domingo, 31 de maio de 2015

8 - A revelação

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
______________________

Ver o capítulo anterior (7 - A penitência)  


8 – A revelação 
Como a Maria Zé combinou com a Dulcinha que só voltaria a casa quando tudo estivesse pronto para o funeral, depois da confissão decidiu ir para casa dos pais. Pelo caminho foi matutando na penitência proposta pelo Sr. Padre Augusto, “Mas se o Simeão morreu, já não há nada que possa ser feito, nada que o possa trazer de volta à vida. Por isso, não compreendo como ter mais 4 filhos me pode redimir deste pecado”. Assim que chegou ao casebre dos pais e viu a mãe à porta, vestida de preto para marcar o luto, disse “Mãe, o meu Simeão morreu e Deus nunca mo perdoará”.
– Minha filha, Deus há-de perdoar-te porque já nada podes fazer para o trazer de volta à vida. Bem sei que tens o teu coração apertado mas o que lá vai, lá vai. Vais ver que, com o tempo, tudo passa e tudo esquece.
– Mas mãe, fui eu que causei, mesmo sem o saber, esta tragédia. Porque ninguém me avisou de que o defumadouro era isto? Agora, nunca mais poderei ser perdoada porque o Simeão não pode mais ser trazido à vida.
– Dizes que ninguém te avisou porque não quiseste ouvir o que a Tia Júlia te disse. Agora tens que ter pensamentos positivos, fazer com que tudo o que aconteceu no passado fique no passado. A morte do Simeão já é passado e nada podes fazer para mudar esse passado. Se o Sr. Padre Augusto diz que a tua redenção passa por teres mais 4 filhos, só tens que acreditar nas suas palavras e cumprir a penitência que ele decretou, se estiveste implicada no fim de um cristãozinho, naturalmente que podes reparar essa perda tendo mais quatro cristãos. Agora pode-te parecer estranho mas, com o tempo, vais ver que a penitência é justa e equilibrada que mais não pode ter sido que não uma inspiração do Espírito Santo.
– Mas mãe, e o sofrimento do Simeãozinho, quem o pode reparar?
– Isso já sabes que ninguém. A morte não pode ser reparada porque é irreversível mas o que não tem cura, curado está. E a morte também não é assim tão grave porque todos nascemos condenados a morrer seja por uma causa ou por outra. Tens é que pensar que a tua criancinha, mais dia, menos dia, iria morrer da doença e que tu, no entretanto, não tinhas como a criar. O mais certo era morrer mesmo de fome ou de tifo e arrastar o teu outro filho Rúben com ele. Agora, tens que olhar para o futuro e reparar a tua falha junto dos que continuam vivos. Se o Sr. padre diz que essa reparação passa por teres mais 4 filhos, só tens que lhe dar cumprimento.
– Mãe, não me consigo convencer ...
– Então, vejo-me obrigada a revelar-te um segredo que me acompanha desde há muitos anos para veres como algo mau pode dar origem a algo bom. Repara bem no que te vou dizer: apesar de teres 8 irmãos, eu tive mais filhos mas que tive que matar por terem nascido com a doença.
A Maria Zé estava a olhar para o chão e, como que ferrada por uma abelha, levantou rapidamente o olhar – “Eu lembro-me de quando morreu aquela menina pequenina, também terá sido vitima do defumadouro?”
– Não, não me estou a referir a menina nenhuma, estou-me a referir ao Joaquim.
– Mas o Joaquim está vivo, o meu irmão Joaquim está vivo, morra lá ao fundo da aldeia, ainda esteve em minha casa não faz nem um mês, a mãe só pode estar confundida ou a querer indrominar-me.
– Não, não, não estou a confundir, esse Joaquim é outro. O que estou a falar já morreu, podes pedir ao Padre Augusto para te mostrar o assento do baptizado. Era um menino tão bonito, tão vivinho, com um olhar felino, era igualzinho ao teu pai. Nunca me passou pela mente que tivesse a doença mas, com o passar dos meses, foi ficando para trás, não se desenvolvendo como deveria ser. Vivia com o meu coração tão apertado porque pouco antes tinha acontecia uma tragédia à Júlia de que não te posso falar.
– Sabe mãe, eu sei dessa tragédia porque há pouco o Padre Augusto contou-ma e foi mesmo terrível.
– Pois então já deves imaginar o meu aperto. Quando comecei a desconfiar de que alguma coisa estava mal, fui consultar o Dr. Acácio que me disse logo “Tenho más notícias, a tua criança tem a doença. Custa-me ser eu a dizer-to e aperta-me o coração ver o teu sofrimento mas não há nada que a medicina possa fazer”. Fiquei arrasada, gritei, chorei, andei por esses montes desorientada. Como não saia da minha mente o que tinha acontecido à minha irmã, à tua Tia Júlia, fiquei tomada pelo medo de ver o teu pai a ser levado à loucura. Naquele tempo a miséria era ainda pior do que agora pelo que sabia que tinha que ser eu a resolver o assunto pois os homens dizem-se muito fortes mas, de facto, não têm fibra. Não disse nada a ninguém, pensei toda a noite no que haveria de fazer e, pela manhã, conclui que tinha que devolver o Joaquim ao Criador.
– Mas então, quer dizer que a Tia Júlia matou esse Joaquim da mesma forma que matou o meu Simeão?
– Não digas que a tua tia matou o Simeão pois ele morreu por causa da doença e muito menos teve algo a ver com o que aconteceu ao Joaquim. Realmente falava-se num defumadouro milagroso mas eu não acreditava em nada disso e, além do mais, não sabia quem o fazia. Naquele tempo eu era uma mulher tesa, não era mulher para empurrar para os outros o que tinha que ser feito por mim. De manhã cedo peguei no gigo com a roupa suja, pousei o teu irmão em cima, meti tudo à cabeça e fui ao ribeiro como quem vai lavar a roupa. Fui muito cedo para que não estivesse ninguém por lá. Quando cheguei ao ribeiro, peguei no teu irmão, virei-o de barriga para baixo e mandei-o à água, sempre a empurrar para baixo para que não viesse ao de cima.
– Ai mãe que coisa terrível me está a dizer, eu nem quero acreditar que isso aconteceu mesmo.
– Foi isso mesmo, afoguei-o com as minhas próprias mãos. O coitadinho ainda se debateu debaixo de água, lutou para salvar a sua tenra vida mas eu não o larguei. Eu rezava a pedir perdão pelo que estava a fazer mas aquilo tinha mesmo que ser feito. Foi uma questão de um minuto mas que me pareceu uma eternidade. Depois, foi ao fundo e eu fui ainda lavar umas peças de roupa de forma a ter a certeza de que a criança tinha sido devolvida ao Criador.
– Mãe, não conte mais que isso é terrível de mais, é de uma insensibilidade extrema, matar o filho com suas próprias mãos ...
– Não, tu tens que ouvir porque pensas que as coisas se resolvem por si, que caiem do Céu sem mais nem menos, que chamas alguém para fazer o que tu deverias fazer e depois sais a gritar que assassinaram a tua criança. Depois de calcular que a criança já estaria definitivamente morta, desatei a correr em direcção às casas a gritar “Socorro que a minha criança caiu ao rio”. Corri como uma desalmada com a esperança de que acontecesse um milagre que sabia ser impossível mas os milagres são isso mesmo, a alteração das Leis da Natureza criadas por Deus. Antes que chegasse às casas já as pessoas vinham de lá a correr “Onde caiu a criança” e eu apontei para o local onde a tinha afogado. Quando as pessoas a descobriram, a corrente já a tinha arrastado uns 20 metros. Gritavam “Rápido que ainda pode estar viva” mas eu sabia que já estava morta e bem morta. Houve uma pessoa que se atirou à água e lhe aplicou respiração boca-a-boca mas a criança não reagiu, estava mesmo morta. Alguém foi, no entretanto, chamar o Dr. Acácio que, quando chegou, disse logo que não havia nada a fazer. Chamou-me ao lado para me dizer em voz baixa “Eu não imaginei que isto acontecesse assim tão rápido e desta forma tão desumana, nunca pensei que fosses capaz desta atrocidade”.
– Mas mãe ...
– Eu digo-te o que lhe disse “Apenas corrigi o erro da Natureza. Se calhar pensou que eu era como a minha irmã, mulher de ficar à espera que alguém resolvesse os seus problemas, mas eu sou diferente, faço logo o que tem que ser feito, agora que está feito, acabou-se o problema.”
– Mas mãe, isso que fez não pode ter mais perdão. Não há nada que possa ter feito que reparasse esse pecado.

