segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O erro de Ricardo Reis

O Ricardo Reis escreve semanalmente no Dinheiro Vivo.
 Estimado Ricardo,
 há umas semanas escreveste uma coluna no DV em que falaste da actual crise europeia ("A lição do Japão para a Europa"). Leio sempre o que escreves mas, felizmente, neste caso a tua análise está completamente errada.
 Digo felizmente porque, apesar de ficar triste por ser  teu amigo, dá-me uma enorme alegria poder dar uma marretada na cabeça de uma pessoa com tamanho valor.
 Põe a cabecinha no cepo e prepara-te que ai vem a marretada.

 Sendo o RR neo-keynesiano
(também conhecidos por neo-comunas), pensa que a Europa, seja lá isso o que for, apenas pode sair da actual crise aumentando a inflação (e lançar mais obras públicas).
Então, para fazer valer esta sua ideia sem pés nem cabeça, foi buscar o exemplo do Japão.
 Afirma que, em resposta à crise financeira de 1991, o Japão iniciou um caminho para a irrelevancia no qual a economia estagnou e a inflação se manteve nula.
 O RR acredita, tal qual a Assunção das Cristas tem fé que a Nossa Senhora de Fátima vá fazer chover, que aumentando a inflação, o PIB cresce. Só não compreendo porque isso não funciona nem no Zimbabwe nem na Venezuela e há-de funcionar em Portugal.
 O erro do Ricardo Reis é querer basear uma teoria que se sabe ser totalmente errada e sem pés para andar (haver um trade-off entre a inflação e o crescimento) na repetição de chavões da comunicação social (que é maioritariamente ocupada por neo-comunas) sem o cuidado de os verificar.

Fig. 1 - RR, futuro secretário geral do PNCP - Partido Neo-Comunista Português

Primeiro Erro: O Japão não tem a economia estagnada há 20 anos.
Isto não é minimamente verdade. Nada mesmo.
A questão é que a população do Japão está em regressão. Por isso, o "problema" não é da falta de dinamismo da economia mas apenas da forte redução da natalidade (ver Fig. 2).

Fig. 2 - Taxa de fertilidade no Japão e nos USA (fonte: Banco Mundial)

 Mas o importante é vermos como se comporta a economia relativamente a cada um dos potenciais trabalhadores que existem no país separando assim o efeito do aumento do número de trabalhadores do dinamismo do processo de criação de riqueza.
 Se dividirmos o PIB pelas pessoas com idade entre os 15 anos e os 65 anos (o PIB por pessoa em idade activa, PIBpcia) e compararmos o Japão com os USA, o UK e a Alemanha vemos que o Japão é o país mais produtivo do mundo e que, nos últimos 30 anos, tem crescido de forma semelhante às outras potências económicas (ver Fig. 3).

Fig. 3 - PIBpcia 1980-2010, USD internacionais (fonte: Banco Mundial)

Na década de 2000 (entre 2000 e 2010)  o PIBpcia do Japão cresceu a uma taxa de 1.31%/ano que foi o dobro da taxa verificada nos USA (que cresceu 0.58%/ano) e no UK (que cresceu 0.72%/ano) e foi idêntica à verificada na Alemanha (que cresceu 1.28%/ano), assumida como uma economia muito dinâmica.
Mesmo na década de 1990 (entre 1990 e 2000) em que foi preciso resolver a crise financeira de 1991, o PIBpcia do Japão cresceu 1.1%/ano.
No últimos 20 anos (entre 1990 e 2010), o PIBpcia do Japão cresceu 1.2%/ano e o dos USA cresceu 1.3%/ano.
Não penso que uma décima possa justificar a afirmação de que tenha havido qualquer falha na condução da politica económica do Japão.

Afirmar que "Problemas que começaram no sistema financeiro espalharam-se a toda a economia que deixou de crescer. Os governos falharam na limpeza dos bancos, sem coragem para fechar ou recapitalizar instituições falidas. O banco central falhou por excesso de prudência não deixando que a inflação subisse em troca de algum estímulo à atividade económica. Os políticos falharam em controlar a despesa pública galopante, incapazes de dizer não a qualquer grupo de interesse. Como resultado, o Japão perdeu a década de 1990 e ainda hoje está muito abaixo do ritmo de crescimento económico a que estava habituado" é manifestamente exagerado para não dizer errado.

Bem, houve, como afirma RR, uma quebra da tendência em 1991 mas isso também aconteceu nos USA (em 1999). Mesmo assim, nos últimos 40 anos, 1970-2010, em média o PIBpcia do Japão cresceu 2.2%/ano que foi superior ao verificado nos USA, que cresceu 1.9%/ano, em 0.3pp (ver Fig. 4).

Fig. 4 - PIBpcia 1970-2010, USD internacionais (fonte: Banco Mundial)

Comparemos com o Brasil
Na década de 1990 o PIBpcia do Japão cresceu 1.1%/ano e o do Brasil 0.25%/ano.
Na década de 2000 o PIBpcia do Japão cresceu 1.3%/ano e o do Brasil 2.0%/ano.
Nas duas décadas de 1990-2010 o PIBpcia do Japão cresceu 1.2%/ano e o Brasil 1.1%/ano.
É impressionante como uma economia repetidamente anunciada como estagnada (o Japão) tem idêntico desempenho económico a uma economia repetidamente anunciada como pujante (o Brasil).
E o PIBpcia do Japão é 61.5 mil USD enquanto que o do Brasil é 7mil por pessoa em idade activa (fonte: Banco Mundial, 2010).
Como este diferencial de PIBpcia e a crescer mais 0.7pp, o Brasil atingirá o nível de desenvolvimento do Japão daqui a 275 anos.
É no Natau de 2287!

O Japão é um país "irrelevante".
O Japão tem apenas 127 milhões de habitantes num mundo com 6840 milhões (2010, banco mundial).
Com 1.85% da população mundial, sem forças armadas, localizado a 20000 km de nossa casa e com uma cultura pós-WWII discreta, naturalmente que nós não ouvimos falar do Japão.
Naturalmente.
Nem nos lembramos que a Toyota, Honda, Sony, Canon, Nintendo, Panasonic, Lexus, Nissan, Toshiba, Sharp, Shiseido, Komatsu, Suzuki, Yamaha, Mitsubishi, Bridgstone, Casio, Fujitsu, Mazda, Olympus e Epson são marcas de produtos que encontramos todos os dias e que são japonesas.
O estimado leitor é capaz de se lembrar de uma marca brasileira, chinesa ou indiana?
E dos países com taxas de inflação elevadas como o Zimbabwe e a Venezuela?
Ah. Não se lembra?
Vou-me sentar a ver se se lembra de alguma coisa.

E o Japão quer uma inflação de 0%/ano.
Como a inflação é um fenómeno puramente monetário, o Japão tem desde Janeiro de 1995 uma inflação média de 0%/ano porque não quer ter mais. E não vem qualquer mal ao mundo por a taxa de inflação ser zero.
A China também já teve essa ideia (entre Janeiro de 1998 e Junho 2003) e não teve qualquer impacto negativo na taxa de crescimento da sua economia.

Fig. 5 - Taxa de inflação no Japão, 1989-2010 (fonte: tradingeconomics)

Segundo Erro: a Zona Euro não está em crise.
Há alguns países da Zona Euro que estão em crise.
Concerteza que a Grécia, Portugal e a Irlanda estão em crise e depois ainda temos a Itália e a Espanha em crise mas num patamar mais ténue.
Mas a maioria dos países não está em crise. A Alemanha, o Luxemburgo, a Holanda, a Finlândia e a Áustria definitivamente que não estão em crise.
E a França está no meio, equiparada aos USA (o PIBpcia contraiu entre 2006 e 2010, 2.50% na França e 2.52% nos USA).

Fig. 6 - Evolução relativa aos EUA do PIBpcia 2000-2010, pp (fonte: Banco Mundial)

Se somarmos a economia dos 5 países zona-eureus em crise (os PIIGS), a sua dimensão economica, 3170MM€, é equiparável à dimensão dos 5 países zona-eureus sem crise nenhuma, 3000MM€, anulando-se (fonte: Banco Mundial, 2010).

Que exemplos positivos se devem ir buscar para encontrar soluções para a nossa crise?
 O Japão resolveu a sua crise financeira de 1991 mantendo um crescimento económico idêntico ao das outras potências desenvolvidas pelo que é uma lição mas pelo lado positivo.
 Devemos seguir exactamente o exemplo do Japão e o da Alemanha e adoptar as politicas que estes países adoptaram e que são contrárias ao que defendem os neo-keynesianos (e o Ricardo Reis).
Temos que implementar:
    Balanças corrente equilibradas (nos dois casos até são bastante superavitárias) e
    Finanças públicas equilibradas.
    Taxas de inflação baixas.
    Mercado de trabalho flexível.
    Diminuição do peso dos impostos (do Estado) na economia.
    Liberalização dos mercados.
    Acabar com as empresas públicas e com as PPPs.
E aquelas coisas todas que custa muito ouvir falar.

