sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Emprego, desemprego e emigração

Na taxa de desemprego para 2013, o Gaspar acertou. 
Quando da discussão do Orçamento de Estado para 2013, o Gasparzinho apresentou como previsão para o desemprego de 2013 uma taxa média de 16,4%. 
Na altura ninguém acreditou, eu incluído, porque a previsão para 2012 tinha tido 2,5 pp de erro. O Gaspar começou com 13,4% (OE2012, p. 18) e a realidade ficou-se nos 15,9% (Eurostat). 
A minha previsão foi que, porque no OE2013 estava 16,4%, íamos acabar com 19% de taxa de desemprego. 

Usei expectativas adaptativas.
Que consiste em pegar no erro de previsão do ano anterior e aplica-lo como correcção à provisão para o ano seguinte.
Mas, pelo menos desde Muth (1961), toda a gente que estudou economia, sabe que as expectativas adaptativas (de Cagan, 1956) têm erro sistemático e não têm capacidade de prever os pontos de viragem das variáveis económicas. 
Foi exactamente o que aconteceu com a minha previsão. Eu usei o modelo adaptativo que sabia estar errado.

Errei mas não foi grave. 
Grave foi pessoas muito relevantes para o nosso país, antigos ministros das finanças e putativos futuros ministros das finanças o terem feito. 
Todos nós erramos mas, eu, sem qualquer gravidade pois vozes de burro não chegam ao céu.
Agora, ex-ministros terem-no feito, indica como fomos governados no passado. E putativos futuros ministros, indica como, a concretizar-se a vitória do Seguro nas legislativas de 2015, iremos ser governados.
Devemos usar nas previsões modelos que têm em atenção o Futuro (e não o Passado). Se isso não for possível, as previsões têm que ser usadas com muita cautela e caldos de galinha. 

O paradigma económico mudou.
O modelo do passado é a "economia keynesiana" onde o crescimento acontece puxado pela procura.
Nessa economia primeiro, aumenta a despesa pública, o consumo e o investimento o que induz um aumento dos preços, dos salários e das importações. Numa segunda fase, aumenta o PIB e, decorridos uns 12 meses, o desemprego começa a diminuir.
O modelo actual é a "economia clássica" onde o crescimento acontece empurrado pela produção.
Nessa economia primeiro, diminuem os salários o que induz um aumento do emprego, uma queda dos preços e um aumento das exportações. Quase simultâneamente, o PIB aumenta.
Mesmo quando o Eurostat mostra que o desemprego está há 10 meses a diminuir, ainda saem estudos (como hoje no JN sobre um relatório do FMI) que afirmam que "o desemprego só começará a diminuir quando a economia crescer 2,7%/ano".
Se isto fosse verdade, nunca mais o desemprego iria diminuir (porque nunca mais teremos taxas de crescimento de 2,7%/ano).

Mas o desemprego está mesmo a diminuir.
A Eurostat tem como dados provisórios para 2013 uma taxa de desemprego média de 16,5% que compara com a previsão do Gasparzinho (feita em Out2012) de 16,4%.
O Gasparzinho até pode ter acertado pela pior das razões (usou os 16,5% de Set2012) mas o facto é que acertou.
O desemprego (com correcção da sazonalidade), depois do máximo de 17,6% de Jan/Fev  de 2013,  começou a diminuir 0,22 pp por mês, já lá vão 10 meses. Cada mês há menos 12 mil pessoas no desemprego.

Fig. 1 - Evolução da taxa de desemprego portuguesa (dados: Eurostat)

Para ilustrar como esta redução é rápida, se continuar (lá volto eu a usar as expectativas adaptativas, não aprendo mesmo), o Passos Coelho vai arrancar a campanha eleitoral a anunciar que a taxa de desemprego no primeiro trimestre de 2015 é inferior à taxa de desemprego que herdou do último trimestre, 2T2011, do reinado do Sócrates (12,5%).

Fig. 2 - Ampliação da Fig. 1

O bom é estar entre 5% e 8%.
Pois é mas isso ainda vai demorar tempo.
Quando o desemprego está acima desta faixa, há emigração e redução de salários.
Quando o desemprego está abaixo desta faixa,, há imigração e aumento dos salários.

Mas estará o Emprego a crescer?
O mercado de trabalho tem os empregados, os desempregados e, somando estas duas parcelas, temos a população activa.
Na dinâmica do mercado de trabalho, a população activa diminui pela emigração e a passagem à inactividade (imaginando que ninguém nasce nem morre).
O que se observou no período pós crise-do-subprime é que, cada mês o desemprego aumentava em 9500 pessoas e as pessoas empregadas diminuíam em 14000 pessoas o que traduz que se "perdiam" 4500 pessoas activas por mês.
Por cada 3 empregos "destruídos", 2 de pessoas iam para o desemprego e 1 pessoa desaparecia da população activa.

Fig. 3 - População empregada e população desempregada em Portugal (dados: INE)

Caiu o desemprego e subiu o emprego.
Nos últimos trimestres, o número de pessoas desempregadas tem diminuído ao mesmo tempo que aumenta o número de pessoas a trabalhar.
Agora, por cada 19 pessoas que saem do desemprego, criam-se 20 empregos o que traduz que não só parou a hemorragia de população activa como a situação reverteu ligeiramente.
Mas olhando para a Fig. 3, vemos que voltar ter uma taxa de desemprego na ordem das 400 mil pessoas (8% na Fig. 1) e 5200 mil empregos ainda vai demorar uns anitos.
Lá para o fim do segundo mandato do Pedro Passos Coelho.

Agora o Gás Natural.
Esta semana saiu uma pequena notícia no Sol a que ninguém deu importância mas que vai, em termos tecnológicos, no bom sentido.
O governo decidiu que a electricidade não é uma tecnologia com potencial para usar nos automóveis e que o futuro é o Gás Natural.
Com as novas técnicas de exploração de gás natural, nos USA esta forma primária de energia está muito, muito, muito barata, na ordem dos 0,02€/kwh, um décimo do preço que pagamos pela nossa electricidade.

O problema da electricidade.
As baterias têm pouca densidade de energia.
Mesmo usando 375 kg de baterias, a energia acumulada correspondente a 6 litros de gasóleo.
Então, para haver uma autonomia na ordem dos 130km, o gasto energético tem que ser muito baixo (média de 17 cavalos, à velocidade de 90km/h).
Mas para este nível de desempenho, um carro a gasóleo só consome 3l aos 100km.

A electricidade é mais cara que o gasóleo (sem ISP).
Para um consumo eléctrico óptimo de 14kmh/100km, com um rendimento do 80% e um preço de 0,20€/kwh, o "combustível" do carro eléctrico fica em 3,5€/100 km.
Para o mesmo consumo óptimo, os 3l/100km de gasóleo sem o ISP, tem um preço de 0,80€/l, ficando o combustível nos 2,5€/100 km.

E muito mais cara que o gás natural?
Um motor a gás natural usa 25% de gasóleo. Então, se viermos a ter os preços americanos, o custo em combustível ficará em 1,00€/100km.

Mas o gás natural também tem problemas de autonomia.
Porque à temperatura ambiente, para conter a energia de uma bateria de 375kg ou 6 litros de gasóleo é preciso uma garrafa de 75 litros à pressão de 100atm que, em aço, pesa 20kg.
O gás natural é indicado para transportes urbanos de passageiros onde as distancias percorridas são pequenas e onde o reabastecimento frequente não causa problemas,

O reabastecimento do gás natural é rápido.
Re-carregar uma bateria demora muito tempo, várias horas, e destroi rapidamente a bateria (0s produtores indicam que ao fim de 8anos - 100000km, a bateria tem entre 50% e 70% da capacidade de carga original).
A reabastecimento do gás natural é rápida (uns 5 minutos) e não degrada o sistema.

Fig. 4 - Anda carregar que isto não é barato mas não se estraga com o uso.

