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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A União Europeia também vai acabar, brevemente

A formação de alianças é uma resposta à adversidade do meio ambiente.
Aqueles programas de animais que dá nas TVs às 12h de Domingo são uma aula prática sobre a dinâmica que levou à criação da União Europeia e que justifica a sua existência.
Vemos nesses programas que, quando num território existem leões, os búfalos juntam-se em grandes grupos com os machos do lado de fora protegendo, com uma muralha de cornos afiados, as fêmeas e crias.
Em resposta ao ambiente hostil, os machos abdicam dos seus interesses individuais (comer e ter as fêmeas só para si) e cooperam na defesa da própria vida e da manada.
Quando não existem leões, os búfalos espalham-se pela pradaria e os machos concentram-se nos seus interesses individuais lutando todo tempo com os seus iguais para os atingir.

Porque será que se formam grupos?
Porque o perímetro da circunferência aumenta linearmente enquanto que a área do circulo aumenta ao quadrado. Então, 15 machos formando uma muralha exterior de cornos protegem uma área onde cabem 15 fêmeas (1 fêmea para cada macho) enquanto que 30 machos protegem uma área onde cabem 60 fêmeas (4 fêmeas para cada macho).
Se, em condições adversas, um macho fica sozinho, é imediatamente submetido pelos leões.
A defesa à adversidade externa é a força que mantém unido o grupo.

Porque se desfazem os grupos?
Pertencer a um grupo também tem um lado negativo pois os indivíduos mais fortes, que poderiam derrotar todos os seus irmãos, têm que partilhar com os mais fracos a erva e as fêmeas.
Então, existe também uma força de repulsão que faz os individuos querer ser independente: a não partilha dos recursos escassos.
É por esta última razão, a partilha do petróleo, que o Kuwait nunca se quis unir ao Iraque.

Fig. 1 - A CEE, no contexto da Guerra Fria, construiu uma muralha de cornos 

Como construímos as nossas amizades de infância? 
Havia um matulão que queria bater em toda a gente e nós, os fracotes, formávamos um grupo que, pelo número, se tornava mais forte que o matulão individualmente. 
As amizades da guerra são das mais fortes que existem porque os soldados, em presença de um ambiente extremamente hostil, têm que formar grupos coesos e desenvolver uma confiança cega nos camaradas.
Por essa razão é que, na Gestão, nos programas de "Team Building" os indivíduos são colocados em ambientes onde se sintam desconfortáveis.

O tamanho e coesão do grupo é um equilíbrio entre as forças de repulsão e de atracção.
Quando a ameaça externa aumenta, a força de atracção sobrepõe-se à força de repulsão tornando o grupo maior e mais coesa. Quando a ameaça externa diminui, a força de repulsão torna-se dominante e o grupo diminui de dimensão e de intensidade.

Onde esta conversa explica a existência da União Europeia?
Quando a CEE - Comunidade Económica Europeia foi fundada em 1957, vivia-se na Guerra Fria e os países eram muito fechados.
Era muito pequeno o comércio de bens e serviços (as taxas alfandegarias eram muito elevadas).
Não havia mobilidade de pessoas. Os mais velhos recordam que era quase impossível obter um passaporte; que para se ir comprar uns caramelos a Espanha era preciso Visto e éramos revistados à saída e à entrada;  que era impossível ir trabalhar para um país estrangeiro.
A situação mais grave foi a construção da "Cortina de Ferro" para evitar que as pessoas saíssem da Europa de Leste.

Fig. 2 - No pós-WWII, a Europa Ocidental ficou cercada pela ameaça soviética a Leste e a islâmica a Sul

Mas essa fase foi, lentamente ultrapassada tendo a ameaça soviética acabado em 1991 com a queda do muro de Berlim e o comércio internacional no Mundo foi crescendo a uma cadencia constante. De 12% do PIB em 1960, o comercio internacional aumentou até os actuais 27% do PIB (ver, Fig. 3).

Fig. 3 - O comércio internacional tem aumentado 0.32 pp por ano
(dados: Banco Mundial, grafismo do autor)

O comércio internacional é muito importante
Porque permite que os países se especializem nas actividades em que têm vantagens comparativas. Por exemplo, em Portugal importamos algodão que usamos na tecelagem de lençóis que exportamos com lucro. Como o nosso clima não permite cultivar algodão, se não houvesse comércio internacional não poderíamos produzir e exportar têxteis e vestuário.

