sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A EDP e os chinocas

A valores de mercado, os 21.35% da EDP que os chinocas nos compraram valem 1930M€ (2.39€/acção) e os chinocas pagaram 2690M€ (3.40€/acção). Com este diferencial de preço (+40%), o Passos não podia fazer nada mais que não fosse vender a EDP aos chinocas.
Além do mais este negócio já tinha sido assinado em Dezembro de 2010 na viagem que o Ministro das Finanças Teixeira dos Santos fez à China (fonte: anónima).

Vou agora identificar as oportunidades e ameaças deste negócio.

O Comércio Internacional.
Actualmente nenhum país pode viver isolado. Portugal precisa obrigatoriamente de importar energia (petróleo, gás natural e carvão), alimentos (cereais e rações para animais), matérias-primas (peles, algodão, tecidos, aços especiais, fosfato e minerais diversos) e máquinas & ferramentas sofisticadas.
Depois, temos que produzir alguma coisa para exportar de forma a poder pagar estas importações.
Nos últimos anos uma fatia muito grande das nossas importações (cerca de 20%, 17MM€/ano) fica para calote.
O dinheirinho da EDP vai dar para 2 mesinhos pelo que, pelo lado financeiro, não dá para grande coisa.

Fig. 1 - From China with love

A divisão internacional do trabalho
Ninguém nos empresta mais dinheiro.
Apesar de haver quem pense que a limitação das importações (voltar à agricultura e a andar de burro) pela imposição de  barreiras alfandegarias é a solução, no final isso levaria a uma quebra muito grande no nosso nível de vida.
O Comércio Internacional é um factor de progresso porque permite que cada pessoa (ou país) se especialize naquilo que é mais capazes de fazer.
Por exemplo, seria um erro tremendo Portugal produzir bananas ou ananazes em estufa quando nos países tropicais estes produtos se cultivam em campo aberto.
E não existem alternativas para substituir a energia e os alimentos que importamos.
É o comércio internacional que permite a viabilidade dos países pequenos, logo, permite vivermos em paz.


PaísPerc.PaísPerc.
 Espanha26,6% Brasil1,2%
 Alemanha13,0% EFTA1,1%
 França11,8% México1,1%
 Reino Unido5,5% Cabo Verde0,7%
 Angola5,2% China0,6%
 Países Baixos3,8% Moçambique0,4%
 Itália3,8% Rússia0,3%
 EUA3,6% Hong-Kong0,3%
 Bélgica2,9% Índia0,2%
Quadro 1 - Exportações portuguesas por destino, % do total, 2011 (fonte: INE)


Desde Janeiro de 2010 que ninguém nos quer emprestar dinheiro. 
Como, no curto prazo, não conseguimos equilibrar as nossas contas com o exterior e o Sócrates, o caloteiro diz que pagar as dívidas é uma brincadeira de crianças, mais ninguém nos empresta dinheiro.
Então, temos que vender os nossos activos. A brincar a brincar temos que vender tudo aos estrangeiros.
Os países governados exactamente da forma contrária ao que defende e praticou o Sócrates (que, no fim, classifica Portugal como "um país pequeno"), os que têm uma Balança Corrente positiva, são os que têm dinheiro para nos comprar os activos. Vejamos quem são:

 País BC(med)BC(2010) País BC(med)BC(2010)
 Japan9,6810,69 Sweden1,141,19
 China6,229,96 Iran0,960,96
 Germany4,677,06 Korea, Rep.0,921,32
 Saudi Arabia2,192,36 Malaysia0,901,01
 Russia1,841,17 Kuwait0,870,87
 Switzerland1,792,56 Venezuela0,780,35
 Norway1,591,45 Algeria0,710,71
 Singapore1,412,33 Libya0,550,55
 Netherlands1,321,74 Nigeria0,490,07
 Hong Kong1,140,93 Argentina0,480,22
Quadro 2 - Balança Corrente média (2000-2010) e de 2010 dos 20 países e regiões mais superavitários(fonte: Banco Mundial, mil milhões de euros por mês)

E a EDP não se iria conseguir financiar.
A EDP está estrangulada pela dívida. A prazo as empresas vão pagar a taxa de juro da República que é de 13%/ano (fonte: bloomberg)
Apesar da EDP tem em 2011 um lucro de 1200 milhões de euros sendo os custos financeiros de 1140milhões€.
Mas tem um de passivo consolidado de 29 mil milhões de Euros (Fonte: EDP).
Em 2011 os custos financeiros têm implícita uma taxa de juro de 3.93%/ano mas, se em média a taxa de juro subir para 6%/ano, a rentabilidade da EDP diminui para metade. Agora imaginemos que tinha que pagar 13%/ano: passava a ter um prejuízo de 1400M€/ano.
Já sei que muita gente diz que à EDP nunca seria exigida uma taxa de juro de 13%/ano. Mas também ouvi muita gente dizer, há um ano, que taxa de juro da dívida pública português nunca passaria os 7%/ano e já vai nos 13.5%/ano e sempre a subir.


