Cortar na despesa - a educação
Depois das transferências sociais e dos gastos em saúde, a educação é a rubrica orçamental que absorve mais recursos públicos
Será que o OE 2013 é exequível?
Na discussão em torno da actual crise económica portuguesa há duas perguntas que precisam ser respondidas. A primeira é se o OE2013 é exequível e a segunda é se existe uma alternativa à política de consolidação orçamental actualmente levada a cabo pelo governo português (a denominada austeridade)
Cortar na despesa - a Segurança Social
Analisando os OE2012 e OE2013, verifica-se que a consolidação real efectuada no período 2010-2013 de 10.0MM€ resulta de uma redução na despesa de 17.4MM€ (que compensa uma quebra na receita de 7.4MM€)
Será o "outro caminho" diferente da "austeridade"?
Vou mostrar que Portugal não vive em austeridade e que a "política de austeridade" é exactamente o mesmo que "a política do crescimento". Finalmente, mostrarei que o endividamento externo leva ao empobrecimento
Quanto custará Portugal sair do Euro?
Se saírmos da Zona Euro, o rendimento mantém-se mas as dívidas aumentam 25%. Actualmente ganhamos 1000 e pagamos uma prestação de 250.Se ficarmos na Zona Euro, passamos a ganhar 750 e continuamos a pagar 250.Se voltarmos ao Escudo, continuamos a ganhar 1000 e passamos a pagar 333. Isto é perfeitamente equivalente pelo que não haverá qualquer perda.
Porque os salários são altos nuns países e noutros não?
Quando eu (e outras pessoas com o António Borges) afirmo que "os salários em Portugal têm que descer para ganharmos competitividade" e assim melhorar as nossas contas externas (e o nosso nível de vida), os opositores a esta necessidade perguntam-me até quanto terão os salários que descer
O buraco dos transportes públicos
A subida dos transportes em 15%, 30% ou 50% custa muito mas vai melhorar a vida dos portugueses. De facto, o custo tem que ser pago pelos portugueses, e a política de preços baixos apenas serviu para ter uma rede de transportes exagerada e socialmente mal desenhadas.
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
Será que o OE2013 é exequível?
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Cortar na despesa - a Segurança Social
Nos últimos dias tem-se falado muito da proposta do Orçamento de Estado para 2013 e a discussão é em torno do tipo de consolidação: se há-se ser do lado da receita ou da despesa.
Toda a gente diz, inclusive o governo, que o défice está a ser controlado a 80% pelo aumento da receita quando, analisando os OE2012 e OE2013, verifica-se que a consolidação real efectuada no período 2010-2013 de 10.0MM€ resulta de uma redução na despesa de 17.4MM€ (que compensa uma quebra na receita de 7.4MM€).
Se a análise for em preços correntes,
há uma consolidação de 9.3 MM€ à custa de um corte na despesa de 10.6MM€ (e uma redução da receita de 1.3MM€). Neste caso a consolidação é 114% do lado da despesa.
Se a análise for em preços constantes,
há uma consolidação de 10.6MM€ (a preços de 2010) à custa de um corte na despesa de 17.4MM€ (e uma redução da receita de 7.4MM€). Nestes caso a consolidação é 174% do lado da despesa.
A carga fiscal reduziu-se em 1.8%
A receita fiscal prevê-se que em 2013 e em termos correntes aumente 7.6% relativamente a 2010 mas, considerando a inflação, há uma ligeira diminuição.
A dinastia Guterres + Sócrates fez engordar a despesa pública
que em 2010 atingiu um máximo histórico de 88.7MM€ e um défice de 16.8MM€.
Como o esforço de consolidação começou nesse patamar (com os PEC1, PEC2 e PEC3), devemos analisar a evolução das contas públicas tendo esse ano como referência (ver, Quadro 1).
