quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Será que Adão e Eva existiram mesmo?

E ao sexto dia, Deus criou Adão e Eva.
Agora que estamos no Natal que representa o renascimento da Humanidade, ou o Chanucá que representa o renascimento do Templo, é hoje o dia certo para discutir a questão do nascimento da humanidade.


O Génesis, primeiro livro da Tora, o livro sagrado dos Judeus, transcreve no final da Idade do Bronze um conjunto de histórias que circulavam oralmente pelo Crescente Fértil desde o Neolítico. Todos conhecemos este livro porque foi, posteriormente, incorporado na Bíblia (no Corão e no Livro de Mormon).
Sendo uma composição de historias transmitidas oralmente, apresenta várias versões para o mesmo acontecimento.
Para o aparecimento da Humanidade, existem duas versões:
"E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou" (Gen 1:27).

E outra versão um pouco mais romanceada:
"E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente." (Gen 2:7) "E da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão."(Gen 2:22)

Interessante notar que, pela minha investigação (não muito aprofundada) em Hebraico antigo, Adão é a primeira letra e Eva a ultima letra da palavra que representa Deus. A evolução linguística da junção de Adão com Eva deu a nossa palavra "Avé" da oração Avé Maria (que quer dizer "Deus está com Maria") e Jeová (nas Testemunhas de Jeová). Para nós, a palavra Deus resulta do deus grego Zeus.
Fazendo uma paráfrase para o Português, estará escrito no Génesis qualquer coisa parecida com "E Adãoeva criou Adão e Eva à sua imagem e semelhança".

Hoje sabe-se que Adão e Eva eram pretos, que a cobra era a sogra do Adão e que Deus falava Crioulo.

Se andarmos para trás.
Se os pais tiverem mais de dois filhos, ao andarmos para o passado, cada vez haverá menos pessoas. Supondo que desde sempre, em média, cada 10 casais tiveram 21 filhos então, Adão e Eva foram criados há apenas 450 gerações, isto é, há apenas 10 mil anos e, a partir dai, descenderam todos os 7300 milhões de humanos que hoje somos.
     2 * (21/20)^451,28 = 7300 milhões
 
E o que nos dizem os cromossomas?
As nossas células têm 46 cromossomas que os filhos herdam dos pais, metade de cada um. Em particular, nós homens herdamos o gene Y do nosso pai.
Quer isso dizer que eu, sendo um homem, herdei o meu cromossoma Y do meu pai, do pai dele, do pai do pai dele, e por ai fora até Adão.
Mas o meu cromossoma Y não é exactamente igual ao do Adão bíblico porque sofreu mutações ao longo dos milénios.
O cromossoma Y é parecido com um fecho de correr com 60 milhões de "dentes" que têm uma de quatro cores possíveis. E, de vez em quando, acontece uma mutação nos dentes que se transmite à criança e, depois, aos seus filhos, netos, etc. para todas as gerações futuras.
Vamos imaginar que o D. Afonso Henriques, na concepção, sofreu uma mutação no seu gene Y, vou-lhe chamar H. Então, todos os seus descendentes homens e apenas esses é que terão hoje essa mutação. Se o D. Dinis tivesse tido uma outra mutação (D. Dinis é descendente de D. Afonso Henriques), vou-lhe chamar D, então, os descendentes de D. Dinis terão hoje as mutações H e D e os seus "primos" apenas terão a mutação H.
Como todos os homens partilham no cromossoma Y muitos genes e como se sabe a velocidade de mutação, podemos traçar um caminho evolutivo de cerca de 200 mil anos entre um individuo que viveu no sodoeste de África e todos os homens hoje vivos. Olhando para o cromossoma Y, podemos afirmar que todos nós homens descendemos de um único e mesmo homem.


 Adão "nasceu" no sudoeste africano há cerca de 200mil anos e, há cerca de 50 mil anos, os seus descendentes saíram de África para colonizar o Mundo (ver)
 

Mas onde fica a Teoria da Evolução das Espécies!
A Ciência afirma que as espécies não foram criadas por Deus como diz o Génesis mas evoluem num contínuo temporal. As mutações vão acontecendo, o ambiente vai seleccionando as melhores e, da mesma forma que vão aparecendo raças de cães, umas espécies acabam por aparecer a partir de outras espécies. Por exemplo, o cromossoma Y também existe nos macacos. 
Diz ainda Darwin que uma espécie nunca tem origem em apenas dois indivíduos mas sempre numa população. Então, se não podemos descender todos de apenas um casal de humanos, em Adão e em Eva, como é possível que todos tenhamos parte substancial do nosso cromossoma Y que é igual em todos os homens?

Tem a ver com a Estatística.
Vamos imaginar que naqueles 150 mil anos que a humanidade viveu em África, durante essas 7500 gerações, havia 2500 mulheres e 2500 homens que se cruzavam entre si. Então, mesmo que cada um  desses "homens iniciais" tivesse um cromossoma Y diferentes, porque alguns dos homens não tiveram filhos homens, em termos estatísticos, as "versões" foram-se extinguindo ao longo do tempo. Por exemplo, os meus pais tiveram 6 filhos, 3 homens e 3 mulheres mas, como nenhum de nós tem filhos homens, o cromossoma Y do meu pai não vai sobreviver (até ver ...). Já na forma do meu avô paterno, o risco do seu cromossoma Y desaparecer é menor porque tenho alguns primos que têm filhos homens.
Assim, mesmo havendo inicialmente 2500 Y's diferentes e 5000 pessoas e não apenas duas, passados 150 mil anos, todos os 2500 homens teriam cópias de apenas um dos cromossomas Y originais.
Para haver 2500 homens em reprodução, juntamente com as crianças, haveria entre 15 mil e 20 mil humanos. 

n.homens<-2500
n.geracoes<-7500
#Inicialmente, cada homem tem um Y diferente
Y<-sample(1:n.homens,n.homens,replace=TRUE)
#Passam n.geracoes
for (i in 1:n.geracoes)
    Y<-sample(Y,n.homens,replace=TRUE)
#Distribuição dos cromossomas sobreviventes ao fim das n.geracoes
table(Y)/n.homens

Até poderia haver mais pessoas.
Mas, se em populações separadas, o efeito seria o mesmo. Comparando com os crastos portugueses da Idade do Ferro, poderia haver clãs com 100 casais reprodutores que só esporadicamente trocariam homens com outros clãs.


