quarta-feira, 22 de novembro de 2017

A seca em Viseu é má cabeça

Vejam como tudo é estranho. 
Dado 1) Nas notícias, o sistema de fornecimento de Viseu, Nelas, Mangualde e mais umas terras serve uma população de 130 mil habitantes.
Dado 2) Uma pessoa, sem poupar, gasta em consumo doméstico de 3 m3 / mês, 100 l/dia.
Dado 3) O sistema é abastecido na Barragem de Fagilde.
Dado 4) Em Fagilde, o Rio Dão tem um caudal médio de 4760 litros/segundo.

Agora vem a minha investigação.

Exagerando para 150 mil pessoas e um generoso consumo de 4,5 m3/mês, 12 meses no ano, num ano dá um consumo total de 8,2 hm3/ano, uma média de 260 l/s
Com umas contas, resultou-me que o Rio Dão tem em Fagilde um caudal médio de 4760 l/s, 18 vezes mais!

Mau, alguma coisa não bate certo.
Passam em Fagilde 4760 l/s e são consumidos 260 l/s e não há água?
Mesmo que se perca 74% da água (em regas e fugas), só são precisos 1000 l/s e passam lá 4760 l/s.
Naturalmente que isto só pode ser incompetência de políticos e gestores públicos que se querem desculpabilizar usando a técnica do Caliméro: "Meu Deus, eu sou muito competente mas é a seca, o aquecimento global e o Passos Coelho que estão a prejudicar o meu trabalho que é perfeito e quem disser que não só pode ser por maldade."

A Barragem de Fagilde é uma farsa.
Tem capacidade para 2,8 hm3 e passam no local 156 hm3 por ano o que traduz que a barragem tem capacidade para armazenar a água correspondente a 6,5 dias de caudal médio do Rio Dão (daquele local).
É isso, a barragem não tem qualquer capacidade de armazenamento, não consegue armazenar nem uma semana da água do rio enquanto que a Barragem do Alqueva armazena mais de 2 anos.
Fez-se uma barragem para dizer que se fez alguma coisa e não se fez nada.

Vamos supor que a barragem era mais alta.
A barragem tem uma cota à altura do leito do rio de 18,5 m e a albufeira tem uma profundidade média de 3,8m.
A barragem custou 25 M€ (não sei em 1985 ou a preços actualizados para 1995, a minha fonte é má). Vamos supor que a barragem tinha uma altura de apenas mais 5 metros, passando de 18,5 m para 23,5 m, em fase de construção, implicaria uma aumento nos custos que não seria superior em 20%.
Só este pequeno acrescento multiplicaria por 3 ou 4 a capacidade de armazenamento da albufeira, acabando para todo o sempre a falta de água na zona de Viseu. 
Bem sei que ultrapassar a cota dos 18,5 m inundaria um bocadinho de Vila Corça, entre a Variante e a Rua Principal.


Prejudicam-se 150 mil pessoas para não inundar um bocadinho de Vila Corça, uma área que tem menos de cem habitantes. 

Bem sei que o projecto é de 1979.
Bem sei que nessa altura havia muita confusão, em 1978 começamos com o governo do Nobre da Costa (que durou 2 meses e 25 dias), continuou com o governo do Mota Pinto (que durou 8 meses e 10 dias) e acabou com o governo da Pintassilgo (que durou 5 meses e 2 dias) mas, no entretanto, já passou tempo suficiente para resolver o problema.

O problema está nas manifestações.
Uma empresa privada, na procura do lucro teria que facturar o máximo vendendo o máximo possível de água. E, para o conseguir, teria que arranjar soluções.
Uma empresa pública, quanto maior for o prejuízo e a dificuldade no abastecimento de água, melhor os esquerdistas acham que está a servir as populações.
E, depois, as populações sem água não fazem manifestações.
A água está caríssima mas o povo vai-se convencendo que é mesmo assim.
Há dinheiro para tudo, só é preciso fazer manifestações e anunciar greves.

E soluções para o futuro?
Estou a imaginar que existem 4 soluções técnicas possíveis que vou apresentar pela ordem da minha preferência..