O comércio internacional da União Europeia tem aumentado mas ...
Mas esse aumento está paralelo com a média mundial. Assim, não resulta directamente do processo de integração europeia mas antes de cada vez mais países tomarem consciência de que a abertura das economias, as exportações e as importações e a movimentação de capitais, pessoas e ideias, é um factor muito importante do seu desenvolvimento.
Essa tomada de consciência levou a que, de um mínimo de 13 países em 1949 e apenas 26 em 1961 (no GATT), actualmente já façam parte da OMC - Organização Mundial do Comércio 156 países.
Actualmente, até Cuba e o Zimbabwé acham vantajoso pertencer à OMC.
O crescimento do comércio internacional que se observou no interior da União Europeia (de 20% do PIB em 1960 para os actuais 40% do PIB) está em paralelo com o que se tem observado na média do Mundo (ver, Fig. 4).
Fig. 4 - O comércio internacional nos países da UE e no Mundo (dados: Banco Mundial, grafismo do autor)

E até houve zonas do Mundo, fora da UE, onde o crescimento do comercio internacional foi muito superior. Por exemplo, a China e a Índia aumentaram o comércio internacional de cerca de 3.5% do PIB em 1970 para cerca de 30% do PIB actualmente (+ 0.6 pp/ano).
Por contrário, o Brasil mantém-se uma economia muito fechada tendo apenas subido de 7% do PIB (nos anos 1960) para os actuais 12% do PIB.

Como as ameaças acabaram, vêm ao de cima as forças que afastam os países
A principal força que empurra a UE para a dissolução é as pessoas do Sul da Europa acharem-se com direito a ter o mesmo nível de vida económico das pessoas do Norte da Europa e os do Norte da Europa não estarem disponíveis a transferir parte do seu rendimento para que essa ideia se materialize.
Quando havia a ameaça soviética, a Alemanha via essas transferencias como o "preço da paz". Agora que a Rússia se tornou um país quase normal, acabou a necessidade de pagar por uma coisa que está naturalmente garantida.
Os países do Norte da Europa não estão mais disponíveis para ajudar ao sustento dos do Sul pois têm o guarda chuva da Organização Mundial do Comercio, a ameaça da União Soviética acabou e a ameaça islâmica não se está a mostrar perigosa (e afecta mais os países do Sul que lhe estão mais próximos).

A tese de termos direito ao mesmo que os alemães é perigosíssima porque parece justa.
Porque diabo não podem os portugueses ter o mesmo rendimento que os alemães se somos todos feitos de carne e osso e até trabalhamos mais horas?
Vejamos com uma comparação como esta tese é perigosa.
Imagine que os habitantes da Quinta do Mocho (um bairro de Sacavém, Lisboa onde a generalidade das pessoas é pobre, tipo favelados do Brasil), se achavam com o direito de viver tão bem como os do Restelo (bairro fino de Lisboa) tendo as mesmas casas, os mesmos carros, passar férias nos mesmos sítios, etc.
Como é que isto se iria fazer?
Só se fosse com um generoso subsídio para a maioria das pessoas que vive no mocho pago com um pesado imposto sobre as que vivem no Restelo.
Caso contrário, os do Mocho dariam cabo do Restelo.

Fig. 5 - Moleque de favela já nasce com cara de marginal.

Agora vemos que o argumento da igualdade Norte-Sul não tem lógica.
À escala da Europa passa-se o mesmo não sendo possível acabar com as diferenças que existem entre o Norte e o Sul.
Viver na Europa do Sul tem vantagens (clima, vida relaxada) e inconvenientes (menor produtividade) não sendo possível manter as vantagens e exigir a anulação dos inconvenientes.
Por contrapartida, os Alemães quereriam o clima e o relaxe do Sul da Europa.
Isso só aconteceria se os alemães fossem viver para o Sul e todos fossem trabalhar para a Alemanha.
Isso não é fisicamente possível.

Mas subsistem algumas ameaças.
Como já não podemos justificar a existência da Zona Euro (e, em última análise, da UE) e as consequentes transferências de recursos do Norte para o Sul com as vantágens internas e ameaças externas, queremos justificar a sua existência com as ameaças internas, com o cataclismo do seu fim.
Todos rezamos para que a dissolução da Zona Euro e da União Europeia cause um prejuízo terrível principalmente à Alemanha e demais países do Norte.
É quase como os suicidas que procuram, com a sua explosão, causar no inimigo mais do que um morto.
Se ouvirmos o discurso dos esquerdistas, vai ser terrível porque a Alemanha não terá para onde exportar os seus Mercedes.

Mas isso é tudo mentira
Uma União Europeia em que cada país mantem as suas contas equilibradas é um factor de progresso da Alemanha mas tem que ser pesado o custo que a UE tem ao contribuente alemão e o benefício comercial que daí retira.
Neste momento, os custos estão maiores que os benefícios.

Fig. 6 - Amor, fiz 5 operações plásticas para ficar mais elegante. Acreditas?

Nós não só importamos da Alemanha como também exportamos para lá.
Portugal exporta 500 milhões de euros de bens para a Alemanha onde os automóveis têm um peso de 30%.
E será mais difícil para os países do Sul da Europa competir no mercado mundial que à Alemanha.


Fig. 7 - Importações e Exportações para a Alemanha (dados: INE, grafismo do autor)


Fig. 8 - Por cada euro que importamos da alemanha, exportamos 0.90€ (dados: INE, grafismo do autor)


Acabado ou reduzido o projecto União Europeia, continuaremos todos sob o guarda-chuva da OMC.
E manter-se-ão os acórdos multilaterais enquanto forem do interesse mútuo dos países onde se inclui, por exemplo, o FMI e a Interpol.
Estando a aumentar as forças de divisão (o custo de manutenção) e a diminuir as forças de união (os ganhos do comercio e as ameaças externas), é de prever que a UE vá diminuindo de intensidade transformando-se, a média prazo, em algo parecido com o MERCOSUR, depois a uma associação do tipo dos PALOPs e, finalmente, à nossa "mais velha associação do mundo" com a Inglaterra (transforma-se em nada).