– Ai não, espera então até saberes a verdade toda e só depois é que podes dizer se eu fiz bem ou mal.

Capítulo seguinte (9 - A substituição)

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Estive a ler o "programa de governo" do PS

Aquilo é muito chato.
Quando olhei para o relatório notei que todas as páginas dizem "Documento de Trabalho - 20 de Maio" o que é mesmo característico do António Costa: quando afirma alguma coisa quer sempre ter a certeza de, no futuro imediato, poder afirmar o seu contrário.
Mas a conselho da minha amiga APA, antes de começar a ler, fiz um find.


Quantas vezes aparecem as PPPs e as "rendas excessivas"?
Aparece uma referência às parcerias público privadas mas relacionada com a saúde e nada de "rendas excessivas". 

"Avaliar as experiências hospitalares existentes em regime de parceria público-privada (PPP) explicitando as suas vantagens e inconvenientes de modo a introduzir melhorias corretoras ou revisoras;" (p.40)
Tantos anos a malhar que o Passos não fazia nada às "rendas excessivas" das PPPs (assinadas no tempo do Sócrates e das quais, eventualmente, resultam os 30 milhões falados) para no programa do governo não aparecer nada sobre as PPPs na energia nem nas auto-estradas, as tais das "rendas excessivas".
Nada , absolutamente nada.
Será que, afinal, o PS está a querer dizer que o Passos Coelho acabou com todas as "rendas excessivas" que o Sócrates criou nas PPPs?
Só pode ser isso ou incompetência na análise ou na capacidade de vir a fazer coisas.


Depois, lá comecei a leitura.
É um texto melhor que o "relatório dos 12 sábios do PS" porque não está sempre a malhar que "o governo do PSD-PP foi o pai e mãe da crise, a causa única e primordial de todos os males que afligem cada um de nós, desde as dores de costas até ao esquecimento de reposição do papel higiénico."

"Oh Passos pá, anda cá a correr trazer-me um rolo do papel higiénico pois, por tua causa e do teu governo de direita, esqueci-me de o repor. Mas peço-te que não mandes o Portas pois estou literalmente com as calças na mão."


Parecesse-se muito com o filme "12 Macacos" mas ao contrário.
No filme "12 Macacos" um homem do futuro vem ao presente para tentar levar uma cura de voltar ao futuro.
No filme  "12 sábios do PS", um homem veio do passado e está no presente para tentar levar todo o pais de voltar à doença do passado.

Bruce Willis veio ao presente para mandar para o futuro uma cura para o Mundo.


Até à página 110 é um país desgraçado que vai ser uma maravilha.
Só fala em expansão e melhoria. Parece mesmo um concerto de violino tocado por um anjo.
Melhoria de tudo e de mais alguma coisa 
  1 - Da democracia
  2 - Da governação
  3 - Da defesa
  4 - Da segurança interna e a política criminal
  5 - Da justiça
  6 - Da administração pública
  7 - Da regulação dos mercados
  8 - Da autonomia das regiões autónomas
  9 - Da descentralização
Mas não se fica por aqui, ainda vem o segundo round
  1 - Do SNS
  2 - Do sucesso escolar
  3 - Do ensino de adultos
  4 - Do ensino superior
  5 - Da demografia
  6 - Da reabilitação urbana
  7 - Da qualidade de vida
  8 - Do mar
  9 - Do Interior
  10 - Do Ambiente
  11 - Da agricultura
  12 - Da inovação
  13 - Da cultura
  14 - Da ciência e tecnologia
  15 - Na inovação e internacionalização das empresas

António Costa veio ao presente para trazer do passado uma doença para Portugal.

Qualquer um assinaria isto tudo de cruz.
Isto é uma maravilha que qualquer candidato a qualquer coisa, desde o Garcia Pereira até à Manuela Ferreira Leite e ao Alberto João Jardim, assinavam sem pestanejar.
Se eu fosse o candidato, para ser perfeito só acrescentaria que, uma vez eleito, iria acabar com a guerra e a fome no Mundo. O problema desta promessa é que, provavelmente, teria que desfilar em biquíni.

Sendo eleita, vou acabar com a fome e a guerra no Mundo.

E, agora, vem a melhor parte.
Estes melhoramentos todos não custam sequer um euro ao orçamento e ainda permitem poupar 900 milhões € todos os anos.
Dizem que o combate ao insucesso escolar vai permitir poupar 600 milhões € por ano e o combate às infecções hospitalares permite poupar mais 300 milhões € por ano (p.10).
É isso mesmo, o acabar com o insucesso escolar e com as infecções hospitalares não só não vai custar nada como ainda vai permitir poupar 900 milhões € por ano.


Já sei porque o Sócrates está preso.
É exactamente por ter desbaratado 5400 milhões € (6 ano x 900M€/ano) em insucesso escolar e em infecções hospitalares que, sem qualquer custo, poderia ter acabado.
Eu penso que isto vai ser feito com um decreto-lei com apenas duas linhitas:
Decreto -Lei XXX/2016
Artigo 1.º - A nota mínima nos testes das escolas públicas é de 10 valores.
Artigo 2.º - As actuais "Infecção Hospitalar" passam a ser classificadas como "Hospitium Contagione".


Mas os fulanos que escreveram isto são mesmo cabeças de vento.
Será que não lhes passou pela cabeça que poupar os 600 milhões € no ensino implica despedir 7500 professores e mais não sei quantos auxiliares?
É que a principal despesa do ensino são os salários dos professores pelo que, se acabarem as 150000 reprovações anuais (referidas na p.10), haverá poupança porque serão menos 7500 turmas e, por isso, 7500 professores e não sei quantos auxiliares despedidos.

Será que não lhes passou pela cabeça que poupar os 300 milhões € na saúde implica despedir 3500 médicos e mais uns quantos enfermeiros?
É que a principal despesa da saúde são os salários pelo que, se acabarem as infecções hospitalares, haverá menos não sei quantos internamentos e consultas, por isso, terão que ser dispensados 3500 médicos e enfermeiros?

A menos que os professores, médicos, enfermeiros e auxiliares fiquem na mesma no seu "posto de trabalho" a coçá-los mas, nesse caso, não haverá qualquer poupança.

E "poupar" não será retirar dinheiro da economia?
Os do PS têm dito repetidamente que o Passos Coelho destruiu 300 mil postos de trabalho porque reduziu a despesa pública (cortou salários e pensões) e aumentou os impostos.
Até já chegaram a dizer que a Economia está a crescer por causa dos chumbos do Tribunal Constitucional não terem permitido o Passos Coelho retirar o que queria.
Mas agora, cortar estes 900 milhões vai retirar dinheiro à economia e, por isso, além dos 11 mil postos de trabalho directos que vão ser destruídos, ainda vão ser destruídos mais uns 40 mil indirectos.

Mau, os do PS estão de cabeça perdida.
Estou mesmo a ver que o Costa vai negar tudo e passar a anunciar que vai aumentar o insucesso escolar e as infecções hospitalares. É que isso gera empregos e de qualidade, para licenciados e mestres.

Na P. 111 vem um cheirinho da Segurança Social
Até à página 110 trata-se de um país que está muito mal mas que, por 24 desejos concedidos pela Fada Madrinha, logo se transforma na Terra da Maravilha.
Depois, chega-se à página 111 onde o Costa entra com a política pura e dura.


16 - Garantir a sustentabilidade da Segurança Social 
O primeiro parágrafo é politica dura e pura porque mais não é que um chorrilho de mentiras.
Vejamos o primeiro parágrafo:

"Com a reforma realizada em 2007, o governo do PS retirou o sistema público de Segurança Social da zona perigosa em que a direita o havia deixado cair e deu um passo fundamental para reforçar a sua sustentabilidade a longo prazo. Por este motivo, o sistema de pensões ficou de fora do programa da troika, que não viu necessidade de tomar medidas de reforço de sustentabilidade da Segurança Social."


Mas quem governou entre 1995 e 2007?
Nos 12 anos que antecederam 2007, o PS governou 9 anos. Entre 1995 e 2002 esteve lá o Guterres e entre 2005 e 2007 o Sócrates.
Como é possível dizer que a direita meteu a SS numa zona perigosa quando quem esteve a governar foi o Guterres e o Sócrates?
Os será que, para o António Costa, o Guterres e o Sócrates são a direita?

