domingo, 13 de setembro de 2015

38 - O problema

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (37 - O Navio)    




38 – O problema
Depois de terminados os abraços, era preciso tratar das coisas práticas, primeiro levar as pessoas ao alojamento, depois, tratar de arranjar roupa nova e, finalmente, falar do trabalho. A ideia do Sr. Jonas e demais confrades foi que tinham que ficar a viver no centro da cidade o que tinha o problema dos elevados custos das rendas. Mas não havia alternativa pois, para integrar na comunidade estas pessoas habituadas a viver no meio de um monte, não era aconselhável mandá-las para um subúrbio qualquer de Nova York, com longas e demoradas deslocações diárias. Além disso, o Dacosta financiou a viagem com 20000€ a pensar no lucro que teria no sub-arrendamento de dois apartamentos que geria na Lower East Side. As 31 pessoas iam ficar num apartamento com 4 quartos, uma sala, cozinha e uma casas de banho. O espaço era pequeno mas o facto de ser bem localizado compensava a lotação excessiva.
– Na vossa nova vida o mais caro é o alojamento e, por isso, vão começar por ficar aqui. É um pouco caro, este apartamento vai custar 1500€ por semana mas, sendo central, vão poupar tempo e dinheiro em transportes. O problema é que isto não é como a aldeia, aqui não podem fazer barulho!
Criou-se um burburinho entre as pessoas “Mas nós nunca poderemos pagar 1500€ por semana! São 50€ por pessoa cada semana, nós não vamos conseguir arranjar esse dinheiro!”
– Vão conseguir pagar vão, 50€ por semana não é grande coisa. Como vêm já tem móveis, nestes dois quartos ficam os homens e naqueles dois ficam as mulheres, 8 pessoas em cada quarto e ainda sobra um lugar.
– Isto está muito bem – disse o António – lá na aldeia não ficavam tantas pessoas juntas mas as casas ainda eram mais pequenas e a construção era muito pior. Além do mais, temos água corrente e electricidade o que, para o que estamos habituados, é um luxo. E nós viemos para a América para trabalhar, não foi para viver em grandes casas.
– Tio, como isto é um bocado apertado e como sou da família, penso que vou ficar a viver em sua casa! – disse o Joaquim.
– Não pode ser Joaquim, eu bem sei que és meu sobrinho mas seria um desrespeito para com os teus companheiros se tivesses um tratamento especial. O Dessilva escolheu-te pelas tuas qualidades e não por seres meu sobrinhos. Por isso, tens que desenvolver a tua vida da mesma forma que eles.
– Sabe tio, isso é uma injustiça porque está a pagar os estudos ao Rúben que é seu sobrinho neto e eu, que sou sobrinho e estou aqui, sou tratado como um desconhecido, isto é uma injustiça.
– Vamos terminar esta conversa que não nos leva a lado nenhum. O que interessa agora é que precisamos dar umas voltas, vamos arranjar umas roupas e vamos tratar do trabalho. Os homens vão trabalhar com o Sr. Levinstone que também é membro da confraria.
O Levinstone era um sub-empreiteiro de construção civil que também financiou o projecto da viagem com 80000€ e arranjou trabalho para os homens com a condição de receberem 3,50 €/h, salário que era o valor aceite pelas pessoas quando ainda estavam na aldeia mas bastante abaixo do que pagava aos outros trabalhadores que andava nos 6,00€/h.
– As senhoras – continuou o Sr. Jonas – vão trabalhar para com o Sr. Goldman em confecção de roupa. Como já lhes foi dito quando estavam na aldeia, irão ganhar 2,50€ por hora – O Goldman também tinha entrado com 80000€ e, por isso, também ia pagar menos que o corrente no mercado que, para as mulheres, andaria nos 4,50€/h. E podem trabalhar as horas que quiserem, se quiserem, podem fazer 12h por dia, 6 dias por semana.
O António começou logo a fazer contas e disse aos companheiros “Realmente, aqui ganha-se bem, um casal que trabalhe 10h por dia, vai ganhar 360€ por semana o que, retirando os 100€ para renda e 60€ para a comida e demais despesas, ainda vai poupar 200€!”
Na primeira semana tudo correu às mil maravilhas. O trabalho era razoável, muito melhor que cavar campo, e a casa, apesar de ser pequena para 31 pessoas, era confortável. E, realmente, no fim da semana, depois de pagas todas as despesas, ainda sobraram muitas centenas de euros.
Na segunda semana começaram os problemas com o Joaquim que, vendo que os companheiros de trabalho americanos ganhavam mais e que as rendas dos apartamentos semelhantes eram menores, não parava de repetir “Nós estamos a ser explorados!”
 – Joaquim, mas quando o Sr. Dessilva falou em virmos para cá, para podermos vir teria que haver alguém que financiasse a nossa viagem e arranjasse as cartas de chamada. Tua sabias as condições e aceitas-te-as! Se as aceitaste então, sendo tu um homem honrado, tens que as cumprir! Durante 5 anos tens que aceitar estas condições e, depois, podes ir à tua vida – dizia-lhe repetidamente o António.
– Tu não vales nada, és um zero à esquerda, um pau mandado, um velho, um falido, um sem pai, o meu tio pode não me respeitar como sobrinho que sou mas, mesmo assim, tu continuas a ser um zero.
A Ana, mulher do Joaquim, também o chamava à atenção “Joaquim, não faças barulho que os vizinhos vão-se queixar e temos que sair daqui, shiu, shiu, está calado”
– Que nos mandem embora pois estão a viver à nossa custa. E tu também não prestas para nada, estás vendida a esse António, o mais certo é seres amante dele, tu não vales nada, não prestas para nada. E não vou mais trabalhar!
A mulher não se cansava de lhe dizer “Pensa nos nossos filhos que deixamos na aldeia, lembra-te deles e das pessoas que ficaram lá” mas o Joaquim só dizia “Que se danem, que se aguentem que eu também aguentei muitos anos.”
Com o passar dos dias, tudo começou a descarrilar, queixas e mais queixas dos vizinhos por causa do barulho depois, vieram os roubos, em casa ninguém podia desacautelar a carteira que o dinheiro desaparecia para ser gasto em álcool e em mulheres. Por fim, começou a bater na mulher e a fazer desacatos e roubos na rua. O mais grave é que o comportamento do Joaquim foi contaminando três ou quatro companheiros que tinham a mente mais fraca, pessoas que na aldeia eram honradas e cumpridoras da sua palavra mas que agora começaram a preocupar-se mais com as noitadas do que com o trabalho. Na terceira semana, o todo foi tomado pela parte e os vizinhos começaram a pedir para que aquele grupo de “malandros, desonestos e desordeiros” fosse despejada.