A) Fazer a Barragem do Alto Dão.
Esta barragem será prioritariamente para armazenamento de água, com uma capacidade na ordem dos 6 hm3 (caudal médio de influxo de 250 l/s = 190 l/s para armazenamento mais  60 l/s para caudal ecológico).
Para ser mais económico, deve ficar localizada onde o Rio Dão ainda é pequenino, bem acima de Fagilde.
Se em Fagilde, a bacia hidrográfica do Rio Dão tem 400 km2 e produz 4760 l/s, para 250 l/s, a nova barragem pode ficar muito acima, ainda acima de Penalva do Castelo.
Em termos de gestão da albufeira, a barragem descarrega um caudal ecológico mínimo de 100 l/s o que vai permitir que a Barragem de Fagilde passe a ter um caudal ecológico significativo (que neste momento é zero).
Depois, quando houver falta de água em Fagilde, aumentam-se as descarregas.
Dos 6 hm3, descontando o caudal ecológico, teremos 5 hm3 que serão suficientes para descarregar 365 l/s durante 5 meses que é muito mais do que o máximo que poderá ser necessário durante a seca "como nunca antes visto".
Esta solução fica por tuta e meia e ainda se paga a ela própria se houver geração de electricidade.
Os eventuais impactos negativos identificados pelos ecologistas terá mais do que compensação pela implementação do caudal ecológico.

Penso que o nome "Barragem do Alto Dão" é bonito (um bocadinho parecido com a Barragem do Alto Rabagão" mas sempre é melhor que "Nova Barragem").

B) Aumentar a altura da Barragem de Fagilde.
Aumentar a cota actual em 1m, aumenta a capacidade de armazenamento em 1000000 m3 que dá para abastecer 130000 habitantes a 100 litros/dia durante 77 dias.
Para ter água suficiente para regas, lavar caixotes do lixo e fugas, aumentar a capacidade de armazenamento em 5 hm3 será necessário aumentar a cota actual entre 3 e 5 metros .
Esta obra tem o problema de ser em cima de outra, havendo necessidade de re-desenhar o descarregador de cheia e, eventualmente, reforçar a estrutura, o que acarreta uns problemazitos.

C) Fazer uma barragem a jusante de Fagilde.
Ali acima das Termas de Alcafache, capaz de armazenar 5hm3 de água que, em tempos de seca extrema, terá que ser bombeada para a Barragem de Alfagilde.
A barragem a jusante é bastante mais cara que a barragem a montante e obriga a bombear a água.

D) Fazer uma ligação à barragem da Aguieira.
Talvez seja esta a solução que o decisor político vai implementar.
Para complementar o abastecimento (com um máximo de 200 l/s), basta uma conduta de 38 cm (15´´).
Para mim é a pior solução porque a Barragem da Aguieira dista 50 km à Barragem de Fagilde e por montes e vales.
É uma obra de execução simples e rápida mas vai custar muito dinheiro em bombagens.
Mas, como quem paga é o consumidor e o decisor político é tanto melhor quanto pior fizer, vai ser isto que vai ser feito.

Diminuir a pressão da rede de água é a maior barbaridade já dita.
O secretário de Estado do Ambiente, Carlos Martins, veio dizer que, para poupar água, pode ser diminuida a pressão da rede pública de água.
Se isso acontecer, vai deixar de haver água nas zonas altas e nos andares superiores.
Nos prédios onde há bombagem (como é o caso do meu), não tem qualquer impacto porque a rpessão na torneira é a pressão da bomba.
A pressão na rede de água é a que os técnicos consideram óptima em termos económicos. Se mais pressão pode aumentar as fugas em condutas envelhecidas, também adia a sua substituição, garante água nas zonas altas e permite o débito em condutas subdimensionadas (em zonas onde, no entretanto, aumentou o número de moradores).

14 comentários:

Silva disse...


Caro PCV

O problema da água só será resolvido quando os consumidores pagarem efectivamente o verdadeiro custo do serviço que consomem.

Seria uma verdadeira reforma estrutural.

Anónimo disse...

Querem ver, já pagamos pouco!!!!

Anónimo disse...

Em tempos a barragem de Fagilde sustentava a praia artificial de Mangualde o que na minha opinião foi até hoje dinheiro mal empregue.acho que isso ainda se mantém

Anónimo disse...

Sim é tudo muito bonito.. mas e o incêndios que devastaram essas localidades?

