sexta-feira, 31 de maio de 2013

A economia com 2 sectores

No último poste (O paradoxo da poupança) auxiliei-me do modelo da economia com 2 sectores que é muito importante porque ilustra o que acontece quando uma economia precisa de se re-estruturar.
Este modelo parte da evidencia empirica de que as empresas e as pessoas não se conseguem adaptar à dinamica da economia pelo que, por um lado, continuamente vemos empresas a entrar em falencia e pessoas a serem despedidas enquanto que, por outro lado, vemos empresas a prosperar e pessoas a arranjar novos empregos. Mesmo no meio da mais grave crise económica que possa haver, há sempre pessoas e empresas que têm sucesso. São como os surfistas que acham uma maravilha o mar com ondas de 30m.
Os dois sectores da economia podem ser diversos. Por exemplo, Schumpeter (1942) usa este modelo para  ilustrar o conceito de Criação Destruidora (uma inovação leva ao aparecimento de um novo sector que é a semente da destruição do sector existente. No futuro, haverá nova inovação e o actualmente novo sector será o velho sector de então).
Na apresentação do paradoxo da poupança, usei um sector de bens de consumo e outro de bens de investimento.
No caso português estamos a discutir uma re-estruturação em que o sector dos bens transaccionaveis (exportaveis/importáveis) tem que crescer à custa do sector dos bens não transaccionável (de produção e consumo locais).
Não podemos tomar a evolução da economia no "paradoxo da poupança" (mais poupança) com o que estamos a viver mas antes ao contrário (redução do acesso ao crédito) pelo que o movimento das variáveis para o novo equilíbrio serão também ao contrário do que apresento aqui. Serão taxa de juro a subir, investimento a cair e salários reais a descer.


Fig. 1 - Sinal de proibição  do uso da argumentação keynesiana

Apenas não quis ser muito aborrecido.
Não detalhei o modelo em termos numéricos para não aborrecer a leitura. Pensei que tinha conseguido dar a intuição sobre o ajustamento do mercado de crédito apenas com algumas ideias qualitativas. Mas pelo comentários, vi que errei.
Tenho então agora que quantificar o modelo.

O modelo com apenas parte real.
Se tivermos por fim comparar apenas a economia entre momentos estabilizados (de longo-prazo), o modelo pode ter apenas "parte real" (sem moeda) o que simplifia muito a análise sem perda quanto às conlusões de longo-prazo. Por essas razões é que os manuais e economia apenas contêm modelos reais (sem variáveis nominais).
Mas as variáveis nominais são o meanismo de transmissão e conpatibilização das decisões económicos pelo que são fundamentais para compreendermos o processo dinâmico de ajustamento. Em particular, causa muita confusão às pessoas como uma pessoa que guarda notas no colchão pode, com isso, fazer aumentar o investimento. Se eu tenho as notas na minha carteira, como pode alguém vir buscá-las para as investir?
Não parece possivel mas é assim que acontece.

Análise de estática comparada (entre momentos em stand still)
Sendo Y a produção, K o capital, N o número de trabalhador do sector (no total, 1) e E ~ F(1, S)  uma parte aleatória, exógena ao modelo. Então teremos um nível de produto igual a:

      Y = K^0.33 x N^0.67 x E

0.67 é o peso dos salários e 0.33 é o peso do capital nos custos agregados.
O rendimento, R, (sejam salários, juros, lucros ou outra coisa qualquer) vem sempre igual a Y. Esta igualdade mantém-se porque se as empresas tiverem prejuizo, o rendimento dos donos diminui:

     R = Y

O nivel de capital é dado pelo equilíbrio entre o investimento e a depreciação do capital (à taxa d por período). A nossa economia torna-se um sistema dinamico que parte da seguinte equação às diferenças de 1ª ordem:
   
     K(t) = K(t-1) x (1-d) + I

Como será o equilíbrio de stand still em 20%?
Assumindo que inicialmente a poupança são 20% do rendimento e a depreciação 10% do capital, para estarmos numa situação de stand still teremos K(t) = K(t-1) = K, pelo que:

    K = K . (1-d) + I => I  =  0.1K porque está em stand still
    S = 0.2R => S = 0.2Y porque R = Y
    Como S = I  =>  0.2R = 0.1K => 0.2Y = 0.1K => K = 2Y

    Teremos Y = (0.2/01 Y)^0.33 x N^0.67 x E
    Y = (0.2/0.1)^(0.33/067) x N x E^0.67

A poupança é sempre igual ao investimento (S=I) porque a variação involuntária de stocks faz parte do investimento.

Sendo o sectores identicos em termos de função de produção (apenas para simplificar, sem perda de generalidade), como as empresas maximizam o lucro, o sector dos bens de consumo produzirá 80% do PIB usando 80% do capital e do emprego enquanto que  o sector dos bens de investimento produzirá 20% do PIB usando 20% do capital e do emprego.
Nesta situação, em termos de quantidades, se assumirmos E= 1, teremos

Produto total = Y         = 1.407
Poupança total = 0.2Y = 0.281
Consumo total = 0.8Y  = 1.126
Capital = K = 2Y          = 3.814

As pessoas passam a poupança para 30%.
Como neste ponto apenas me interessa a situação de longo prazo (em stand still), basta-me passar a consider no modelo uma poupança de 30%Y (alteramos I = 0.2R por I = 0.3R) Neste caso, mantendo E=1, vem:

Produto total = Y          = 1.718       Um aumento de 22.1%
Poupança total = 0.3Y  = 0.515       Um aumento de 83.2%
Consumo total = 0.7Y   = 1.203      Um aumento de 6.8%
Capital = K = 3Y           = 5.154      Um aumento de 83.2%

O termo aleatório E vai fazer a economia oscilar ao longo do tempo, podendo este termo estar correlacionado ano tempo (ser usada para modelizar os ciclos económicos).

Na nova situação, a poupança aumenta mas também o consumo aumenta.
A passagem da poupança de 20% para 30% do rendimento faz com que o consumo aumente. Isto nem sempre acontece mas na minha simulação acontece porque, com os parametros considerados, o máximo do consumo (1.206) acontece para uma taxa de poupança de 33%.
Neste novo equilíbrio, o sector dos bens de consumo passará a produzir 70% do PIB e o sector dos bens de investimento passará a produzir 30% do PIB.
No fim do processo de ajustamento, 10% da força de trabalho abandou o sector dos bens de consumo e passou a trabalhar no sector dos bens de investimento.

O sector dos bens de consumo vai despedir pessoas e investir.
O total de trabalhadores vai passar de 0.8 para 0.7 e o capital vai aumentar de 2.25 (80% de 3.814) para 3.61 (70% de 5.154).
O Gonçalo diz num comentário que nenhuma empresa despede trabahadores e, ao mesmo tempo, investe mais. Que, se pensarmos na actual situação portuguesa, despede-se e desinveste-se. Mas recordo que, actualmente, a crise portuguesa resulta do garrote do crédito externo (que aumenta a taxa de juro) e não do aumento da poupança (que diminui a taxa de juro).
Vou dar vários exemplos de re-estruturações que implicaram menos emprego e muito investimento. Em Portugal, entre 1960 e 2013, a agricultura perdeu mais de 80% do emprego e, no entanto, o investimento foi massivo (em tractores, estufas, sistemas de rega, animais, sementes, etc.). Também hoje o sector textil, vestuário e calçado tem menos de metade dos trabalhadores que tinha em 1980 e, no entanto, o investimento também foi massivo. Este investimento aconteceu porque o acesso ao crédito estava facilitado, o que não acontece agora (a taxa de juro está muito alta).

O salário e a taxa de juro vão sofrer alterações.
O sistema vai ajustar pelos preços (salários, preços dos bens e taxas de juros) e pelas quantidades (capital e trabalho). No longo prazo é possível olhar apenas aos preços e quantidades antes e depois do ajustamento.
Como a decisão de poupar é exógena (passar de 20% para 30% do rendimento), a evolução da taxa de juro e dos salários de mercado pode ser obtida pela produtividade marginal dos factores. Assumindo que os bens são o numerário (preço unitário), teremos para o salário, W, e taxa de juro, i, que optimizam o lucro:

L = Y - N.W - K.(d + i)

Daqui resulta

W = 0.67/N x Y
i = 0.33/K x Y - d

Poupança de 20% => W = 0.943; i = 6.5%/período
Poupança de 30% => W = 0.854; i = 1.0%/período

O salário real aumentou (o que indica ser óptimo as emrpesas substituirem trabalho por capital) e a taxa de juro diminuiu (o que reforça a substituição de trabalho por capital).


