segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A vitoria derrotante

Analisar resultados eleitorais é uma arte de adivinhação.
Como a vitória é feita de muitos votos individuais, seria preciso ter informação sobre as motivações de cada uma das pessoas (em termos estatísticos) que votou e que deixou de votar para ser possível afirmar o que traduz cada uma das vitórias e das derrotas.
No entanto, existem três regularidades a retirar:
1) Um presidente que se recandidate tem a vitória certa.
2) Um partido que ganhou nas anteriores eleições tem uma elevada probabilidade de voltar a ganhar.
3) A mudança de partido resulta muito de erros (guerras internas) na escolha do candidato.

No Porto o Meneses foi derrotado.
Isso não há qualquer dúvida mas não acontece por o Meneses ser exageradamente mau mas antes por ser bastante idêntico (em termos políticos) ao novo presidente da câmara (Rui Moreira).
Apesar de o Rui Rio querer puxar para si parte da vitória, o Moreira, contrariamente ao Rio, é uma pessoa agradável, educada e com uma imagem muito mais polida, um gentleman.
Já são anos demais em que a cidade está associada à imagem de falta de polimeto (Paulo Vallada, Fernando Gomes e Rui Rio).
Penso que o Porto só tem a ganhar com uma pessoa assim polida.

O Meneses tinha uma propostas um pouco alucinadas.
Pontes, viadutos, túneis, recuperações urbanas que nunca surgiriam do papel porque ninguém empresta dinheiro à Câmara do Porto mas aquilo não era nada para fazer. 

Fig. 1 - Está na hora de o Meneses passar a "senador".

Na minha terriola o PS perdeu.
Em Ovar, depois de 20 anos de maiorias absolutas, porque o PS escolheu uma mau candidato (as tais guerras internas) abrindo as portas a uma vitória do PSD.
Eu não tive qualquer influencia nos resultados porque nem fiz campanha nem fui votar.
Não que eu seja contra a democracia mas porque tanto me dava.

A vitória mais amarga foi a de Lisboa.
O Costa teve uma grande vitória local mas uma astronómica derrota nacional.
O Álvaro Cunhal ensinou-nos que nunca uma derrota é uma derrota (dele) nem uma vitória é uma vitória (dos outros). O Costa pode declarar-se vitorioso puxando para si o muito bom resultado que o PS teve em Lisboa mas, à escala nacional, tem que entregar a vitória ao Seguro. Agora, que adaga vai o Costa puxar para retirar o Seguro do seu caminho a caminho de uma potencial vitória nas eleições legislativas de 2015?
Não surgiu uma única voz a pedir a cabeça do Seguro.
O "recuo estratégico" do Costa de há uns meses atrás (no XIX congresso do PS pensou  que 2 anos de travessia do deserto ainda seria muito desgastante) vai-se transformar rapidamente numa aposentação pois a distancia ao plotão da frente está cada vez mais irrecuperável.

Fig. 2 - O PCP ganhou e a Direita perdeu.

Mas serão as politicas dos vencedores diferentes das dos derrotados?
Não há dinheiro, não há vícios.
Olhemos para o Pires de Lima que dizia cobras e lagartos do Álvaro Santos Pereira.
O que o homem fez até agora daquilo que disse ser errado e dever ser suspenso imediatamente?
Nada.
Com os futuros governantes, sejam autarcas, ou ministros, nunca mais haverá a liberdade de gastar sem medida e mandar para endividamento.
Sabendo o mercado que Portugal se endivida se a taxa de juro estiver abaixo dos 7%/ano então, sempre que surge alguém que parece ir-se endividar, a taxa exigida salta logo para esse valor.

Fig. 3 - Eu também prometia isso se tivesse crédito ilimitado.

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

As autárquicas são já no Domingo

Está tudo calmo.
Eu nunca fui muito praticante de eleições e muito menos das autárquicas.
Nas escolas por onde andei, nunca votei. Nas autárquicas, que me lembre, votei uma ou duas vezes mas já nem me lembro quando nem em quem. Nas presidenciais não me lembro de alguma vez ter votado. Votei umas poucas vezes nas legislativas, talvez uma vez no Sócrates e, nas últimas, foi certamente no Passos por me parecer que o nosso país (e eu incluído) estava a ser conduzido para a bancarrota.
Mas a grande diferença relativamente às anteriores eleições autárquicas é que agora tudo está calmo. Tenho presente a tremideira do Guterres que o levou, na noite das eleições, a bater a porta.
Agora já sabemos que na segunda feira o Passos continuará a sua missão faltando apenas saber se o Seguro estará seguro.

Já só faltam 18 meses para as legislaturas.
As sondagens dão vantagem ao PS pelo que, havendo alguém que ambicione a ser primeiro-ministro por essas bandas, está na hora de atacar. Depois das autárquicas já vai ser período pré-eleitoral pelo que, deixando passar este dia, vai ser difícil tirar o Seguro do lugar.

No PS está tudo muito complicado.
O António Costa tem ambição mas iniciar a campanha para primeiro-ministro no mesmo dia em que é eleito presidente da câmara de Lisboa com (previsível) maioria absoluta vai parecer  mal (pelo menos um pouco). Estará o povo de Lisboa a eleger o Fernando Medina para a câmara? Bem sei que o homem estudou na minha escola, já foi eleito deputado e foi secretário de estado do velhote do olhinho fechado mas sempre foi um pau mandado do Sócrates (que, por sua vez, lia discursos que outros lhe escreviam). É um autêntico zero à esquerda.
São pessoas que, sem guião, só sabem dizer "PEC 4".
A vitória (previsível) do Costa coloca problemas ao Seguro pois não vai poder chamar para si o mérito. Vai ser como, numa corrida, um atleta dizer que a grande velocidade de uma bala que lhe vem dirigida à cabeça o vai ajudar a ganhar a corrida. 

