sexta-feira, 25 de agosto de 2017

A economia dos hosteis

Os pobres tinham os albergues. 

No antigamente, o turismo eram peregrinações em romaria a lugares santos, fosse Santiago de Compostela, Bom Jesus de Braga, Fátima ou mesmo Roma e Terra Santa, para pagar promessas de milagres já recebidos ou a pedir proteção e coisas impossíveis aos santos.
Etimologicamente, peregrino é "aquele que vem do estrangeiro" e romaria "é um grupo de romanos em viagem à Terra Santa".
Fosse um "Valha-me Deus" ou um "Nossa Senhora me salve"  dito numa hora de aflição ou um "Milagroso Santo António desencrava a minha filha" e já estava criada a obrigação de fazer a viagem.
Como as pessoas tinham que pernoitar em algum lado porque, garante o povo, "A noite foi criada pela Coisa Ruim para que lá possa andar o que não pode andar de dia" (i.e., as coisas demoníacas e as almas danadas), uma das obra de misericórdia corporais da Santa Madre Igreja é "Dar albergue aos peregrinos" para que possam pernoitar debaixo de telhado.

À noite, o diabo anda à solta

Notar que, realmente, não foi Deus quem criou a noite! 
"No princípio criou Deus o céu e a terra (...) [e, então,] "havia trevas sobre a face do abismo (...) [Depois] disse Deus: Haja luz (...) e fez Deus separação entre a luz e as trevas (...) e às trevas chamou Noite" (Ge 1:1-5).
Motivado por a Noite ter sido criado por alguém que não Deus, talvez a Força do Mal, e contra essa força Deus nada poder fazer, durante muitos séculos discutiu-se se Deus é realmente Omnipotente e omnipresente. E ficou a dúvida até que Espinoza matou Deus.

Continuando. 
Nos tempos das peregrinações, as casas eram fracas, mais barraca que outra coisa, pelo que o peregrino se contentava a pernoitar com muito poucas condições. Bastava pão de centeio com um caldo de couves e alguns feijões engrossado com farinha regado com um copo de vinho carrascão para jantar, um balde com 2 ou 3 litros de água morna para tomar um banho, um monte de palha para fazer de cama e uma manta grossa para quebrar o frio para se ter um albergue de 5 estrelas.
E havia quem prometesse ir a "pão e água".
Lembro-me dos anos 1970 em que toda a gente da minha terriola foi a Fátima a pé, a minha mãe foi 5 vezes para ver se Deus lhe arranjava forma de poder criar os filhinhos. Depois de caminharem todo o dia o máximo que as forças permitiam, uns 40 km, assim que a tarde começava a morrer, os peregrinos batiam às portas das casas a pedir guarida sabendo-se que iam ficar todos à molhada, muitas vezes numa garagem ou num casebre de apoio à agricultura. Se a pessoa fosse daquelas que diziam "Não posso minha senhora, já tenho tudo lotado", logo era obrigada a continuar com "mas duas casas ali ao fundo vai conseguir arranjar, pergunte pelo Senhora Maria do Céu que ela tem bons cómodos onde vão poder passar a noite e por pouco dinheiro, é uma viúva muito devota de Nossa Senhora".
Chegados lá e ouvido da boca da senhora o sim, imediatamente começava a negociação à moda do cigano. Por um lado diziam os peregrinos "Não podemos dar mais do que 10 paus por cabeça porque estamos muito falhos de dinheiro" para logo a senhora contrariar com "Não posso fazer por esse preço, o mínimo são 20 paus por cabeça mas dou-lhes uma sopa quente" para logo, depois de proposta e contra-propostas sem conta, acabar o preço nos 13 paus, com a prometida sopa quente e ainda, pela manhã do dia seguinte, uma sande de queijo e marmelada com uma aguadilha de café, tanta quanto quisessem.
Dormia tudo à lota, homens num quarto e mulheres no outro, às vezes em casas diferentes, uns com os pés para cima e outros com os pés para baixo, pelo menos 4 em cada cama. 
Como bem sabia aquele descanso depois de horas e horas a pisar os pés, muitas vezes descalços.
No dia seguinte, mal o galo cantava e o burro zurrava, o povinho punha-se todo a pé, engolia a tal sande com a beberagem e já estava pronto para recomeçar a marcha rumo à santidade.
Ir da minha terra a Fátima eram 4 dias, de Coimbra a Santiago de Compostela seriam 9 dias enquanto que ir de Coimbra à Terra Santa já não era para qualquer um, obrigava a 200 dias, isto só para ir pois ainda era preciso outro tanto para voltar a casa.
Como o peregrino ia em marcha, naturalmente, só ficava uma noite em cada lugar.

