sexta-feira, 27 de julho de 2012

A licenciatura, o dr. Relvas e a desvalorização do Escudo

Este ano leccionei a disciplina de Seminário de Economia 2
que é uma disciplina que vem responder ao Paradigma de Bolonha de o aluno "aprender a aprender". Assim, "obriga-se" o aluno a tornar-se capaz de aprofundar o seu conhecimento sobre um determinado tema acedendo a fontes de informação seleccionadas por si (fora da tradicional aula expositiva).

O que representa ser licenciado.
Pressupõe ter autorização, licença, para exercer uma profissão complexa.
Um licenciado (a exercer uma profissão), quando se depara com um problema para o qual não tem resposta imediata, tem que ser capaz de criar uma resposta sólida pela procura e estudo por si próprio das fontes de informação disponíveis (referindo as fontes).
Mas os nossos alunos, portugueses, têm muita dificuldade em desenvolver esta capacidade de aprender sozinhos porque a nossa cultura académica está cimentada numa tradição secular de "exames sem consulta" onde as respostas são de memória e à autoridade desse "conhecimento livresco".
E como a memoria tem falhas, o aluno tem que concentrar o seu estudo nas vésperas da prova ("para manter a matéria fresquinha") e, quando interrogado decorridos uns meses, diz:
- Devo ter aprendido isso numa cadeira qualquer mas já foi há tanto tempo que não me lembro de nada - quando a resposta deveria ser:
- Posso dar agora algumas indicações genéricas sobre o assunto mas preciso de algum tempo para poder dar uma resposta fundamentada a esta questão concreta.

Fig. 1 - Aprendi isso na cadeira de Natação I, mas já não me lembro de nada!


Num programa de artes marciais passado na televisão
Entrevistador
- Mestra Coissarópa, que diplomas precisou obter para ser mestra desta arte marcial?
Diz a mestra
- Cara, nenhum. Comecei praticando, como todo o mundo, aqui na praia. Um dia, estava fazendo uma técnica e um dos moleques me pediu para eu lhe explicar.
- Depois veio outro e outro e outro e os moleques começaram me chamando Mestra.
- Não sou mestra da universidade mas todo o mundo me pergunta coisas que eu explico e, como gostam, me vão chamando mestra.
- Minha mãe também é mestra, doceira.


Fig. 2 - Me chamam a mestra do corpo esculturau. H i i i i u u u pumba.

Existem profissões em que é preciso uma acreditação institucional mas outras não.
As profissões complexas em que é difícil verificar a competência profissional durante a execução das tarefas, obrigam a que haja um processo de aprendizagem, avaliação e certificação das competências profissionais do individuo antes de este iniciar a profissão.
Por exemplo, uma pessoa não pode começar a dar consultas médicas, primeiro tratando doenças simples e aprendendo com a experiência que vai adquirindo para depois ficar médico de corpo inteiro. Assim, uma pessoa antes de começar a "dar consultas" precisa frequentar e ter aprovação a determinadas disciplinas leccionadas numa universidade credível.
Pelo contrário, também existem profissões complexas, mas em que é fácil verificar a competência do profissional (pelo cidadão comum). Neste caso, já é possível que uma pessoa inicie a profissão sem ter "licenciatura".
Por exemplo, cozinhar é complexo mas, como vemos imediatamente no sabor da comida a competência do cozinheiro, ninguém vai a um restaurantes por o cozinheiro ser licenciado por uma universidade.
O nosso Cristiano Ronaldo está mais do que licenciado para o futebol.

Mesmo nestas profissões, a escola é muito importante
Porque os professores seleccionam e sistematizam o conhecimento necessário à formação do profissional tornando o processo de  desenvolvimento das capacidade do indivíduo mais rápido e eficiente.
Apesar de uma pessoa extraordinário poder transformar-se num bom profissional, apenas a escola está preparada, apesar de muito teórica, em ajudar à pessoa tornar-se um profissional extraordinário.