Fig. final - Do quarto do hotel onde estou de férias vê-se Manhattan. Vamos amor, cansar.


Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 27 de julho de 2012

A licenciatura, o dr. Relvas e a desvalorização do Escudo

Este ano leccionei a disciplina de Seminário de Economia 2
que é uma disciplina que vem responder ao Paradigma de Bolonha de o aluno "aprender a aprender". Assim, "obriga-se" o aluno a tornar-se capaz de aprofundar o seu conhecimento sobre um determinado tema acedendo a fontes de informação seleccionadas por si (fora da tradicional aula expositiva).

O que representa ser licenciado.
Pressupõe ter autorização, licença, para exercer uma profissão complexa.
Um licenciado (a exercer uma profissão), quando se depara com um problema para o qual não tem resposta imediata, tem que ser capaz de criar uma resposta sólida pela procura e estudo por si próprio das fontes de informação disponíveis (referindo as fontes).
Mas os nossos alunos, portugueses, têm muita dificuldade em desenvolver esta capacidade de aprender sozinhos porque a nossa cultura académica está cimentada numa tradição secular de "exames sem consulta" onde as respostas são de memória e à autoridade desse "conhecimento livresco".
E como a memoria tem falhas, o aluno tem que concentrar o seu estudo nas vésperas da prova ("para manter a matéria fresquinha") e, quando interrogado decorridos uns meses, diz:
- Devo ter aprendido isso numa cadeira qualquer mas já foi há tanto tempo que não me lembro de nada - quando a resposta deveria ser:
- Posso dar agora algumas indicações genéricas sobre o assunto mas preciso de algum tempo para poder dar uma resposta fundamentada a esta questão concreta.

Fig. 1 - Aprendi isso na cadeira de Natação I, mas já não me lembro de nada!


Num programa de artes marciais passado na televisão
Entrevistador
- Mestra Coissarópa, que diplomas precisou obter para ser mestra desta arte marcial?
Diz a mestra
- Cara, nenhum. Comecei praticando, como todo o mundo, aqui na praia. Um dia, estava fazendo uma técnica e um dos moleques me pediu para eu lhe explicar.
- Depois veio outro e outro e outro e os moleques começaram me chamando Mestra.
- Não sou mestra da universidade mas todo o mundo me pergunta coisas que eu explico e, como gostam, me vão chamando mestra.
- Minha mãe também é mestra, doceira.


Fig. 2 - Me chamam a mestra do corpo esculturau. H i i i i u u u pumba.

Existem profissões em que é preciso uma acreditação institucional mas outras não.
As profissões complexas em que é difícil verificar a competência profissional durante a execução das tarefas, obrigam a que haja um processo de aprendizagem, avaliação e certificação das competências profissionais do individuo antes de este iniciar a profissão.
Por exemplo, uma pessoa não pode começar a dar consultas médicas, primeiro tratando doenças simples e aprendendo com a experiência que vai adquirindo para depois ficar médico de corpo inteiro. Assim, uma pessoa antes de começar a "dar consultas" precisa frequentar e ter aprovação a determinadas disciplinas leccionadas numa universidade credível.
Pelo contrário, também existem profissões complexas, mas em que é fácil verificar a competência do profissional (pelo cidadão comum). Neste caso, já é possível que uma pessoa inicie a profissão sem ter "licenciatura".
Por exemplo, cozinhar é complexo mas, como vemos imediatamente no sabor da comida a competência do cozinheiro, ninguém vai a um restaurantes por o cozinheiro ser licenciado por uma universidade.
O nosso Cristiano Ronaldo está mais do que licenciado para o futebol.

Mesmo nestas profissões, a escola é muito importante
Porque os professores seleccionam e sistematizam o conhecimento necessário à formação do profissional tornando o processo de  desenvolvimento das capacidade do indivíduo mais rápido e eficiente.
Apesar de uma pessoa extraordinário poder transformar-se num bom profissional, apenas a escola está preparada, apesar de muito teórica, em ajudar à pessoa tornar-se um profissional extraordinário.

Vejamos o exemplo positivo da UTAD nos vinhos.
Apesar de durante centenas de anos o fazer vinhos de qualidade ser algo adquirido em família e pela experiência, desde que a UTAD lançou a licenciatura em enologia, apesar de a nota média dos alunos que o frequenta ser baixa, veio permitir um enorme desenvolvimento dos vinhos de mesa do Douro e Verdes.
Não é por acaso que, nos últimos anos, os vinhos criados mesmo em pequenas adegas, têm atingido posições de pódio em concursos internacionais cegos onde também são avaliados vinhos das melhores regiões do mundo, como, por exemplo, a região de Champanhe.