Fig. 2 - A EDP está estrangulada pela dívida

A China mais o Japão e a Alemanha geram metade do superávite da corrente mundial.
 A China (juntamente com Macau e Hong Kong) é quem tem mais dinheiro no Mundo para investir no exterior tendo gerado em 2010 um superávite corrente de 150 mil milhões de euros.
O Japão também tem muito dinheiro mas não quer nada connosco. Tem investimentos directos muito importantes em Portugal (por exemplo, a Toyota) mas actualmente os destinos do investimento japonês são o tradicional EUA e a China.
A Alemanha tem dinheiro e mostrou vontade em adquirir a EDP. É o segundo destino mais importante das nossas exportações.
Dos restantes países com dinheiro (mas que têm bastante menos dinheiro que estes 3), mais nenhum mostra qualquer interesse por Portugal.

O objectivo da China e da Alemanha são antagónicos.
A China é tecnologicamente bastante mais atrasada que Portugal e precisa de tecnologia.
Em termos de electricidade o seu consumo total é 75 vezes o consumo português e aumenta 12%/ano o correspondente a instalar 8 redes eléctrica portuguesa cada ano. (Fonte: Banco Mundial).
A China pretende vir buscar tecnologia à Europa, via EDP. Na construção de centrais termoeléctricas, na gestão da rede, na construção de transformadores, etc.
A Alemanha é tecnologicamente mais avançada que Portugal e  pretendia exportar tecnologia. Faz aerogeradores que pretendia fornecer aos clientes da EDP por esse mundo fora.
O dinheiro vem do saldo comercial da China que tem um superávite (para a China) de 100 milhões€ por mês (fonte: INE). A minha fonte anónima referiu que no acordo (secreto) assinado em Dezembro 2010, a China comprometeu-se a investir o seu saldo comercial em Portugal. Assim, os 2700M€ resultam do défice comercial acumulado entre Janeiro de 2010 e Dezembro de 2011 e não de dinheiro que a China tenha ido buscar a algum lado para investir em Portugal.
Como Portugal não tem dinheiro para pagar as importações, entrega os activos.

E o Brasil?
Era uma proposta sem interesse nenhum para Portugal.
O Brasil Está a caminho da falência. Tem um défice corrente médio no período 2000-2010 de 388 milhões€ por mês e, em 2010, um défice de 1250 milhões€ por mês (fonte: Banco Mundial).
A proposta de compra da EDP pelo Brasil era uma vaidade pois, para realizar a operação, teriam que pedir o dinheiro emprestado à China.
Isso não fazia qualquer sentido.
Amigo, amigos, negócios à parte.

E
Seriam sempre os chinocas a ganhar porque o negócio já tinha sido fechado em Dezembro 2010. Era só uma questão de preço.


As ameaças - A EDP servir objectivos políticos
Olhando para a estrutura accionista da EDP (ver quadro 3), se os chinocas entrassem no mercado com "empresas de fachada" atingiriam rapidamente os 40% do capital da EDP abaixo do preço que pagaram.
Atendendo a que o acordo está assinado há bastante tempo, como os chinocas pagaram 3.40€/acção, se estivessem a comprar no mercado veríamos a cotação subido até aos 3.40€/acção (ver, fig. 3) e os volumes de negócios a aumentar (ver fig. 4).

Fig. 3 -Evolução da cotação da EDP, Jun2010-Dez2011 (fonte: Bolsa PT) 

Fig. 4 -Evolução da liquidez da EDP relativamente à média, Jun2010-Dez2011 (fonte: Bolsa PT) 

De facto a cotação da EDP não ter subido traduz que o chinocas estão a respeitar o acordado o que indica que, muito provavelmente, estão no negócio com um objectivo estritamente económico e com um comportamento totalmente ético. Só vão comprar quando forem autorizados a fazê-lo.
Acredito, temos que acreditar, que procuram uma parceria justa.


