sexta-feira, 20 de março de 2015

A crise do Euro e a Grécia

Eu faço parte 
de um núcleo qualquer de investigação em Politica Monetária.
Nesse grupo estão (deveriam estar) pessoas com aprofundados conhecimentos em politicas monetárias. Mas, estando consolidado na Ciência Económica que o Banco Central apenas tem capacidade para alterar a taxa de inflação, não sei porque insistem em dizer que a intervenção de compra de activos do BCE vai, finalmente, aumentar o crescimento económico e descer o desemprego e a taxa de juro.

Bem sei que parece ter lógica.
Parece ter lógica que, se o Banco Central imprimir camiões e camiões de notas e as emprestar às pessoas, a taxa de juro vai baixar.
A lógica é "pegando na Lei da Oferta e da Procura (se houver um reforço da oferta, o preço desce), havendo mais e mais notas no mercado, o preço das notas vai diminui." Até aqui tudo bem mas agora é que vem o erro:  " e o preço das notas é a taxa de juro que vai baixar".
(É um erro porque o preço do dinheiro não é a taxa de juro)
A partir deste pequeno erro, continuam:
"Baixando a taxa de juro, as empresas aumentam o investimento o que leva ao crescimento económico, ao aumento dos salários e à diminuição do desemprego."
Rematam alegremente "O outro caminho, o caminho do crescimento, do emprego e dos salários dignos, o fim da pobreeza e o reforço do Estado Social, está nas mãos do BCE." 
Esta lógica esquerdista até parece ter lógica mas é apenas uma lógica da batata pensadora (se é que a batata, representante dos esquerdistas, pensa).
E tudo por causa daquele "pequeno" erro de pensar que a taxa de juro é o "preço do dinheiro".

O preço do dinheiro.
A taxa de juro não é o "preço do dinheiro" porque os camiões e camiões de notas não entram no Mercado de Crédito (da poupança e do investimento) onde a taxa de juro (real) é determinada mas apenas no Mercado de Moeda onde a taxa de inflação é determinada.
É que o "preço do dinheiro" não é a taxa de juro mas sim "o inverso do preço das coisas". É a quantidade de bens que eu tenho que me desfazer em troca de uma nota.
Por exemplo, se um kg de arroz custa 0,714€, agora tenho que pensar ao contrário: uma nota de 20€ custará 28kg de arroz.

Confundido?
Vamos então ver o mercado monetário.
Existem notas porque nós precisamos de andar com elas no bolso para podermos fazer as nossas compras. Além disso, as notas dos nossos depósitos bancários estão, parcialmente, guardados no cofre do banco (as reservas).
Se, por exemplo, gastamos 250€/semana e levantamos dinheiro uma vez por semana, teremos em média 125€ na carteira. Acrescentando a hipótese de termos o valor de 12 meses de despesas futuras depositado no banco e de o banco guardar 13% desse valor em notas, teremos mais 1560€ guardados no cofre do banco. Neste caso, teremos 1685€ em notas, parte na carteira e parte (à nossa ordem) no cofre do banco.

A velocidade de circulação da moeda.
Se pegarmos no valor total de compras que fazemos num ano (12000€) e dividirmos pelo valor das nossas notas (1685€) obtemos a "velocidade de circulação da moeda", neste caso, 7,1, que traduz, grosso modo, que cada nota demora 51 dias a percorrer o circuito económico.
A nota está paradinha, guardadinha debaixo do colchão, a dormir, durante 50 dias e, no 51.º dia, é acordada para fazermos o pagamento de uma compra. Depois, fica a dormir no bolso de outra pessoa e, decorridos mais 50 dias, é novamente chamada a trabalhar.

Apliquemos estes conceitos a toda a economia.
Grosso modo, existem em circulação notas no valor de 10% do PIB, 17MM€. Isto traduz que a velocidade de circulação da moeda é cerca de 10 vezes, 36 dias entre transacções.
Como o Banco Central é a única instituição que pode emitir notas ("vender"), haverá notas neste valor que são emprestadas pelo Banco Central.
Vendo noutra perspectiva, as notas são títulos ao portador de coisas que emprestamos ao Banco Central sem juros, kgs de arroz.