No Sábado, na missa, o Sr. Jonas aproveitou para dar uma palavrinha ao António.
– Amigo António, isto está a ir de mal a pior. Está tão grave que tive que mandar uma carta ao Dessilva a dizer que não vou conseguir arranjar as cartas de chamada para os que ficaram na aldeia à espera. Apesar de o problema estar em 3 ou 4 pessoas e de a renda estar a ser paga, as pessoas daqui estão muito preocupadas com o evoluir da situação.
– Mas Sr. Jonas, é o seu sobrinho, não sei o que mais possa fazer, tenho-o chamado com insistência à razão mas ele não ouve ninguém, não vai trabalhar e estar continuamente a tentar sublevar as pessoas! O Sr. Dessilva também me disse para pedir ajuda às pessoas da confraria, será que o Sr. Jonas me pode indicar um caminho!
– O Dessilva viu em ti capacidade para resolver os problemas e eu, infelizmente, também não imagino o que poderás fazer.
– Sr. Jonas, são 3 ou 4 pessoas, nós os outros vamos segurar as pontas, pagar a renda e trabalhar para tentar compensar este problema até que se arranje uma solução.
Na aldeia, já tinham passado quase dois mês desde o dia em que os jovens partiram da aldeia. Sendo que o Dessilva já deveria ter voltado à aldeia para recomeçar as aulas de inglês e tratar da viagem do segundo grupo de jovens, nada disso tinha acontecido nem havia notícias.
O Dessilva não voltava porque tinha receio de que a Júlia tivesse tornado público que, afinal, ele era o Abel e que tinha matado o Alberto para poder roubar as ovelhas. Se isso tivesse acontecido, nunca mais poderia voltar à aldeia. “Será que foi um erro ter-lhe contado a verdade?” Pensava ele, “Mas talvez não porque, na madrugada da partida, quando o meu olhar se cruzou com o da Júlia, ela disse Newman e não Abel”. Por outro lado, tinha recebido a carta do Jonas a dizer que as cartas de chamada estavam suspensas.
As pessoas começaram a ficar preocupados muito preocupadas. Será que aconteceu alguma tragédia ao Sr. Dessilva? Será que aqueles jovens foram mesmo para ser vendidos aos turcos? O Sr. Costa, como grande impulsionador da viagem, era talvez a pessoa mais preocupada, dava voltas e voltas à cabeça na tentativa de encontrar uma forma de ter notícias do Sr. Dessilva mas não via como. Como era normal, os grandes problemas implicavam uma conversa com o Padre Augusto.
– Bom dia, Sr. Padre Augusto, a sua bênção.
– Deus te abençoe. Então, que te trás por cá, meu filho?
– Estou muito preocupado com o facto do Sr. Dessilva, já passaram 2 meses desde que nos deixou e nem voltou nem mandou qualquer notícia, os pais têm-me perguntado pelos filhos e eu não sei dizer nada. E o pior é que não faço ideia do que possa fazer para inverter a situação.
– Pois eu também tenho andado a pensar nisso, as pessoas têm-me vindo pedir para rezar por quem partiu. Claro que o mais fácil é pensar que Dessilva morreu pelo caminho e que os jovens que escaparam foram vendidos como escravos mas tenho a sensação que não é nada disso, é qualquer coisa que nos ultrapassa, aparecer de repente como que caído do Céu e desaparecer outra vez de repente como levado pelo vento, há aqui algo que nos está a escapar!
– Mas o que poderemos agora fazer? Já dei voltas e voltas à minha cabeça e não vejo como posso trazê-lo de volta.
– Antes de me vires fazer esta pergunta, rezei muito e tive uma ideia muito estranha mas também a questão é tão estranha que a solução vai ter que estar onde menos esperamos. Eu tive a inspiração de que só a Júlia é capaz de fazer o Dessilva voltar!
– Na Ti Júlia, a velhota?
– Exactamente, notei que entre o Dessilva e a Júlia há qualquer coisa inexplicável, a forma como na primeira reunião da confraria ele olhou para ela foi muito estranha. Depois, foi visitá-la várias vezes, ..., vais falar com ela que está ali a chave do problema!
– Mas, Sr. Padre, com todo o respeito, o que tem a Júlia de especial?
– Essa questão não nos interessa. Sendo que não temos solução para o problema, temos que a ir procurar numa pessoa que seja diferente de nós. Se não vemos a solução nas árvores, temos que a ir procurar nas pedras.
E assim o Sr. Costa o fez, mesmo sem esperança de que a Júlia pudesse resolver o problema, foi ao barraco procurar ajuda.
– Bom dia, Ti Júlia, venho cá a mando do Sr. Padre Augusto para ver se resolve o problema do desaparecimento do Sr. Dessilva, se faz qualquer coisa que o faça voltar para junto de nós. Confesso, que não tenho esperança que a senhora o consiga fazer mas o Padre Augusto pensa que é a única pessoa capaz de o fazer, que sabe qualquer coisa que nós não sabemos ...
– Bom dia Sr. Costa, eu não sei nada de especial mas, se o Espírito Santo disse ao Sr. Padre Augusto que eu tenho a solução para a ausência do Sr. Dessila, só tenho que me esforçar. Eu tenho estado a pensar e vou-lhe enviar uma carta.
– Uma carta?
– Sim, sim, uma carta, vou escrever uma carta que vai fazer o Sr. Dessilva voltar.
– Mas isso é impossível de dar resultado! Mas o que vai dizer essa carta?
– O Sr. Costa, por favor, ajude-me a escrever aqui uns dizeres e, depois, se achar bem, envie-a ao Sr. Dessilva. Aqui vai:
Ex.mo Sr. Newman Dessilva.
Pensei muito na conversa que tivemos à beira do ribeiro e , agora, estou com a certeza absoluta de que, naquele dia, o Abel morreu.
Júlia do Zenão
O Sr. Costa ficou estranho com a firmeza da Júlia e tentou contrariá-la “Mas esta carta não faz sentido! Isto é uma conversa sem sentido!”
– Se alguém tiver uma ideia melhor, o Sr. Costa avance com essa ideia, senão, meta esta carta ao correio. Se o Sr. Padre Augusto o enviou cá é porque o Espírito Santo lhe disse que isto vai dar resultado.
– E para onde mando a carta?
– Mande para a morada que tenho neste papel, “Meester goudsmid Jacob, Jodenbreestraat, Amsterdam”, pode ter a certeza que o Sr. Dessilva a vai receber.