Fig. 2 - Uma coisa é a realidade e outra coisa é o que queriamos que fosse mas que não é

Vamos agora ao transiente do ajustamento
Inicialmente as pessoas têm um rendimento de 1.407€ dos quais poupam 0.281€ e gastam em bens de consumo 1.126€.
Os 0.281€ são emprestados à taxa de juro de 6.5% aos investidores (via bancos) que usam na compra de 0.281€ de bens de capitais.
Então, as empresas pagam 1.407€ (em salários, juros, lucros,etc.) que obtêm pela venda de 1.407€ de bens (de consumo, 1.203€, e de capital, 0.281€).
Apesar de haver poupança, as vendas, 1.407€, igualam as compras, 1.407€ (consumo+investimento).

Ajustamento keynesiano (com total rigidez do mercado de trabalho).
Os esquerdistas keynesianos ainda não estão convencidos porque pensam a situação extrema de não haver qualquer ajustamento. Com o aumento da taxa de poupança, o consumo vai diminuir o que leva a despedimentos no sector dos bens de consumo. Há um contracção do rendimento, mais despedimentos e entra-se numa "espiral recessiva" (onde é que eu já ouvi isto?) que acaba com uma tal contracção do PIB que a poupança ainda vai ser menor que a inicial.
Pensam os esquerdistas que os trabalhadores despedidos jamé vão arranjar emprego e que o investimento se vai manter constante. Vou fazer a simulação do impacto deste pressuposto esquerdista.

No período 0 as pessoas poupavam 20% do seu rendimento e a economia estava em equilibrio de longo-prazo. No período 1 as pessoas passam a poupar 30% do rendimento. 
Do rendimento de 1.407€, passam a ser poupados 0.422€ e gastos os restantes 0.985€ em bens de consumo. Então, agora ficam sem comprador 0.141 unidades de bens de consumo pelo que esse sector vai despedir pessoas (mantendo o investimento).
Fazendo a "espiral recessiva", ela pára quando a poupança com os 30% fica exactamente igual à poupança com os 20%. Exactamente igual (ver, Quadro 1).

T
N
K
Y.C
R
S
S(quant)Compras
Desemprego
00,8002,251,1261,40720%0,2811,1260
10,8002,251,1261,40730%0,4220,9850
20,6552,250,9851,26630%0,3800,8860,145
30,5602,250,8861,16830%0,3500,8170,240
        …
        n0,3552,250,6540,93630%0,2810,6540,300

Quadro 1- Evolução da economia com inflexibilidade

Considerando a pior das hipóteses (as pessoas despedidas não arranjam mais emprego), o aumentar da taxa de poupança deixa a poupança em euros exactamente igual (0.281€). Apesar de em termos de argumentação oral sermos livres de imaginar uma magnitude extraordinária para o efeito da diminuição do consumo no produto, quando metemos a mão nos números, vemos que isso nunca pode acontecer. Na pior das hipóteses, fica igual.
Saindo da poesia do combate ideológico esquerdista e passando para a Ciência, qualquer que seja o modelo, quaisquer que sejam os parâmetros e qualquer que seja a sua magnitude (desde que razoável pois sabemos que uma poupança proxima de 100% leva ao colapso do consumo), nunca o aumento da taxa de poupança pode levar à redução da poupança (em valor).
Convém notar que a impossibilidade de a economia ajustar faz com que o aumento da taxa de poupança de 20% para 30% induza uma contração de 17% no PIB enquanto, com ajustamento perfeito, a economia expande 22.1%. Com flexibilidade, a economia fica 40% maior.

Mas os mercados vão ajustar qualquer coisinha.
Por mais pequeno e lento que seja o ajustamento, o excesso de poupança vai pressionar as taxas de juro a descer. Estando inicialmente a taxa de juro no 6.5%/período, quando a poupança aumenta 50%, os bancos ficam inundados com fundos que querem emprestar. Como não existe nenhum entrave para o ajustamento das taxas de juro em baixa, para aumentar o seu negócio, os bancos descem a taxa de juro mais ou menos rapidamente para 1%/período (que é o novo valor de equilíbrio).
A descida da taxa de juro faz com que seja óptimo despedir mais trabalhadores e comprar mais máquinas o que leva ao dinamizar do sector dos bens de investimento e a que as pessoas despedidas do sector dos bens de consumo consigam um novo emprego.
Lentamente ou rapidamente, a economia vai evoluindo para a nova situação de equilíbrio (+22.1%).

O problema de portugal não resulta de um aumento da taxa de poupança.
Repito que o nosso problema não é este (de mais poupança) mas o de passarmos do sector de não transaccionaveis para o sector dos bens transaccionaveis em simultâneo com uma diminuição do financiamento à economia (externo). Por isso, o ajustamento acontece com taxas de juro mais elevadas o que obriga à descida dos salários reais (e do nível de capital).

Quanto maior a rigidez da economia, maior será a contracção do PIB.
Se a economia for perfeitamente flexivel, no período de ajustamento quase não haverá contração do PIB e desemprego. Rapidamente as pessoas saem do sector em crise, fazem uma formação e passam a trabalhar no sector em expansão.
Quando mais dificil for mobilizar as pessoas do sector em crise para os outros sectores, maior será o desemprego,  mais grave a contracção do PIB e mais anos demorará a atingir o novo nível de equilíbrio. Com as políticas erradas, pode mesmo acontecer que nunca se consiga sair do fundo Por exemplo, em Moçambique o salário mínimo,  1200€/ano, é 50% superior ao PIBpc, de 800€/ano!  é uma rigidez na economia que atira 90% da população para o "desenrasca".

Falta o mecanismo de transmissão mais dificil de compreender.
Penso que está compreendido como a poupança, inundando os bancos com fundos, leva à descida das taxas de juro que fazem aumentar o investimento. Desta forma, a decisão de aumentar a poupança aumenta o capital da economia dando corpo ao sector dos bens de investimento.
Mas o mais dificil é compreender como eu guardando notas debaixo do colchão transmito aos investidores recursos para investir.
Isto funciona através de dois mecanismos interligados, o nível geral de preços e a liquidez.

Vamos ver como funciona.
Vamos supor que eu não quero saber dos juros e, em vez de depositar as minhas poupanças num banco, guardo-as debaixo do colchão. Como já ouvi vários dos meus colegas, professores e economia, dizerem que assim as poupanças ficam paradas o qeu faz parar a economia, não fiquem tristes por ainda não compreenderem como a economia resolve este problema. É que eu investigo este problema desde os princípios dos anos 1990.

O nível geral de preços.
Não precisa da intervenção humana funcionando mesmo que a quantidade de moeda é fixa (e.g., o ouro da antiguidade).
Se eu guardar uma nota, deixa de haver tantas notas em circulação o que, instantaneamente, diminui a procura agregada num valor proporcional ao valor da minha nota.
Isto coloca pressão nos preços que diminuem exactamente no valor que eu guardei.
Por exemplo, existe 100€ em notas e moedas e o PIB é 1000€/ano (uma velocidade de circulação de 10x). Se eu retirar 1€ de circulação, os preços caiem ligeiramente (-1.0%) de forma a que se possam fazer o mesmo número de compras. Assim, eu guardando uma nota, o conjunto das notas remanescentes valoriza (porque os preços caiem) havendo sempre o mesmo valor real de notas em circulação. Quando eu libertar o meu 1€, o processo inverte-se (os preços aumentam 1%).

O controle do BCE.
A oscilação dos preços é má porque obriga a constantes ajustamentos dos preços o que é dificil principalmente porque os salários não querem reduzir em termos nominais.
Como a função do BCE é estabilizar o nivel geral de preços, vai injectar e retirar notas de circulação de forma a manter os preços.
Quando eu guardo 1€, o BCE detecta pequenos indicios de uma eminente queda dos preços pelo que injecta 1€ no sistema bancário (compra 1€ de títulos ou empresta o dinheiro). O 1€ que chega ao sistema bancário (à taxa de 0.75%/mês) vai ser emprestado aos empresários que investem o correspondente valor.
Quando eu retiro o 1€ do colchão e o gasto, o BCE detecta pequenos indicios de que os preços vão subir e capta 1€ do sistema bancário (subindo a taxa de desconto ou vendendo 1€ de títulos que tem em carteira).
Quando eu guardo 1€, estou a fazer um empréstimo sem juros ao BCE que o empresta a 0.75%/ano.

Será o sistema perfeito?
Nada é perfeito e por isso é que a inflação não está sempre nos 2%/ano pretendidos pelo BCE. Mas o conjunto dos processos (preços e BCE) funcionam bem no sentido de a economia estar sempre a caminhar para um ponto de equilíbrio que está sempre a mudar por causas fora do nosso controle (a parte aleatória da vida).

Penso ter ficado um bocadinho mais claro porque o paradoxo da poupança é bullshit.