Será que, analisando o nosso cromossoma Y ficamos a saber de onde viemos?
Mesmo sem fazermos qualquer análise existe a certeza de que os nossos antepassados maternos e paternos viviam, até há pelo menos 100 mil anos atrás, em África (e todos nós temos parentes africanos mais próximo na nossa ancestralidade).
Depois, analisando o cromossoma Y ficaremos a saber onde estava o nosso "pai" há 10 mil anos ou há 30 mil anos, em que continente vivia, se era preto (se vivia em África), branco (se vivia na Europa) ou amarelo (se vivia na China). Podemos até traçar o seu percurso desde Adão, ao longo dos milénios, até nós.


Afinal, o Adão bíblico existiu e está dentro de nós.
Mas nos nossos 75kg, só herdamos 1,5kg de Adão sendo que herdamos o resto do resto da humanidade.
É que o cromossoma Y só contém 2% dos nossos genes. Por isso, não vale a pena preocuparmos-nos em saber de onde vêm esses 2% de nós quando os outros 98% vieram de todas as outras partes do Mundo.

Finalmente, existe o "problema" neardental.
Há quem defenda que parte dos europeus, talvez 5%, veio do Homo Neardentalense.
Mas isso é uma esperança de fazer os europeus diferentes dos outros homens e não tem qualquer correspondência com a realidade.
Realmente, se partilhamos cerca de 98% dos nossos genes com os chimpazés (e 99,8% com outro qualquer humano distante), também devemos partilhar a grande maioria do nossos genes com o homo neardentalense.
Mas o certo é que nenhum humano herdou o cromossoma Y do homo neardentalense (ou alguma  das nossas mitocôndrias que são coisas que herdamos  da nossa mãe que herdou da mãe dela, etc.)
Se não herdamos nenhum gene do cromossoma Y nem das mitocôndrias, porque acreditar que herdamos outros genes?

Não, só podemos ter origens diferentes.

Pedro Cosme Vieira

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

A geringonça e os tratados multilaterais

OK, o Costa diz que salvou o Banif.
E que, mais não fez que obedeceu às nossas obrigações para com os nossos parceiro da Zona Euro.
Mas eu estive a ouvir o Jorge Tomé, e fiquei convencido da seriedade do homem.
Segundo as suas contas o Banif não estava positivo em 200 milhões €. Assim, a posição do Estado adquirida por 825 milhões € ainda poderia valer cerca de 125 milhões€.
A injecção de 2200 milhões € é apenas um problema contabilístico que resulta de os activos não adquiridos pelo Santander Totta terem sido desvalorizados em 66,7%. Com o tempo, como esta desvalorização é artificial, não será preciso nenhum, ou quase nenhum, do dinheiro das garantias.
Mas hoje, dia de Natal, não era bem sobre isto que eu queria escrever mas sim sobre um e-mail que recebi com duas ideias para dinamizar a nossa economia.
O problema destas ideias é que têm problemas: violam acordos internacionais que assinamos. Não podemso dar subsídios nem isenções fiscais a empresas que estejam no mercado em concorrência com outras empresas. Podemos dar à Santa Casa da Misericórdia um subsídio para tratar dos velhinhos mas já não podemos dar subsídio às empresas portuguesas que fabricam fraldas para acamados.

1ª Proposta - Taxa de IRC Proporcional ao Impacto da Empresa
Em vez de diminuir ou aumentar a taxa de IRC para todas as empresas, criava-se um sistema em que a taxa de cada empresa fosse baseada em "pontos".
A empresa ganharia pontos positivos se tivesse um impacto positivo na economia (contratasse mais gente, se exportasse mais, se investisse mais em R&D, etc.)
Por outro lado, a empresa ganharia pontos negativos sempre que o seu comportamento fosse negativo para a economia (por exemplo, a ideia socialista da rotação excessiva de trabalhadores, muitos recibos verdes, etc.)
Na hora de calcular a taxa de IRC a pagar, se o saldo dos pontos fosse positivo, a taxa de IRC baixava:
  Taxa de IRC = 20% -Pontos
 
2ª Proposta - "Incentivo Fiscal a Investimento Directo Estrangeiro"
Para atrair investimento estrangeiro, oferecer isenções fiscais a empresas exportadoras criadas por investimento directo estrangeiro.
A duração da isenção de IRC e a validade do visto iriam variar conforme os seguintes factores: postos de trabalho criados, valor monetário do investimento, peso de R&D (Investigação e Desenvolvimento), e localização (quanto mais no Interior, melhor).
Para grandes investimentos feitos no Interior, sugiro que a isenção máxima pudesse vigorar durante mais de uma década, ou até duas, no caso do Interior mais profundo. Assim depois poder-se-ia anunciar internacionalmente que Portugal oferecia isenções de IRC que duravam até 20 anos, o que certamente atrairia a atenção dos investidores estrangeiros.

E para que servem os tratados multilaterais?
Imaginemos a famosas Taxinha inventadas pelo Costa que iria incidir sobre todos os estrangeiros que entrassem em Lisboa de Avião ou de Barco. O problema do Costa é que existe um tratado com os nossos parceiros europeus de que isso não pode ser feito, não pode ser aplicada uma taxinha baseada na residência da pessoa. Claro que podemos rasgar esse tratado mas, depois, a Espanha vai inventar uma taxinha de 100€ sobre todos os veículos estrangeiros que cruzarem o seu território! Todos os carros, camiões e autocarros portugueses que vão para a França teriam que pagar essa taxinha!
Também não podemos atrair empresas estrangeiras oferecendo-lhes reduções de IRC pois, o reverso, seria a Espanha retaliar convidando as empresas portuguesas a ir para o lado de lá da fronteira.
Então, uma redução de IRC tem que se aplicar a todas as pessoas e todas as empresas.
Não se pode ter bom tempo na eira e chuva no nabal!

