repatriamento do trabalhador além de ter que fornecer gratuitamente alojamento e alimentação numa qualidade idêntica ao que o trabalhador tinha no seu local de origem.
5 - No anúncio da contratação (e no contracto) têm que ser publicitadas as condições de trabalho, de estadia e de remuneração.

Terceiro.
O cumprimento do VETT sem incidentes policiais dá pontos ao trabalhador com vista à obtença de um visto de residencia permanente para ele e para a família (sob a condição de saber falar português).
Por exemplo, é atribuido um ponto por cada 1000h de trabalho (que corresponde a 6 meses de trabalho) e, com 30 pontos, o trabalhador tem direito ao visto de residência.

O processo.
O empregador arranja os trabalhadores, seja em Goa, no Vietname ou no Sudão do Sul, faz-lhes um contrato de trabalho e vai ao SEF (a ver se não são criminosos).
Depois, presta a cauça, compra-lhes a viagem e manda-os vir.

Fica a questão da Segurança Social.
Terá que ser criado um regime especial de SS.
1 - O empregador desconta 35% de TSU e o trabalhador fica isento.
2 - Uma parte da TSU, 25% do salário, vai para uma conta pessoal do trabalhador com vista à atribuição de uma pensão de velhice calculada segundo o sistema de capitalização.
3 - Outra parte, 10% do salário, forma um fundo solidário a utilizar apenas com os VETTs.

Termino com a história dos 75 romenos e do sr. padre.
Vieram 75 romenos para trabalhar na apanha da zeitona.
Ao trabalhar pelo salário possível estavam a criar postos de trabalho para portugueses nos lagares e a promover a exportação de azeite e de azeitona curada.
Mas uns iluminados decidiram que era escravatura moderna. Mandaram 71 com as mãos a abanar de volta para a miséria da Roménia e 4 foram viver à nossa custa na cadeia (os 4 custam 200€ por dia ao orçamento de estado).
Perderam os 71 romenos (que poderiam levar uns euros para casa) e perdemos nós (porque estamos a gastar 200€/dia e as azeitonas estão por apanhar).
Um padre numa terra tinha um funeral para fazer e as azeitonas para apanhar.
Então decretou:
-Como não tenho romenos, preciso de ir eu apanhar as azeitonas. Se alguém me vier ajudar na apanha, eu faço o funeral. Caso contrário, os do SEF que o façam. 

Fig. 5 - Na Roménia vivemos nesta casa e ninguém se preocupa. Quando vamos trabalhar para Portugal obrigam o patrão a meter-nos num hotel de 5*.

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A Africa do Sul estagnou

Morreu Nelson Mandela.
Como todos os canais de TV estão numa histeria de homenagem ao homem, o comum dos mortais fica com a ideia que a África do Sul é um exemplo de um sucesso bombástico, uma superpotencia económica onde apetece viver.
Mas a realidade é totalmente diferente pois a ZAF tinha, nos anos 1950, uma PIB per capita idêntico ao português e, actualmente, tem um PIB per capita que é menos de 30% do nosso.  
Se nós somos vítimas da estagnação desde os princípios de 2000, a ZAF é vitima deste problema desde 1970.
Além disso, a África do Sul é o país com mais desigualdades do Mundo (juntamente com os vizinhos Namíbia e Botswana). Tem um coeficiente de Gini de 0.63 (o máximo é 1,00, em que uma única pessoa tem o rendimento total do país e o mínimo é zero, em que todos têm o  rendimento médio) enquanto o Brasil tem 0.55, a China 0.47 e nós estamos nos 0.40.

Fig. 1 - Mandela estava sempre sorridente mas há muita gente sorridente 

Comparemos com a Coreia do Sul.
Ambos os países têm a mesma dimensão humana, 50milhões de habitantes, mas a ZAF é muito maior em dimensões físicas e em recursos naturais.
Em 1965 a diferença em recursos naturais traduzia-se em diferenças de rendimento. Assim, a CS tinha um PIBpc de apenas 40% do PIBpc da ZAF (e de 35% do PIBpc português).
No entanto, o engenho humano fez com que, em 2012, o PIBpc da CS tenha aumentado para 360% do da ZAF (e 120% do de Portugal).
E este desenvolvimento foi feito com um coeficiente de Gini ainda menor que o nosso, 0.32 (WB, 2007) e metade do da África do Sul.