– Bem, isto não vai dar em nada mas, como não tenho alternativa, vou mesmo ter que mandar a carta e que Deus nos ajude.

Capítulo seguinte (39 - O acidente)

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

37 - O navio

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (36 - Amesterdão)    


37 – O navio
Chegou a hora de embarcaram no transatlântico.
– Quando chegarem a Nova York, terão pessoas à vossa espera e já têm trabalho e casa onde morar. Claro que nem tudo serão rosas, que muitos problemas irão surgir na vossa nova vida mas, se nos dias de maiores dificuldades se lembrarem do sofrimento de quem ficou para trás, tudo será ultrapassado. Não se esqueçam também que o António segue viagem para vos ajudar a resolver esses problemas e também contem com as pessoas da confraria americana para vos ajudar – disse o Dessilva.
– Viva aos Sr. Dessilva – gritou alguém no meio do grupo e todos gritaram Viva.
– Entrem então no navio que as lágrimas já me estão a atacar os olhos!
Decorridos 14 dias, o navio chegou a Nova York. Foram saindo aquelas mais de 5000 pessoas, primeiro as da 1.ª classe, depois as da 2.ª classe e, finalmente, as da 3.ª classe. O processamento dos imigrantes demorava tempo porque tinham que passar, primeiro, pela alfândega, depois pela consulta médica a ver se não eram portadores de alguma doença infecciosa e, finalmente, pelos serviços de imigração. Uma coisa que notaram é que saberem inglês lhes tinha facilitado. e de que maneira. todo o processo. Compreendiam as tabuletas, as ordens dos oficiais e podiam perguntar coisas às pessoas que por lá passavam. As pessoas estiveram lá horas e horas à espera de ver se tudo estava em ordem, depois de um dia e uma noite inteira naquele processo, quem estava mais preocupado era o António que, metendo conversa com uma afro-americana, tipo de pessoa que ele nunca tinha visto, muito gorda que limpava o chão, viu uma oportunidade para sabe, antecipadamente, se alguém os esperava do lado de fora.
– A senhora, se faz favor, podia-me ajudar um pouco? Em princípio está um senhor lá fora à nossa espera mas, como não temos tido contacto com ele, não temos a certeza se ele estará ou não. A senhora, como tem livre-trânsito, podia fazer-nos o favor de ir lá fora e perguntar se alguém se chama Sr. Jonas do Zenão?
– Oh meu senhor, não é preciso eu ir lá fora para saber que realmente esse Sr. Jonas está à vossa espera. Ele até dormiu lá fora no chão, em cima de um cartão. E está não só ele À vossa espera como também umas 20 pessoas, homens, mulheres e até crianças. Devem ser muito vossos amigos pois, enquanto esperam, cantam e de dançar de alegria.
– Mas como é que a senhora sabe que são essas as pessoas que estão à nossa espera?
– Isso é muito fácil. Quantas pessoas é que pensa que existem em Nova York vestidas de preto dos pés à cabeça, com chapéu e os homens de barba comprida? Eu nunca vi uma coisa assim, até as crianças estão vestidas de preto e com um chapeuzinho.
– Muito obrigado minha senhora, muito obrigado, nem sabe como me deixou mais descansado.
O António chamou à atenção todos os seus companheiros de viagem para lhes dar as boas notícias.
– Companheiros, atenção, tenho boas notícias, a senhora com quem eu estive a falar disse-me que estão lá fora várias pessoas à nossa espera. Aleluia que o Sr. Jonas está mesmo à nossa espera e com uma comitiva.
Os oficiais dos serviços de saúde pública chamaram o António para lhe dar uma palavrinha.
– Bom dia, depois desta noite de sofrimento eu tenho uma má notícia para lhe dar, desconfiando que possam sofrer de tuberculose, o senhor e os seus companheiros vão ter que ficar duas semanas em quarentena. Se neste tempo a temperatura de alguém subir, terá que voltar para trás.
– Mas Sr. Oficial, nós somos magros mas não por termos qualquer doença, lá na Europa de onde vimos, termos uma vida muito dura. Por isso, pode confiar que não temos tuberculose. E acontece que temos lá fora pessoas à nossa espera que, concerteza, lhes podem dar a morada onde os serviços de saúde pública nos podem seguir. O senhor não quer fazer o favor de falar com eles?
– OK, vou então lá fora falar com eles. E como é que os encontro?
– É muito fácil, segundo já obtive informação, vai ver umas 20 pessoas pessoas parecidas connosco mas todas janotas, com roupas novas e bem tratadas. Não tem nada que enganar. Daqui a uns dias já seremos iguais a eles, vai ver.
O oficial foi lá fora e ficou convencido pelo que libertou as pessoas. Também a sua vontade não era grande pois ter pessoas em quarentena implicava custos. Quando as pessoas chegaram ao exterior dos serviços de imigração, a alegria foi muito grande, viam-se pessoas que, havia minutos, eram desconhecidas, abraçadas umas às outras e a chorar de alegria.
– Vocês vão ser um precioso reforço da nossa comunidade que precisa de braços para se desenvolver – disse o Jonas como cabeça da comissão de recepção.
– Sr, Jonas, eu sou o António Espírito Santo que o Sr. Dessilva escolheu como chefe, disse-me ele, “Por ser mais velho e ter capacidade para resolver todos os problemas que possam surgir”. Não me disse mais nada pelo que eu nem sei bem o que ele quis dizer com isso. Mas, para que o Sr. Jonas possa compreender a sua escolha, mandou-me entregar-lhe esta carta lacrada.
– OK António, o Dessilva mandou-me uma carta a dizer isso e que irias trazer uma carta lacrada com informação sobre este assunto – Nesse momento, o Joaquim chegou-se à frente.
– Peço a sua bênção – e beijou a mão ao tio – O meu pai e seu irmão manda-lhe muitos cumprimentos e disse que tem muitas saudades suas. Eu bem sei que o Sr. Dessilva escolheu o António como nosso chefe mas o tio vai ver que eu sou muito melhor do que ele não só por ser do seu sangue mas também por ser muito mais forte e ser mais jovem. Se é para resolver problemas, estou eu aqui, quem me fizer frente, leva uma marretada que nem sabe de que terra é.
– Bem Joaquim, o Dessilva viu qualidade no António que não viu em ti mas, concerteza, com o passar do tempo tudo poderá mudar, só o futuro é que o dirá. Não imagino as razões do Dessilva para ter tanta certeza na escolha do António mas deixa ver o que diz a carta, deixa-me ver o que ele aqui diz. Com licença.
O Sr. Jonas abriu o lacre da carta, desatou o fio que a atava e abriu a carta que, estranhamente, tinha apenas uma frase escrita.
 “Ninguém o sabia mas o Alberto tinha um filho que ainda estava no ventre da mãe e esse filho é o António.
O Jonas ficou pálido, as lágrimas vieram-lhe imediatamente aos olhos, olhou para o António e, realmente, viu semelhanças com o pai que o Dessilva tinha matado. “Não pode ser” pensou para consigo.
– Passa-se alguma coisa tio?
O Sr. Jonas não ouviu a interpelação do sobrinho, a sua mente voltou ao tempo em que o Abel, Dessilva, lhe apareceu em Amesterdão com os 25000€ e lhe contou como tinha conseguido o dinheiro.
– Passa-se alguma coisa tio? O tio está a ouvir-me? Passa-se alguma coisa?
– Não, não, não, não, isto é de não ter dormido, não sei o que o Dessilva quer dizer com isto, diz que o António é filho do Alberto que eu não me lembro quem era. Mas eu hoje sou rico por causa do Sr. Dessilva ter um olho especial para ver o verdadeiro valor das pessoas e, sendo que o Dessilva escolheu o António é porque, sem qualquer dúvida, é a pessoas mais indicada para a função. Joaquim, desculpa, mas nem que fosses meu filho, e eu tenho filhos, mas nunca eu passaria por cima da palavra do Dessilva. Para mim, uma palavra do Dessilva é mais forte que uma ordem de Deus.
– Mas tio, eu sou seu sobrinho, pense nisso, o António não presta, é um pobre que foi criado sem pai, lá na terra ninguém lhe liga.
– Ouve bem Joaquim, a partir de agora, o António vai representar-vos a todos junto de mim e das outras pessoas. Não comeces já a levantar problemas, estás a ouvir? Não levantes problemas pois o que temos mais por aqui são problemas e não quero que os outros americanos nos vejam com um grupo de malfeitores. Foi muito difícil criar a reputação de que somos sérios e trabalhadores, não vos chamamos para a América para que estraguem a nossa reputação. Agora, a vossa missão é trabalhar. Obedece ao António e não nos cries problemas.