Feliz Natal e Bom Ano Novo (é o que diz o texto em chinês). 
Se fosse agora, até fruta do Jorge Nuno viria da China.

Pedro Cosme Vieira

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

E ao 7.º dia, o BANIF caiu

No dia 13 de Dezembro, a TVI ... 
anunciou que o BANIF iria ser "resolvido".
Na segunda-feira seguinte não o foi, houve desmentidos de toda a parte, todo o mundo gritou que "a TVI enganou-se" e, por parte do BANIF, até veio a ameaça de que iria demandar judicialmente a TVI pelos "prejuízos causados".
Não foi no dia 13 mas, mesmo com desmentidos vigorosos, só aguentou mais uma semanita. No dia 20 de Dezembro, caiu com um estrondo de milhares de milhões de euros.

Porque será que o BANIF, BES, BPN, BPP caíram?
O mais simples é pensar que foram geridos por malfeitores que apenas queriam causar prejuízo aos contribuintes. E ainda mais simplista ainda é concluir que a banca tem que estar nas mãos do Estado.
A razão é simples mas não tem nada a ver com isso: os bancos assumiram riscos que não conseguiram cobrir nem transmitir aos clientes. No final, esses riscos rebentaram com os seus balanços.

Vejamos como funciona um banco comercial.
Os aforradores, sejam pessoas ou empresas, metem lá dinheiro na forma de depósitos e de obrigações ficando garantido que receberão de volta as importâncias entregues acrescidas de um juro, por exemplo, 1%/ano.
Depois, o banqueiro pega no dinheiro recolhido e vai emprestá-lo a outras pessoas e empresas, a um juro mais elevado, por exemplo, a 3%/ano, mas com o risco de os devedores não pagarem o combinado.
A diferença entre a taxa de juro a que são remunerados os aforradores e a taxa de juro a que o banqueiro empresta esses recursos tem que cobrir os custos de funcionamento do banco e o risco de algum devedor fugir sem pagar.
Para que o banco nunca vá à falência, o banqueiro tem que fazer uma gestão criteriosa das taxas de juro e dos riscos assumidos. Em termos de "regulador", para nunca haver perdas para os aforradores, o banqueiro tem que meter do seu bolso 10% do dinheiro que empresta (a "core tier 1"). Se, por exemplo, o banco emprestar um total de 1000 milhões €, o banqueiro terá que meter 100 milhões€ do seu bolso (é o capital mínimo do banco) a que acrescem 900 milhões € de depósitos e obrigações dos aforradores.


Vejamos como funciona um banco de investimento.
O banco de investimento não assume risco porque o transmite integralmente aos seus "depositantes". Assim, funciona como um intermediário quase idêntico a uma bolsa de valores.
Por exemplo, um aforrador entrega 100 mil € ao banco e o banqueiro diz-lhe que vai emprestar 10 mil € a uma empresa, 20 mil € a outra empresa, etc. (que identifica), a determinada taxa de juro com o aviso de que, se as empresas não pagarem, é o cliente que perde o dinheiro. O aforrador terá que dar o seu OK ao negócio.
O banco apenas cobra uma comissão pela intermediação do negócio.
Por causa de ser apenas intermediário, o banco de investimento nunca pode falir e, por isso, não existe necessidade de ter um capital mínimo.
O problema das falências não foi, como dizem os esquerdistas, o "banco de investimento" estar misturado com "o banco comercial" mas sim os bancos comerciais assumirem risco exagerado que um banco de investimento nunca assumiria.
Um exemplo de risco exagerado são os fundos de capital garantido.

Vejamos como funciona a gestão do risco.
Pensemos num cliente, o Sr. João, que vai pedir 100 mil € de crédito a um banco, a 30 anos, para comprar uma casa.
Vamos supor que a taxa de juro acordada é a EURIBOR a 6 meses mais 1 ponto percentual.
Se o banco se conseguir financiar à taxa EURIBOR a 6 meses, este crédito terá para o banco uma margem de cerca de 15% (esta conta não é trivial).
Em função do valor da casa, do rendimento mensal, estado civil, idade, número de filhos, rendimento da mulher e outras variáveis, o banco calcula o risco do João não pagar, por exemplo, pensa ser de 3% a probabilidade de o João não pagar o crédito.
Estes 3% de taxa de incumprimento vão-se concretizar (ou não) na perda total dos 100 mil € mais os juros.
Se o Banco tiver 1000 clientes iguais ao João e nenhum pagar os seus créditos, o banco irá à falência.
O que pensa o banco é que, como uns pagarão e outros não, em média, a perda será de 3% pelo que o risco apenas se irá traduzir na redução da margem do negócio que passa de 15% para 12%
     = 1,15 * (1-3%) -1
Para corrigir esta perda de margem, seria apenas necessário aumentar o spread um poucochinho.


O problema é que, desde 2008, muitos deixaram de pagar.
Muitas e muitas pessoas, não só particulares como também empresas, falharam os pagamentos. Afinal, aqueles 3% estavam subavaliados e, por outro lado, concretizaram-se todos ao mesmo tempo.
Milhares e milhares de pessoas deixaram de pagar as suas hipotecas e pacotes de empresas de construção faliram.