Agora há os hosteis.
Um hostel é a versão moderna da albergaria improvisada e o turista faz o papel do peregrino dos outros tempos.
O turista não vai em agradecimento de uma graça recebida nem à procura de santidade, vai apenas para gastar o tempo e meter umas fotografias no Facebook e no Instagram.
Cada cidade, terriola ou lugar tenta identificar uma particularidade mais que não seja o nome para aproveitar uma fatia do mercado do "Tenho que ir lá tirar uma fotografia no meu smartphone".
Não se aposta mais no mercado da repetição. Se há 500 milhões de pessoas na União Europeia com possibilidade financeira para fazer pelo menos duas viagem de avião por ano em low-cost, se conseguirmos que 10% desses visitem a nossa terriola uma vez na vida mesmo que apenas para a "fotografia", vamos ter 3500 visitantes por dia a precisar de comer e dormir.

Como se faz um hostel.
Pega-se num imovel qualquer, uma casa, um apartamento, um anexo onde antigamente se guardava forragem ou gado, esteja em bom estado ou não pois o típico também tem clientela.
Depois, metem-se uns beliches, um quarto com 13 m2 aguenta com 6 hóspedes (3 beliches de dois andares e um pequeno armário com 6 divisões).
Depois, basta uma casa de banho com chuveiro.

Num hostel cabem 6 num quarto mas, à escala de Auschwitz, caberiam 60 

Serão os hosteis a galinha dos ovos de ouro?
Pelo menos em Portugal, os hosteis estão a ser vítimas de um grande ataque por parte do governo  e autarquias esquerdistas com taxas, taxinhas e impostos e ainda uma campanha de que este tipo de turismo está a retirar as casas do mercado de arrendamento para habitação.
Vejamos se então a economia de um hostel.

Vamos fazer hostel num T3.
Destinam-se 2 quartos e uma casa de banho para mulheres (12 lugares) e 1 quarto, a sala e a outra casa de banho para homens (12 lugares). Fica ainda a cozinha para fazer os hospedes poderem fazer cozinhar qualquer coisa simples.
Transformamos um T3 com 100m2 num hostel com 24 camas, uma média de 4m2 por cama.
No mercado de arrendamento, este apartamento se bem localizado e numa razoável cidade custa pelo menos 600€/mês.

Qual o preço de uma noite num hostel?
Estive a ver no Booking.com e o preço ronda os 10€/noite.
Para hoje, encontrei os seguintes preços (o mais baratos):
Roma => 9 €
Madrid, Londres, Berlim, Lisboa => 10 €
Paris => 14 €
Moscovo e Kiev => 3 €

Que margem dá cada hóspede?
Lavar a roupa e passar os lençóis, fazer a cama e arrumar a casa gasta pelo menos 20 minutos de tempo de trabalho. A 6,00€/h são 3,00€ por dormida.
Depois, acrescenta a água, eletricidade e internet, 1,00€ por dormida
Ainda temos o custo do Booking.com que vou assumir como 1€ por dormida.
Dá uma margem de 5,00€/dormida.