Vejamos o exemplo positivo da UTAD nos vinhos.
Apesar de durante centenas de anos o fazer vinhos de qualidade ser algo adquirido em família e pela experiência, desde que a UTAD lançou a licenciatura em enologia, apesar de a nota média dos alunos que o frequenta ser baixa, veio permitir um enorme desenvolvimento dos vinhos de mesa do Douro e Verdes.
Não é por acaso que, nos últimos anos, os vinhos criados mesmo em pequenas adegas, têm atingido posições de pódio em concursos internacionais cegos onde também são avaliados vinhos das melhores regiões do mundo, como, por exemplo, a região de Champanhe.

Mas a licenciatura também serve para encobrir fraqueza e incompetência.
Muitos dos licenciados são pessoas normais que se tornam profissionais apenas "suficientes".
Pelo contrário, também existem pessoas extraordinárias que não tiveram oportunidade de se licenciarem e que mesmo assim se transformaram em profissionais "muito bons".
O Paradigma de Bolonha pretende que estas pessoas excelentes se tornem ainda melhores.
Mas, normalmente, quando um licenciado "suficiente" se cruza com um extraordinário que é "muito bom" mas sem escolaridade, usa a sua licenciatura para o diminuir.
Por exemplo, quantos "actores com conservatório" desconhecidos já ouviu na TV dizer mal "desses que fazem coisas mas que nunca tiveram conservatório"?


A Declaração de Bolonha (wiki)
Havendo na Europa um choque entre a cultura anglo-saxónica (onde as competências são mais importantes que os diplomas) e a cultura latina (onde os diplomas são mais importantes que as competências), houve necessidade de compatibilizar o sistema de diplomagem.
Como a cultura anglo-saxónica se tem mostrado mais competitiva, foi usada como modelo.
A Declaração de Bolonha foi transposta para Portugal pelo Decreto-Lei 74/2006.

Agora e principalmente nos países que apenas adoptaram recentemente esta filosofia, quem já exerce a profissão de forma competente (de facto), "deve" ficar licenciado para o seu exercício (de jure) porque:




Art. 5.º - O grau de licenciado é conferido aos que demonstrem:
     a) Possuir conhecimentos e capacidade de compreensão ... [acima do nível secundário]
     b) Saber aplicar os conhecimentos ...
     c) Capacidade de resolução de problemas ...
     d) Capacidade de recolher, seleccionar e interpretar a informação ...
     e) Competências que lhes permitam comunicar informação, ideias, problemas e soluções ...
     f) Competências de aprendizagem ...  ao longo da vida com ... autonomia.

Mas não se quis uma validação de competências
Poderia ser previsto que "a admissão às ordens profissionais mediante aprovação num exame de ingresso na profissão é equivalente à obtenção de uma licenciatura num sistema de ensino tradicional". 
Talvez fosse uma avaliação difícil de fazer, mas seria possível de realizar.

Temos um sistema misto.
Sob o pressuposto de que o candidato tem em vista o prosseguimento de estudos,  o estabelecimento de ensino superior (é o que diz o par. 1º), reconhece, através da atribuição de créditos, a experiência  profissional e a formação pós-secundária do candidato (é isto que diz a al. C).
Nesta parte, a escola pode sujeitar o candidato a provas de avaliação. Essa avaliação pode ser curricular (projectos que realizou, obras que publicou, etc.) e ser um conjunto de provas.

Por exemplo, o Título de Agregado concedido pelas universidades portuguesas como o mais alto grau académico (acima do Doutoramento, do Mestrado, da Licenciatura e do Bacharelato) é um processo deste tipo em que o há uma avaliação e discussão do currículo do candidato que também faz prova da sua capacidade pedagógica e é sujeito a perguntas.
Não tem aulas nem necessidade de aprovação em disciplinas.

Foi isso que aconteceu com o Relvas.
Mas qual é a profissão do Relvas?
Não é um médico cirurgião, um engenheiro que realiza uma ponte ou um advogado que faz um contrato que exigiriam, concerteza, uma acreditação prévia por uma entidade reconhecida.
A profissão do Relvas cai naquelas licenciaturas que não são nada em concreto do tipo Relações Internacionais, Comunicação, Ciência Politica, Relações Públicas, Marketing Relacional, Sociologia das Organizações, etc., etc., etc. que servem apenas para concursos públicos e para não ser preciso sabermos o nome da pessoa porque passamos a chamá-la "doutor" ou "doutora".
É uma profissão complexa mas vive mais de aptidão pessoal do que da instrução obtida numa universidade. Mas melhora.