E o que diz a Troika?
Bem sei que ninguém leu nem vai ler o Memorando de Entendimento assinado pelo Sócrates (do PS). Prova disso é que o Ricardo Costa, Irmão do António Costa, disse ainda ontem que "não diz lá nada ou quase nada sobre a Segurança Social" mas isso é totalmente mentira. Vejamos o que lá está escrito e  o que o Sócrates assinou em princípios de 2011:

1.11 Reduce pensions above EUR 1,500 according to the progressive rates applied to the wages of the public sector as of January 2011, with the aim of yielding savings of at least EUR 445 million;
Afinal os cortes nas pensões não foi por vontade do Passos mas sim uma imposição do Sócrates. 

1.12 Suspend application of pension indexation rules and freeze pensions, except for the lowest pensions, in 2012;
1.21 Apply personal income taxes to all types of cash social transfers and ensure convergence of personal income tax deductions applied to pensions and labour income with the aim of raising at least EUR 150 million in 2012.
Afinal aumentar os impostos sobre as pensões não foi a "agenda neo-liberal" do Passos + Portas mas sim uma coisa que o Sócrates assinou em 2011.

1.29. ix) Maintain the suspension of pension indexation rules except for the lowest pensions in 2013
1.30 iii) taxation of all types of cash social transfers and convergence of personal income tax deductions for pensions and labour income: EUR 150 million;

Afinal, o Sócrates acordou que os cortes seriam para continuar.

Só aqui estão explicítos cortes de 595 milhões€ de cortes por ano.
Mas se quantificarmos o impacto do congelamento das pensões (no período 2011-2013 a taxa de inflação acumulada foi de 6,8%), o congelamento traduz-se num corte na ordem dos 850 milhões €.
Então, somando as parcelas todas para todos os anos, o Sócrates acordou com a Troika que nos 3 anos do programa de ajustamento haveria cortes totais de 2800 milhões € nas pensões.
595 x 3 + 850 =   2650 milhões €.

Afinal, o Sócrates comprometeu-se em cortar 2650 milhões € nas pensões.
Se isto não dizer nada, o que seria se dissesse.
É o jornalismo que temo.

Na SS o Costa também vais tudo resolver.
Com "avaliação rigorosa", "confiança no sistema", "estudos transparentes" e mais impostos sobre as empresas e sobre os ricos.

A Maria Luís disse que iria cortas 600 Milhões €.
Mas o Costa disse "eu não vou cortar nada, vou congelar".
Mas congelar durante 4 anos equivale a cortar 1500 milhões € no poder de compra das pensões enquanto que a Maria Luís disse que "só" iria cortar 600 milhões €.
E os cortes do PSD+PP não são novos cortes mas "apenas" a passagem a definitivo dos cortes que actualmente existem.
Afinal, o Costa promete cortar bastante mais que os 600 milhões€.

Depois, voltamos à Fada Madrinha.
Mais cosas que vão ser melhorar sem qualquer custo.

17 - A justiça fiscal
18 - A pobreza
19 - A igualdade
20 - A língua portuguesa
21 - A posição de Portugal nas comunidades portuguesas

E é só isto? Faltam as Contas do Estado.
Esta técnica de inundar as pessoas com pormenor é muito interessante pois evita que as pessoas vejam que falta o principal, as Contas do Estado.
Quer-se melhorar tudo mas nunca se diz o deve e o haver.
Escreve-se muito para não se dizer nada sobre o que é importante, quanto vão ser as receitas e quanto vão ser as despesas do Estado.
Como é que alguém pode dizer que vai reforçar o Estado Social, o Serviço Nacional de Saúde, o Sistema Público de Ensino e mais mil e um coisa e, ao mesmo tempo, diminuir os impostos?
Este texto faz-me lembrar a história de um mágico.

Uma história interessante sobre a WW2.
Em 1940 as forças aliadas conquistaram o porto de Tubruque que fica na Líbia, quase na fronteira com o Egipto.
Foi uma conquista importantíssima porque retirou a principal linha de abastecimento aos alemães na Batalha do Norte de África e abriu a possibilidade de abastecimento às tropas aliadas.
O problema é que o porto era todas as noites bombardeado pelos alemães que vinham da Itália.
Como medida desesperada foi pedida ajuda a um mágico famoso da altura, especialista em esconder coisas.
Chamaram-no com a missão de esconder o porto de Tubruque.
Acham que isso seria possível?

Era impossível mas o homem conseguiu mesmo!
E usou a técnica do António Costa: esconder com informação.
Desenho a poente da cidade uma linha com lâmpadas semelhante ao desenho das principais estradas de Tubruque. Depois, quando avistavam os aviões alemães apagavam as luzes da cidade e acendiam as do meio do deserto.
Como os aviões alemães voavam a grande altitude para não serem atingidos pelas anti-aéreas (e não havia GPS), quando pensavam que estavam a bombardear o porto de Tubruque, estavam a bombardear um pedaço de areia.

Com umas filadas de lâmpadas (a vermelho), o mágico escondeu o porto de Tubruque (as bombas passaram a cair nas cruzes pretas).

O Costa usou 133 páginas de pormenores.
Mas coisas totalmente maradas, são só merdas, atrás de merdas.
Alguém quer saber que o Costa vai

"Melhorar a articulação e a partilha de informação entre as todas as entidades com informação sobre os veículos ou os seus proprietários e condutores e as forças de segurança;" (p.21)?

"O PS pretende lançar um novo programa SIMPLEX que, à semelhança dos anteriores, promova a melhoria do relacionamento dos cidadãos com a Administração Pública e a redução de custos de contexto para as empresas. Desse programa constarão, designadamente, novos balcões únicos onde será possível tratar de diversos assuntos do quotidiano, organizados de acordo com as necessidades dos utentes, como um balcão único para questões respeitantes a veículos, ou o Balcão Único do Emprego." (p.26)?

"O lançamento do projeto “Sobre Rodas”, que disponibilize, num só ponto eletrónico, a informação e todas as transações e procedimentos relativos à emissão e revalidação de cartas de condução, abate de automóveis, registo de veículos, inspeções, pagamento do imposto de circulação, bem como procedimentos relativos a contraordenações, incluindo o pagamento, a identificação do condutor e a apresentação de defesa e de pedidos de pagamento em prestações, de suspensão de sanção acessória e de registo de infrações do condutor." (p.27)?

"A eficiência na utilização dos recursos passa ainda pela forma como nos deslocamos. Em especial nas cidades, é preciso, por um lado, incentivar a partilha de meios de transporte e a utilização de veículos menos poluentes (como os veículos elétricos) e, por outro lado, tornar o transporte público mais atrativo, favorecendo a intermodalidade e a complementariedade com meios suaves de transporte (como a bicicleta). Deste modo, será possível reduzir o congestionamento urbano e alcançar uma mobilidade mais eficiente, proporcionando maior conforto, rapidez e qualidade de vida com um menor consumo energético. Em síntese, uma mobilidade sustentável." (P.88)?

"Promover o desenvolvimento dum sistema universal e integrado de pagamento de mobilidade (Cartão da Mobilidade), através do qual o cidadão possa aceder a todos os serviços de transportes públicos, estacionamento, portagens, aluguer de veículos em sistemas partilhados ou carregamento de veículos elétricos;" (p.93)?

São 133 páginas disto e pior.

E como estão as contas da Segurança social?
Aquilo está completamente falido.
As contas para 2015 (RelOE2015, p. 109) indicam que a TSU é mais que totalmente esgotada pelas pensões:
     TSU (Contribuições e quotizações) => 14 346 milhões€
     Pensões                                      => 15 421milhões€

Mas depois ainda há muita coisa para a SS pagar com a TSU, pelo menos
   Subsídio desemprego e apoio ao emprego => 2 064 milhões€
   Subsídio por doença                              =>392 milhões€
   Complemento Solidário para Idosos        => 199 milhões€
Estas 7 verbas somam "apenas" mais         => 2 655 milhões€

Só considerando estas verbas, a SS já tem um défice de quase 4000 milhões€.

As contas totais da Segurança Social.
Tem uma despesa total 24 364 milhões €.
Tem uma receita (sem transferências do OE) de 16060  milhões €.

Para poder pagar as suas contas a SS precisou em 2015 de ir buscar aos impostos (IVA, IRS, ISP, etc.) 8304 milhões €.

Se o Costa diz que a SS portuguesa tem as contas equilibradas, só pode classificar a Grécia como um país com finanças públicas sólidas.

Por falar na Grécia.
Lembram-se que os esquerdistas gregos diziam que em 4 meses de "ponte" conseguiriam reverter a austeridade e iniciar o caminho do crescimento, emprego e prosperidade?
Pois já passaram os 4 meses e nada.
Melhor dizendo, aprofundaram o caminho da austeridade, da depressão, desemprego e pobreza.
E isto tudo porque acreditavam que iam melhorar o Mundo apenas porque o anunciavam.