Mas a licenciatura também serve para encobrir fraqueza e incompetência.
Muitos dos licenciados são pessoas normais que se tornam profissionais apenas "suficientes".
Pelo contrário, também existem pessoas extraordinárias que não tiveram oportunidade de se licenciarem e que mesmo assim se transformaram em profissionais "muito bons".
O Paradigma de Bolonha pretende que estas pessoas excelentes se tornem ainda melhores.
Mas, normalmente, quando um licenciado "suficiente" se cruza com um extraordinário que é "muito bom" mas sem escolaridade, usa a sua licenciatura para o diminuir.
Por exemplo, quantos "actores com conservatório" desconhecidos já ouviu na TV dizer mal "desses que fazem coisas mas que nunca tiveram conservatório"?


A Declaração de Bolonha (wiki)
Havendo na Europa um choque entre a cultura anglo-saxónica (onde as competências são mais importantes que os diplomas) e a cultura latina (onde os diplomas são mais importantes que as competências), houve necessidade de compatibilizar o sistema de diplomagem.
Como a cultura anglo-saxónica se tem mostrado mais competitiva, foi usada como modelo.
A Declaração de Bolonha foi transposta para Portugal pelo Decreto-Lei 74/2006.

Agora e principalmente nos países que apenas adoptaram recentemente esta filosofia, quem já exerce a profissão de forma competente (de facto), "deve" ficar licenciado para o seu exercício (de jure) porque:




Art. 5.º - O grau de licenciado é conferido aos que demonstrem:
     a) Possuir conhecimentos e capacidade de compreensão ... [acima do nível secundário]
     b) Saber aplicar os conhecimentos ...
     c) Capacidade de resolução de problemas ...
     d) Capacidade de recolher, seleccionar e interpretar a informação ...
     e) Competências que lhes permitam comunicar informação, ideias, problemas e soluções ...
     f) Competências de aprendizagem ...  ao longo da vida com ... autonomia.

Mas não se quis uma validação de competências
Poderia ser previsto que "a admissão às ordens profissionais mediante aprovação num exame de ingresso na profissão é equivalente à obtenção de uma licenciatura num sistema de ensino tradicional". 
Talvez fosse uma avaliação difícil de fazer, mas seria possível de realizar.

Temos um sistema misto.
Sob o pressuposto de que o candidato tem em vista o prosseguimento de estudos,  o estabelecimento de ensino superior (é o que diz o par. 1º), reconhece, através da atribuição de créditos, a experiência  profissional e a formação pós-secundária do candidato (é isto que diz a al. C).
Nesta parte, a escola pode sujeitar o candidato a provas de avaliação. Essa avaliação pode ser curricular (projectos que realizou, obras que publicou, etc.) e ser um conjunto de provas.

Por exemplo, o Título de Agregado concedido pelas universidades portuguesas como o mais alto grau académico (acima do Doutoramento, do Mestrado, da Licenciatura e do Bacharelato) é um processo deste tipo em que o há uma avaliação e discussão do currículo do candidato que também faz prova da sua capacidade pedagógica e é sujeito a perguntas.
Não tem aulas nem necessidade de aprovação em disciplinas.

Foi isso que aconteceu com o Relvas.
Mas qual é a profissão do Relvas?
Não é um médico cirurgião, um engenheiro que realiza uma ponte ou um advogado que faz um contrato que exigiriam, concerteza, uma acreditação prévia por uma entidade reconhecida.
A profissão do Relvas cai naquelas licenciaturas que não são nada em concreto do tipo Relações Internacionais, Comunicação, Ciência Politica, Relações Públicas, Marketing Relacional, Sociologia das Organizações, etc., etc., etc. que servem apenas para concursos públicos e para não ser preciso sabermos o nome da pessoa porque passamos a chamá-la "doutor" ou "doutora".
É uma profissão complexa mas vive mais de aptidão pessoal do que da instrução obtida numa universidade. Mas melhora.

O Relvas teve 10 valores na "experiência profissional".
Certo dia, o Relvas pensou em "prosseguir os estudos" e não apenas pedir uma validação das suas competências. Quis melhorar, tornar-se melhor profissional.

O Relvas já tinha o ensino secundário pelo que, tendo em vista o prosseguimento de estudos, o estabelecimento de ensino superior (é o que diz o par. 1º), reconheceu, através da atribuição de créditos, a experiência profissional e a formação pós-secundária do candidato (é isto que diz a al. C).

À data, a experiência profissional do Relvas, ser deputado e outras coisas que não me lembro, foi considerada extensa (deu 150 em 180 créditos) mas de pouco valor porque só lhe atribuíram a classificação de 10 valores.
Provavelmente, se fosse agora, teria a mesma extensão de equivalências mas com mais valores. Tal qual como se eu refizesse agora o exame da 4.A classe, teria melhor classificação.

Será errada a filosofia que levou à licenciatura do Relvas?
Não acho.
O argumento tem sido "andei anos a queimar pestanas para estar no desemprego e esse fez 4 cadeiras e já se chsma doutor".
São as criticas dos licenciados intrinsecamente fracotes e que não dão em nada.
São daqueles que dizem "eu sou licenciada em Canto pela melhor universidade portuguesa e estou desempregada porque metem n'A Tua Cara Não Me é Estranha aquele Lucy que só tem a 4.A classe".
Todas as pessoas têm que ter a esperança de ver o seu esforço reconhecido. Sendo que na nossa sociedade isso passa por ser "doutor", então é necessário que as universidades estejam abertas a acolher os profissionais de grande potencial. 