E quanto será o volume do mercado de crédito?
Considerando os créditos bancários (porque a generalidade das pessoas pensa que são dinheiro), fui às estatísticas do Banco de Portugal ver que os nossos bancos têm emprestados 256 mil milhões € ("crédito líquido a clientes"). Depois fui ver a capitalização bolsista e são mais 266MM€ (ver).
Somando apenas os activos destes dois mercados (bancários mais mobiliários) ficamos acima dos 310MM€ que comparam com os 17MM€ de notas.
Vamos supor que as notas também são consideradas um activo. Então, temos um total de 330MM€ de activos em que as notas são 5%.

E se houvesse mais notas?
Vamos supor que caiam do Céu outros 17 mil milhões € de notas (duplicando a quantidade de notas em circula), Ficávamos com o dobro de notas mas o total de activos só aumentaria em 5%. Por isso, o efeito na riqueza das pessoas seria marginal. É que a duplicação das notas não faria duplicar os nossos depósitos bancários pois eles não são notas.
Como, a velocidade de circulação da moeda é estável (as pessoas não querem mais de 10% do PIB em notas), não seria possível passar a haver 20% de notas em circulação pelo que o PIB vai ter que duplicar.
Mas o problema é que não vai duplicar em quantidade mas apenas nos preços.
O que aconteceria é que os preços duplicariam de um dia para o outro, mais nada.

Mas o mercado monetário comunica com o mercado de crédito.
Mas no sentido contrário ao da lógica da batata esquerdista.
É que se a quantidade de moeda aumentar, a taxa de juro aumenta (e não diminui).
Os aforradores que vão fazer um empréstimo a 10 anos querem receber um determinado juro em termos reais (por exemplo, 1%/ano, que traduz o aumento do poder de compra) e, para isso, têm que calcular a taxa de juro (nominal que escrevem no contrato) somando-lhe a taxa de inflação esperada nos próximos 10 anos (diz o BCE que será 1,9%/ano). Desta forma, irão escrever no contrato 2,9%/ano.
Mas se a quantidade de moeda aumentar, os preços irão aumentar, isto é, a inflação irá aumentar pelo que os aforradores irão exigir uma taxa de juro nominal maior.
Se a inflação aumentar, por exemplo, para 3%/ano, o mesmo aforrador já vai exigir 4,0%/ano.

A comunicação.
Tem a ver com as expectativas (a previsão do efeito da medida na taxa de juro futura).
Se a intervenção do Banco Central não alterar a previsão de inflação então, faça o que fizer, não afectará as taxas de juro. Se houver um aumento das notas em circulação que faça as pessoas pensar que a inflação vai subir, a taxa de juro nominal irá aumentar.
Parece-me simples mas não é porque quase todos os comentadores da nossa praça pública cometem o erro de pensar que a intervenção do BCE vai fazer alguma coisa pela economia.

A crise da Zona Euro.
Outro problema que tenho com os meus colegas é que eles, porque vivem em Portugal e são esquerdistas, querem dizer que a Zona Euro está a viver uma grave crise.
Vou mostrar o gráfico da evolução da taxa de juro média das obrigações do tesouro a 10 anos (média usando o PIB como ponderador.
Reparemos que os 5 maiores países ponderam quase 84% da economia da Zona euro e que somando todos os países intervencionados pela Troika, dá menos de 6% do PIB da ZE.

Fig. 1 - Peso de cada país na economia na Zona Euro (média 1992-2013, dados: Banco Mundial)

Vejamos então como têm evoluído as taxas de juro a ver se descobrimos alguma crise (ver, Fig. 2). O que se observa é que, entre 2003 e 2012, a taxa de juro esteve em torno dos 4%/ano, nem se vê crise do Sub-Prime (2008) nem da dívida soberana (2010), não há crise nenhuma. Estranhamente, em princípios de 2012 a taxa de juro começou a cair, 1 ponto percentual cada ano.

Fig. 2 - Taxa de juro média nas obrigações a 10 anos da dívida pública da Zona Euro (dados: ECB, "long term interest rates for the criteria of convergence")

O que irá acontecer à Grécia?
Já se sabe que vai sair da Zona euro.
Atentem à conversa da ministra das finanças: "na eventualidade de acontecer algo de grave, não precisaremos ir ao mercado nos próximos tempos para nos financiarmos."
Se a taxa de juro está a descer, para que é a pressa em garantir o financiamento para os próximos 18 meses?
Tem milhares de milhões de euros no cofre a pagar juros para quê?
Não seria melhor esperar pela data das necessidades?
É que a Maria Luís já sabe que a Grécia vai rebentar e que está por dias, no máximo, por semanas, poucas.