 Detentor
Percentagem
 Chinocas21,35%
 Iberdrola Energia S.A.U.6,79%
 Caja de Ahorros de Asturias5,01%
 José de Mello - SGPS4,82%
 Senfora SARL4,06%
 Parpública3,70%
 BCP + FUNDO DE PENSÕES3,37%
 Norges Bank2,76%
 Sonatrach2,23%
 Bancao Espírito Santo, S.A.2,12%
 Qatar Holding LLC2,02%
 Caixa Geral de Depósitos0,61%
 EDP (Acções próprias)0,87%
 Restantes Accionistas40,28%

Quadro 3 - Estrutura accionista da EDP (fonte: EDP)


Quais as oportunidades - O mercado asiático.
Comparando as exportações portuguesas com as importações totais dos países, a China é o 3.º país do Mundo que mais importa (6.0% do total) e com uma taxa média de crescimento das importações, 2000-2010, acima dos 15% por ano.

PaísExport. PortuguesasImport. TotalCrescimento
 USA3,6%16,5%2,4%
 Alemanha13,0%7,4%4,1%
 China0,6%6,0%15,8%
 Reino Unido5,5%5,1%2,8%
 Japão0,30%4,9%1,8%
 França11,8%4,1%2,4%
 Itália3,8%3,0%1,0%
 Países Baixos3,8%2,8%3,4%
 Coreia0,1%2,7%7,3%
 Taiwan0,1%2,5%*17,5%*
 Espanha26,6%2,3%2,9%
 México1,1%2,2%4,2%
 Bélgica2,9%1,9%2,3%
 Rússia0,3%1,4%13,4%
 Índia0,2%1,3%13,7%
 Brasil1,2%0,9%7,9%
Quadro 4 - Exportações portuguesas e mercados potenciais (fonte: Banco Mundial, INE e * tradingeconomics)

Além da sua importância individual, a China está-se a tornar o centro do comércio entre os países asiáticos que são o destino de 1.3% das nossas exportações mas que representam 14.3% das importações mundiais.
Mas para aproveitarmos essa oportunidade temos que alterar a forma de ver as relações comerciais.

É preciso fazer uma ZEE - Zona Económica Especial
Tal como a Europa criou Singapura, Macau ou Hong-Kong, Portugal tem a oportunidade de criar uma Zona Económica Especial.
A Zona Franca da Madeira - Caniçal é um descampado onde não há nada. Tanto quanto se vê do satélite,  tem duas dúzias pavilhões com meia dúzia de carros à porta.

Fig. 5 - Zona Franca da Madeira - Caniçal (fonte: Google Earth)

Se nos orgulhamos de termos criado Macau como um pedaço da Europa na China, agora está na hora de criarmos Sines como um pedaço da China na Europa.
O Porto de Sines é um recurso natural  que está muito desaproveitado e que não se vê que destino dar àquilo.
Com o piscar do olho da China, toda a zona pode ser rentabilizada criando-se uma Zona Económica Especial sob administração conjunta sino-portuguesa.


Fig. 6 - Zona Económica Especial de Sines

Começa-se por uma Carta Constitucional.
No qual, à semelhança de Hong Kong, é dado o primado à liberdade económica.
Em termos de governação, a ZEE fica com uma assembleia legislativa formada por 10 pessoas nomeadas pelo governo português, 10 pelo governo chinês e 10 eleitas por voto universal dos indivíduos com autorização de residência na ZEE.
Depois, o governador é eleito pela assembleia legislativa.
As leis ordinárias são da responsabilidade da ZEE sob respeito da Carta Constitucional.
Uma das grandes condições para o sucesso é a ZEE ter autonomia para dar residência a quem quiser.
Comparando com Macau, a ZEE de Sines pode atingir rapidamente os 500 mil residentes e transformar-se no motor da economia portuguesa.

Assim podemos aproveitar a enorme oportunidade que representa a China ter olhado para nós.
É a oportunidade de provarmos ao Mundo que Macau não foi um acidente mesquinho da História. Que os portugueses são mesmo universalistas.
E tirarmos bons lucros disso.

Pedro Cosme Costa Vieira

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

A dívida pública monetarizada e a taxa de juro

No Condado da Negralhada o missionário criou o sistema financeiro de raíz.
Agora, como o Conde quer direitos de senhoriagem constantes, o missionário vai introduzir a taxa de juro como instrumento de controle da inflação de curto prazo.