Vamos agora à pergunta do exame.
Eu fiz uma pergunta curta mas dificil a que os 6 alunos não conseguiram dar resposta. Mas esforçaram-se e apresentaram alguma coisa da literatura pelo que, juntamente com as minhas colegas, atribuímos 10 valores a 5 deles.
A a dúvida deles era se eu era capaz de dar resposta à questão. Vamos a ver o que eu sou capaz de dizer.

Tema: Fundamentando a sua argumentação na teoria económica e na evidência empírica publicada além de dados disponibilizados pelas instituições de referência mundial, e.g., o Banco Mundial, construa um texto em que avalie o impacto da desagregação, total ou parcial, da actual Zona Euro. Em particular, avalie como irão evoluir não só as cotações das novas moedas e do euro mas também o PIB e o desemprego nas economias europeias.

Primeira parte: o que diz a teoria económica
A) Diz que os preços relativos entre os bens que nós produzimos internamente e os que são produzidos no exterior equilibram a nossa balança comercial. Se os nossos preços aumentam (em relação ao exterior), as exportações diminuem e as importações aumentam (e vice-versa). Como a Balança Comercial é uma componente muito importante das contas com o exterior, uma desvalorização da moeda causará o equilíbrio da nossas contas com o exterior (a Balança Corrente).
Os alunos teriam que meter uma referencia a um livro de macroeconomia onde este mecanismo estivesse explicado para ficar fundamentado.
B) Diz que no mercado de trabalho existe a curva da oferta (que é crescente com o salário real) e a curva da procura (que é decrescente com o salário real). Diz ainda que, havendo desemprego acima do "desemprego natural", o salário real tem que descer para o mercado equilibrar.
Se a moeda desvalorizar (e os salários subirem menos que a taxa de desvalorização), o seu valor real diminui (fica menor o poder de compra dos salários). Então, a desvalorização vai diminuir os salários reais que faz diminuir o desemprego.
Os alunos também teriam que meter uma referencia a um livro de economia do trabalho ou microeconomia.

Segunda parte: arranjar uns dados. 
Agora seria preciso estimar quanto o nosso escudo irá desvalorizar para equilibrar as nossas contas externas e o nosso mercado de trabalho.
Como fui buscar trabalhos que dizem que estas duas variáveis estão ligadas no mesmo sentido, vou comparar a situação actual (em termos de taxa de câmbio real) com o período em que tínhamos as nossas contas externas equilibradas (1990-1995) e em que a taxa de desemprego era baixa (nos 5%).

Fig. 3 - O Escudo irá desvalorizar cerca de 12%. Na abcissa está a taxa de cambio real relativamente a 1990 (dados: Banco Mundial

Feitas as coisas, até parecem simples e aquelas previsões catastrofistas de que o Escudo irá desvalorizar 50% ou mais não passam de tentativas para assustar o povinho.
A Fig. 3 confirma que o desequilíbrio da Balança Corrente acontece ao mesmo tempo que o aumento da taxa de desemprego (que já tinhamos descoberto pelo estudo da teoria).

Terceiro, o trabalho vinha enriquecido com as políticas alternativas à saida da Zona euro
Se o governo aplicar o corte dos subsídios de desemprego e de Natal a todos os funcionários de forma a reduzir a TSU em 6 pontos percentuais (que diminuirá os custos do trabalho em 5%) e o aumento do horário de trabalho em 0.5h/dia permitir ganhar mais 5%, a nossa economia equilibrará.
Isto porque associado à diminuição dos custos do trabalho, virá uma diminuição dos preços dos bens e serviços produzidos em Portugal.


Fig. 4 - Eu sou muito pessimista, mas estes números parecem-me razoáveis e nada catastróficos.

Nota Final para as minhas colegas detratoras
Esta é a primeira vez que a correcção de um exame é publicada num blog.
É o progresso.

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Santo Aleixo vai expulsar os PIIGS

Em 1980, Santo Aleixo do Mendigos era uma pequena aldeia no meio de um grande descampado.
O seu povo era calado e respeitador da paz e silêncio dos vizinhos. Pareciam alemães.
A uns quilómetros da aldeia e no meio do descampado, viviam 5 familias de ciganos denominados por PIIGS (as familias Patruscos, Ionescos, Ilinescos, Garranos e Santaneiros).
Nos acampamentos o povo cantava, os cães ladravam, as crianças gritavam, as mães berravam, os pais davam tiros de caçadeira para o ar. Era barulho dia e noite.
Certo dia o patriarca foi à aldeia e voltou com uma novidade.

 - Estive na aldeia e é um silêncio, uma calma, um respeito pelos vizinhos. É verdadeiramente repousante. Se fossemos viver para lá até ganhávamos saúde.

Cada um disse:

 - Aqui é uma barulheira terrível, uma falta de respeito. Vamos para a aldeia senão, qualquer dia mato estes gajos todos.