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O desenvolvimento com baixos salários

Todos já ouvimos falar de "modelos de desenvolvimento". 
Em particular, a esquerda tem falado no "modelo de desenvolvimento baseado em baixos salários" que pura e simplesmente não existe, nunca existiu e nunca existirá. É um embuste, uma cassete da esquerda co-adoptado pelo Paulo Portas.
Os únicos modelos de desenvolvimento que existem são o modelo centralizado (socialista/comunista) e, por oposição, o modelo descentralizado (de mercado/capitalismo). Depois, temos muitas variações, misturas e confusões.
Mesmo o denominado "modelo de desenvolvimento sustentável" é uma mão-cheia de nada.

O que distingue o modelo de mercado do modelo socialista/comunista?
É haver ou não liberdade de produzir, de comprar e vender , de exportar e importar. 

No modelo de desenvolvimento de mercado. 
As pessoas são livres de fazer tudo o que lhes venha à cabeça. 
As pessoas são livres de escolher quantos filhos têm e de como os educam.
São livres de escolher entre ser empresário, trabalhador por conta própria ou alheia, escolher a taxa de poupança, os bens que adquirem, a cidade onde vivem, etc., etc. etc.
O modelo de desenvolvimento capitalista é o liberalismo económico e condensa-se na máxima Laisser faire, Laisser Passer de Quesnay (1750) e de Adam Smith (1776).
Para que a economia funcione há algumas regras que têm que ser respeitadas em termos agregados (mas não é necessário que sejam cumpridas a 100%):
     Não matar (6.º mandamento);
     Não roubar (8.º mandamento);
     Não enganar (9.º mandamento)
Então, a economia de mercado acaba sempre com algum grau de coordenação centralizada.

Depois, da negociação entre as pessoas (o mercado) resultam os preços relativos.
Se eu quero produzir latas de conserva com doce de agulhas de pinheiro bravo, compro as latas, vou a um pinhal colher agulhas, meto-as nas latas com água e açúcar, tapo-as, cozinho/pasteurizo as latas e meto-lhes um rotulo a dizer "doce de agulhas de pinheiro bravo". Pago as latas, as agulhas, a água, o açúcar, a pasteurização e o rótulo.

Fig. 1 - Não confundir as agulhas de tatuagem com as folhas fininhas, agulhas, do pinheiro.

Depois, meto as latas na mala do meu carro, vou para uma estrada onde passem carros e tento vendê-las por um preço que cobra os custos de produção e ainda sobre algum para o meu salário.
Se eu não conseguir um salário pelo menos igual ao que posso ter noutra actividade qualquer (por exemplo, a fazer doces de abóbora), eu acabo por desistir desta actividade (e ir para outra) sem ser necessária nenhuma entidade centralizalizada para mo obrigar.

O salário é determinado no mercado.
São as pessoas que passam que decidem o meu ordenado. Ao querer ou não comprar a lata com agulhas de pinheiro, são as forças de mercado que vão determinar o meu salário. No final, é esse número que também vai decidir se eu vou ou não poder produzir doce de agulhas de pinheiro bravo.
Isto passa-se não só nos negócios por conta própria como também por conta de outrem.
O empresário tem que ir ao mercado e alugar equipamentos (ou pagar juros), comprar matérias primas e produtos intermédios e pagar os salários. Depois, vai ao mercado vender. Se a facturação não permitir pagar os salários e os preços dos bens comprados, ou os salários (e preços de aquisição) diminuem ou a empresa vai à falência (e as pessoas vão procurar outro emprego).

Fig. 2 - O meu sonho é ser empresário de caça de elefantes mas não consigo competir com os africanos. 

Para o Estado fica apenas a produção de bens e serviços que os privados não queiram produzir de todo e que sejam, sem dúvida, necessários à comunidade e ainda um pequeno sistema policial para evitar que as pessoas façam as (poucas) coisas que são proibidas. 

No modelo de desenvolvimento socialista/comunista. 
Existe uma entidade central que decidi o que as pessoas vão fazer, desde o número de filhos (como na China), até o local em que a pessoa pode viver e trabalhar. O resto é proibido.
No modelo socialista puro não existe sistema de preços ou, a existir, são números decididos de forma centralizada, e  as quantidade que cada pessoa vai adquirir é também uma decisão administrativa. Por exemplo, cada pessoa vai trabalhar 40h (não interessa quanto é o salário) e cada pessoa recebe um cabaz de bens com 10kg de arroz, 2 litros de óleo, uma camisa, etc. (não interessa quanto custa).

O salário é decidido de forma administrativa.
O Estado pode decidir que um trabalhador ganha 10000€/hora e que cada kg de arroz custa 0,01€/kg porque a pessoa é na mesma obrigada a trabalhar 40h e só tem acesso ao capaz de bens oficial.
Mas estes euros não podem ser os portugueses pois o resto do salário que no fim do mês sobrar do salário, vai ficar sem efeito porque não existem bens na economia com valor suficiente para pagar os salários. Terá que ser uma moeda local, como o Won Norte Coreano, sem qualquer valor de troca.
E as pessoas também não podem emprestar dinheiro porque o devedor não tem bens para adquirir.
É dinheiro equivalente ao do Jogo do Monopólio.

Fig. 3 - Na Venezuela, o Maduro aumentou os salários e diminuiu os preços (em Bolivares) o que parecia bom mas que fez com que deixasse de haver bens à venda (que têm que ser pagos em dólares). 

O mercado promove a eficiência.
A eficiência económica consiste na obtenção do máximo bem-estar possível para as pessoas. Assim, é uma média do grau de felicidade de cada um de nós pelo que depende dos nosso gostos individuais e das decisões das outras pessoas (que se agregam na nossa "restrição orçamental").

Há pessoas que gostam muito de fumar mas isso causa, a prazo, despesas de saúde. 
O legislador é tentado a proibir o tabaco porque causa despesas médicas pagas por todos nós.
Mas a maximização do bem-estar social tem que ponderar, por um lado, o bem-estar da pessoa que gosta de fumar com a perda social em despesas de saúde e morte precoce.
O balanço indica que não deve ser proibido mas haver um imposto que pague os custos sociais. Só as pessoas em que o custo social (o imposto) seja menor que o gosto de fumar é que vão continuar a fumar.
Se cada uma das pessoas actuar de forma a maximizar o seu bem-estar (sob a restrição das decisões das outras pessoas - as tais forças de mercado), obtém-se um resultado melhor que a ser o Estado a decidir  porque o decisor centralizado não tem conhecimento dos gostos individuais de cada pessoa. 

O Estado socialista não consegue promover a eficiência.
Além de não conhecer os gostos de cada uma dos milhões de pessoas que existem, é impossível promover a afectação centralizada de milhões de pessoas a milhões de diferentes actividades na produção de centenas de milhar de bens e serviços diferentes e ainda decidir como os bens produzidos vão ser distribuídos pelos gostos das pessoas. 
A economia socialista (afectação centralizada) apenas é eficiente em economias muito pequenas e pouco sofisticadas. Exemplo desse modelo de desenvolvimento é as empresas porque têm um número limitado de trabalhadores (a maioria tem menos que 250) e produzem poucos bens e serviços (menos que 100). 

Fig. 4 - From Russia with love

O modelo de desenvolvimento baseado nos baixos salários.
Isso não existe. É um embuste criado pela esquerda semelhante aos milagres financeiros da IURD.

O ajustamento dos salários em baixa.
Os esquerdistas querem-se fazer burros ou são mesmo burros.
Afirmar-se que os salários têm que ter a capacidade de ajustar em baixa, não é dizer que devem ser altos ou baixos.
A questão é que às vezes (em períodos de crise não antecipáveis) e para algumas pessoas (que se tornam menos produtivas), é necessário poder haver uma redução pontual do salário ou o despedimento. A economia, no curto prazo, ajusta melhor se houver possibilidade de ajustamento em baixa do salário e, no longo prazo, a taxa de desemprego média será menor.

