quarta-feira, 20 de maio de 2015

5 - A casa

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (4 - A preparação)




5 – A casa
O casebre era pequeno, 9 x 6 m2, com uma parede no sentido transversal usada para formar a dispensa onde estavam guardados 5 pipos de vinho, a caixa do pão com uma divisão maior para o milho e outra menor para o feijão e a caixa da roupa maior, cobertores, mantas e casacos para usar no Inverno. O quadrado que sobrava do casebre era dividido pela cumeeira numa metade que era a sala e na outra metade que eram dois quartos onde praticamente só cabiam a cama, uma caixa pequena para a roupa de vestir e um banco que também servia de mesinha de cabeceira. A sala tinha uma mesa formada por duas tábuas velhas, dois bancos corridos e, na parede, uma prateleira onde estava a louça em barro vermelho, seis pratos, outras tantas malgas e uma travessa, muita dela já costurada com arames enferrujados.
Fora da casa havia os anexos feitos em paus atados entre si e emassados com barro e palha. Eram a retrete, a cozinha e o galinheiro e, depois, a arrecadação para as batatas, o feno e as alfaias agrícolas e os currais do porco e das ovelhas. O casebre de um lado e os anexos do outro lado cercavam o pátio que, no seu conjunto, fazia a casa parecer uma cidadezinha muralhada em que o porteiro, um cão magro preso por uma corrente, ladrava ruidosamente, fosse dia, fosse noite, sempre que alguém passava por perto.
A menina Dulcinha meteu a chave à porta, abriu-a e entrou juntamente com o pai que levava debaixo do braço a urna com a roupa dentro. Com eles ia a Sra. Celeste para ajudar a lavar e a vestir a criancinha morta. O ambiente era de grande pobreza, as paredes escuras de nunca terem visto caiação. A criança estava no quarto, no seu bercinho de verga, rosadinha como se estivesse viva mas morta como já seria de esperar pois a Maria Zé não se ia enganar e o Milagre da Ressurreição do Lázaro só aconteceu uma vez na história bíblica. Logo a seguir chegou o Dr. Acácio.
– Bom dia. Está bom, Sr. Costa? Senhora e menina, então o que temos por aqui? – disse o Dr. Acácio.
– Sabe Sr. Doutor, é que a criancinha morreu de noite e, como quando morre uma criança a estes desgraçados aparece sempre o Polícia Vieira, como me pareceu haver uma certa duvida nas causas da morte, achei melhor chamar o Sr. Doutor. Venha ali até ao quarto que a criança está lá.
O Dr. Acácio entrou no quarto – “Mau, a criancinha está rosada o que não é bom sinal, o Polícia Vieira vai achar estranho uma criança morta estar rosada. Sabe menina, é que esta cor indica uma intoxicação com fumo o que, no Verão, é estranho. Vou ter que fazer alguma coisa para disfarçar esta cor de forma a poder escrever na certidão que morreu de doença gastrointestinal. Sra. Celeste, se faz favor, venha aqui lavar a criança.”
Com a criancinha lavada e seca, o Dr. Acácio foi à sua mala preta e tirou um boião com uma substância de cor escura azulada que parecia graxa para os sapatos. Com dois dedos foi escurecendo a cara e as mãozinhas da criança. Depois de estar num tom mais compatível com a morte, limpou as suas mãos com um lenço que também tirou da mala.
– Pronto, agora já está com a cor que eu queria, já parece morta. Vamos vestir a criancinha para eu ver se precisa de mais algum retoque. Sra. Celeste, antes de virem as pessoas ver a criança defunta é preciso fazer uma desinfecção geral da casa, pegar nesta roupa toda que teve contacto com a criança e mete-la numa barrela com lixívia. Não vá o diabo tecê-las, vou também afixar aqui um papel à porta a dizer que, como a criança morreu de doença contagiosa, os menores de 10 anos não podem entrar na casa. Menina Dulcinha, não se esqueça disto. – Virando-se para a menina Dulcinha – E o pagamento, está por sua conta Dulcinha?
– Está sim Sr. doutor – a Dulcinha, tirando do bolso uma pequena carteira, abriu-a e tirou duas notas de 10€ e outra de 5€ – faça favor Sr. Doutor.
Estando a certidão passada e o pagamento feito, o Dr. Acácio foi-se embora a pé e começou imediatamente a limpeza da casa.

– Sra. Celeste, estou a ouvir o sino da igreja o que indica que o funeral vai ser hoje. Tenho que ir rápido ao posto da polícia para tratar ainda de manhã dos papéis do enterramento, penso estar de volta dentro de uma horita. Fique a tratar de tudo e não se pode esqueça que, para receber as pessoas que vierem ao funeral, ainda é preciso fritar as pataniscas de bacalhau, encher 5 garrafões de vinho e fazer uma limonada para as crianças.

Capítulo seguinte (6 - A confissão)

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