Fig. 1 - Tocavam disto dia e noite

O processo de convergência
O patriarca foi falar ao Presidente da Junta e lá lhe contou que estavam fartos de barulho e que se queriam mudar para a aldeia.
Então, pensando que a união ia melhorar o comércio na aldeia, o Junta e os PIIGS assinaram um tratado com 5 condições:
    1.ª condição. Os PIIGS mudam o acampamento 1 km para mais próximo da aldeia.
    2.ª condição. Enquanto se ouvir barulho na aldeia, os PIIGS ficam aí.
    3.ª condição. Quando se deixar de ouvir barulho, os PIIGS avançam mais 1 km. 
    4.ª condição. Quando os PIIGS encostarem à muralha podem passar a viver na aldeia.
    5.ª condição. Uma vez dentro da aldeia, nunca mais precisam sair.

Fig. 2 - Foi assinado um tratado mas que não era para cumprir

A evolução da situação
Os PIIGS foram-se aproximando e em 2000 passaram a viver dentro da aldeia.
A princípio parecia estar tudo a correr bem mas, com o tempo, os PIIGS começaram a pôr a música um pouco mais alta.
O Junta foi falar com o patriarca para ver se ele reduzia de novo a música.

- Vocês estão a querer mandar em nós só porque somos ciganos. A nossa cultura é fazer barulho. Nós não somos alemães.

Retorquiu o Junta:

- Mas homem, vocês vieram para cá para gozar do silêncio e agora estão a perturbar a paz. Vamos ter que um procedimento por incumprimento do tratado.

Veio o procedimento por incumprimento que não deu em nada 
No dia de S.to Aleixo a música tinha tocado até tarde e os PIIGS usaram esse precedente.
Então, o procedimento por incumprimento foi arquivado.
Depois de não dar em nada, os PIIGS compraram cães que começaram a ladrar toda a noite, violas para tocar dia e noite, voltaram aos tiros e a atirar lixo para tudo que era sítio.
E começaram-se a queixar ao Junta do barulho e da desarrumação.
Que a Aldeia tinha que lhes insonorizar as barracas porque não podiam viver assim.

- Mas homem, vocês é que têm que deixar de fazer barulho. Vocês quando vieram para cá disseram que não queriam barulho e não estão a respeitar isso.

- Lá está você, imperialista, explorador sanguinário, mercado sem rosto, está a querer mandar em nós, uma cultura milenar. Nós não somos alemães

Fig. 3 - Podes ser muito boa pessoa mas não aguento mais os teus berros toda a noite.

E agora? 
Não há outra solução que não seja rasgar o artigo 5.º do tratado e expulsar os PIIGS de volta ao descampado.
Como é possível convencer os PIIGS que são eles que fazem o barulho?
Por um lado dizem querer silêncio mas, por outro lado, berram toda a noite.
A única solução é pô-los a andar.

O caso português
Nós entramos na Zona Euro porque queríamos taxas de inflação baixas (para ter juros baixos).
No entretanto subimos os salários como se houvesse inflação e não cumprimos nada a que nos tínhamos comprometido.
Agora que estamos em bancarrota gritamos a pedir taxas de inflação mais altas.
Que os alemães não nos deixam mandar na nossa vidinha. Que nos querem colonizar.

Não há paciência.

Pedro Cosme Costa Vieira

domingo, 13 de novembro de 2011

O BCE não pode imprimir notas

Pergunta-me o Passos Coelho.
- O meu país está com elevado desemprego e o Seguro e o Cavaco dizem que o BC deve inundar tudo com notas.
- Será boa ideia eu também defender isto ou fico na fotografia com cara de burro?

A Curva de Phillips
Existe uma observação dos finais dos anos 1950, a Curva de Phillips, de que nos anos em que há maior inflação, a taxa de crescimento do PIB também é maior.
Como o desemprego diminue quando aumenta o PIB então, verifica-se nos anos 1940-1950 que, quando a inflação é maior, a taxa de desemprego é menor (e vice-versa).
Não havia uma teoria forte que justificasse esta relação mas, com o tempo, ela foi-se entranhando nas pessoas.
Nos anos 1960 começaram a aparecer políticos que prometiam usar a inflação para combater o desemprego e, como consequência, a inflação começou a ser usada como um instrumento de política.
A ideia seria aumentar a inflação nos anos de crise e diminuí-la nos anos de expansão económica.
O que aconteceu foi que a inflação foi aumentado e, de repente, explodiu.

Fig. 1 - Evolução da taxa de inflação na OCDE (fonte: Banco Mundial)

Dizem que o salto de 1973 foi por causa da crise do petróleo mas, a  imposição pelos países produtores de petróleo de subidas nos preços, é antes uma resposta ao aumento da inflação dos anos 1960 sem a correspondente correcção dos preços do petróleo.

Como se relaciona o crescimento com a inflação
Se pegarmos nas taxas de inflação e a taxa de crescimento do PIB dos países da OCDE nos anos disponíveis no Banco Mundial e estimarmos a relação entre as duas variáveis vemos que não existe nenhuma relação. O coeficiente de correlação linear é de apenas 0.034.