Fig. 1 - Lisboa vai ser a bala que vai permitir ao PS ganhar velocidade para as legislativas de 2015.  O problema é que pode acertar-me na cabeça.

O Porto-Gaia está uma confusão.
Porque há muitas guerras dentro do PSD+CDS.
No Porto há um candidato apoiado pelo PSD do Menezes e um independente apoiado pelo  PSD do Rio.
Em Gaia é ao contrário. Há um candidato apoiado pelo PSD do Rio e um independente apoiado pelo PSD do Meneses.
Já se sabe que quem terá maioria será o conjunto destas duas candidaturas faltando apenas saber quem são os presidentes.
Até pode acontecer o PS ganhar a presidência em Gaia mas vai ser com poucochinos votos.
O bom é que o Passos pôs-se fora desta guerra. Ganhe quem ganhar, não interessa a ninguém.
Estas guerras dentro do PSD + CDS não são apenas locais bastando, para ter uma pequena amostra, ouvir a Ferreira Leira para se tomar a temperatura do partido.
O Rio era o António Costa do PSD mas atolou-se de tal forma nos seus medos e compromissos eleitorais autárquicos que perdeu o comboio para o Passos. Claro que ficou danado por o Menesesez ter apoiado o Passos.

E veio o novo chumbo do TC.
Já é constitucional despedir pessoas por extinção do posto de trabalho mas tem que, de entre todos os trabalhadores com capacidades idênticas, tem que ser despedido o trabalhador mais recente. O legislador pensa que os trabalhadores são todos iguais e que o mais antigo, por learning by doing, é mais produtivos. O problema é que nem sempre é assim.
Se uma empresa tem 10 trabalhadores e quer despedir o mais antigo, é obrigada a extinguir todos os postos de trabalho (despedindo os 10). Numa hora cria outra empresa que contrata todos os trabalhadores acabados de despedir menos o tal e que faz um contracto de prestação de serviços.
Isto dá algum trabalho mas vai dar tudo ao mesmo.
Cada vez mais as pessoas estão a trabalhar num sítio, uma fábrica, hotel, ou repartição pública, mas são empregados de outra empresa qualquer, de trabalho temporário ou de prestação de serviços. Como tão bem sabemos, nos nossos hospitais o staff, desde seguranças a médicos passando pelas enfermeiras e senhoras da limpeza, é tudo pessoal de empresas de prestação de serviços contratado à hora ou à peça. 
Essas empresas, tipo Conforlimpa, têm 5000€ de capital social pelo que havendo algum problema, pumba, fecham. 

A Constituição protege os postos de trabalho.
Em teoria. Para proteger mesmo os postos de trabalho, era obrigatório que o Estado pagasse os salários das empresas abrem falência. Era possível mas teria de ser como em Cuba (um salário de 5€/mês mais uns kilos de arroz e farinha).

Fig. 2 - As últimas manifestações contra o governo têm sido tranquilas.

O povo já está convencido.
Berramos, berramos, mas já estamos convencidos que o óleo de fígado de bacalhau faz bem à saúde.
A princípio custa mas ficamos com ossos rijos.
E hoje fico-me por aqui para não vos cansar muito durante o período de reflexão.

Pedro Cosme Costa Vieira

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Portugal e o Mundo estão a melhorar

O segundo resgate está à porta.
A oposição diz em peso que é preciso "re-estruturar a dívida pública" e que vai rasgar tudo o que o Passos está a fazer.
As sondagens dão poucas intenções de voto no PSD e, dentro do governo, o Passos Coelho perdeu todo o apoio (as pedras Relvas + Gaspar + Álvaro foram sendo dinamitadas).
Daqui só se pode concluir que, colectivamente, o povo português não quer cumprir as condições contratuais que foram por si livremente aceites (representados pelos antigos governantes).
Bem sei que os anteriores governantes eram uns parolos que não sabiam o que faziam mas queremos os "direitos adquiridos" que esses mesmos parolos prometeram em nome do Estado.
Nas obrigações que assumiram em nosso nome foram uns criminosos mas, na parte dos direitos que nos prometeram, já foram estadistas de grande visão estratégica.
Fig. 1 - Re-estruturação a sério é a Síria:  transformam cidades em montes de entulho para reciclar.

Apesar de má, lentamente a situação está a melhorar.
A consolidação orçamental e a economia vão evoluindo lentamente mas no sentido correcto: o défice público está a reduzir, a balança corrente está equilibrada, a economia está a crescer e o desemprego está a diminuir.
O problema do risco da dívida pública é que dos 200 mil milhões € que Estado Português deve, a Troika assumiu 40% (78 MM€). Como os 78MM€ têm garantias reforçadas, a dívida que fica na mão dos privados, apesar de menor, vai incorporando a totalidade do risco.
Se, e.g., Portugal precisasse bancarrotar 50MM€ na divida pública, nos 200MM€ seriam perdas de 25% mas, tirando os 78MM€, agora a mesma bancarrotagem implica perdas para os privados de 40%. (o hair cut).

Apesar do razoável processo de ajustamento, como o stock de divida na mão dos privados está a diminuir, apenas será previsivel observar uma diminuição significativa do prémio de risco da dívida pública se as nossas contas públicas evoluírem de forma muito favorável. Isto é, atingirem rapidamente o "equilíbrio do saldo primário" (em finais de 2013) e um défice público de 3.0% em 2015 (um pequeno resvalar no objectivo de 2.5%).