Pedro Cosme Costa Vieira.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

O paradoxo da poupança

O keynesianismo tem um objectivo que parece nobre.
Os keynesianismo (a economia vista do lado da procura) é um quadro a usar na estabilização da economia ao longo do ciclo económico. Assim, defende politicas expansionistas quando a economia está nos períodos de crise (quando existe, alegadamente, desemprego de factores) mas implicitamente obriga a politicas recessivas quando a economia está nos períodos de maior expansão (quando os factores estão a ser utilizados, alegadamente, acima do pleno emprego), ver a Fig. 1.
Não existe qualquer dúvida que todos os economistas, keynesianos ou clássicos, aceitam que as teorias clássicas (a economia vista do lado da oferta) é um quadro a usar obrigatoriamente no crescimento económico (a tendência de crescimento de longo-prazo).
 
Fig. 1 - O PIB oscila (a azul) pelo que nos períodos de expansão o keynesianismo implicitamente defende o uso de politicas recessivas (setas para baixo) para nas crises poderem ser usadas politicas expansionistas (setas para cima). Isto não tem nada a ver com o crescimento económico (a tracejado).

Mas a estabilização é errada.
O keynesianismo está errado nas suas receitas porque assume a existência, nos períodos de crise, de desemprego de factores (e, nos períodos de expansão económica, sobre-emprego dos factores). A evidencia empírica mostra que os factores estão adaptados, racionalmente, a diferentes níveis de utilização ao longo do ciclo económico. Assim, são mais utilizados nos períodos de maior produtividade e vice-versa.
Não há necessidade do Estado pensar em politicas de estabilização porque nós resolveremos esse problema de forma óptima.

Quando escolhemos trabalhar?
A nossa vida dura cerca de 700 mil horas e, durante esse tempo, obtemos recursos trabalhando cerca de 90 mil horas, apenas 13% da duração da nossa vida. Naturalmente, vamos escolher para trabalhar os períodos em que somos mais produtivos, descansando nos outros.
Nós somos mais produtivos de dia pelo que a grande maioria das pessoas trabalha de dia e dorme de noite.
Também somos mais produtivos quando somos novos. Se trabalharmos 1 hora quando temos 40 anos conseguimos produzir tanto como se trabalharmos 5 horas quando tivermos 80 anos. Então, trabalhamos mais quando somos novos para podermos estar parados quando formos velhos.
Finalmente, somos mais produtivos nos períodos de expansão económica. Então, as pessoas preferem trabalhar nesses períodos mais horas e estar desocupadas nos períodos de crise.

Porque diabo quer o Estado que todas as sermanas trabalhemos o mesmo número de horas?
Na agricultura, as pessoas são mais produtivas na Primavera + princípio do Verão pelo que concentram as suas horas de trabalho nestes meses.
Não há mal nenhum em escolhermos trabalhar apenas nas horas em que somos mais produtivos pois, desta forma, conseguimos, ao longo de toda a nossa vida, ter um melhor nível de vida trabalhando as mesma 90 mil horas.
Penso já ser claro que seria errado o Estado obrigar-nos a trabalhar, desde os 10 anos aos 80 anos, 25 h/semana quando nós preferimos trabalhar 40h/s mas apenas entre os 20 anos e os 65 anos.
Seria completamente errado o Estado, para estabilizar a nossa vida, obrigar-nos a trabalhar 8 minutos em cada hora, dia e noite.

A poupança.
Mas para podermos trabalhar apenas nos períodos de maior produtividade, precisamos transferir recursos desses períodos para os períodos de inactividade o que se consegue fazer poupando nos tempos das vacas gordas e gastando no tempo das vacas magras.
Precisamos de poupar nos períodos de maior rendimento para gastar nos outros.

Fig. 2 - Gosto de trabalhar porque produzo mais riqueza hoje numa hora do que quando tiver 80 anos em 1000 horas

Vi hoje na TV.
A agricultura vive muito de sazonalidade. Na Primavera e princípio do Verão há a apanha dos morangos, das flores e das frutas e no inverno não há nada para fazer. Então, uma pessoa normal trabalhar 1800h/ano em agricultura tem que trabalhar 14h/dia todos os dias, entre meados de Março e meados de Julho e depois descansar o resto do ano. Isto é bom para o trabalhador que pode viver longe do local de trabalho e necessário para que possamos ter uma agricultura competitiva. É assim que se faz em toda a parte, desde os USA até ao Burkinafaso, menos em Portugal.
Hoje vi na TV uma reportagem do Alentejo onde estavam a trabalhar ingleses 14h/dia, 7 dias por semana (a 7.5€/h) mas em que a inspecção do trabalho disse "isso é legal em Inglaterra mas é ilegal em Portugal".
Fiquei duplamente chocado. Primeiro, porque temos 1 milhão de desempregados mas temos que contratar ingleses para trabalhar nos campos (de um país muito mais rico que o nosso). Segundo, a nossa legislação do trabalho não deixa as pessoas trabalhar da mesma forma que a inglesa.
Somos mesmo um país de direitos.
Bem, não somos um país de direitos mas de proibições.

A desocupação também é óptima com o capital.
Vamos imaginar um hotel. Cada quarto duplo tem cerca de 30 m2 que, a um custo de 700€/m2, traduz um investimento de 21000€/quarto. Considerando a amortização em 25 anos e uma taxa de juro real de 5%/ano, cada quarto fica por 4.00€/dia. Somando a parte variável (a electricidade e a água, 1.00€/dia, a arrumação, 2.50€/dia, e o pequeno almoço, 2.50€), temos um custo de 10€ por dia por cada quarto.
Mas a maioria dos hotéis tem preços entre 50€dia e 75€/dia. Porque será que não existem hotéis a 15€/dia?
Porque, dados os clientes potenciais, os hotéis são feitos para terem ocupação de apenas 25% dos dias.
Os hotéis são feitos para estarem ocupados apenas nos dias de Verão e em alguns fins de semana. Se nos outros dias os preços fossem 15€/dia, não haveria pessoas no Verão (já estavam cheias de hotéis).


Fig. 3 - Para não perder a vontade, o Jorge Nuno só vai uma vez por mês ao castigo.

Os governos erram sistematicamente para cima.
Os governos erram na previsão da tendência de crescimento pelo que pensam quase sempre que estamos na parte de baixo do ciclo económico. Então, há muito mais politicas de estimulo económico que de austeridade o que leva (levou) ao endividamento excessivo dos Estados.
Se perguntarmos hoje a qualquer político qual é a tendência de crescimento da nossa economia vão avançar com números entre 2%/ano e 3%/ano quando a evidencia empírica aponta para valores entre 0.0%/ano e 1.0%/ano (nos últimos 13.25 anos, desde princípios de 2000, foi 0.17%/ano, tradingeconomics).

Por causa do crowding-out, a estabilização obriga a oscilações na balança corrente.
Não interessa ter politicas fiscais expansionistas porque, para o Estado gastar mais, ou cobra mais impostos ou capta as poupanças privadas, o que retira capacidade dos privados gastarem.
Então, a única forma de haver estabilização económica é, nos períodos de crise, haver défice nas contas com o exterior (balança corrente) e, nos períodos de expansão económica, superávite.
Com os erros de previsão dos governos, o keynesianismo leva ao endividamento dos países.

Mas há um problema mais grave.
É nas escolas de Economia martelar-se que a estabilização económica é boa. Não têm a mais pequena visão critica sobre se de facto a estabilização económica é boa avançando com este objectivo como se tivesse sido revelado por Deus. É o XI mandamento.
Depois, como as politicas keynesianas dão gráficos bonitos e exercícios complicados, martelam todo o tempo nas politicas de curto-prazo.
Finalmente, transforma-se numa lavagem ao cérebro em que, ao longo dos anos, os alunos tornam-se professores e passa-se a viver a actual gritaria que clama para que o Passos Coelho resolva todos os nossos problemas.

Reparem um pequeno pormenor.
Porque pensam que eu, na minha faculdade, estou "proibido" de ensinar teoria económica?
Será por não saber?
Mas há tanta gente que também não sabe e ensina.

A parábula do chá.
Vamos imaginar que temos uma chávena cheia de chá mas queremos leite porque faz bem à saúde. No entanto, não podemos meter leite na chávena antes de a esvaziar do chá.
O pensamento das pessoas é igual. Está cheio de mentiras keynesianas. Mas para verem a luz, têm que, primeiro, deitar isso tudo fora. Enquanto tentarem usar esse entulho mental para provar que estão certos, mesmo contra toda a evidencia, continuarão no erro. A estratégia é começar por assumir que o pensamento tem erros e procurar onde estão esses  errados.
Temos que usar o método da dúvida metódica (de Descartes).