O Joaquim ficou confuso. Se minutos antes o tio tinha dito “quem sabe no futuro”, porque será que aquela frase sem aparente informação tinha feto o tio mudar de opinião ao ponto de ter ficado agressivo? Que coisa estranha mas “Eu vou acabar por dar a volta à situação, eles não sabem do que eu sou capaz. É que afinal eu sou sobrinho dele, sou mais família que o Rúben e ele está-lhe a pagar os estudos em Amesterdão. Como o Sr. Dessilva não tem filhos e o meu tio Jonas praticamente também não, eu ainda vou ser dono de isto tudo.”

Capítulo seguinte (38 - O problema)

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

A nudez da Joana

Eu sou contra a cassete que a Joana Amaral Dias tem na cabeça. 
É uma mulher bonita mas amarga, sempre zangada contra tudo e contra todos, um constante debitar de um chorrilho de inconsequências mentais. 
A minha mãe também sofre dessa doença, fala horas seguidas coisas sem sentido, mas, desde há 8 dias, está muito melhor porque toma Haldol, 3 gotinhas de manhã e outras 3 à noite.
Realmente, estas gotinhas são milagrosas, apenas 3 gotinhas acabaram com as alucinações, a gritaria nocturna, as tremuras e as dificuldades respiratórias.  Eu até já pensei tomar uma gotinha de manhã.
Concerteza que se tomasse umas gotinhas destas, a carreira política da JAD acabava!

Mas o que eu queria dizer sobre a nudez da JAD.
A nudez das mulheres é como o Lince da Malcata ou o Lobo do Gerês que são pretextos para que o meio ambiente onde vivem seja preservado.
A nudez das mulheres compara-se porque são uma arma contra o conservadorismo e obscurantismo.
Quando uma mulher mostra a sua nudez está a quebrar tabus o que empurra a sociedade um pouco para a frente.
Quando um homem diz "és tão boa" não dá conta que faz parte de um movimento social que tenta parar o progresso.

Fig. 1 - A Joana sofre do problema da sociedade portuguesa, está grávida do primeiro filho aos 40 anos. 

Penso que deve custar.
Reparando para a roupa que as minhas alunas vão usando ao longo dos anos, se há 20 anos alguém vestisse  como hoje as raparigas vestem, seria um escândalo total.
Ouviram (e ouvem) muito "és boa" e coisas muito mais desagradáveis mas, ano após ano, empurram esses preconceitos um pouco mais para trás.
Eu sei que a nudez é uma arma numa sociedade de mentalidades atrasada porque também sou vitima disso, não por andar nu mas por usar a nudez feminina como arma de combate.E sou vítima disso.
Já os rapazes, vestem sempre da mesma maneira!

Eu só imagino isto.
Vocês não devem imaginar mas já tive processos disciplinares, inimizades, ataques porcos de colegas meus pelo facto, etc. por, de vez em quando, colocar umas mulheres boas meio despidas a ilustrar as minhas ideias.
Agora imaginem que as fotografias eram minhas, que eu era um mulher boa, com boas mamas, e que punha aqui fotografias minhas.
Imaginem que eu aumentava as mamas e ia dar aulas com um vestido justinho, tacão alto, minissaia e barba por fazer!


Fig. 2 - Eu poderia ter umas mamas boas como as do Leandro Cerezo

Já me tinham matado, queimado numa fogueira como fizeram os nossos antepassados aos judeus.
Regavam-se com gasolina e chegavam um fósforo.

Fig. 3 - Se as fotos fossem minhas, seria este o meu destino.

Uma mulher tem que ser discreta.
Uma mulher que ande descascada não pode atingir um lugar de destaque nos negócios, empresas ou instituições.
Têm que ser cinzentas para poderem vencer.
Até os estrema esquerdistas que deveriam estar na linha da frente contra esses preconceitos, atacaram a JAD.

Vamos ao Guterres.
Quer ser secretário geral da ONU.
Na ONU sentam-se os representantes de todos os países do mundo sendo, por isso, representativo da Humanidade. Por estranho que pareça, em 193 missões permanentes, só 40 são chefiadas por mulheres (vi no Blue book).
E as mulheres, tirando os USA, são de países esquisitos e inesperados como o Paquistão, a Nigéria, Timor Leste e mesmo a UAE.
Desde a sua fundação, dó houve 8 secretários gerais da ONU, da Noruega, Suécia, Myanmar, Áustria, Peru, Egipto, Gana e Coreia do Sul mas não houve nenhuma mulher.

Fig. 4 - Joy Uche Angela Ogwu

O que fez Guterres em comparação com Joy Uche Angela Ogwu, a embaixadora da Nigéria na ONU, uma mulher extraordinária que representa a maior economia de África, uma país com 185 milhões de habitantes?
Não faltam mulheres com muito valor por esse mundo fora não havendo qualquer necessidade de meter lá um sapo gordo e sem pescoço.

O Guterres sofre do problema do Rui Rio e de muitos outros.
Tem mais olhos que barriga não vendo as suas limitações.
Cada vez mais, penso que o melhor candidato presidencial é o Paulo Portas.
Político experiente, rato e diferente (usa capachinho).