Os direitos de senhoriagem e os impostos.
A emissão de moeda dá lucro a que se chama "direito de senhoriagem". Como a economia precisa de mais dinheiro quando cresce, se, por exemplo, a quantidade de dinheiro na economia for de 30% do PIB e o crescimento económico (em termos nominais) for de 10%/ano então, será preciso aumentar o dinheiro na economia em 0.30x0.10 = 3% do PIB por ano.
No Condado apenas se pode poupar em dinheiro (as reservas compulsivas são 100%). No entanto, nos países concretos, como existem instrumentos de poupança alternativos ao dinheiro, em média os direitos de senhoriagem são menores que 0.5% do PIB. Mesmo que a taxa de inflação seja elevada (50%/ano), os direitos de senhoriagem ficam abaixo de 1.5% do PIB.
Para uma despesa pública (na UE) na média dos 45% do PIB, estamos a falar de valores irrelevantes.
Se aceitarmos que o Estado referido no Antigo Testamento é religioso, a despesa pública (e os impostos) na antiguidade era 10% do PIB (o dízimo).

Fig. 1 - O aumento do IRS só me deixou esta roupinha. E vêm ai mais aumentos!


Os subsídios e os impostos.
Normalmente, uma empresa paga os custos de produção aos seus fornecedores e trabalhadores pelas  receitas que obtem da venda dos bens e serviços que produz.
Há casos em que isso é difícil quer pelo lada da "interiorização" dos custos quer pelo lado da cobrança do preço.
Nestes casos é necessário alguma intervenção do Estado, cobrando um imposto (por exemplo, pagamos o imposto sobre os combustíveis para compensar a poluição dos automóveis) ou atribuindo um subsídio (por exemplo, as empresas de transportes recebem um subsídio para compensar o Passe Social).

A qualidade de vida e a eficiência económica.
Obriga a termos disponíveis bens e serviços. Como os recursos naturais são limitados, para aumentarmos o nosso bem estar as empresas têm que procurar a minimização dos custos de produção e a maximização do valor dos bens e serviços produzidos.
Se não houver eficiência na produção, o nosso nível de vida diminui.
Suponha que vai almoçar a um tasco onde o patrão é muito boa pessoa. Como o empregado demora 15 minutos a tirar o nosso café, teremos que pagar esse tempo, 5€ pelo café e ficamos sem almoço.
Havendo outro tasco próximo em que o patrão é muito mau e obriga a tirar o café em 15s então, podemos pagar 0.70€ por café e usar o restantes 4.30€ para comer um prego e uma cerveja.
Em concorrência, ou o patrão bom muda de estratégia ou muda de ramo porque ninguém irá lá.

No caso das empresas pública, os decisores têm por objectivo aumentar o número de votos que vão ter nas próximas eleições. Então, a governação das empresas pública é intrinsecamente deficiente porque os  incentivos são errados.

Fig.2 - Qualidade de vida é brisa de mar, mulher boa tapada com o mínimo possível e que vem para aqui!

O papel do Estado.
Quanto maior o papel do Estado, mais poder têm os governantes. Então, existe uma força para que o Estado aumente. Se algum pensador diz que o estado deve aumentar, automaticamente tem todas as mordomias. E depois é a lavagem a cérebro do povinho.
Lembram-se quando o Krugman dizia que Portugal deveria aumentar as obras públicas? Todos os dias havia um membro qualquer do governo do Sócrates, o caloteiro, que falava nele.
O Guterres conseguiu convencer o povinho que havia SCUTs. Que era possível fazer obras e ninguém pagar. Mas isto não é um problema dos esquerdistas. Também temos na Madeira o Alberto João exactamente igual.
Em termos internacionais temos despesistas de esquerda (o Obama e a Dilma) mas também de direita (o Berlusconi e o Sarkozy).

O financiamento do Estado
O Estado vai-se financiar pela cobrança de impostos e taxas; pelos direitos de senhoriagem e pelo endividamento;
Já tratei a cobrança de um imposto de transacções e o direito de senhoriagem sobre a emissão de moeda.
O Estado deve-se financiar pelo impostos já que o endividamento é empurrar o problema para a frente com a barriga. Se o Estado se endividar hoje, terá que cobrar mais impostos no futuro.
Apenas existe endividamento porque o povinho se deixa enganar.
Entre cobrar 1€ de impostos agora ou captar esse 1€ como dívida pública, o povinho tem a ilusão que o 1€ emprestado ao Estado é um activo.
Mas onde vai o Estado buscar esse dinheiro?  às pessoas que vão pagar esse 1€ mais os juros.