Vamos à conta final do lucro do negócio.
Era bom se a ocupação fosse a 100%
Lucro = 30 dias * 24 camas * 5€/dia - 600€/mês = 3000€/mês
O problema é a taxa de ocupação
   20% => 120€/mês
   25% => 300€/mês
   30% => 480€/mês
Este lucro vai ser o pagamento para a pessoa que recebe os hóspedes (o hostel está aberto 24 horas por dia), zelar pela segurança das pessoas e dos bens.
24 camas já é um negócio grande, equiparado a um pequeno hotel e não dá nem o salário mínimo.
Só dá para um casal de chineses. A mulher faz as camas e arruma a casa (ai meu Deus, que estou a ser sexista) enquanto o homem lava e passa os lençóis e faz a segurança.
Já estão a ver porque é que em todos os hosteis está um chinês: é o patrão que dorme no meio dos hospedes abatendo 2 camas à lotação.

Aquilo do "livro para meninas" é uma perigosa loucura dos esquerdistas.
Se não pode haver descriminação de género, porque obriga a lei a haver casas de banho para homens e para mulheres nos establecimentos comerciais e industriais?
Porque há provas físicas diferentes para homens e para mulheres quando se candidatam à tropa, PSP ou GNR?
Porque é que a maior parte das lojas de roupa são para mulheres?
Porque é que os homens têm que usar fato escuro e gravata e as mulheres não?

E quanto será a taxa de ocupação?
Aqui é que está o problema maior.
Uma colega minha perguntou-me "O que achas de eu fazer um hostel? Herdei uma casa em Espinho com 8 quartos e gostava de rentabilizar aquilo".
Se consultarmos o Booking.com hoje às 22h, o mês mais forte do turismo, em Paris ou Londres, há N hosteis com vagas disponíveis.
Se nesses locais existem vagas, será que em Espinho se consegue uma ocupação média de 20%?
Eu ainda disse à ucraniana "Os teus pais podiam vir por ai abaixo e explorarem o hostel" mas a moça não tem cabeça, fez de conta que não ouviu.
Só dá para monhés.

Deixem os hosteis em paz.
Porque não são eles que estão a ter ganho por causa do turismo.
Quem está a ter ganho são os outros, cafés, restaurantes, táxis, e outros apoios ao turista, que exploram as massas que esmagaram o preço da estadia.
Assim, cobrar taxas é a esses e não às albergarias pois o 1€/dia que cobra Lisboa são 10% do preço de uma estadia e os 2€/dia que o Porto quer cobrar é uma aberração.

O hostel não dá nada mas ser muito bom viver em Portugal porque há muita caça

Finalmente, será que o MPLA ganhou as eleições em Angola?
Concerteza que sim e com maioria absoluta.
Será que o MPLA foi o partido mais votado nas eleições de Angola?
Se em 1992 o MPLA não conseguiu 50%, ia conseguir agora, depois de 25 anos de desgaste executivo, conseguir 61%?
Concerteza que não e perdeu por muitos.
Mas nunca jamais os esquerdistas, sejam angolanos, venezuelanos, cubanos ou portugueses, deixarão o poder podendo mantê-lo mesmo que por meios violentos.
Acontece é que os nossos esquerdistas ainda não atingiram esse patamar pois de democratas não têm nada.

Boas férias e tratem bem o chinês.

6 comentários:

Anónimo disse...

Bastaria a sua introdução personalizada para que este artigo tivesse um lugar de destaque no galarim da antologia dos textos curtos. O mundo iniciado com o nascimento de Cristo, onde faziam sentido fenómenos como os ocorridos em Fátima, está, muito provavelmente, a chegar ao fim. Os sinais podem ser tão pequenos como a transformação, aparentemente inocente, dos albergues de peregrinos em hosteis, só que, para indivíduos, como eu, que fizeram a sua formação escolar no tempo de Salazar, a simples articulação da palavra “hostel” é suficiente para nos arranhar dolorosamente a membrana do tímpano. As ribeiras que outrora refrescavam os prados verdes e as suas bucólicas margens arborizadas, onde se passeavam nas tardes quentes de verão muitos pares de namorados e casais heterossexuais, ficaram sem água, deixando à mostra leitos mortos de argila gretada.
Os tempos atuais são feios. O mundo novo, se vier, não sei se será feio ou bonito.
Com certeza, sei que não se deve escrever “concerteza”.