Terminando com uma mensagem para a Joana Amaral Dias.
Força nisso. Deste conta que muitos dos teus amigos não são nem teus amigos nem o que apregoavam (a favor das ropturas sociais). 
E espero sinceramente que ainda tenhas saúde para ter mais 5 ou 6 filhos pois é mais fácil criar 6 filhos do que arranjar um eleitor para o Agir.

Mas eu sou cobarde.
Não era capaz de fazer uma fotografia como a da JAD.
Admiro de sobremaneira aquelas pessoas que lutam em condições muito difíceis pela liberdade de expressão, por exemplo, em Angola, muitas pagando com a própria vida.
Mas eu não sou capaz disso, ameaçam-me e eu recuo.

Pedro Cosme Vieira.

domingo, 6 de setembro de 2015

36 – Amesterdão

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (35 - A volta)    




36 – Amesterdão
As pessoas deitaram-se na palha e o comboio logo arrancou. Aquela noite, apesar de entrar vento frio pelas frinchas entre as tábuas que formavam as paredes da carruagem, o fogareiro, as mantas e o facto de estarem todos encostados uns aos outros permitiu que a viagem fosse razoavelmente agradável. Lá para as 11h da noite, o Sr. Dessilva achou que todos deveriam comer um pouco mais de broa e beber um chá quente feito no fogareiro.
Quando o dia nasceu, tinham sido percorridos talvez 200km, o comboio a vapor nunca dava mais de 25km/h e, por vezes, tinha que parar para que a linha pudesse ser limpa da neve. Estava na hora de fazer as necessidades fisiológicas a um canto da carruagem, sem qualquer privacidade, e de comer o pequeno-almoço. Lá fizeram aquela grande chaleira cheia agora de café turco e comeram mais broa de milho, chouriço, queijo e mel, pouco, porque os víveres e a água estavam a acabar. Foram andando, andando e, pelas 10h da manhã, o comboio parou, ouviam-se pessoas de botas a caminhar de um lado para o outro, “Chegamos à fronteira” – disse o Sr. Dessilva em voz muito baixa – “O barulho das botas indica que são guardas fronteiriços”. Se fossem na carruagem dos passageiros, teriam que mostrar os salvo-condutos o que poderiam não ser suficiente para atravessar a fronteira porque não tinham passaportes. Como a carruagem era de carga, estava lacrada por fora e, principalmente, porque o chefe da estação onde embarcaram tinha mandado um telex a dizer que a mercadoria estava autorizada a seguir viagem até Amesterdão, os guardas fronteiriços seguiram a sua marcha.
O chefe da estação, mandou o telex para evitar que alguém descobrisse a sua jogada de anular os bilhetes, o que lhe rendeu uns milhares de euros.
O comboio arrancou “Já conseguimos passar este obstáculo que era o mais difícil. Agora, já estamos praticamente no navio que nos há-de levar a Nova York.” - disse o Dessilva. O ambiente tornou-se então mais descontraído, de cavaqueira onde o Dessilva ia contando de como seria a vida na América. Na conversa, começou-se a notar novamente atrito entre o Joaquim, sobrinho do Jonas, e o António, preferido pelo Sr Dessilva por ter mais idade, ser muito trabalhador e ter experiência em negócio mas, mesmo que assim não o fosse, por ser filho do Alberto. É que, no fundo, a sua ida e a do Jonas para a América e todo o sucesso que, subsequentemente, conseguiram, teve origem na morte do Alberto. Se, naquela noite de há mais de 40 anos, o Abel, agora Dessilva, não tivesse matado o Alberto para roubar as ovelhas, não teriam tido o dinheiro necessário para a viagem e, uma vez na América, para arrancar com a ourivesaria. Então, mesmo sendo o Joaquim sobrinho do Jonas e estando este sem a companhia dos filhos, teria que ser o António a assumir o lugar que, por direito. “Não me vendo, prefiro a morte” foram as últimas palavras do Alberto que continuamente voltavam ao pensamento do Dessilva “Se este António tiver metade da integridade do pai, será homem para me suceder quando me reformar”.
– Sabe Sr Dessilva, até pode achar que o António é a melhor e a mais capacitada pessoa do mundo mas, quando chegarmos à América, os laços de sangue vão falar mais alto. Vai ver que o meu tio vai passar por cima dessa sua embirração e vou passar eu a mandar nestes parolos. Depois, eu mando-lhe uma carta a contar.
– Joaquim, não digas isso que até me assustas. Nós vamos para a América não é para bem do nosso umbigo mas sim para podermos ajudar os nossos filhos, pais, irmão, primos e demais pessoas que ficaram na aldeia à espera do nosso sucesso. Não te esqueças nunca que elas estão encalhadas naquele fim o mundo, cercadas naquele monte e que nós somos o farol das suas vidas, a última réstia de esperança que têm – disse o António.
– Estás completamente certo – disse o Dessilva – quanto mais te ouço, mais tenho a certeza de que, ao seleccionar-te como líder desta pequena comunidade, fiz a escolha mais acertada. E tu, Joaquim, não precisas de te preocupar com o António pois também tens valor senão não terias sido seleccionado, uma vez na América, vais ver que vais poder traçar o teu próprio projecto de vida.
O dia foi passando e veio a noite. Depois fez-se outra vez dia e a viagem foi acontecendo sem problemas excepto a sede que ia aumentando. O comboio parava e ouviam-se pessoas a passar mas o Dessilva tinha decidido que “O melhor é aguentarmos a sede pois falta pouco e são sabemos se estamos a atravessar território amigo ou hostil.”
Fez-se outra vez noite sem nada terem para comer nem beber. Quando o dia despontou de novo, seriam talvez umas 7h, o comboio tornou a parar e, desta vez, a língua parecia diferente “Já estamos na Holanda. Agora, mais uma ou duas horas e estamos na estação central de Amesterdão.”
– Deus o ouça, Deus o ouça – disse o António – que estamos todos com muita sede e  com receio do que nos possa acontecer pelo caminho.
– Isto vai rebentar quando estivermos mesmo a chegar ao destino, no momento exacto em que estivermos para entrar em Amesterdão, o comboio pára, desatrelam este vagão de carga e atrelam-o ao comboio que nos há-de levar de volta à nossa miséria. E isto se não nos mandarem para o fim do mundo e nos venderem como escravos aos turcos ou aos russos – disse o Joaquim como que a querer sublevar as pessoas.
– Não Joaquim, agora que entramos na Holanda, já não vai acontecer mais nenhum desses problemas. Agora estamos num país civilizado – disse o Dessilva – quando abrirem a carruagem será para nos darem uma ajuda, posso garantir isso porque já vivi neste país.
A viagem continuou e, decorrido o tempo previsto pelo Dessilva, o comboio parou – “Chegamos”.