Porque existem países com salários baixos?
Porque existem países onde as pessoas são pouco produtivas.
Por razões históricas e naturais, há países que têm  pouco capital (máquinas, equipamentos, capital humano, terreno fértil e recursos minerais) o que leva a que o trabalho seja menos produtivo.
O problema é que, para terem mais capital, as pessoas têm que pagar juros e isso só melhor o nível de vida desses pobres quando o aumento da produção for maior que o aumento dos juros pagos.

É que os salários resultam directamente do PIB.
Pegamos no PIB per capital do país, retiramos-lhe a depreciação do capital, multiplicamos por 2/3 (o outro 1/3 é para remunerar o capital), dividimos pela população activa e resulta o salário médio desse país.
O poder de compra dos salários tem a ver com as diferenças de preços dos bens não transaccionáveis (conversor PPP de 2005, Banco Mundial): nos países de baixos salários, os preços locais são mais baixos. Por exemplo, o salário de 148€/mês na China tem o mesmo poder de compra que na América um salário de 351€/mês.

Quadro 1- Salários médios nos 11 países onde vive 60% da população mundial. Usei como população activa a percentagem de população com idade entre 15 e 65 anos (dados: Banco Mundial, 12 salário por ano)

A produtividade é o PIB a dividir pela população.
Se um país produz muito per capita, os salários serão elevados. Se outro país produz pouco per capita, os salários serão baixos. E a produção é medida pelo PIB menos a depreciação do capital.
Não há volta a dar a isto.

Mas os esquerdistas dizem que a solução é aumentar a produtividade. Mas isso é uma verdade de Lapalisse pois PIBpc e a produtividade são exactamente a mesma coisa:
     Produtividade = PIB / Número de .pessoas.
     PIBpc = PIB/Número de pessoas = Produtividade
Uma não pode aumentar à custa da outra porque são a mesma coisa.
É como dizer que "para ter menos peso, tenho que pesar menos".
O problema é o que eu tenho que fazer para pesar menos, dieta (poupança) e actividade física (trabalhar mais).

Dizem "nunca poderemos competir com a China".
Os esquerdistas dizem isto o que me faz lembrar certos alunos que me vêm dizer que têm que passar sem ir ao exame porque "tenho problemas e nunca vou aprender isso".
Então, os esquerdistas querem dizer que os problemas da nossa economia nunca terão solução.

Todos os países são igualmente competitivos.
Mas, felizmente, estão errados porque nós já competimos com a China e com todos os demais países de onde importamos e para onde exportam bens e serviços. Competimos não só com os USA e Japão (com salários muito elevados) mas também com o Bangladesh, Paquistão e Nigéria (com salários muito baixos).
Mas os países não podem ter o mesmo salário porque num mês de trabalho no Bangladesh só se produzem 29€ (por falta de capital) enquanto que nos USA se produzem 2192€.
Se fosse imposto que no Bangladesh o salário mínimo era de 2192€/mês, ninguém teria emprego.
Interessante nunca ter ouvido ninguém dizer que "a China não consegue competir com o Bangladesh" (onde o salário é 10 x menor) nem que "Portugal não consegue competir com os salários da Nigéria" (onde os salários são metade dos salários chineses).

Fig. 4 - Repito o Sean Sullivan é para alegrar repetidamente as vistas da Sofia Santos

O problema das bolsas de doutoramento.
Se um aluno quiser fazer uma licenciatura ou mestrado e não tenha recursos financeiros, o Estado dá-lhe apoio. Sem este apoio em 1983-1988, nunca eu teria conseguido obter uma licenciatura.
O aluno faz a licenciatura para se valorizar pelo que nunca assume a ser bolseiro como uma profissão

Quanto é a bolsa para licenciatura?
Primeiro, tem um valor máximo que está relacionado com o IAS - Indexante de Apoios Sociais
     Valor máximo =  385€/mês + propinas = 465€/mês.
Mas a este  valor, é preciso retirar o rendimento per capita do agregado familiar.
Exemplo 1, uma família de 3 adultos + 1 menor  sem qualquer rendimento (a receber o RSI)
     Capitação = (178,15€ + 2 x 89,05€ + 53,44€ )/4 =102,43€/mês
     O Estudante vai receber 468 -102€ = 363€/mês.
O aluno vai usar esta verba para pagar as propinas (80€/mês), a comida (150€/mês), o alojamento (73€ numa residência) e, com os restantes 60€/mês, pagar os livros, deslocações, roupa e vida social.

Exemplo 2. uma família pobre mais normal, 3 adultos + 1 menores  em que ambos os país ganham o salário mínimo, vai resultar numa bolsa de 185€/mês:
  Capitação = (485*14 /12)/4 =283€/mês
  O Estudante vai receber 465 -226€ = 179€/mês.

Já estão que eu sei o que é ser um desgraçadinho.

Quanto é a bolsa de doutoramento?
Apesar de um curso de doutoramento ser um período em que o aluno está a estudar para adquirir um capital que vai fazer render onde lhe pagarem mais, no tempo do Sócrates tinha a filosofia de um emprego.
Primeiro, o seu valor é idêntico a um salário.
São 980€/mês no caso do doutoramento ser em Portugal e 1710€/mês se for no estrangeiro, acrescentando-se o valor as propinas (mais uns 350€/mês), completamente dados.
Segundo, não  é para dar igualdade de oportunidades pois não tem em atenção as necessidades financeiras do alunos mas parece-se com um salário para a pessoa não fazer o que lhe apetecer.

Mas a bolsa de estudo para doutoramento não pode ser um emprego.
A filosofia deve ser exactamente a mesma que leva às existência de bolsas para licenciatura e mestrado, podendo ser majoradas em função de critérios de mérito.
Com 50% de majoração, um bom aluno, no exemplo 1, receberia 424€/mês e, no exemplo 2, receberia 300€/mês mais o valor das propinas.
Se fosse assim, haveria bolsas para todos os que verdadeiramente precisam, aspiram e têm capacidade para fazer um doutoramento mas que não o podem fazer.

Finalmente, a coadopção.
Eu sou a favor da coadopção seja por casais, normais ou gays, ou por um frupo de pessoas separadas, dois, três  ou quatro pessoas, homens, mulheres ou mistura.
Actualmente, muitas dezenas de milhar de crianças têm os pais divorciados e vivem alternadamente com um dos pais e o seu companheiro. Assim, a família prevista como tradicional na adopção (2 país a viver na mesma casa) já não existe. Hoje o normal é a uma família de 4 pais que vivem em casas separadas.
Então, a legislação sobre a adopção, a existir, tem que se adaptar aos novos tempos.
Acho que o PSD deveria ter votado a favor mas entender o âmbito pela não consideração dos gays.

Deveria ser a Lei da Adopção
1) Podem adoptar uma criança até aos 15 anos de idade um qualquer grupo de adultos, com um máximo de quatro, com a condição de, em média, terem mais de 15 anos e menos de 50 anos de diferença de idade para a criança.
2) Se as pessoas viverem separadas, o poder paternal e a guarda da criança será, de forma equivalente aos divorciados e separados, conjunta. 
Desta forma, retirava-se "o problema gay" das cabeças mais reacionárias.

Fig. 6 - Por incrível que pareça, as crianças criadas por pais pobres sentem-se tão felizes como as criadas por pais ricos

E porquê a adopção?
São intitucionalizadas cerca de 8500 crianças, 2300 cada ano (ver) com um custo de cerca de 700€/mês. Cada criança fica quase 4 anos institucionalizada e acaba por custar cerca de 30 mil€.
É muito mais que o rendimento mínimo de um menor (89€/mês) e os resultados não são melhores que os obtidos em famílias mesmo desestruturadas.
Se há alguém que, por loucura, quer ficar com uma criança a seu cargo, mesmo que para isso o Estado tenha que dar alguma ajuda (eu defendo que deveria dar automaticamente os 89€/mês do RSI), deve-se dar toda a força a isso de forma a acabar-se com as instituições de acolhimento de menores.
Acabar com essas casas pias e outras coisas ainda piores que andam por aí e que custam 700€/mês por cada criança.

