domingo, 24 de maio de 2015

6 - A confissão

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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6 – A confissão
A Maria Zé chegou à casa paroquial pouco passava das 10h30. Puxou o arame da sineta – tlim, tlim, tlim – e passado um ou dois minutos apareceu a criada do Sr. Padre, a Menina Encarnação.
– Bom dia Sra. Maria José, o que a traz por cá? Vejo que vem de preto pelo que não deve ser coisa boa.
– Sabe Menina Encarnação, o meu filho mais pequenino, o Simeão, morreu durante a noite e eu vinha cá para falar com o Sr. Padre e tratar do funeral. Já havia alguns dias que estava meio doente, não queria comer, ainda pensei chamar o Sr. Dr. Acácio mas como pensei que a doença não fosse grave e o dinheiro não gosta de aparecer lá por casa, adiei a coisa e agora, durante a noite, o meu menino morreu.
– Eu não tenho filhos mas toda a mãe quando tem um filho tem que se preparar para a eventualidade de o perder. A Sr. Maria Zé sabe que a vida é um constante apegamento às pessoas que amamos e despegamento quando as perdemos. E parece que Deus vê um certo pecado na felicidade do amor de mãe pois quanto mais alegria a mãe retira da sua criança, mais sofre quando Deus lha tira.
– É isso mesmo Menina Encarnação, estou aqui por dentro que não me aguento mas tenho que ir buscar forças onde as não tenho pois a vida tem que seguir em frente. Eu estive há pouco na casa do Sr. Costa e a Menina Dulcinha disse-me que se o sino tocasse hoje de manhã o funeral ainda poderia ser hoje, na missa das 18h. É que está calor e pode ser uma doença que ponha em causa a saúde pública.
– Eu imagino o que está a sofrer, imagino que quando morre um filho é um tempo de enorme desgosto mas, realmente, é preciso tratar das coisas práticas. Entre, entre e sente-se aqui que o Sr. Padre Augusto vem já, foi há igreja rezar pela salvação das nossas almas e tratar de uns assuntos de papeladas mas não demora. Entre que eu vou preparar uma limonada pois, neste tempo de calor, só faz bem e, depois, vou mesmo dar uma saltadinha à igreja a ver se apresso a coisa.
Naquele tempo de espera, a Maria Zé reviveu tudo o que se tinha passado na noite anterior. Como tinha lutado mas sem convicção e rezado mas sem fé na cura e na salvação do filho. Por causa dessa falta de convicção e por ter feito o contrato com a Tia Júlia achava-se muito culpada pela morte da criança. Mas, mais grave do que ter participado na morte, era não estar arrependida. No fundo, no fundo, estava conformada com o que tinha acontecido e até, em certa medida, contente e aliviada porque “não podia criar uma criança assim tão doente”. Não tinha orgulho no que tinha feito mas também não tinha vergonha. E se não estava arrependida como é que poderia ter o perdão de Deus? Estava mesmo condenada à perdição, afinal a ideia nobre de ter filhos, de dar cumprimento aos mandamentos de Deus, tinha-a condenado à perdição eterna, estava agora condenada a arder no eterno fogo do Inferno.
O Sr. Padre tanto pode ter demorado muito como pouco porque os pensamentos fizeram a Maria Zé perder a noção do tempo. Foi então que o Sr. Padre Augusto entrou na pequena sala de espera.
– Bom-dia Maria Zé, o que te traz por aqui minha filha? – Disse o Sr. Padre mal entrou na pequena sala.
– Abençoe-me Sr. Padre que venho aqui procurar o conforto dos Mandamentos de Deus. É que o meu filho mais pequenino, o Simeão, morreu-me durante a noite. E também venho pedir se pode marcar o enterro para ainda hoje, para logo à tarde. Disse-me a Menina Dulcinha que era o melhor que poderia ser feito por causa do calor que está. Sabe Sr. Padre, também estou com um peso na consciência porque não fiz o suficiente para evitar que a minha criança morresse.