Prova disso foi a conversa aos jornalistas do Tsipras e do Junker.
Enquanto o Tsipras dizia "tenho a certeza de que vamos chegar a acordo porque existe vontade política para isso" o Junker abanava com a cabeça a dizer que não para logo rematar "eu não tenho esperança."
Depois temos a evolução da taxa de juro da dívida pública grega a longo prazo (10 anos) que já está bem acima dos 10%/ano.
Atenção que isto não traduz que a Grécia está a pagar 11,6%/ano de taxa de juro mas sim que quem emprestou dinheiro à Grécia está a vender títulos com valor nominal de 100€ por 34€, estão a perder 2/3 do valor.

Fig. 3 - Evolução da taxa de juro Grega a 10 anos (implícita)

Agora tenho que ir.


Fig. 4 - Любовь, прийти к постели

Pedro Cosme Vieira

sexta-feira, 13 de março de 2015

O caminho do Brasil

Os países são como os músculos. 
Para termos boa musculatura temos que trabalhar.
Todos os dias, em vez de ficarmos a ver televisão e a ler bloggues parvos como este, temos que pegar num peso de 1kg em cada mão e amarrar outro nos tornozelos e ir caminhar em passo acelerado durante uma horita, fazer pelo menos uns 6 km.
Se fizermos isso, lentamente (e com muito sacrifício), a gordura irá desaparecer e o músculo crescer.

Também, para podermos ter um emprego seguro e bem remunerado, em vez de gastarmos o nosso tempo e dinheiro em mulherido, jantares e noitadas, poupamo-los e investimo-los em estudo, livros e aulas o que, lentamente (e com muito sacrifício), nos vai tornar mais capazes de produzir mais valor, o que é a chave do sucesso no emprego. 

Os países também ganham músculo e são capazes de produzir mais se houver poupança que é a fonte de financiamento do investimento produtivo.  Desta forma, ano após ano, a quantidade de capital aumenta o que (com muito sacrifício) faz com que o PIB aumente.

Fig. 1 - Está a crescer

Mas o que acontece quando paramos de nos esforçar?
Os músculos tornam-se mais volumosos. Porque os músculos ganham gordura (que não vemos), ficamos com a sensação de que estão a crescer, cada vez mais fortes.

O trabalhador torna-se mais produtivo. Como já não perde tempo a estudar, tem mais tempo disponível e está podendo assim tornar-se mais produtivos. 

A economia do país, que deixa de poupar e encaminha todo o rendimento para o consumo, cresce. Porque mais pessoas querem consumir, os estabelecimentos vão precisar de contratar mais horas de trabalho.

Mas isto é uma realidade de curto prazo, pois, mais dia menos dia, a falta de esforço, seja musculação, estudo ou poupança, encaminha-nos para o abismo.

Há um exemplo muito interessante de crescimento económico.
O crescimento acontece por haver inovação em alguma das milhares de actividades que compõem a economia. Uma de cada vez, encontra formas mais eficientes de produzir e o mecanismo (de mercado) que coordena as actividades (os preços) vai difundir esse inovação a toda a economia. O problema é que, no curto prazo, a inovação vai parecer que caminha a economia para o fracasso. Pro isso é que tantas pessoas são contra as inovações.

Vamos imaginar 
Uma economia com 99 pessoas a trabalhar em padarias, salsicharias e rolotes de cachorros quentes (que usam os pães e as salsichas).
Como as pessoas apenas dão valor aos cachorros quentes (ninguém come pão ou salsicha simples), vão gastar todo o rendimento em cachorros quentes.

Sendo o preço dos cachorros quentes normalizado a 0,99€/u (será a unidade de valor) e a produtividade de cada trabalhadores é 6 (pães, salsichas e cachorros, respectivamente), a economia caminha para o equilíbrio seguinte:

Sector.............. Padaria .......Salsicharia.......Rolote
Trabalhadores .....33 .................33 ................33
Produtividade .......6....................6...................6
Preço.................0,33€/u.........0,33€/u.........0,99€/u.
VA....................65,34€..........65,34€..........65,34€
...........................(33%)...........(33%)...........(33%)
Salário...............0,99€.............0,99€............0,99€
Consumo..............2...................2....................2

Esta economia está em equilíbrio de pleno emprego (todas as 99 pessoas têm emprego, o salário é igual à produção e a produção é igual ao rendimento).

