quarta-feira, 3 de agosto de 2016

As bananas e os robo-barcos

Há coisa de que todos temos curiosidades. 
Uma das coisas é, olhando para uma banana que vamos comer, imaginar a pessoa que cultivou aquela fruta sabe-se lá onde, e visualizar o caminho que aquele objecto percorreu até vir parar à nossa mão.
Sendo que a banana tem um preço na ordem de grandeza da fruta que produzimos em Portugal, imagino eu que, à porta da plantação, a banana deve ser muito barata.
Se fosse possível diminuir os custos entre a plantação e a nossa mão, o preço diminuiria na prateleira e aumentaria na plantação o que seria bom para todos.

Penso que é um pecado grave ver uma mulher a comer uma banana


Vou então dizer o que descobri.
A Bananeira é uma erva gigante que se cultiva em países quentes, com temperatura mínima noturna superior a 13.ºC. Em termos globais, produzem-se cerca de 125 milhões toneladas de banana por ano, 50% no Sul da Ásia, 20% na África e 20% na América do Sul. Produzem-se mais bananas do que laranjas (115Mton/ano) e do que maças (81 MTon/year).
A bananeira nasce como um rebento de uma planta adulta, produz ao fim de, em média, 18 meses, sendo mais rápido o crescimento nos climas mais quentes, e, depois de produzir, morre (fica um rebento lateral). 
Nos países quentes não existe época de produção pelo que a cultura é planeada de forma a que exista produção todos os dias.
Uma vez feita a plantação, fica em produção durante vários anos (corta-se o pé que produziu e deixa-se um dos rebentos crescer), o que torna a cultura simples e muito produtiva, cerca de 3kg/ano/m2 (30 ton/ano/ha).

Á porta da fazenda, o preço é de 0,30€/kg.
A banana que compramos por 1,00€/kg é maioritariamente produzida na Colômbia ou no Equador de onde sai da plantação a 0,30€/kg.
Na plantação, os cachos são colhidos, seleccionados os melhores grupos, lavados, desinfectados e embalados em caixas de cartão 36 litros que levam 18 kg de fruta. 
Depois, metem-se as caixas em contentores refrigerados. Um contentor de 20 pés leva cerca de 800 caixas, 14 toneladas.

 
Fig.1 - A banana que comemos é produzida a mais de 8500 km da nossa boca
 
Perdem-se 0,70€ na viagem.
Á saída da fazenda, cada caixa tem um preço de 5,00€ e, quando chega à nossa mão, depois de percorridos 10000km, o preço de cada caixa é 18€.
Esta margem de mais de 250% entre o preço de produção e o preço no nosso hipermercado prende-se com os custos de transporte e não tanto em estarmos a explorar os desgraçados que produzem bananas.
É que a logística é complexa e cara.
Como as plantações obrigam a espalhar a produção e o Atlântico é atravessado apenas por navios grandes, é preciso fazer muitos transbordos.
Assim, o transporte começa por juntar caixas até se encher um contentor refrigerado a 12ºC, depois, continua com o contentor num camião até um porto (podem ser mais de 1000km) que vai, mais tarde, levar o contentor até um porto grande onde possa atracar um navio transatlântico.
Uma vez na Europa, passa-se o inverso, o navio grande descarrega em Roterdão o contentor para navios mais pequenos que vão para portos mais pequenos onde o descarregam num camião que, depois, faz a viagem até à central de compras do supermercado onde o contentor é aberto e as 700 caixas separadas em vários camiões que as vão levar para as prateleiras dos hipermercados de cada terra.


Imaginemos a nossa Guiné-Bissau.
Tem um clima, em termos de temperatura e chuva, e terrenos bons para a cultura de banana, ananás e manga, podendo estas culturas ser o motor de desenvolvimento desta nossa ex-colónia. O problema é que não têm como transportar as frutas em tempo útil desde o local de cultivo até à nossa mão.
Nos países pobres as estradas são muito deficientes e os portos de mar pequenos e incapazes.
O que era preciso era um navio pequeno, com capacidade para 100 contentores de 20 pés, que pudesse ser carregado em pequeno portos e fizesse a viagem até ao destino final na Europa, América do Norte e Japão e pudesse entrar nos rios.