Então Varofaquis, achavas que eu era a tua fada madrinha? Leva Fodi, leva o tal reforço do SCP.
E tu Costa, também vais levar Fodi.

Pedro Cosme Vieira

quarta-feira, 27 de maio de 2015

7 – A penitência

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
______________________

Ver o capítulo anterior (6 - A confissão)


7 – A penitência
– Sabes minha filha, eu conheço a Júlia desde que ela era jovem e inocente, fui já eu quem a casou e quem lhe baptizou os filhos.
– Mas Sr. Padre, o Sr. deve estar a confundir pois ela nunca teve filhos, toda a gente sabe que ela nunca teve filhos, ela mesmo me disse variadíssimas vezes que nunca teve filhos!
– Deves pensar que eu estou a ficar cansado da cabeça pois sempre ouviste dizer isso mas teve filhos e logo quatro que eu baptizei naquela pia baptismal que está ao fundo da igreja, na mesma em que te baptizei a ti e ao teu Simeão. Naquele tempo já constava que alguém fazia o defumadouro para evitar a doença e, não sei se era verdade porque nunca falamos nisso, também constava que esse alguém era a minha própria mãe. Vê só como o mundo dá voltas, é que todos sofremos da mesma maldita doença e, no passado, seria a minha mãe que tratava disso. Ao longo da minha vida sempre pensei ser errado acabar com a vida desse inocentes e por isso, quando me fiz padre, decidi que o defumadouro tinha que acabar de uma vez por todas. O meu antecessor, o Sr. Padre Félix, disse-me para eu não mexer no assunto porque as consequências seriam terríveis, muito mais grave do que eu antecipava mas eu achava que era um pecado tão grave, que violava de forma tão grosseira o mandamento “Não Matarás” que comecei a pregar que em circunstância alguma poderia ser usado o defumadouro para decidir quais as crianças que poderiam viver e as que deveriam morrer, isso só poderia ser uma escolha de Deus. Na minha missão contra a prática, na preparação para o casamento obrigava os noivos a jurar perante Deus de que não iriam aplicar o defumadouro às crianças. Pensava eu que, com muita fé, Deus iria levantar a maldição sobre a nossa gente. Eu sabia que as pessoas faziam tábua rasa sobre o que eu pregava continuando a fazer o que sempre fizeram mas a Júlia, por ser uma pessoa de grande fé, aceitou as minhas palavras. O problema é que o primeiro filho nasceu doente. Veio com o marido falar comigo e eu disse-lhes para aceitarem porque era a vontade de Deus, que se tivessem fé, Deus haveria de curar a criança. Aceitaram as minhas palavras e, com dificuldades, foram-no criando até que veio o segundo filho que também nasceu doente. Eu pedi ajuda às pessoas mas elas responderam-me que “Cada um de nós tem que resolver os nossos problemas. Não vou, como o Sr. Padre diz, arder eternamente no fogo do inferno e, depois, ainda sustentar quem vai para o Céu. Que aguente como eu aguento.” Pensando que Deus não poderia estar sempre distraído, mandei-os ter o terceiro e depois o quarto mas todos nasceram doentes. Eu fiquei de rastos, como podia Deus fazer tal maldade? Na altura até perguntei ao Dr. Acácio se a ciência podia explicar o nascimento de 4 doentes seguidos ou se seria mesmo uma maldição de Deus e ele disse-me que era pouco provável mas que poderia acontecer, que a culpa seria da estatística e não da mão de Deus.
– Mas, Sr. Padre, será que ninguém sabe disso, de que ela teve 4 filhos? E que é feito dessas crianças? Ela é minha tia e eu nunca ouvi falar disso...
– Os mais velhos sabem mas, como, entretanto, aconteceu algo de muito terrível, eu decretei que pecaria gravemente quem dissesse uma única palavra que fosse sobre o sucedido, que iria arder eternamente no fogo do Inferno. As crianças foram crescendo mas nunca chegaram a caminhar, falar ou sequer a comer pela sua própria mão. Aquela mulher e o marido, que também era teu parente pois era primo direito do teu pai, tinham uma canseira indescritível. Criar, sem terem leira nem beira, 4 crianças com aquele nível de dependência era algo inimaginável pelo que, pensava eu, o destino deles só poderia ser o Céu.
– E o que aconteceu a essas crianças?
– Um dia, já teria o mais velhinho uns 10 anos, estava eu a dormir e ouvi um burburinho na rua, alguém a praguejar contra Deus, a dizer coisas que, de tão terrível, não as posso repetir. Eu vim à janela e vi a Júlia com um archote a dizer que se ia matar mas que antes iria pegar fogo à igreja e, mesmo ,matar-me pois não passava de um enviado do Demónio. Vesti qualquer coisa e fui lá fora com a Santa Cruz numa mão e a caldeirinha da água benta na outra para tentar tirar-lhe o Diabo do corpo. A Júlia era uma pessoa tão temente a Deus que aquilo só poderia ser obra do Diabo, tinha que estar possessa pelo Satanás. Abeirei-me dela, benzi-a e perguntei-lhe “O que se passa mulher de Deus, o que te aconteceu de tão terrível para estares assim, vai de retro Satanás” e atirei-lhe com fartura de água benta. “Ai Sr. Padre que o meu marido foi-se abaixo, cometeu uma loucura. Venha comigo rapidamente que eu já não sei o que fazer à minha vida. A minha cabeça vai explodir, alguém me mate pois Deus abandonou-me de vez.”
– Mas afinal o que lhe tinha acontecido? – Perguntou a Maria Zé.
– Calma que já lá vou. A Júlia foi a correr feita louca e eu fui atrás dela, com a língua de fora, rumo a casa dela, lá no fundo da aldeia. Quando cheguei lá já estava a clarear e vi um vulto dependurado na laranjeira que tinham à porta, era o marido que se tinha enforcado. “Que tragédia”, pensei eu, “e agora o que vai ser das crianças doentes?” O cão estava danado ladrando com uma intensidade como nunca tinha visto. Aquele ladrar era respondido ao longe por latidelas de outros cães um pouco por toda a aldeia e o uivo dos lobos no monte. “Entre Sr. Padre, entre para ver a extensão da desgraça.” Disse a Júlia.
– Mas o marido não tinha morrido num acidente qualquer?
– Calma que isso é tudo para abafar a verdade. Eu entrei na casa, entrei directamente na sala e, como não havia luz, apenas notei um cheiro estranho e que o chão estava muito escorregadio e com uma substância que colava aos meus sapatos. “Que porcaria por aqui vai, nunca pensei que a Júlia fosse tão porca”, pensei eu, “Júlia traz uma vela que não vejo nada”. Enquanto eu olhava para o chão, a Júlia veio do quarto com uma vela e aí reparei que o chão estava cheio de sangue, parecia um lago. Como eu estava a olhar para o chão, a Júlia chamou pela minha atenção “Olhe para aqui Sr. Padre, olhe para aqui, olhe para cima da mesa, veja como estão os meus anjinhos”. Olhei e tive um choque terrível. Sobre um lado da velha mesa estavam alinhadas as 4 cabecinhas, organizadas da mais velhinha para a mais nova e, do outro lado, os corpos das 4 crianças, também organizados do maior para o mais pequenino. Coisa terrível, parecia um talho, o marido tinha, com o machado de rachar lenha, cortado fora a cabeça dos seus filhos. Quando vi aquilo, deu-me tamanha volta ao estômago que pensei que ia morrer, que me ia sair fora tudo o que tinha cá dentro.
– Sr. Padre, mas ninguém soube dessa tragédia? Como é possível o meu tio ter matado os 4 filhos e ninguém o saber?
– Abafamos aquilo como pudemos. Dissemos que, durante a noite, parte da casa tinha ruído e que tinha matado todos os cinco. Que a Júlia tinha escapado porque tinha ido, naquele momento, à retrete e que, por ter sofrido a desgraça de ver os filhos e o marido mortos de uma só vez, tinha virado do juízo. Para que tudo parecesse verdade, naquele mesmo dia foram uns homens de segredo deitar abaixo parte da casita onde viviam.
– Então é por isso que a Tia Júlia vive naquele anexo que foi galinheiro. Coitada, nunca mais deve ter tido coragem para entrar dentro da casa.
– Fizemos o funeral enterrando todos os cinco na mesma cova, naquela campa cuja lápide refere o nome do marido dela. Depois, a Júlia virou mesmo do juízo, ficou semanas na casa paroquial, atada de pés e mãos para que não se matasse. Foram semanas em que só praguejou. Todos os dias fazíamos uma novena a ver se recuperava. Um dia, quando já não havia esperança, como por milagre, calou-se e voltou ao seu estado normal até hoje.
– Sr. Padre, isso foi verdadeiramente terrível. Agora compreendo porque a Tia Júlia é uma pessoa tão triste. Realmente, em presença disso, o meu problema não tem importância nenhuma, imagino como terá sido perder ao mesmo tempo o marido e todos os quatro filhos. Coitada, tinha-lhe tanta raiva e agora sinto pena dela, já compreendo porque, quando lhe fomos pedir para fazer o defumadouro, pediu a Deus para a libertar do fardo.
– E sabes minha filha, no fundo fui eu o culpado por pelo menos parte da tragédia. Se ela tivesse feito o defumadouro, seria certo que as crianças teriam morrido mas, morreram na mesma e, no final, a Júlia ainda teria marido e, quem sabe, teria tido mais filhos saudáveis. Ao pensar que estava a evitar um pecado grave, estava a causar uma tragédia muito maior na qual nem as crianças que eu queria proteger escaparam. O Sr. Padre Félix quis avisar-me e eu, por sobranceria, por pensar que sabia mais dos desígnios de Deus que ele, não ouvi os seus conselhos.
– O Sr. Padre fez o que lhe pareceu certo à luz das Sagradas Escrituras.
– Pois parecia-me que sim mas o resultado foi catastrófico. Desde esse tempo, sei que os defumadouros passaram a ser feitos pela tua tia Júlia. Era uma mulher atormentada por aquela tragédia que tomou essa missão como penitencia. Minha filha, quanto ao teu pecado, não compete ao homem julgar o seu semelhante, isso é tarefa que temos que deixar a Deus.
– Mas Sr. Padre, como posso eu ter perdão se, no fundo, sinto um certo alívio pelo que aconteceu? Como pode Deus perdoar-me se eu não estou arrependida? A única coisa que posso prometer é que isto nunca mais se vai repetir porque nunca mais terei filhos.
– Minha filha, primeiro tens que recordar que Jacó enganou seu pai Isaque dizendo que era o Saúl e que, mesmo sem nunca se ter arrependido, Deus lho perdoou a ponto de ter sido ele quem deu origem ao povo eleito. Depois, o teu futuro não está mais nas tuas mãos. No meu julgamento, mantenho que tens que cumprir o mandamento “Crescei e multiplicai-vos” que Deus ordenou a Adão e, depois, repetiu a Noé, pelo que a penitência vai ter que ser exactamente ao contrário do que estás a pensar. Como prova perante Deus de que não foi nenhum sentimento egoísta que te levou a desejar e a aceitar a morte do teu Simeão, tens que ir ao altar prometer a Deus que, em substituição do Simeão, vais ter mais quatro filhos, ouve bem, quatro filhos. Reza agora o Acto de Contrição e, depois, vai à tua vida.
Enquanto a Maria Zé recitava o Acto de Contrição, as lágrimas vieram-lhe aos olhos de alegria por o seu pecado, afinal, ter perdão aos olhos de Deus mesmo sem sentir arrependimento. “Criar mais 4 filhos vai ser difícil mas Deus há-de-me ajudar”. Enquanto rezava, o padre Augusto decretou, fazendo o sinal da cruz, Ego te absolvo a peccatis tuis in nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti.