O Ricardo Reis respondeu a este poste no dia 1 de Março.
RR, além de ter uma inteligência e conhecimento extraordinários, é uma pessoa educadíssima e que  tem um elevado fairplay.

"Olá Pedro,
 ... O teu poste parece-me um bom contributo para a discussão, e nesta crise que enfrentamos mal seria se concordássemos em tudo ... Permite-me só dois comentários...:
(i) nesta coluna não falo em lado nenhum em mais inflação como a cura. (De qualquer forma, sim acho que a zona euro estaria em melhor estado se o BCE deixasse a inflação subir 1 ou 2% acima do seu alvo.)
(ii) no teu "Temos que implementar" acho que concordo com a maioria das medidas e tenho escrito rios sobre isso nas minhas colunas na imprensa já há muitos anos.

Ricardo"
Muito obrigado amigo Ricardo.


Sobre a menina de ontem
Eu sou humano logo, engano-me.
Afinal eu vi mal. Aquilo foi uma alucinação.
Era uma matrafona que vinha pedir um patrocínio para o Carnaval.
Como o Passos não deu tolerância de ponto, a coisa deu prejuízo e os coitados precisam de uma ajudazinha.

Fig. 7 - Dê-nos uma contribuiçãozinha para cobrir os prejuízos da "intolerância" de ponto.

Quase me esquecia de agradecer
Ter o nosso blog, meu e vosso, ultrapassado as 200 mil visitas.
Em menos de um ano atingir 200 mil visitas (e ter escrito 200 postes) é obra.
Estamos todos de parabéns.

fig. 8 - Muito obrigado.

Pedro Cosme Costa Vieira

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O desemprego em Portugal está numa dinâmica explosiva

A taxa de desemprego em Portugal
atingiu em Dezembro de 2011  os 14% de taxa de desemprego a que corresponde 770 mil pessoas (fonte: Sol). A  OCDE apresenta números semelhantes (741 mil, 13.6%) mas os esquerdistas avançam com 5 milhões de desempregados, 50% de taxa de desemprego.
Estes números parecem ter colhido os nossos políticos de surpresa. Isto acontece porque os políticos têm esperança que tudo se vai resolver sozinho.
Os políticos são como os dirigentes (e treinadores) das equipas de futebol em crise: têm sempre a esperança de que é exactamente no jogo de hoje que vai acontecer a viragem. Que depois de 10 derrotas consecutivas, têm esperança que esta série negra vai ser interrompida exactamente hoje.
Isso aconteceu repetidamente com o Sócrates (a famosa frase "a crise já acabou") e está a começar a acontecer com o Passos e com o Cavaco.
Mas, infelizmente, estão completamente enganados (ver Fig. 1).

A causa da derrota é haver esperança na vitória.
Este pensamento é oriental e é ensinado na arte da guerra.
A ideia é que temos que fazer o máximo que está ao nosso alcance mesmo sem ter esperança no sucesso.
Apesar de a esperança parecer ser um incentivo a esforçarmo-nos na resolução das situações adversas que nos vão aparecendo na vida, como a sua quebra em face dos problemas verdadeiramente difíceis nos congela, acaba por, no longo prazo, ser um factor de derrota porque é exactamente em face dos problemas verdadeiramente difíceis que temos que aplicar todo o nosso esforço.
Imaginem um aluno que estuda porque tem esperança em ter aprovação. Então, numa disciplina muito difícil, fica desanimado e não consegue estudar. Já o aluno que estuda à força toda sem esperança, pode até ter  2 valores no exame mas não desanima e vai, no ano seguinte, continuar a estudar à força toda até que acaba por ter aprovação.
Como a morte é certa, aquele que precisa da esperança para se esforçar, acabará sempre por desanimar.
Quando  o urso ataca a colmeia, a abelha não tem esperança de derrotar o seu adversário. No entanto dá a sua vida na tentativa de o fazer.

Fig. 1 - Evolução da taxa de desemprego em Portugal 1983-2012 (fonte: PorBase e INE)

O erro do Sócrates (e do Teixeira dos Santos)
Olhando para a evolução da taxa de desemprego, observamos os ciclos económicos a funcionar. A crise de 1982 termina em 1985; a crise de 1992 termina em 1996 e o Sócrates tinha esperança que a crise de 2000  terminasse exactamente em 2003, 2004, 2006,  2007, 2009 e nada  (ver Fig. 1).
O Estado endividou-se à força toda em 2008 e 2009, o Sócrates ganhou as eleições à custa de injectar dinheiro nos bolsos do povo (tipo "os frigoríficos" do Valentim), com essa esperança e isso é que nos levou mais rapidamente à situação de bancarrota que vivemos.
O Sócrates pensa que isso se deveu a um erro do Teixeira dos Santos. Sentiu-se enganado e por isso é que cortou relações com o seu ministro das finanças.
O TS tinha esperança que a crise estava mesmo a acabar e, por isso, não fez nada que ferisse o seu eleitorado. Quando perdeu a esperança, entrou em depressão, congelou tipo múmia paralítica.

Fig. 2 - Sinto-me literalmente de pés e mãos amarradas.

O Passos (do Gaspar e do Álvaro) vive o mesmo erro
A série da taxa de desemprego, inexplicavelmente, teve um ruptura em 2010 mas, como já está em máximos históricos, o Passo tem esperança que já tenha começado a diminuir. Pensa que quando vierem as estatísticas deste mês já se vai ver uma redução na taxa de desemprego.
O Portas não tem aparecido porque foi enviado à Terra Santa para rezar ininterruptamente a pedir que o emprego diminua. A semana passada a Cristas mandou-lhe um e-mail a pedir que também reze para que comece a chover.
Então, não é preciso fazer mais nada.
    Não é preciso diminuir a TSU,
    Não é preciso aumentar o horário de trabalho,
    Não é preciso flexibilizar o mercado de trabalho.

Esta é a filosofia da "guerra nuclear".
Também conhecida por filosofia da avestruz - enterrar a cabeça na areia.
Vamos supor que hoje rebentava uma guerra nuclear em larga escala.
A melhor estratégia seria metermo-nos no fundo de um poço durante um mês tendo esperança que, entretanto, tudo se resolveria por si.
Como tínhamos esperança que a coisa ficaria resolvida, nem precisávamos de levar comida.
O Passos precisava actuar hoje com a força toda no mercado de trabalho mas não faz nada porque isso iria alienar a sua base de apoio e, como tem esperança que este mês as coisas já estejam a caminho da resolução, vai esperar.

E ainda tem o consolo da Grécia.
Pois lá (e na nossa vizinha Espanha) as coisas estão ainda piores, com a taxa de desemprego já acima dos 20% da população activa.
Mas este consolo serve de pouco se pensarmos que a Alemanha tem o desemprego nos 5.3% da população activa o que já não se observava desde meados da década de 1980 (anterior à unificação RFA+RDA) e está a diminuir 0.08 pp por mês.

Os números do desemprego (fonte: INE, 4ºT 2011).
Existe a população geral, no caso português 10 560 000 pessoas.
Então, a taxa de desemprego é 7.3% da população.
Mas nem todas as pessoas têm condições para trabalhar porque umas têm menos que 16 anos e outras têm mais de 75 anos. Ficam 9 694 000 pessoas com aptidão etária para trabalhar.
Mas 4 500 000 portugueses em idade activa não trabalham.
Além disso, 630 mil trabalham a meio tempo.
Se pegássemos nos desocupados e somarmos metade dos que trabalham a meio tempo e dividirmos pela população em idade de trabalhar termos uma taxa de desemprego de 50% da população em idade activa.

Mas os 14% são a taxa de desemprego involuntário.
E aqui é que está a grande diferença entre os "novos clássicos" e os "novos keynesianos".
Hoje os clássicos chamam aos keynesianos "neo-comunas" enquanto que os keynesianos chamam aos clásicos "neo-liberais".
Para os keynesianos a taxa de desemprego é 50% porque todos querem trabalhar mas o salário é que é muito baixo.
Quando ouvir falar nos 5 milhões de desempregados, já não vai estranhar.

Para os clássicos a taxa de desemprego é 0%, zero, porque as pessoas apenas dizem que querem trabalhar porque têm esperança em arranjar um emprego a ganhar um salário muito mais elevado que o valor que são capazes de produzir.
Por exemplo, em 1991, na Ukrânia o subsídio de desemprego era de 5 USD e os salários nas empresas públicas era praticamente zero. Então, apesar de 50% da população referir em inquéritos de rua que "estava desempregada", a taxa de desemprego medida da forma usada na OCDE estava abaixo dos 5% (fonte: Baker, 2002).