Mas dá-se uma inovação tecnológica.
Nas padarias descobrem um novo processo produtivo em que cada padeiro passa a produzir 30 pães por dia. Aparentemente isto será bom para as padarias (e para os padeiros) e que os outros sectores ficarão diminuídos. Mas, veremos que não, que vai ser exactamente ao contrário.
A economia vai evoluir no sentido de um novo equilíbrio. Supor que já passou o tempo de ajustamento, a economia estará num novo equilíbrio em que todas as pessoas estão melhor (os preços do cachorro quente mantém-se nos 0,99€/u que é a unidade de valor):

Sector.............. Padaria .......Salsicharia.......Rolote
Trabalhadores ......9 .................45 ................45
Produtividade ......30.................3...................3
Preço.................0,09€/u.........0,45€/u.........0,99€/u.
VA....................24,30€.........121,50€........121,50€
...........................(9%)...........(45%)...........(45%)
Salário................2,70€...........2,70€............2,70€
Consumo............2,73.............2,73..............2,73

No novo equilíbrio, todas as pessoas ficaram melhor (e não apenas os padeiros). O preço do pão desce e o preço da salsichas sobe (e a margem da rolote também sobe de 0,33 para 0,99 - 0,45 - 0,09 = 0,45).
Mas o sector de padaria, onde houve a inovação, diminui o peso na economia de 33% para apenas 9%.

Isto acontece todos os dias.
Por exemplo, a crise na Agricultura deve-se aos grandes ganhos de produtividade. Hoje um agricultor consegue produzir mais de 1000x o que produzia um agricultor em 1950.
Pelo contrário, os sectores que vão ganhando peso, por exemplo, o ensino e a saúde, deve-se ao facto de os ganhos de produtividade serem pequenos. ensinar hoje um aluno não é muito diferente do que era há 2500 anos atrás.

Mas o que é que isto tem a ver com o Brasil?
É que este gigantesco país pensou, com o Lula da Silva, que o combate à pobreza poderia ser a estratégia de crescimento económico que levaria o Brasil a ser uma superpotência mundial. Esta política de redistribuição fez-se pela diminuição da poupança (aumento do consumo financiado com crédito que deveria ir para investimento).
Se até 1990 a poupança líquida do Brasil (poupança interna bruta menos a depreciação de capital em percentagem do PIB) estava acima dos 10% e acima da alemã, desde então caiu para um valor próximo de zero.

Fig. 2 - Evolução da poupança líquida, 1970-2013 (dados: BM)

E, entre 200 e 2010, a redistribuição fez a economia crescer, passada uma década, a falta de poupança meteu-lhe um travão. Se o PIB per capita brasileiro relativamente ao alemão (que é a comparação europeia) recuperou 3 pontos, mantém-se há vários anos nos 24%, a mesma relação que existia em 1971-1972.

Fig. 3 - Relação entre o PIB per capita brasileiro e alemão, 1970.2013 (dados: BM)

E onde nos leva a questão da inovação?
É que o Brasil tem uma regra automática que aumenta os salários (salário mínimo e dos funcionários públicos) para corrigir a inflação e acrescentar poder de compra.
Mas, por um lado, este mecanismo ao se aplicar a toda a economia evita que a economia ajuste em função da inovação que vai acontecendo. Por um lado, transmite para os sectores onde não há inovação (e que não têm ganhos de produtividade) aumentos de salário que não deveriam existir prejudicando o ajustamento da economia ao longo do tempo.

Agora vou um bocadinho à Grécia.
Vão cada vez mais a caminho da parede pensando que a encornadura é rija o suficiente para deitar o juro abaixo.
O certo é que a nossa taxa de juro (da dívida pública) a 5 anos está nos 0,85%/ano enquanto que a grega está nos 15%/ano.
Parece que quem tem uma dívida massiva (como nós e a Grécia), se disser "Não podemos pagar as nossas dívidas", a taxa de juro sobe de tal maneira que a dívida fica mesmo impossível de pagar mas se disser "Vamos pagar tudo até ao último cêntimo" a taxa de juro desce de tal maneira que se torna mesmo possível pagar essa dívida.
Portugal (o Passos Coelho e não a brigada de caloteiros esquerdistas) disse, mesmo sem ser possível na altura, que íamos pagar tudo e a taxa de juro desceu. Pelo contrário, os gregos disseram nas mesmas circunstâncias que iam bancarrotar, e vão mesmo bancarrotar.