– Amen

Capítulo seguinte (8 - A revelação)

domingo, 24 de maio de 2015

6 - A confissão

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
______________________



6 – A confissão
A Maria Zé chegou à casa paroquial pouco passava das 10h30. Puxou o arame da sineta – tlim, tlim, tlim – e passado um ou dois minutos apareceu a criada do Sr. Padre, a Menina Encarnação.
– Bom dia Sra. Maria José, o que a traz por cá? Vejo que vem de preto pelo que não deve ser coisa boa.
– Sabe Menina Encarnação, o meu filho mais pequenino, o Simeão, morreu durante a noite e eu vinha cá para falar com o Sr. Padre e tratar do funeral. Já havia alguns dias que estava meio doente, não queria comer, ainda pensei chamar o Sr. Dr. Acácio mas como pensei que a doença não fosse grave e o dinheiro não gosta de aparecer lá por casa, adiei a coisa e agora, durante a noite, o meu menino morreu.
– Eu não tenho filhos mas toda a mãe quando tem um filho tem que se preparar para a eventualidade de o perder. A Sr. Maria Zé sabe que a vida é um constante apegamento às pessoas que amamos e despegamento quando as perdemos. E parece que Deus vê um certo pecado na felicidade do amor de mãe pois quanto mais alegria a mãe retira da sua criança, mais sofre quando Deus lha tira.
– É isso mesmo Menina Encarnação, estou aqui por dentro que não me aguento mas tenho que ir buscar forças onde as não tenho pois a vida tem que seguir em frente. Eu estive há pouco na casa do Sr. Costa e a Menina Dulcinha disse-me que se o sino tocasse hoje de manhã o funeral ainda poderia ser hoje, na missa das 18h. É que está calor e pode ser uma doença que ponha em causa a saúde pública.
– Eu imagino o que está a sofrer, imagino que quando morre um filho é um tempo de enorme desgosto mas, realmente, é preciso tratar das coisas práticas. Entre, entre e sente-se aqui que o Sr. Padre Augusto vem já, foi há igreja rezar pela salvação das nossas almas e tratar de uns assuntos de papeladas mas não demora. Entre que eu vou preparar uma limonada pois, neste tempo de calor, só faz bem e, depois, vou mesmo dar uma saltadinha à igreja a ver se apresso a coisa.
Naquele tempo de espera, a Maria Zé reviveu tudo o que se tinha passado na noite anterior. Como tinha lutado mas sem convicção e rezado mas sem fé na cura e na salvação do filho. Por causa dessa falta de convicção e por ter feito o contrato com a Tia Júlia achava-se muito culpada pela morte da criança. Mas, mais grave do que ter participado na morte, era não estar arrependida. No fundo, no fundo, estava conformada com o que tinha acontecido e até, em certa medida, contente e aliviada porque “não podia criar uma criança assim tão doente”. Não tinha orgulho no que tinha feito mas também não tinha vergonha. E se não estava arrependida como é que poderia ter o perdão de Deus? Estava mesmo condenada à perdição, afinal a ideia nobre de ter filhos, de dar cumprimento aos mandamentos de Deus, tinha-a condenado à perdição eterna, estava agora condenada a arder no eterno fogo do Inferno.
O Sr. Padre tanto pode ter demorado muito como pouco porque os pensamentos fizeram a Maria Zé perder a noção do tempo. Foi então que o Sr. Padre Augusto entrou na pequena sala de espera.
– Bom-dia Maria Zé, o que te traz por aqui minha filha? – Disse o Sr. Padre mal entrou na pequena sala.
– Abençoe-me Sr. Padre que venho aqui procurar o conforto dos Mandamentos de Deus. É que o meu filho mais pequenino, o Simeão, morreu-me durante a noite. E também venho pedir se pode marcar o enterro para ainda hoje, para logo à tarde. Disse-me a Menina Dulcinha que era o melhor que poderia ser feito por causa do calor que está. Sabe Sr. Padre, também estou com um peso na consciência porque não fiz o suficiente para evitar que a minha criança morresse.
– Por agora deixa-te disso da culpa pois precisamos primeiro tratar dos assuntos práticos. Oh Encarnação, vai a casa do Sr. Mariazinha dizer-lhe que item que r à igreja dobrar o sino para anunciar o funeral para ainda hoje e diz-lhe também para abrir uma cova para uma criança pequena. Depois, quando vieres, preparas a casula branca pois, sendo o funeral de um anjinho, merece a casula da inocência e da pureza. Maria José, vamos agora até à igreja para ouvir o que ias dizer mas agora sob a protecção do segredo da confissão.
A Igreja distava menos de cem metros da casa paroquial que foram percorridos em silêncio sepulcral. À frente ia o padre vestido com a batina preta, o chapéu preto e as mãos entrelaçadas com um terço de pérolas brancas atrás das costas. A Maria Zé perseguia-o a rezar avé-marias em pensamento. Chegados à sacristia, o padre meteu a chave à porta e abriu-a – “Aguarda ali que já lá te vou abrir a porta lateral da igreja” – entrou e fechou a porta novamente com duas voltas de chave. Ainda demorou lá dentro uns bons minutos, talvez a rezar junto do Santíssimo a pedir inspiração divina. Depois, abriu a porta lateral – “Entra minha filha, vamos para o confessionário” – Afinal aquele tempo tinha servido para vestir a alva.
A Maria Zé ajoelhou-se – “Abençoe-me Sr. Padre porque pequei por actos e omissões, por minha culpa, minha única culpa.”
– Deus te abençoe.
– Eu não posso ter perdão pois eu sou a responsável, por actos e omissões, pela morte do meu Simeãozinho.
– Deus compreende que na miséria em que vivemos nem sempre os país podem dar às suas crianças uma alimentação boa, Deus sabe e compreende.
– Mas Sr. Padre, a minha criança não morreu de fome ...
– Eu sei minha filha, eu sei tudo o que se passou ontem à noite em tua casa, eu sei que a tua Tia Júlia esteve ontem em tua casa para fazer o defumadouro à tua criança e que ela não resistiu.
– Mas como é que o Sr. Padre já sabe disso? Foi o Espírito Santo que lho disse?
– Não, nada, não foi nada disso, foi uma coisa mais terrena. É que a Júlia antes de ir a tua casa passou por aqui para rezar e para falarmos um pouco. Quando te ouvi dizer que a tua criança morreu durante a noite, somei dois com dois e descobri logo que essa tua criança não resistiu ao defumadouro. Sabes minha filha, vês que cá na nossa aldeia morrem muitas crianças, em cada 10 que eu baptizo, morrem umas 3 ou 4 antes de fazerem a comunhão. Deus deve querer que seja assim, se não é a fome é o tifo, se não é o tifo é o sarampo e se não é uma coisa nem outra, é o defumadouro, pelo que já estou habituado a estas tragédias.
– Mas Sr. Padre, o defumadouro não mata ninguém, o meu outro filhinho, o Rúben, também teve o defumadouro e não lhe aconteceu nada de mal. Não foi o defumadouro que matou a minha criança mas antes a Tia Júlia ter fechado a tampa da caixa da roupa onde tinha metido o meu filho juntamente com o fogareiro em brasa. Foi a caixa estar fechada que asfixiou a criança e o grave é que eu sabia que a criança ia asfixiar e não fiz nada para o evitar. Escondi-me atrás de uma esperança sem sentido de que iria acontecer o milagre da cura.
–Quando nascemos já sabemos que vamos morrer e se Deus permitiu que isso tivesse acontecido é porque queria a tua criancinha junto dele, tens que ter paciência. É sempre triste ver um filho morrer mas são os caminhos do Senhor para ver até onde vai a tua fé. Para ti é um sofrimento sem igual para para a tua criança, por esta hora já está no Céu.
– Mas senhor padre, eu não me fiz entender pelo que vou ter que ser mais clara, a minha criança morreu porque a Tia Júlia a matou e com a minha conivência. Não foi Deus que a chamou foi o meter do fogareiro em brasa numa caixa fechada juntamente com a minha criança. Não foi mais que uma Lei da Natureza, meter a criança com carvão a arder numa caixa fechada era certo que ela ia morre asfixiada e eu deixei que isso acontecesse. E isto não pode ter perdão, eu estou condenada à danação eterna.
– Mas minha filha vens aqui ser juiz ou ser réu? Vens aqui procurar perdão de Deus ou condenares-te?