Fig. 2 - Evolução do PIBpc, USD de 2005 (dados, Banco Mundial)

Quem foram os homens que conduziram a Coreia do Sul da pobreza à prosperidade?
Ninguém é capaz de dizer um único nome de um governante sul coreano.
Terá sido Park Chung-hee, presidente desde 1962 até ser assassinado no dia 26 de Outubro de 1979?
Eu nunca tinha ouvido falar em tal nome até ir consultar a lista dos presidentes à wikipédia e se me perguntarem daqui a um minuto por este nome, não sei quem é.
Nunca ouvi um único minuto nas TVs sobre este homem.
Tenho a certeza que quando morreu não houve um único jornalista, desportista ou economista que tenha sido chamado a comentar a morte desses homens.
Nunca penso ter ganho o prémio Nobel da paz.
Atá há quem diga que foi um ditador mas não faço a mais pequena ideia.

Fig. 3 - Nunca vi esta cara na minha vida mas também tem um sorrisinho (Park Chung-hee)

Passa-se o mesmo com a Índia.
Desde 1980 que o Brasil está taco a taco com a África do Sul: não cresce. No entanto, há uma enorme publicidade em torno do Lula da Silva e da sua politica social associada ao crescimento.
Pelo contrário, nestas 3 décadas o PIBpc da Índia quadriplicou  e o coeficiente de Gini na Índia, 0.33, é muito menor que no Brasil, 0.55.
Quem serão os estadista que têm retirado a Índia da pobreza absoluta dos anos 1970?
Não faço a mais pequena ideia e ninguém quer saber.

O que será que tem o Nelson Mandela de diferente?
A única hipótese que vejo para justificar estas diferenças de tratamento é o homem ser preto e ter governado um país de pretos.
O Mundo deve pensar que os pretos estão condenados a viver em constante guerra e na pobreza pelo que, quando um país governado por pretos consegue viver em relativa paz e sem fome massiva, torna-se um estrondoso sucesso.
É uma espécie de paraolimpicos dos países.

Fig. 4 - Considerada como uma das 3 mulhers mais sexy (dos paraolimpicos).

Porque será que os países não crescem?
Porque consomem demais.
Apesar de os esquerdistas terem a lengalenga de que é o consumo de faz crescer o PIB, esta afirmação não resiste à redução ao absurdo: se bastasse consumir mais para crescer mais, como toda a gente quer consumir mais então, não haveria países pobres.
Mas, diz a teoria e a evidencia empírica, para crescer é preciso produzir mais (e não consumir mais) e para isso é preciso investir em equipamento novo, escolaridade e I&D (investigação e desenvolvimento). E o investimento é a outra face da poupança.
Então, para crescer mais é preciso consumir menos.

    País ---- Poup_liquida --- Cresc PIB
    CHN --------- 32,2% ------- 8,87%
    KOR --------- 20,5% ------- 5,19%
    IND ---------- 16,4% ------- 4,25%
    BRA ----------- 6,3% ------- 0,96%
    PRT ----------- 3,6% -------- 1,76%
    ZAF ----------- 3,9% -------- 0,37%
Quadro - Taxa de poupança liquida interna e taxa de crescimento do PIBpc médias no período 1980-2012 (dados: Banco Mundial, cálculos do autor).

Em média, nestes 6 países por cada 1% do PIB que se poupa a mais (em termos líquidos das depreciações de capital), o PIB cresce mais 0.25% do PIB por ano. Portugal conseguiu o dobro desta proporção por causa do endividamento externo  (o défice da balança corrente) e das ajudas da União Europeia que é poupança dos não residentes que soma à poupança interna.
Nos últimos 30 anos, imaginando um salário de 485€, na China as pessoas poupam 160€ e em Portugal (e na África do Sul) poupamos 16€, dez vezes menos.
Quem quiser crescer mais tem que consumir menos e poupar mais.

A escolarização também é investimento.
A este propósito vêm os testes PISA-2012 que indica que os alunos portugueses (de 15 anos) estão na média e os da Coreia do Sul estão em primeiro lugar, significativamente acima da média. Em termos numéricos a Coreia atingiu 543 pontos enquanto que Portugal ficou nos 489 pontos.
A partir desta informação vieram logo os esquerdistas dizer que o Passos Coelho está a destruir a Escola Pública e, logo, a possibilidade de nos desenvolvermos.
Nem sequer se deram ao trabalho dizer que os resultados melhoraram (mas não de forma significativa) e que os nossos resultados a par da Noruega, França e Luxemburgo.
Sendo assim, os nossos problemas não vêm de termos mais ou menos nestes testes PISA.