E de quem foi a culpa?
De muita gente.
Dos governos que pressionaram os banqueiros a "emprestar dinheiro à economia".
Dos banqueiros que não souberam resistir à pressão política.
Já tenho dúvidas quanto à responsabilidade dos regulados  (Banco de Portugal e CMVM) porque mais não foram que pressionados pelo poder político. Estes problemas não surgiram com o Carlos Costa sendo algo que se arrasta desde o tempo do Vítor Constâncio. Imaginem que há 10 anos o Vítor Constâncio impunha que o crédito à habitação apenas poderia ser concedido até 75% do valor do imóvel e que a prestação teria que ser menor que 25% do rendimento líquido do agregado familiar. Seria esfolado vivo.

Os nossos bancos ficaram muito expostos ao sector imobiliário.

Os bancos assumiram muito risco no crédito imobiliário, emprestaram a prazos longos e a taxas de juro muito baixas porque pensavam que conseguiriam aceder a crédito à taxa EURIBOR.
Concederam mais de 100 mil milhões € o que pondera 40% nos seus balanços. Como a EURIBOR está bastante abaixo da taxa média a que os nossos bancos se conseguem financiar, para uma diferença de 1,5 pontos percentuais, este problema tem um impacto negativo no balanço dos nossos bancos em 25 mil milhões €.

Crédito à habitação com prazo superior a 5 anos, em milhões € (dados, Banco de Portugal).

Como poderia este problema ser resolvido sem custos para os contribuintes.
O Sócrates primeiro, o Passos Coelho depois e o Costa agora, deveriam ter força política para, por decreto, fixar o indexante dos créditos à habitação na EURIBOR média de 2009 (1,52%/ano para EURIBOR a 6 meses).
Claro que isto iria ter um custo para as famílias endividadas (a prestação hoje seria 15% mais elevada do que está), mas livraria os bancos de grande parte dos seus problemas. Em vez de todos os contribuintes pagarem as falências dos bancos, estes ficariam equilibrados à custa de quem se endividou.
Os banqueiros erraram no calculo do spread das taxas de juro mas, agora, os contribuintes não estão a financiar os bancos mas sim os devedores que conseguem uma taxa de juro inferior ao que seria indicado.

Será a solução do BANIF melhor que a aplicada ao BES?
A solução para o BANIF é intermédia entre a nacionalização do BPN e a resolução do BES.
No BPN o Estado assumiu todas as perdas.
No BES serão os "outros bancos" a assumir as perdas.
No BANIF, o Estado assume 80% das perdas e os "outros bancos" 20%.
Qualquer destas soluções tem vantagens e desvantagens.

A solução BPN.
Nas pessoas que se relacionavam com o BPN, os accionistas perderam dinheiro mas mais ninguém. Depositantes, obrigacionistas, e demais credores receberam todo o seu dinheiro e quem ficou com o prejuízo foram os contribuintes (talvez 500€/pessoa).

A solução BES.
Muita gente perdeu dinheiro, milhões e milhões de euros, os "outros bancos" estão com um problema de pelo menos 3000 milhões € mas os contribuintes estão protegidos em termos directos.
 
Por exemplo, vejamos o caso da Goldman Sachs no BES.
Duas ou três semanas antes do colapso, a Goldman Sachs fez um depósito de emergência no BES de 752,5 milhões €, dinheiro que veio do veículo Oak Finance.
Acontece que o BES tinha pedido outro empréstimo ao Nomura dando acções como penhor. E, no dia 14 de Julho de 2014, o banco japonês Nomura executou o penhor ficando com 4,99% do BES (talvez a 0,47€/acção). Talvez no dia seguinte, o Nomura vendeu cerca de metade da posição ao Goldman Sachs que passou a ter uma participação qualificada (mais de 2% do BES).
No dia 23 de Julho o Goldman Sachs vendeu parte da sua posição (talvez a 0,46€) ficando com menos de 2% do capital do BES (ver fonte).
A 3 de Agosto, o BES acaba, é resolvido, e o depósito da Goldman Sachs é metido no Banco Mau com o argumento de que a GS era accionista institucional.
Alguém achará razoável que uma instituição que foi accionista minoritário do BES durante uma semana,  entre os dias 15 de Julho e 23 de Julho, tenha, por isso, perdido o direito ao depósito bancário de 7252,5 milhões€?
O GS nem chegou a ter tempo para registar os seus direitos de voto quanto mais a ter responsabildiades na gestão.
Está em tribunal em Londres e tenho a certeza que alguém vai ter que pagar isto e mais coisitas.


A solução BANIF.
Se tivesse havido uma resolução, não seriam os contribuintes a perder o dinheiro mas sim os restantes bancos do sistema financeiro e obrigacionistas.
Agora, com o BCP cotado a 0,05€/acção, o Montepio esganado e a CGD nas lonas, acrescentar aos 3000 milhões do BES mas 1750 milhões € de perdas do BANIF, o sistema não seria capaz de absorver tamanhas perdas.
Por isso, não vejo que o Costa pudesse fazer algo de substancialmente diferente.

Terá o Passos Coelho culpas por ter adiado o problema?
A solução BANIF não foi invenção do Passos Coelho mas a aplicação de um modelo usado nos países com mais experiência a resgatar bancos, a Inglaterra.
Pensam os ingleses, que têm dos maiores bancos do mundo, que gerir um banco compete aos banqueiros e não ao Estado. Então, na crise de 2008, resolveram os bancos que faliram mas mantendo os accionistas antigos, com 30% do capital, a gerir o banco.


Vamos aplicar o modelo ao BES.

O Estado metia 5000 milhões € e ficava com 70% das acções. As restantes acções iriam para os accionistas privados de então, a Família Espírito Santo (com 6%), o Credit Agricole (4,4%) e os pequenos accionistas (19,6%) que continuariam a gerir o banco (dizem os ingleses que o Credit Agricole e o José Maria Ricciardi teriam conseguido melhores resultados que os conseguidos pelos Vítor Banco e pelos gestores da CGD).
O BES continuaria com essa estrutura accionista (70/30) até que os accionistas privados conseguissem comprar a posição do Estado.