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(€ de 2010) 71.8 74.2 63.2 64.5 -10.3%
R. Fiscal (€ correntes) 38.3 40.1 38.6 41.2 +7.6%
(€ de 2010) 38.3 38.7 36.2 37.3 -1.8%
-----------------------------------------------------------------------------------------------
Défice (€ correntes) 16.8 7.5 8.4 7.5 -40.0%
(€ de 2010) 16.8 7.3 7.8 6.8 -59.5%
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Quadro 1 - Evolução da despesa, receita e défice públicos (dados: OE2012 e OE2013, E9€)
* Previsão / Estes valores incluem em 2011 as receitas extraordinárias.
Mas toda a gente fala que é preciso reduzir ainda mais a despesa pública.
| 2013 | 2014 | 2015 | 2023 | 2024 | |
| 500 € | 500 € | 500 € | ... | 500 € | 500 € |
| 1000 € | 1000 € | 1000 € | ... | 1000 € | 1000 € |
| 1500 € | 1462 € | 1425 € | ... | 1162 € | 1124 € |
| 2000 € | 1932 € | 1864 € | ... | 1386 € | 1318 € |
| 2500 € | 2399 € | 2299 € | ... | 1594 € | 1494 € |
| 3000 € | 2864 € | 2729 € | ... | 1779 € | 1644 € |
| 4000 € | 3786 € | 3572 € | ... | 2072 € | 1858 € |
| 5000 € | 4698 € | 4396 € | ... | 2280 € | 1978 € |
| 10000 € | 9209 € | 8419 € | ... | 2884 € | 2093 € |
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
A discussão da TSU esteve sempre errada
Por outro lado, também foi uma discussão errada porque não tornou claro que a TSU existe para a Segurança Social poder pagar as reformas, subsídio de desemprego e outras prestaçõess sociais.
Mas não avançou.
Como, maioritariamente, o povo português (patrões, trabalhadores e outros) quer viver na ilusão de que o salário nunca diminuirá, custe o que custar então, vamos deixar o povo viver nessa ilusão.
A consequencia será cada político puxar para si os louros de ser o pai da atordoada do "outro caminho" e da "outra política" enquanto a taxa de desemprego vai aumentando e país vai empobrecendo rapidamente.
Mas eu tenho dúvida que fosse mesmo para avançar.
O Passos engana-se e recua ou engana-nos e avança?
Questão 1 - Os salários ajustam a economia.
Como tentei mostrar no poste Porque os salários são altos nuns países e noutros não, para corrigir a economia de um país é necessário um constante ajustamento dos salários relativamente ao exterior.
Se a nossa economia já tinha um salário demasiadamente alto (que se traduzi no défice da balança corrente), quando veio a crise, a subida das taxas de juro tornou as nossas empresas ainda menos competitivas o que obriga a uma descida ainda maior dos salários.
Normalmente esse ajustamento é rápido e conseguido mantendo o salário nominal mas desvalorizando a moeda.
Como Portugal pertence à Zona Euro, não tem o mecanismo da desvalorização ficando obrigado a ajustar o salário em termos nominais ou aguardar muitos anos com desemprego elevado.
Toda a evidencia empírica (de que a Islândia é um exemplo) indica que diminuir os salários reais diminui o desemprego. Por isso, qualquer teoria que diga o contrário estará errada.
Mas também não existe nenhuma teoria que diga isso.
Vou apresentar 2 teorias do mercado do trabalho que são discutidos na praça.
Teoria 1 - A produtividade é independente do salário
Nesta teoria, o trabalho é um bem homogéneo (todos os trabalhadores são iguais) e o salário não influencia o empenho (a produtividade) do trabalhador.
O empenho do trabalhador é sempre constante e independente do salário.
Curva da oferta.
Quanto maior o salário, mais pessoas querem trabalhar.
Como as pessoas trabalham para poderem comprar bens e serviços, se o salário aumentar então, mais pessoas quererão trabalhar (passam de inactivas a activas) e as que já trabalham quererão trabalhar mais horas.