Capítulo seguinte (7 - A penitência)

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Eficiência à Pareto e os imigrantes 3

A entrada de refugiados pode ser bom para todos.
Depois de terem interpretado os meus postes no sentido de eu ser racista (mais do que eles próprios), esforcei-me por mostrar que a entrada massiva de refugiados/trabalhadores de África ou da Ásia (baixa qualificação) numa economia tem riscos mas que também pode pode ser vista como uma oportunidade para a economia receptora.

Mostrei no primeiro poste (ver o poste
Que a entrada incondicional de refugiados irá reduzir o salário de mercado dos trabalhadores portugueses. Naturalmente, inicialmente o desemprego aumentará mas,  quanto mais flexível (mais rapidamente descer o salário), mais rapidamente o desemprego vai para o seu nível de equilíbrio.  Quantifiquei mesmo (usando um modelo calibrado) que a duplicação no número de trabalhadores numa economia levará a uma queda de 20% nos salários (no curto-prazo), perda parcialmente compensada pelo aumento da rentabilidade do capital.
Por "entrada incondicional" quero dizer que os refugiados têm os "mesmos direitos" dos portugueses.

O meu resultado é pessimista.
Como a entrada com "igualdade de direitos" causando prejuízo aos trabalhadores portugueses (que, juntamente com os seus dependentes, forma a maioria do eleitorado), o nosso egoísmo não permite a entrada.

Mostrei no segundo poste (ver o poste
Que a entrada com condições (com "desigualdade de direitos") em Portugal (e na Europa) dos refugiados pode ser em simultâneo boa para nós portugueses e para os imigrantes.
Pelo nosso lado (dos trabalhadores portugueses), começamos por impor as condições necessárias para que a entrada dos refugiados não nos cause prejuízo. Estimei que será suficiente que os refugiados paguem uma sobretaxa de TSU de 10% sobre os rendimentos auferidos.
Pelo lado dos refugiados, se vierem (podendo ficar onde estão) aceitando as nossas condições, revelam que, mesmo com "desigualdade de direitos", a entrada no nosso país é positiva para as suas vidas.
Também mostrei (com dados de Israel) que a entrada de trabalhadores não aumenta a taxa de desemprego (a velocidade de ajustamento depende da flexibilidade do mercado de trabalho) e pode mesmo permitir a exploração de "economias de escala".

O meu resultado é optimista.
Este meu resultado dá esperança aos desafortunados do Mundo. Mediante um contrato à Coase, é possível uma economia receber os refugiados e todos ficarem a ganhar.
Mas esta solução obriga a que os esquerdistas deixem o discurso hipócrita do "somos todos iguais" para, usando depois o argumento "humanista" do "não temos capacidade para lhes dar o que els merecem", barrar-lhes a entrada e deixa-los a morrer na "terra deles".

Fig. 1 - Macau foi uma Zona Franca criada em território arrendado pela China qem 1557 e em que Portugal era o Estado de Bandeira. Hoje é a região do Mundo com maior nível de vida (5x o nosso  poder de compra)

Mas, nos comentários, surgiram "problemas para além das questões económicas."
Supondo que Portugal aceitava 20 milhões de refugiados.
A argumentação foi que (amigo Louçã, estas ideias não são minhas, são dos meus queridos leitores e eu não vou fazer nenhum juízo de valor sobre elas pois não sou um esquerdista retórico):

Com o "contrato dos 10%" (mais 20% sobre o aumento dos juros, rendas e lucros) ficamos todos numa situação económica melhor mas ficamos em minoria dentro do nosso país.
Como os refugiados têm religião, língua e cultura diferentes das nossas que quererão transmitir aos seus filhos (previsionalmente, muitos) a prazo, quando os filhos adquirirem direito de voto, desaparecerá o Portugal que conhecemos actualmente. 

Vou então resolver este problema.
Se já respondi à questão económica, agora tenho que responder à questão da potencial "invasão cultural".
Penso que a minha solução (copiada um pouco de Macau e Hong -Kong com aplicação do conceito de extraterritorialidade) é uma forma boa para ambas as partes (portugueses e refugiados) sendo que se alguém tiver outra solução, peço que avance com ela para enriquecer a discussão.

As Zona Francas.
Um pouco por todo o mundo existem Zonas Francas pelo que devem responder a um problema económica concreto.

Fig. 2 - A Autoeuropa de Palmela é uma Zona Franca.

O problema que resolvem.
Vamos supor uma empresa japonesa que funciona no Japão onde tem 1000 trabalhadores, compra matérias primas um pouco de todo o mundo, paga impostos no Japão e vende para os Estados Unidos.
Esta empresa não nos afecta em nada mas, se a atraíssemos para Portugal, mesmo que não pagasse impostos, teríamos lucro na parte em que contrataria trabalhadores portugueses e compraria bens intermédios localmente.
Uma Zona Franca, ZF, permite que a empresa estando fisicamente em Portugal, responda perante uma legislação especial (que lhe dê, por exemplo, isenções fiscais).

O que nós ganhamos com isso?
Se a empresa estando no Japão não nos dá qualquer benefício, estando no nosso território mas dentro de uma "redoma de vidro" onde não conseguimos cobrar impostos nem mandar em nada parece que não nos dará qualquer lucro.
Mas dá pois, motivado pela proximidade, a empresa japonesa vai precisar contratar trabalhadores portugueses e adquirir bens e serviços locais.
Assim, Portugal tem benefícios indirectos.