É que a bancarrotagem já está para além da nossa vontade.
Nós até podemos afirmar que queremos pagar tudo mas, ao ser obrigatório as instituições europeias assumirem uma fatia cada vez maior da nossa dívida pública, vão ser impostas perdas aos aforradores privados.
E isso já aconteceu na Grécia e no Chipre e a ideia circula pelos corredores da Europa.
Naturalmente que os aforradores ficam nervosos, sejam o "grande capital estrangeiro" ou os velhinhos que têm certificados de aforro, com a comparação com o que aconteceu na Grécia e em Chipre.

E qual será o impacto do "perdão"?
Os privados que têm grande parte da nossa dívida pública são os nossos bancos. E já ficou acordado que as perdas dos bancos serão transmitidas aos depositantes.
O provável é que aconteça como no Chipre: primeiro, o congelamento das contas bancárias abaixo de um determinado quantitativo e, posterior, uma perda parcial desses depósitos.
A coisa vai cair no bolso de cada um de nós seja por mais impostos, menos despesa pública ou outra qualquer marretada..
Fig. 2 - Das Problem ist dass ich nicht von den Deutschen gewählt um die Portugiesen zu unterstützen. O problema é que eu não fui eleita pelos alemães para sustentar os portugueses (google.translator)
Será que tudo falhou?
Diz ainda o Chilavert que "Todas as soluções aplicadas por FMI, BCE e Governo falharam!". O problema é exactamente ao contrário: as soluções propostas pela Troika não foram sequer implementadas.
"A meu ver, grande parte das soluções do governo não foram sequer aplicadas porque foram contrariadas pela opinião pública (ex: TSU) ou pelo TC (diversos cortes na despesa). Pior ainda quando se fala nas soluções da troika, pois muitas destas, constantes do acordo, nem sequer foram seriamente tentadas pelo governo (ex: fusão de municípios, venda da RTP, TAP). Eu ainda estou à espera que as soluções do governo e da troika venham a ser aplicadas - e só aí é que poderemos concluir se resultaram ou falharam." (Portuendes)

As metas assinadas pelo Sócrates (que não tinha qualquer intensão de respeitar) nunca foram atingidas porque o Governo não conseguiu cortar suficientemente na despesa nem  aumentar os impostos. Foram apenas umas tentativas tímidas que, mesmo assim, saíram de conselhos de ministros tumultuosos. Não nos podemos esquecer que o Gasparzinho saiu porque a Moção de Estratégia do Portas ao congresso do CDS fazia dele o bombo da festa.
O Sócrates assinou que teríamos um défice de 3% do PIB em 2013, o governo vai atingir 6.0% e ainda assim os esquerdistas conseguiram convencer o povo que os cortes foram maiores que o previsto no Memorando assinado pelo Sócrates.
Para 2013 faltam 5000M€ relativamente aos cortes que em 2011 o Sócrates prometeu à Troika.
 
É preciso ser cego e não querer ver.
O Hulk ter dito no túnel da Luz "agarrem o Hulk senão eu mato o cara", foi gravíssimo e merecedor de meses e meses de suspensão. O Jesus ter literalmente batido em polícias (as mãos dos polícias também  são polícias), não foi nada.
"Estava só a proteger o minino"
A argumentação do Seguro é que, quanto mais o governo poupar, menos poupa. Então, quando o PS for governo, quanto mais gastar, menos gastará.
 
Imaginemos um gordo. Quando comemos, a digestão gasta calorias. Então, se comermos mais, gastamos mais calorias. Daqui, conclui o Seguro que quem quiser emagrecer tem que comer mais.
É preciso ser louco para acreditar nisto mas ele está convicto e o povinho quer acreditar.
 
Fig. 3 - Se queres emagrecer, come mais pois a digestão gasta calorias
 
Em 2011 a conta era fácil de fazer.
Se Portugal tinha um défice público de 10% do PIB, 17MM€/ano, e a despesa pública era de 50% do PIB então, a despesa tinha que diminuir 11.3MM€ e o a receita aumentar 5.7MM€ (tinha sido acordado que 2/3 do ajustamento seria do lado da despesa).
Se somarmos a isto o efeito recessivo da correcção do défice externo de 11% do PIB (e não das contas públicas que têm um efeito neutro), estamos a falar em cortes e aumentos da receita ainda superiores.
Muita gente fez esta conta, desde o Cantiga Esteves ao Silva Lopes passando pelo Medina Carreira mas ninguém quis acreditar, mesmo antes de o Passos formar governo.

Mas o nosso ajustamento externo tem sido extraordinário.
Todos sabemos que a correcção das nossas contas externas tem estado associado a uma contracção do PIB mas temos que comparar com a Grécia para ver se o nosso ajustamento tem sido ou não um fracasso.
O desequilíbrio face ao exterior de 11% do PIB era gravíssimo porque implicava mais endividamento externo. vivíamos bem porque, anos e anos a fio, cada português endividou-se face ao exterior em 150€/mês.

Fig. 4 - As nossas contas externas tinham um défice de 11% do PIB.

Naturalmente que menos 600€/mês de endividamento externo em cada família de 4 pessoas tem uma efeito negativo no PIB. Considerando o PIB per capita, a nossa perda foi, até finais de 2012, de 5%..

Fig. 5 - Apesar de tudo, o PIB per capita português só contraiu 5% e já está a crescer.