Anónimo disse...

Só uma pequena correção é Fagilde e não Fragilde!
Gostei bastante do seu texto e tem toda uma lógica, tem é que se estar atento...

Antonio Marques disse...

Tudo muito bem dito mas falta ai um ponto importante!
Falta falar da água que é fornecida aos amigos que têm empresas e que é fornecida praticamente a custo zero e que se conta em milhares de metros cúbicos por dia.
Agua essa que uma vez utilizada e poluída é relançada nos cursos de água naturais poluindo todo o ecossistema e as napas freáticas.
Sem falar que quem paga essa água são os pequenos consumidores.

Anónimo disse...

Há "consumidores que foram obrigados a pagar um "custo" de ligação(ramal) e não tinham necessidade de o fazer.nao se consome mas paga na mesma.tirem a areia da barragem;não atirem areia é para os olhos das pessoas.

Bruno Almeida disse...

Ninca se pode desviar todo o caudal de água para o ser uso do ser humano.
Onde vivo (algures na Europa) trabalho numa estação de produção de água e só podemos desviar até 10% da água de uma nascente em plena força.
O resto tem que ir para o rio para nao desequilibrar o eco sistema.

Anónimo disse...

Estimado PVC,

O preço da água s ó poderá baixar no "dia em que eles abolirem o salário mínimo nacional", com diz o doutor Silva.

Económico-Financeiro disse...

Estimado Bruno,
Mas na barragem de Fagilde, dos 4760 l/s, desviam-se para consumo humano menos de 5%, 236 l/s.
A questão está na má gestão.
Até tenho dúvidas se a barragem não chegou a 10% porque a esvaziaram propositadamente pois, tendo 2800000 m3 de capacidade mais o caudal de seca do Dão, dava para retirar 100 l de água para cada um dos 130 000 habitantes durante 7 meses, desde 1 de Maio, e nessa altura, o caudal do Rio Dão enchia a barragem em meia dúzia de dias.

Para podermos avaliar a (in)competência do gestor da albufeira, tem que publicar os caudais que retiraram da albufeira e para onde foi essa água em referência aos últimos 7 meses.
Cumprimentos

Anónimo disse...

A sério, fico estupefacta com cada coisa que sai destas cabeças. Culpem também a câmara pela seca, por os incêndios florestais. Haja um pouco de bom senso. Só quero frisar que nada tenho a ver com a câmara. Mas não posso deixar de manifestar a minha opinião....

Miguel Loureiro disse...

Este artigo fala de números, mas não dos números correctos, pois a população em geral apenas corresponde a 5% da pegada hídrica. Onde esta então o real gasto de água?!? Na agropecuária. Só um kilo de carne gasta 15400 litros de água. Onde está o verdadeiro consumo de água?!? na própria industria. Fabricar umas calças consome 7000 litros de água. Muito exemplos haveriam para dar. Temos de ter consciência ambiental e poupar água sim. Mas o princípio do problema será o final do problema assim que rectificado.

Agnelo disse...

Não sei se foi intencional, mas omitiu a água fornecida à minihídrica para produção de energia elétrica, o que acontece mesmo quando a cota está muito longe da máxima. Esta é uma das razões por que a barragem não encheu no último ano.

Santos. Nelas disse...

Concordo com alguns comentários aqui referidos. No entanto, sobre a falta de água,penso que se houver próxima obra, será aquela que der mais regalias aos nossos políticos e seus comparsas, pondo-se de parte se será mais ou menos benéfico aos cidadãos dos 4 concelhos.
Dos nossos presidentes de Câmara,envolvidos na barragem de Girabolhos,sei que houve pressão. Mas dos nossos políticos superiores, nao houve qualquer preocupação que a empresa Endesa, recuasse da construção,porque era um investimento privado em que os nossos políticos não poderiam meter o bedelho e desviar uns milhares. Acredito que se o governo quisesse e apoiasse monetariamente a Endesa, a barragem de Girabolhos continuaria em construção. É muito estranho como gasta, balurdios em sondagens, compram terrenos a particulares, abrem arruamentos e depois páram as obras e indemnizao as câmaras afetadas !!!!!!
A construção desta barragem, sim, seria ótimo para as localidades envolventes a todos os níveis.

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