O endividamento monetarisado do Estado.
O sistema monetário já está lançado pelo missionário.
As pessoas têm saldos bancários positivos que se traduzem em saldos positivos no Banco Central que corresponde a despesa feita pelo Conde. Como as reservas compulsivas são 100%, cada euro que um cliente tem na sua conta foi um euro que o Conde gastou.
Vejamos a contabilidade "económica" do sistema bancário (omitindo o registo das 7 notas)

Banco 1
    "Conta 1.1,                       Saldo +1500X"
     ...
    "Conta 1.100,                   Saldo +2350X"
    "        Total do passivo                              +150000X"
    "        Total do activo, depósito no BC     -150000X"

Banco Central
    "Banco 1, Saldo +150000X"
    ....
    "Banco 8, saldo +250000X"
    "        Total do passivo                                           +500000X"
    "        Activo (Conde -> notas em circulação)       -500000X"


O controle da inflação com a divida monetarisada.
Na Negralhada, a despesa pública é financiada com o Imposto de Transacções mais os Direitos de Senhoriagem.
Quando o Banco Central detecta que os preços estão a diminuir, dá autorização ao Conde para gastar mais dinheiro e a despesa pública aumenta.
O problema é quando o BC detecta que os preços estão a aumentar, pede ao Conde para gastar menos dinheiro.
Mas o Conde alega que tem o Orçamento de Estado para dar cumprimento.
Alega ainda que  que foi democraticamente eleito não aceitando ordens do BC que é um funcionário seu.

A solução é aumentar os impostos.
Se o conde tem que gastar menos 1000X e não quer reduzir a despesa então, tem que aumentar os impostos em 1000X.
Mas o Conde alega que prometeu na campanha eleitora que não aumentava os impostos.

A taxa de juro.
As famílias produzem e poupam mais se a taxa de juro aumentar. Então, se o missionário remunerar o saldo das contas com uma taxa de juro, vai poder controlar a taxa de inflação mesmo sem o Conde repor o dinheiro que gastou nem aumentar os impostos.
Se a taxa de juro aumentar, haverá tendência para as pessoas consumirem menos aumentando o saldo das suas contas e vice-versa. Então, sendo fixa a quantidade de moeda, a taxa de juro consegue controlar a inflação.
Mas, por cada euro de aumento dos direitos de senhoriagem é menos um euro de despesa das famílias.
É o Crowding Out.

Modelo de controle da inflação com emissão de moeda e taxa de juro.
A única forma de controlar a inflação no longo prazo é pelo controle da quantidade de dinheiro na economia. O missionário, prevendo a taxa de crescimento da economia nos próximos anos, anuncia que vai emitir uma determinada quantidade de dinheiro todos os meses, fixa.
Depois, vai usar a taxa de juro para controlar os preços no dia a dia.
Se a taxa de juro for positiva, o saldo das contas será aumentado. Se a taxa de juro for negativa, o saldo das contas será diminuído.
Se a económica crescer 3%/ano então, a quantidade de dinheiro aumenta 3%/ano. Se os saldos bancários totalizam 33% do PIB, o missionário vai autorizar um aumento da massa monetária de 33%x3% = 0.99% do PIB. Esse dinheiro fica à disposição do Conde.
Em média, o missionário tem o mandato de manter a inflação e a taxa de juro em zero.
Exemplo de lançamento dos juros (0.1%) nos pessoas e na dívida pública
Banco 1
    "Conta 1.1,       Juros = 1500*0.1%,        Saldo +1501.5X"
     ...
 Banco Central
    ....
   "Activo (Conde - notas em circulação), Juros = -500000*0.1%,        Saldo = -500500X"

Notar que se houver tendência para o aumento de preços.
A quantidade de dinheiro deveria diminuir o que obrigava à diminuição da despesa pública ou ao aumento dos impostos.
Agora, ao subir a taxa de juro, a despesa pública pode-se manter sem aumentar os impostos mas vai aumentar as necessidade de financiamento do Estado no futuro (os juros). Por isso, no futuro será preciso uma acção mais restritiva para controlar a inflação (maior cortes na despesa pública ou maior aumento de impostos).

