quarta-feira, 27 de maio de 2015

7 – A penitência

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (6 - A confissão)


7 – A penitência
– Sabes minha filha, eu conheço a Júlia desde que ela era jovem e inocente, fui já eu quem a casou e quem lhe baptizou os filhos.
– Mas Sr. Padre, o Sr. deve estar a confundir pois ela nunca teve filhos, toda a gente sabe que ela nunca teve filhos, ela mesmo me disse variadíssimas vezes que nunca teve filhos!
– Deves pensar que eu estou a ficar cansado da cabeça pois sempre ouviste dizer isso mas teve filhos e logo quatro que eu baptizei naquela pia baptismal que está ao fundo da igreja, na mesma em que te baptizei a ti e ao teu Simeão. Naquele tempo já constava que alguém fazia o defumadouro para evitar a doença e, não sei se era verdade porque nunca falamos nisso, também constava que esse alguém era a minha própria mãe. Vê só como o mundo dá voltas, é que todos sofremos da mesma maldita doença e, no passado, seria a minha mãe que tratava disso. Ao longo da minha vida sempre pensei ser errado acabar com a vida desse inocentes e por isso, quando me fiz padre, decidi que o defumadouro tinha que acabar de uma vez por todas. O meu antecessor, o Sr. Padre Félix, disse-me para eu não mexer no assunto porque as consequências seriam terríveis, muito mais grave do que eu antecipava mas eu achava que era um pecado tão grave, que violava de forma tão grosseira o mandamento “Não Matarás” que comecei a pregar que em circunstância alguma poderia ser usado o defumadouro para decidir quais as crianças que poderiam viver e as que deveriam morrer, isso só poderia ser uma escolha de Deus. Na minha missão contra a prática, na preparação para o casamento obrigava os noivos a jurar perante Deus de que não iriam aplicar o defumadouro às crianças. Pensava eu que, com muita fé, Deus iria levantar a maldição sobre a nossa gente. Eu sabia que as pessoas faziam tábua rasa sobre o que eu pregava continuando a fazer o que sempre fizeram mas a Júlia, por ser uma pessoa de grande fé, aceitou as minhas palavras. O problema é que o primeiro filho nasceu doente. Veio com o marido falar comigo e eu disse-lhes para aceitarem porque era a vontade de Deus, que se tivessem fé, Deus haveria de curar a criança. Aceitaram as minhas palavras e, com dificuldades, foram-no criando até que veio o segundo filho que também nasceu doente. Eu pedi ajuda às pessoas mas elas responderam-me que “Cada um de nós tem que resolver os nossos problemas. Não vou, como o Sr. Padre diz, arder eternamente no fogo do inferno e, depois, ainda sustentar quem vai para o Céu. Que aguente como eu aguento.” Pensando que Deus não poderia estar sempre distraído, mandei-os ter o terceiro e depois o quarto mas todos nasceram doentes. Eu fiquei de rastos, como podia Deus fazer tal maldade? Na altura até perguntei ao Dr. Acácio se a ciência podia explicar o nascimento de 4 doentes seguidos ou se seria mesmo uma maldição de Deus e ele disse-me que era pouco provável mas que poderia acontecer, que a culpa seria da estatística e não da mão de Deus.
– Mas, Sr. Padre, será que ninguém sabe disso, de que ela teve 4 filhos? E que é feito dessas crianças? Ela é minha tia e eu nunca ouvi falar disso...
– Os mais velhos sabem mas, como, entretanto, aconteceu algo de muito terrível, eu decretei que pecaria gravemente quem dissesse uma única palavra que fosse sobre o sucedido, que iria arder eternamente no fogo do Inferno. As crianças foram crescendo mas nunca chegaram a caminhar, falar ou sequer a comer pela sua própria mão. Aquela mulher e o marido, que também era teu parente pois era primo direito do teu pai, tinham uma canseira indescritível. Criar, sem terem leira nem beira, 4 crianças com aquele nível de dependência era algo inimaginável pelo que, pensava eu, o destino deles só poderia ser o Céu.
