Sendo que afirmou com toda a força, custasse o que custasse, que iria cumprir o défice de 4.5% do PIB porque o IVA iria aumentar (e reduziu) e a despesa iria diminuir (e aumentou), falhou porque o défice derrapou dos 4.5% previstos e o governo teve que recuar para os 6.1% do PIB (ou mais qualquer coisinha).
São os "estabilizadores automáticos" que, no caso da crise actual, estão a funcionar como "desentabilizações".
O memorando de entendimento com a Troika.
O Sócrates, depois de em 2009 e 2010 ter feito o défice derrapar para cima dos 10% do PIB, Portugal entrou em bancarrota precisando pedir socorro à Troika.
Para poder receber o dinheiro, o Sócrates assinou em 2011 um acordo que se resume a uma trajectória do défice público desde os 10% de 2010 para os 3% do PIB em 3 anos:
Ano 2009 2010 2011 2012 2013 2014
-------------------------------------------------------------------------------
Acordo 2011 5.9% 4.5% 3.0%
Revisto 2012 5.0% 4.5% 2.5%
-------------------------------------------------------------------------------
Efectivo 10.2% 9.8% 7.7% 6.1% ?? ??
Redução % 0.4% 2.1% 1.6% 1.6% 2.0%
Redução M€ 670 3600 2700 2700 3400
-------------------------------------------------------------------------------
A derrapagem do défice de 2012 parece uma grande burridade porque o Governo tem muitos técnicos capazes e a redução de 7.7% de 2011 para 4.5% de 2012 implicava uma redução do défice em cerca de 500M€/mês que nunca seria possível acontecer com as medidas avançadas no OE2012
A) O aumento do IVA seria comido;
B) As poupanças seriam comidas pelos juros e pelo subsídio de desemprego;
C) O corte dos subsídios da função pública e das reformas só daria 250M€/mês.
A despesa ter aumentado quer dizer que o Estado meteu nos nossos bolsos mais dinheiro que o que estava orçamentado.
Nunca nos podemos esquecer que "receita" são coisas que nos tiram dos bolsos, "despesa" são coisas que nos dão e "dívida pública" são coisas que nos dão este ano mas que nos vão tirar no futuro e com juros.
No final, a austeridade foi só 3/4 do que estava orçamentado.
E ainda foi pior por ter ocorrido minutos antes de um jogo da Selecção de Futebol (para anestesiar o povo) e por, minutos depois, o Passos ter ido cantar (na merecida homenagem aos 50 anos de carreira do Paulo de Carvalho).
Quanto dinheiro estaria em causa com a TSU?
Eu estranhei da vontade de avançar com a medida porque não foi avançado o número da redução dos salários que esta medida tinha implicita. Se era uma medida ponderada, deveria haver números.
Os comentadores começaram a avançar um número, 2300M€. Mas, sendo os ordenados e salários 40% no PIB (fonte: PorData), se aplicarmos 7% a este valor, obtemos 4700M€ que é o dobro do valor publicitado nos media.
Nota: confirmei agora na PorData que o peso dos salários é 50.2% no PIB pelo que os 7% dariam quase 6000milhões€.
Os "amigos" do Passos (a Ferreira Leite, o Marques Mendes, o Marcelo e muitos mais dentro do PSD onde não há défice de "amigos" do Passos Coelho) fizeram um ataque total.
Por fim, o Portas benzeu o defunto, fechou a tampa ao caixão, deu duas voltas à chave que entregou ao Cavaco Silva.
Pegou na tal medida e transformou-a num renovado "impulso jovem" que perdoa a TSU apenas aos novos empregos de jovens.
Com toda a gente, dentro e fora do governo, contra o aumento de impostos e a redução da despesa, como seria possível, mesmo com as metas alteradas, arranjar 2700M€?
Vou analisar estes dois enganos sobre outra óptica.
O erro do OE 2012.
Se fosse o Sócrates a dar cumprimento ao que acordou com a Troika, iria torpediar as contas públicas o mais que pudesse. Estaria sempre a anunciar PECs e a nada fazer. Seria como em 2010 em que o défice, depois de 3 PECs, fechou nos 9.8% do PIB.
Mas os nossos parceiros europeus sabem que o Passos está a fazer o melhor que é possível.
Então, aquela conversa do ministro das finanças alemão ao ouvido do Gaspar, em Fevereiro de 2012, em que apoia Portugal em caso de incumprimento das metas, whatever, prova que já nessa data a derrapagem estava prevista.
Posso concluir com segurança que, quando o OE2012 foi aprovado, já tinha sido acordado com os nossos parceiros europeus que haveria derrapagem.
O Seguro e muitos mais queriam "mais um ano".
E aí está o "mais um ano".
Estava previsto atingir um défice de 4.5% do PIB em 2012 e isso passou para 2013 (ver, quadro 1).
E haverá mais dinheiro.
Foi avançada a conversa de que o envelope financeiro não seria alterado ("não haverá mais dinheiro") para salvar a face da Troika. Mas isso é apenas conversa pois o BCE é quem dá o dinheiro para o endividamento de curto prazo que Portugal vai "conseguindo" colocar no mercado.
Em termos técnicos não foi alterado o envelope financeiro do resgate (os 78000M€) mas, em termos práticos, foi aumentado o volume de dívida portuguesa que o BCE aceita como colateral.