Fig. 2 - Relação entre a taxa de inflação e de crescimento do PIB na OCDE (fonte: Banco Mundial)

Estimei (WLS usando a população como ponderador) que

      Cresc_PIB = 2.598 + 0.0202Tx.Inf, R2 = 0.12%

A relação é positiva mas muito pequena e não é estatisticamente significativa (P H0 = 24.5%)
Apenas 0.12% da variação do crescimento é explicada pela variação na taxa de inflação.

Se a relação fosse significativa (e não é), para aumentar a taxa de crescimento do PIB de 1% para 3% seria necessário aumentar a taxa de inflação de 2% para 102%/ano!


O Cavaco e o Seguro estão 30 anos desactualizados.
No principio dos anos 1980 concluiu-se que a Curva de Phillips existe mas que não é um instrumento de política.
Se o BC tiver uma política rigorosa de controlo da inflação, nos anos de crise a inflação desce significativamente o que faz com que exista, uma relação positiva entre taxa de inflação e crescimento.
O BC não consegue controlar perfeitamente a inflação quando há crises.

Fig. 4 - Relação entre as crise de 2007 e a quebra na taxa de inflação (fonte: BCE)

Fig. 5 - Curva de Phillips na Zona Euro (fonte: BCE)

No entanto, o BC não pode usar esta relação invertendo a causalidade.
Se emitir moeda nos períodos de crise, isso não tem qualquer efeito no crescimento do PIB ou no combate do desemprego e descontrola a taxa de inflação.

A Hiper-inflação alemã 1914-1923.
É repetidamente dito que a Alemanha não quer inflação porque teve um período de hiperinflação que levou o Hitler ao Poder.
Na minha opinião as razões estão mais próximas, na década de 1970, em que os alemães verificaram que a inflação apenas leva a nada mais inflação e impossibilita a emissão de dívida pública de longo prazo.
Por exemplo, o Japão que hoje tem um objectivo de inflação de 1%/ano, em 1973 tentou responder à estagnação com 23% de inflação e não de em nada.

Pedro Cosme Costa Vieira

terça-feira, 30 de agosto de 2011

É preciso dar uma passo atrás

A Europa vive em crise e, contrariamente ao defendido por alguns, é preciso dar um passo atrás.
Neste post vou justificar o porquê de a estabilização da União Europeia obrigar a alterar a estrutura da Zona Euro: os PIIGS têm que sair.


Guerra e paz.
A tendência dos povos é oscilar entre a guerra e a paz.
No período de paz a economia desenvolve-se e os povos melhoram o seu nível de vida.
No período de guerra a economia regride e os povos pioram o seu nível de vida.
Como a guerra prejudica o agredido e o agressor, é irracional que os povos não levem uma perene convivência pacífica.
Onde estará a racionalidade da guerra?
Todos os dias há noticias de novas guerras pelo que tem que haver uma racionalidade nisso.
Em 1928 um economista, Cournot, começou a desvendar este mistério ao criar o conceito de comportamento estratégico.

Teoria do Monopólio Bilateral.
Vamos supor que existe o indivíduo A que tem 100€ que tem que dividir com o individuo B. Se B não ficar contente com a divisão recusa-a ficando ambos sem nada.
A lógica indica que se o A oferecer 5€, o B aceita porque é melhor que ficar sem nada.
Mas o B tem o poder de chantagiar o A ameaçando que ele vai perder tudo.
O B tem que criar a reputação de que é invejoso.

Será bluff?
Um assaltante entra num banco e diz "abra o cofre ou eu mato-o".
Se o bancário se recusar a abrir o cofre para que é que o assaltante o vai matar?
Depois de morto, de certeza que não abre o cofre.
É uma questão de reputação.

66/33
A evidência empírica indica que a maioria dos indivíduos não aceita uma divisão inferior a 33%.
Quando existe na sociedade um grupo social com um rendimento inferior a 50% da mediana dos rendimentos (o tal limiar de pobreza relativa), esse grupo torna-se violento, deixando de respeitar as normas sociais vigentes.
É esta a razão para a violência observada nos subúrbios das cidades europeias. Já que os mais ricos não nos dão parte significativa do seu rendimento, vamos destruir tudo, inclusive, o pouco que temos.
Uma sociedade não se torna instável por ser heterogénea. Antes, os indivíduos desfavorecidos têm que formar um grupo, por exemplo, os ciganos, os africanos, os judeus, os brancos, os russos, os Alcaidistas.

A moralidade imoral
Os desfavorecidos entranham-se de uma nova moralidade.
     Ladrão que rouba a ladrão tem 100 anos de perdão.
     Roubar para comer não é pecado.
     Deus criou o melro com a missão de roubar para dar de comer aos filhinhos.
     Roubar aos ricos para dar aos pobres é heróico.
     Pecado é roubar e não poder carregar.
     Deus quando criou o Sol foi para todos.
     Desenrascar é próprio do português.