Está cravado na mente de gerações que poupar é mau para a economia.
Décadas a forçar os alunos a acreditar que a poupança diminui o efeito multiplicador, torna muito difícil a alguém libertar-se deste carimbo.
Faz-me lembrar aquele programa dos restaurantes falidos (os pesadelos do Gordon Ramsay) em que as pessoas acham que está tudo bem, só não têm clientes. Mas se não têm clientes, automaticamente está tudo mal.
Nós estamos na mesma situação. Se as politicas keynesianas do Pós-25-de-abril-de1975 (em que a poupança foi combatida ferozmente)  nos levaram à bancarrota, alguma coisa tem que estar mal.
Pela leitura dos comentários, sei que é difícil re-orientar o nosso pensamento do lado da procura (consumir mais aumenta a produção) para o lado da oferta (produzir mais aumenta o consumo). Esta re-orientação é mais dificil porque os keynesianos construíram toda um  mundo de faz de conta que é difícil, para a mente normal, desmontar.

Hoje vou desmontar o paradoxo keynesiano da poupança.
Diz este paradoxo que, se todas as pessoas quiserem aumentar a sua poupança, no final, a poupança diminui.
As pessoas poupam uma percentagem do seu rendimento, 14% no caso português, 24MM€. Se, por exemplo, todas as pessoas quiserem aumentar a poupança para 20% do seu rendimento, os keynesianos defendem que. por causa do multiplicador, a PIB vai diminuir de tal forma que 20% do PIB contraído vai ser menor que 24MM€.

Nada disto é verdade.
Porque, na economia existe consumo e investimento e, caso todas as pessoas queiram poupar mais, a taxa de juro vai descer de forma a que mais oportunidade de investimento se tornam rentáveis, aumentando o investimento para um valor exactamente igual ao novo nível de poupança. Em vez de haver redução do PIB, o novo investimento faz com que a tendência de crescimento do PIB se reforce.

Nunca pode a poupança diminuir quando as pessoas decidem poupar uma percentagem maior do seu rendimento. É uma impossibilidade como a argumentação da cábula:
Quanto mais se sabe, mais se esquece. Quanto mais se estudo, mais se sabe. Logo, quanto mais se estuda, mais se esquece e menos se sabe. Isto está errado porque o cábula só esquece mais se souber mais pelo. Logo, apesar de esquecer mais, sabe mais.
Mesmo na argumentação keynesiana,errada , o PIB diminui porque as pessoas retiram mais euros da economia. Mas se as pessoas poupam menos euros então, o PIB não pode reduzir como previsto inicialmente.

Uma economia com 2 sectores.
A minha economia tem um sector que produz bens de consumo (80% do PIB e do emprego) e um sector que produz bens de investimento (20% do PIB e do emprego). Vou assumir que o PIB é de 1000€/segundo.
O rendimento das pessoas (salários + lucros + rendas + amortizações + etc.) iguala sempre o PIB. Como o PIB é produzido pelas pessoas, o rendimento das pessoas iguala sempre o PIB. Não pode nunca ser de outra forma.

A minha economia está num estado de stand still.
A depreciação/amortização do capital é 20% do PIB (10% do capital que é 100% do PIB)e a poupança é 20% do rendimento. Desta forma, como é obrigatório sempre, a poupança iguala o investimento (mesmo que seja com um alteração involuntária dos stocks).
80% das pessoas têm o seu rendimento no sector dos bens de consumo, 20% no sector dos bens de investimento e cada uma poupa 20% do seu rendimento que, via sector bancário e monetário, vai parar à mão dos investidores que o usam para comprar a produção do sector dos bens de investimento. Os remanescentes 80% são usados para comprar a produção do sector dos bens de consumo.

Mas a poupança aumenta para 30% do rendimento.
No instante inicial, como as pessoas reduzem o consumo de bens de consumo (de 80% do PIB para 70% do PIB), este sector vai observar uma redução das suas vendas em 12.5% pelo que se vê obrigado a reduzir os ordenados e a despedir pessoas.
Mas, o aumento da poupança vai aumentar os depósitos no sistema bancário (e a detenção de moeda) o que faz, pela lei da oferta e procura, com que os bancos reduzam a taxa de juro que pagam às pessoas (vamos supor que isto não tem efeito nas pessoas) que vai reduzir as taxas de juro dos empréstimos que o sistema bancário faz às empresas.

Num segundo instante,  as empresas dos sector dos bens de investimento vai ter mais financiamento pelo que aumenta a compra de bens de investimento (de 20% do PIB para 30% do PIB). Então, este sector vai observar um aumento das suas vendas em 33% pelo que se vê obrigado a aumentar os ordenados. É preciso que o sector dos bens de consumo liberte trabalhadores para que o sector dos bens de investimento possa aumentar a produção (contratar mais pessoas).

Durante o processo de ajustamento de 80% consumo + 20% investimento para 70% consumo + 30% investimento, haverá redução dos salários e despedimentos no sector dos bens de consumo mas também haverá aumentos de salários e contratações no sector dos bens de investimento.
Quanto mais rígido for o mercado de trabalho, mais difícil será os trabalhadores passarem do sector dos bens de consumo para o sector dos bens de investimento pelo que, no transiente, maior será o nível de desemprego e poderá haver quebra do PIB.

No final do ajustamento.
Voltamos a uma situação de stand still mas em que a economia terá uma estrutura diferente (70%+30%) e uma taxa de juro mais baixa o que equilibra a economia numa intensidade capitalistica maior (haverá mais capital por pessoa logo, o PIB per capita será maior).

Fig. 4 - O ajustamento com mercados rígidos (de trabalho) faz o desemprego aumentar na transição e dificulta a re-estruturação da economia.

E o que diz a evidencia empírica?
Se olharmos aos dados desde 2000, na China a taxa de poupança é de 47% do PIB e o crescimento é de 9.2%/ano. No nosso querido país, a nossa poupança é 15% do PIB e o nosso crescimento é de 0.2%/ano.
Pegando nos valores médios do banco mundial para 2000-2011, ponderarmos a dimensão dos países pela sua população relativa, os países que têm uma taxa de poupança maior em 1% do PIB, crescem mais 0.136 pontos percentuais por ano (ver, Fig. 5). Para termos um crescimento de 2%/ano temos que aumentar a poupança de 15% do PIB para 27% do PIB. 

Fig. 5 - Relação entre poupança e crescimento do PIB, 2000-2011 (dados, Banco Mundial, pontos representam 96.5% da população mundial)

Por mais que os esquerdistas gritem que o fim da austeridade é a "politica de crescimento", ninguém pode negar que os países onde a poupança é mais elevada são exactamente os países onde o crescimento é maior e não como os keynesianos querem fazer crer.
Pedro Cosme Costa Vieira

terça-feira, 28 de maio de 2013

O erro keynesiano

No Sábado fui até à praia com um colega meu que me falou de um artigo muito interessante do Michael Spence, prémio Nobel da economia de 2001, sobre a crise europeia. Mandou-me o link e estive a ler.
O artigo tem algumas ideias boas para compreender a crise que vivemos e conselhos que eu tenho andado a martelar. No entanto, ninguém é perfeito. O Spence tem um texto mal organizado e com incongruencias porque mistura ideias keynesianas, esquerdista, com clássicas mas eu vou resumir o que tem de bom.
Num prato de comida, se há coisas menos boas, pomos de lado.
 
Fig. 1 - Uma pessoa pode ter boas ideias misturadas com asneiras da grossa. Só temos que aproveitar o que é bom.
 
As principais ideias do artigo Learning About Growth from Austerity, Michael Spence
 
Primeira ideia - Reinhart e Rogoff identificam uma relação negativa entre endividamento público e crescimento. Apesar de poder haver erros na folha de cálculo, ninguém questiona a existência desta relação negativa.
 
Segunda ideia - O endividamento (externo) persistente no tempo é negativo pois des-estrutura a economia favorecendo o sector não transaccionável e prejudicando o transaccionável (que pode ser exportado /  importado). Depois de uns anos de endividamento externo (no caso português, 15 anos), atingiu-se um endividamento excessivo que obrigou à correcção rápida da situação (em 2 anos). Esta correcção obrigou a reverter rapidamente a des-estruturação económica (transaccionaveis/não transaccionaveis) o que tem por efeito a destruição massiva de postos de trabalho (dos sectores não transaccionaveis) sem haver uma igualmente rápida recuperação no sector transacionável (motivado por rigidez da economia).
No tempo do Sócrates, endividavamo-nos 1500 milhões € por mês e agora estamos positivos (Dez2012 a Marc2013, um saldo positivo de 578 milhões €) (ver, Fig. 2). A evolução das nossas contas com o exterior, a balança corrente, é estraordinária precisando de um poste.
 