Fig. 5 - Há muitos países onde se mantém obrigatório usar farda nas escolas públicas

Temos poucos alunos e gastamos muito dinheiro.
A primeira falha do teste PISA - Programme for International Student Assessment é que é feito apenas aos alunos de 15 anos (9 ano de escolaridade) não conseguindo avaliar a competência das pessoas que estão a trabalhar.
A segunda falha é que o teste não é feito à população em geral (com 15 anos) mas apenas aos estudantes pelo que um país que tenha na escola apenas 1% da população tem as mesmas condições para ter bons resultados neste teste que outro país qualquer que tenha na escola 99% da sua população.
A terceira falha é que avalia um nível de escolaridade (9 anos) muito baixo. Se temos escolaridade obrigatória de 12 anos, a avaliação deveria ser, pelo menos, nos jovens com 18 anos.
Assim, Portugal tem problemas ao nível da escolaridade que o PISA não consegue identifica pelo que é errado avaliar todo o sistema com apenas este teste.

Primeiro, Portugal tem  18% dos trabalhadores com licenciatura enquanto que a Coreia do Sul tem 45% (fonte: BM). E dos nossos 18%,, metade são funcionários públicos.

Segundo,  Portugal tem 65% dos seus jovens (com idade entre os 18 e os 21 anos) a frequentar estudos superiores enquanto que a Coreia tem 100%..

Terceiro, O Estado português gasta 5,3% do PIB em educação enquanto o coreano gasta 4,4% do PIB.

Se pegássemos em 100 trabalhadores portugueses e comparássemos com 100 trabalhadores de cada um dos outros países da OCDE, ficaríamos muito muito abaixo da média porque a maioria dos nosso teria menos que o 6.º ano de escolaridade.

É um contrasenso.
Portugal tem menos alunos que a Coreia mas a despesa pública  em educação é maior.
Tem sido a tentativa de tapar um problema com dinheiros públicos.

De que serve ter licenciados na produção?
Um licenciado produz mais a realizar qualquer operação porque

=> quando chega a um novo posto de trabalho ou é quando adoptada uma nova tecnologia, o licenciado aprende mais rapidamente e com menos supervisão a executar bem as tarefas.

=> consegue mudar de tarefa e de posto de trabalho muito mais facilmente o que dinamiza o mercado de trabalho (menos desemprego).

=> descodifica melhor e mais rapidamente os problemas que surgem no dia-a-dia

=> identifica enquanto está no posto de trabalho formas de melhorar a eficiência do processo produtivo

=> é mais criativo levando ao aparecimento de produtos com maior valor

=> consegue transportar para o processo produtivo a informação que recolhe no meio ambiente (TV, Internet, Jornais, conversa com pessoas).

Porque produz mais, em equilíbrio de mercado, um empregador vai estar disponível para pagar um salário mais elevado aos trabalhadores licenciados, independentemente das tarefas que executam.

A "produção" de um licenciado tem custos.
Considerando todos os custos (de tempo, despesas pessoas e o custo da escola) e exagerando um pouco, nos 15 anos de escola teremos um investimento máximo de 200000€ sendo 1/3 deste valor investido até ao 9.º ano e 2/3 nos anos seguintes (133mil€).
Para amortizar este investimento em 45 anos de trabalho, um licenciado precisa ter um ordenado 370€/mês maior que um trabalhador com o 9.º ano.
Mas o Estado paga cerca de metade do investimento (com a escola gratuita ou fortemente subsidiada) pelo que, olhando ao investimento individual, a licenciatura justifica-se desde que haja um incremento no salário de 185€/mês.
Então, se um trabalhador com o 9.º ganhar 485€/mês, um licenciado com idênticas capacidade inatas ganhará 670€/mês. Um salário médio de um trabalhador com o 9.º ano de 750€/mês implica um salário médio de um licenciado de 935€/mês.

Mas as expectativas são muito maiores.
Aqui é que está o problema. É um sacrilégio dizer a um licenciado que se ele conseguir  ganhar 750€/mês, tem um ordenado justo.
Isso não dá para nada. Não dá para ter carro, casa e fazer férias como os actuais licenciados têm e fazem.
Mas isto acontece apenas porque o Estado, não necessitando de olhar à despesa pública porque havia sempre quem emprestasse dinheiro, foi aumentando os salários dos seus trabalhadores sem atender às condições da economia.
Então, ao longo dos anos a economia privada não conseguiu captar licenciados porque os  licenciados vão preferindo ficar desempregados à espera de se encaixarem no Estado como professores, médicos ou técnicos superiores.

Fig. 2 - Berram berram berram mas já não há onde mamar.