Pedro Cosme Vieira

sexta-feira, 6 de março de 2015

A saida do Euro (da Grécia) e as finanças do Passos Coelho

Eu tenho investigado sobre a saída do Euro.
Todos os dias ouvimos toda a gente dizer coisas sobre a crise da Grécia.
Como tenho investigado estas questões desde 2010, posso garantir que não passam de opiniões sem  qualquer fundamento e que não têm nada a ver com a realidade.
Já muitas uniões monetárias foram dissolvidas, (nós mesmos tivemos uma união monetária com Angola, Moçambique, Guiné Bissau e Cabo Verde), sem haver qualquer impacto negativo nos países.
A Irlanda saiu da "Zona Libra Esterlina" para entrar na "Zona Euro" e nem ninguém se lembra disso porque não houve qualquer impacto negativo nem no Reino Unido nem na Irlanda.
Vou então tratar das duas questões em discussão.

1= Se a Grécia não chegar a acordo com as instituições europeias (os credores), terá obrigatoriamente que sair da Zona Euro.
Nesta afirmação não existe o mínimo de verdade.
O dinheiro é apenas um meio contabilistico para registar o nosso trabalho (e pelo qual recebemos as notas correspondentes ao nosso salários), os bens e serviços que vendemos (e pelos quais recebemos as notas correspondentes ao preço) e os bens e serviços que compramos (e pelos quais entregamos as notas correspondentes ao preço). Além disso também regista os recursos escassos pedidos emprestados (se recebemos notas) ou os recursos escassos emprestados (se entregamos notas).
As notas que temos na nossa carteira ou debaixo do colchão não são mais do que o saldo de todos os movimentos realizados em dinheiro (trabalho, compra/venda, empréstimo, doações, roubos, achamentos) que fizemos desde o dia em que nascemos até agora. 
Os movimentos em dinheiro são denominados por "movimentos financeiros".

Para a economia, é irrelevante a unidade de contabilização.
A) Se o nosso ordenado for contabilizado em Euros (recebemos 1000€) e os preços dos bens e serviços também (gastamos 900€), ficamos com 100€ no bolso para gastar, no futuro, em mais bens e serviços.
B) Se o nosso ordenado for contabilizado em Contos (recebemos 200C) e os preços dos bens e serviços também (gastamos 180C), ficamos com 20C no bolso para gastar, no futuro, em mais bens e serviços.
C) Poderia até o nosso ordenado ser contabilizado em Contos (recebemos 200C), os preços dos bens e serviços serem contabilizados em euros (gastamos 900€) e a nota em circulação ser o Parolo com as taxas de câmbio 1 Conto = 1000 Parolos, 1 Euro = 200 Parolos e 1 Conto = 5 Euros.
Em termos económicos, ter A, B ou C é totalmente equivalente. A Economia é totalmente independente da moeda em que são realizados os contratos e a moeda física que está no bolso das pessoas.

Mas existe o custo de câmbio.
No passado sim, mudar a denominação da moeda causava custo de câmbio mas agora não. Como agora a maior parte dos pagamentos são intermediados por computadores (os cartões VISA, multibanco e a Internet), não existe qualquer custo de câmbio diferente do normal custo das transacções computacionadas.

E o risco cambial?
Já agora, se quisermos, podemos fazer contratos em moeda diferente do Euro.
Cada um correrá o risco que quiser. Se uma pessoa quiser fazer o seu contrato eu Parolos, assume a taxa de inflação e o risco cambial dessa moeda. Se quiser fazer em Euros, terá outra inflação e outro risco cambial.
Segundo a segundo, a taxa de câmbio entre as moedas é calculado (de forma semelhante à EURIBOR) e o computador aplica essa taxa à transacção.

Mas, na Grécia, há o problema dos depósitos bancários.
Não existe problema nenhum pois os bancos gregos têm activos suficientes para poderem pagar todos os depósitos, independentemente da moeda de denominação.
O problema é se o Estado Grega não pagar as suas dívidas pois, neste caso, o activo dos bancos gregos sofrerá desvalorização.
E se não tiverem dinheiro para pagar os depósitos (e obrigações), abrem falência.
Mas, também se em euros também não tiverem euros, só não abrirão falência se alguém lhes der Euros (a Alemanha e os nossos esquerdistas).