Nesse momento houve um hurra de alegria o que, por não ter sido feito com o devido cuidado, foi logo ouvido por alguém que passava. “Bring mig en tang, fordi det ser ud som jeg har hørt folk tale – Tragam-me um alicate pois parece que ouvi pessoas a falar”. Era um oficial a apontar para a carruagem. Veio o alicate, cortaram o cadeado e correram a porta lateral. De dentro saiu um bafo de ar pérfido por causa de 32 pessoas viverem há já alguns dias dentro de um espaço pequeno sem quaisquer condições de salubridade. Vendo a porta a correr, as pessoas levantaram-se e encostaram-se à parede mais afastas da porta “É agora que no vão prender e mandar de volta” disseram em uníssono “Sr. Dessilva, veja se nos salva desta.” E começaram a recitar salmos em voz baixa "O Senhor é meu pastor, nada me faltará". O funcionário dos comboios olhou mas, a principio, não compreendeu o que se passava dentro da carruagem. Passados apenas alguns segundos, porque os seus olhos se habituaram ao ambiente de menor luminosidade, começou a ver aquelas pessoas, sujas, vestidas com roupa preta muito velha e toda cheia de remendos, as mulheres com lenços pela cabeça também velhos e os homens de longas barbas e com chapéus pretos muito cebados, todos muito magros, como se já não comessem havia meses. “Min Gud! – Meu Deus!” Disse o holandês. Nesse momento, aquele homem louro que, com os 2 metros de altura e 130 kg de peso, parecia um armário, um king kong branco, foi-se abaixo. De forma instantânea, as lágrimas começaram a correr-lhe pela face abaixo e o homem não parava de repetir “Min Gud! Min Gud! Min Gud!”. Nesse momento, o Sr. Dessilva avançou e começou a falar em inglês.
– Boa tarde Sr. Oficial, o meu nome é Newman Dessilva, sou americano, está aqui o meu passaporte e estas pessoas estão comigo em trânsito para a América, estão aqui os salvo-condutos.
O oficial olhou para o Sr. Dessilva e começou a falar em inglês “Meu Deus, de que terra de selvagens vêm vocês? Quem vos enfiou nesta carruagem como se fossem animais? Se eu não estivesse a ver com os meus próprios olhos nunca me acreditaria de que isto está mesmo a acontecer. Meu Deus, Tu que, no tempo do Noé, destruíste o Mundo com o Dilúvio porque os homens eram maus, o que podes fazer agora para castigar tamanha desumanidade? Vocês vão ter que sair desta carruagem já”.
– Nós vamos a caminho da liberdade – Disse o António num inglês um pouco deficiente – vamos para um terra onde seremos homens e mulheres. O senhor, por favor, deixe-nos seguir viagem para podermos apanhar o navio para a América.
– O senhor não está a compreender, têm que sair desta carruagem porque já chegaram ao destino, agora serão tratados com humanidade.
Nesse momento, as pessoas encostaram-se ainda mais para longe da porta, todos amontoados a uma canto, umas a furar por entre as outras como enguias a tentar escapar da morte certa, como se fossem animais cujo destino era o matadouro. No entretanto, o Sr. Dessilva tomou a palavra.
– O senhor permita que eu possa descer para podermos conversar com mais calma – Desceu então para o cais – É que as pessoas estão muito assustadas com o que se passou na viagem, pensam que o senhor nos vai obrigar a descer para os devolver à origem ou para os vender como escravos. Se tudo correu como o combinado, há pessoas à nossa espera, se fosse possível eu ir procurar quem nos espera, tudo ficaria mais calmo!
– Realmente, o Mestre Jacob tem vindo todos os dias perguntar por notícias deste comboio internacional! Os senhores venham então comigo procurá-lo que deve estar lá mais à frente, na parte das carruagem de passageiros.
Ao verem que o Sr. Dessilva se afastava, o Joaquim agitou-se “O Sr. Dessilva? Onde está o Sr. Dessilva? Onde é que está o vosso salvador? Parece que, afinal, o Sr. Dessilva vos abandonou!”
– Deixa-te disso Joaquim – disse o António – deixa de tentar assustar as pessoas, o Sr. Dessilva foi tratar do nosso alojamento. Como o barco é só daqui a 4 dias, no entretanto, é necessário arranjar um sítio onde possamos ficar. Além do mais, ainda existem burocracias que é preciso tratar. Não se preocupem que ele volta já com ajuda.
– Disse-te a ti ..., mas quem pensas tu que és? Tu não passas de um parolo, se ele tivesse alguma coisa a dizer era a mim que sou sobrinho do Sr. Jonas. Não te esqueças do que eu te vou dizer: se não baixas rapidamente essa crista, quando for eu a mandar, faço-te a vida negra. Não te esqueças que eu sou o sobrinho e que tu és o nada, és o zero à esquerda, igual a todos estes pategos que nunca viram mundo.
– António, António, deixa que o António foi o escolhido pelo Sr. Dessilva e, se não fosse ele, tu terias morrido quando atravessamos o monte. – disse a Ana, a mulher do Joaquim.
– Calou mulher que quando fala o galo, cala-se a galinha. Aqui, quem manda sou eu. E se alguém disser que não, vai ter que se haver comigo.
E realmente o Joaquim metia medo. Era uma pessoa magra, de corpo seco mas, em comparação com os outros, era um latagão e tomado pela raiva.
Nesse entretanto chegou o Sr. Dessilva acompanhado por alguns senhores. Eram homens idênticos aos da aldeia, barbas compridas, roupas pretas, chapéu, mas todos vestidos com roupas impecáveis, tudo bem passado a ferro e mais gordos. Foi um choque porque nunca tinha passado pela cabeça daqueles jovens que pudesse haver pessoas idênticas a si mas num ambiente civilizado. Maior choque foi quando essas essas pessoas começaram a falar na língua que falavam no monte.
– Boa tarde, eu sou Jacob, mestre joalheiro, e estes são os meus companheiros da confraria. Estamos aqui para vos dar as boas vindas a Amesterdão e para garantir que se sentem bem enquanto não embarcam no navio que vos há-de levar para Nova York onde vos aguarda uma nova vida. Eu conheço o Sr. Jonas e o Sr. Dessilva há muitas dezenas de anos, fui aprendiz juntamente com o Jonas, já faz uns 40 anos. Se já sabem que o Dessilva é uma pessoa extraordinária, quando chegarem à América, também vão ver que o Jonas é um autêntico anjo que veio à Terra. Nós sabemos que pessoas como vocês vivem em sofrimento por essas montanhas, vamos recebendo informação por quem, ao longo do tempo, consegue sair de lá. Algumas dessas vivem cá mas a maioria está na América. Podem achar estranho mas, em pequeno, o meu pai viveu na Aldeia do Monte e muitos mais que vivem aqui têm, pelo menos, um antepassado que nasceu na aldeia.
– Mas o pai do Sr. Jacob era da nossa aldeia? Como é que se chamava a ver se alguém ouviu falar dele? – Continuou o António para criar pontes de confiança.
– Ninguém deve saber nada dele pois, se fosse vivo, já teria mais de 100 anos. Nasceu lá e, depois, foi nas tropas do Arquiduque combater os turcos. Foi feito prisioneiro, viveu alguns anos na Turquia como escravo mas, como aprendeu turco, acabou por ser comprado por um mercador veneziano para ser seu tradutor que, mais tarde, o enviou para Amesterdão como seu agente passando a viver como homem livre. O nome dele era Uriel Gilete e, dizia ele, morava no lugar da Arroçada. Haverá aqui alguém que já tenha ouviu falar neste nome, Uriel Gilete do lugar da Arroçada?
Fez-se silêncio uns minutos “Realmente interessante, o problema é que nem Arroçada é um lugar da nossa aldeia nem existe ninguém que se chame assim, Gilete!”. Mas nesse momento, além deu um grito de exclamação “Não é Gilete, é Gineta, é Uriel do Gineta e era irmão do meu avô e não é Arroçada mas sim lugar da Roçada. É mesmo, eu já ouvi falar desse meu tio avô Uriel do Gineta, confirma-se, e esse meu tio avô, foi mesmo, dizia o meu avô, um dos desaparecidos na guerra com os turcos, foi para nunca mais dar sinais de vida, confirma-se. Até hoje, todos pensamos que teria morrido na guerra.” E toda a gente bateu palmas.
– Não morreu e eu sou seu filho!
– Extraordinario,  a Rute vir encontrar em Amesterdão o Mestre Jacob como seu primo, extraordinário e, ainda mais improvável, é o Mestre Jacob ter uma prima que é casada com o sobrinho do Sr. Jonas, o Joaquim, mas vamo-nos deixar desta conversa fiada e vamos tratar então do alojamento – disse o Sr. Dessilva.