Curva da procura.
Quanto maior o salário, menos os patrões querem contratar trabalhadores.
As pessoas são contratadas pelos patrões porque conseguem criar mais valor que o custo do seu trabalho. Se o salário for maior, menos rentáveis se tornarão os trabalhadores ficando reservados para as actividades mais rentáveis. Então, os patrões quererão contratar menos trabalhadores.
O equilíbrio de mercado.
O salário vai evoluir até que todas as pessoas que querem trabalhar sejam contratadas.
Se o salário for muito elevado (estiver acima do valor de equilíbrio), haverá muitas pessoas que querem trabalhar e poucos patrões a quererem trabalhadores pelo que haverá muito desemprego. Neste caso, a tendência será a diminuição dos salários (os desempregados vão-se oferecer para trabalhar a um salário mais baixo).
Se o salário for muito baixo (estiver abaixo do valor de equilíbrio), haverá muitos patrões que querem contratar trabalhadores mas ninguém aceita os empregos. Neste caso, a tendência será o aumento dos salários (os patrões vão oferecer salários mais elevados para conseguir roubar os trabalhadores aos concorrentes).
Teoria 2 - A produtividade aumenta com o salário
Nesta teoria, o trabalho continua a ser um bem homogéneo (todos os trabalhadores são iguais) mas os trabalhadores que recebem um salário superior esforçam-se mais produzindo mais.
Esta teoria não altera o resultado de que o salário equilibra o mercado de trabalho porque o aumento da produção é menos que proporcional ao aumento do salário (a elasticidade é menor que 1).
No caso da Teoria 1, a elasticidade é zero e esta teoria generaliza o modelo considerando um valor maior que zero.
É evidente que a elasticidade esforço/salário é menor que 1 porque, caso contrário, os salários e a produtividade seriam infinitos.
O equilíbrio do Mercado de Trabalho acontece para um desemprego de 6%
O equilíbrio do mercado de trabalho (quando o total de pessoas querem trabalho é igual ao total de empregados pretendidos pelos patrões) não acontece quando a taxa de desemprego é zero porque existem erros metodológicos na determinação da taxa de desemprego.
Desempregado é aquele que diz estar desempregado
Sendo a Taxa de Desemprego obtida pela resposta das pessoas que não trabalham quanto à sua vontade de trabalhar, é uma medida enviesada para cima por dois "defeitos" metodológicos:
A) Algumas pessoas que não trabalham dizem estar à procura de emprego mas apenas para continuar a receber os subsídios da SS. Assim, à uma excesso no reporte de "desempregados".
B) Ninguém pergunta a quem está a trabalhar se queria trabalhar menos horas que as que trabalha (mediria o excesso de procura).
Motivado por estes dois efeitos, a taxa de desemprego é sempre positiva e o equilíbrio do mercado verifica-se para uma taxa de desemprego próxima dos 6%. É a Taxa de Desemprego Natural.
A Islândia é o melhor exemplo para demonstrar que a descida dos salários combate o desemprego.
A Islândia foi apanhada pela Crise do Sub-Prime tendo bancarrotado em meados de 2008.
Apesar de a cotação da Koroa ser fixa relativamente ao Euro (131Kr/Euro), o banco central islandês teve que desligar-se deste objectivo porque esgotou as reservas cambiais.
Comparando com a nossa situação (dentro do Euro), foi a rotura de liquidez do nosso sistema bancário que precisou de uma injecção massiva de liquidez (60MM€) por parte do BCE.
A consequente desvalorização da moeda em 50% (para 260Kr/Euro) arrastou os salários reais que, num espaço de 6 meses, diminuíram 45% (ver, Fig. 2).
Desde então, os salários, inflação (está nos 2%/ano) e a cotação do Coroa tem-se mantido estáveis nos 260Kr/€.
Como os preços, em Euros, caíram cerca de 25%, a perda do poder de compra dos salários ronda os 30%.