Vou avançar mais uns números.
Do total de pessoas activas, 20% trabalham por conta própria ficando 3745 mil pessoas empregadas, 35.4% da população, por conta de outrem.
Aproximadamente, em cada 3 portugueses apenas 1 tem emprego.
Então, se dissermos que quem trabalha por sua conta trocava por um emprego bem pago, poderemos mesmo exagerar e dizer que a taxa de desemprego é de 65%.
Como em Portugal qualquer pessoa pode trabalhar por sua conta, também é aceitável assumir que as pessoas que se declaram desempregadas pretendem passar a ser empregados por conta de outrem.
Então, a taxa de desemprego aumenta para 17% da população activa que trabalha ou pretende trabalhar por conta de outrem.

No que ficamos?
Não interessa se a taxa é 4%, 10% ou 20% pois o que interessa é comparar a evolução dos números obtidos noutros períodos e noutros países em que foi usada a mesma metodologia de cálculo.
O muito preocupante ver que nos outros ciclos económicos a taxa de desemprego em Portugal oscilou entre um mínimo de 4% (no tempo das vacas gordas) e um máximo de 9% (no auge da crise) e que nesta crise já vai em 14% e sem sinais abrandamento.
Mas também é importante ver que a Alemanha, com uma política de redução dos custos do trabalho e baixa inflação, consegue ter taxas de desemprego na ordem dos 5%.
Por isso Passos, Cavaco e todos nós, temos que perder a esperança de que as coisas vão melhorar com uns paninhos quentes e implementar medidas o mais duras possível para resolver este problema.
Deixar de lado a lengalenga dos direitos adquiridos, arregaçar as mangas e actuar mesmo sabendo que pode não dar resultado.

Agora estão a tocar à campainha da porta.
Vim aqui rapidamente apenas para dizer que tenho que dar este poste por terminado.
Eu ia agora racionalizar o porquê de a actual crise ser diferente de todas as que já tivemos mas não posso.
É que espreitei pelo visor da porta e até fiquei a tremer.

Fig. 3 - Ai o que eu vi pelo visor. Só tenho esperança que não seja engano.

Pedro Cosme Costa Vieira

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Austeridade: o beco sem saída

Economia portuguesa está assim: o consumo parou, o poder de compra foi atropelado pelos impostos
 e salários mais baixos e os nossos principais compradores não querem saber de nós
porque também não estão famosos. O Estado não gasta tostão para acelerar a economia.

Vamos supor que somos extremamente conscienciosos e queremos baixar a nossa estrutura de despesa. Vendemos a casa, o carro e vamos viver dois anos para debaixo da ponte. Seguramos o emprego e, de repente, o dinheiro chega para tudo, o que não é de admirar. Ao fim de dois anos, a troika despede-se no aeroporto da Portela. Mas nós nem nos apercebemos disso. Estamos doentes, desdentados, a família desfez-se e o emprego foi perdido porque já não tomávamos banho todos os dias. Em suma, ficámos piores e menos habilitados a criar riqueza. Será que Portugal vai estar assim no arranque de 2014? Umas palmadinhas nas costas da troika bastarão para ficarmos felizes? "Boa, rapazes. Diminuíram a despesa de forma notável. Boa sorte para a recuperação da economia e criação de emprego. Animem-se! Olhem para a Grécia que já nem é do euro", dirão os cobradores do fraque.

Será que a crítica à austeridade sem política de crescimento económico é tão infundada e mais na base do palpite? Parece  óbvio que não. Vamos por partes.

Grécia: o buraco sem fundo da zona euro

“Pesadelo da dívida grega posto a nu”, titula o Financial Times de hoje, revelando um relatório “estritamente confidencial” preparado e entregue, na semana passada, pelos analistas da troika (UE/BCE/FMI) aos líderes da zona euro. A “análise de sustentabilidade da dívida” defende que mesmo no cenário mais otimista, as medidas de austeridade impostas em Atenas podem dar origem a uma recessão tão profunda que a Grécia não conseguirá sair do buraco da dívida nos próximos três anos, 170 mil milhões de euros de resgate [136 mil milhões para além dos 34 mil milhões que sobraram do primeiro resgate à Grécia, de 110 mil milhões].
O relatório adverte ainda para o facto de dois dos mais importantes princípios do resgate se poderem autodestruir.

Grécia: se a revolta se agudizar, não há troika que meta aquele país na ordem

Forçar a austeridade na Grécia pode provocar a subida dos níveis de endividamento enfraquecendo severamente a economia, enquanto a reestruturação da dívida de 200 mil milhões de euros poderia impedir a Grécia de alguma vez mais conseguir voltar aos mercados financeiros por assustar os futuros investidores privados.

O relatório sugere que a dívida grega vai diminuir a um ritmo mais lento do que o esperado – apenas para 160 por cento da produção económica em 2020 – muito abaixo do objetivo de 120 por cento estabelecido pelo Fundo Monetário Internacional. Num cenário destes, a Grécia precisaria de um resgate que ronda os 245 mil milhões de euros, ou seja, muito mais do que os 170 mil milhões de euros de projeção “base” sob a qual os ministros da zona euro estiveram a negociar durante toda a noite, na segunda-feira, 20 de fevereiro, em Bruxelas


Portugal: o aluno brilhante da austeridade


As políticas de austeridade e corte de salários colocadas em prática em países periféricos como Portugal e Grécia terão um efeito contrário ao pretendido: a economia vai crescer menos (-3% ou mais, em 2012, apontam as previsões), apesar de o anúncio dessas medidas poderem ter um efeito positivo de curto prazo nos mercados. O número de economistas a defender esta ideia tem aumentado e, ontem, foi a vez de Corrado Andini e Ricardo Cabral, da Universidade da Madeira  (ver aqui) , virem explicar os motivos, juntando-se assim a personalidades como Paul Krugman, que também ontem veio reiterar a sua linha de pensamento no New York Times, chamando a Portugal “aluno brilhante da austeridade” sem resultados positivos (ver aqui) .Não, Krugman nunca defendeu o corte de salários, ao contrário do que chegou a ser ventilado. Ele defendeu o efeito "inflação" e exemplificou com uma medida de equivalência, isto é, caso a opção fosse o corte salarial directo... Basta saber traduzir do Francês (ver aqui).

Ministro das Finanças alemão confessa a Vítor Gaspar: "Sim, nós sabemos que esta austeridade toda não
 leva a lado nenhum,  mas isso não é importante. Na Alemanha, ninguém se queixa. Só a Grécia é que parece uma
"rave party"  non-stop do meu tempo de juventude

A execução orçamental portuguesa relativa a janeiro, ontem divulgada pela Direção-Geral do Orçamento, foi um primeiro sinal de que austeridade poderá ter um efeito contrário ao pretendido. O défice do subsector Estado baixou 41% face a janeiro de 2011, essencialmente devido à despesa total ter sido inferior em 12,7%. À parte do IVA, cujo aumento de 5,7% na receita era já previsível, tendo em conta o facto de as taxas terem sido agravadas em vários produtos e serviços no início do ano, os outros impostos ressentiram-se da aplicação das políticas de austeridade, gerando uma quebra da receita fiscal nos impostos directos na ordem de 18,8%, em especial no IRC.

Receita fiscal em janeiro de 2012: uma pequena amostra do que está para vir?



Medidas Adicionais de austeridade e cortes salariais vão piorar a crise do euro” é o título do paper publicado ontem, em Inglês, pelos economistas da Madeira e explica-nos, por exemplo, que a Espanha tem um problema da dívida externa, enquanto a Grécia e Portugal têm também esse problema e ainda um aumento exponencial de dívida soberana. Portugal aumentou a sua dívida pública em 43,7 pontos percentuais no período 1999-2010 (88,2) % do PIB, a Grécia em 50,9 pontos (137,1%) e Itália em apenas 5,4 pontos (117%).

Curiosamente, fazem notar os economistas, o nível da dívida soberana da Alemanha está bem acima da Espanha (78,8 e 57,4% do PIB, respetivamente). Além disso, os germânicos aumentaram em quase 22 pontos percentuais a sua dívida entre 1999 a 2010,  apesar de um superávite primário (sem juros) médio de 0,6% do PIB, no mesmo período. No entanto, aquele resultado pode ser explicado por uma taxa de juro média real 2,6 pontos percentuais superior à taxa de crescimento real do PIB entre 1999 e 2010. 