Mesmo no caso do BPN deveria ter sido usado este modelo.
Bem sei que o nosso espírito latino vingativo não aceita que "quem mandou o banco à falência" continue a ter uma palavra a dizer na sua gestão. Mas, diz a evidência, é a melhor forma de reduzir os prejuízos finais.
Ninguém aceitaria que o BPN tivesse um impacto de 5000 milhões € nos contribuintes continuando a ser gerido pelos antigos donos.



Quando deveria ter sido "resolvido" o BANIF?
O BANIF estava falido desde 2008 mas continuou a operar. Se as empresas falidas fechassem todas, paravam metade das empresas, desde o Metro do Porto, à TAP passando pela MartinFer e pela Soares da Costa.
A coisa foi continuando e, enquanto não levantasse problemas, assim deveria continuar.
Acontece que Portugal está dentro de um mercado único onde não podem operar empresas que recebam subsídios do Estado. Assim sendo, as instituições europeias obrigaram a que o BANIF desaparecesse.

É uma amostra do futuro da TAP.
A TAP a tornar-se novamente pública não pode voar em rotas onde operem empresas privadas pois tal traduzirá um ataque à concorrência porque uma empresa subsidiada está a vender o seu produto abaixo do preço de custo.

Será que o Passos ter adiado da resolução fez o BANIF perder valor?
Não há nada de substancial que a administração do BANIF tenha feito nos últimos 3 anos que indique que o banco perdeu valor ou que, há 3 anos, fosse conseguido um preço maior.
O que está de tóxico no balanço (os créditos imobiliários) já lá estavam há 3 anos e a administração não realizou qualquer operação de monta.
O banco estava falido e continuou falido até que, esta semana, caiu.
Se o imobiliário tivesse recuperado, se o BES não tivesse falido, se a PT não tivesse desaparecido, se muita coisa acontecesse que não aconteceu e outra que aconteceu não tivesse acontecido, o BANIF continuaria e, talvez daqui a 20 anos, o problema se resolvesse por si.
Mas não aconteceu e foi preciso liquidar a coisa de urgência.

Também ninguém aceitaria que o Passos Coelho metesse 2000 milhões € no BANIF!
Numas coisas, dizem que foi além da troika, que fez coisas que não deveria ter feito pois estava em fim de mandato ou em gestão. Noutras coisas, já deveria ter feito e não fez.
Privatizar a TAP em gestão foi crime mas privatizar o BANIF já seria bom.
Será que os esquerdistas vão reverter a privatização dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo?
Lembram-se como berrabam nesse tempo?



Quando o Passos Coelho se foi despedir do Costa.
O Passo Coelho disse-lhe:
- Amigo António, entrego-te estas duas cartas em respeito ao Sócrates que também me entregou duas cartas que tanto me ajudaram. Quando tiveres um problema grave, abres esta primeira carta e, quando tiveres outro problema grave, abres a segunda carta. Vê só que abri ontem a segunda carta.
- Mas o que é que dizem as cartas?
- Não sejas curioso e quando precisares delas, abre-as.
O tempo foi passando e no passado domingo, o Costa abriu a primeira carta que dizia:
"Amigo Costa, estou a ver que estás com o teu primeiro problema grave. Agora, o conselho que te dou é que ponhas as culpas para o anterior governo, põe as culpas para mim e tudo se resolverá."

Talvez amanhã o Costa tenha que abrir a segunda carta.
Se amanhã o PCP votar contra o orçamento retificativo e o Passos Coelho e o Portas cumprirem a promessa de que serão oposição à geringonça governativa, o Costa vai ter que abrir a segunda carta que diz:
"Amigo Costa, estou a ver que estás com o teu segundo problema grave. Agora, o conselho que te dou é que escrevas as tuas duas cartas!"

Cartas destas queria eu duas!
Pedro Cosme Vieira

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Será que o Passos Coelho vai cair?

Hoje é o primeiro dia do resto da legislatura.
O PCP tem em cima da mesa um projecto de Lei em que são repostos integralmente os funcionários públicos cortados no governo PS do José Sócrates, coisa que o actual PS de Costa, seu parceiro de geringonça de governação, já anunciou que vai votar contra.
Se o PSD votar a favor a proposta de Lei do PCP, esta passa o que colocará problemas ao governo do Costa, demonstrando a instabilidade da geringonça.
O que será que vai fazer o Passos Coelho?

O que fazemos no Presente, tem influência no Passado.
Quando eu digo isto aos meus alunos, estes ficam confundidos, discutindo acaloradamente que isso não pode ser. É impossível que o que fazemos hoje tenha alguma influência no que fizemos no Passado porque isso já é passado.
Mas a Ciência Económica precisa como pão para o boca de que isto seja verdade.
Na discussão que levou ao derrube do XX Governo Constitucional, este "facto científico" esteve em discussão e o Costa apenas avançou para o derrube porque acreditou que isso não é verdade.

O que pensou o António Costa.
O CDS quer cortar 100,
O PSD quer cortar 80,
O BE, PCP e demais querem cortar 0.
Então se eu, Costa, apesar de ter perdido as eleições e não ter feito acordo com o PSD, se propuser cortar 70, os meus parceiros da coligação (BE, PCP e demais) vão votar contra mas o PSD vai votar a favor pois a alternativa é zero, muito pior.
Depois, os BE, PCP,... vão votar a favor do corte dos 70 porque a alternativa é "o governo da direita".

O que disse o Passos Coelho.
Nem pense nisso Sr. Costa.
Mesmo que o PS proponha cortar 80, nós votaremos contra.
E se o PCP propuser cortar zero, à revelia do PS, nós votaremos a favor.
Como nós vamos fazer assim, a sua geringonça governativa não tem qualquer viabilidade.
O Costa não acreditou na ameaça e avançou. Deu por escrito ao Cavaco garantias de estabilidade governativa porque acreditou que o PSD iria viabilizar as propostas do seu governo.