Quando comecei este poste, não tinha nada para dizer, mas até acabei por dizer qualquer coisa.

Pedro Cosme Costa Vieira

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

A desigualdade e a pobreza, o capitalismo e o comunismo

Eu fui acusado de não falar dos desgraçadinhos. 
O Fernando Gonçalves afirma que em "310 posts (...) equidade, justiça social, redistribuição de rendimentos e pobreza estão completamente ausentes". 
Eu agradeço este desafio mas não corresponde totalmente à verdade pois, por exemplo, falei disto em 29Abr2013.
No entanto, este tema precisa ser aprofundado. 
A economia tem duas partes igualmente importantes, a produção (a origem dos recursos escassos) e o consumo (o destino dos recursos escassos) e uma não vive separada da outra.
Em termos numéricos, o consumo (onde englobo o investimento) é exactamente igual à produção.
Então, a questão da pobreza tem a haver não só com a distribuição (ficarem algumas pessoas com pouco rendimento) mas principalmente com a produção (falta) e com a necessidade de haver diferenças de rendimento para que as pessoas se esforcem mais.

A produção. 
Em termos de produção líquida, em 2013, com equipamentos avaliados em 300 mil milhões € (não inclui os recursos naturais) e com o trabalho de 5 milhões de pessoas (1 milhão por conta própria e 4 milhões por conta de outrem), conseguimos produzir 135MM€/ano (82% do PIB pois 18% são depreciações do capital).
O total da produção vai ser distribuída pelos diversos portugueses, para uns mais e para outros menos.

A distribuição. 
Pegamos no total de produção e vamos dividi-la, primeiro, entre a depreciação do trabalho (18%) e a produção líquida (82%). Depois, a produção líquida é distribuída pelo capital (1/3) e pelo trabalho (2/3). Finalmente, a componente do trabalho é dividida por cada um de nós que é trabalhador.
Naturalmente, no final desta divisão ficam cerca de 5 milhões de portugueses sem rendimento porque não têm capital nem trabalham (os inactivos).
Do PIB total, à depreciação do capital são destinados 30MM€/ano, ao capital (que engloba o trabalho dos empreendedores e os recursos naturais) são destinados 45MM€/ano e para os trabalhadores são destinados 90MM€/ano. 
Se dividíssemos irmãmente os 90MM€ pelos 5M de trabalhadores, teríamos um salários total de 1285€/mês a que é preciso retirar 30% para as parcelas suportadas pelo empregador (principalmente, os 23,75% da TSU). Então, cada trabalhador ficaria com 990€/mês, 7,5€/h.



Fig. 1 - A produção (o objecto) e a distribuição (o reflexo) são duas faces da mesma realidade que, por vezes, é muito boa, mesmo muito boa ...

Para aumentar a equidade.
Muita gente refere na comunicação social que a desigualdade em Portugal tem que diminuir.
O problema é que, para isso, é preciso aumentar os salários inferiores a 990€/h mas também reduzir os salários superiores a 990€/mês de forma a que o total distribuído se mantenha igual ao total produzido.
Mas, pensando bem, todas as pessoas que falam neste problema (onde se inclui a mensagem de ano novo do Cavaco Silva) têm salários superiores a 990€/mês!
Cada um de nós que ganha mais de 990€/mês encontra sempre uma desculpa para ter um salário superior à média sem isso prejudicar seja quem for. Nós merecemos.
É como a pregação do Frei Tomás, faz como ele diz e não como ele faz.

Fig. 2 - É uma injustiça ninguém me querer. Se não fosse a retenção de líquidos, eu era tão boa como a da Fig. 1. (... mas, noutras vezes, é muito má, mesmo muito má)

A iniquidade, a justiça social e a pobreza resultam da distribuição.
Mas estão ligadas à produção porque apenas se pode distribuir o que se produz.
A ideia de que as pessoas têm direito a um rendimento digno independente da produção da economia é muito bonito mas é inconcretizável.
As pessoas terem o mesmo rendimento não acaba com a pobreza se não houver produção. Por exemplo, a Ucrânia (coeficiente de Gini de 0,27) e Cuba (0,30) têm muito menor desigualdades que os USA (0,45) mas, mesmo assim, têm muito mais pobres.

As diferenças no rendimento (e na riqueza) são algo necessário.
Existem diferenças no rendimento das pessoas porque nascemos diferentes mas mesmo que nascêssemos iguais, as pessoas acabam com rendimentos diferentes porque é preciso dar incentivos a quem se esforça mais.
Se o salário fosse, à partida, igual para todos, a economia parava porque não havia incentivos para que as pessoas se esforçassem. É o problema da função pública.
Então, existe uma trade-off entre equidade e nível de riqueza. Se, enquanto sociedade, quisermos viver num país com menos desigualdades, teremos que aceitar viver, em média, com menos rendimento.

Hipótese 1 - E se o capital não fosse remunerado?
Se o capital não fosse remunerado, parece que os salários poderiam ser maiores mas, de facto, assim não é.

Primeiro, a poupança cairia para zero. 
Como a taxa de juro, os dividendos e as rendas (que são a remuneração do capital) seriam zero, as pessoas reduziriam significativamente o esforço de poupança o que levaria ao fim do investimento privado. 
Por causa disto, o Estado teria que impor uma taxa de poupança obrigatória (como a TSU) o que, por ser obrigatória, já levanta questões de optimalidade. Depois, o investimento ficaria reduzido a Investimento Público o que, sabemos pelos prejuízos das nossas empresas públicas e pelas PPPs aloucadas, não é eficiente.

Segundo, a inovação pararia porque tem riscos que precisam ser remunerados. 
Numa economia complexa em que se produzem milhares de bens e serviços diferentes, o crescimento económico passa pela invenção (com esforço) e a consequente introdução no mercado de novos bens e serviços (que tem risco de inadequação aos gostos dos consumidores). A implementação de invenções obriga a investimento de risco que precisa ser remunerado no caso de sucesso para cobrir os fracassos. Não havendo remuneração do capital em função do risco, a inovação pára.

Se juntarmos os dois efeitos, poupança a zero e ausência de inovação, a economia entrará em regressão. Foi isso que aconteceu nas economias comunicas/socialistas (de que actualmente temos apenas alguns exemplos como Cuba e a Coreia do Norte) o que causou a queda dos salários. 

Hipótese 2 - E se tivéssemos todos o mesmo salário?
Neste caso, os trabalhadores deixavam-se de esforçar.

Exemplo 1 - Vamos imaginar que, aos 11 anos, tinha sido dito ao Cristiano Ronaldo que em 2013 iria ganhar o salário médio, 990€/mês, jogasse muito ou pouco, marcasse golos ou não, fosse gordo ou magro, fosse pedreiro ou futebolista do Real Madrid. Concerteza que o moço nunca mais iria treinar e hoje seria mais um pedreiro.

Exemplo 2 - Vamos imaginar que os pais tinham a certeza que os seus filhos, quando fizessem 18 anos, iriam garantidamente ter um emprego a ganhar 990€/mês para toda a vida, soubessem muito ou pouco. Concerteza que não se aborreceriam a mete-los na escola e muito menos a pagar explicações para preparar o melhor possível as crianças para fazer face ao futuro. E as crianças nunca mais fariam o sacrifício de estudar.

Exemplo 3 - Vamos imaginar que a nota final de cada aluno era a média da turma. Primeiro, os alunos  não se esforçariam pelo que as notas seriam fracas. Depois, os bons alunos mudavam de escola. Finalmente, os fracos, porque chumbavam todos, também acabavam por sair e a escola acabava.

Se o salário fosse, à partida, igual para todos, ninguém se esforçaria pelo que esse o salário seria muito baixo. A alternativa era haver trabalhos forçados. Ambas estas soluções foram observadas nas economias igualitárias, i.e., comunistas e socialistas.