Como vai o missionário agora controlar a inflação.
Vamos supor que o missionário anunciou direitos de senhoriagem de 1% do PIB.
O missionário vai observar a taxa de juro e o nível de preços médios do mês anterior.
Controle de longo prazo:
Se a taxa de juro e a inflação forem maiores que 0% (que são o seu objectivo), o missionário anuncia que daqui a 12 meses a emissão de dinheiro vai ser reduzida (por exemplo, para 0.95% do PIB)
Controle de curto prazo:
Se a inflação for maior que 0% (que é o seu objectivo), anuncia que a taxa de juro do mês vai aumentar (por exemplo, +0.1 pontos percentuais).
E vice-versa.

E se não actuar o ajustamento de longo prazo?
Se o Conde se quiser continuar a financiar com emissão de dinheiro (em vez de aumentar os impostos), a taxa de juro vai ter que aumentar de ano para ano até se tornar insustentável e o sistema rebentar.
É a técnica da "D. Branca" e que levar à hiper-inflação.

Fig. 3 - Evolução da taxa de juro 10Y na "crise de dívida soberana" europeia
(fonte: bloomberg)

Nessa altura, as pessoas perdem as suas poupanças.
Se o saldo eram 50000X e a inflação for de 3500%/ano, ao fim do ano o poder de compra do dinheiro poupado fica reduz a 1430X.
É uma expropriação de 97% das poupanças das famílias.
Aparentemente o Estado cobrou menos impostos mas, de repente, expropria a poupança toda de uma vez só. Quem não poupou, não vai pagar.

O risco de inflação é um grande desincentivo à poupança.
Se os agentes económicos anteciparem que o Estado não quer diminuir o seu endividamento (monetarisado), o que pode ser observado na evolução da taxa de juro, sabem que as suas poupanças vão ser expropriadas pela desvalorização. Então, de repente, a taxa de juro dispara e o Estado deixa imediatamente de poder endividar-se mais.
É a bancarrota ou, se a dívida estiver monetarizada, a hiper-inflação.

Tenho ainda que falar da compra da EDP mas vai ter que ficar para outro post.

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Porque é que a taxa de juro equilibra a economia

Existem 4 grandes variáveis macroeconómicas que equilibram a economia de um país.
Os salários, a taxa de juro, a taxa de câmbio e a emigração. 
Estas variáveis são determinadas pelas forças de mercado não sendo intrumentos de política.
No entanto, os governos podem prejudicar (ou favorecer) a forma como estas variáveis ajustam a economia, por exemplo, proibindo a descida dos salários nominais.

Dos Salários já falei. Ao baixar os salários, por um lado, é mais rentável para o empregador contratar mais pessoas e, por outro lado, menos pessoas querem trabalhar. Então, havendo desemprego, o salário tem que diminuir e, havendo falta de trabalhadores, o salário tem que aumentar.

Fig. 1 - A flexibilidade do mercado de trabalho é muito importante

Hoje vou falar da taxa de juro.

O Robim.
O Robim é um araucano que tem um pouco de terra onde cultiva milho, batata, feijão e hortaliças diversas. Tem ainda umas lamas que pastoreia no monte. A terra mais as lamas são o seu capital produtivo, K.
O Robim trabalha N horas por semana, parte do tempo na terra e parte no pastoreio das lamas.
Leva uma vida simples que vai permitir explicar como a taxa de juro equilibra a economia face ao exterior.

A produção
Com o seu trabalho e o capital, o Robim atinge um determinado nível de produção, Y.
Se o Robin tivesse mais terreno ou mais lamas, com o mesmo trabalho produziria mais.
Se o Robin trabalhasse mais horas, com o mesmo capital também produziria mais.
    Y = a.K + (1 - a).N,  com 0 < a < 1

A poupança
A produção vai ter como destino o consumo, C, mais a poupança, S.
    Y = C + S
Agora vou explicar as variáveis que afectam a Poupança e, simetricamente, o Consumo.


O risco.
Se vier frio, muita chuva ou seca, com o mesmo capital e o mesmo trabalho, a produção do Robim será menor. Para fazer face a este risco, o Robim poupa para consumir quando acontecer uma "crise económica".
Se o risco aumentar, o Robim poupa mais e consume menos.