Segundo Ricardo Cabral e Corrado Andini, os mercados de exportação dos países periféricos estão a comprar menos e o consumo interno caiu devido às políticas de austeridade e baixa de salários. A recente dinâmica das taxas de juro da dívida pública é provável que reflitam o facto de que os mercados financeiros começaram a ter em conta não apenas o risco de a dívida soberana de um país não poder ser paga, mas também o risco de taxa de câmbio (o risco de que a dívida soberana de um país será paga em outra moeda que não o euro). Em 2009-2010, as taxas de inflação, em geral diminuíram quando comparadas com o período 1999-2008. Uma vez que as taxas de juros nominais aumentaram ou diminuíram sensivelmente em países periféricos, as taxas de juro reais nesses países aumentaram. Em vez disso, na Alemanha uma redução de um ponto percentual na taxa de juros nominal foi acompanhada por uma diminuição aproximadamente igual à taxa de inflação, de modo que a taxa de juro real manteve-se estável.

“Até os alunos brilhantes da austeridade, como Portugal e Irlanda, fizeram tudo o que lhes foi pedido, enfrentando ainda altos custos de financiamento no mercado secundário da dívida. Porquê? Por que os cortes da austeridade deprimiram profundamente as respetivas economias, colocando em risco as suas receitas fiscais, de tal modo que o rácio da dívida em percentagem do PIB, o indicador padrão da evolução fiscal, está a piorar”, afirmava ontem Paul Krugman, Nobel da Economia.  

Pedro Palha Araújo

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Será função do Estado promover a natalidade?

Volta-e-meia em Portugal discute-se a natalidade.
 Fala o Presidente da República, ouvem-se uns especialistas, mostram-se umas estatísticas, umas velhotas falam sobre o tempo em que "não havia pirulas nem Morangos com Açúcar" e, por fim,  fala um bispo sobre o pecado da fornicação.
Mas, como é normal no nosso querido país, fala-se, fala-se, fala-se, fala-se, e depois fala-se mais, mais, mais, mais, daqui a um ano vão voltar a falar, falar, falar e entretanto os Estaleiros Navais (?) de Viana do Castelo continuam na mesma.
Não fazemos nada.
Será a natalidade em Portugal uma coisa assim tão grave que seja preciso alguém se preocupar ou bastará falar?

A natalidade.
Só as mulheres é que podem ter filhos.
Apesar de os homens serem, em termos genéticos, quase tão importantes como as mulheres (as mitocondrias que contêm 0.15% dos nossos genes são herdadas apenas da mãe) mas, em termos de fardo pessoal, a sua intervenção resume-se a pouco.
É por isso que a Lei do Aborto não reconhece direitos ao pai.

Teoricamente uma mulher pode ter 36 filhos.
No tempo das nossas avós era frequente uma mulher ter mais de 10 filhos e, apesar de raro, toda a gente conhecia mulheres com mais de 20 filhos.
As pessoas não queria ter tantos filhos mas o único método anticoncepcional que tinham era a contagem dos dias que tinha falhas. Começando no primeiro dia da menstruação, dividiam o ciclo menstrual a meio e tinham que se abster de práticas pecaminosas 5 dias antes e  5 dias depois desse ponto médio. Sempre que falhava "a regra" ou a força de vontade, pumba, ai vinha mais uma alma.
Além do mais lembro-me de em criança ouvir discussões sobre pecados sendo que o que causava uma discussão mais acesa era o "pecado de contar os dias". Ainda cheguei a perguntar que pecado era esse mas o povo desviava sempre. Uma das vezes que me fui confessar ainda cheguei a pensar em referir esse "pecado capital" pois tinha contado quantos dias faltavam para as férias. Mas não cheguei a dizer nada.

Fig. 1 - Tenho estes 4 filhinhos mais os 32 que deixei em casa
Ainda assim havia mulheres que só tinham um filho ou dois.
Rezavam muito, literalmente. Dizia o povo que não queriam dividir a herança.
E havia mulheres que não tinham nenhum, sofriam de "útero seco". Era uma tragédia familiar.
Hoje já ninguém liga a isso.

Vamos aos números.
O índice de fertilidade
Se olharmos à nossa volta, algumas das nossas amigas não têm filhos, a maioria só tem um filho, bastantes têm dois e algumas têm 3 (porque queriam ter filhos dos dois géneros e não o conseguiram à primeira).
Grosso modo, 10% não tem filhos, 60% tem 1 filho, 20% tem 2 filhos e 10% tem 3. Isto dá uma média de 1.3 filhos por mulher.
No inicio dos anos 1960, a fertilidade estava acima dos três filhos por mulher mas decresceu rapidamente tendo estabilizado na década de 1990 nos 1.5 filhos por mulher. Desde então, está a cair 0.02 por ano.
Como  os homens não podem ter filhos e as mulheres têm crianças e "crianços", e nascem ligeiramente mais "crianços" que crianças. Nos últimos 5 anos (2006-2010), nasceram 513407 crianças em Portugal sendo 1.0513 rapazes por cada rapariga (fonte: INE). Assim, são precisos 2.0513 filhos por mulher para haver uma rapariga, repondo a mãe.

Fig. 2 - Número de filhos por mulher, Portugal (fonte: INE) 

O decrescimento da fertilidade é um fenómeno mundial. Apesar de globalmente a população ainda estar a crescer (F = 2.27 em 2009, fonte: BM), na União Europeia o índice já só é de 1.6 e nos países da OCDE está nos 1.8.
Por isso, os novos candidatos a imigrantes para Portugal serão cada vez mais dos países africanos mais pobres.
A natalidade.
É o número concretos de crianças que nascem cada ano.
Para uma população de 10 milhões de portugueses, como cada um de nós dura em média 80 anos, em equilíbrio irão morrer 125 mil portugueses por ano que será o limiar de reposição da população (1.25%).
Claro que a população portuguesa não está em equilíbrio (está a envelhecer) pelo que não morrem exactamente 1.25% de pessoas por ano (em 2010 morreram apenas 1.00%) mas, para se manter a população estável, teriam que morrer e nascer 1.25% pessoas por ano.
Em 2010 nasceram 25 mil crianças a menos que o necessário para repor a população e a natalidade está a diminuir à taxa média de 1.55%/ano.

Fig. 3 - Nascimentos anuais, Portugal (fonte: INE)

Vamos às implicações.
Se as mulheres mantiverem a fertilidade em 1.30, em meados do Sec. XXI haverá 6 milhões de portugueses. No final do Sec. XXI, altura em que já estaremos mortos e em que as criancinhas de hoje estarão com 90 anos, já só haverá 3 milhões de portugueses.
Segundo as estimativas do EuroStat, no nosso rectângulo à beira mar plantado continuará a ter 10 milhões de pessoas só que não serão portugueses de gema.
Ora bolas.
Eu não sou racista mas para que temos umas forças armadas a defender a nossa integridade territorial se tanto dá estarmos nós aqui como outros quaisquer?
Para que queremos polícias se isto tanto pode ser nosso como de outro qualquer?
Vamos abrir já as fronteiras e deixar os nigeranos (os do Niger, país africano onde cada mulher tem mais de 7 filhos e onde o PIB é apenas 1.5% do nosso) virem já para aqui. Coitadinhos que estão a passar fome.

Será função do Estado zelar pela reprodução da população?
Talvez. Temos que pensar nisso e decidir colectivamente se o Estado tem que intervir nisto ou se devemos deixar a portugalidade desaparecer.
Lá se vão o D. Afonso Henriques e o Camões para o esquecimento.

Pergunta uma criança brasileira no fim do Sec. XXI
- Mamãe porque se diz que falamos português se falamos brasileiros e não existe nenhum país que se chame portugau?
- Filhinho é como o mandarim que você aprende na escola. Conhece algum país chamado mandarau? E se fala em meio mundo.
- Pembolim é matraquilho, filho, em mandarim.
- Pastéu de nata vem de Macau e não se chama pastéu de maca. Não há mais nenhum país que se chame natau. Acabou como acabou portugau e mandarau.
- Me lembra ter estudado nas Novas Oportunidades que nesse país, o natau, o povo se chamava peru e cabrito.  Era barra pesada moleque, sequestravam eles, matavam e assavam.
- Avô da Avó de minha mãe esteve no portugau, se chamava Scolari mas acabou. Agora essa terra se chama bancarrotau e se fala lá bancarrotês.
- Acabou. É miséria.  Deixa ele. Esquece bancarrotau.

Fig. 4 - Agora moleque, deixa mamãe tomar uma ducha.

Comparando
Se o Estado gasta 2 mil milhões de euros anualmente em forças armadas para manter a nossa integridade territorial penso que a reposição da população é igualmente importante.
Mas a natalidade é uma decisão de cada mulher. Se a mulher não quer ter filhos, o Estado não pode fazer nada, diz o António Barreto. 
Mas o Estado gasta 2 mil milhões na "segurança interna" e podia deixar isso para o povo, que cada um que se defenda como puder, na lógica do Barreto.
Gasta 8 mil milhões na Educação e também podia deixar isso para cada um. Não quer aprender, problema dele, mantendo a lógica do Barreto.
Gasta 8 mil milhões em Saúde e podia fazer como os de África, trata-te tu se puderes senão compra um caixão, barretavam.
Acredito que o estado português tem que fazer alguma coisa mas não é fácil porque obriga a alterar as mentalidades.

