Parece estranho a minha afirmação mas as cheias não resultaram das chuvas intensas!!!!!!
Imaginemos um motorista de um comboio que circula a 140 km/h e que vê, à distância de 500 metros, que um carro, com 5 pessoas, está parado no meio da linha.
Podem acontecer duas coisas:
A) Se o motorista não fizer nada, as 5 pessoas morrem mas não acontece nada ao comboio nem às pessoas que nele circulam.
B) Se o motorista travar a fundo, as 5 pessoas dentro do carro não morrem mas morrem 3 pessoas dentro do comboio.
Onde está o problema moral?
D1) Se o motorista não fizer nada, a sua consciência vai afirmar que "As 5 pessoas morreram porque o carro era velho e parou no meio da linha. A culpa é das pessoas que não deveriam ter parado no meio da linha."
D2) Se o motorista travar a fundo, a sua consciência vai afirmar "As 3 pessoas morreram sem culpa nenhuma e apenas porque eu travei a fundo. A culpa é minha."
Este problema é mais difícil com incerteza e consequências sociais e legais.
A1) Se o motorista não fizer nada, as 5 pessoas morrem mas apenas se o carro, no entretanto, não conseguir sair da linha. Se as 5 pessoas morrerem, paciência, nada acontecerá em termos sociais ou legais ao motorista.
B2) Mantém-se que, se o motorista travar a fundo, morrem 3 pessoas dentro do comboio.
Agora, se o motorista travar a fundo, a sua consciência ficará ainda mais pesada se o carro, no entretanto, conseguir sair. Além disso, na sociedade será visto como um assassino, será despedido e preso por 15 anos.
Esta situação ocorre muitas vezes na guerra.
Quando, no dia 7 de Outubro de 2023, Israel foi invadido pelos combatentes do Hamas vestidos à civil, não havia como distinguir se eram atacantes do Hamas ou civis israelitas.
Então, quem, a partir dos helicópteros enviados de emergência, manejava as metralhadoras e os mísseis, tinha de decidir, em fracções de segundo, se disparava e, portanto, se as pessoas à vista viviam ou morriam.
Se não disparasse, os terroristas continuariam a matar israelitas.
Se disparasse, poderia estar a matar israelitas.
Ainda em Israel, na Guerra do Yom Kippur, durante a noite, tanques do Egipto entraram na formação de tanques israelitas.
Os tanques israelitas não tinham como distinguir os "nossos" dos "atacantes" pelo que gerou-se uma grande confusão em que era preciso decidir "não faço nada e os do Egipto atingem mais e mais tanques israelitas" ou "disparo às cegas e tanto posso atingir tanques israelitas como do Egipto".
O general responsável não conseguiu decidir, entrou em confusão.
Nesse momento, o Ariel Sharon, que era um oficial de baixa patente, pegou no microfone e disse:
"Parem de disparar, metam uma bala no canhão e, vou contar até 3. Chegando a 3, acendam as luzes e disparem contra todos os tanques que tenham as luzes desligadas. 1, 2, 3."
Não interessa ter barragens se a pressão é para as manter cheias.
Nem que houvesse mil barragens no Mondego, com capacidade para armazenar todo o caudal do Rio Mondego de 100 anos se a pressão social, política e económica é para o gestor manter as barragens cheias, nas suas cotas máximas.
Eu acompanhei a questão da Barragem de Santa Clara que, depois de anos de seca e níveis abaixo dos 30%, atingiu numa quinta-feira 90% da sua capacidade máxima com previsão de chuvas intensas na semana seguinte.
A decisão do gestor foi ordenar que na sexta feira começassem as descargas.
Surgiu logo um coro de protestos nas redes sociais que obrigaram a que as descargas fossem suspensas o que coloca em risco as populações a jusante da barragem no caso de chover mesmo.
A Barragem da Aguieira.
Tem capacidade útil de 304 milhões de m^3.
Apesar de parecer grande, estando vazia, apenas tem capacidade para armazenar um caudal de 1000 m^3/segundo durante 3.5 dias.
O caudal máximo que pode passar, sem impacto, em Coimbra é de 2000 m^3/segundo.
Quando vieram as previsões de muita chuva nos próximos dias, o gestor da barragem teve de resolver um problema moral:
A) Não fazer nada, manter a albufeira cheia o que maximiza a produção de energia eléctrica e guarda-se água para quando vier a seca. Esta posição é socialmente bem vista.
B) Esvaziar rapidamente a albufeira para evitar que o caudal ultrapassasse em Coimbra os 2000 m^2/s.
Vamos imaginar que as previsões de chuva intensa falhavam?
Logo toda a gente iria dizer "Despeçam o gestor porque não percebe nada de gestão de barragens, esvaziou a albufeira e agora não temos água."
Mesmo no seu emprego diriam "Está despedido porque a produção de electricidade diminuiu por sua causa."
Agora, entra aqui a Inteligência Artificial.
Os algoritmos não resolvem problemas morais, actuam de forma a maximizar uma função objectivo.