Fig. 2 - Evolução da balança corrente portuguesa (Dados: Banco de Portugal)
 
Terceira ideia - O crescimento económico e o emprego resultam apenas de crescimentos na produtividade. O endividamento externo, sendo expansionista da procura, silencia as dificuldades estruturais da economia que dificultam o crescimento da produtividade. As principais falhas estruturais são a rigidez do mercado de trabalho, as deficiências do sistema de ensino e a falta de investimento. Apenas quando chega a hora de pagar é que ouvimos essas dificuldades a gritar.
O desestruturar / re-estruturar  prejudica a tendência de crescimento de longo-prazo.
 
Quarta ideia - O ajustamento tem que ser resolvido principalmente pelos privados mas está dependente da vontade dos governos em levar a cabo reformas estruturais (que flexibilizem o mercado de trabalho e facilitem o investimento produtivo), única forma de melhorar as perspectivas de crescimento de longo-prazo.
 
Quinta ideia - Apesar de estímulos fiscais poderem atenuar a trajectória do ajustamento económico, isso não é possível nos países europeus em crise porque pagariam taxas de juro muito elevadas e crescentes (o prémio de risco aumentaria).
 
Sexta ideia - Os políticos pensam que o banco central pode resolver o problema de curto-prazo do ajustamento. Apesar de terem feito um papel importante, os bancos centrais não têm instrumentos que permitam acelerar o caminho para a recuperação. Medidas mais interventivas, levariam os países periféricos a voltar às políticas de endividamento externo, suspendendo o processo de ajustamento estrutural que tem que ser feito.
 
Conclusão - Actualmente, os países periféricos europeus têm problemas difíceis para resolver que resultam de terem baseado as suas politicas economicas em "caminhos de crescimento" naives e incompletos que os fizeram eleger o endividamento externo como motor do crescimento económio. Agora, a austeridade pode ser dura, mas é necessária. Ao menos que estes tempos difíceis façam com que as pessoas aprendam o valor de terem um crescimento equilibrado (sem endividamento externo), nunca mais voltando a ser utilizado o endividamento externo como o motor de longo-ppazo do crescimento económicos.
 
Eu tenho dúvidas que tenhamos aprendido alguma coisa.
 
 
Vamos ver o que pensam os keynesianos.
1. Apenas há necessidade de produzir se houver alguém que queira comprar.
Isto traduz que o principal da economia é a procura. A economia vai se puxada pela procura agregada, seja consumo, investimento ou exportações.
Vamos supor que o consumo, investimento e exportações são 80%, 20% e 40% do PIB. Se o consumo (investimento / exportações) aumentar 5%, o PIB irá aumentar 4.0% (15% / 2.0%, respectivamente). 
Isto parece ter toda a lógica.
 
Fig. 3 - Segundo a lógica keynesiana, para haver mais peixes, os tubarões têm que aumentar o apetite.
 
2. A despesa de uma pessoa é o rendimento de outra pessoa.
Quando tomamos um café, os nossos 0.60€ vão ser rendimento do dono do café. Depois, o sr. do café paga 0.10€ de água que vai ser rendimento dos vendedores de água e por aí fora.
Isto parece ter toda a lógica.
 
3. A despesa tem um efeito multiplicador.
Acompanhando o caminho da despesa ao longo de todos os agentes económicos por onde vai passando então, o 1€ inicial terá um efeito no rendimento de todas as pessoas muito maior que 1€ .
Vamos supor que cai 1.00€ do Céu. Esse 1.00€ vai ser rendimento de quem o apanhar que o pode gastar em consumo ou poupá-lo.
Se o poupar, é a mesma coisa que mandá-lo para o Inferno (as importações terão o mesmo efeito).
Vamos supor que 80% do rendimento é gasto em consumo.
Os 0.80€ gastos em consumo vão ser rendimento de outra pessoa que vai gastar 80%, 0.64€, em mais consumo. Este processo vai continuando, multiplicando o 1.00€ que caiu do Céu.
Consumo total = 0.80€ + 0.64€ + 0.51€ + 0.41€ + 0.33€ + 026€ + ... = 4.00€
Assim, o 1.00€ que cai do Céu vai ser aumentado na economia pelo multiplicador keynesiano resultando num total de 4.00€ de consumo adicional.
Estes 4.00€ adicionais de consumo são geradores de emprego e de receita fiscal que faz diminuir o défice público.
Isto parece ter toda a lógica.

Mas não tem lógica porque os euros não caiem do céu.
Então, primeiro, os esquerdistas keynesianos pensam que se pode substituir o "1€ que deveria ter caído do Céu mas não caiu" por "um financiamento pago com imposto sobre o consumo".

Vamos imaginar um imposto para financiar o 1€.
Pedindo 1€ emprestado, haverá um efeito na despesa agregada de 4€. Então basta cobrar 25% em cada transacção para termos 1.00€ de receita fiscal que vai ser usada para pagar o 1.00€ que deveria cair o Céu mas que não cai. Como o consumo total é de 4.00€, em cada transacção é preciso cobrar 25%.
O Galamba, e demais loucos do PS, são especialista nesta teoria a que a sr.a Merkel responde:
-Nicht, nicht, nicht, nicht, ihr seid völlig verrückt, und ich habe keine zeit für dumme lehren
Esta substituição até parece ter lógica mas não tem o efeito pretendido porque o "1€ que deveria cair do Céu" é exógeno à economia e por isso qualitativamente diferente do "1€ de receita fiscal que seria recebido se 1€ caísse do Céu".
O problema é que agora, a cada transacção, o rendimento do vendedor vem diminuído no valor do imposto:
 
Geração  Rendimento   Consumo      Imposto       Rendimento do vendedor
1               1.00€              0.80€            0.20€            0.60€
2               0.60€              0.48€            0.12€            0.36€
3               0.36€              0.29€            0.07€            0.22€
... ... ... ... ...
Total         2.50€             2.00€            0.50€

Somando agora todas as parcelas, o total da receita já só soma 2.00€ pelo que o imposto só consegue arrecada metade do previsto, 0.50€, não sendo suficiente para substituir o 1.00€ que deveria cair do Céu e não vai cair.
como precisamos de 1€ de receita temos que subir a taxa de imposto para 50%. Mas agora o consumo fica reduzido a 1.33€ e o Imposto sobe mas para apenas 0.67€.
Se o Imposto permitir obter o 1€, o efeito multiplicador fica nulo. Desaparece.
Mau.
Afinal não existe o milagre keynesiano do nada que se transforma no tudo.
 
 
Fig. 4 - O problema é que o Portugal precisava encontrar 1500 milhões de € por mês na rua para financiar as politicas keynesianas do tempo do Sócrates.

Pedir emprestado expande a economia mas, na hora de pagar, contrai.
No multiplicador keynesiano, a economia pode ser expandida à custa de endividamento externo mas existe o efeito contrário quando chegar a hora de pagar os valores em divida.
Mas todos nós sabemos da governação da nossa casa que, num momento de aflição, o endividamento externo alivia o nosso sofrimento, mas isso tem o reverso de, no momento de pagar, o nosso nível de vida diminuir.
Não é preciso grandes estudos para sabermos isto.

Como é a realidade (como pensam os clássicos).
Temos que nos concentrar na produção.
Com trabalho, as pessoas produzem bens e serviços. Se não houver produção, não pode haver consumo, investimento nem exportações.
Agora, a economia vai se empurrada pela produção agregada. Produzindo-se mais, aumentam os pagamento dos salários, juros, renda, lucros iguala o valor da produção pelo que havendo mais produção, haverá mais consumo, investimento, exportações e menos importações.
 
Mas sabemos que os cafés poderiam produzir mais mas que estão às moscas.
Este problema é microeconómico e traduz dificuldade de ajustamento, e termos micro, da economia.
Faz-me lembrar os directores dos cursos universitários que não têm alunos a alegar que há falta de natalidade quando se nega a ver que, no mesmo país, medicina tem milhares de candidatos. O problema está no produto deles não ter procura e não de, globalmente, haver falta de procura.
O sr. do café te o mesmo problema. As pessoas não querem cafés mas querem outra coisa qualquer.
O café tem que fechar para libertar recursos (trabalho e capital) para a produção de outros bens.
A afectação microeconómica faz-se pelo sistema de preços relativos: o que as pessoas querem, aumenta de preço e o que as pessoas não querem mais, diminue de preço.  
 
É o confronto entre o paradigma keynesiano e o paradigma clássico.
No pós-25-de-abril-de-1974, as nossas escolas de economia ficaram contaminadas pelo paradigma keynesiano. Como as universidade são instrumentos de lavagem do cérebro (quem não responder assim, reprova), as novas gerações estão contaminadas desde a nascença com o keynesianismo.
Mesmo o gasparzinho, nas suas previsões para o PIB, fala em consumo, investimento, exportações, importações (lado da despesa) quando deveria falar em "aumento do capital", "aumento do número de empregados", "incremento tecnológico" (lado da produtividade total dos factores).
O interessante é que as teorias keynesianas estão totalmente erradas mas parecem ter lógica.
 