Hoje, em média, um trabalhador islandês tem 70% do poder de compra que tinha na primeira metade de 2008.
Como terá evoluído o desemprego islandês?
Com uma crise com uma amplitude semelhante à nossa e à grega, onde os salários se mantêm estáveis, seria de pensar que o desemprego aumentasse até atingir os 25% que se observa na Grécia e que, mais mês, menos mês, se vai observar em Portugal.
Mas não.
O desemprego subiu rapidamente para 9% mas não passou daí tendo já diminuído para os 4.9% da população activa (ver Fig. 3).
Como foi o ajustamento das contas públicas?
Em Portugal o ajustamento tem sido muito mais suave que na Islândia
2009 2010 2011 2012 2013*
Portugal 10.2 9.8 7.7 6.1 4.5
Islândia 13.5 9.3 8.0 2.3 0.0
(Dados: Tradingeconomics e memória do autor)
A Islândia teve uma austeridade das contas públicas 75% maior que a que estamos a viver em Portugal.
Desde 2010 está a ajustar uma média de 3.1pp/ano enquanto que em Portugal estamos a ajustar 1.8pp/ano.
Senão, não se chamava crise.
Mas, até agora, o PIB islandês contraiu cerca de 15% pelo que não é verdade que para combater o desemprego seja preciso que a economia cresça.
Assim, o processo de ajustamento islandês também foi um processo de empobrecimento.
Porque existe a TSU?
Em tese, o sistema de protecção social tanto pode voluntário como compulsivo e ser gerido por privados, por um misto privados/Estado ou integralmente pelo Estado.
O problema da sustentabilidade económica.
Dizer que é possível dar apoio social sem o sistema cobrar TSU é a mais pura das demagogias. Mas muito povo acredita nisso.
Então, para a SS dar resposta a todas as protecções que o povo português pretende, a TSU teria que ser na ordem dos 45% dos salários pagos pelos patrões.
Mas a TSU é apenas 34.75% pelo que é necessário ir buscar 17MM€ aos outros impostos para cobrir o buraco do Estado Social.
E não interessa se quem paga a TSU é o trabalhador ou o empregador pois vai-se sempre traduzir num aumento do custo do trabalho e uma redução do salário líquido que trabalhador recebe.
Se a TSU se transferir totalmente do empregador para o patrão ou vice-versa, vai dar exactamente ao mesmo.
Terá a TSU um efeito positivo no bem-estar?
Apesar do efeito negativo nos custos, no salário e no emprego, a TSU vai financiar o sistema de segurança social que tem um efeito positivo, diz a maioria do povo, sobre o bem-estar.
O dinheiro que pagamos via TSU não é deitado fora mas retorna às pessoas na forma de prestações sociais (reformas, sub. de desemprego, etc.) e assistência médica e medicamentosa.
Como o efeito das alterações das políticas da SS só se fazem sentir no futuro, pode-se prometer tudo o que se quiser (o tal "outro caminho") porque serão os futuros governos a ter que resolver o problema.
Como disse Keynes
nos anos 1940 sobre o endividamento público apenas atirar os problemas para o Futuro, no "futuro estaremos todos mortos".
E realmente, já estão todos mortos.
O problema é que o futuro do passado já chegou e é o presente de hoje.
Nós vivemos exactamente no Futuro de Keynes e temos a factura que eles nos enviou do passado para pagar.
O "outro caminho" é mandar a factura mais para o futuro. O problema é que já ninguém acredita na capacidade dos nossos descendentes poderem pagar a factura.
E já mostrei que a descida dos custos do trabalho fazem diminuir o desemprego.
A Islândia reduziu rapidamente (em menos de 6 meses) os salários em 45% e o mercado de trabalho ajustou rapidamente.
Em Portugal é necessário reduzir os salários entre 15% e 20% mas, não havendo redução dos salários nominais (em valor), o ajustamento vai ser muito mais lento e doloroso.