Por isso é que os ENVC faliram e a "solução" arranjada é inviável.
Se formos a um estaleiro naval coreano (nos programas do Discovery), vemos que, desde os soldadores aos operadores de gruas, são quase todos licenciados. Se formos aos ENVC, o máximo que lá vemos é o "5 ano antigo" e a maioria é "4.a classe".
Construir um barco é uma coisa muito sofisticada porque é preciso minimizar o custo de produção, o consumo de combustível, o nível de vibração e ruído, as necessidade de manutenção e de tripulação o que é fácil se o barco andar a 3 nós (5,6km/h). Por exemplo, a 3 nós é suficiente um cavalo para, nos canais ingleses, puxar uma barcaças com 100t de carga.
Mas o problema é que, a 3 nós, ir de Lisboa ao Rio de Janeiro em linha recta (7800km) e voltar precisa de 4 meses de viagem.
Então,  é preciso também maximizar a velocidade de forma a atingir um mínimo aceitável de 15 nós (7,7m/s; 28km/h). Isto já é uma enorme desafio da engenharia, comparável a fazer um carro de formula1 mas do tamanho de um estádio de futebol incluindo bancadas para 100 mil pessoas.
Afinal, o que precisamos para voltar a crescer?
 Toda a gente sabe mas não quer aceitar. Estamos todos em negação.

Mais poupança. Precisamos aumentar a poupança (e reduzir o consumo) em 10% do PIB. Temos que poupar mais 16 mil milhões € a cada ano.

Mais licenciados. Precisamos aumentar o número de alunos no ensino superior em 50%, mais 25 mil entradas em cada ano.

Menor custo de produção da escolaridade. Temos que fazer mais licenciados com menos despesa pública o que passa, necessariamente, pela redução dos salários dos professores, turmas maiores, professores menos competentes.

Mais licenciados no processo produtivo. Os licenciados não podem ter a expectativa de que vão ser professores, médicos ou técnicos superiores a receber ordenados chorudos à custa do Estado. Têm que ser engenheiros, economistas, arquitectos, etc. mas a trabalhar no sector produtivo e com salários compatíveis com os custos da formação (mais 200€ que os não licenciados).

Vamos esquecer o Mandela e isso do PISA que isso não nos leva a lado nenhum.

Pedro Cosme Costa Vieira

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

A troca de dívida de 3Dez foi o possível

As operações de troca são o pão nosso de cada dia.
Imaginemos uma família que ganha 3.000€/mês e que deve 200 mil € pagando 4%/ano de juros. Vai conseguir amortizar a divida em 50 anos com uma mensalidade fixa de 762€/mês.  Agora imaginemos que o contracto prevê que seja paga a mesma mensalidade de 762€ durante 5 anos mas, no fim desse prazo, paga uma prestação de 148810€. Naturalmente que a família não vai conseguir arranjar os quase 150mil€ pelo que vai ter que arranjar outro crédito (com o mesmo banco ou com outro) para rolar a divida. Apesar de tudo, estas duas situações são, em termos económicos, semelhantes.

Com Portugal passa-se o mesmo. 
Devemos 200 mil milhões de euros dos quais vamos pagando os juros mas não conseguimos amortizar o stock no prazo previsto nas obrigações. Assim, quando a divida se vencer, o Estado vai ter que rolar os montantes emitindo nova dívida.
Na tal conferência do NIFIP eu (também) organizei, um francês especialista em gestão de divida pública esteve mesmo a falar disto. Antigamente, o devedor esperava pelo vencimento das obrigações para arranjar novo crédito para as pagar. Agora, a gestão dinâmica do stock de divida consegue, intervindo continuamente no mercado secundário, rolar a divida por antecipação. Por exemplo, a divida pública francesa tem uma maturidade média na ordem dos 7 anos. 

Fig. 1 - A troca é uma oportunidade para ver como o mercado avalia o activo.

O mercado primário.
O Estado, porque tem défice presente e passado (stock de divida pública que precisa de ser rolada),  volta e meia cria títulos da divida pública (as obrigações do tesouro).
Por exemplo, o Estado precisa de 1000M€ e, sabendo que a taxa de juro no prazo de mercado no prazo de 5 anos está próxima dos 5,000%/ano, cria em Dez2013 10M de obrigação com o valor nominal  de 100€ e com um cupão anual de 5,00€ com a maturidade de 5 anos (os 100€ serão pagos em Dez2018).
Depois, o Estado faz um anúncio de que quer vender (pedir dinheiro emprestado) os 10M de obrigações e vai aceitando ordens de compra dos aforradores (que querem emprestar dinheiro) como de qualquer activo financeiro: cada ordem de compra contém a quantidade de obrigações pretendida e o preço que o aforrador pretende pagar, por exemplo, 500 obrigações ao preço unitário de 98,950€.
Quando a oferta tem um preço menor que 100€ quer dizer que o aforrador pretende uma taxa de juro maior que o valor do cupão e vice-versa. Supondo que o Estado vendeu cada obrigação a 98,950€ então, a taxa de juro foi de 5,224%/ano.
Também pode o valor nominal (a ser pago no fim do prazo) ser a variável-preço (o comprador "pedir" um preço maior que 100€ traduz uma taxa de juro maior que o cupão e vice-versa). No exemplo anterior, o valor nominal de 100€ pagos agora seriam 101,355€).
Por uma questão de normalização do mercado, o normal é o valor nominal ser 100€ e o preço de venda ser variável (a cotação).