Quem produz mais tem que ganhar mais.
Que faz o sacrifício de poupar tem que ver o seu esforço remunerado.
Quem faz investimentos e as empresas resultantes produzem bens e serviços que agradam às pessoas, tem que ser remunerado.
Quem se esforça trabalhando mais que a média tem que ter um salário maior.

Mas quem tem sorte, também tem que ganhar mais.
Se todos nós nascêssemos iguais, mesmo em mercado livre era possível que todas as pessoas tivessem o mesmo rendimento. É o Equilíbrio de Cournot.
Mas, como existe risco de sucesso/fracasso futuro nas profissões, mesmo que fossemos à partida todos iguais, no final resultaria algumas diferenças de rendimento.

Vejamos o exemplo das viagens à Índia.
Nos séculos XVI, uma viagem de ida e volta à Índia demorava 15 meses e permitia ao marinheiro obter um salário total de 15000 reais que eram 5kg de prata (ver, p. 17), idêntico ao salário de toda uma vida de um servente (ver, p. 145).
O salário do marinheiro era muito elevado porque também era elevada, entre 30% e 50%, a probabilidade do marinheiro morrer durante a viagem.
Este salário estava em equilíbrio com o salário de servente porque apenas as pessoas "sem amor à vida" se disponibilizavam a ser marinheiros. Se o jovem marinheiro tivesse sorte e sobrevivesse, com uma viagem conseguia passar a ter um nível de vida superior à média mas a vida poderia ser muito curta. Pelo contrário, o servente tinha vida pobre mas longa.
Na nossa vida não existem actividades com risco tão elevado mas, por exemplo, um engenheiro civil que há 20 anos optou por ser Técnico Superior numa câmara municipal (com um salário inferior ao privado), hoje está melhor que os colegas (que estão no desemprego).

Fig. 3 - Os marinheiros também tinham o incentivo das indianas (mas, dizia o meu pai que viveu 5 anos em Goa, estavam todas contaminadas com gonorreia).

Acresce que nascemos diferentes.
A inteligência com que nascemos é uma variável aleatória que está correlacionada, um pouco, com os nossos país quer pela genética (ro de 0.22) quer pelo seu grupo socio-económico (ro de 0.19).
Além da inteligência existem outras variáveis que nos distinguem como a altura, a beleza e o meio socio-económico de origem.
Todas estas variáveis têm influencia na nossa capacidade de gerar riqueza mas essa capacidade apenas se materializa em valor se nos esforçarmos. E se não houver incentivos, as pessoas não se esforçam, deixando de revelar as suas raras capacidades (muitas vezes, nem chegam a saber que as têm).
Por exemplo, uma pessoa que seja muito inteligente apenas se vai esforçar para ter uma profissão exigente em termos intelectuais se com isso tiver ganhos.
Na URSS, as crianças mais inteligentes faziam por passar despercebidas porque, caso fossem descobertas, eram obrigadas a estudar incansavelmente para ganharem o mesmo.

O Mercado desenvolve a desigualdade de rendimento. 
Não há ninguém que afirme que as forças de mercado acabam com as desigualdades de rendimento mas muito antes pelo contrário.
Como o motor da economia de mercado é a possibilidade de quem se esforçar mais ou tiver sorte vir a ter um nível de vida superior à média então, o mercado apenas é eficiente enquanto puder transformar as pequenas diferenças biológicas, sociais e de sorte em grandes diferenças de rendimento.

Para onde evoluirá o mercado livre? 
Os comunas dizem que evoluirá para a Lei da Selva (a lei do mais forte) mas não é bem assim pois mesmo a selva está em equilíbrio ecológico.
É sempre difícil prever o que aconteceria quantitativamente a uma economia que fosse deixada totalmente às forças de mercado livre (da oferta e da procura) porque não existe nenhuma economia onde isso se verifique plenamente. Mas, pegando nos dados do Banco Mundial, estimo que os 20% mais ricos da população teriam acesso a 50% do rendimento gerado na economia (e 45% da população não teria qualquer rendimento porque ser inactiva).
Estou a assumir que nesta economia o coeficiente de Gini de equilíbrio é de 0,55.
Quem quiser ver como seria esse país basta olhar para o Brasil que é, de entre os grandes países, o mais desigual, bastante acima da China (C. de Ginni de 0,46).

Será que morreria 50% da população de fome?
Não porque a re-distribuição é mais velha que a humanidade.
Se olharmos, por exemplo, para os lobos, concluímos que a partilha de rendimento faz parte dos nossos sentimentos animais.
O principal espaço de partilha é a família. Os cônjuges partilham rendimento entre si e com os filhos e, em grau decrescente, também os irmãos, tios, sobrinhos e primos o fazem.
Mas a partilha faz-se mesmo entre vizinhos e entre desconhecidos porque estamos dotados do sentimento da piedade.

Depois, criou-se o Estado Social.
O Mercado é feito para transformar pequenas diferenças em grandes diferenças de rendimento pelo que a economia de mercado tem pobres e deserdados que a piedade e a solidariedade familiar resolve.
Acontece que, algures no Sec. XVIII ou XIX, surgiu a ideia que a família e a piedade não eram suficientes para garantir rendimento aos desgraçados, havendo necessidade de o Estado criar mecanismos de re-distribuição.
Ninguém é contra isso mas o que se discute é a intensidade pois temos que ter sempre em mente que
     1) só se pode re-distribuir o que se produz
     2) mais equidade leva a pior desempenho económico

Finalmente, há a Dinamarca, a Suécia e a Noruega.
Como se justifica que estes países tenham uma grande equidade social (c. de Ginni nos 0.25) bastante menor que a nossa (0.38) e tenham um PIBpc que é muito elevado, 2,5 vezes o nosso?
É que estes 3 países em conjunto têm a mesma população que a zona metropolitana de Londres e apenas o dobro da população de Luanda.
São 15 milhões de habitantes que representam 5% da população do Brasil, e 1,1% da população da China.
Também se pegarmos apenas na população de Shangai (que tem 15M habitantes) também encontraremos um coeficiente de Ginni muito mais baixo que o valor da China e um PIBpc muito elevado. Se fizermos as mesmas contas para São Paulo, também vamos encontrar uma sociedade mais justa que o Brasil.

Se pegarmos na Europa.
Agora, vamos fazer a viagem contrária.
A Europa tem a fama de ter pouca desigualdade em comparação com as grandes economias mundiais, os USA (0,45), a China (0,46) e o Japão (0,38). Mas este facto resulta de as grandes diferenças de rendimento estarem entre os países. Por exemplo, temos o Luxemburgo com o PIBpc que é 70 vezes o PIBpc da Moldávia. Em termos de grandes países, o PIBpc da França é 15 vezes o PIBpc da Ucrânia.
Se pegarmos em todas as 740M de pessoas europeias, vamos obter inequalidade muito superiores à portuguesa (0,38 = Japão) e talvez mesmo superiores à dos USA (0,45) e da China (0,46) .

Fig. 4 - PIB pc na europa (2010, Wiki)

Concluindo,
É bonito falar que a diferença de rendimentos é uma aberração social mas ninguém está  verdadeiramente disponível para resolver esse alegado problema porque vai-lhe doer no bolso.

Acabei por calcular o Coeficiente de Gini Europeu => 0,48.
22 de Janeiro.
Peguei nos dados de 39 países europeus (exclui a Rússia e a Turquia, com c.Gini de 0.41,  porque estão mais fora que dentro da Europa) e arrangei no Banco Mundial umas médias para o PIB per capita, para a população (2007-2012) e para o coeficiente de Gini (1990-2012 porque os dados são mais raros). Os 39 países agregados somam 610M de pessoas e a Rússia + Turquia somam 215M de pessoas.
Apesar de a média aritmética dos coeficentes de Gini dar 0,32, considerando as diferenças de rendimento entre os países, o coeficiente de Gini europeu sobe para 0,48.
Realmente há mais desigualdade de rendimento na Europa que na China (0,46) que ainda tem a seu favor o facto de ter o dobro da dimensão populacional da Europa.