Ver a maternidade com naturalidade.
Os filhos ainda estão muito ligados ao "pecado original", à fornicação, ao divino.
Temos que deitar isso tudo para o lixo e ver a maternidade como um processo de fabrico de portuguesinhos.
Tem um tecnologia muito simples que dominamos na perfeição, não há patentes, direitos de autor, nada, pelo que não existe nenhum entrave tecnológico a que possamos fazer 125 mil crianças por ano.
A matéria prima é broa e o molde são as nossas portuguesas.
É muito mais difícil fazer um automóvel e também os fazemos cá. 

Uma solução ousada para a reprodução da população.
É impossível convencer as mulheres a ter mais filhos. Não vale a pena sequer tentar. É como telefonar ao Sócrates a ver se ele acha bem que Portugal pague as dívidas que ele fez.
Quem quiser que continue a ter um filhito mas, além destes, o Estado vai promover a produção das crianças em falta.

A especialização.
Criar um filho dá muito trabalho. Se acrescentarmos que ambos os país trabalham, torna-se uma missão quase impossível. Levantar, vestir, levar para a escola, ir buscar, levar para a ginastica, o piano, etc., etc. que nunca mais acaba.
O que é preciso é que algumas mulheres se especializem em fazer filhos.
Prevendo que a fertilidade vai estabilizar entre 1.2 e 1.3 filhos por mulher, para termos uma fertilidade média de 2.1 é preciso que 10% das mulheres tenham 10 filhos.
Isto dá uma pequena ideia da enorme dimensão do problema, 10% das mulheres, 10 filhos.

Como podemos obrigar essas mulheres a ter 10 filhos?
Essas mulheres terão que ser "funcionárias públicas" afectas à Segurança Social em que o seu emprego é ter 10 filhos e criá-los. Em troca recebem um salário.
Vamos deixar a lengalenga do milagre da vida, bla, bla, e avançar.
Parece-me simples e eficaz.
A Segurança Social, abre um concurso para "funcionária pública cuja a função de ter e criar 10 filhos", aceita candidaturas, analisa o curriculum e selecciona as candidatas.
Dá-lhes uma formação de como fazer e criar as criancinhas e as candidatas começam logo a trabalhar.
É um emprego para toda a vida.

Vamos ao ordenado.
Terá uma parte fixa, o Indexante dos Apoios Sociais, IAS, (actualmente 419.22€/mês) que será pago até à morte da mulher.
Terá uma parte variável, metade do IAS por cada filho, durante 25 anos.
Isto dará, em termos médios, um custo de 2/3 do IAS por filho, 280€/mês, durante 25 anos.

Por quanto fica cada pessoa?
Para uma taxa de desconto de 2% (que é usada pela Segurança Social para calcular as reformas) cada pessoa fica em 60 mil euros.
Este valor é menor que o despendido pelo Estado a licenciar um jovem.
É mais barato que "importar" um imigrante porque este vai enviar remessas para a sua terra natal.
Amortizando este valor em 50 anos, são 200€/mês (para uma taxa de juro de 3.25%/ano).
Parece-me barato.

Impacto Orçamental.
A totalidade das mulheres necessárias para passar a fertilidade de 1.3 para 2.1 são 6000 por ano.
Isto dará 3500 milhões de Euros por ano, um pouco mais que 2% do PIB.
Acho barato para garantirmos que no fim do Sec. XXI ainda haja Portugal.
Se pensarmos que as empresas públicas dão um prejuizo maior que 1500 milhões de euros por ano para nada; que as forças armadas custam 2000 milhoes de euros e que não temos guerra nenhum, é muito barato.
Garantir que, em vez de haver aqui 30% de portugueses de gema, termos  100% por 2% do PIB, é barato.
Além do mais, será criador de muitos empregos. Os esquerdistas vão gostar desta ideia.
Vai, em equilíbrio, dar empregos a 10% das mulheres, ai uns 300 mil emrpegos, numa actividade muito realizadora.
Como vamos financiar isto.
Cobra-se um "imposto de sustentabilidade demográfica".
Tem que ser.
Pensando bem, realmente a natalidade é uma área em que se justifica a intervenção urgente do Estado mesmo que para isso tenha que se criar um novo imposto.

E quem serão os pais?
Aqui também temos que quebrar tabus.
Porque não leiloar?
Who knows.

Fig. 5 - Não vou licitar. Esta só vai ter filhos com craques do futebol.

Pedro Cosme Costa Vieira

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Como é possível um computador ser um investidor da bolsa?

Ouvindo os esquerdistas, os investimentos em bolsa de valores são algo de terrível,
 um jogo de casino conduzido por especuladores sanguinários que apenas pretendem destruir a economia, explorar os trabalhadores e tirar o sangue às micro-mini-médias empresas.
Só falta dizer, como o Hitler e outros fizeram (e.g., os nossos queridos D. João II e D. Manuel I), que são os judeus que pretendem com os negócios da bolsa explorar toda a raça humana (retirando aos judeus a condição humana). Os esquerdistas fazem isto ao abstracto "capitalista", "especulador" e "violador de crianças".
Naturalmente que nada disso é verdade.
Vou então explicar a função das bolsas de valores e explicar como se deve conduzir um investimento.
Sendo que a boa gestão aproveita do rigor científico, o computador mais não faz que calcular medidas de desempenho e optimizar, de acordo com os objectivos de cada investidor, as características dos investimentos.

As empresas. 
A produção de qualquer bem ou serviço é dividida em várias tarefas. Podemos imaginar que cada trabalhador realiza uma tarefa e interage com os outros trabalhadores no mercado (de bens e serviços em curso de fabrico).
Por exemplo,
1) O agricultor cria animais e vende as peles no mercado;
2) O curtidor compra as peles e curte-as vendendo-as no mercado;
3) Outro trabalhador compra uma pele e corta gáspeas (que é a parte do sapato em couro) que vende no mercado;
5) Outro trabalhador compra gáspeas, costura-as (gaspeia) e vende-as no mercado;
6) Outro trabalhador compra gáspeas e solas já cortadas, monta o sapato e vende-o no mercado.
Mas as transacções têm custos pelo que é mais eficiente organizar algumas das operações em unidades fora do mercado, as empresas.
Podemos entender o lucro do empresário como a sua capacidade em reduzir os custos de transacção.
O conceito de instituição como minimizador do custo de transacção é de Coase (1937), The Nature of the Firm.

O capital.
Um empresa precisa de trabalhadores e de capital. Não é possível produzir sem trabalhadores mas também não é possível produzir sem capital que são máquinas, instalações, veículos, projectos, direitos de uso de patentes, marcas, etc.
É por demais evidente que um taxista não produz nada se não tiver um carro, um agricultor se não tiver terreno, um professor se não tiver conhecimento (que é capital humano).
Como um trabalhador não produz nada se não tiver capital e o capital não produz nada se não tiver trabalhadores, a divisão da produção entre a remuneração do trabalho e do capital não é trivial.
Por exemplo, se um agricultor produz 100€ de milho, que parte deve ficar para remunerar o seu trabalho e que parte deve ir para remunerar o uso do terreno?
Os esquerdistas querem fazer crer que todo o mérito da produção é do trabalho mas há que ser sério e dar valor ao capital pois sem ele não conseguimos produzir nada.
Em Portugal cerca de 2/3 da produção vai para o trabalho e 1/3 vai para o capital.
Antes do 25 de Abril de 1974 a proporção que remunerava o capital era maior. Esta é a principal razão para o crescimento do PIB ter diminuído maior (havia maior incentivo ao investimento).
Cobrar IRC e taxar a poupança, apesar de populista, diminui o incentivo ao investimento que faz diminuir a taxa de crescimento do PIB.

Fig. 1 - Quanto mais se penalizar o capital, menor será a taxa de crescimento do PIB.
Taxa de crescimento do PIB português (fonte: INE)

A governação das empresas.
Apesar de a nossa lei permitir a criação de cooperativas em que a governação é democrática (cada cooperante tem um voto), isso não funciona.