Vamos imaginar um agricultor keynesiano.
Precisando aumentar a produção, pede ao governo para que lance politicas fiscais expansionistas que aumentem a procura interna. Vai defender o aumento dos salário (de todos os trabalhadores excepto o dele). Vai clamar por "politicas de crescimento".
O keynesiano vai estar dependente do resto do mundo para resolver os seus problemas. Vai barafustar contra tudo e contra todos mas vai acabar por não conseguir resolver o seu problema.
 
Vamos imaginar um agricultor clássico.
Vai optimizar o processo produtivo, plantando macieiras mais produtivas e procurando novas formas de organização do trabalho, de forma a conseguir conseguir produzir mais maças com os mesmos factores de produção.
O clássico vai optimizar a sua situação com as variáveis que tem à mão de forma a produzir mais e com menores custos de produção o que lhe permitirá baixar o preço de venda e, assim, conseguir vender mais (e ter mais lucro).
Acreditando no que tem à mão, o agricultor clássico consegue resolver os seus problemas enquanto que o keynesiano, dependente da NS de Fátima, não vai a lado nenhum.
 
Fig. 5 - Para vender mais é preciso plantar mais macieiras e das variedades que as pessoas querem comprar
 Pedro Cosme Costa Viera

sábado, 25 de maio de 2013

A desvalorização e a inflação

O Bernardo Moniz pergunta se desvalorização não leva a inflação.
Realmente, muita gente diz que a "desvalorização competitiva" leva obrigatoriamente a mais inflação que come essa desvalorização. Isto é repetido à exaustão até o meu amigo (ex?) Ricardo Reis mas não tem qualquer aderência à realidade. Nada, mesmo nada.

Porque se alteram os câmbios das moedas?
A desvalorização/valorização acontece para anular desequilíbrios da economia face ao exterior.
Se a balança corrente estiver deficitária, as reservas de divisas do banco central diminuem o que leva à desvalorização da moeda que encarece as importações e embaratece as exportações.
Se, pelo contrário, a balança corrente estiver superavitária, as reservas de divisas do banco central aumentam o que leva à valorização da moeda que embaratece as importações e encarece as exportações.
Este movimento de tesoura (importações+exportações) faz com que a desvalorização diminua o desemprego.

Porque a desvalorização não tem ligação com a inflação.
Porque a balança corrente deficitária acontece quando há desemprego elevado.
O motor da inflação começa nos custos do trabalho. Estando a taxa de desemprego abaixo da NAIRU (non-inflationary rate of unemployement), que é na ordem dos 6% da população activa, a desvalorização leva à diminuição do desemprego, aumento do PIB e não leva a aumento da inflação. No caso português, a taxa de desemprego de 18% é muito superior à NAIRU pelo que uma desvalorização, mesmo de 30% ,não teria qualquer efeito inflacionário.

Já estou farto de conversa, vamos a um exemplo.
Os nosso comentadores acham que uma desvalorização da nossa moeda em 30% seria uma tragédia total para o nosso país. Mas esquecem-se de dizer que, por exemplo, entre 2002 e 2004, o dólar americano desvalorizou 35% face ao euro (e 48%  entre 2001 e 2008) e não cosnta que tivesse acontecido nada de trágico por lá (ver, Fig. 1).

Fig. 1 - Cotação diária do USD/Euro, 4:1:1999 / 24:5:2013 (dados, BCE)


Como evoluiu a inflação nos USA?
A desvalorização americana entre finais de 2001 e princípios de 2004 poderá ser uma simulação do que irá acontecer a Portugal quando sairmos do Euro. eu penso que a desvalorização será bastante menor, metade deste valor, mas vamos ver este caso como um exemplo ilustrativo do nosso futuro.
Contrariamente ao que dizem os economistas da praça, no período de maior desvalorização do dólar americano, foi quando a inflação dos USA foi mais baixa. Se antes (e depois) a inflação era de 3.3%/ano, entre 2002 e 2004 desceu para 2.0%/ano (ver, Fig. 2).

Fig. 2 - Inflação USA 1:1999 / 5:2008 (fonte: tradingeconomics, US Bureau of Labor Statistics)

E o desemprego?
Ali por volta de 2001-2002 houve uma crise global que estava a fazer crescer o desemprego nos USA. Pumba, uma desvalorização de 35% e vamos ver o que aconteceu. O desemprego parou logo de aumentar e começou a descer até atingir os 4% da população activa.


Fig. 3 - Desemprego USA 1:1999 / 5:2008 (fonte: tradingeconomics, US Bureau of  Labor Statistics)

E como evoluiu o desemprego em Portugal?
Tivemos a mesma crise de 2001/2002 e, desde então, o desemprego não parou de crescer.

Fig.4 - Evolução do desemprego em Portugal (fonte: INE e exercício de previsão)

Penso que os dados convencem.
Penso que os dados que apresentei são irrefutáveis mesmo pela mente mais brilhante.
Quando há uma economia tem um desequilíbrio das contas externas (como temos) e uma elevada taxa de desemprego (acima da NAIRU), o caminho é a desvalorização não havendo risco de a inflação induzir um ciclo de desvalorização.

Sobre o palhaço do Miguel Sousa Tavares.
É completamente ridiculo o Cavaco Silva sentir a instituição Presidencia da Républica porque alguém disse que ele Cavaco Silva (e não o Presidente da República Portuguesa) é um palhaço.
Palhaço é uma profissão digna como sapateiro, ourives, professor, juiz ou médico. Todas as profissões são igualmente dignas.
Naturalmente que qualquer palhaço se pode candidatar à presidencia da república e, se o povo votar nele, teremos um palhaço a chefe de estado. Isso não faz com que o cargo seja palhaço.

Não foi nada grave.
O MST não disse que o povo deveria pegar em armas e derrubar o regime (como diz repetidamente o Otelo).
Nem chamou gatuno, vigarísta, tóxico como eu ouço regularmente na TV?
E aqui não é crime? É só o MST dizer que o Cavaco Silve é um palhaço?

É o retornar da técnica do Salazar
Para o Salazar não interessavam as massas mas atacavam individuo a individuo para fazer nascer o medo no individuo.
É como a técnica do Salazar de usar a "segurança do Estado" (que continua a ser um crime) para meter os opositores na cadeia.
É isso que se está a ressuscitar em Portugal: o medo.
Temos todos os dias que estar atentos para que o autoritarismo não renasça.

Estou em greve de fome em defesa da liberdade de expressão.
Hoje, entre as 10h30 e as 13h00, estou em greve de fome como luta contra o atentado às liberdade de expressão do MST.

Fig. 5 -Efeito de 2h30 de greve de fome e um toquezinho de fotoshop.

Pedro Cosme Costa Vieira

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Hoje é uma marretada na Ferreira Leite

A Ferreira Leite e a insutentável leveza da sua memória.
Quem ouve aquela velhadas pensa que está a escutar uma governanta exemplar que, enquanto foi Ministra da Finanças, manteve contas públicas direitinhas, que apenas se endividou a taxas de juro baixas e que reduziu mesmo o endividamento total da república.
Quando a madama de ferro portuguesa vem dizer, em altos berros, que a troika cobrar-nos 3%/ano é insustentável, rematando com a previsão de que, pelo caminho que vamos, o nosso destino é a bancarrota, leva logo a pensar que, no tempo dela, o caminho era outro.
Contenção, rigor, competencia acompanhado por crescimento económico.
Chega mesmo a dizer que "eu bem avisei mas ninguém me quis ouvir".
 
Fig. 1 - Pois certo, mas o que me interessa é que o povo continue ceguinho.
 
Mas eu sou mau.
Fui ao sitio do Instituto e Gestão da Dívida Pública (http://www.igcp.pt/), descarreguei a série temporal da dívida do Estado Português, estimei pelo MMQ a tendência e fiz um gráfico (ver, fig.2). Pensei que bastaria olhar para o dito gráfico para identifica o mandato da austera velhota de ferro mas devo ser ceguinho. Onde pára a D. Leiteira mais o austero Bagão Félix quando fez parelha com o Santanette?
 
Fig. 2 - Evolução da divida pública portuguesa, 2001-2013 (dados: IGCP)

Onde diabo se nota que uma senhora austera como aquela foi ministra das finanças?
Nota-se que em meados de 2011 há um salto na divida mas da senhora austera, nada.
Ou eu não vejo bem ou a austera senhora e o Bagão Félix acreditam que o nosso povinho é todo ceguinho como eu.
Para vermos o grande feito da madama e do Félix + Santanette, marquei os seus mandatos no meio dos do Guterres e do Sócrates (ver, fig. 3). Realmente, nem com um microscópio electrónico se vê quanquer diferença para a trjectoria do guterrismo socratismo.
Durante todos esses anos, a divida pública aumentou 8.76%/ano.