O mercado secundário.
Todos os dias são vendidas e compradas obrigações do tesouro a determinado preço (a cotação da obrigação). Apesar de haver uma multiplicidade de obrigações do tesouro, em termos financeiros a sua principal característica é a maturidade pelo que as agências de informação financeiras, e.g., a Bloomberg, agregam as obrigações por intervalos de prazos (3 meses, 6 meses, 12 meses, 2 anos, 3 anos, 4 anos, 5 anos, etc.) e calculam a taxa de juro de mercado para cada prazo.

Onde aparece a gestão dinâmica do Estado.
Normalmente as taxas de juro fixas para os prazos maiores é maior pelo que os países são tentados a ter a divida pública com prazos curtos. No entanto, ter muita dívida de curto prazo causa nervosismo nos aforradores. Assim, o Estado tem que ponderar duas variáveis incompatíveis, uma taxa de juro baixa e uma maturidade elevada.

Fig. 2 - Taxas de juro fixas de dívida pública nas principais zonas monetárias

Cada dia que passa a maturidade média da divida diminui exactamente 1 dia. Então, se o devedor se comprometer a manter uma certa maturidade média tem que implementar  uma gestão dinâmica comprando obrigações de prazos mais curtos e vendendo obrigações de prazos mais longos.
Se, por exemplo, o gestor de dívida observa que no prazo de 2 anos a taxa de juro está anormalmente baixa e a 8 anos, pelo contrário, está anormalmente alta então, vai vender divida a 2 anos e comprar divida a 8 anos nas quantidades que fazem mercado evoluir para as taxas de juro que "deveriam estar" (que depende do que pensa o gestor).

Foi exactamente isso que o Estado fez a 3 de Dezembro.
Comprou (i.e., pagou) divida de mais curto-prazo (maturidade em 2014 e 2015) e vender (i.e., pediu emprestado) divida de mais longo-prazo (maturidade em 2017 e 2018) de forma a alterar o perfil de maturidades. Não interessa se a divida foi vendida para ser comprada pelos mesmos ou outros porque, para o Estado, em nada interessa saber a identidade dos aforradores.
Ao aumentar o prazo, a taxa de juro média ficou maior mas é mesmo assim.
O óptimo em termos de taxa de juro seria ter toda a dívida com maturidades muito curtas (abaixo dos 30 dias) mas isso obrigaria a emitir diariamente milhares de milhões de divida pública o que introduziria muito risco nos encargos do Estado com juros.

Essas operações são para continuar.
É uma pena termos, ainda, taxas de juro tão elevadas mas as taxas de juro conseguidas foram as de mercado para os prazos de 4 e 5 anos (entre 4,5%/ano e 5,0%/ano). Comparando com a Itália (paga entre 2,3%/ano e 2,7%/ano), a Irlanda (paga entre 1,9%/ano e 2,1%/ano) ou o financiamento da Troika (3,2%/ano) a taxa de juro é elevada mas o problema é que nós não somos a Irlanda e a Troika não nos quer emprestar mais dinheiro.
Como vamos ter que nos fazer à vida, esta operações de gestão de maturidade vão passar a ser cada vez mais normais pois até ao fim da legislatura vai ser preciso rola mais de 20 mil milhões de euros.

Será isto adiar o problema para o PS pagar?
A divida é, em si mesmo, fazer despesa hoje (que dá votos) para os vindouros pagar.
Quando o Mário Soares, o Guterres e o Sócrates e outros criaram divida pública massiva nunca imaginaram que seria o Passos Coelho a pagar na totalidade. Isso apenas seria possível se o homem estivesse lá uns 48 anos (precisava de um saldo primário de +3% do PIB). Então, todos sabemos que quando o PS assumir o governo, nem que seja daqui a 20 anos, terá lá toda a dívida que os seus anteriores governos fizeram.
Mas o Mário Soares já não se lembra desses tempos.

Fig. - Estará morto? Não, está apenas a recarregar as baterias da demagogia.