Como se resolve este problema?
Dentro de um país a sociedade tem que ser homogénea.
Então, no fim da I Guerra Mundial a Sociedade das Nações procurou acabar com os Impérios e substitui-los por Estados - Nação. Ainda hoje é essa a filosofia das Nações Unidas.
Pensava-se que a guerra acabaria quando cada povo tivesse um país para governar.

Mas a guerra continuou.
Porque dois povos não podem ser vizinhos e coexistir em paz se um tiver um rendimento muito superior ao outro. Mesmo que o rico não queira imperar sobre o pobre, o pobre ameaça o rico da destruição.
É esta a estratégia da Coreia do Norte.
É esta a estratégia dos PIIGS quando dizemos que vamos destruir o Euro.
À sua pequena escala, é esta a estratégia do Alberto João quando diz que a Madeira quer ser independente.
Força. Já havia de ter sido em 1974.
O que está a acontecer na União Europeia.
A ideia que levou à criação da União Europeia foi que, diminuindo as diferenças no rendimento dos países europeus, diminuiria a probabilidade de aparecerem novos conflitos bélicos.
Enquanto os países menos desenvolvidos receberam rios de dinheiro dos países mais desenvolvidos, as coisas funcionaram bem. O problema começa a surgir quando o desempenho económico da UE piora. Nos últimos 10 anos, o rendimento disponível nos 5 grandes países da UE têm crescido a uma taxa inferior a 1% por ano.
Alemanha: 0.9%/ano; RU: 0.8%/ano; Espanha: 0.7%/ano; França: 0.5%/ano;  Itália: -0.4%/ano.
(PIB per capita, paridade do poder de compra, preços constantes, fonte: Banco Mundial)
Agora, os povos mais desenvolvidos não querem transferir rendimento para os menos desenvolvidos.

Qual a solução para ultrapassar a crise?
Como justifiquei, já não parece um acaso que a crise seja mais grave nos países que adoptaram a moeda única. O caminhar para maior integração leva a que os povos menos desenvolvidos se sintam dentro de um império tornando-se mais ameaçadores da estabilidade.
A solução terá que ser diminuir a integração e não aumentar.
Insistir em maior integração avançando-se para uma governação económica à escala da Zona Euro, é traçar o fim da União Europeia.

Pedro Cosme Costa Vieira

terça-feira, 5 de julho de 2011

O discurso infértil do apocalipse

Um filme famoso. Afinal é também o filme do discurso que diariamente ouvimos


O discurso mainstream é agora e cada vez mais de carácter apocalíptico. Vamos sair da Zona Euro. Os 78 mil milhões de euros de ajuda externa a Portugal são insuficientes. A austeridade veio para ficar durante muito tempo. Não somos muito diferentes dos gregos. Não adianta pagar mais impostos, porque o dinheiro arrecadado é sempre mal gerido. Somos incapazes de criar riqueza. Bem-vindo ao país do triste fado.

Os quatro cavaleiros do apocalipse. Todos nós podemos atribui-lhes uma identidade
 de algum comentador apocalíptico da actualidade. Silva Lopes, João Ferreira do Amaral, etc.
 Ah, Medina Carreira é também uma boa escolha!

A literatura apocalíptica tem uma importância considerável na história da tradição judaico-cristã-islâmica, ao veicular crenças como a ressurreição dos mortos, o dia do Juízo Final, o céu, o inferno e outras que são ali referidas de forma mais ou menos explícita. No actual quadro político-económico da Europa, todos nós temos opiniões sobre o que significará a ressurreição dos mortos, quando chegará o Dia do Juízo Final, o que é exactamente estar no céu ou no inferno, etc.

A actual equipa ministerial tem um duplo desafio: primar pela competência na gestão da coisa pública e elevar a moral dos portugueses. Impossível? Não era isso mesmo que se dizia sobre o orgulho dos portugueses relativamente à selecção de futebol, até aparecer um brasileiro que conseguiu criar uma bandeirite aguda? E não ficamos todos orgulhosos quando ouvimos os nomes de Cristiano Ronaldo, Mourinho ou até de Carlos Tavares, número 2 da Renault/Nissan mundial, entre muitos outros exemplos?

Scolari e C. Ronaldo. A pergunta "burro sou eu?"  tornou o primeiro famoso
num sketch dos  Gato Fedorento.

Se lermos João Ferreira do Amaral, que adivinha a saída de Portugal da Zona Euro, ou Silva Lopes, que nos compara aos gregos e antevê a queda do Carmo e da Trindade, mais vale comprarmos ansiolíticos (baratinhos), metermo-nos na cama o dia todo e o mundo que se dane. O discurso negativista, destruidor, antipoder vende bem. É uma verdade bem conhecida, mas que normalmente não leva a lado nenhum.

Portugal e a Europa em geral precisam de um novo ritmo

Mais vale olharmos para os proponentes de um New Deal europeu: vamos lá a investir em vez de simplesmente poupar e dar um empurrão à entrevada economia da Zona Euro. Gastar mais do que se tem é uma lógica que tem de ser anulada, em Portugal e não só. Mas limitarmo-nos a dizer que diminuir salários, pensões, subsídios e aumentar indefinidamente os impostos é a única solução não cabe na cabeça de ninguém!

Pedro Palha Araújo

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