Qual será o problema da Grécia bancarrotar?
O Estado tem que ajustar as suas despesas aos euros que consegue recolher em impostos.
Se os impostos não conseguirem cobrir a despesa pública, o Estado não poderá pagar os salários dos funcionários públicos nem as pensões.
Será um corte forçado pela falta de notas e não pela imposição de ninguém.
Neste caso o Farovakis não poderá mais dizer "vou rasgar as imposições da Troika pois estão-nos a impor austeridade" nem dizer "não pago salários aos funcionários públicos por causa de Portugal"
Pura e simplemente terá que dizer "não posso pagar salários nem pensões porque os gregos não pagam impostos suficientes."

Mas os euros podem sempre continuar.
O Farovakis pode começar a imprimir Parolos e a pagar a parte dos salários dos funcionários públicos e das pensões em Parolos para os quais não tem euros. 
O Estado grego até pode passar a receber os impostos e a pagar a despesa em Parolos mas isso não faz com que o Euro não possa continuar no bolso das pessoas e a ser a moeda de referência da economia grega.
O Estado é apenas mais um agente económico no meio de tantos outros milhões.
Tal como o BES falir não nos obriga a sair do Euro, também se o Estado Português bancarrotasse, não teríamos que sair da Zona Euro.
Se em Marrocos o Euro é a unidade de referência, na Grécia, mesmo havendo Parolos, também o será.

2= A saída da Grécia do Euro será terrível para a Grécia e para a Zona Euro.
A saída não será notada por ninguém pois será apenas uma mudança na denominação das transacções financeiras gregas.
O que as pessoas estão a pensar é que pode haver uma bancarrota total de Grécia o que implica perdas de 340 mil milhões de euros.
Este valor, perdendo-se na totalidade, corresponde a 3,4% do PIB da Zona Euro, o que implicaria que Portugal tivesse que assumir perdas de 5,8 mil milhões €, equivalente às perdas que o Estado assumiu com a falência do BPN. Como as instituições da Zona Euro só detêm 80% da dívida grega, será uma perda de "apenas" 450€ por cada português.
Isso mesmo, o que os nossos esquerdistas querem para a Grécia implica que cada português vai perder 450€, homens, mulheres, velhos, novos e crianças, empregados e desempregados, 450€ por cabeça. E o Passos tenta apenas proteger-nos desta perda.
Quem for esquerdista, verdadeiramente esquerdista, e que tenha peninha dos gregos, que pegue num cheque de 450€ e que o envie para o Farovaquis que ele vai agradecer e que deixe os meus 450€ em paz. 
O maior problema é que, depois de gastar este cheque, vai querer mais e mais e mais.

Mas toda a gente já antecipa a bancarrota.
Mesmo com a dívida pública denominada em Euros, os credores (particulares) quando assumem uma taxa de juro implícita nas obrigações gregas entre 9%/ano e 10%/ano quando as alemãs estão entre os 0,35%/ano e os 0,42%/ano, estão a antecipar perdas na dívida grega de 58%.
Antecipam que há mais de metade de hipóteses de perderem todo o seu dinheirinho.

Fig. 1 - Os esquerdistas portugueses falam muito que a descida das taxas de juro portuguesas se devem ao BCE (e não a Passos Coelho)

Fig. 2 - Mas na Grécia, exactamente onde há um governo esquerdista, as taxas de juro sobem!

Os problemas fiscais do Passos Coelho.
Toda a gente já teve problemas com o fisco. Eu, que não faço mal a uma mosca, já fui "multado" em mais de 3000€. Por razões que nunca cheguei a compreender, fizeram umas contas e aplicaram-me uma correcção qualquer de que resultaram quase 3000€ para eu pagar. 
Bufei mas paguei. O interessante é que na carta que me enviaram tinha o parecer de um inspector tributário qualquer que dizia "vai pagar xpto€ porque, aparentemente, o dinheiro não lhe vai fazer falta."
Depois, chamaram-me lá e disseram que eu tinha que corrigir a minha declaração "sob o risco de sobrer pesadas coimas". O problema é que eu não sabia do que eles estavam a falar pelo que não fui capaz de fazer o que eles diziam eu saber bem, não fazia a mais pequena ideia do que eles estavam a falar.
Passado um mês ou dois, "apanhei" mais 300€.
Como sou funcionário público, vinguei-me não trabalhando durante uns dias.
Não fiz nada, mesmo nada e não foram 2 nem 3 dias!.