Pedro Cosme Costa Vieira

domingo, 1 de dezembro de 2013

ENVC - Tardou mas está resolvido

Estes últimos 2 dias estive na conferencia do NIFIP.
Durante dois dias discutimos formas de ultrapassar a crise que vivemos.
Foi uma coisa relativamente pequena (26 comunicações) de que eu fiz parte (muito pequena) da organização mas foi muito interessante porque, além de autores do UK, França, Alemanha, Finlândia e Polónia, estiveram autores de quase todos os países da Zona Euro em crise (Grécia, Portugal, Itália, Espanha) e também da Islândia.
O consenso foi de que ajustar em câmbios fixos (dentro do Euro) custa muito pelo que a maioria (75%) defendeu que o actual processo de ajustamento deve ser adiado porque, nas actuais circunstâncias, está condenado ao fracasso. Eu (e os restantes 25%) não pensamos assim porque o ajustamento que vivemos está escudado na teoria económica e tem que ser feito o mais cedo possível.

Os ENVC.
Entre o que é preciso fazer é acabar com as empresas públicas inviáveis. Muita coisa tem que ser re-dimensionada mas os ENVC - Estaleiros Navais de Viana do Castelo são um caso gravíssimo porque já há vários anos que não tem qualquer actividade produtiva.
É verdade que fomos pioneiros a fazer caravelas e os ENVC  fizeram nos anos 1960 uns navios  patrulheiros para a guerra do ultramar. Mas fazer hoje barcos é uma actividade tecnologicamente muito complexo que os nossos construtores de 4.a classe não são capazes.
Desta forma não conseguem vender os barcos pelo preço do aço que usam na sua construção.
Para termos estaleiros de construção naval é preciso que as universidades deixem de produzir candidatos a professores que ficarão no desemprego e passem a produzir engenheiros navais (curso que ninguém quer frequentar).
Não podemos ter trabalhadores quase analfabetos a receber ordenados mais elevados que engenheiros da construção naval na Coreia do Sul.
O futuro dos ENVC sempre foi o desaparecimento e já estava previsto no tempo do Sócrates (começava por liquidar 380 empregos). Mas quando entrou o Passos Coelho recuou, empatou e depois veio o Aguiar Branco dizer que ia salvar a coisa e isso tudo fez-me perder a a esperança na capacidade do Governo avançar com firmeza.
Mas, antes tarde que nunca, agora a coisa vai mesmo terminar.
A coisa nem sequer vai ser privatizada, vai mesmo ser liquidada mas deveria ir pura e simplesmente à falência.
Obrigado, União Europeia por nos livrares deste cancro económico.

Fig. 1 - Prova-de-mar de um navio construído nos ENVC (parece que está a adornar para a direita)

O multiplicador dos empregos é uma lengalenga.
Eu acho muito engraçado quando vêm dizer publicamente, e muitos deles são economistas, que "cada emprego perdido implica a perda de mais 4 ou 5 empregos indirectos". Então, a terminação dos 620 empregos dos ENVC vai traduzir-se na perda de cerca de 4000 empregos directos e indirectos.
Esta lengalenga é o re-escrever do multiplicador keynesiano.
Se cada posto de trabalho (na industria) cria indirectamente mais 4 ou 5 postos de trabalho na região de Viana do Castelo, a câmara Municipal deveria pedir ao Governo a criação de um imposto sobre esses 4 ou 5 trabalhadores de 10% do ordenado para subsidiar os ENVC (metade do ordenado seria pago pelos 4 ou 5 e a outra metade pelo que produzissem).

O que é preciso fazer para ajustar a economia.
O principal consenso da teoria económica (e que se reconheceu na conferência) é que os países não podiam continuar com uma balança corrente (contas com o exterior) e contas públicas deficitárias na ordem dos 10% do PIB e que o peso da despesa pública não podia estar, como tínhamos em 2010, acima dos 50% do PIB.
Para resolver isso é preciso fazer certas coisas.
  
Ajustar preços.
Para corrigir o défice da balança corrente, os países precisam fazer uma desvalorização dos preços relativamente ao exterior.
Se a Islândia ajustou muito rapidamente mesmo mantendo os preços porque desvalorizou a sua moeda em 20% (reduziu instantaniamente e em simultâneo os salários e os preços face ao exterior), dentro do Euro é preciso descer os preços nominais porque estamos limitados aos 2%/ano da inflação média. O problema é que a descida dos preços nominais tem que se transmitir aos salários o que, no processo, causa a compressão da rentabilidade das empresas, que gera desemprego e falências. O problema do nosso ajustamento não é só o ajustamento mas principalmente ninguém aceitar a descida dos salários nominais.

É a ilusão monetária.
Os preços subirem 10% (por influencia da desvalorização nos preços dos bens importados) e o salário manter-se parece mais aceitável que descer o salário nominal 20% (para os preços internos descerem 20% o que, juntamente com a manutenção dos preços dos bens importados) e haver deflação de 10%. É igual mas é muito mais difícil.
Então, o ajustamento dentro do Euro gera muito desemprego e, à partida, é incerto que dê resultado.
Mas era o mesmo problema no primeiro mandato do Cavaco Silva (1985-1990) quando tínhamos inflação de 20%/ano (e os salários aumentavam 20%/ano) e era preciso reduzi-la para 2%/ano para podermos entrar na Zona Euro. Também houve crise nas empresas, greves, e desemprego.
Então, o problema é apenas uma questão de expectativas quanto à inflação.