Capítulo seguinte (37 - O navio)

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

A melhor solução para o Novo Banco é o canibalismo

A Resolução Bancária é uma filosofia errada. 
Imagine que quer vender o seu carro em segunda mão e um amigo disse-lhe estar interessado.
Na sua mente, "o carro vale pelo menos 1000€" mas, na mente do seu amigo, "o carro vale no máximo 500€".
Se vender pelos 1000€, o seu amigo vai pensar que se aproveitou da amizade para o explorar enquanto que, se o vender por 500€, vai pensar que, afinal, o seu amigo só se quis aproveitar da sua amizade.
Afinal, um pequeno negócio vai por em causa uma amizade de anos.

A solução é "ir ao mercado."
Vão os dois dar uma volta pelos stands de usados da sua redondeza. Imaginemos que visitando 3 stands onde regateiaram o preço de compra de de venda, obtiveram 3 propostas:
   Stand 1 - "Como o vou vender por uma máximo de 850€, só lhe posso dar 550€ por ele"
   Stand 2 - "Como o vou vender por uma máximo de 750€, só lhe posso dar 500€ por ele"
   Stand 3 - "Como o vou vender por uma máximo de 800€, só lhe posso dar 450€ por ele"
O máximo que consegue pela venda do seu carro são 550€ enquanto que o mínimo que o seu amigo consegue para comprar o carro são 750€.
Então, o justo será fazer um preço de 650€ que resulta de dividir a margem dos stands a meio (550€ + 750€)/2

Vejamos o problema da Resolução Bancária.
O modelo de Resolução tem um grave problema que ficou evidente na falência do BES.
Como o fundo de Resolução garante as perdas da falência, está aberta a porta do inferno de que o BES-Angola foi uma amostra.
Passo 1 - Peço 100 milhões € emprestados a um "amigo angolano".
Passo 2 - Abro um banco em Portugal com 100 milhões € de capital.
Passo 3 - 10 mil "meus amigos" abrem uma conta onde metem, cada um, 100 mil €, fazendo um total de 1000 milhões € de depósitos (um Core Tier 1 confortável).
Passo 4 - Empresto todos o activo, os 1100 milhões €, a "outro amigo angolano" que vai à falência.

Passo 5 - O Fundo de Resolução toma a obrigação de pagar os 100 mil € a cada um dos "meus amigos."
Passo 6 - O "outro amigo angolano" paga 200 Milhões € ao "amigo angolano" (100 milhões de juros), fica com 100 milhões € de comissão e dá-me o resto.
No final - Fico com o Banco Mau que não tem activos e tem como passivo os meus 100 milhões € de capital que acabo por perder. Mas também fico com os 800 milhões € que recebo do meu "outro amigo angolano".

Já estão a perceber como funcionou a falência do BES + BES Angola?
É que, como disse o Álvaro Sobrinho, "o dinheiro nunca entrou em Angola"!

No BES deveria ter sido liquidado no mercado.
Realizava-se uma sessão de liquidação do BES em que se chamavam todos os potenciais compradores, incluindo todos os accionistas e credores do BES.
Cada cliente, cada contrato, cada balcão, cada empregado, eram negociados entre os compradores potenciais que aparecessem a jogo numa sessão especial da bolsa de valores. 
No fim de realizadas todas as transacções pelo preço que desse, não haveria ninguém a demandar fosse quem fosse porque as transacções tinham sido realizadas de forma transparente.

Fig. 1 - O BES deveria ter sido desmembrado mas ainda não é tarde para desmembrar o NB

O valor apurado das vendas.
Pegava-se no dinheiro todo, seriavam-se os encargos do BES da forma que a lei diz dever ser (primeiro, os depósitos bancários, e, depois, continuava-se por ai abaixo) e pagavam-se os que houvesse dinheiro para pagar. 
Quando acabasse o dinheiro, não se pagava mais nada, onde não há, rei perde.
Era uma falência justa e transparente em que não haveria Banco Bom a quem as pessoas pudessem vir no futuro a pedir contas.

O BES faliu, ponto final.
Se faliu, terá que haver prejudicados.
Ao criar-se uma divisão entre "activos e obrigações boas" e "activos e obrigações maus" sem haver uma avaliação pelo mercado, todo o processo está manco, vai ser vítima de demandas judiciais e de manifestações.
Todos os que caíram no Banco Mau vão querer que os tribunais ou os políticos façam com que os seus activos passem para o Banco Bom.
Isto é um problema que se vai arrastar anos e anos e anos nos tribunais e nas campanhas eleitorais pelo que a venda do Novo Banco está inviabilizada a menos que o Fundo de Resolução assuma, como fez o Estado na venda do BPN, os riscos.
E era isso que queriam os chineses até porque o Banco de Portugal e a CMVM podem-se lembrar, daqui a uns meses, que o Novo Banco tem que assumir encargos que hoje acham que não.
Se me lembro, o Banco de Portugal, chegou a dizer que o BES teria que assumir todo o papel comercial que vendeu nos seus balcões e só voltou atrás porque o Novo Banco representa encargos para o sistema bancário!
Ninguém sabe o que pensará o Carlos Costa quando o Novo Banco for chinês. 