Para reduzir os salários 15%, serão precisos 10 anos.
Para um ajustamento metade do conseguido na Islândia em 6 meses, vão ser precisos 10 anos.
Durante estes 10 anos do ajustamento as nossas empresas vão ter prejuízo vendo-se obrigadas a despedir alguns dos seus trabalhadores e, em casos mais grave, a falir completamente.
Este ajustamento vai ser acompanhado por taxas de desemprego elevadíssimas e contracção do PIB maior que na Islândia (pois menos pessoas ficam a trabalhar).
A TSU permitiria um ajustamentozinho.
A transferência da TSU implicava uma redução dos custos do trabalho em 5% pelo que anteciparia o ajustamento do mercado em cerca de 3 anos.
Mas, quando o desemprego atingisse outra vez um valor baixo, a TSU passaria outra vez dos empregados para os patrões.
Passaria a funcionar como uma taxa de câmbio.
A TSU ainda não morreu: a transferência ser voluntária.
Para acabar com o Contrato Colectivo de Trabalho sem alterar a lei, o governo pode flexibilizar a divisão da TSU entre o patrão e o trabalhador.
Assim, permitindo que, como nos "recibos verdes", o trabalhador aceitasse pagar a maior parte da TSU então, passaria a haver uma margem de manobra para que as empresas em dificuldades, dentro da lei, pudessem ajustar os salários.
Será que um bom governo faz a diferença?
A Olga (a minha colaboradora doméstica) anda a aprender português pelo que procura falar comigo um pouco.
Hoje disse-me que a Ucrânia vai de mal a pior. Que já foram tão ricos como a Polónia e que, agora, a diferença é total.
Em 1991 o poder de compra polaco e ucraniano era de 45% do português e hoje o polaco é 90% e o ucraniano 30%.
Parece que os políticos ucranianos (e os nossos) se perdem em lutas internas e em promessas que se vão tornar numa superpotência enquanto que os polacos se dedicam a elucidar o povo no sentido da boa governação.
Finalmente, sou citado pelo José Rodrigues dos Santos
O meu editor enviou-me uma foto de uma página do livro A mão do Diabo do JRS que será lançado amanhã e no qual sou citado.
Não está mal para um anónimo qualquer como eu.
Pedro Cosme Costa Vieira
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Porque os salários são altos nuns países e noutros não?
Quando eu (e outras pessoas com o António Borges) afirmo que "os salários em Portugal têm que descer para ganharmos competitividade" e assim melhorar as nossas contas externas (e o nosso nível de vida), os opositores a esta necessidade perguntam-me até quanto terão os salários que descer.
Tenho que parafrasear o António Borges:
- Que os [professores de economia] ... são completamente ignorantes, não passariam do primeiro ano do meu curso na faculdade, isso não tenham dúvidas
- O grande problema do país são as elites e não o povo português, que acredita no seu país, revelando uma confiança extraordinária.
Por termos tido, nos 15 anos do guterrismo-socratismo, elites dessas a governar o nosso país é que estamos na bancarrota.
Devem pensar que ainda está no nível do 25-de-Abril de 1974 em que o Mao-Tsé-Tsé tentava vender para cá o seu modelo moribundo e que morreu, definitivamente, em 1976.
Atendendo a que os preços em Portugal são 52% mais altos que na China (por causa dos preços dos bens não transaccionáveis, cálculo do Banco Mundial para 2011), o salário médio chinês compara-se a um salário português de 553€/mês.
São baixos mas já são comparáveis com o salário médio que um trabalhador recebe no Norte de Portugal (850€/mês) onde a indústria exportadora está mais sujeita à concorrência internacional (os têxteis, vestuário e calçado).
Sim, os nossos salários vão ficar iguais aos chineses.
Mas porque os salários na China têm crescido (cambiados para USD) a uma taxa média de 15%/ano e os nossos estão estagnados.