Ajustamento estrutural.
Também se concluiu que, mesmo não considerando o momento de emergência, é preciso reformas estruturais que levem ao aumento do crescimento potencial das nossas economias (que está nos 1.5%/ano). Porque a dívida pública e a despesa pública estão muito grandes, é preciso reduzir e consolidar as contas públicas o que passa por contrair o "Estado Social" e privatizar / desmantelar as empresas públicas.

Mas a consolidação fiscal é recessiva.
Aqui é que nos dividimos.
Por um lado, 75% dos conferencistas defendeu que as coisas devem continuar como estavam (ou estão) e aguardar por melhores tempos para fazer as reformas porque a consolidação orçamental tem efeito recessivo e as reformas levam muito tempo a dar resultado. Por outro lado, 25% dos conferencistas (onde eu me incluía) defendeu que isto tem que avançar rapidamente porque a consolidação fiscal é neutra no crescimento pois o que é recessivo é o equilibrar da balança corrente que é uma inevitabilidade por falta de crédito externo.
Além disso, a evidência passada indica que os governos aproveitam os tempos de "vacas gordas" para aumentar a despesa pública e não para a diminuir.

Mas já ninguém fala da "espiral recessiva".
Isto é a prova provada de que vamos no bom caminho´, de que estamos a recuperar.
Relativamente ao ano com mais alto PIB (a segunda metade de 2007 e a primeira de 2008), a recessão atingiu no primeiro trimestre de 2013 o máximo de - 8,2% do PIB mas, nos últimos 6 meses já recuperou 1,3% do PIB.
Dizem que 1,3% de crescimento em 6 meses é pouco mas se recordarmos que nos 6 anos de  "politicas de crescimento" do Sócrates (que entrou no 1T 2005 com um PIB trimestral de 39498M€ e saiu no 2T 2011 com o PIB em 40492M€) o PIB cresceu  2,5% do PIB já vemos que é um resultado muito bom.
Os dados indicam que podemos ter em 2014 um crescimento na ordem dos 1,8%/ano o que terá um efeito na redução do défice público na ordem dos 0.5 pp o que é necessário para OE2014 conseguir ser cumprido nos 4.0% do PIB.

Fig. 2 - Evolução do PIB relativamente ao seu valor máximo (dados: INE)

E, no entretanto, ajustamos a balança corrente.
Nunca pensei ser possível conseguir ajustar a Balança Corrente. No meu livro está lá preto no branco que "o Salazar não conseguiu com mão de ferro, como poderá o Passos conseguir?".
Mas o certo é que conseguiu (conseguimos cortando nas importações de automóveis).
Apesar de parecer um mau resultado ter hoje, relativamente ao ultimo trimestre do Sócrates, um PIB 5.1% mais baixo, é um bom resultado sabendo que se conseguiu corrigir a balança corrente em 10% do PIB (as contas com o exterior). Por cada 1€ de redução das  endividamento externo, o PIB contraiu 0.50€ o que é muito melhor que a Grécia que, por cada 1€ de correcção da BC, o PIB contraiu 1.90€.

Fig, 3 - Evolução da balança corrente portuguesa (dados: EuroStat)

E o ajustamento da BC tem acontecido em todos os países em dificuldades.
Os países do Sul, como nós, começaram a desequilibrar as suas contas com o exterior quando entraram no Euro. Este fenómeno acelerou em 2005 e não por causa da crise do Sub-Prime como o nosso ex-ministro Teixeira dos Santos quer fazer crer.
E
Sem considerar a Irlanda, os países do Sul (Espanha, Portugal, Itália e Grécia) entre 2005 e 2007 os PIGS mais que triplicaram o défice da balança corrente chegando no 1T 2008 a um défice de 60 mil milhões € no  (antes da crise do sub-prime rebentar) e, desde aí, corrigiu a uma média de 10 mil milhões € por trimestre.
A crise do sub-prime foi mesmo o momento em que a correcção começou, mais por falta de crédito que por vontade dos governantes.
Esta correcção é notável porque nega a ideia dos 75% de pessimista da conferencia de que o ajustamento é impossível em câmbios fixos (sem as moedas poderem desvalorizar). Não só é possível como aconteceu.