País PIBpc
(2005 US$)
Gini População
Albania 3385 31,2 3,2
Armenia 2711 35,0 3,0
Austria 39317 29,2 8,4
Azerbaijan 3033 35,1 9,0
Belarus 4507 28,0 9,5
Belgium 36791 33,0 10,9
Bosnia and Herzegovina 3351 33,3 3,8
Bulgaria 4496 29,2 7,5
Croatia 10739 29,9 4,4
Czech Republic 14223 26,2 10,5
Denmark 46836 24,7 5,5
Estonia 11085 36,2 1,3
Finland 38608 26,9 5,4
France 34159 32,7 65,0
Georgia 1897 40,5 4,4
Germany 36427 28,3 81,9
Greece 21091 34,3 11,3
Hungary 11067 27,9 10,0
Ireland 46942 34,3 4,5
Italy 29236 36,0 60,4
Latvia 7717 33,8 2,2
Lithuania 9093 33,3 3,2
Luxembourg 80601 30,8 0,5
Macedonia, FYR 3401 39,2 2,1
Moldova 992 36,2 3,6
Montenegro 4585 29,9 0,6
Netherlands 41238 30,9 16,6
Norway 65376 25,8 4,9
Poland 10031 33,2 38,3
Portugal 18364 38,5 10,6
Romania 5443 29,8 21,4
Serbia 3849 30,7 7,3
Slovak Republic 14344 26,6 5,4
Slovenia 19281 29,7 2,0
Spain 25793 34,7 46,0
Sweden 42802 25,0 9,4
Switzerland 54730 33,7 7,8
Ukraine 2049 29,3 45,9
United Kingdom 38230 36,0 62,3
Quadro 1 - Países usados no cálculo do coeficiente de Gini europeu (dados, Banco Mundial)

Se incluirmos a Rússia e a Turquia.
O coeficiente de Gini da Europa aumenta para 0,57.

País GDPpc
(2005 US$)
Gini População
Russian Federation 6527 40,6 142,5
Turkey 7947 41,0 72,2
Europa 20641 57,4 824,8
Quadro 2 - Coeficiente de Gini europeu com Rússia e Turquia (dados, Banco Mundial)

Fig. 5 - Curva de rendimento na Europa, com Rússia e Turquia (dados, Banco Mundial, cálculo e grafismo do autor). 10% da população europeia tem 40% do rendimento.

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Poderemos continuar no Euro?

Muitas pessoas me têm feito esta pergunta. 
Quando, em 2011, a taxa de juro média da dívida pública estava acima dos 20%/ano, parecia  certo que Portugal iria abandonar o Euro e retornar ao Escudo. Falou-se muito na comunicação social desta contingencia que, decorridos apenas 2,5 anos, passou a ser um não-problema porque a taxa de juro média já está nos 2,7%/ano, bastante abaixo dos 4,1% de 2007, ano anterior à Crise do Sub-Prime (calculada para uma maturidade média de 3 anos).
Se com as taxas de juro de 2007, dos impostos que cada um de nós paga, 850€/ano são para juros, com as taxas de agora só teríamos que pagar 600€/ano para juros.
A crise finaneira está completametne ultrapassada. Mas o problema é saber se os fundamentos que deram origem à crise já foram ultrapassados ou se continuam no meio de nós.
Qual foi o problema que o Euro nos colocou? 
Foi acreditarmos que os salários poderiam subir todos os anos como subiam antes de 1995 até se equipararem aos do Luxemburgo.
Este erro levou  o Guterres ao poder para iniciar uma politica de rendimentos e preços totalmente desligados da realidade da nossa economia que nos levou a um endividamento externo insustentável.
O sórates fechou os molhos quando, num curto espaço de tempo, aumentou o Salário Minimo Nacional de 403€/mês para 485€/mês.

Para que serve a moeda própria. 
Um país tem moeda própria para poder ajustar as suas contas com o exterior, medidas pelo défice da Balança Corrente. Se, num período, um país passar a importar mais do que exporta (mais o turismo e as transferências), o país passa a ter défice externo que precisa financiar com endividamento externo. 
O défice externo é difícil de controlar pelos politicos se as pessoas tiverem visão curta pois o endividamento faz o nível de vida melhorar no curto-prazo para o piorar no futuro (será preciso pagar a dívida mais os juros), quando já serão outros a governar. 
É tal qual aquelas pessoas que prejudicam todo o ano (a pagar prestações) porque tiveram uma grande passagem de ano, comendo leitão (em vez de frango) e andando de limusina (em vez de a pé), mas paga a crédito. 

A moeda própria permite equilibrar rapidamente as contas com o exterior.
Se exportamos menos do que o que importamos, desvalorizamos o Escudo face aos nossos parceiros comerciais o que faz diminuir o preço dos nossos produtos (face ao exterior) e aumentar o preços dos bens importados (internamente). Este duplo efeito faz diminuir a importações e aumentar as exportações. Se, pelo contrário, exportamos mais do que o que importamos, valorizamos o Escudo face aos nossos parceiros comerciais o que tem o efeito contrário.
Quando, por exemplo, o governo decretou um aumento dos salário mínimo nacional em 20%, a moeda desvalorizava, a inflação aumentava, e tudo voltava rapidamente ao equilíbrio anterior.
Os salários em Escudos ficariam iguais.
A desvalorização da moeda permite que os salários, as pensões e a despesa pública diminuam (face ao exterior) mas fiquem internamente iguais (em Escudos).
Desta forma, há a ilusão de que os rendimentos aumentam quando, na realidade, o seu poder de compra diminui (por causa do aumento dos preço dos bens e serviços importados).
Em termos psicológicos, as pessoas não penalizam eleitoralmente o governo pelo ajustamento via devalorização.
Desde 2006 passamos a ter um défice externo colossal.
O Guterres e, posteriormente, o Santana Lopes e o Sócrates pensavam que poderiam dar tudo a todos para todo o sempre. O Holland pensava o mesmo e o Seguro ainda o pensa.
Se calhar não pensavam bem isso nem o Seguro o pensa agora. O mais provável é estes políticos pensarem que, enquanto derem tudo a todos, conseguem manter os tachos e, quando o país rebentar, vão-se embora mas com pensões milionárias que o Tribunal Constitucional há-de proteger.
Fig 1 - Enquanto durar, dura e quando rebentar caindo na barriga e no quadril, rebentou. 
O Sean Sullivan é para alegrar as vistas da Sofia Santos.

Entre 1996 e 2010, o endividamento externo foi de 120% do PIB. 
Isto traduz que, nestes 15 anos, cada português se endividou face ao exterior em 20 mil €.
Uma família de 5 pessoas inflamou o seu rendimento com 100mil€ de endividamento externo.
Foram 250€/mês para cada trabalhador.
Este endividamento externo massivo causou um erro na percepção do rendimento disponível das famílias. Agora, os "cortes" que estamos a sentir é o reverso, não são uma verdadeira quebra de rendimento mas apenas o terminar desse endividamento externo.
No tempo do Sócrates endividamo-no sempre acima dos 10% do PIB, todos os anos.
Notar que o Durão Barroso conseguiu em 2 anos reduzir o défice de 10,3% do PIB para 6,5% do PIB mas os do PSD+CDS puseram-lhe os patins e veio o Santana Lopes que aumentou logo o défice para 8,4% do PIB.
Quem foi o ministro da finanças do Santana Lopes? (Veja a solução no fim que nem vai acreditar).