É fácil calcular que a correcção foi conseguida com um "efeito multiplicador" ligeiramente menor que 0.5 (cada correcção de 1% do PIB implicou uma perda do PIBpc de 0.46% do PIB).

Vamos comparar com a Grécia. 
A Grécia precisou corrigir um défice das contas exteriores ligeiramente superior ao nosso, 14% do PIB, 230€/mês por cada pessoa. Não será preciso ter grandes conhecimentos de economia para prever que reduzindo-se o financiamento de cada família em cerca de 1000€/mês, o povinho ficou grego.

Fig. 6 - A Grécia precisou corrigir um défice externo de 14% do PIB.

Esta correcção foi acompanhada (até finais de 2012) por uma contracção do PIB per capita de 20%, quatro vezes a nossa perda..
  
Fig. 7 - O PIB per capita grego já contraiu 20% e continua em queda.
É verdade que o PIB pc da Grécia ainda é ligeiramente superior ao nosso mas estamos a convergir.

Então, na Grécia o "efeito multiplicador" foi de 1.4 (cada correcção de 1% do PIB implicou uma perda do PIBpc de 1.4% do PIB), o triplo do "efeito multiplicador" verificado em Portugal.
Temos que concluir que, em comparação com a Grécia, o nosso ajustamento das contas externas foi um grande sucesso.
  
E as contas públicas estão a evoluir benzinho
Tínhamos um défice de 10% (em 2009/2010) e fechamos 2012 com 6.4% (uma consolidação de 1.8% do PIB por ano).
Apontamos para 2014 um défice de 4% do PIB que traduz uma consolidação no período 2013/4 de 1.2% do PIB.
Lentamente, o Passos tem levado a água ao moinho.
  
Pergunta ainda o Chilavert
"Será que todos os portugueses vão ter de pagar pela incompetência das "elites" e serão os únicos castigados pelo falhanço do projecto UE?"
O primeiro problema é que a incompetência tem um impacto positivo nas nossas vidas.
São as pensões chorudas aos 52 anos de idade daqueles que anunciam na TVque "sustentam com a pensão a filha e genro que não trabalham e o neto toxicodependente.
São os empregos garantidos e bem remunerados de centenas de milhares de professores e demais funcionários públicos.
São as empresas públicas a fornecer serviços a preço de saldo.
São as estradas e autoestradas para tudo que é sítio.
É a assistência médica universal e gratuita.
É um ensino de qualidade e gratuito.
O problema é isto tudo ser feito sem qualquer preocupação quanto à capacidade do nosso pequeno país gerar riqueza suficiente para o manter.
 
O segundo problema é que a incompetência das "elites" pode ser corrigida.
É cortar tudo o que o Estado prometeu sem ter possibilidade de lhe dar cumprimento.
O Passos Coelho não se deve esforçar a convencer o Tribunal Contitucional de que é constitucional cortar 10% nas reformas dos funcionários públicos ou descer os salários dos funcionários públicos.
Tem é que pedir a declaração da inconstitucionalidade das leis e diplomas que instituíram as regras de aposentação dos funcionários públicos sem atender às receitas potenciais.
Tem é que pedir a declaração da inconstitucionalidade de todas as leis e decretos que permitiram contactar para o quadro funcionários públicos com salários e condições melhores que os trabalhadores privados.
Tem é que pedir a declaração de que assumir encargos com "direitos adquiridos" viola o Principio da Confiança de que o Estado não vai onerar os contribuentes futuros com encargos insuportáveis.
Se não é possível mudar um "direito adquirido" que é financeiramente insustentável então, a constituição desse "direito" é declaradamente inconstitucional.

Não foi a UE que falhou.
Fomos nós que quisemos acreditar que tínhamos direito a ter um nível de vida superior ao dos alemães sem sabermos fazer nada de valor.
De repente, nós e a Grécia, tornamo-nos em califados árabes mas em que o petróleo foi substituído pelo endividamento externo.
Eu ainda me lembro de não sei quem (penso que o Sócrates mas também pode ter sido o Cavaco, a Ferreira Leite, o Portas ou outro parolo qualquer) dizer que tínhamos todas as condições para nos tornarmos a região mais rica da Península Ibérica.
Agora só temos que nos desconvencer dessas idiotices e colocarmo-nos na posição que sempre foi a nossa: um país de riqueza intermédia.
Por mais que não queiramos meter nas nossas cabecinhas, em cada 7 pessoas que existem no nosso planeta, 6 delas têm um nível de vida inferior ao nosso. E o nosso nível de vida é 60%  do rendimento médio dos 40 países mais ricos do que nós:
  
PaísPIBpc, PPCPop.PaísPIBpc, PPCPop.
Qatar326%1,7Finland148%5,4
Luxembourg319%0,5Japan143%127,6
Singapore236%5,1France138%65,0
Norway220%4,9Bahamas, The128%0,4
Brunei Darussalam212%0,4Spain126%46,0
United States197%309,1Italy126%60,4
Kuwait196%3,0Korea, Rep.123%49,5
United Arab Emirates182%8,2Equatorial Guinea122%0,7
Switzerland182%7,8Israel122%7,6
Ireland174%4,5Slovenia118%2,0
Netherlands172%16,6New Zealand117%4,4
Austria166%8,4Saudi Arabia117%27,3
Canada165%34,1Cyprus117%1,1
Australia162%22,0Oman113%2,9
Iceland159%0,3Czech Republic110%10,5
Sweden159%9,4Greece110%11,3
Germany157%81,9Trinidad and Tobago109%1,3
United Kingdom153%62,3Malta106%0,4
Belgium153%10,9Bahrain101%1,2
Denmark152%5,5Portugal100%10,6

 Quadro 1 - Só 1 em cada 7 pessoas do Mundo vive em países com um PIB per capita, paridade de poder de compra superior ao nosso (dados, Banco Mundial, média 2008-2012)
 
E o que nos espera o futuro?
É aplicar o que o Sócrates assumiu com os nosso credores.
Apesar de já muita coisa ter sido feita, o caminho a percorrer ainda é longo e cheio de espinhos porque estamos atrasados 2 anos.
Na construção do OE para 2014 vai ser preciso cortar 2500 milhões € relativamente ao estamos a viver em 2013.

