quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Hoje vou falar do problema da dor crónica

OK, todos nós já estivemos doentes.

Eu já estive doente, já estive muito doente, já familiares meus diretos estiveram doentes e mesmo morreram e, no entanto, fui sempre trabalhar. Mesmo naquelas noite em que não preguei olho porque a minha mãe não parou de gritar, às 7h30 da manhã meti-me no meu carrinho e fui dar a minha aulinha por "respeito aos meus alunos".
Um do problema mais graves da vida, muito mais que a falta de dinheiro ou de mulher (parece-me que as duas coisas estão intimamente ligadas!) é a dor crónica que é capaz não só de destruir o corpo (causa pressão elevada e contração do vasos sanguíneos) como levar a pessoa ao desespero mental.
Em tempos, quando gritava toda a noite, a minha mãe sofria muito, queria que eu a matasse, mas, depois, foi a um médico anestesiologista que lhe receitou "uns farrapinhos" (como a minha mãe lhes chama) que, colados nas costas, acabam com a dor.
a minha mãe tomava tramadol ma causava-lhe muito vómitos.

Pareceu um milagre. 
Eu não dava nada por aquilo mas colei na mesma 1/16 e esperei. Ao fim de um dia, a dor reduziu a quase nada e, ao segundo dia, dormiu descansada. 
Depois fui investigar.
Esses farrapinho têm um químico, buprenorphine, que se liberta lentamente ao longo do tempo, um emplastro liberta 35 micrograma por hora mas, no caso a minha mãe, 1/16 de um farrapinho foi capaz de acabar com aquela dores terríveis. 
As instruções foram, primeiro colar 1/16 e, a cada 24 horas, se a dor persistir, colar mais 1/16 até a dor acabar. Será essa a dose indicada para controlar a dor.

Mas o que é a buprenorphine?
É uma molécula sintética da classe do opioides que foi sintetizada pela primeira vez em 1969 e que, depois de ano e anos de testes de eficácia e segurança, deu origem há apenas meia dúzia de anos a este farrapinhos.
É da classe do opioides porque bloqueia uns recetores de dor específicos que temos no cérebro mas é muito mais potente e seguro que a morfina.
A segurança do analgésico vem a possibilidade de ocorrência de paragem respiratória e, neste ponto, a buprenorphine é muito segura. 

Vamos agora à ucranianasinha.
 Sofre de endometriose, o que lhe causa grande sofrimento em cada 20 dias do ciclo menstrual.
A endometriose afeta muitas mulheres e destrói a sua qualidade de vida porque ninguém consegue funcionar com tamanha dor.
Qual a solução que indicam à mulheres? 
Uns comprimidinhos de paracetamol (que na Ucrânia se chama  ацетамінофен - acetaminofeno)

Ma agora está a experimentar Trantec.
Um farrapo tem 20 miligramas de buprenorphine e é ativo durante muito tempo mas, porque se trata de um problema de difusão, a quantidade disponível no corpo aumenta até ao quarto dia e, depois,  começa a diminuir.
Estudando a semi-vida do buprenorphine dentro do corpo humano (uma média de 37 dias), aplicando 1/8 de um penso de 35 microg/h antes 4 dias do início da menstruação (nessa altura já começa a sentir dores ligeiras), é exatamente no quarto dia que a quantidade dentro do corpo é maior, para uma pessoa com 48kg, atinge 3,6 microg/kg de buprenorphine (ver, Fig. 1).


Fig. 1 - Evolução da quantidade de buprenorphine no corpo com 1/8 de farrapinho (48 kg de peso)
 
Até ao quarto dia esteve tudo bem.
Ontem à meia noite telefonou-me (bem dizia o meu amigo cego que hoje, sem telemóvel, não se pode ter mulher) a dizer que tinha muitas dores, não tantas como era normal mas, mesmo assim, não conseguia dormir.
Disse-lhe "Cola mais 1/8"
- Mas isso vai criar habituação - disse a coitadinha mas, como as dores estavam a aumentar, lá colou mais um bocadinho.
"E toma um comprimido de naproxeno porque só vais sentir o efeito deste novo farrapinho pela manhã."
Como não quis tomar o naproxeno que teria efeito em alguns minutos, só adormeceu às 3h da manhã.
Hoje de manhã ainda sentia alguma dor mas por esta hora já está completamente sem dor.

 Fig. 2 - Evolução da quantidade de buprenorphine no corpo quando se acrescenta 1/8 de farrapinho e se mantém o outro que já lá está há 4 dias (48 kg de peso)
 
Mas não deveria ter retirado o farrapinho velho?
Diz na caixa que sim mas é apenas para que a quantidade dentro do corpo não varie tanto.Retirando, fica mais previsível além de que, com o tempo, o penso descola (meti um adesivo por cima) e causa coceira.