Em 1990 o SM chinês (26€/mês) era de 15% do nosso Salário Mínimo (175€/mês) e em 2013 já vai atingir os 100% (485€/mês).
E o salário médio chinês em paridade de poder de compra vai atingir o salário médio do Norte de Portugal em meados de 2015.
Na Índia os salários são muito inferiores
É muito engraçado os meus amigos não perguntarem pela Índia nem pela Guiné-Bissau quando nestes países os salários são muito mais baixos que na China (o salário mínimo na Índia anda nos 70€/mês e na Guiné-Bissau nos 50€/mês, fonte: paycheck).
| 1990 | 1995 | 2000 | 2005 | 2010 | 2011 | 2013* | |
| S. Médio CHN | 26 € | 37 € | 62 € | 121 € | 303 € | 364 € | 485 € |
| S. Mínimo PRT | 175 € | 259 € | 318 € | 375 € | 475 € | 485 € | 485 € |
| Racio | 15% | 14% | 19% | 32% | 64% | 75% | 100% |
| Bem | Portugal | Alemanha | China |
| A | 100 | 40 | 160 |
| B | 100 | 50 | 150 |
| C | 100 | 60 | 140 |
| D | 100 | 70 | 130 |
| E | 100 | 80 | 120 |
| F | 100 | 90 | 110 |
| Horas | 2000 | 1500 | 2500 |
| Bem | Portugal | Alemanha | China | total |
| A | 3,33 | 6,25 | 2,60 | 12,18 |
| B | 3,33 | 5,00 | 2,78 | 11,11 |
| C | 3,33 | 4,17 | 2,98 | 10,48 |
| D | 3,33 | 3,57 | 3,21 | 10,11 |
| E | 3,33 | 3,13 | 3,47 | 9,93 |
| F | 3,33 | 2,78 | 3,79 | 9,90 |
| Bem-estar | 1372 | 4037 | 908 |
No país menos eficiente (a China) a qualidade de vida é menor e no mais eficiente (Alemanha) é maior.
Aparentemente os países ineficiente não vão ser capazes de competir no mercado internacional com o país mais eficiente.
O salário é a variável que ajusta a produtividade.
David Ricardo resolveu em 1817 o problema conceptual de Smith chamando à atenção para o facto de os salários serem mais elevados nos países mais competitivos (em termos de tempo de produção).
Lá se foi a teoria do Marx do "valor trabalho". Incrivel que hoje ter colegas, por exemplo, o Pimenta, que acredita nessa lengalenga.
Assim, o salário vai aumentar nos países mais eficientes até que esse país deixa de ser competitivo (em termos de preço) nos bens onde tem relativamente menos vantagem (em termos de horas).
Como há milhares de bens, haverá sempre algum que 1% a menos ou a mais nos salários tornará ou deixará de tornar competitivo ser produzido num determinado país.
A Alemanha não vai produzir todos os bens
Porque o diferencial de salários (maiores na Alemanha e menores na China) vai estar na exacta medida que faça a Alemanha perder competitividade na produção dos bens C, D, E e F (onde é relativamente menos competitiva);
que Portugal se torne competitivo nos bens C e D e
que a China se torne competitiva na produção dos bens E e F (onde é relativamente mais competitiva).
Apesar de sermos mais competitivos, em termos de horas, que a China na produção de todos os bens, ficamos a ganhar se produzirmos apenas os bens C e D que exportamos para a China de onde importamos os bens E e F.
| Bem | Portugal | Alemanha | China | C/Comércio | Autarquia |
| A | 0 | 18,75 | 0 | 18,75 | 12,18 |
| B | 0 | 15,00 | 0 | 15,00 | 11,11 |
| C | 10,00 | 0 | 0 | 10,00 | 10,48 |
| D | 10,00 | 0 | 0 | 10,00 | 10,11 |
| E | 0 | 0 | 10,42 | 10,42 | 9,93 |
| F | 0 | 0 | 11,36 | 11,36 | 9,90 |
Todos os países aumentam o seu nível de vida continuando o país mais eficiente, a Alemanha, a manter a dianteira e o menos produtivo, a China, a cauda (ver, Quadro 5).