Fig. 2 - Défice da Balança Corrente (1990-2013, tradingeconomics)
Com o Euro, temos que ajustar pelos salários nominais.
Com o Euro, não podemos desvalorizar. Desta forma, o equilíbrio da balança corrente obriga a que os preços do bens e serviços que exportamos diminuam internamente o que apenas é conseguido pela redução dos custos do trabalho em termos nominais (redução dos salários em euros).
Como a queda dos salários induz contracção nominal do PIB, também é preciso reduzir a despesa pública.
Se os salários não diminuírem quando há défice externo, aumula-se dívida o que a prazo obriga a que a currecção seja feita pela subida da taxa de juro e pelo desemprego (como estamos a viver desde Jan2010).

Será que o nosso mercado de trabalho é suficientemente flexível?
Se o nosso mercado laboral não for flexível em baixa, no longo-prazo pertencer à Zona Euro terá um impacto negativo na  nossa taxa de crescimento do PIB.
Então, para podermos continuar na Zona Euro, a resposta a esta questão tem que ser afirmativa.

Tenho muitas dúvidas disso.
As sondagens darem maioria aos socialistas parece indicar que a maioria dos portugueses acredita no "outro caminho", no "caminho do crescimento e do emprego em austeridade", prometido pelos esquerdistas, em que podemos ficar no Euro sem descer salários nem pensões nos períodos de crise.

Mas o Holland dá-me alguma esperança.
Em 2012, o Holland chegou a presidente da França prometendo bater o pé à Sr.a Merkel e iniciar o "outro caminho". Claro que o "outro caminho" é apenas uma miragem pelo que o meia leca teve agora que avançar com o "caminho da austeridade".
Tenho esperança de que a falhada experiência francesa venha a ajudar os portugueses a ver de que há total necessidade de ajustar os nossos salários em baixa.

Bastaram 2 anos para derrotar o "outro caminho".
Na França, o Holland aguentou 2 anos om a conversa do "outro caminho" até que deu o braço a torcer.
No Egipto, a Irmandade Muçulmana também prometia um caminho de leite e mel. Apesar de anos e anos de repressão policial, a cada crise económica, a IM foi-se tornando cada vez mais populares até que, em 2011, a guerra civil parecia inevitável. A solução foi dar-lhes o poder para poderem implementar o prometido "outro caminho". O problema é que, ao fim pouco 2 anitos, o caminho foi tão desastroso que centenas de milhares de pessoas pediram nas ruas um governo militar.
Em Portugal, em 1974/1975 dois anitos de governo de influência comunista foi suficiente para os mandar, até hoje, para um canto da oposição.
Parece que 2 ano é a validae do governo demagógicos mas o Guterres aguentou 7 anos e o Sócrates  6 anos mas o nós temos a desculpa de termo sido enganado pelo crédito fácil (que acabou).
Fig. 3 - Estará o nosso povo, tal como os egipcios, convencido de que o "outro caminho" é um logro?

O ajustamento do salários é um sinal de esperança.
Até finais de 2011, as pessoas resistiram com todas as suas forças contra a descida nominal dos salários mas, finalmente, o mercado está a ajustar. Olhando para as estatísticas da Eurostat, desde 2011 os nossos custos do trabalho diminuíram 10% relativamente aos nossos parceiro da ZE12.
Este ajustamento permite que a nossa inflação seja menor que a da Zona Euro o que tem levado ao aumento das exportações e à diminuição do desemprego.
Fig 4 - Custos do trabalho em Portugal relativamente à Zona Euro 12 (fonte: Eurostat, Business, corrigido da sazonalidade e dos dias de trabalho)


Volto a estar pessimista - o PIB cresce cada vez menos.
Apesar de o nível de vida de um povo depender de múltiplas variáveis, o total de bens e serviços produzidos na economia é a componente mais importante. Todos nós sabemos que não é possível haver qualidade de vida sem acesso a bens materiais e por isso é que toda a gente grita a pedir mais salários e pensões e menos impostos.
O produzido por cada um de nós, em média, é medido pelo PIB per capita.
Então, para o nosso nível de vida melhorar, o PIBpc tem que aumentar. O problema é que o nosso PIBpc está a crescer cada vez mais devagar estando estagnado desde que entramos na Zona Euro.
Desde 2000 que temos crescimento ZERO VÍRGULA ZERO.
Se de 1985 a 2000 crescemos 3,7%/ano, entre 2000 e 2012 estivemos totalmente estagnados.
Tivemos 12 anos seguidos de "políticas de crescimento" liderados pelo Guterres, Santana Lopes e Sócrates, com défices públicos (em 2009 e 2010) e externo acima dos 10% do PIB, mas que resultaram num crescimento ZERO (-0,05%).
Fig. 5 - A taxa de crescimento anual do PIBpc português está há 40 anos a cair e há 12 anos que é zero (dados: Banco Mundial)

E estamos a divergir.
Em 1991 a Alemanha teve que digerir a economia da ex-RA o que lhe coloou sérios problemas. Isso mais a nossa entrada na CEE que actualmente se chama UE, pemitiu que convergissemos um pontos percentual por ano com a Alemanha.
O problema é que desde 2000, mesmo com endiviamento externo massivo, temos estado a divergir 0,5 pontos por ano.
Será que vamos continuar a divergir como no tempo das politicas de crescimento do Sócrates ou vamo quebrar essa tendência?

Fig. 6 - Racio entre o PIBpc português e o alemão.  (dados: Banco Mundial)

E fico ainda mais pessimista.
Muita gente pensa ser provável que, algures no futuro, o António Costa venha a ser primeiro ministro de Portugal. Mas, ao reparar que a Câmara Municipal de Lisboa reduziu os horários dos seus assalariados para 35 horas por semana, ganho a certeza que, nesse hipotético cenário futuro, vamos voltar aos tempos do Guterres+Santana Lopes+Sócrates de dar tudo a todos enquanto não rebentar.
Isto é totalmente demagógico e imoral porque o António Costa, por um lado, é contra o Passos Coelho estar a esmifrar os contribuintes mas, por outro lado, esbanja os nossos impostos para ser popular junto dos assalariados da CML.

Mas não é só lá.
O Magnífico Reitor da minha universidade queixou-se na comunicação social que os cortes  orçamentais para 2014 são intoleráveis porque põem em causa o funcionamento da instituição.
Mas eu recebi um e-mail da comissão de trabalhadores a dizer que o Magnífico aceitou, sem mais, uma redução de 6,25% no horário de trabalho semanal.

Como é possível?
Haver uma Lei da República que obriga a 40h/semana de trabalho para TODA A GENTE e depois cada cacique torpedear isso localmente?
As pessoas são funcionários públicos ou funcionário da "empresa pública XPTO", uma entidade empregadora livre de acordar o horário que lhe der na real gana porque sabe que os salário serão sempre pagos pelo Orçamento de Estado?
No limite, podemos ter funcionários públicos dispensadas de trabalhar.

Vamos Seguro, mostra coragem e manda isto para o Tribunal Constitucional.
 
Como é possível um trabalhador num local, seja uma câmara ou uma universidade, trabalhar 40h/sem e outro trabalhar 35h/sem ganhando ambos pela mesma tabela salarial?
A redução dos salários de alguns funcionários públicos viola totalmente os princípios constitucionais da igualdade (entre funcionários públicos) e da confiança (dos contribuintes de que os governantes usarão os seus impostos com zelo).

Fig. 6 - Essa tem graça mas eu agora vou fazer de morto pelo menos até às europeia.
Re-encaminhar para o Xé Xé Soares.
O que se pode concluir quanto à viabilidade da nossa permanência no Euro?
Não estou certo que, no longo prazo, seja positivo para Portugal pertencer a uma zona monetária que inclui países do centro da Europa cujas culturas e economias são, tudo indica, diferentes da nossa.
As crises económicas de 2002, 2008 e 2010 mostraram que temos muita dificuldade em ajustar e as expansões de 1996 e 2009 foram muito ténues e com elevado endividamento externo.

