quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Será que Adão e Eva existiram mesmo?

E ao sexto dia, Deus criou Adão e Eva.

Agora que estamos no Natal que representa o renascimento da Humanidade, ou o Chanucá que representa o renascimento do Templo, é hoje o dia certo para discutir a questão do nascimento da humanidade.


O Génesis, primeiro livro da Tora, o livro sagrado dos Judeus, transcreve no final da Idade do Bronze um conjunto de histórias que circulavam oralmente pelo Crescente Fértil desde o Neolítico. Todos conhecemos este livro porque foi, posteriormente, incorporado na Bíblia (no Corão e no Livro de Mormon).
Sendo uma composição de historias transmitidas oralmente, apresenta várias versões para o mesmo acontecimento.
Para o aparecimento da Humanidade, existem duas versões:
"E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou" (Gen 1:27).

E outra versão um pouco mais romanceada:
"E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra, e soprou em suas narinas o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente." (Gen 2:7) "E da costela que o Senhor Deus tomou do homem, formou uma mulher, e trouxe-a a Adão."(Gen 2:22)

Interessante notar que, pela minha investigação (não muito aprofundada) em Hebraico antigo, Adão é a primeira letra e Eva a ultima letra da palavra que representa Deus. A evolução linguística da junção de Adão com Eva deu a nossa palavra "Avé" da oração Avé Maria (que quer dizer "Deus está com Maria") e Jeová (nas Testemunhas de Jeová). Para nós, a palavra Deus resulta do deus grego Zeus.
Fazendo uma paráfrase para o Português, estará escrito no Génesis qualquer coisa parecida com "E Adãoeva criou Adão e Eva à sua imagem e semelhança".

Hoje sabe-se que Adão e Eva eram pretos, que a cobra era a sogra do Adão e que Deus falava Crioulo.

Se andarmos para trás.
Se os pais tiverem mais de dois filhos, ao andarmos para o passado, cada vez haverá menos pessoas. Supondo que desde sempre, em média, cada 10 casais tiveram 21 filhos então, Adão e Eva foram criados há apenas 450 gerações, isto é, há apenas 10 mil anos e, a partir dai, descenderam todos os 7300 milhões de humanos que hoje somos.
     2 * (21/20)^451,28 = 7300 milhões
 
E o que nos dizem os cromossomas?
As nossas células têm 46 cromossomas que os filhos herdam dos pais, metade de cada um. Em particular, nós homens herdamos o gene Y do nosso pai.
Quer isso dizer que eu, sendo um homem, herdei o meu cromossoma Y do meu pai, do pai dele, do pai do pai dele, e por ai fora até Adão.
Mas o meu cromossoma Y não é exactamente igual ao do Adão bíblico porque sofreu mutações ao longo dos milénios.
O cromossoma Y é parecido com um fecho de correr com 60 milhões de "dentes" que têm uma de quatro cores possíveis. E, de vez em quando, acontece uma mutação nos dentes que se transmite à criança e, depois, aos seus filhos, netos, etc. para todas as gerações futuras.
Vamos imaginar que o D. Afonso Henriques, na concepção, sofreu uma mutação no seu gene Y, vou-lhe chamar H. Então, todos os seus descendentes homens e apenas esses é que terão hoje essa mutação. Se o D. Dinis tivesse tido uma outra mutação (D. Dinis é descendente de D. Afonso Henriques), vou-lhe chamar D, então, os descendentes de D. Dinis terão hoje as mutações H e D e os seus "primos" apenas terão a mutação H.
Como todos os homens partilham no cromossoma Y muitos genes e como se sabe a velocidade de mutação, podemos traçar um caminho evolutivo de cerca de 200 mil anos entre um individuo que viveu no sodoeste de África e todos os homens hoje vivos. Olhando para o cromossoma Y, podemos afirmar que todos nós homens descendemos de um único e mesmo homem.