Retomar os cortes dos subsídios.
O Governo não pode desanimar com o chumbo do Constitucional do corte do subsídio de férias.
Tem que voltar a atacar este corte ultrapassando a questão da "violação do principio da igualdade".
O mais fácil será reduzir os subsídios de férias e de Natal a meio salário em todos os contractos de trabalho sejam públicos ou privados. É um corte de 7.14%..
Vamos supor que o Governo não quer que o corte seja igual nos salários mais baixos. Então, pode fazer uma redução na TSU dos salários mais baixos, por exemplo, no SMN a TSU passar de 11% para 6%..
Esta medida terá um impacto na despesa na ordem dos -1300M€.

Um novo aumento de impostos.
O IRS e o IMI subiram em 2013 pelo que vão descansar um anito.
Em 2014 vai ser o ano do IVA vai ter que subir dos 6% / 13% / 23% para os 8% / 15%  / 25%.. Esta medida tem um potencial impacto na receita fiscal na ordem dos +1000 milhões €.
Mais uns cortes aqui e outros acolá e a coisa vai ao sítio.

Privatizar e liquidar empresas públicas.
Para 2015 será preciso que o plano de saneamento das empresas públicas ganhe força.


Flexibilizar o mercado de trabalho.
Apesar de já ter sido feito bastante, a nossa Lei do Trabalho ainda de avançar mais, convergindo para o que nas economias mais avançadas como os Estados Unidos da América, Reino Unido ou Alemanha.
1) Possibilidade de redução, por acordo, dos salários.
2) Possibilidade de flexibilizar, por acordo, o horário de trabalho.
3) Flexibilizar, por acordo, as condições do contracto de trabalho.

Fig.  8 - Tornarmo-nos flexíveis exige esforço mas, em caso de tensões, evita lesões

O relatório do FMI.
Toda a gente sabe que "tomar medicamento a mais" mata o paciente. Quando nos doí a cabeça, se tomamos 50 caixas de aspirina, naturalmente que vamos rebentar com o nosso estômago.
Então, o FMI dizer que o excesso de consolidação orçamental tem um efeito negativo na economia não é novidade nenhuma.
A questão está na quantificação do que é "excesso de consolidação orçamental". Os estudos indicam que será uma consolidação acima de 2% do PIB a cada ano.
No caso português, estamos a consolidar um défice público de 10% do PIB (em 2009 /2010) à razão de 1.8% do PIB no biénio 2011/12 e de 1.2%  no 2013/4 (previsto) o que está claramente abaixo do limite dos 2%/ano..
Assim, não é preciso ter medo da "espiral recessiva" do "excesso de austeridade" pois o nosso programa de ajustamento é adequado e vai no bom caminho.

Finalmente, o progresso no Mundo.
As notícias que passam na comunicação social são só tragédias mas é informação enviesada para a desgraça. De facto, nunca o nível de vida das pessoas à escala mundial melhorou tão rapidamente como se tem observado nos últimos anos.
Pegando em dados do Banco Mundial, desde 2010 o PIB pc ppc está a aumentar 4.5%/ano (usando a população como ponderador na agregação dos países). Isto traduz que a cada 15 anos, o nível de vida das pessoas está a duplicar.

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

O programa cautelar e o segundo resgate

As finanças públicas portuguesas têm 2 problemas.
O primeiro problema é a divida pública bruta ser massiva, cerca de 215 mil milhões de €, 130% do PIB.
O segundo problema é o défice público ser elevado, cerca de 10 mil milhões € anuais, 6% do PIB. 
Estes dois problemas são diferentes mas estão ligados porque, por um lado, a divida pública "cria" juros que fazem aumentar o défice público (são despesa) e, por outro lado, o défice traduz despesa pública que não consegue ser financiada com receita (impostos) o que obriga a aumentar a dívida pública.
A junção destes dois problemas cria na mente dos aforradores a dúvida quanto à nossa vontade colectiva e capacidade em cumprir as nossas obrigações financeiras o que faz com que as taxas de juro que exigem pela dívida pública aumentem.

Fig. 1 - Fujam que vem aí o segundo resgate. 

Um euro de défice é mais um euro de endividamento.
O Estado financia a sua despesa e investimento de cada ano com os impostos e com novo endividamento.
Mas o Estado apenas pode ter défice (mais despesa que receitas) se houver alguém que lhe empreste dinheiro.
É tal e qual a vida de um tóxico-dependentes: só há vício se houver onde ir buscar o carcanhol.

Fig. 2 - Pelas contas da EuroStat, o nosso défice tem andado nos 6% do PIB, cerca de metade devido aos juros

Há coisas que não vão ao défice.
Se tudo fosse às contas públicas, um euro de défice traduzia-se directamente em mais um euro de divida pública. Como o défice público acumulado do governo do Passos foi (em 2011-2012) cerca de 11% do PIB, a divida pública teria aumentado exactamente 11% do PIB mas aumentou bastante mais.
Acontece que o EuroStat considera apenas as receitas e despesas geradas no próprio ano. Quer isto dizer que, por exemplo, se forem descobertas despesas que foram escondidas em 2008, estas verbas vão directamente à divida sem haver revisão das contas do défice de 2008.