– Por agora deixa-te disso da culpa pois precisamos primeiro tratar dos assuntos práticos. Oh Encarnação, vai a casa do Sr. Mariazinha dizer-lhe que item que r à igreja dobrar o sino para anunciar o funeral para ainda hoje e diz-lhe também para abrir uma cova para uma criança pequena. Depois, quando vieres, preparas a casula branca pois, sendo o funeral de um anjinho, merece a casula da inocência e da pureza. Maria José, vamos agora até à igreja para ouvir o que ias dizer mas agora sob a protecção do segredo da confissão.
A Igreja distava menos de cem metros da casa paroquial que foram percorridos em silêncio sepulcral. À frente ia o padre vestido com a batina preta, o chapéu preto e as mãos entrelaçadas com um terço de pérolas brancas atrás das costas. A Maria Zé perseguia-o a rezar avé-marias em pensamento. Chegados à sacristia, o padre meteu a chave à porta e abriu-a – “Aguarda ali que já lá te vou abrir a porta lateral da igreja” – entrou e fechou a porta novamente com duas voltas de chave. Ainda demorou lá dentro uns bons minutos, talvez a rezar junto do Santíssimo a pedir inspiração divina. Depois, abriu a porta lateral – “Entra minha filha, vamos para o confessionário” – Afinal aquele tempo tinha servido para vestir a alva.
A Maria Zé ajoelhou-se – “Abençoe-me Sr. Padre porque pequei por actos e omissões, por minha culpa, minha única culpa.”
– Deus te abençoe.
– Eu não posso ter perdão pois eu sou a responsável, por actos e omissões, pela morte do meu Simeãozinho.
– Deus compreende que na miséria em que vivemos nem sempre os país podem dar às suas crianças uma alimentação boa, Deus sabe e compreende.
– Mas Sr. Padre, a minha criança não morreu de fome ...
– Eu sei minha filha, eu sei tudo o que se passou ontem à noite em tua casa, eu sei que a tua Tia Júlia esteve ontem em tua casa para fazer o defumadouro à tua criança e que ela não resistiu.
– Mas como é que o Sr. Padre já sabe disso? Foi o Espírito Santo que lho disse?
– Não, nada, não foi nada disso, foi uma coisa mais terrena. É que a Júlia antes de ir a tua casa passou por aqui para rezar e para falarmos um pouco. Quando te ouvi dizer que a tua criança morreu durante a noite, somei dois com dois e descobri logo que essa tua criança não resistiu ao defumadouro. Sabes minha filha, vês que cá na nossa aldeia morrem muitas crianças, em cada 10 que eu baptizo, morrem umas 3 ou 4 antes de fazerem a comunhão. Deus deve querer que seja assim, se não é a fome é o tifo, se não é o tifo é o sarampo e se não é uma coisa nem outra, é o defumadouro, pelo que já estou habituado a estas tragédias.
– Mas Sr. Padre, o defumadouro não mata ninguém, o meu outro filhinho, o Rúben, também teve o defumadouro e não lhe aconteceu nada de mal. Não foi o defumadouro que matou a minha criança mas antes a Tia Júlia ter fechado a tampa da caixa da roupa onde tinha metido o meu filho juntamente com o fogareiro em brasa. Foi a caixa estar fechada que asfixiou a criança e o grave é que eu sabia que a criança ia asfixiar e não fiz nada para o evitar. Escondi-me atrás de uma esperança sem sentido de que iria acontecer o milagre da cura.
–Quando nascemos já sabemos que vamos morrer e se Deus permitiu que isso tivesse acontecido é porque queria a tua criancinha junto dele, tens que ter paciência. É sempre triste ver um filho morrer mas são os caminhos do Senhor para ver até onde vai a tua fé. Para ti é um sofrimento sem igual para para a tua criança, por esta hora já está no Céu.
– Mas senhor padre, eu não me fiz entender pelo que vou ter que ser mais clara, a minha criança morreu porque a Tia Júlia a matou e com a minha conivência. Não foi Deus que a chamou foi o meter do fogareiro em brasa numa caixa fechada juntamente com a minha criança. Não foi mais que uma Lei da Natureza, meter a criança com carvão a arder numa caixa fechada era certo que ela ia morre asfixiada e eu deixei que isso acontecesse. E isto não pode ter perdão, eu estou condenada à danação eterna.
– Mas minha filha vens aqui ser juiz ou ser réu? Vens aqui procurar perdão de Deus ou condenares-te?


Capítulo seguinte (7 - A penitência)

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