– E o que aconteceu a essas crianças?
– Um dia, já teria o mais velhinho uns 10 anos, estava eu a dormir e ouvi um burburinho na rua, alguém a praguejar contra Deus, a dizer coisas que, de tão terrível, não as posso repetir. Eu vim à janela e vi a Júlia com um archote a dizer que se ia matar mas que antes iria pegar fogo à igreja e, mesmo ,matar-me pois não passava de um enviado do Demónio. Vesti qualquer coisa e fui lá fora com a Santa Cruz numa mão e a caldeirinha da água benta na outra para tentar tirar-lhe o Diabo do corpo. A Júlia era uma pessoa tão temente a Deus que aquilo só poderia ser obra do Diabo, tinha que estar possessa pelo Satanás. Abeirei-me dela, benzi-a e perguntei-lhe “O que se passa mulher de Deus, o que te aconteceu de tão terrível para estares assim, vai de retro Satanás” e atirei-lhe com fartura de água benta. “Ai Sr. Padre que o meu marido foi-se abaixo, cometeu uma loucura. Venha comigo rapidamente que eu já não sei o que fazer à minha vida. A minha cabeça vai explodir, alguém me mate pois Deus abandonou-me de vez.”
– Mas afinal o que lhe tinha acontecido? – Perguntou a Maria Zé.
– Calma que já lá vou. A Júlia foi a correr feita louca e eu fui atrás dela, com a língua de fora, rumo a casa dela, lá no fundo da aldeia. Quando cheguei lá já estava a clarear e vi um vulto dependurado na laranjeira que tinham à porta, era o marido que se tinha enforcado. “Que tragédia”, pensei eu, “e agora o que vai ser das crianças doentes?” O cão estava danado ladrando com uma intensidade como nunca tinha visto. Aquele ladrar era respondido ao longe por latidelas de outros cães um pouco por toda a aldeia e o uivo dos lobos no monte. “Entre Sr. Padre, entre para ver a extensão da desgraça.” Disse a Júlia.
– Mas o marido não tinha morrido num acidente qualquer?
– Calma que isso é tudo para abafar a verdade. Eu entrei na casa, entrei directamente na sala e, como não havia luz, apenas notei um cheiro estranho e que o chão estava muito escorregadio e com uma substância que colava aos meus sapatos. “Que porcaria por aqui vai, nunca pensei que a Júlia fosse tão porca”, pensei eu, “Júlia traz uma vela que não vejo nada”. Enquanto eu olhava para o chão, a Júlia veio do quarto com uma vela e aí reparei que o chão estava cheio de sangue, parecia um lago. Como eu estava a olhar para o chão, a Júlia chamou pela minha atenção “Olhe para aqui Sr. Padre, olhe para aqui, olhe para cima da mesa, veja como estão os meus anjinhos”. Olhei e tive um choque terrível. Sobre um lado da velha mesa estavam alinhadas as 4 cabecinhas, organizadas da mais velhinha para a mais nova e, do outro lado, os corpos das 4 crianças, também organizados do maior para o mais pequenino. Coisa terrível, parecia um talho, o marido tinha, com o machado de rachar lenha, cortado fora a cabeça dos seus filhos. Quando vi aquilo, deu-me tamanha volta ao estômago que pensei que ia morrer, que me ia sair fora tudo o que tinha cá dentro.
– Sr. Padre, mas ninguém soube dessa tragédia? Como é possível o meu tio ter matado os 4 filhos e ninguém o saber?
– Abafamos aquilo como pudemos. Dissemos que, durante a noite, parte da casa tinha ruído e que tinha matado todos os cinco. Que a Júlia tinha escapado porque tinha ido, naquele momento, à retrete e que, por ter sofrido a desgraça de ver os filhos e o marido mortos de uma só vez, tinha virado do juízo. Para que tudo parecesse verdade, naquele mesmo dia foram uns homens de segredo deitar abaixo parte da casita onde viviam.