O Relvas teve 10 valores na "experiência profissional".
Certo dia, o Relvas pensou em "prosseguir os estudos" e não apenas pedir uma validação das suas competências. Quis melhorar, tornar-se melhor profissional.

O Relvas já tinha o ensino secundário pelo que, tendo em vista o prosseguimento de estudos, o estabelecimento de ensino superior (é o que diz o par. 1º), reconheceu, através da atribuição de créditos, a experiência profissional e a formação pós-secundária do candidato (é isto que diz a al. C).

À data, a experiência profissional do Relvas, ser deputado e outras coisas que não me lembro, foi considerada extensa (deu 150 em 180 créditos) mas de pouco valor porque só lhe atribuíram a classificação de 10 valores.
Provavelmente, se fosse agora, teria a mesma extensão de equivalências mas com mais valores. Tal qual como se eu refizesse agora o exame da 4.A classe, teria melhor classificação.

Será errada a filosofia que levou à licenciatura do Relvas?
Não acho.
O argumento tem sido "andei anos a queimar pestanas para estar no desemprego e esse fez 4 cadeiras e já se chsma doutor".
São as criticas dos licenciados intrinsecamente fracotes e que não dão em nada.
São daqueles que dizem "eu sou licenciada em Canto pela melhor universidade portuguesa e estou desempregada porque metem n'A Tua Cara Não Me é Estranha aquele Lucy que só tem a 4.A classe".
Todas as pessoas têm que ter a esperança de ver o seu esforço reconhecido. Sendo que na nossa sociedade isso passa por ser "doutor", então é necessário que as universidades estejam abertas a acolher os profissionais de grande potencial. 

Vamos agora à pergunta do exame.
Eu fiz uma pergunta curta mas dificil a que os 6 alunos não conseguiram dar resposta. Mas esforçaram-se e apresentaram alguma coisa da literatura pelo que, juntamente com as minhas colegas, atribuímos 10 valores a 5 deles.
A a dúvida deles era se eu era capaz de dar resposta à questão. Vamos a ver o que eu sou capaz de dizer.

Tema: Fundamentando a sua argumentação na teoria económica e na evidência empírica publicada além de dados disponibilizados pelas instituições de referência mundial, e.g., o Banco Mundial, construa um texto em que avalie o impacto da desagregação, total ou parcial, da actual Zona Euro. Em particular, avalie como irão evoluir não só as cotações das novas moedas e do euro mas também o PIB e o desemprego nas economias europeias.

Primeira parte: o que diz a teoria económica
A) Diz que os preços relativos entre os bens que nós produzimos internamente e os que são produzidos no exterior equilibram a nossa balança comercial. Se os nossos preços aumentam (em relação ao exterior), as exportações diminuem e as importações aumentam (e vice-versa). Como a Balança Comercial é uma componente muito importante das contas com o exterior, uma desvalorização da moeda causará o equilíbrio da nossas contas com o exterior (a Balança Corrente).
Os alunos teriam que meter uma referencia a um livro de macroeconomia onde este mecanismo estivesse explicado para ficar fundamentado.
B) Diz que no mercado de trabalho existe a curva da oferta (que é crescente com o salário real) e a curva da procura (que é decrescente com o salário real). Diz ainda que, havendo desemprego acima do "desemprego natural", o salário real tem que descer para o mercado equilibrar.
Se a moeda desvalorizar (e os salários subirem menos que a taxa de desvalorização), o seu valor real diminui (fica menor o poder de compra dos salários). Então, a desvalorização vai diminuir os salários reais que faz diminuir o desemprego.
Os alunos também teriam que meter uma referencia a um livro de economia do trabalho ou microeconomia.

Segunda parte: arranjar uns dados. 
Agora seria preciso estimar quanto o nosso escudo irá desvalorizar para equilibrar as nossas contas externas e o nosso mercado de trabalho.
Como fui buscar trabalhos que dizem que estas duas variáveis estão ligadas no mesmo sentido, vou comparar a situação actual (em termos de taxa de câmbio real) com o período em que tínhamos as nossas contas externas equilibradas (1990-1995) e em que a taxa de desemprego era baixa (nos 5%).