 Adão "nasceu" no sudoeste africano há cerca de 200mil anos e, há cerca de 50 mil anos, os seus descendentes saíram de África para colonizar o Mundo (ver)
 

Mas onde fica a Teoria da Evolução das Espécies!
A Ciência afirma que as espécies não foram criadas por Deus como diz o Génesis mas evoluem num contínuo temporal. As mutações vão acontecendo, o ambiente vai seleccionando as melhores e, da mesma forma que vão aparecendo raças de cães, umas espécies acabam por aparecer a partir de outras espécies. Por exemplo, o cromossoma Y também existe nos macacos. 
Diz ainda Darwin que uma espécie nunca tem origem em apenas dois indivíduos mas sempre numa população. Então, se não podemos descender todos de apenas um casal de humanos, em Adão e em Eva, como é possível que todos tenhamos parte substancial do nosso cromossoma Y que é igual em todos os homens?

Tem a ver com a Estatística.
Vamos imaginar que naqueles 150 mil anos que a humanidade viveu em África, durante essas 7500 gerações, havia 2500 mulheres e 2500 homens que se cruzavam entre si. Então, mesmo que cada um  desses "homens iniciais" tivesse um cromossoma Y diferentes, porque alguns dos homens não tiveram filhos homens, em termos estatísticos, as "versões" foram-se extinguindo ao longo do tempo. Por exemplo, os meus pais tiveram 6 filhos, 3 homens e 3 mulheres mas, como nenhum de nós tem filhos homens, o cromossoma Y do meu pai não vai sobreviver (até ver ...). Já na forma do meu avô paterno, o risco do seu cromossoma Y desaparecer é menor porque tenho alguns primos que têm filhos homens.
Assim, mesmo havendo inicialmente 2500 Y's diferentes e 5000 pessoas e não apenas duas, passados 150 mil anos, todos os 2500 homens teriam cópias de apenas um dos cromossomas Y originais.
Para haver 2500 homens em reprodução, juntamente com as crianças, haveria entre 15 mil e 20 mil humanos. 

n.homens<-2500
n.geracoes<-7500
#Inicialmente, cada homem tem um Y diferente
Y<-sample(1:n.homens,n.homens,replace=TRUE)
#Passam n.geracoes
for (i in 1:n.geracoes)
    Y<-sample(Y,n.homens,replace=TRUE)
#Distribuição dos cromossomas sobreviventes ao fim das n.geracoes
table(Y)/n.homens

Até poderia haver mais pessoas.
Mas, se em populações separadas, o efeito seria o mesmo. Comparando com os crastos portugueses da Idade do Ferro, poderia haver clãs com 100 casais reprodutores que só esporadicamente trocariam homens com outros clãs.


Será que, analisando o nosso cromossoma Y ficamos a saber de onde viemos?
Mesmo sem fazermos qualquer análise existe a certeza de que os nossos antepassados maternos e paternos viviam, até há pelo menos 100 mil anos atrás, em África (e todos nós temos parentes africanos mais próximo na nossa ancestralidade).
Depois, analisando o cromossoma Y ficaremos a saber onde estava o nosso "pai" há 10 mil anos ou há 30 mil anos, em que continente vivia, se era preto (se vivia em África), branco (se vivia na Europa) ou amarelo (se vivia na China). Podemos até traçar o seu percurso desde Adão, ao longo dos milénios, até nós.


Afinal, o Adão bíblico existiu e está dentro de nós.
Mas nos nossos 75kg, só herdamos 1,5kg de Adão sendo que herdamos o resto do resto da humanidade.
É que o cromossoma Y só contém 2% dos nossos genes. Por isso, não vale a pena preocuparmos-nos em saber de onde vêm esses 2% de nós quando os outros 98% vieram de todas as outras partes do Mundo.

Finalmente, existe o "problema" neardental.
Há quem defenda que parte dos europeus, talvez 5%, veio do Homo Neardentalense.
Mas isso é uma esperança de fazer os europeus diferentes dos outros homens e não tem qualquer correspondência com a realidade.
Realmente, se partilhamos cerca de 98% dos nossos genes com os chimpazés (e 99,8% com outro qualquer humano distante), também devemos partilhar a grande maioria do nossos genes com o homo neardentalense.
Mas o certo é que nenhum humano herdou o cromossoma Y do homo neardentalense (ou alguma  das nossas mitocôndrias que são coisas que herdamos  da nossa mãe que herdou da mãe dela, etc.)
Se não herdamos nenhum gene do cromossoma Y nem das mitocôndrias, porque acreditar que herdamos outros genes?

Não, só podemos ter origens diferentes.

Pedro Cosme Vieira

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