Mas também há défice que não implica novo endividamento.
Também acontece que há receitas (das privatizações) que não entram no défice mas que servem para financiar o Estado.
Há ainda o caso de despesas que vêm ao défice mas que já têm o financiamento garantido, por exemplo, prejuízos de empresas públicas que já estão financiados.
Então, apesar de haver uma ligação muito forte entre défice e necessidades de financiamento, há anos em que existem discrepâncias importantes.

As necessidade de financiamento do Estado.
É a soma do "novo endividamento" com o "velho financiamento que se vence".
Se, em média, a divida pública portuguesa tiver uma maturidade de 7 anos, cada ano vencem-se (i.e., é preciso pagar) 30 mil milhões €, 2.5MM€/mês. Se a maturidade média for de 2 anos, o estado precisará 108 mil milhões € por ano, 9MM€/mês.
A esta divida que é preciso reformar, o estado precisa acrescentar o défice do ano corrente.

A divida pública bruta e líquida.
Nesta última semana surgiu uma discussão entre os dados da Maria Luíz (da dívida liquida) e do Banco de Portugal (da divida bruta).
A divida bruta quantifica tudo o que o Estado deve enquanto que a divida líquida obtém-se subtraindo à divida bruta o valor de todos os activos vendáveis do Estado (leia-se, privatizações e créditos).
O problema do cálculo da dívida liquida está na quantificação do valor dos activos do Estado porque, se for obrigatório continuar a actividade, há valores positivos (por exemplo, os CTT) também há valores muito negativos (por exemplo, as empresas de transportes públicos onde se inclui a TAP).

Vamos ao endividamento do Estado.
Normalmente, o estado português endivida-se em leilão.
Primeiro, o estado anuncia quanto se quer financiar (e.g., entre 750M€ e 1250M€) e o prazo (e.g. 540 dias).
Segundo, os aforradores individuais dizem quanto querem emprestar e a que taxa de juro. Apresento o exemplo de 4 dos 100 aforradores que nos pretendem emprestar dinheiro:

     Aforrador       Quantidade         Taxa de juro anual
       António            1500€                    3.456%
       António            3550€                    4.143%
       Joaquina            2350€                   2.971%
       Manuel               790€                   3.431%
      Albertina            3525€                   4.563%
      Albertina            5000€                   5.863%

Terceiro, as ofertas são organizadas pela taxa de juro de forma crescente.

     Quantidade         Taxa de juro anual média
               ...                          ...
        754565€             2.955%
        754653€             2.956% <- quero aqui
        757749€             2.9611%
              ...                           ...

Quarto, o estado português decide qual o quantitativo de dinheiro que vai aceitar emprestado sujeitando-se à taxa de juro média exigida pelos aforradores.

O mercado secundário.
Todos os dias os aforradores podem comprar e vender dívida pública que está na mão de outros aforradores. Este mercado denomina-se secundário porque não é o Estado que está a emitir os títulos de dívida.
Apesar de o estado português não se estar a endividar, se hoje fosse pedir dinheiro emprestado (fosse ao mercado primário), a taxa de juro iria ser muito próxima da taxa de juro do mercado secundário.

Depois, há o financiamento da Troika.
Em 2010 os agentes económicos deram conta que a probabilidade de Portugal não conseguir pagar a sua divida era muito grande pelo que, para as garantias normais de mercado, os aforradores começaram a exigir taxas de juro demasiadamente elevadas. Por exemplo, 15%/ano sobre 215MM€ traduziam-se num encargo de 32MM€ por ano que é maior que a soma de todas as pensões, subsídio de desemprego e RSI.

Foi preciso arranjar financiamento fora do mercado.
Esse financiamento (na ordem dos 3.2%/ano), por ser a uma taxa de juro muito inferior ao mercado, é um favor que alguém nos faz, no caso, os nossos parceiros europeus e do FMI.
Acontece que esse financiamento, além do juro baixo, trouxe condições que temos que cumprir religiosamente.

A qualquer momento podemos sair do programa.
Se hoje o Passos Coelho quisesse, abandonávamos o Memorando de Entendimento mas seria preciso pagar de volta todo o dinheiro que nos emprestaram.
Interessante o Seguro nunca avançar com esta hipótese quando afirma que não vai cumprir nada do que nos é exigido.

Fig. 3 - O problema é que a taxa de juro irlandesa está 0.1 pp abaixo do nível médio de 2003/2008 e a nossa está 3.2 pp acima (dados, ecb)

Daqui a nada, a mama acaba-se.
Quando o nosso resgate foi assinado em princípios de 2011, pensaram que em 3 anos Portugal conseguiria ganhar a confiança dos aforradores. Eu nunca acreditei no que afirmava o Gasparzinho mas, lentamente, as taxas de juro foram descendo até que, em finais de maio 2013, atingiram 5.20%/ano. Parecia que ia tudo bem encaminhado mas descarrilamos.
A Irlanda já consegue crédito a 10 anos com uma taxa de juro 0.1 pp abaixo da média de 2004/2008 (3.9%/ano) enquanto que nós teríamos que pagar mais 3.2 pp (7.2%/ano), ver Fig. 3.
Se em Maio 2013 parecia que nos íamos safar, hoje é certo que não nos vamos conseguir financiar em mercado pelo que precisaremos de continuar a receber ajuda (e "conselhos") dos nossos parceiros.