Actualmente, Portugal apenas consegue emitir dívida no mercado porque os credores podem usar essa dívida como garantia na obtenção de financiamento do BCE à taxa de juro de 0.75%/ano.
Permitir alterar o limite de emissão é aumentar o envelope financeiro.
Qual é o argumento agora do PS?
Vai continuar na tecla do "mais um ano" e "mais dinheiro"?
Fica ridículo.
Então, deveria ter antes pedido "mais dois anos".
Mas como o calendário também não é para cumprir à risca, o Seguro deveria ter pedido "mais 3 ou 4 anos" ou colar-se aos socratistas de "pensar em pagar a dívida pública é uma brincadeira de crianças".
Afinal, a política do Passos de não pedir mais tempo nem mais dinheiro deu resultado.
O erro da transferência da TSU.
Do OE 2012 para o OE 2013 é preciso diminuir o défice público em 2700M€ (ver, quadro 1).
Se pensarmos que os 7% sobre a TSU aplicados a toda a gente traduziam 4700M€, se parte deste valor for perdoado aos salários mais baixos (progressivo dos 600€ até aos 800€ pois 700€/mês é o salário mediano) então, estamos a falar nos 2700M€ que são precisos para fechar o OE 2013.
Imaginemos que a tranferência da TSU avançava.
Onde é que ficava sítio para o Passos ir buscar os 2700M€ que precisava para fechar o OE 2013?
Cortar mais um salário?
Era impossível.
É esta a prova que faltava para ficarmos com a certeza de que o anúncio da transferência da TSU foi para fazer o bicho sair da toca.
E o Portas fez parte da encenação.
Agora vem o corte via IRS.
Um corte via IRS que vai tapar o buraco do OE. E, além do valor previsto na medida da TSU, vai ter ainda receita dos juros, rendas e dividendos.
O IRS, contrariamente ao IVA ou ao Tabaco, não tem muito por onde fugir e abrange uma base tributária muito maior.
Para vermos a enormidade da questão, para conseguir os 2700M€ no IVA seria preciso subir a taxa máxima para 30%.
Agora já é possível fechar o OE2013 com toda a facilidade.
E sobre a TSU, não ouviremos mais falar sobre o assunto.
Dá-se mais força ao "Impulso Jovem" que estava com dificuldades de arranjar financiamento, e fica a medida aí nos 100M€ (4% do valor previsto na transferência da TSU) que dá para subsidiar 60 mil novos empregos.
Qual é agora o argumento do PS e dos "senadores" do PSD?
Se o principal argumento contra a TSU era que seria injusto transferir dinheiro directamente dos trabalhadores para os patrões, agora que o Passos Coelho lhes fez a vontade, não podem dizer nada.
Continuar a martelar em tudo o que o governo faz vai começar a parecer ódio pessoal.
Bem sei que podem continuar a batalhar nas mesmas coisas mas não será com a mesma força porque vai começa a parecer ridículo.
O Tribunal Constitucional vai ser respeitado.
O acordum do TC que invalida o corte dos subsídios de férias e de Natal aos funcionários públicos, aposentados e reformados para 2013 será respeitado.
Por um lado é reposto um subsídio e, por outro lado, é retirado um mês de salário no IRS que já se aplica a toda a gente.
Assim, tecnicamente os funcionários públicos recebem um subsídio mas, de facto, não recebem nada.
Como o Passos derrotou o Cavaco?
E agora que não vinha dinheiro porque, dada a oposição de toda a gente, não tinha como dar cumprimento ao acordo com a Troika, vinha pedir autorização ao Sr. Presidente da República para declarar ao país a bancarrota de Portugal.
E disse mais.
Que os seus tecno-ministros (das Finanças, da Economia, da Saúde e da Educação), não conseguindo fechar o orçamento para 2013 por causa da oposição do PSD, tinham pedido para abandonar o governo.
Por isso, entregava o poder nas mãos de Sua Excelência dizendo que era obrigação das pessoas que anunciam outro caminho para avançar com soluções concretas.
O Cavaco ficou todo a tremer.
- Óh Passos pá, eu mandei a Ferreira Leite dizer mal de ti mas não pensei que levasses a mal. Era para ficares mais riginho, como eu era.
-Agora fiquei à rasca. Remete-te ao silencio e dá-me uns dias.
- Sou eu, sou, diga lá chefe ... ouve-se mal, Silva ...
O Cavaco reunião o conselho de Estado.
Depois, reuniu o Conselho de Estado e chamou lá o Gaspar para transmitir aos conselheiros que não havia como fechar o orçamento de 2013.
Não interessa. Vamos deixar as forças do mercado actuar.
Por um lado, o subsídio de desemprego vai acabando e o povo vai ter que se começar a mexer-se.
Por outro lado, o governo vai meter uns milhões no emprego jovem.
A qualquer altura, pode ser que o horário de trabalho aumente.
Mas mesmo que nada seja feito e apesar de o desemprego ir ainda aumentar nos próximos dois anitos, como os salários vão ficar fixos em termos nominais, a natural descida dos salários reais vai, daqui a uns 10 anitos, fazer o desemprego voltar ao nível de 1995.
Afinal, fez jeito o homem ter estudado ópera.
sexta-feira, setembro 28, 2012





