Hoje, chegamos ao Futuro.
Se o PSD votar contra a proposta do PC (ou se abstiver), a ameaça cai por terra e a previsão do Costa concretiza-se.
A partir de hoje, o PSD ficará refém do Costa cujo governo terá todas as condições para se transformar numa coligação de bloco central mas com o PS a malhar no PSD.
O futuro será o CDS+PCP+BE+ ... a votar contra o governo (46 votos), o PS a votar a favor (86 votos) e o PSD a abster-se (89 votos).
Passos, tens que mostrar coragem e votar sempre contra o PS e a favor das propostas de Lei do PCP que forem contra o PS pois, caso contrário, vais durar pouco tempo à frente do PSD.
Diz-te quem teu amigo é, o Rio já, esta semana, mostrou as garras.

Esta semana estive na farmácia.
A Cátia lá estava, mais magra, ainda mais jeitosa mas não é sobre isso que eu vou falar.
Eu fui lá comprar Sertopic e estava lá uma senhora que queria falar pelo que atacou logo com "Isso é para os fungos, é para os pés, eu apanhei isso no chinês, comprei lá uns sapatos, foi disso, apanhei os fungos no chinês!"
- Bem - disse eu - não apanhou isso no chinês mas sim nos pés. Mas no meu caso não é para os meus pés é para a minha ..., para a comichão ..., como é que hei-de dizer isto ... é para a minha ... mãe.
Muito me tenho rido com esta confusão de linguagem.
E a Cátia só se ria.


Pedro Cosme Vieira

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Deus ajude Angola

Vejo núvens negras sobre Angola.
Como já devem saber, em Angola vive-se um bocado mal. 
Comparando com o nível de vida português, se é dificil sustentar uma família de 4 pessoas com 900€/mês (dois SMN para dois adultos e duas crianças), em Angola, esses mesmos 900€/mês têm que dar para uma família de 8 pessoas (dois adultos e 6 crianças).
Se juntarmos a esta comparação que em Angola, por um lado, para captar mão de obra qualificada (médicos, engenheiros, ...) é preciso pagar-lhes o que ganhariam num país europeu e, por outro lado, que existe uma distribuição do rendimento bastante desigual, caimos numa sociedade onde uma percentagem grande da população vive muito mal, com quase nada.



Mas, dirão, "No tempo dos portugueses era muito pior".
O Banco Mundial não tem estatísticas para Angola referentes à década de 1970. Seria uma coisa que o Instituto Nacional de Estatística Angolano já deveria ter resolvido há muitos anos até porque a Guiné-Bissau, pais muito mais pobre e desorganizado, já tem estatísticas até 1970. Sem querer ofender os do INE-Angola, não deixa de ser uma vergonha.
Mas fui buscar uns dados ao Banco Mundial, outros a um site (o PIB pes capita nominal, ver), depois fiz umas contas com o câmbio entre PIB nominal e o real per capita português, mais umas simplificações, e obtive o PIB per capita para Angola até 1970.


Ano XXX0 XXX1 XXX2 XXX3 XXX4 XXX5 XXX6 XXX7 XXX8 XXX9
197X 3879,2 3757,6 3349,8 3309,2 3158,3 1964,4 1862,7 1984,3 2017,4 2028,6
198X 2216,1 2093,6 2162,6 2431,2 2639,2 3013,0 2004,4 1925,6 1865,7 2092,8
199X 1801,1 1899,4 1769,5 1378,2 1321,8 541,0 685,7 854,5 692,7 642,8
200X 1017,1 1044,5 1110,7 1055,1 1280,3 1984,0 2345,1 2918,4 3609,5 3266,4
201X 3603,1 4207,5 4906,8 4752,8 4779,4          
Quadro 1 - PIB per capita constante $2005 angolado (estimativa do autor usando dados do Banco Mundial e de outra fonte, ver)

Transformei estes valores em termos relativos e fiz um gráfico onde podemos ver que:
1) Nos últimos 15 anos o nível de vida em Angola aumentou muito, 14,3%/ano mas isso foi devido, principalmente a.
2)  Relativamente a 1970, chegamos a 1999 com uma queda do PIB per capita superior a 80%
3) Considerando que a governação actual nada teve a ver com a queda 1970/1975, desde que o MPLA tomou o poder, o crescimento do nível de vida foi de 2,3%/ano, o que não é mau em termos genéricos (Portugal cresceu 1,9%/ano), é mau atendendo às receitas do petróleo e ao nível baixo de rendimento.

PIBpc angolano relativamente a 1970 (dados, Quadro 1)

Mas se o PIBpc cresceu tantonos últimos anos, não deve haver problema!
Mas agora é que vem o problema maior, é que este crescimento resulta apenas e tão só das receitas do petróleo cujo preço está em queda livre.
Estando o preço médio do petroleo na ordem dos 100USD/barril, a partir de meados de 2014 começou a cair e está hoje abaixo dos 37USD/barril.
Estimando-se o custo médio de produção em 11,7 USD/barril (ver, Knoema), a receita líquida do petróleo angolano caiu 71%.
No caso do Brasil, o custo de produção é maior, 31,4USD/Barril, mas o peso do petroleo na economia é de apenas 2,5%.

E ainda pode cair mais.
E as rendas do petróleo pesam ...
Muito na economia angolana, acima dos 40%, pelo que a queda vertiginosa dos preços do petroleo vai ter um impacto astronómico no nível de vida.

Peso do petroleo na economia angolana e da Arábia Saudita (dados, Banco Mundial)

E Portugal também irá sofrer.
Porque, dizem, há muitos portugueses a trabalhar em Angola, talvez na ordem das 200 mil pessoas, principalmente na cosntrução civil.
E também exportamos muita coisa para lá.
Isto tudo vai acabar e rapidamente.

A economia angolana vai murchar muito e rapidamente.

Pedro Cosme Vieira

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Como será o Mundo em 2115?