Os navios são grandes para diminuir os custos.
Um navio grande, para a mesma velocidade, gasta menos combustível. O combustível gasto é proporcional à área em contacto com a água e, quando um navio é maior, a área aumenta ao quadrado e o volume ao cubo. Assim, se aumentarmos a dimensão de um navio em 10 vezes, o consumo de combustível por tonelada diminui para metade.
Um navio grande também poupa nos custos da tripulação.
Então, para termos um navio pequeno temos que usar a outra variável importante que é a velocidade pois o consumo de energia cresce com a velocidade ao quadrado.
Desta forma, para termos um navio que é 1% do tamanho de outro (que viaja à velocidade de 23km/h) com o mesmo consumo de energia temos que reduzir a velocidade para 10km/h.
Quanto á tripulação, temos que acabar com ela!
O Roboship.
Investem-se actualmente milhares de milhões no desenvolvimento de tecnologia para que os carros possam circular na rua sem condutor humano por é difícil mantê-los na estrada congestionada com outros veículos e pessoas. Mas, para termos robô-navios, dado que não há a limitação da estrada, uma tecnologia simples é mais do que suficiente. Penso que, em mar aberto, bastará um GPS para saber a localização do navio, um sonar para detectar outros navios próximos e uma ligação por satélite para comunicar e receber instruções da central de controlo.
Estou a imaginar um navio com capacidade para 100 contentores de 20 pés a viajar por esses oceanos fora de forma autónoma a 10km/h (que compara com os 4km/h das caravelas quinhentistas).
Estou a imaginar, em vez de navios com 15000 contentores que tem que receber carga de centenas de portos, 150 navios com 100 contentores cada que viajam de um porto de origem para um porto de destino. 
A viajar a 10km/h demoraria 35 dias a percorrer os 8500km que nos separam da América do Sul e 19 dias a percorrer os 4500 km que nos separam da Guiné Bissau, é mais do dobro do tempo normal mas, como não há tripulação, não será um problema muito grande (para obter as distâncias entre portos e os tempos de viagem a 14 nós, ver este site). E a banana conserva-se 6 semanas com temperatura e atmosfera controladas (ver).

Os esquerdistas desmiolados são contra a globalização.
A globalização tem permitido que, mais e mais produtos de locais esquisitos cheguem à nossa mesa. No sábado passado olhei para a prateleira do feijão e vi lá feijão preto da Etiópia, branco do Madagáscar, vermelho da Índia e frade da China. Como muito do preço que pagamos são custos de transporte, os esquerdistas desmiolados têm metido na nossa juventude inconsciente a ideia desmiolada de que, ao comprarmos produtos desses países pobres, estamos a explorar a miséria das pessoas desses países que têm salários muito baixos para o nosso padrão de vida.
Então, sendo desmiolados, têm que vir com uma ideia absurda: proibir a importação desses países pobres.
Mas, quando uma pessoa na Colômbia vai trabalhar numa plantação de bananas por 1€/h, não consegue ganhar este valor noutra actividade pelo que, se não lhes comprarmos bananas, o seu nível de vida vai diminuir.
É como proibir uma pessoa de beber água porque, caso contrário, teria que fazer uma longa viagem.
O que temos que defender é o aprofundar da globalização pela diminuição dos custos de transporte.

O comércio livre é a melhor forma de "combater" as migrações.
Reparemos que, nos refugiados que chegam à Europa, não há Etíopes.
E isto não acontece porque a Etiópia, apesar de ser um dos países mais pobres do mundo, tem desde 2002 uma política de abertura das fronteiras para o investimento e o comércio. Esta abertura permitiu que o rendimento per capita das pessoas triplicasse em 12 anos (um crescimento de 8,7%/ano, WB).
Com livre comércio, os países mais pobres desenvolvem-se e, como ninguém gosta de sair do seu país, as pessoas ficam contentes por lá a trabalhar para nós por tuta e meia.


Deus ajude os pobres a vender o que produzem.
Maria Clara

3 comentários:

Bruno BaKano disse...

Não são usados para transporte de mercadoria, mas o RoboShip já existe.
A SpaceX utiliza barcos drone autónomos (ou seja sem pilotagem) como palatforams de atterragem do seu foguetão, e que salvo erro depois transporta-os de volta a terra.:
https://en.wikipedia.org/wiki/Autonomous_spaceport_drone_ship

A tecnologia existe e já funciona.
Mas imagino que nos transportes qq empresa a fazer isto iria enfrentar o lobby das empresas existentes, do mesmo género que a Uber enfrenta os taxistas tradicionais...

Fernanda Viegas disse...

Que argumentos bacocos para legitimar a globalização e o fellatio.

Jorge Jesus disse...

RADAR.

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