| Bem | Portugal | Alemanha | China | Total | Autarquia |
| A | 5,52 | 8,44 | 4,79 | 18,75 | 12,18 |
| B | 4,63 | 6,30 | 4,08 | 15,00 | 11,11 |
| C | 3,17 | 4,01 | 2,82 | 10,00 | 10,48 |
| D | 3,29 | 3,53 | 3,17 | 10,00 | 10,11 |
| E | 3,49 | 3,29 | 3,63 | 10,42 | 9,93 |
| F | 3,82 | 3,27 | 4,28 | 11,36 | 9,90 |
| Bem-estar | 3555 | 8101 | 2715 | ||
| Autarquia | 1364 | 4048 | 909 |
Quadro 5 - A especialização faz aumentar o bem-estar em todos os países (a vermelho os bens que importam e a verde os bens que exportam).
O salário será o mais alto (é o que maximiza o nível de vida do povo) que permita ter uma balança comercial equilibrada.
Um salários mais elevado que o de equilíbrio e um consequente endividamento externo leva a ganhos de bem-estar no curto prazo mas a perdas no longo prazo (a necessidade de pagar os juros da dívida).
Pelo contrário, um salários mais baixo que o de equilíbrio e um consequente crédito face ao exterior leva a perdas de bem-estar no curto prazo mas a ganhos no longo prazo (mais tarde será recebido o dinheiro emprestado mais os juros da dívida).
Um país manter uma balança comercial positiva (e salários mais baixos que o óptimo de curto prazo) pode ser usado para ganhar influência política junto de outros países, como, por exemplo, o Japão nos anos 1950-1970 e a China actualmente.
O princípio de Ricardo das vantagens comparativas.
Pode ser estendido a regiões, empresas e mesmo a pessoas individuais.
Se numa região, cidade ou uma pessoa é menos produtiva que outra, será o salário relativo que vai permitir que todos se especializem nas actividades em que são mais eficientes podendo haver emprego para todos.
O nosso principio constitucional que todos temos direito ao mesmo salário (o "contracto colectivo de trabalho") destrói a possibilidade de os menos produtivos poderem ter emprego tendo que se dedicar a guardar carros e a viver do RSI.
Naturalmente que o fim do "contrato colectivo de trabalho" e a passagem para o contracto individual de trabalho seria uma medida benéfica para toda a gente que só não avança pela demagogia dos nossos políticos de "esquerda".
É um erro tentar substituir as importações.
O povo, por ter poucos conhecimentos de economia, pensa que poderíamos produzir os bens que importamos (agrícolas, energia, peixe, têxteis e vestuário baratos). Mas isso será um grande erro porque teremos que aplicar muitos dos nossos recursos produtivos (pessoas, capital e recursos naturais) na produção desses bens onde somos pouco produtivos deixando de produzir outros que podemos exportar e passarmos a ter um nível de vida maior.
Também a política do Sócrates de dizer que "os vira-ventos permitem-nos poupar nas importações de energia" foi um erro colossal traduzido hoje num enorme custo de electricidade.
Temos que nos especializar no que somos capazes de fazer de forma relativamente mais eficiente (bens com um nível médio de sofisticação) que deveremos usar para pagar as importações de bens muito sofisticados (aos países mais desenvolvidos) e pouco sofisticados (ao países menos desenvolvidos).
O problema é que o constante mas diferenciado progresso tecnológico e choques exógenos adversos (secas, cheias, crises financeiras, etc.) faz com que seja preciso ajustar continuamente o salário dos países.
As alterações dos salários relativos também faz que umas empresas/actividades percam competitividade (havendo necessidade de despedir esses trabalhadores) e outras empresas/actividades ganhem competitividade (havendo necessidade de contratar mais trabalhadores).