O Passos é uma pessoa simples.
Lembram-se da casa que arrenda no Algarve?
Quando os reportesres lhe perguntaram "O Sr. Primeiro-Ministro exige que lhe passem recibo?
- Mas recibo de quê? Isto não é uma farmácia!
E deu uma gargalhada.

Com os recibos verdes foi igual.
Em tempos distantes, nos finais dos anos 1980, uma estudante de matemática que passava recibos verdes por uns trabalhitos que fazia, uns inquéritos ao consumo e umas reposições em supermercados. 
Eu não percebia nada daquilo, só me lembro que eram uns livros muito grandes, pretos, penso que 3, onde a pessoa escrevia os recibos emitidos com a data, o valor e o IVA retido, outro livro para o IVA retido e pago, e ainda um livro para as despesas da actividade, facturas que eu pedia nas bombas de gasolina (facturas "falsas" pois ninguém tinha carro) e nos cafés (para simular os "almoços de serviço") até fazer uma certa percentagem, penso que 30% da facturação.
Era um amadorismo total mas toda a canalhada passava assim uns recibozitos, compravam-se nas finanças e até umas pessoas passavam por outras, iam fazer os trabalhitos com o nome das outras pessoas.
(Também aconteceu comigo, eu fazer uns trabalhitos com nome doutro).

Fig. 3 - Oh pá, eu precisava de alguém que soubesse dessas coisas dos recibos verdes, tu conheces alguém?
Eu, eu, eu sei, sei, sei, sei disso tudo, aprendi lá nas engenharias, tenho uma cadeira mesmo disso, sei de tudo, de recibos verdes e de recibos maduros, de tudo.
Ai que bom ter-te encontrado.
Pois foi, vai ser, bom vai, se for vai.

Era tudo feito no joelho.
Aquilo era tão aldrabado e sem conhecimento que eu optei por escrever as coisas a lápis para, no caso de a pessoa ser chamada às finanças, os técnicos poderem corrigir aquilo.
De 3 em 3 meses, eu fazia uma conta qualquer e mandava um cheque para os do IVA. No fim do ano, mais umas contas e vinha o IRS para pagar. Para a Segurança Social, nada, havia pessoas que falavam disso, que, se calhar, era preciso pagar, mas ninguém sabia como, nem havia livro para isso.
O interessante é que nunca ninguém me pediu os livros, nem a mim nem a ninguém.
Uma vez a pessoa foi chamada às finanças e eu fiquei a tremer de medo. Disse-lhe que estava tudo bem para ela ganhar confiança mas só Deus sabe, até fiquei com diarreia.
Era uma coisa com um nome de código tipo "operação locomotiva".
Ela lá levou os livros de baixo do braço e chegando lá os financistas perguntaram-lhe: 
- Estes valores que estão aqui declarados correspondem à realidade?
- Sim Sim Sr. Chefe, é isso mesmo - sem fazer ideia do que ele estava a falar.
- Então está bem. Assine aqui e pode ir embora que está tudo correcto.
Quando eu soube disto, até fui beber um cafezinho para comemorar. Naquele tempo o meu dinheiro não dava para mais.

Se calhar.
Sei hoje que essas coisa eram crimes, na minha inocência devo ter cometido mais crimes que o Sócrates.
E vejam só, crimes que, somados, deveriam dar mais de 200 anos de cadeia mas que, em euros, deram para uns cafezitos, umas centenas de euros.

O Passos Coelho era igual.
O moço não sabia nem sabe de nada desses pormenores.
A mente dele é virada para a música, para as artes, em casa ele distrai-se é a cantar ópera, não é a ver as cartas das finanças, o código do IRS ou a legislação da Segurança Social.
Nada disso, é uma pessoa como outra qualquer.

Faz-me lembrar quando eu fui ao Centro de Saúde.
E passou um médico gordo e a fumar. Um dos que estavam lá comigo disse "este médico prega muito que ser gordo e fumar faz mal à saude mas não para de comer, beber e fumar"
- Deixe isso amigo que eu estou cá para tratar da minha saúde e não da saúde do médico. Se ele morrer, arranjam logo outro mas se eu moirrer, não há quem me substitua.
Com o Passos é igual, não precisamos de uma pessoa exemplar (como dizem ser o Guterres) mas que nos leva à bancarrota. 
Eu gosto do Passos.

Será que uma pessoas que copiou ...
poderá ser vigilante de exames?
Mau era se não pudesse, não haveria vigilantes.

Pedro Cosme Vieira

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