Para comemorar 10 anos, a fundação Champalimaud ...
organizou uma conferencia para tentar-se prever como será o mundo daqui a 100 anos.
Estavam lá pessoas importantes com, por exemplo, um ex-presidente da república português e outro brasileira, mas as ideias que apresentaram foram muito pobresinhas. Falaram do presente e mal.
O problema do debate é que o futuro não se prevê mas constroem-se o que faz com que as únicas pessoas que conseguem dizer algo sobre o futuro são os escritores de ficção.
Primeiro, alguém escreve um romance sobre um futuro longínquo onde coisas hoje impensáveis vão ser realidade. Depois, pela positiva (vamos fazer isto) ou pela negativa (isto nunca poderá acontecer) as pessoas vão-se esforçar para que o futuro aconteça.
Houve grandes nomes mas um dos mais importantes foi George Orwell com os seus Triunfo dos Porcos (1945, uma sociedade totalitária nascida da boa ideia de que, no futuro, seremos todos iguais) e 1984 (1949, outra sociedade totalitária nascida da ideia de que a informação irá acabar com todos os problemas do Mundo).
Se hoje existem limitações à recolha generalizada de imagens em espaço público, tal deve-se ao George.

Será o Futuro sair do caminho que estamos a trilhar ou seguir em frente?

Mas será que, nos próximos 100 anos o Mundo vai mudar assim tanto?
O problema é esse, é que ninguém prevê que aconteçam mudanças radicais.
Olhemos para há 100 anos, para 1915. É certo que estávamos a sair da Grande Guerra, havia fome generalizada pelo mundo, já circulavam automóveis pelas nossas estradas, os aviões davam os primeiros passos, o telégrafo era o único meio de comunicação rápida à distância, não havia auto-estradas nem televisão, morriam muitas crianças, mas, de facto, apesar de ter havido mudanças quantitativas  muito importantes, em termos qualitativos, a  vida não era diferente da que é agora.
Já naquele tempo as pessoas sofriam de neura, tinham problemas com os colegas de trabalho, os comunas queriam tomar o poder, havia necessidade de pagar impostos e as mulheres queixavam-se repetidamente de dores de cabeça.
Se o futuro do Mundo não for construido, ficará exatamente igual ao Presente, não faz sentido chamar pessoas intelectualmente limitadas para nos indicar o caminho pelo qual podemos ir.
Como já escrevi um livro de ficção, vou poder avançar alguns pontos onde penso que haverá pequenas mudanças.

Já D. Mafalda dizia ao D. Afonso Henriques que lhe doía a cabeça e assim será daqui a 100 anos.

A procriação.
Nesse meu romance proponho que, como no futuro ninguém vai querer ter filhos, a comunidade terá que criar pessoas, como já previsto no Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, 1932, num processo industrial. A questão que levanto é diferente da de Huxley porque me concentro na questão dos direitos de quem ainda não existe, da questão ética de ser imposto um contrato, com direitos e obrigações, a quem ainda não nasceu e que não nascerá se esse contrato não for "assinado" em nome da  futura pessoa. Quais são as condições que é aceitável impor a quem ainda não nasceu?
Em 50 anos, no Mundo o número de filhos por mulher desceu 50% e, no caso português, a redução foi ainda maior, de 60%.

O aquecimento global.
Não quero saber se o planeta está a aquecer ou a arrefecer, se o Mar vai subir ou descer pois tudo serão oportunidades para uns e ameaças para outros. Por exemplo, foi o final da última glaciação (a Wurm) que aconteceu há 18 mil anos que a humanidade (o homo sapiens, nós) conseguiu suplantar o Homo Deardenthal e pode, assim, invadir a Europa. Depois de 50 mil anos em que o clima foi altamente frio, em que a maior parte da América do Norte e da Europa estava coberta por milhares de metros de neve, incluindo Portugal, o gelo foi-se embora e o nível dos oceanos subiu 100 metros.
Esse aquecimento generalizado inundou o que hoje é a Grande Barreira de Coral (nas costas da Austrália) e tornou a Inglaterra uma ilha.
Há 5,6 milhões de anos, o Mediterrâneo chegou mesmo a secar! e tudo continuou como se nada tivesse acontecido (MSC).
Assim, se o mundo aquecer mesmo que sejam 10ºC, não é por isso que a humanidade se vai extinguir.

E a extinção das espécies?
Isto é uma discussão importante.
Todos os seres vivos têm por base informação genética. Mas, estranhamente, cada espécie não tem um conjunto único de genes mas apenas uma combinação particular.
Assim, os genes que eu tenho e que me programam para que eu seja como sou, existem espalhados um pouco pelos outros seres vivos mas em combinações diferentes.
Por exemplo, hoje falamos muito da extinção K-Pg de há 65 milhões de anos onde 3/4 das espécies de plantas e animais desapareceram, incluindo os dinausauros mas, primeiro, foi esta extinção que permitiu o aparecimento dos mamíferos onde nos incluímos e, segundo, as plantas e os animais representam uma pequena fração das espécies vivas (e que são depositárias de quase todos os genes criados ao longo de milhares de milhões de anos) pelo que a recombinação dos genes deu origem a outras espécies de plantas e de animais.
Mesmo que 99% das espécies de plantas e animais que conhecemos desaparecessem da face da Terra,  pelo menos 99,99% dos genes sobreviveria pelo que, rapidamente (em menos de 100 milhões de anos), novas espécies complexas tomariam o lugar das extintas.

O Mediterrâneo secou há 5,6 milhões de anos!
A passagem de Gibraltar fechou e o Mediterrâneo secou, descendo o seu nível 4000m (MSC).
E este grave acidente deu origem a uma cadência de acontecimentos que, algures na África Austral, fez com que alguns macacos se tenham tornado mais espertos e transformado em hominídeos.
Talvez!

A energia.
O que me "preocupa" é que o nível de vida está muito dependente do acesso barato a energia. Aos preços actuais, cada habitante da Terra consome uma média de 2,3 KW e cresce 1,5%/ano. Se a tendência de crescimento se mantiver, em 2115, cada pessoa irá precisar de 10 KW de energia, cerca de 200000 kcal por dia que equivale a 50 kg de madeira por ano.