Fig. 4 - Balança Corrente de Portugal+Itália+Grécia+Espanha (dados: EuroStat)

E o que nos separa da Irlanda?
Nas últimas semanas muito se tem discutido o porquê de não estarmos como a Irlanda.
Para mim que sou um leigo na matéria médica, quando alguém diz que está com febre, eu penso que todas as febres são iguais. Febre é Febre.
Mas há febres de 30ºC e febres de 42ºC.
Também quando se fala nas crises económicas dos países periféricos, as pessoas pensam que as crises são crises, iguais mas há umas mais graves que outras.
Como ainda não vi ninguém na comunicação social conseguir explicar porque a Irlanda conseguiu airosamente ultrapassar a sua crise enquanto nós ainda estamos a lutar, vou mostrar a diferença na magnitude do desequilíbrio externo.
Se considerarmos a média entre a entrada no Euro e a crise das dividas soberanas (de 1999 a 2009), a Irlanda tinha anteriormente à declaração da crise um défice da balança corrente médio de -1.7% do PIB e Portugal teve 9,4% do PIB.

Fig. 5 - O desequilíbrio da Balança Corrente portuguesa era 5x o desequilíbrio da Irlanda (em % do PIB)

O nosso problema era 5 vezes o problema da Irlanda.
Mesmo considerando apenas o período pré-crise (2005 a 2008), o nosso problema era mais do dobro do problema irlandês (4.5% para 11%).
Se tivéssemos entrado em 2009 com um défice da balança corrente de 4.5% do PIB, neste momento estaríamos com um superavite de  6% do PIB, maior que o da Alemanha.

O desemprego está a reduzir muito rapidamente.
Nos primeiros tempos do Passos Coelho, foi repetidamente dito que "o desemprego é a maior chaga social". Eu sempre pensei que iríamos ter no fim da legislatura uma taxa de desemprego na ordem dos 20%. Mas contra as minhas previsões, nos últimos meses o desemprego começou a cair. Para saber se são apenas estatísticas, tenho perguntado a pessoas que tinham familiares desempregados e, realmente, as pessoas começam-se a encaixar.
Se quisermos ser sérios, vemos que conseguimos um ajustamento da balança corrente muito maior que a Irlanda com menor aumento da taxa de desemprego. O problema é que em 2008 (herança do Sócrates) tínhamos uma taxa de desemprego de 9% enquanto que a Irlanda tinha 5%.. Se corrigirmos desta diferença inicial, o nosso desemprego aumentou menos o Irlandês.
E temos que estar optimistas porque a taxa de desemprego apenas está a descer descer na Irlanda e em Portugal.

Fig. 6 - Taxa de desemprego relativamente ao valor anterior a 2007 (pontos percentuais, dados: EuroStat)

O que posso concluir?
O Passos Coelho está decidido.
Depois de uns meses em que sofreu de algum desânimo, de derrotas como a saída do Relvas, Gasparzinho e Álvaro, agora está a reganhar a força.
Por isso, estou com esperança.

E o regresso aos mercados?
Está melhor o que diminui a necessidade do badalado "segundo resgate".
E a taxa de juro a 3 anos em mercado secundário está a diminuir o que é muito importante porque vai ser a taxa a usar no swap da dívida da segunda metade de 20'14.
4.1%/ano ainda é muito grande estando eu (e o Passos Coelho) a rezar para a NS de Fátima meter de novo esta taxa de juro nos 3.20%/ano de meados de Maio de 2013 (quando se comemorou a Aparição).

Fig. 7 - Evolução da taxa de juro da dívida pública portuguesa a 3 anos (fonte: Investing)

O que é isso da troca?
Entre Junho (6000M€ que vêm de 2003) e Outubro (7810M€ que vêm de 2009) de 2014 precisamos amortizar 14000M€. A ideia é não esperar por esse dia e procurar entretanto uma oportunidade de adiar por mais 3 anos esta data. Assim, arranja-se antes quem se comprometa a pagar essa divida (substituindo o Estado) e, passados 3 anos, o Estado Português vai pagar com os juros observados em mercado secundário. a quem toma a obrigação de 2014.
Isso já foi feito pelo Gasparzinho (adiou dividas do Guterres contratada a 5.75%/ano que venciam em Set 2013 por 5 anos a 5.11%/ano) e vai ser feito outra vez com estes pacotes maiores.
É isto o anunciado regresso aos mercado.
Se o conseguirmos fazer, vamos conseguir continuar mais uns 4 anitos para acabar de executar o Memorando de Entendimento de 2011.
Vão ser mais umas 30 avaliações da Troika até conseguirmos, lá para 2017, um défice de 1.0% do PIB.

Só diz a verdade sob tortura.
É um fracasso se pensarmos que o Sócrates disse no PEC4 que iria conseguir isso já em 2014! e sem austeridade!
O homem era mesmo bom.

Pedro Cosme Costa Vieira

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