Daniel disse...

"Espinoza matou Deus." Porque diz isto? A expressão de Espinoza "amor intelectual a Deus" é bem conhecida. Não digo que o Deus de Espinoza seja o Deus hebraico, mas é sim o que ele chama a única "Substância", algo não separado e quase sinónimo da Natureza ("Deus, sive Natura"). Para Espinoza, todo o universo é uma extensão de Deus.

Silva disse...


"Pelo menos em Portugal, os hosteis estão a ser vítimas de um grande ataque por parte do governo e autarquias esquerdistas com taxas, taxinhas e impostos e ainda uma campanha de que este tipo de turismo está a retirar as casas do mercado de arrendamento para habitação."

Caro PCV

Qualquer actividade empreendedora, por mais pequena e redutora, será sempre alvo dos esquerdopatas para limitar o efeito multiplicador e acelerador, além da acumulação de capital necessária a futuros negócios de maior dimensão.

Isto é o bê a bá do capitalismo.

Sair desta esquerdopatia, depende primeiro dos eleitores e depois dos governantes que deverão começar por implementar, rapidamente e em força, reformas estruturais a começar pela abolição do salário mínimo, liberalização dos despedimentos e abolição dos descontos seguindo-se outras reformas estruturais.

Económico-Financeiro disse...

Estimado David,
Obrigado e foi um erro meu, quem matou Deus foi Nietzsche.
De Anás para Caifás,
De Caifás para Pilatos,
De Pilatos para Herodes,
De Herodes para Nietzsche.
E Deus morreu.
Depois, vou corrigir no texto.

Anónimo disse...

Mesmo com todos os hosteis cheios, Portugal ainda não atinge a massa crítica populacional e de capital a partir da qual se desencadeia a reação em cadeia que está a alavancar a indústria das terceira e quarta revoluções industriais no resto da Europa. Mas não é preciso entrar em paranoia porque, por um lado, temos, cá dentro, a geração mais bem qualificada de sempre e, por outro lado, temos, lá fora, a geração mais bem remunerada de sempre. Basta apelarmos ao sentimento patriótico dos nossos emigrantes em França e na Venezuela, pedindo-lhes que regressem todos rapidamente a Portugal, trazendo o seu savoir-faire profissional, e se juntem a nós, com o nosso know-how académico e revolucionário, para que, em menos de uma década, a mistura produzida expluda e atire connosco para o nível de vida a que temos direito, acabando por cumprir, simultaneamente, Abril, matando assim, com uma só cajadada, dois coelhos.
A união faz a força. Como praticamente já não há burros em Portugal, será muito fácil a implantação da indústria comunico-digital nas regiões mais atrasadas onde os fogos continuam a lavrar.

Anónimo disse...

Estes negócios de hosteis, hotéis, restaurantes e similares estão a dar muito dinheiro em Portugal, mas ficam muito aquém do rendimento que se obtém de uma galinha poedeira de ovos de oiro. O desenvolvimento económico só será real e sustentável quando formos capazes de imitar as galinhas, que grão a grão enchem o papo e depois põem os ovos com que a Humanidade se tem deliciado ao longo dos séculos.
Ao contrário, os desgraçados trabalhadores proletários da Auto Europa não conseguem enxergar que com a fábrica parada não se vão produzir nem vender os automóveis que têm dado uma grande ajuda para que ainda não nos tenha faltado o pão na mesa. Eles devem pensar que teriam uma vida mais descansada se andassem na primavera a semear batatas e no verão a apagar incêndios florestais!
Estão redondamente enganados! Que persistam nas greves à século XIX e não lhes dou mais do que um par de anos até que os alemães se fartem e partam, de malas e bagagens, para a República Checa. Depois, nem a Santa Catarina Martins poderá salvá-los de seguirem com a orelha murcha as pisadas dos patrões, mas não acredito que vão além da França, onde perderão o pio, mesmo que vão parar à apanha da maçã.

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