As empresas não podem ser democracias.
 Existe uma pessoa, o patrão, que manda e o resto do povinho obedece.
Quem quiser mandar faz uma empresa e torna-se patrão. Não é criticar mas fazer.
Se eu, esquerdista, digo que os patrões são burros, iletrados, exploradores, que sugam sangue e que Portugal não avança por isso, faço uma empresa e actuo de forma diferente.
A empresa além de diminuir os custos de transacção das pequenas trocas de mercado também diminui os custos de transacção das pequenas decisões se realizadas de forma democrática.
Por esta razão é que um grande empresário não dá um bom governante nem um competente governante dá empresário.
O governo dos empresários resulta em ditadura e a empresa dos democratas resulta em  bancarrota.

Se se lembram do PREC.
Nenhuma das empresa em autogestão vingou. O caminho de todas foi o acumular de dividas enormes (que o Estado, nós, pagamos), a obsolescência dos produtos e a falência total.

Fig. 2- Os portugueses, pá, são todos uns malucos menos eu e aqui os camaradas Otelo, Arménio e Louçã, esses sim ..., não é pá? Ou será ao contrário? Já estou a ficar confundido, pá.

O financiamento das empresas.
O patrão não tem dinheiro para adquirir todo o capital da empresa. Se imaginarmos que cada posto de trabalho obriga a 50000€ de capital, um chafarica com 50 trabalhadores obriga a ter 2.5 milhões de euros de capital. Se a chafarica for industrial, tipo uma fábrica de sapatos, ainda precisa de mais capital, pelo menos 5 milhões. É muito dinheiro para um dos tais empresários de 4.a classe, com o actual 12.o ano das novas oportunidades.
Então é preciso arranjar quem financie a empresa.

Os bancos.
Uma fonte de financiamento são os bancos. As pessoas poupam e depositam os seus recursos nos bancos que, apenas como intermediários, os emprestam aos empresários.
Os bancos não inventam nada nem criam recurso. Apenas fazem, como fazem os hipers: compram crédito às pessoas que poupam (por um preço de compra - a taxa de juro passiva) e vendem esse crédito aos empresários (por um preço de venda - a taxa de juro activa). A margem de preço, o spread, cobre perdas (pois parte da fruta estraga-se, parte dos empresários vai à falência não pagando), custos de funcionamento e, naturalmente, um lucrozito. Ninguém gosta de trabalhar para aquecer.

A bolsa de valores.
As pessoas que poupam podem colocar directamente os seus recursos nas empresas mediante empréstimos (compra de obrigações) ou participando no capital (as cotas e as acções). Não são especuladores nem sanguinários exploradores, nem capitalista. São apenas pessoas que se esforçaram a juntar umas poupanças quando podiam ter gozado a vida e que querem que no futuro os devedores lhes devolvam essas suas poupanças que tanto custaram a juntar.
Como é muito difícil conhecer o verdadeiro estado económico-financeiro de cada empresa, apareceram as bolsas de valores onde as empresas são obrigadas a revelar informação sobre a sua saúde.
Nas bolsas  as pessoas podem trocar entre si títulos de participação (acções) e de dívida (obrigações) de empresas.

Fig. 3 - Há bolsas onde se transaccionam os mais estranhos activos. A da esquerda está cotada a 153437€ e a da direita a 201345€ (mercado normalizado em lotes de 6 meses / 1000 carimbadelas)

Mercado eficiente.
O princípio de que o mercado é eficiente diz que a cotação traduz o verdadeiro valor da empresa dada a informação conhecida no momento.
Por exemplo, ninguém sabe ao certo se o BCP vai falir ou não. Dada a informação existente no dia 11 de Novembro de 2011, o BCP valia 650 milhões de euros (0.10€/acção). Entretanto aconteceram coisas e hoje o BCP vale 1138 milhões de euros (0.175€/acção).
Quanto valerá amanhã? Se nada acontecer, valerá exactamente o mesmo que hoje. 
Mas podem acontecer coisas que levem concluir-se que o seu valor é 0.01€/acção ou 3.00€/acção.
Ninguém sabe.

Como se gere uma carteira de investimento.
A cotação é o valor da empresa. Estar em 500€/acção ou 0.01€/acção nada diz quanto a ser boa ideia comprar ou vender. Por exemplo, a Apple está cotada nos 505USD/acção mas isso não diz que é um melhor negócio comprar acções desta empresa que comprar acções da Vista Alegre que está nos 0.07€/acção.
A gestão faz-se pela rentabilidade, pelo risco e pela correlação com o " mercado" estimados com dados passados.

Primeiro, calculamos a cotação do dia
Pegamos na cotação de cada dia, C, que se obtém, por exemplo, calculando a média entre o máximo e o mínimo do dia.
Por exemplo, se o máximo foi 2.37€ e o mínimo foi 2.29€ vamos usar 2.33€ para a cotação do dia.
Este cálculo pode ser realizado minuto a minuto (como fazem os programas de computador).

Segundo, calculamos a variação do dia
Pegamos na cotação de dois dias seguidos, C, e calculamos a variação relativa
    R(t) = C(t)/C(t-1) - 1.
Por exemplo, se hoje a cotação foi 2.33€ e ontem foi 2.29€ então, a variação foi 1.747%.

Fazemos este cálculo para várias acções do mercado (para podermos diversificar o risco). Os computadores fazem o cálculo para todas as acções de todas as empresas de todos os mercados do mundo (de que têm informação).

A rentabilidade média.
Pegamos na variação diária e calculamos a rentabilidade média que tanto pode ser numa janela de observação (por exemplo, um ano) ou ser uma média exponencial em que o peso das observações diminui com a sua distância no passado, por exemplo, 2%.

    Média(t) = 2%*R(t) + 98%* Média(t-1)

Esta rentabilidade média anualizada dará a remuneração média passada da acção e é uma estimativa da rentabilidade futura do título.

O Risco.
É dado pelo desvio padrão da variação relativa.
Como o risco evolui de minuto para minuto, no cálculo do desvio padrão pode ser usada, igualmente, uma janela de observação ou dar uma ponderação exponencial decrescente às observações do passado, com uma determinada taxa de desconto.

    DP(t) = [ 2%*(R(t)- Média)^2 + 98%*DP(t-1)^2 ]^0.5

A extensão da janela de observação ou a taxa de desconto do peso são parâmetro do investidor. Uma janela mais pequena (ou um desconto maior) traduz investidores mais "nervosos".

A correlação entre as acções.
Se eu tenho acções de uma fabrica de camisolas e de uma fábrica de gelados, se vier calor ganho dinheiro na empresa de gelados (e preço na de camisolas) e se vier frio ganho dinheiro na empresa de camisolas (e perco nas de gelados). Isto chama-se diversificação do risco.
Diz o povo "não por os ovos todos no mesmo cesto".
A correlação é uma medida estatística que se obtém das séries de rentabilidade das diversas empresas que eu analiso. Se tenho 20 empresas (do PSI 20), terei uma matriz 20x20 com 380 números diferentes.

A curva de mercado.
Tendo eu 1€ para investir, eu posso construir carteiras com diferentes proporções de acções (por exemplo, 3% de BCP + 2% de BPI+ 4% de VA + 7% de GALP + etc.) escolhendo, para cada rentabilidade média, a carteira que tem menor risco. Estas carteiras óptimas permite-me traçar uma curva que relaciona a a máxima rentabilidade para cada risco ou o mínimo risco para cada rentabilidade.
De todas as proporções possível, um investidor racional apenas terá uma carteira que esteja na curva de mercado. 
Se um investidor for medroso vai escolher carteiras localizadas na parte do risco baixo e se for afoito vai para a parte do risco elevado.

Fig. 4 - Eu tinha tanto medo de ser largado que me deixei apaixonar por esta mulher.
Meu amor, meu carinho, minha paixão, se quiseres fugir-me avisa para eu poder comprar foguetes.

Os computadores fazem isto automaticamente.
As carteiras estão sempre a fugir da curva de mercado pelo que é preciso corrigi-las comprando e vendendo algumas acções.
O computador apenas faz isto: observa continuamente as cotações, calcula as rentabilidades, o risco e a correlação dos títulos, optimiza as carteiras e corrige a carteira enviando automaticamente ordens de compra e de venda. 
O gestor da carteira tem apenas que dizer alguns parâmetros como a janela de observação e se quer uma carteira de risco baixo ou de risco elevado.
Depois, o computador funciona dia e noite. É um robô.

Fig. 5 - Este activo está sempre a fugir-me da curva do mercado

O problema da possível instabilização do mercado.
Se no mercado houver muito robôs com a mesma estratégia, o mercado pode instabilizar. Podem enviar todos ordens de venda ao mesmo tempo para logo enviarem ordens de compra. Este problema fica diminuído por haver heterogeneidade na janela de observação e no perfil de risco dos investidores.
No entanto, os algoritmos classificados como "Inteligência Artificial" têm evitado que se observem nas bolas este problema teórico.
Os computadores das bolsas de valores também têm algoritmos de detecção deste potencial problema em que, se observado, suspendem o mercado (cortam as comunicações com o exterior).