Como funciona uma Zona Franca.
Em termos de bens é  micro-país "meio estrangeiro" encravado dentro de Portugal.
Os bens com destino à ZF que vêm do Resto do Mundo e os bens com destino para o Resto do Mundo atravessam Portugal em contentores lacrados que não são controlados nem pagam impostos.
Existe, como se fosse outro país, uma alfandega para controlar os bens que saiem da ZF para Portugal e, sendo caso disso, são cobrados impostos alfandegários.

As pessoas que saiem da Zona Franca não são controladas.
É só "meio estrangeiro" porque a generalidade da legislação portuguesa aplica-se ao território da ZF. Em particular, as empresas localizadas na ZF apenas podem contratar trabalhadores que tenham visto de trabalho (working permit) em Portugal e têm que obedecer à generalidade da legislação nacional onde se inclui o Código do Trabalho.
Se, por exemplo, a empresa japonesa quiser contratar 100 trabalhadores marroquinos (ou japoneses), terá que garantir que têm autorização de residência em Portugal. Por outro lado, se um trabalhador matar outro dentro da ZF terá cometido um crime em Portugal, sendo julgado num tribunal português segundo a lei portuguesa e, uma vez condenado, cumprindo a pena numa cadeia portuguesa.
Como existe esta restrição sob as pessoas, não é necessário a alfandega controlar os passaportes à das pessoas que saiem da ZF.

E não seria possível dar as mesmas condições a todas a firmas portuguesas?
Não porque isso teria um impacto (negativo) muito grande na receita fiscal.
Avaliado que a empresa japonesa nos causa benefício, tem que ser desenhada uma isenção fiscal suficiente para a atrair para cá (por exemplo, uma isenção total de IRC).
Mas a aplicação da isenção total de IRC a todas as empresas portuguesas teria um impacto em termos de redução da receita fiscal na ordem dos 5 mil milhões € por ano.

Segmentação do mercado fiscal.
A ZF vai permitir "segmentar" o "mercado de impostos" sendo cobrada uma taxa mais elevada às empresas que não podem deslocalizar-se e uma taxa mais baixa às que se podem deslocalizar.
Aplicando o trabalho "equilíbrio de corpos sólidos" do Pareto, a taxa de imposto terá que ser menor nas empresas em que a "elasticidade da mobilidade" for maior.
Se a elasticidade da mobilidade da empresa A é 1 quer dizer que por cada aumento de 1% no IRC, a empresa desloca 1% da sua actividade para o exterior.
Para maximizar a receita de IRC as taxas terão que ser diferenciadas:
Vejamos um exemplo com 4 empresas em que cada uma facturação de 10000€ e tem uma margem de lucro de 10% sobre a facturação.
Se a taxa de IRC for igual para todas as empresas, a taxa que maximiza a receita de IRC é de 33% que é de 500€. O nível de actividade é de 15000€.

Empresa  elasticidades  IRC(fixo)    deslocaliza
A    =>         1      =>      33%      => 33%
B    =>        1,5     =>     33%      =>  50%
C    =>         2      =>      33%      =>  67%
D    =>        10     =>      33%      =>  100%

Se a taxa de IRC for variável, a receita fiscal será de 566€ e o nível de actividade no país de 20000€.

Empresa  elasticidades  IRC(variável)  deslocaliza
A    =>         1      =>      50%         => 50%
B    =>        1,5     =>     33%         =>  50%
C    =>         2      =>     25%         =>  50%
D    =>        10     =>      5%         =>   50%

Fig. 3 - Fui-me embora porque na Holanda as pens são deste tamanhinho.


Extraterritorialidade.
No caso dos navios e dos aviões (e das embaixadas) existe extraterritoriedade que é um estatuto muito mais forte que o das Zonas Francas "normais".
A extraterritorialidade faz com que no interior do navio (ou do avião) não se aplique a legislação do país onde ele se encontre mas sim a legislação do Estado de Bandeira.
Por exemplo, um navio de uma empresa portuguesa registado no Panamá poderá ter marinheiros das filipinas sem working permit português pois no interior do navio aplica-se a lei do Panamá que não se importa com isso.
Se um filipino matar um malaio a bordo do navio, mesmo que esteja atracado no Porto de Lisboa, será julgado no Panamá, sob a lei do Panamá e cumprirá pena no Panamá.

Os navios e os aviões são zonas francas "fortes".
Quando um navio (ou um avião) entra num país, a entrada e saída de bens são tratados como entradas e saídas do Panamá (do Estado de Bandeira). Desta forma, o trânsito de bens entre o navio e países terceiros em contentor fechado não são controlados (nem tributados).
Acresce que os passageiros também são tratados como se tivessem residência no Panamá, precisando mostrar o passaporte e ter visto de entrada no país onde o navio está atracado.
Também se uma criança nascer a bordo do Navio, legalmente terá nascido no Panamá.
O interior do navio goza de extraterritoriedade.

O interior do navio (avião) não é uma democracia.
O interior do navio (do avião ou da embaixada) é uma ditadura absoluta em que o Rei Sol é o capitão da embarcação (ou o embaixador).
Apesar de os passageiros serem residentes do navio (ou do Avião), não podem votar para eleger o capitão nem fazer um referendo à rota.
Uma vez registado o Capitão pelo dono da embarcação em acordo com o Panamá, as outras pessoas a bordo do navio só têm que obedecer ou atirarem-se ao mar.

Vamos então à minha solução.
Eu meti, finalmente, o meu pedido à Presidente da Assembleia da República para Portugal me permitir receber os refugiados que eu quiserem.
É um modelo semelhante ao contrato de arrendamento de Macau (de 1557) e Hong-Kong (de 1899).

A ZF será uma empresa privada.
Artigo 1.º) O Estado Português concede ao requerente um território para que possa aí instalar uma Zona Franca, ZF, capaz de dar acolhimento a refugiados sem distinção da sua origem nacional ou qualquer outra condição.
Artigo 2.º) A ZF é uma entidade empresarial.
Artigo 3.º) O território terá que ser adquirido ou arrendado pela entidade promotora da ZF.

A ZF é um misto entre um navio e uma embaixada.
Artigo 4.º) O território da ZF mantem-se como parte integrante do território de Portugal.
Artigo 5.º) O território da ZF tem um estatuto de extraterritorialidade relativamente a Portugal semelhante, com as necessárias alterações, ao espaço interior de um navio (CNUDM III).
Artigo 6.º) Portugal concessiona o território à ZF por 100 anos, renovável por períodos consecutivos de 25 anos.
Artigo 7.º) No caso de Portugal não pretender renovar o contrato de concessão tem que avisar a ZF com pelo menos 20 anos de antecedência.
Artigo 8.º) A ZF terá um Estado de Registo.
Artigo 9.º) As leis e convenções internacionais em vigor no território da ZF serão as leis e convenções internacionais em vigor no Estado de Registo que terá obrigatoriamente que transcrever para a ordem jurídica interna da ZF todas as directivas europeias. 
Artigo 10.º) O Estado de Registo da ZF está dependente da aceitação por parte de Portugal.

O importante é aproveitar o livre comérico com a UE.
Artigo 11.º) Apesar do estatuto de extraterritorialidade relativamente a Portugal, a ZF é parte integrante da Zona Euro (pertença subsidiaria de Portugal) com quem mantém liberdade de movimento de bens, serviços, capitais e pessoas (relativamente aos residentes no Espaço de Schengen).

Agora vem a resposta ao "problema cultural").
Artigo 12.º) Os residentes da ZF e os seus descendentes são Cidadãos Ultramarinos do Estado de Registo (situação juridica comparável à da “British Overseas Citizenship”) o que traduz que, relativamente a Portugal, ao Espaço de Schengen e à UE, os cidadão da ZF são estrangeiros não residentes.

Questões sem grande importância.
Artigo 13.º) Os cidadãos da ZF têm o direito de a abandonar para qualquer país ou território que autorize a sua entrada.
Artigo 14.º) A ZF tem como línguas oficiais o Português e o Inglês.
Artigo 15.º) A ZF pagará ao Estado Português uma renda anual de 1000€/ha/ano actualizável anualmente à taxa de inflação.
Artigo 16.º) O Estado Português compromete-se a facilitar a ligação da ZF às infra-estruturas europeias, entre outras, às auto-estradas, portos, aeroportos e redes eléctrica, de abastecimento de água e de telecomunicações.
Artigo 17.º) O Estado Português compromete-se a emitir salvo-condutos para todos os cidadãos da ZF que pretendam deslocar-se de e para zonas internacionais e países terceiros.