O efeito fotovoltaico.
A capacidade dos fotões criarem um corrente elétrica foi primeiro observada em 1839 (por Becquerel que construiu a primeira célula solar), foi teorizado em 2005 (por Einstein, de que resultou ganhar o Prémio Nobel de 1923) e, até aos anos 1950, não passou de uma curiosidade científica.
Em 1992 a potência instalada atingiu 100 MW (o equivalente à potência nominal de 1/10 de uma central nuclear) e, desde então, tem multiplicado por 10 a cada 7 anos, estando actualmente em 233 000MW (o equivalente à potência nominal de 250 centrais nucleares).
A boa notícia é que, segunda uma lei empírica, cada vez que a potencia instalada aumenta 1000 vezes, o custo diminui 10 vezes (Lei de Swanson).
A boa notícia é quem juntando as duas tendências, vemos que o custo das células fotovoltaicas diminui cerca de 8%/ano, a má notícia, é que, além da células fotovoltaicas, existem outros custos que não diminuem assim tão depressa.
Claro que o problema da potencia instalada solar é que, em média, só há 6 horas de luz solar por dia e o rendimento da transformação anda nos 10% pelo que dos 233 00MW resultam apenas o equivalente a 5 centrais nucleares.


Façamos umas contas.
A luz solar tem 1,0kwh/m2 de potencia. Com um rendimento de 10% e 6h de luz por dia, daqui a 100 anos serão precisos 400m2 de painéis solares por cada pessoa então vivente.
Como os painéis têm espaço entre eles para a sombra, apontemos para 800 m2/pessoa
Se, nesse tempo, houver a mesma população que agora, 7300 milhões de pessoas, haverá necessidade de 3 milhões de km2 de painéis solares dispostos num território com 6 milhões km2.
Uma Europa Ocidental com 730 milhões de pessoas precisará de uma área de 600 mil km2, menos de 10% da área do Deserto do Saara.

Nada do que eu disse é radicalmente diferente do que conhecemos.
Daqui a 100 anos, as pessoas continuarão a andar de automóvel, a viajar em aviões Airbus e Boeing, a beber Coca Cola e Pepsi, continuará a haver Vinho do Porto, Queijo Camamberg, controle do álcool,  fumadores, drogados e as mulheres continuarão a tomar aspirina para aplacar as dores de cabeça.
Vamos imaginar que qualquer um de nós tinha a capacidade para adormecer hoje e acordar daqui a 100 anos. Passado um mês, já nem dávamos conta das mudanças que tinham acontecido entre 2015 e 2115.
Ou será que a minha imaginação é fracota?

Pensando melhor, provavelmente, em 2115 as mulheres boas vão ter este aspecto!

Pedro Cosme Vieira 

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Porque será contraproducente aumentar o Salário Mínimo?

O Costa prometeu aumentar por decreto o SMN de 505€/mês para 600€/mês.
O argumento é que, desta forma, vai aumenta o rendimento dos trabalhadores o que vai fazer aumentar a procura interna, a produção das empresas para responder a essa procura acrescida e, finalmente, o emprego. Mas, de facto, nada disto vai acontecer o que se torna obvio fazendo uma simples redução ao absurdo.
Se o aumento por decreto do SMN aumentasse o nível de vida das pessoas e reduzisse o desemprego, todos os países aumentariam o SMN para 10000€ por dia deixando de haver desemprego.
Se isto não parece viável, tenho que explicar o que existe na Economia que evita que funcione este argumento do sábio do PS que agora é Ministro da Economia.

Primeira verdade.
Quando éramos pequeninos, quando nos púnhamos a jogar futebol no recreio da escola, era evidente que uns de nós tínhamos mais jeito para a bola que outros.
Também em termos de capacidade de criar valor numa hora de trabalho, uns de nós geram mais valor e outras geram menos valor.
Se aceitamos que uns têm mais jeito para a bola e outros menos sem isso nos diminuir, também temos que aceitar a verdade económica de que uns geram mais valor e outros menos sem nos sentirmos diminuídos.
Em termos estilizados existe uma distribuição do valor que criamos numa hora de trabalho. 
Sem perda de arranjarem melhores valores, olhando para os dados do INE da produtividade, avanço com uma produtividade média do trabalho de 1000€/mês e um desvio padrão de 500€/mês.

Segunda verdade.
As empresas têm por fim o lucro e, por isso, só empregam uma pessoa se o incremento no lucro for positivo. Então, apenas se uma pessoas tiver uma produtividade superior ao salário corrente na empresa é que irá conseguir emprego.
Se o salário que o FC Porto paga por um avançado é de 50 000€/mês, como a grande maioria de nós não consegue, com uma bola nos pés, gerar este valor, nenhum de nós tem hipóteses de vir a ser empregado do FCP como pontas de lança.
Se uma pessoa gera menos valor que o SMN, então, nunca irá conseguir arranjar emprego, excepto como funcionário público!
 
Terceira verdade.
O SMN não tem qualquer impacto nas pessoas que têm produtividade elevada.

Fig. 1 - Há pessoas com maior e outras com menor produtividade

E quantas pessoas vão perder o seu emprego?
Assumindo uma produtividade com valor médio de 1000€/mês e um desvio padrão de 500€/mês e que a inflação vai ser de 1,6%/ano, então, o aumento do SMN para 600€/mês em 4 anos vai reduzir o nível de emprego em 160 mil postos de trabalho.

Fig. 2 - Será que vou perder o meu empregosinho?

Como fiz a conta.
Passando os 600€/mês a preços de hoje dá 563€/mês
Percentagem de trabalhadores cuja produtividade entá entre 505€/mês e 563€/mês => 3%
População activa (5,3 milhões) vezes 3% dá 156 mil

Pedro Cosme Vieira

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