A taxa de crescimento da economia.
O Robim sabe que daqui a uns anos vai perder capacidade de trabalho, produzindo menos. Então, o Robim tem um incentivo a poupar no presente para ter o que consumir no futuro.
Se o Robim antecipar que vai produzir mais no futuro então, poupa menos no presente.
Se a taxa de crescimento for maior, o Robim irá poupar menos e consumir mais.

A taxa de juro.
A taxa de juro traduz quanto o Robim vai receber a mais no futuro pelo que poupa no presente.
Se o Robim poupar S, para uma taxa de juro R, no futuro vai consumir S.(1 + R).
Se a taxa de juro aumentar, o Robim irá poupar mais e consumir menos.

O desequilíbrio da economia face ao exterior.
A economia está sempre em equilíbrio. A questão está apenas na definição de equilíbrio.
No caso do Robim, a produção, Y, é sempre igual ao consumo, C, mais a poupança, S.
     Y = C + S
A poupança vai ser usada em Investimento, I, Variação de stocks, vS e Empréstimos Correntes ao exterior, a Balança Corrente, BC.
      S = I + vS  + BC
O investimento diminui com a taxa de juro.

A economia está desequilibrada quando a Balança Corrente, BC, está desequilibrada
Quando existe défice na Balança corrente, a economia endivida-se face ao exterior o que implica, no futuro, pagar juros e amortizar a dívida.

A procura interna.
É dada pelo Consumo mais o Investimento mais a variação dos stocks.
      PI = C + I + vS
Como, já referi, o Consumo, o Investimento e os Stocks diminuem com o aumento da taxa de juro, pelo que a Procura Interna, PI, é decrescente com a taxa de juro.
Podemos agora representar num gráfico em que sentido vai evoluir a taxa de juro para equilibrar um défice na Balança Corrente.

1. O "mercado de trabalho" é flexível.
Como a taxa de juro traduz quanto o Robim vai receber a mais no futuro pelo que poupa no presente.
Se o Robim trabalhar hoje N, para uma taxa de juro R, é equivalente a trabalhar no Futuro N.(1 + R).
Então, se o Robim trabalhar mais no presente poderá trabalhar menos no futuro.
Se a taxa de juro aumentar, o Robim vai trabalha mais e a produção vai aumentar.
Como a quantidade de capital é fixa então, a produção por cada hora diminui o que traduz o salário do Robim.
Se a taxa de juro aumentar, o salário por hora diminui mas o salário total aumenta.

A taxa de juro sobe, a produção sobe e a procura interna diminui.
 
Fig. 2 - A Balança Corrente e a taxa de juro com salários flexiveis.

Esta é a razão porque as economias da Zona Euro que têm Défice Corrente elevado pagam taxas de juro elevadas e os países que têm Superávite Corrente pagam taxas de juro baixas.
É  Taxa de Juro a corrigir a BC.

2. O "mercado de trabalho" é inflexível.
O Robim vai querer trabalhar mais mas, como é menos produtivo na horas que quer trabalhar e o salário é fixo então, não vai poder trabalhar mais.
Desta forma, a produção não vai aumentar quando a taxa de juro aumenta.

A taxa de juro sobe muito mais, a produção mantém-se e a procura interna diminui muito mais.

Fig. 3 - A Balança Corrente e a taxa de juro com salários inflexiveis.

Se o salário não poder diminuir, a produção mantém-se constante pelo que a taxa de juro tem que subir muito mais e a procura interna diminuir muito mais para a economia conseguir corriger o défice na Balança Corrente.
Esta é a razão porque a troika pede que Portugal flexibilize o mercado de trabalho.
Parace ser negativo que os salários possam diminuir em termos nominais, que os horaríos possam mudar sem acordo do trabalhador, que se obriguem os trabalhadores a mudar de ocupação. Mas essa flexibilidade permitirá que não se use apenas a taxa de juro para equilibrar a economia face ao exterior.
Permitindo o governo a descida dos salários nominais, a crise será muito menos profunda e as taxas de juro diminuirão.

Fig. 4 - Obrigado

Agradeço em meu nome e do meu amigo Pedro Araujo a todas as pessoas que contribuiram para atingirmos 150000 visitas. Dá muito trabalho manter o blog semrpe vivo que apenas faz sentido se os amigos continuarem a ler e a passar o endereço aos vossos amigos.
Prometemos trabalhar para, na medida da nossa capacidade, enriquecer o vosso conhecimento.
Peço desculpa pelas gralhas.

Pedro Cosme Costa Vieira

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