No longo prazo é preciso responder a 4 questões. 
1) No próximo período de expansão (2014-2015) vamos voltar ao desgoverno de 1995-2010?
2) Como irá ajustar a nossa economia quando aparecer a próxima crise (lá para 2017)?
3) Qual vai ser a taxa de crescimento do PIBpc na próxima década?
4) Conseguiremos inverter a tendência de divergência com a Alemanha?

Continuo pessimista quanto à nossa permanência no Euro.
Só se, em 2015, o povinho português rejeitar a ilusão do "outro caminho" dando o voto ao Passos Coelho é que eu me convencerei que temos algumas chances de continuar no Euro.
Actualmente ainda não acredito que o nosso povo esteja preparado para viver em Escudo.

Fig. 7 - Não compreendo o porquê da pergunta. Fui exactamente eu quem acabou com a "politica da tanga" do Durão Barroso e deu inicio à "politica de crescimento e emprego" que o Sócrates + Teixeira dos Santos apenas copiaram.

Pedro Cosme Costa Vieira.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Não vai haver programa cautelar

Pensemos na situação pré Crise do Sub-prime. 
Em 2007, o ano anterior ao rebentar da Crise do Sub-Prime, o Sócrates estava no seu auge. 
Nessa altura de vacas gordas, o Sócrates aparecia sem barriga, fatos apertados e um cabelo ainda maioritariamente preto. Nos debates era uma autentica máquina de triturar.
Nessa altura a república conseguia-se financiar à taxa de 4,2%/ano e não havia uma única pessoa que dissesse que Portugal precisava de um programa cautelar e, muito menos, de um resgate do FMI e dos nossos parceiros da UE e Zona Euro.

Entretanto, a situação degradou-se e muito. 
A queda do Sócrates começou quando, nos princípios de 2010, as condições de financiamento da república se começaram a degradar o que levou, em princípios de 2011, à demissão do Sócrates mas com as sondagens a darem-lhe nova vitória.
Mas, no dia 20 de Maio de 2010, num debate televisivo o Passos Coelho ao ter sido o primeiro político a derrotar pela argumentação o socratismo, virou o curso da história. 
Depois a situação financeira foi-se degradando cada vez mais até ter atingindo, em finais de 2011, o olho do furação, com taxas de juro acima dos 20%/ano.
No Natal de 2011 tudo indicava que estávamos irremediavelmente no caminho da bancarrota a la grega. 
Recordemos que, em Dezembro de 2011, as obrigações a 10 anos negociavam-se com perdas de 80%. 

Fig.1 - Em 2007 fui muito feliz, até aparecer a crise que foi causada pelos outros. Se o PEC4 tivesse avançado ...

Mas o Gasparzinho acreditou sempre. 
E, lentamente, as taxas de juro lá foram descendo.
Cada acidente de percurso, fosse um chumbo do Tribunal Constitucional, uma manifestação, greve ou demissão, fazia com que os investidores pensassem que íamos a voltar ao tempo do Sócrates ou, dentro do PSD, do Santana Lopes. Mas não e, lentamente, em princípios de 2013 as taxas de juro voltam aos níveis de 2007 e, em princípios de 2014, estão significativamente abaixo do nível de 2007 (ver, Quadro 1). 

Prazo         2anos     3anos      5anos    10anos   Média(3)    Real(3)   Média(5)
2007            4,1%      4,1%       4,1%      4,5%         4,1%        2,1%        4,2%
Máximo     20,0%     22,8%     21,6%    16,4%       20,6%     18,2%       20,2%
Hoje           2,1%       2,8%       4,0%      5,3%         2,6%        0,6%         3,6%
Quadro 1 - Evolução das taxas de juro do mercado secundário (a média é calculada para uma maturidade média de 3 e 5 anos)

Não pode ser.
Hoje (em mercado secundário), a taxa de juro está bastante abaixo das taxas de juro que a república paga nos contractos assinados em 2007. Se Portugal rolar a dívida pública numa maturidade média de 3 anos (precisa colocar no mercado mil milhões € por semana), consegue uma taxa de juro 1,5 pontos percentuais abaixo do que conseguiu em 2007. 
Em 140MM€ que estão fora da Troika, com a taxa de juro de 2007 pagamos 6000 milhões € por ano e com as taxas de juro de hoje só precisávamos pagar 4000 milhões € por ano. 
Relativamente aos contratos feitos no tempo do Sócrates que os esquerdistas do PS não diziam nem dizem que foram ruinosos, hoje o Passos Coelho conseguiria em Mercado fazer muito melhor.

Fig2 - A divida pública a 3 anos está com uma taxa de juro muito inferior à de 2007

E em termos reais 
Parte dos juros é para pagar a inflação (de 2%/ano) e esta parte não traduz, em termos económico, o desembolso de recursos escassos. Desta forma, apenas a parte real traduz que temos que diminuir o nosso rendimento para pagar os juros.
Se retirarmos a taxa de inflação da taxa de juro, com as condições de mercado de 2007, a república tinha que pegar em 3 mil milhões € do nosso rendimento e entregar aos credores enquanto que com as condições actuais só precisaria de entregar 850 milhões €.

Afinal, no futuro em termos reais vamos pagar poucos juros. 
O Estado, para pagar os juros da nossa dívida terá que, nos próximos 50 ou 100 anos, destinar cerca de 0,6% do PIB para pagar os juros aos credores (mantendo a divida em termos reais). 
Não é como os esquerdistas dizem, que é impossível pagarmos a nossa dívida pública.
Afinal, não é grande coisa. 
Impossível é pagar as pensões (que vai nos 9% do PIB e sempre a subir) e os demais "direitos adquiridos".

E o programa cautelar?
Portugal compara-se um ciclista que andava à maluca e que se esbarrou contra uma parede, tendo partido uma perna, um braço e três dentes. 
Entretanto, foi socorrido, esteve no hospital, fez 3 anos de fisioterapia, está mais magro e, aparentemente, está fisicamente melhor do que estava antes do esbarramento. 
Agora, o ciclista precisa voltar a andar de bicicleta e tem todas as condições físicas para isso mas há no ar um nervoso miudinho.

Fig. 3 - Está mesmo a precisar de um programa cautela, uma mãozinha de cada lado, não vá cair e partir outra vez o pulsinho. 

As palavras do Seguro invializam haver um programa cautelar.
O Seguro tem colocado metas que a previsão económica dizem serem impossíveis de atingir (mais 2 anos de prazo, crescimento económico, descida do desemprego, não haver novo resgate, o acesso aos mercados) que, um após o outro, têm sido  conseguidos "por milagre da N.S.a de Fátima" (Maria Cavaco silva) . 
Agora, o Seguro lançou o último tiro de pólvora seca: apenas será uma vitória para o Passos Coelho e para a sua política neo-liberal (e uma derrota para si próprio e para o esquerdismo que representa) se sairmos do plano de resgate sem qualquer programa cautelar. 

Limpinho, limpinho, limpinho.
Um resgate, programa cautelar ou seja o que for não teria qualquer mal para Portugal mas agora, em termos políticos, já não é possível haver nada disto.
Concerteza (como disse o ministro das finanças alemãs Schauble ao Gazparzinho em 2011), em off a Sr.a Merkel vai mexer os cordelinhos junto dos gestores de fundos para haver sempre dinheiro disponível para o rolamento da nossa divida pública mas não vai ficar nada escrito. 

A política também é assumir riscos. 
E hoje o Passos Coelho + Portas apenas podem ganhar as eleições de 2015 se apostarem que Portugal vai,  até às eleições de meados de 2015, viver um período de crescimento económico, descida do desemprego e acesso aos mercados de divida pública a taxas de juro muito mais baixas que as de 2007. 
Agora, eu acredito que vamos conseguir e, desta forma, as sondagens vão castigar o Seguro que, sem discurso, vai entrar num período de grande sofrimento, a levar pancada de todos os lados. 
Se correr mal e as taxas de juro voltarem a disparar, paciência, pede-se então novamente ajuda e o Rui Rio , qual D. Sebastião, que avance.

Pedro Cosme Costa Vieira

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