Calculando o prejuízo que a cheia vai causar com o prejuízo que vai acontecer na produção de electricidade, o Agente de Inteligência Artificial decidiriam esvaziar a albufeira até aos 10% (nível de menor prejuízo esperado) enquanto que o Agente Humano, pressionado pela sua entidade patronal (maximizar a produção) e pela sociedade (guardar água para a seca), vai manter a albufeira nos 90% da capacidade máxima.
Em Israel compreendem o que é a decisão sob incerteza.
Numa operação militar para libertar os reféns, três homens saíram de uma casa e correram para os soldados israelitas gritando "Nós somos israelitas."
Eram mesmo reféns mas também poderiam ser terroristas suicidas.
Levaram imediatamente com rajadas de metralhadora e, naturalmente, morreram, paciência, faz parte da da decisão sob incerteza.
Os helicópteros mataram vários israelitas, paciência, faz parte da decisão sob incerteza.
O Irão retaliou e matou vários israelitas, paciência, faz parte da decisão sob incerteza.
Em Portugal?
É logo crucificado.
Com esta cultura, naturalmente, os políticos não decidem, os gestores não decidem, a economia não avança, a ciência não avança, a liberdade não avança, a inovação não avança.
Contentamo-nos com o marasmo e, depois da trajédia, com uns subsídios e umas campanhas de solidariedade.
Daí o mérito do Sócrates e do Trump.
Pessoas sem medo de decidir, como respondeu a minha mãe velhinha quando eu lhe disse: "A menina Dulcinha nunca teve juízo!"
- "Meu filho, se eu e o teu pai tivéssemos juízo, nunca tínhamos tido 6 filhos. Na vida temos de decidir e assumir as consequências. Nós queríamos ter 6 filhos e toda a gente dizia que poderiam sair tortos. Nós decidimos, 'desse tabuado, desse casqueira', que íamos ter 6 filhos e tivemos."
Claro que, sendo a maioria dos portugueses e dos europeus a favor da não decisão, ... penso não ser preciso dizer mais nada sobre o ódio que os portugueses têm ao Sócrates e os europeus ao Trump.
O Sócrates cometeu crimes? Muitos mais cometeu o Marquês do Pombal, matou à força toda todos os que eram contra a industrialização, e tem estátuas em todas as grandes cidades portuguesas.
Nada estranho ter sido eleito como presidente da república, quase por unanimidade, alguém que não decide. Vai organizar reuniões em Belém com os partidos e as forças sociais para se criarem consensos em torno dos problemas que afectam Portugal.
Mas o principal problema que afecta Portugal é não haver quem decida, está-se sempre à espera de que alguém, o consenso, decida por nós.
Esperamos que o Estado proíba os nossos filhos de usar telemóvel porque nós pais não decidimos fazê-lo.
Esperamos que as escolas proíbam os nossos filhos de usar o ChatGPT porque nós pais não decidimos fazê-lo.
Esperamos que as escolas obriguem os nossos filhos a usar capacete quando andam de bicicleta porque nós pais não decidimos fazê-lo.
Esperamos que o Estado aumente as pensões dos mais pobres (pagas pelos nossos impostos) porque não decidimos, de livre vontade e do nosso bolso, ajudar os mais pobres.
Queremos levar o nosso animal ao veterinário e pagar 50€ para que ele o mate porque não queremos decidir e, muito menos, executar. "O animal está a sofrer muito, ladra toda a noite, o que acha melhor para ele sr. doutor? O sr. doutor é que sabe mas eu penso que é mesmo uma obra de caridade acabar com o seu sofrimento."
Acham que a vida que os alunos universitários vão encontrar é igual às aulas?
Acham que vão resolver integrais ou inverter matrizes?
Acham que a vida real tem, no fim do texto, a solução?
Acham que vão encontrar pessoas sérias, educadas e razoáveis como os professores modelo e os colegas?
Acham que tudo vai funcionar como os modelos certinhos apresentados nas aulas pelos brilhantes professores?
Acham que, numa situação de perigo, alguém vai baixar a cabeça para cumprimentar o atacante e, depois, o atacante vai obedecer às regras dos Judo?
Acham que, numa situação de perigo, há espaço para usar um pontapé alto do taekwondo sem cair?
Acham que, numa situação de perigo, dar um murro na cabeça do atacante não fractura os ossos todos da mão e do pulso?
Se o professor se aproxima da realidade, é despedido.
Estão a perceber?
Se o professor diz "Estas aulas prestam para pouco"; "Não é preciso serem capazes de resolver os exercícios, é apenas preciso saber o primeiro passo rumo à solução"; "Não é o professor que tem de saber resolver os exercícios, é o aluno." ...
É despedido, acusado de ser fascista, racista, xenófobo, misógino, machista e não ensinar nada. Os alunos apenas aprenderam porque se esforçaram.
Ahhhhh! Os alunos não precisam de se esforçar, é só engolir a sebenta e já estão preparados para o mundo real.
sábado, fevereiro 14, 2026



0 comentários:
Enviar um comentário