Fig. 3 - Não é possível a madama de ferro ter-nos endividado à mesma veloidade que os esquerdistas.

Diz a grande economista que 3%/ano é insustentável.
Já vimos que o problema da sustentabildiade da divida pública não deve estar no seu crescimento explosivo de 8.76%/ano pelo que deve estar na taxa de juro que pagamos. Afirmar a douta senhora que o empréstio da troika a 3%/ano é insustentável tem implícito que, quando a austera senhora foi ministra das finanças, o Estado Português se endividou a uma taxa de juro substancialmente menor.
Mas eu fiz mais uma maldade. Fui ao sitio do BCE buscar quais eram as taxas de juro que a madona pagava (a 10 anos que é um prazo menor que o da Troika). Para meu grande espanto, a Dr.a Ferreira Leite endividou o Estado Português à taxa de 4.45%/ano.
Até me benzi.
Então, 3%/ano é demasiado mas, na mão dela, 4.45%/ano já era perfeitamente aceitável.

E quanto foi o crescimento económico durante o seu mandato?
fiz mais uma trantantada. Fui ao sitio da eurostat e descarreguei os dados do crescimento do PIB daqueles 2 anos (nos 9 trimestres 2002:2-2004:2) da madama de ferro. A Eurostat só pode estar enganada porque o crescimento foi de 0.17%/ano.
Olha que grande caminho de crescimento que esta senhora trilhou.

Concluindo.
Falar e e dizer que se fazia isto e aquilo, não custa. O que custa é concretizar o que se diz (gritar?).
Enquanto a nossa comunicação social tiver jornalistas que estão mais preocupados em chamar pessoas que digam o que eles querem ouvir do que verificar a verdade do que as pessoas dizem, o nosso povinho vai sendo intoxicado.

Dr.a Ferreira Leite, responda-me a isto, p.f.
Achava sustentável, em 2002-2004, uma dívida pública a aumentar 8.76%/ano e a república pagar taxas de juro de 4.45%/ano?
Disse alguma vez, enquanto ministra das finanças, que um crescimento da dívida de quanse 9%/ano era insustentável e que algum dia teria que parar?
Pense agora comigo. Acabar com a tragectória de crescimento do endividamento do Estado não obrigará a Austeridade?
Ai já não se lembra do que disse ou fez?
Já fui a funerais em que o defunto, já cheirando mal, tinha um pensamento mais lúcido.

Fig. 4 - Senhor, [Ferreira Leite] já cheira mal, porque [já está morta há] quatro dias ... [mas Cavaco] clamou com grande voz: [Manuela], sai para fora. E [a] defunt[a] saiu [e começou logo a gritar: abaixo o Passos Coelho]. João 11:39-44

Pedro Cosme Costa Vieira

quarta-feira, 22 de maio de 2013

A reunião do Conselho de Estado

O Conselho de Estado, em teoria, serve para o Presidente se aconselhar sobre assuntos em que tenha dúvidas mas, pelo menos nas últimas reuniões, tem sido mais uma conferencia em que cada pessoa fala 10 minutos (dá 3h30m),  depois há um jantarzeco, um cigarrito e mais um período de conversa informal. O Presidente não quer conselhos mas "apenas" que a elite politica se entenda e faça menos ruido.
A última conferencia, que se chamou "Caminhos no pós-trika, da austeridade ao crescimento", teve por fim analizar para onde nos levou a "politica do crescimento" do PS dos últimos 15 anos e ver como, depois da bancarrota de 2011, nos podemos re-erguer.

Fig. 1 - Amigo Cavaco, não tenhas esperança porque a NS de Fátima nem capaz foi de safar os videntes.

Qual a tendencia de longo prazo da nossa economia?
Vamos imaginar que compramos um carro e decidimos nunca mais fazer manutenção.
Inicialmente é muito bom porque, ao não gastamos dinheiro em manutenção, temos mais dinheiro para andar a grande velocidade (que gasta mais combustivel), deixar os transportes públicos e fazer uns longos passeios de fins-de-semana à beira-mar. O problema é que, com o tempo, começa a aparecer um barulhinho aqui e outro acolá, um gri-gri que vem o motor, uma lampadazita sem importancia que deixa de dar.
Como se resolve o problema? Aumenta-se o volume do rádio e passa-se a andar em autoestrada.
Mas a natureza não perdoa e, com o andar dos kilómetros, o motor começa a aquecer e a deitar fumo preto e o carro acaba a ter dificuldade em acelerar. Para quem não quer ver, isto são problemas da crise internacional que reduz as octanas da gasolina.
Finalmente, quando ficamos parados no meio do caminho e o rebucamos para a oficina da troika, vem o veredito que há muito estava traçado: o carro tem que ir para a sucata.

De quem é a culpa?
Do mecânico que não soube dar a volta ao problema. O carro, até momentos antes de parar, tinha trabalhado sem qualquer problema, tantos e tantos kilómetros, e sem necessidade de oficina e agora, sem mais nem menos, o mecânico poe-lhe as mãos e destroi o carro para sempre.
Destroi-o completamente.

É isso, foi isso, será isso que aconteceu, acontece e vai continuar a acontecer com Portugal.
A promessa de que a Europa seria o Éden onde o consumo era o motor do crescimento economico, fez com que a poupança comessasse a diminuir. O povo começou a interiorizar que poupar era um entrave ao nosso desenvolvimento.
Do pensamento à acção vai um piscar de olhos. Elegemos o Guterres e o Sócrates, que aumentaram os impostos sobre o juros, sobre os dividendos e sobre tudo o que fizesse lembrar poupança. A estratégia era acabar com a poupança interna.
Estando nos anos 1980 a poupança liquida com um valor líquido positivo de 4% do PIB, depois de 1990 começou  a cair 0.40 pontos percentuais cada ano passando em 2003 a negativa. Isto traduz que, desde 2003, os activos dos portugueses são cada vez menos.

Fig. 1 - Evolução da poupança líquida portuguesa (poupança menos depreciação, dados: Banco Mundial)

Sem poupança não há crescimento económico.
Por mais que o Guterres e principalmente o Sócrates (quem não se lembra da promessa de criar 150 mil postos de trabalho?) tenha abandonado a austeridade do Cavaco e tenha avançado no pretenso caminho do crescimento económico baseado no consumo, os dados indicam exactamente o contrário. De forma muito clara, os dados indicam que, sem poupança, não existe crescimento económico. Considerando 1970-2011, por cada 1% do PIB que se poupe a mais, a taxa de crescimento do PIB per capita aumenta 0.72 pontos percentuais (ver, fig. 2).

Fig 2 - Relação entre poupança liquida e o crescimento do PIBpc português, 1970-2011 (dados: Banco Mundial) 

Tal como o carro foi começando a fazer barulhozinhos para indicar que a nossa politica de não gastar dinheiro em manutenção estava errada a que respondemos com o rádio mais alto, também a nossa economia começou a mostrar sinais de enfraquecimento que se esconderam com endividamento externo e gritaria política.
Desde o 25-de-abril-de-1974, cada ano que passa o nosso crescimento do PIBpc (potencial) vem diminuido em uma décima de ponto percentual. Uns anos está melhor, outros pior, mas, em tendência, tem caido continuamente até que chegou a zero. Agora, se nada for alterado, o PIB nunca mais crescerá de fora sustentável (ver, Fig. 3)

Fig 3 - Evolução do crescimento do PIB pc português (dados: Banco Mundial)


Sem gente a trabalhar, nada se produz.
Outro sinal de alarme foi o crescimento o desemprego (ver, Fig. 4). Além de vir a crescer continuamente desde a crise de 2002, a construção do guterrismo+socratismo de uma economia baseada no consumo e endividamento estava-nos a tornar menos preparados para o embate de qualquer nova crise que surgisse. E, tão certo como a morte, lá apareceu a crise de 2008.
Os dados mostram que a Troika não é a causa do nosso actual problema de desemprego pois este já vinha a crescer desde 2002 e já estava, desde 2008, com o crescimento acelerado (ver, Fig. 4).

Fig. 4 - Evolução do desemprego em Portugal (dados: Eurostat)

Claro que podemos sempre acreditar no discurso do Sócrates de que o desemprego foi causado pela crise internacional mas vou desmontar essa teoria retirando a taxa de desemprego da Zona euro da portuguesa.
Pegando na nossa taxa de desemprego relativamente à Zona euro, observamos que desde há muito anos que estamos a trilhar um caminho de divergência (ver, Fig 5). Mesmo nos "melhores anos" do Sócrates, quando nos endividamos face ao exterior à razão de 50 milhões de euros por dia, fins de semana incluídos, o melhor que conseguimos foi a estabilidade (ver, Fig. 5). Então, o nosso problema de desemprego não tem a ver com a crise internacional mas com uma tendencia de longo-prazo de destruição da economia. 