Será possível termos um programa cautelar?
Não. Isso foi uma miragem que se esfumou com a saída do Gasparxinho.

O que será o programa cautelar?
O programa cautelar irá cobrir uma percentagem das necessidades de financiamento à taxa de juro de mercado.
Num leilão de divida pública, quanto mais dinheiro se quiser, mais elevada é a taxa juro média que se paga. Então, o programa cautelar ao assumir uma percentagem do valor pretendido, faz com que a taxa não seja tão elevada.
Por exemplo, Portugal precisa de 2MM€ a 5 anos indo, primeiro, ao mercado de divida pública captar 25% (e.g., conseguia 500M€ a uma taxa de juro média de 2.956%/ano). Depois, os restantes 1500M€ são emprestados pelos nossos parceiros a essa mesma taxa de juro (2.956%/ano).
O programa cautelar implicará uma "vigilância reforçada" mas pouco restritiva porque o mercado vai, com a subida da taxa de juro, criar os incentivos certos para que o governo se porte bem. Serão as normais condições de, tendencialmente, um défice público nos 1.5% do PIB mas, se não for cumprido exactamente, paciência. 

As taxas de juro establizaram num valor muito alto.
Mas não vamos poder ter um programa cautelar porque as taxas de juro, mesmo de curto prazo, estão incomportáveis. A 3 anos estão nos 6.33%/ano, muito acima dos 3.20% da Troika, enquanto a Irlanda já está nos 1.72%/ano (abaixo da taxa de inflação esperada).
Em Maio de 2013, quando a nossa taxa de juro a 3 anos estava nos 3.2%/ano (igual à da Troika), podiamos pensar num programa cautela. Agora, temos que avançar para um segundo resgate.

Fig. 4 - Mesmo no curto prazo, a nossa taxa de juro está ao nível de um país do terceiro mundo

A 8.a e 9.1 avaliação estão a preparar o 2.o resgate.
Primeiro, o novo resgate  vai implicar que os investidores privados terão perdas. As actuais taxas de juro indicam que quem tiver 100€ de divida pública portuguesa a 10 anos vai receber 66.67€ e, se for a 3 anos, 89.00€ em obrigações do Fundo de Resgate com o mesmo prazo e remunerados à taxa de 3.20%/ano em que, quem vai pagar os juros é Portugal.

O défice terá que cair para zero.
O défice vai ter que se reduzir rapidamente para zero de forma a acabar a necessidade de novo financiamento. Com um crescimento médio de 1%/ano e uma inflação de 2%/ano, um défice público nulo faz com que em 25 anos a nossa divida pública se reduza dos actuais 130% do PIB para o objectivo de Maastricht de 60% do PIB.
Para que isto aconteça é preciso avançar com cortes de 6000 milhões € (e não 3.7MM€)e com aumentos de impostos de 3000 milhões €.
Vai ser preciso cortar muito mais em  pensões, salários, saúde e educação mesmo que tal seja inconstitucional. Vai ser como na Grécia: se é incontitucional despedir funcionários públicos, o governo vai suspender os pagamentos dos salários a 24 mil e quem quiaer que se vá embora.
Quando o Seguro vier que pague.

O mercado de trabalho tem que progredir.
As reformas do mercado de trabalho terão que ser aprofundadas para reduzir a taxa de desemprego.
Terá que haver mais flexibilidade não só na contratação e despedimentos mas também  nos salários e horários.
Terá que haver mais cortes no regime do subsídio de desemprego.

Imaginemos o impossível.
Que algures no futuro, o Seguro vai chegar a primeiro ministro.
Onde vai ele arranjar financiamento para cumprir a promessa de repor as pensões, salários e demais gastos que o Passos Coelho tem que cortar?
A sorte dele é que isso nunca irá a acontecer. O que o Seguro anuncia são terrenos armadilhados para cortar o caminho aos seus opositores internos. Vai vale ser o bobo da corte que comido pelos tubarões.
O António Costa está calado mas vai ter que dar resposta a todas as babuzeiras que o Seguro vai avançando. Isto vai obrigar o Costa a pesar pois, no dia em que, eventualmente, tomar posse como primeiro ministro vai ter à perna o Seguro a gritar:
-Eu queria reconstruir tudo que o Passos Coelho destruiu mas o PS não me deixou.

Fig. 5 - Enquanto ninguém olha, vou-me esconder e fazer de morto porque o caminho para salvador da pátria está todo minado.

Pedro Cosme Costa Vieira

terça-feira, 17 de setembro de 2013

O lixo é uma chatice

Mas como o jfdr insiste, vou falar um pouco do lixo.
Na economia, normalmente fala-se dos bens, coisas que ao consumirmos retiramos utilidade (bem-estar). Os bens, partindo de recursos naturais, são produzidos segundo um processo tecnológico que tem custos e nós estamos disponíveis para pagar um preço que cobra esses custos de produção.
O "consumo" dos males (os maus cheiros, etc. causados pelo lixo), pelo contrário, diminui o nosso bem-estar. De forma simétrica aos bens, os males são destruídos segundo um processo tecnológico que tem um custo. Agora teremos que estar disponíveis para pagar ao "vender" o lixo a quem lhe vai dar destino.
Os bens e os males têm um processo semelhante mas simétrico em que o preço dos bens é positivo (quem vende recebe e quem compra paga) enquanto o preço dos males é negativo (quem vende paga e quem compra recebe).
A partir daqui, tudo o que se aplica aos bens também se aplica aos males: é preciso um sistema de preços e um mercado em concorrência.