– Então é por isso que a Tia Júlia vive naquele anexo que foi galinheiro. Coitada, nunca mais deve ter tido coragem para entrar dentro da casa.
– Fizemos o funeral enterrando todos os cinco na mesma cova, naquela campa cuja lápide refere o nome do marido dela. Depois, a Júlia virou mesmo do juízo, ficou semanas na casa paroquial, atada de pés e mãos para que não se matasse. Foram semanas em que só praguejou. Todos os dias fazíamos uma novena a ver se recuperava. Um dia, quando já não havia esperança, como por milagre, calou-se e voltou ao seu estado normal até hoje.
– Sr. Padre, isso foi verdadeiramente terrível. Agora compreendo porque a Tia Júlia é uma pessoa tão triste. Realmente, em presença disso, o meu problema não tem importância nenhuma, imagino como terá sido perder ao mesmo tempo o marido e todos os quatro filhos. Coitada, tinha-lhe tanta raiva e agora sinto pena dela, já compreendo porque, quando lhe fomos pedir para fazer o defumadouro, pediu a Deus para a libertar do fardo.
– E sabes minha filha, no fundo fui eu o culpado por pelo menos parte da tragédia. Se ela tivesse feito o defumadouro, seria certo que as crianças teriam morrido mas, morreram na mesma e, no final, a Júlia ainda teria marido e, quem sabe, teria tido mais filhos saudáveis. Ao pensar que estava a evitar um pecado grave, estava a causar uma tragédia muito maior na qual nem as crianças que eu queria proteger escaparam. O Sr. Padre Félix quis avisar-me e eu, por sobranceria, por pensar que sabia mais dos desígnios de Deus que ele, não ouvi os seus conselhos.
– O Sr. Padre fez o que lhe pareceu certo à luz das Sagradas Escrituras.
– Pois parecia-me que sim mas o resultado foi catastrófico. Desde esse tempo, sei que os defumadouros passaram a ser feitos pela tua tia Júlia. Era uma mulher atormentada por aquela tragédia que tomou essa missão como penitencia. Minha filha, quanto ao teu pecado, não compete ao homem julgar o seu semelhante, isso é tarefa que temos que deixar a Deus.
– Mas Sr. Padre, como posso eu ter perdão se, no fundo, sinto um certo alívio pelo que aconteceu? Como pode Deus perdoar-me se eu não estou arrependida? A única coisa que posso prometer é que isto nunca mais se vai repetir porque nunca mais terei filhos.
– Minha filha, primeiro tens que recordar que Jacó enganou seu pai Isaque dizendo que era o Saúl e que, mesmo sem nunca se ter arrependido, Deus lho perdoou a ponto de ter sido ele quem deu origem ao povo eleito. Depois, o teu futuro não está mais nas tuas mãos. No meu julgamento, mantenho que tens que cumprir o mandamento “Crescei e multiplicai-vos” que Deus ordenou a Adão e, depois, repetiu a Noé, pelo que a penitência vai ter que ser exactamente ao contrário do que estás a pensar. Como prova perante Deus de que não foi nenhum sentimento egoísta que te levou a desejar e a aceitar a morte do teu Simeão, tens que ir ao altar prometer a Deus que, em substituição do Simeão, vais ter mais quatro filhos, ouve bem, quatro filhos. Reza agora o Acto de Contrição e, depois, vai à tua vida.
Enquanto a Maria Zé recitava o Acto de Contrição, as lágrimas vieram-lhe aos olhos de alegria por o seu pecado, afinal, ter perdão aos olhos de Deus mesmo sem sentir arrependimento. “Criar mais 4 filhos vai ser difícil mas Deus há-de-me ajudar”. Enquanto rezava, o padre Augusto decretou, fazendo o sinal da cruz, Ego te absolvo a peccatis tuis in nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti.

– Amen

Capítulo seguinte (8 - A revelação)

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