Penso que já sei a dosagem certa.
Com 3 microgramas/kg no corpo consegue controlar as dores iniciais mas precisa de 5 microgramas/kg  para controlar o primeiro dia. Então, se começar 4 dia antes com 1/8 e reforçar com 1/16 passados 3 dias, vai chegar ao primeiro dia de menstruação com 5 microgramas/kg, quantidade que se vai manter estável durante 4 dias e acima de 3 microgramas/kg até ao dia 10 do ciclo (15 do tratamento).
Penso ser suficiente mas no próximo mês vamos ver. Tudo isto é um processo de tentativa e erro

 Fig. 3 - Evolução da quantidade de buprenorphine no corpo quando se acrescenta 1/16 de farrapinho e se mantém o outro que já lá está há 3 dias (48 kg de peso)

É bom e barato.
Uma caixa com 10 farrapos custa 41€ sem comparticipação pelo que, usando 1/8 + 1/16, estamos a falar de qualquer coisa como 0,80€ por ciclo mentrual para destruir uma dor impossível de tolerar.
Com participação normal custa 28€ e, para doentes com necessidades especiais, fica por 4,10€ (é preciso invocar na receita a portaria não sei quê).
A coitadinha começava por tomar 1 Benuron a cada 8 horas mas nos dias piores tinha que tomar um a cada 3 horas o que dava qualquer coisa como 70 comprimidos por ciclo, 3,5 caixas de 20 comprimidos. era uma custo de 10€ o que, para uma pessoa que ganha 100€/mês, é muita coisa.

Porque será que não se usa mais Trantec?
É talvez por ser um medicamento novo para o qual os médicos e família ainda não estão avisados e talvez também pelo preconceito de ser um opioide.
Temos todos que lutar para que a dor saia da vida das pessoas e o Trasntec é um milagre moderno para uma enormidade de situações complicadas.

Espero com esta informação poder contribuir para que milhões de pessoa com dor vejam a sua vida melhorada.
A tecnologia não serve apenas para fazer carros ou aviões mas também para criar moléculas que acabem com a dor, sem qualquer preconceito.

Já agora.
Precisei, disse o meu médico, de meter uns diazinho de baixa.
O esquerditas defendem tanto o direito dos trabalhadores e um deles é exactamente este!


1 comentários:

António Pires disse...

Um Conto de Pós-Natal
Uma neve de farrapos, tocada por um forte vento de nordeste, frio e cortante como uma lâmina de barba, não parava de cair de um céu que se mantinha pardacento desde as primeiras horas da madrugada. Era na véspera do dia de Natal. Na taberna do Alfredo Tanoeiro, uma dezena de rapazes solteiros e cerca de meia dúzia de homens casados abrigavam-se da intempérie, aproveitando para matar as horas do fim da tarde, que antecediam a aguardada consoada com bacalhau e tronchudas, jogando o chincalhão, bebendo vinho abafado, por conta da casa, e cavaqueando sem limites nem peias, como não podia deixar de ser num ambiente aquecido por uma grande lareira onde crepitavam os gravetos de grossos troncos de carvalho que ardiam fulgurosamente.
O Domingos Pequeno, sentado numa cadeira de braços junto ao lume, e que ainda não tinha aberto a boca desde que chegara majestosamente ataviado na sua capa de palha de pastor tradicional, sentindo a elevação das vozes num momento mais quente de discussão também quis dar a sua opinião, entrando de rompante:
- Bô!... Eu, desde que dei o salto para Paris em 1970, nunca mais voltei ao Zoio, mas lá de longe um homem, com a barriga cheia, pode ver com mais nitidez os contornos da sua terra natal, se é que me faço entender...
Então, todos aqueles humildes trabalhadores rurais, cuja mundividência não era mais larga do que a rabiça que estavam acostumados a agarrar com força quando era preciso abrir o rego para poder lançar a semente, fizeram um silêncio respeitoso em torno do ti Pequeno, que tinha abalado para França com catorze anos de idade, incompletos, e com uma mão atrás e a outra à frente, mas que agora tinha feito ver a todos, quando, no último Verão, no dia da festa, tinha chegado ao volante de um luxuoso Audi A8 6.0 L quattro, comprado a pronto e com dinheiro vivo, de maneira que todos se ajeitaram o melhor que puderam para acolher, com os olhos muito abertos e os ouvidos muito atentos, o jorro de palavras sábias do conterrâneo emigrante, que não se fez rogado, tendo prosseguido:

- Bô!... Mal cheguei à cidade das luzes, vi logo que os franceses (tanto os gajos, como as gajas) não ligavam patavina à padralhada! Aqui, o pessoal do Zoio tinha de cumprir à risca as ordens do doutor Salazar e dos senhores padres. Era obrigatório ir à missa ao domingo, trabalhar de sol a sol, aceitar com um sorriso nos lábios o salário de merda, pagar o crucifixo pendurado na parede da sala de aula ao lado do retrato oficial do Salazar (sob pena de a criancinha que não levasse o dinheiro ser posta na rua!),... O povo, bem doutrinado pela Igreja, vivia feliz, arrancando da terra agreste, com o suor do seu rosto, algumas batatinhas que lhe iam enganando a fome. Em Dezembro, havia a grande festa do ano, que era o Natal, e então, por uma vez no ano, era permitida alguma expansão na comida que, contudo, raramente ia muito além de uma pequena posta de bacalhau cozido com batatas e couves. Lá, em França, tudo é diferente, o povo vive no luxo e na fartura, com muito champagne e caviar. Por outro lado, as igrejas católicas estão a fechar por falta de crentes, mas o Estado esforça-se por impor ao povo o culto de uma nova deusa chamada “ La République”, cuja festa oficial se celebra no dia 14 de julho, com o povo na rua a beber, a cantar e a dançar.

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