A extensão deste modelo à gestão das empresas.
Cada cliente, cada produto, cada trabalhador, cada máquina, cada estabelecimento vai ser tratado como um activo em que se mede a rentabilidade, o risco e a correlação com os outros activos. Depois, optimiza-se o desempenho variando a quantidade de cada activo.

Por exemplo, um hipermercado.
Que tem 1000 metros de estantes e, inicialmente, afecta 1 metro a cada produto. Funciona como uma carteira com 1000 activos em que todos têm a mesma proporção.
Depois, com a informação diária das vendas, o computador calcula a rentabilidade individual de cada produto, a sua variabilidade (que é o risco) e a correlação entre os diversos produtos.
Com essa nova informação, o computador calcula as proporções óptimas de exposição e comunica aos repositores quais os produtos em que devem diminuir a área de exposição e os produtos em que devem aumentar a área de exposição.
Automaticamente, para alguns dos produtos a área de exposição vai diminuindo até que o hipermercado deixa de os vender enquanto que, para outros produtos, a área vai aumentando.

Um fornecer tem 0.5 metros de expositor mas quer ter 2 metros durante 1 mês.
O computador vai estudar qual teria que ser a rentabilidade do produto para ter direito a 2 metros de exposição. Como o produto não tem essa rentabilidade/risco, o fornecer tem que baixar o seu preço durante 1 mês (fazer uma promoção) para compensar o valor que está em falta.
O fornecedor faz os seus estudos e decide se quer ou se é para manter os 0.5m até ver. 

Um restaurante
Estão a imaginar um restaurante em que o computador decide a carta?
Que decide, em dias congestionados, quais os clientes a quem dar prioridade?
Que escolhe a mesa para cada cliente?
Que gere as prioridades na cozinha?
Que envia vouchers promocionais personalizados?
Isto é um mundo novo que está a abrir-se na gestão.

A google
O dinheiro da Google vem principalmente de vender palavras e pequenas expressões que vão ser mostradas com destaque nas buscas que as pessoas realizam.
Por exemplo, eu compro a expressão "génio português" por 0.01€. A partir daí, cada vez que alguém tenha na sua expressão de busca "génio português" o meu link aparece no cimo da página com os resultados da busca. Se a pessoa carregar lá, eu pago 0.01€ à Google.
O problema era como vender as palvras e expressões.
A Google contratou um dos maiores micro-economistas da actualidade, o Varian, que deixou a universidade e foi trabalhar para a Google em algoritmos de leilões implementados automaticamente em computador.
Desde que o Varian começou a implementar os leilões automáticos, os lucros da venda de palavras multiplicou-se não sei quantas vezes.

A gestão por computador tem um enorme potencial.
É um mundo que se está a abrir na gestão.

Qualquer dia vou escrever sobre uma solução para a baixa natalidade.
Mas temos que ser criativos e deixar de ver a família com a entendemos hoje. 


Fig. 6 - Uma família portuguesa tipica do Sec. XXI - obesos.
Pedro Cosme Costa Vieira

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A contracção do PIB, o desemprego e o investimento

O INE revelou os dados com o decrescimento do PIB em 2011.
Em termos médios, em 2011 o PIB diminuiu 1.5%;
No 4T de 2011, em termos homólogos, o PIB diminuiu 2.7%;
No 4T de 2011, em termos trimestrais em cadeia, o PIB diminuiu 1.30% que, anualizado, são 5.30%.
Mas afinal porque e quanto contraiu o PIB?

O que é o PIB.
O Produto Interno Bruto quantifica tudo o que se produz durante um ano mais a depreciação do capital. Por isso é que se chama Bruto.
Em termos aproximados, em cada 100€ de PIB, 18€ são a depreciação do capital, produzindo-se 82€.

O total produzido é o Produto Interno Líquido, PIL.
O total produzido distribue-se pelos salários (52€) e pelos juros, dividendos e propriedade intelectual (30€).
O rendimento disponível é menor (que 82€) porque uma parte (40€) vai para impostos em troca da Saúde, Educação, Segurança, Vias de Comunicação, etc. fornecidos pelo Estado.
Por exemplo, o PIB per capita português em 2011 foi de 15500€. Então, por cada português produziram-se 12500€ e houve uma depreciação de 3000€ de capital (aproximadamente) que foi parcialmente reposto com o investimento.
Normalmente os analistas esquecem a depreciação do capital porque não interessa (por exemplo, os sindicatos querem anunciar que os salários são 50% do PIB quando são 60% do total produzido) ou porque é difícil o cálculo da taxa de depreciação (a OCDE adopta 10% do total contabilizado como capital). 
Como não é possível medir exactamente tudo o que se produz, o PIB é uma estatística aproximada da realidade. Além do mais, os bens e serviços produzidos vão-se alterando ao longo do tempo e são diferentes de país para país (e até de região para região) o que dificulta a sua leitura. 

Para que serve o PIB.
No fundo o que os economistas querem quantificar é o grau de felicidade das pessoas. 
O PIB é, juntamente com outros indicadores, uma medida dessa qualidade de vida. Outras medidas importantes são, por exemplo, a esperança média de vida, a mortalidade infantil e os anos de escolaridade.
Sendo que, por um lado, o PIB é medido com erro e, por outro lado, é apenas um indicador da qualidade de vida, deve ser lido com cautela.

Por exemplo
O Banco Mundial indica que Portugal tem um PIB per capita de 11750USD e Moçambique de 390USD (ano 2010).
O PIB pc português é 30 vezes o PIB pc moçambicano. Naturalmente que um português médio vive melhor que um moçambicano médio mas não vive 30 vezes melhor.
Bem, também não é fácil dizer o que é viver 30 vezes melhor. Como se quantifica em termos de viver bem o facto de, em média, um moçambicano durar 40 anos e um português 80 anos? Não sei.
Mas, se o salário médio em Portugal é próximo de 900€/mês então, em Moçambique o salário médio será próximo de 30€/mês.
Para nós é inimaginável como se pode viver com 30€/mês mas é possível, mas só duram 40 anos.
    Não têm casa logo, poupam na prestação, electricidade, água, IMI, condomínio, jardineiro, etc.
    Não têm carro logo, poupam na gasolina, seguro, imposto de circulação, etc.
    Andam a pé logo, poupam em transportes, ginásio, etc.
    Não comem carne nem peixe logo poupam em análises ao colesterol.
    Morrem mal lhes dá um doençazita logo, poupam em medicamentos, meios de diagnóstico e médicos.
Para quem tem 1€/dia de rendimento, um quilinho de milho (que custa uns 0.10€) dá um manjar mais saborosos que, para quem tem 30€/dia, uma cabrito (que custa 11€/kg no Intermarché).

Fig. 1 - Ri-te, ri-te que daqui a nada estamos todos a assar no forno.

Vamos ao crescimento português.
Há crescimento do PIB principalmente por três razões.
    1. Aumenta o número de trabalhadores (ou o número de horas que cada pessoa trabalha);
    2. Aumenta a quantidade de capital;
    3. Há progresso técnico (Pensam os esquerdistas que cai do Céu).
Vou pegar nos dados e estimar quanto cresce a economia portuguesa quando o número de trabalhadores e de capital são fixos.
Pegando em dados do INE quanto ao número de activos (trabalhadores menos os desempregados), o PIB do Banco Mundial e verificando que o capital se tem mantido constante nos últimos anos, estimo que o progresso tecnológico faz o PIB português aumentar 0.80%/ano (ver. Fig. 2) e que é uma tendência muito regular.

Fig. 2 - Crescimento do PIB por pessoa a trabalhar, € (fonte: WB e INE)

Será que 0.80%/ano é um bom crescimento?
Não é nada de especial mas é bom. Sem fazermos nada de especial, no final do SEC XXI um trabalhador em Portugal já produzirá o dobro do que produz actualmente. De uma geração para a outra (35 anos), haverá um aumento de 1/3 na produtividade. Estes números são parecidos com os dos países desenvolvidos como a Alemanha, Inglaterra, USA ou Japão. São números próprios de um país desenvolvido (que somos).
Por estranho que possa parecer, estes 0.80%/ano são superiores ao observado na China ou Índia  onde o crescimento se deve à muita poupança e investimento.

Porque será que agora o PIB está a diminuir?
Não é por causa da diminuição do consumo nem nada disso. Isto é uma lengalenga que os keynesianos contam para embalar o boi antes de lhe mandarem a marretada. O PIB diminui porque se produz menos.
Em termos naturais, o PIB aumentaria 0.8% de 2010 para 2011 mas reduzir por causa dos outros factores, da redução do capital (investimento menor que a depreciação) e do número de trabalhadores activos (aumento do desemprego).