E o que acontece no fim dos 100 anos?
Artigo 18.º) Findo o contrato de concessão, o território usado pela ZF terá que ser devolvido livre de residentes.
Artigo 19.º) A ZF compromete-se a acumular anualmente reservas financeiras no valor mínimo de 10% do seu PIB para, na eventualidade de não haver renovação do contrato de concessão, ser possível a ZF pagar os custos da recolocação dos seus cidadão noutro país.

Eu penso que resolvi à "questão cultural" levantadas nos comentários.
As pessoas e os seus filhos serão "naturais ultramarinos" do Estado de Bandeira (que poderá ser, por exemplo, o Panamá)  o que traduz que usarão passaportes do Panamá para poderem sair da ZF. Assim, apesar de estarem em território que pertence a Portugal (tal como o navio pertence a um português) serão residentes do Panamá (o hipotético Estado de Bandeira).
Naturalmente, também poderão ser cidadão do país de naturalidade mas haverá casos em que isso não será possível não só por nenhum país os reconhecer como seus cidadão como por desorganização administrativa.

E há ainda a questão do "facto consumado."
Depois de estarem na ZF, cria-se um facto consumado em que é impossível mandar as pessoas para outro lado qualquer. A constituição obrigatória de reservas foi a solução que imaginei para ser possível, no caso de não renovação da concessão, de os descendentes dos actuais refugiados poderem, daqui a 100 anos, ser aceites noutro sítio qualquer.
É que o dinheiro abre muitas portas.
Juntando o dinehiro ao previsível aumento da escolaridade e riqueza da população da ZF, este problema não será um problema.
E daqui a 100 anos jé estaremos todos mortos e com os ossos já derretidos pela água da chuva.

Agora pedia-vos que subscrevessem a petição.
Tem lá um erro ou outro mas penso que é uma proposta equilibrada e que me vai fazer um homem rico e ainda ganhar o Prémio Nobel da Paz.
Depois disto ninguém pode dizer que Portugal não tem condições para abrigar os desgraçados que existem um pouco por todo o mundo.
Só 2 pessoas assinaram a petição (eu e outra) pelo que, se calhar, os portugueses não querem os refugiados cá. Ajude-me a ajudá-los.

peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT77218

Um bocadinho sobre o Equilíbrio de Nash e de Pareto.
O equilíbrio de Nash é quando ninguém quer mudar para melhor (se alguém mudar será para pior). Por causa disso, é um equilíbrio estável
O equilíbrio de Pareto é quando uma pessoa pode mudar para melhor mas vai prejudicar alguém. Assim, é diferente do de Nash onde ninguém quer mudar, sendo normalmente instável (requer auto-controlo).

Exemplo de equilíbrio de Pareto instavel (que não é equilíbrio de Nash).
Se todos nós fossemos sérios, não precisaríamos de ter fechadura nos automóveis (poupavamos essa despesa e o trabalho de fechar e abrir o carro). Este seria um equilíbrio de Pareto pois para alguém melhorar (roubar-nos o carro) nós piorávamos.
Mas, como sabemos, este equilíbrio de Pareto não é estável pois cada individuo tem incentivos para roubar o carro dos outros. Então não é um equilíbrio de Nash (não é estável).

Exemplo de equilíbrio de de Nash que não é de máximo social.
Em nossas casas o equilíbrio de Pareto é todos fazermos pouco barulho porque, apesar de perdermos liberdade, sabemos que o barulho perturba os vizinhos.
O equilíbrio de Nash será fazermos barulho quando nos apetece o que fará com que no nosso prédio seja uma barulheira toda a noite.

Fig. 4 - A Halle Berry é mesmo boa em equilíbrio em cima dos sapatos agulha (se calhar, falta uma vírgula a seguir a "boa").

Pedro Cosme Vieira

quarta-feira, 20 de maio de 2015

5 - A casa

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
______________________
Ver o capítulo anterior (4 - A preparação)




5 – A casa
O casebre era pequeno, 9 x 6 m2, com uma parede no sentido transversal usada para formar a dispensa onde estavam guardados 5 pipos de vinho, a caixa do pão com uma divisão maior para o milho e outra menor para o feijão e a caixa da roupa maior, cobertores, mantas e casacos para usar no Inverno. O quadrado que sobrava do casebre era dividido pela cumeeira numa metade que era a sala e na outra metade que eram dois quartos onde praticamente só cabiam a cama, uma caixa pequena para a roupa de vestir e um banco que também servia de mesinha de cabeceira. A sala tinha uma mesa formada por duas tábuas velhas, dois bancos corridos e, na parede, uma prateleira onde estava a louça em barro vermelho, seis pratos, outras tantas malgas e uma travessa, muita dela já costurada com arames enferrujados.
Fora da casa havia os anexos feitos em paus atados entre si e emassados com barro e palha. Eram a retrete, a cozinha e o galinheiro e, depois, a arrecadação para as batatas, o feno e as alfaias agrícolas e os currais do porco e das ovelhas. O casebre de um lado e os anexos do outro lado cercavam o pátio que, no seu conjunto, fazia a casa parecer uma cidadezinha muralhada em que o porteiro, um cão magro preso por uma corrente, ladrava ruidosamente, fosse dia, fosse noite, sempre que alguém passava por perto.
A menina Dulcinha meteu a chave à porta, abriu-a e entrou juntamente com o pai que levava debaixo do braço a urna com a roupa dentro. Com eles ia a Sra. Celeste para ajudar a lavar e a vestir a criancinha morta. O ambiente era de grande pobreza, as paredes escuras de nunca terem visto caiação. A criança estava no quarto, no seu bercinho de verga, rosadinha como se estivesse viva mas morta como já seria de esperar pois a Maria Zé não se ia enganar e o Milagre da Ressurreição do Lázaro só aconteceu uma vez na história bíblica. Logo a seguir chegou o Dr. Acácio.
– Bom dia. Está bom, Sr. Costa? Senhora e menina, então o que temos por aqui? – disse o Dr. Acácio.
– Sabe Sr. Doutor, é que a criancinha morreu de noite e, como quando morre uma criança a estes desgraçados aparece sempre o Polícia Vieira, como me pareceu haver uma certa duvida nas causas da morte, achei melhor chamar o Sr. Doutor. Venha ali até ao quarto que a criança está lá.
O Dr. Acácio entrou no quarto – “Mau, a criancinha está rosada o que não é bom sinal, o Polícia Vieira vai achar estranho uma criança morta estar rosada. Sabe menina, é que esta cor indica uma intoxicação com fumo o que, no Verão, é estranho. Vou ter que fazer alguma coisa para disfarçar esta cor de forma a poder escrever na certidão que morreu de doença gastrointestinal. Sra. Celeste, se faz favor, venha aqui lavar a criança.”
Com a criancinha lavada e seca, o Dr. Acácio foi à sua mala preta e tirou um boião com uma substância de cor escura azulada que parecia graxa para os sapatos. Com dois dedos foi escurecendo a cara e as mãozinhas da criança. Depois de estar num tom mais compatível com a morte, limpou as suas mãos com um lenço que também tirou da mala.
– Pronto, agora já está com a cor que eu queria, já parece morta. Vamos vestir a criancinha para eu ver se precisa de mais algum retoque. Sra. Celeste, antes de virem as pessoas ver a criança defunta é preciso fazer uma desinfecção geral da casa, pegar nesta roupa toda que teve contacto com a criança e mete-la numa barrela com lixívia. Não vá o diabo tecê-las, vou também afixar aqui um papel à porta a dizer que, como a criança morreu de doença contagiosa, os menores de 10 anos não podem entrar na casa. Menina Dulcinha, não se esqueça disto. – Virando-se para a menina Dulcinha – E o pagamento, está por sua conta Dulcinha?
– Está sim Sr. doutor – a Dulcinha, tirando do bolso uma pequena carteira, abriu-a e tirou duas notas de 10€ e outra de 5€ – faça favor Sr. Doutor.
Estando a certidão passada e o pagamento feito, o Dr. Acácio foi-se embora a pé e começou imediatamente a limpeza da casa.

– Sra. Celeste, estou a ouvir o sino da igreja o que indica que o funeral vai ser hoje. Tenho que ir rápido ao posto da polícia para tratar ainda de manhã dos papéis do enterramento, penso estar de volta dentro de uma horita. Fique a tratar de tudo e não se pode esqueça que, para receber as pessoas que vierem ao funeral, ainda é preciso fritar as pataniscas de bacalhau, encher 5 garrafões de vinho e fazer uma limonada para as crianças.

Capítulo seguinte (6 - A confissão)

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Best Hostgator Coupon Code