Um choque da Natureza.
Supondo que há ganhos de produtividade (como, por exemplo, se observa na China). Neste caso terá que haver um aumento dos salários para que o povo passe a viver melhor. O aumento dos salários fará com que o país deixe e ser competitivo em alguns bens fazendo diminuir o saldo da balança comercial.
Na primeira metade dos anos 1970 o grau de abertura (medido como a percentagem no PIB média entre as exportações e as importações) da China era muito baixo (3.8%) sendo inferior ao da Índia (4.5%) e menos de metade do do Brasil (8.7%).
Em 2000 é a vez de a Índia dar um forte impulso ao comércio enquanto que o Brasil, com Lula da Silva, se fecha ainda mais.
Apesar de a crise de 2007 ter penalizado severamente o comércio da China, em 2011 o grau de abertura da China atinge 29.3% do PIB e já está quase apanhado pela Índia (27.2%). O Brasil manteve-se morto (12.3%).
Em 40 anos, enquanto que a China e a Índia aumentaram o comércio internacional mais de 650%, o Brasil ficou abaixo dos 50% (ver, Fig. 6).
Fez com que a industria manufactureira simples se deslocalizasse da Europa para a China. Neste processo, a China adquiriu maquinaria agrícola para libertar a mão-de-obra da agricultura para as actividades industriais relativamente menos sofisticadas.
Motivado pela grande taxa de poupança / investimento, a China foi aumentando a capacidade de produzir produtos mais sofisticados o que levou ao aumento dos salários à média de 15%/ano (em termos de USD).
A abertura da Índia pós-2000
Desde 2000 que a China está a deixar de produzir os bens menos sofisticados (quis deixar de ser competitiva nestes produtos porque, globalmente, já podia subir os salários e enriquecer) o que tem transferido essas actividades para a Índia, Paquistão, Indonésia, Vietname, Bangladesh, Filipinas e outros países asiáticos.
Quem está atento aos produtos que se vendem nas nossas superfícies comerciais, cada vez vê mais produtos têxteis, calçado e vestuário e baixo preço a serem de produção de um destes países e os produtos de tecnologia intermédia (máquinas fotográficas, pen disks, rádios, etc.) a passarem a ser produzidos na China.
Numa espécie de onda que começou por volta e 1700 na Inglaterra, a Revolução Industrial tem-se vindo a expandir pelo Mundo estando agora a atingir com toda a força os grandes países asiáticos.
Provavelmente, por volta de 2050, veremos uma China já tão prospera como hoje é a Europa, uma Índia que estará na posição que observamos hoje na China e veremos finalmente a industrialização a passar para a África.
Onde fica Portugal nesta equação?
Temos que nos adaptar às alterações de produtividade que se observam no Mundo ajustando os nossos salários (descendo-os se nos tornarmos menos produtivos e aumentando-os se nos tornarmos mais produtivos).
Teremos que poupar para poder haver investimento em capital humano e em capital físico (mas não em mais estradas e mais casas) tornando a nossa estrutura produtiva com capacidade de produzir bens de tecnologia intermédia.
Teremos que ter sempre em mente que o nosso sucesso como país passará sempre por importar bens de baixa sofisticação de países menos evoluídos e de alta sofisticação de países mais evoluídos.
O nosso sucesso, mais que o da Alemanha, estará ligado à nossa integração europeia, lutando por fazer parte dos processos produtivos dos nossos parceiros europeus mais desenvolvidos fazendo componentes e partes menos sofisticadas dos produtos e sendo um destino turístico de proximidade.
Finalmente.
Só depois de compreendido o mecanismo que faz os países (e as pessoas) terem salários diferentes é que posso explicar porque a discussão em torno da TSU esteve errada desde o início.
Isto ficará para o próximo post porque este já vai muito longo.
Pedro Cosme Costa Vieira
quarta-feira, outubro 31, 2012


