1. O aumento do desemprego.
É a causa e não o efeito da queda do PIB. Quanto menos pessoas trabalharem ou quanto menos horas cada pessoa trabalhar, menor será a quantidade produzida.
Como a produção se divide 2/3 para o trabalho e 1/3 para o capital então, se a quantidade de pessoas a trabalhar reduzir em 1%, o PIB reduz-se em 0.67%. Como o desemprego tem estado continuamente a aumentar, o PIB é puxado para baixo. É só advinhar quanto vai aumentar o desemprego e fica-se logo a saber quanto vai cair o PIB.
Verificar-se-á uma redução do desemprego quando se observar que o PIB aumentou mais de 0.8%/ano que é a actual taxa potencial de crescimento do PIB portugês.
Se o desemprego aumentar 3 pontos percentuais o crescimento do PIB ficará, em tendência, em
     Crescimento = 0.8  - 3*0,67  = -1.2%/ano 

2. A diminuição do capital.
Em Portugal existe aproximadamente 50000€ de capital por cada pessoa a trabalhar (depreciando 5000€/ano). Se o capital aumentar, a capacidade da pessoa produzir também aumenta. Como a produção se divide-se 2/3 para o trabalho e 1/3 para o capital, um aumento do capital de 1% induz um aumento do PIB em 0.33%.
Actualmente em Portugal a quantidade de capital está a diminuir porque a depreciação é ligeiramente superior ao investimento (a poupança e o investimento por trabalhador estão inferiores a 5000€/ano). Então, o PIB é puxado para baixo.
Se o investimento reduzir 3.3% do PIB, o capital reduz-se em 2% (é 170% do PIB) o que induz uma queda de 0.66% no PIB.
     Crescimento = 0.8  - 3*0,67  - 2*0.33 = -1.9%/ano 

Esta é a previsão dos modelos macroeconómicos.
Uma pessoa pega nesta duas variaveizitas, faz uma conta de multiplicar e outra de somar e depois mete isto num grande relatório para pensarem que é uma coisa muito complicada. É complicado porque tem muita teoria por tras da conta mas o resultado final não é nada parecido com a lengalenga que se ouve por ai.
Reparem que quem for keynesiano não consegue fazer esta conta. É assim parecido com os crentes nas fadas madrinhas que não acrediram que os raios são faiscas eléctricas.

As previsões dos esquerdistas.
É o deus não sei que que quer castigar não sei quem porque fez não sei o quê, bla bla bla bla, o patronato, o grande capital, o especular, tipo discurso do Louçã ou deste novo cromo da CGTP-IN, o Arménio, que anuncia terem estado 300 mil pessoas num espaço onde só cabem, à pinha, 30 mil pessoas.
A praça do comércio tem 26 mil m2 (160mx160m), pelo que era necessário estarem 10 pessoas/m2 o que é impossível porque uma pessoa ombro com ombro, barriga com costas ocupa 0.5m2 e havia lá muito espaço vazio.
Não estavam na praça do comércio nem 10 mil pessoas.
Fig. 3 - Na Praça do Comércio cabem, no máximo, 30 mil pessoas mas o Arménio meteu lá 300 mil.
Precisamos de mais milagres destes a ver se Portugal arranca.

Como poderíamos fazer crescer o PIB?
1. Trabalhar mais horas. O aumento de 1h/dia, 12.5% do tempo laboral, tem potencial para aumentar o PIB em 8%. Isto custa.

2. Aumentar a poupança (e diminuir o consumo). Só assim as contas bancárias podem aumentar e os bancos ficarem com recursos para emprestar às empresas. Não se pode pedir aos banco que emprestem recursos às empresas sem o povinho poupar e meter lá dinheiro. Isso cai do Céu nos bancos?
É melhor a tese que pregam os esquerdistas, a sopa da pedra na versão financeira: mete-se um pedra num cofre de um banco, agita-se e resultam milhares de milhões de e de crédito às micro-mini-medias empresas mais uma pedra.

Diria que tem lógica.
É a lógica da equivalência entre afirmações falsas
"estavam 300mil na praça do comércio" é equivalente a "um porco tem asas e voa"
"um porco tem asas e voa" é equivalente a "mete-se uma pedra no cofre e este enche-se de dinheiro"
Então
"mete-se uma pedra no cofre e este enche-se de dinheiro"  é equivalente a "estavam 300mil na praça do comércio"
Vou experimentar.

3. Diminuir o desemprego. Mas isto obriga a diminuir os custos do trabalho. Por um lado, trabalhar mais horas irá ter este efeito mas não será suficiente porque cada empregado vai trabalhar mais. Então, será ainda preciso reduzir os salários nominais.
A Alemanha reduziu os custos do trabalho em 15% entre 2000 e 2010 e hoje tem uma situação económica invejável. Temos que seguir o exemplo e rapidamente.

E a flexibilização do mercado de trabalho?
Provavelmente vai fazer com que a tendência de crescimento passe de 0.80%/ano para 1.00%/ano mas não vai resolver nenhum dos problemas actuais. É como aconselhar uma pessoa que está em paragem cardíaca a fazer duas horas de ginásio por semana.
Não temos tempo para que isto faça efeito.

Fig. 4 - O pânico de 30/31 de Janeiro (em que atingiu 18.289%/ano) já passou mas a tendência de aumento continua. Taxa de juro implícita da dívida pública portuguesa a 10 anos (fonte: bloomberg)

Vamos aos números.
A taxa de variação em cadeia (- 5.3% anualizada).
Há trimestres onde se produz menos (o 3T por causa das férias) e outros onde se produz mais.
Um exemplo exagerado é o número de banhistas nas praias que reduz 80% de Agosto para Setembro.
Por isso, a comparação do 3T 2011 com o 4T2011 (uma contracção de 1.3%, 5.3%/ano) não é uma boa medida para ver a evolução do PIB. Se se calculasse a sazonalidade média e se corrigisse esta observações desse efeito, já se poderia utilizar mas o cálculo da sazonalidade tem problemas.

A taxa de variação homóloga (-2.7%).
Corrigir directamente a sazonalidade. Ao comparar o número de banhista em Agosto de 2011 com Agosto de 2010 dá um melhor ideia da evolução do número de banhista ao longo do ano. Depois, comparamos Setembro com Setembro.
Comparar 4T de 2011 com 4T de 2010 corta o efeito das alterações ao longo do ano mais ainda não é a melhor medida para a evolução do PIB (-2.7%).
Por exemplo, o número de banhista em termos homólogos de Agosto pode diminuir porque esteve frio e os banhistas passaram para Setembro que aumentou em termos homólogos.

A taxa de variação homóloga média (-1,5%).
A sazonalidade já está corrigida e agora corrigem-se problemas de contabilização e transferências de uns trimestres para os outros.
Imagine que, de repente, o mês em que recebe o subsídio de férias avançava. Então, haveria um mês em que o seu rendimento diminuía para metade mas que seria contrabalançado por um aumento para o dobro no mês seguinte.
Assim, a média, é a melhor medida para calcular quanto o PIB varia de um ano para o outro.
Então, temos que dar como bom que em 2011 o total produzido em Portugal diminuiu 1.5%.

E como se relacionam os diversos valores?
De facto, a evolução do PIB é pegar em tudo que se produziu em 2011 e comparar com tudo o que se produziu em 2010 mas o melhor indicador disso é a taxa de variação homóloga média.
A taxa de variação homologa e a trimestral em cadeia têm que ser lidos com muita cautela. Podemos dizer que a variação homóloga no 4T 2011 ser muito superior à média (2.7% contra 1.5%) é um mau indicio. Também a contracção anualizada de 5.3% no trimestre não são boas notícias. Juntando o facto do desemprego estar a acelerar, estes número são muito maus podendo estar no horizonte uma contracção do PIB acima dos 5% para 2012.

Fig. 5 - O desemprego não para se aumentar e cada vez mais depressa (fonte: INE)

Mas há boas notícias.
Estive a ler um trabalho que foi submetido ao Wolson Prize por uma equipa de peritos, economistas, advogados, contabilistas do Adam Smith Institute e a minha está melhor.
Tiveram um trabalhão, inventariando todas as bancarrotas e intervenções do FMI desde 1970, as implicações legais de mil e uma coisas mas a sua proposta é uma replicação do que já aconteceu.
Escreveram 100 páginas com as coisas terríveis que ouvimos nos média sobre o caso de alguém sair da Zona Euro mas tudo coisas do passado.
E agora precisamos de uma solução nova.
Dos mais de duzentas submissões (onde dizem haver um Prémio Nobel) já só preciso de me preocupar com mais de duzentas menos 1.

Fig. 6 - Eu sei que o teu amor é sincero não tendo nada a ver com eu ter ganho os 300000€. E que tenha, quero lá saber.

Pedro Cosme Costa Vieira

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