Fig. 5 - Desemprego em Portugal (dados: Eurostat)

E agora, o que discutir para o pós-troika?
É incrível como ninguém queira ver que as tendências nos encaminhavam para o fracasso total que vivemos desde 2011. Agora é preciso baixar o som do carro e ouvir todos os sinais, por mais pequeninos que sejam.

A vitória do FCP.
Aquele penaltezito não era falta para penalte mas o importante é recordar o que disse o Manuel Serrão sobre a vitória do FCP no campeonato.
A vitória é feita de pormaiores, aqueles jogadores que fazem muitos jogos, marcam muitos golos e são a primeira escolha do treinador, e de pormenores, daquele jogador que nunca jogou mas que entrou quando já ninguém tem esperança e resolve. Foi isso que aconteceu com o Liedson que num minuto justificou a sua contratação e ser um heroi do FCP.
"o Liedson pensa que jogou pouco mas a vitória foi feita com pormaiores e pormenores e o Liedson foi um pequeno pormenor quando fez a assistência, aos 91 minutos, mas que foi crítico para a vitoria do FCP frente ao Benfica" (Manuel Serrão, Maio 2013, citado de memória).
E sem os pormenores, de quase nada valem os pormaiores daqueles que carregam pianos. E vice-versa.
Vamos então ver o que temos que fazer para Portugal nunca mais cair numa situação de bancarrota e iniciar o caminho do crescimento económico.

Os pormaiores.
Aumentar a poupança e o investimento.
O investimento tem que aumentar mas não um investimento qualquer. A evidencia diz que o investimento baseado na poupança interna tem um impacto muito maior no crescimento do PIB porque é melhor controlado pelos empreendedores e não há a necessidade de pagar juros e dividendos ao exterior (que tem um efeito recessivo).
A poupança tem que aumentar 10 pp, dos actuais 13% do PIB para 23% do PIB, o que implica que o consumo tem que diminuir 10 pp, de 68% do PIB para 58% do PIB.
Precisamos de mais 17 mil milhões € de poupança e menos 17 mil milhões € de consumo em cada ano.
Os esquerdistas vão gritar que a redução do consumo tem efeitos recessivos. Pois tem, da mesma  forma que mudar o óleo do carro reduz o dinheiro disponível para comprar gasolina, mas sem isso, nada feito. Perde-se hoje para ganhar a multiplicar amanhã.

Aumentar o emprego.
Temos que reduzir o desemprego para valores normais, para os 6% da população activa.
Mas não podemos pegar nas pessoas e reforma-las argumentando que é preciso dar lugar aos novos. Tem que haver mais pessoas a trabalhar pois apenas com mais trabalhadores é que se consegue produzir mais. A redução do desemprego de 18% para 6% em 5 anos tem o potencial de aumentar, ao longo deste período, o crescimento do PIB em 2.8 pontos percentuais.
Os pormenores.
Agora o problema são os pormenores.
É muito fácil o descurso dos esquerdistas de que o caminho do crescimento passa por mais investimento e mais consumo, mais emrpego e mais salários. Mas isto são coisas incompatíveis.
Como é que vamos, com políticas concretas, aumentar a poupança e reduzir o desemprego?

Para aumentar o investimento 
Se queremos mais investimento, temos que aumentar a poupança que obriga a consumir menos e não mais.
Medida 1 - Para estimular a poupança é preciso diminuir a carga fiscal sobre os juros, dividendos e acabar com o IRC.
Eu pegava nos juros ou dividendos, retirava-lhes a inflação e só tributava, em sede de IRS, a parte que sobrasse.
Medida 2 - Como a maior parte a poupança é para fazer face aos imprevistos do futuro, é preciso aumentar o risco das famílias cortando as pensões, o subsídio de desemprego e a assistência médica gratuita.

No outro dia estava a almoçar com uns colegas.
Entre eles estava o Oliveira Marques por quem tenho grande amizade principalmente porque quando em 1997 fiz o mestrado, veio-me dar os parabéns. Entretanto chegaram uns alunos a quem eu disse que "vocês têm que trabalhar muito porque vão-nos pagar a reforma".
Claro que um deles atacou logo com o dito esquerdista "eu não sou responsável por divida nenhuma. Nunca fiz nada que levasse ao endividamento do Estado".
São alunos de um mestrado de Economia e inteligentes mas eu precisei de atacar logo.
Então não sabem que cada aluno que sai do secudário custou ao estado 60 mil €? São 6 mil milhões € por ano de despesa pública para o ensino.
E não sabem que cada licenciado (actual mestrado) comeu ao Estado mais 40 mil €?
Calaram-se.

Medida 3 - É preciso responsabilziar as pessoas quanto ao investimento público que o Estado faz nelas. Assim, acabar com o ensino gratuito vai aumentar a poupança e melhorar todo o sistema.

Para diminuir o desemprego
Medida 4 - Temos que dar uma hipótese ao ajustamento do mercado de trabalho permitindo que os salários nominais diminuam.
Quem afirma que os Estados Unidos têm as politicas correctas de combate ao desemprego, não se pode esquecer que o salário mínimo é de 5.25€/h (690€/mês), o que, comparando o seu PIB per capita (34600€/ano) com o nosso (16200€/ano), indica que o nosso SMN deveria ser qualquer coisa como 2.45€/h (325€/mês).
E existe total flexibilidade de pagar o salário que as partes chegarem a acordo.
Flexibilidade é dar liberdade contractual às partes, rasgar o código do trabalho e reduzir as relações de trabalho ao Direito dos Contractos.

Estaremos preparados para enfrentar o pós-troika?
Não.
Não estamos preparados para adoptar nenhuma das 4 medidas necessárias para começarmos o caminho do crescimento economico e do fim do desemprego.
Se colectivamente continuarmos a acreditar nos direitos adquiridos, a acreditar que o consumo é o motor do progresso, que o nosso mal é a troika então, não temos vontade de crescer. Vamos gritar bem alto que temos vontade mas as coisas não acontecem só por gritarmos que temos vontade.
É como os que alcoolizados: têm vontade mas a coisa não responde.
Vamos continuar no marasmo e as reformas apenas vão acontecer quando houver impossibilidade material de continuar na boa vida. Quando acabar a mama.

O programa de governo do PS.
O PS vai prometer,  como fez em 1995 contra o Cavaco e em 2005 contra o Durão, reverter todos os cortes do Passos Coelho + Gasparzinho.
O PS vai parar de cavar o buraco.
O PS vai acabar com a politica de austeridade e começar com a politica de crescimento.
O PS vai anular os cortes dos salários dos funcionários públicos, a CES das pensões dos indignados e vai re-admitir os desgraçados que entretanto caíram na Mobilidade Especial.
O PS vai descer o IRS, o IVA da electricidade e da restauração.
O PS vai aumentar o SMN.
O PS vai dar mais uns milhões à RTP, TAP e demais empresas públicas falidas para incentivar as empresas estratégia.
O PS vai assumir as dividas da Madeira.
O PS vai avançar com o TGV, com o túnel do Marão com mais não sei quantas auto-estradas e com o novo aeroporto de jamé.
O PS vai transformar as dividas ao Estado e à Segurança social em capital das empresas passando o Estado, com financiamento garantido pela CGD, a tomar conta de tudo o que está falido.
Esta é uma ideia brilhantemente burra pois traduz que o Estado vai garantir os salários dos trabalhadores de todas as empresas falidas. Mas nós já não tivemos distos no PREC?
O PS vai terminar o seu programa dizendo que, até ao fim da legislatura, vai criar mais 750 mil postos de trabalho.

Fig. 6 - Cruzando dois javalis com uma burra, dá o programa de governo do PS. Um javaburro.

Passado um anito ou dois.
Estará tudo cada vez pior.
Foi a destruição causada pelo gasparzinho, é a crise internacional, o preço do petróleo, a falta de solidariedade da Europa, blá, blá, blá e as taxa de juro voltam a subir para níveis insustentáveis.
São os mercados especuladores, os gananciosos, os sugadores dos países do sul mas lá terá que vir outra troika mas agora com um modelo diferente, mais do tipo do Chipre.
Novo memorando, novas eleições, novo governo com outro ministro parecido com o gasparzinho para mais uns anos de austeridade e repete-se o ciclo.
Vamos acabar por sair do Euro, mais certo que 2+2 serem 4. 
  
And Portugal goes on and on and on and on, so help us Madonna di Fatima. 
Pedro Cosme Costa Vieira 

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