Fig. 1 - A tentativa de não queimar os plásticos está a submergir o Mundo

A tecnologia da destruição do lixo.
Em termos tecnológicos, a separação que fazemos do nosso lixo é errada porque  responde a teorias ambientais extremistas de que o processamento dos lixos segundo as forças de mercado (o sistema de preços) não é eficiente. Então, sob o sonho do "zero impacto", impõem principalmente nos países incultos como o nosso a ideia de que é preciso reciclar tudo.
Isto está errado porque nem é possível reciclar nem tem qualquer interesse porque estamos a tentar aproveitar coisas idênticas a outras que queimamos.
     Queimar papel é igual a queima madeira;
     Queimar plástico é igual a queimar gasolina;
     Queimar resíduos orgãnicos é igual a queimar biocombustíveis.

Primeiro, o lixo tem que ser separado em 3 classes.
Em países desenvolvidos, como o Japão ou a Noruega, o lixo é tendencialmente separado em três classes.

Classe um -> Tudo o que pode ser incinerado.
Esta classe inclui  os resíduos orgânicos, o papel e o plástico.
Se olharem em vossas casas para o caixote do lixo, mais de 95% do que lá está cai nesta classe.
Os resíduos orgânico (cascas, vegetais podres e restos de comida) não ardem porque têm um elevado nível de água mas, juntamente com o papel e plásticos das embalagens que deitamos ao lixo, já o compósito é incinerável a alta temperatura. Se, em termos pontuais,  o poder calórico do lixo não for suficiente para a incineração, acrescentam-se-lhe resíduos florestais.
Da incineração resulta calor que pode ser aproveitado para a produção de electricidade.
Ao incinerar os resíduos da classe 1, ficam a cinzas que são cerca de 5% do peso do lixo original que são um fertilizante natural.
Por exemplo, a Noruega vai importar 800000 toneladas de lixo para aquecimento das casas (ver).
No Japão todo o lixo orgânico, papel e plástico é incinerado.

Não é possível reciclar os plásticos e o papel.
O anúncio da reciclagem destes materiais é enganosa porque não resulta dela papel ou plástico usável em condições normais.
Apesar de fazer papel a partir de papel velho ter menos impacto ecológico, ponderando pela baixa qualidade, o impacto é maior.
 
Classe dois -> Tudo o que é inerte.
Nesta classe caiem os cerâmicos (o vidro e a louça partida) que  apenas coloca problemas estéticos.
Devem ser moídos e usados como terra de enchimento. 
O vidro é possível ser reciclado mas é mais eficiente usá-lo como enchimento.

Classe três -> Tudo o que tem metal e electrónicas.
Esta classe é a que causa verdadeiro dano ambiental porque alguns dos metais são tóxicos, principalmente as baterias e pilhas usadas nos computadores.

Tem que ser feito um esforço.
Não tem mal nenhum juntar lixo da classe 2 ao lixo da classe 1.
Já é grave juntar as pilhas e baterias ao produtos a incinerar porque contaminam as cinzas e emitem gases (metais) para a atmosfera.
As pessoas têm que ser mentalizadas para não incluir estes lixos no contentor para incineração e todos estes objectos têm que ter aço na sua composição (mesmo que aumente o peso) para ser fácil a sua separação por meios magnéticos.

Fig. 2 - A Miss Garbage usa roupinhas feitas a partir de lixo

Segundo, entra a concorrência.
Se as pessoas tiverem que pagar para entregar o lixo ficam tentadas a verem-se livres dele pela calada da noite. Então, o custo de destruição (em termos médios) tem que ser pago quando a pessoa adquire o bem ou serviço que vai dar origem ao lixo. Isto já está implementado em certos bens, a ecotaxa, mas tem que ser generalizado em função do custo de destruição e da perigosidade para o ambiente.
Vamos supor que destruir uma bateria de computador custa 5€ e que a bateria põe muito perigo ambiental. Então, instituía-se uma ecotaxa de 25€ e a pessoa recebe 20€ quando a entregar a uma empresa de tratamento de lixos.

E onde entra o mercado?
Quem destruir lixo, recebe a ecotaxa (da entidade que a cobra) que o consumidor pagou no momento em que adquiriu o bem ou serviço.
Então, podem existir vários processadores de lixo, uns especializados e outros generalista, que nos compram o nosso lixo pagando parte da ecotaxa que recebem. No caso da bateriam, podem pagar 20€.
Então, as empresas mais eficientes, que usam as tecnologias mais adequadas à destruição do nosso lixo, vão conseguir pagar um preço mais elevado que as menos eficientes.
Também existirá um incentivo económico para que separemos e entreguemos o lixo mais perigoso sem necessidade de actuar do lado da multa (que têm um custo administrativo muito elevado).

Mas é muito difícil um contador de lixo.
Isto é um problema que pode tornar difícil aplicar aos lixos das classes 1 e 2 mas também não é grave. Cada empresa teria os seus contentores de classe 1 e classe 2 para servir uma determinada zona e, depois, os ganhos seriam distribuídos pelas pessoas que fossem lá por o lixo. Os lixos de classe 3, por valerem mais dinheiro e serem mais raros, poderiam ser recolhidos nos centros comerciais.

E se a pessoa quisesse o seu plástico reciclado?
Como a reciclagem não é eficiente, em vez de receber, teria que pagar.

Mas as autarquias instituíram monopólios.
O problema está aí. Se não houver pressão por parte das pessoas, o Estado cria monopólios.
É uma tendência natural como a água correr para baixo.

Pedro Cosme Costa Vieira

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Best Hostgator Coupon Code