Fig. 3 - O Escudo irá desvalorizar cerca de 12%. Na abcissa está a taxa de cambio real relativamente a 1990 (dados: Banco Mundial

Feitas as coisas, até parecem simples e aquelas previsões catastrofistas de que o Escudo irá desvalorizar 50% ou mais não passam de tentativas para assustar o povinho.
A Fig. 3 confirma que o desequilíbrio da Balança Corrente acontece ao mesmo tempo que o aumento da taxa de desemprego (que já tinhamos descoberto pelo estudo da teoria).

Terceiro, o trabalho vinha enriquecido com as políticas alternativas à saida da Zona euro
Se o governo aplicar o corte dos subsídios de desemprego e de Natal a todos os funcionários de forma a reduzir a TSU em 6 pontos percentuais (que diminuirá os custos do trabalho em 5%) e o aumento do horário de trabalho em 0.5h/dia permitir ganhar mais 5%, a nossa economia equilibrará.
Isto porque associado à diminuição dos custos do trabalho, virá uma diminuição dos preços dos bens e serviços produzidos em Portugal.


Fig. 4 - Eu sou muito pessimista, mas estes números parecem-me razoáveis e nada catastróficos.

Nota Final para as minhas colegas detratoras
Esta é a primeira vez que a correcção de um exame é publicada num blog.
É o progresso.

Pedro Cosme Costa Vieira

1 comentários:

Filipe Silva disse...

Primeiro os meus parabéns pelo Blog, muito interessante e divertido.

Não penso que seja liquido que uma desvalorização da moeda leve a uma melhoria da condição económica de um país, sem entrar no aspecto das possíveis retaliações económicas (currency war) que os nosso "concorrentes" poderão encetar contra a nossa desvalorização.

Mas a ideia de que se desvaloriza e os problemas estão resolvidos, o track record de Portugal demonstra que isso não é verdade, em 30anos 3 resgates financeiros.

A teoria assenta que se desvalorizar, os nossos produtos ficam mais baratos em termos de moeda estrangeira ganhando competitividade preço a nível mundial, além os produtos importados ficam mais caros levando a um aumento das exportações e uma diminuição das importações, uma espécie de milagre.

Devido a Portugal ser dependente de fontes de energia externas (combustíveis fósseis), de matérias primas, bens de capital, etc...
Já para não falar da dependência alimentar que temos.

Uma moeda mais fraca leva a que os custos de aquisição destes sejam mais elevados, podendo levar a que os ganhos de competitividade de termos uma moeda mais fraca sejam perdidos por custos mais elevados.
O aumento das Exportações é enganador segundo julgo saber (vi num blog) no numero que sai do BP as exportações de ouro vem junto com todas as exportações, dado que estas tem aumentado exponencialmente, no ano passado mais de 300milhões de euros(uma verdadeira saída de riqueza do país).

O preço alto do crude parece ter vindo para ficar (os investidores em resposta à impressão monetária, estão a comprar fortemente commodities como uma das formas de procurar manter o seu património), apesar de os consumos estarem ao nível de quando o petróleo transaccionava a 30-40$ o barril.
O preço elevado dos alimentos, devida a secas, incêndios e uma maior procura de países como a China e Índia.
Uma desvalorização levaria a um aumento da inflação e uma diminuição do nível de vida dos portugueses.
Numa transacção económica ambos os intervenientes saem beneficiados, as importações não são negativas,


O euro deu-nos alguma protecção fase a estes fenómenos, verdade que sem o Euro as loucuras que foram realizadas não teriam sido, não teria havido crédito para elas. Mas isso é outra história.

A saída do Euro mete me medo, devida uma só aspecto, os politicos que temos, se sem politica monetária se comportaram da forma como se comportaram, com mais este poder, seria catastrófico para o cidadão ter um sócrates e um Teixeira dos santos com o poder de manipular a moeda.
O saída do Euro de Portugal devia ser acompanhada com a oportunidade de sair da UE, que hoje prejudica mais que beneficia Portugal.

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