Agora, a solução só pode passar pelo canibalismo. 
Nunca é tarde de mais para resolver os problemas pelo que, agora, ainda é tempo para arranjar uma boa solução.

Tem que se voltar ao mercado.
Juntar todos à mesa e começar a transaccionar os activos e os passivos do Novo Banco.

Fase 1 - A opção.
São chamados o BES em termos colectivos (Banco Mau) e todos os seus accionistas e credores em termos individuais para, querendo, comprar no todo ou em parte o capital do Novo Banco ao valor nominal.
Esta fase tem por fim evitar futuras questões legais pois, se não quiserem comprar, não se podem queixar.

Fase 2 - A dispersão.
O capital do Novo Banco sobrante da Fase 1 é disperso pelos responsáveis pelo financiamento do Fundo de Resolução Bancária (pelos bancos a operar em Portugal) proporcionalmente à sua cota de mercado e ao valor nominal. Se da Fase 1 não resultar nenhuma venda, teremos a CGD, BCP, BPI e Santander Totta com 65% do capital do Novo Banco.

    Banco   .  Activos . Quota .  Capital no NB
    CGD       .  100,2 .  25%  .  1216M€
    BCP        .   76,6  . 19%   .    929M€
    BPI          .  42,6  .  11%  .    517M€
    Santander .  41,5  . 10%   .    503M€
    Pequenos . 143,0  . 35%  .   1735M€

Como actualmente são os bancos a assumir os riscos da venda do NB, continuarão assim os riscos e prejuízos distribuídos por todos.

Fase 3 - A digestão.
O capital, os  activos e os passivos do Novo Banco são aberto à negociação (em bolsa) podendo assim uns bancos desfazerem-se da sua posição e outros reforçarem-na ao preço que der.
Também poderão ser comprados activos e passivos individuais, contratos, balcões, clientes e trabalhadores.
A negociação é aberta a todos os agentes económicos, accionistas ou não do Novo Banco. 
Nesta sessão também serão transaccionados os activos e passivos do Banco Mau.

Pode acontecer, 
o que não acredito, que o resultado final seja o Novo Banco continuar a operar como um banco comercial mesmo que mais pequeno. Mas, o mais certo, é que o NB desapareça totalmente, que seja totalmente digerido pelo sistema bancário.
E, havendo tantos bancos em Portugal, o seu desaparecimento não irá deixar os consumidores sem alternativas. 

Fig. 2 - Nasceu com um pequeno problema mas o resultado final nem foi mau de todo.

Pedro Cosme Vieira

35 - A volta

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
______________________

Ver o capítulo anterior (34 - O comboio)    


35 – A volta
No quarto dia de terem partido, já quando era quase noite, os carregadores, os pastores, os burros e os cães chegaram de volta à aldeia. Muitas pessoas se abeiraram para saber notícias da viagem, pais, filhos, irmãos, cunhados, tios, primos e vizinhos dos jovens que partiram. Também estava à porta da aldeia o Sr. Costa ansioso por ouvir notícias da boca do Dessilva, seu hóspede e já amigo que, estranhamente, não voltou.
– Homens, o que se passou? Onde está o Sr. Dessilva? Não me digam que ele não aguentou a viagem! Ai meu Deus que aconteceu a tragédia que eu tinha antecipado!
– Não Sr. Costa, não aconteceu nada disso, o Sr. Dessilva até mostrou uma vitalidade impressionante. Veja só que o Joaquim, o filho da Isabel do Jonas, aquele fortalhaço, é que esteve quase a morrer enquanto que o Sr. Dessilva se manteve sempre fresco como uma alface, o homem é de fibra! O que aconteceu é que ele seguiu viagem para Amesterdão. O senhor nem imagina as dificuldades por que passamos para chegar à Cidade e, depois, o que o Sr. Dessilva teve que fazer para que as nossas pessoas conseguissem embarcar no comboio, fomos tratados de forma pior que tratam os animais, pior do que nos tratam os do Vale. Vendo o que se passou, calculou que, se não fosse no comboio, nunca as nossas pessoas conseguiriam atravessar a fronteira e, sacrificando-se como eu nunca pensei ser possível numa pessoa de tão fino trato, foi com os nossos jovens numa carruagem de carga. Eu nem imaginava como era o mundo que nos rodeia, nós estamos protegidos aqui na nossa terra mas, fora daqui, o mundo é mau. Mesmo depois de o Sr. Dessilva ter pago mais de 3000€ pelos bilhetes de comboio, tiveram que ir todos numa carruagem de carga.
– Mas então o Sr. Dessilva foi para Amesterdão? E se ele não voltar? Estou a ver que ainda me vão acusar de ter ajudado um farsante a mandar aqueles nossos jovens para a escravatura ou talvez mesmo para a morte!
– Não, não Sr. Costa, bastaram aqueles 2 dias para vermos que o Sr. Dessilva é um homem às direitas, um anjo que desceu dos céus, mesmo que os nossos jovens se percam, que sejam reduzidos à escravatura ou mortos, não será por ele não tentar com o máximo das suas forças e dinheiro para que tudo corra bem. E ele disse que voltaria e tenha a certeza que vai voltar assim que o possa fazer, até mandou uma carta a relatar o que se passou e o que pensa fazer. Temos que ter esperança pois o Sr. Dessilva, até hoje, sempre cumpriu o que prometeu, ponho as minhas mãos no fogo por ele.
– Dê-me então essa carta se faz favor. Pegando na carta, deu-lhe uma vista de olhos e depois leu-a em voz alta “Amigos, vou-vos ler a carta que o Sr. Dessilva escreveu hoje de manhã”
“Amigo Costa,
Eu tinha planeado meter os jovens no comboio e voltar com os carregadores à aldeia mas as coisas complicaram-se muito pelo que tenho que seguir viagem até Amesterdão. É que antecipo que, sozinhos, nunca conseguirão passar a fronteira.
Aguarde por mim que tenho fé que, no mais tardar, daqui por 15 dias já estarei de volta.
Tenho a certeza que vai tudo correr pelo melhor, com a vontade de Deus.
Newman Dessilva”
– O Sr. Costa não imagina como o Sr. Dessilva faz as coisas acontecer. Ele mexe-se como uma enguia, usa as palavras de tal forma que laça o mais avisado. Veja só que, na estalagem, ele começou por perguntar quanto o estalajadeiro levava para dar pouso e comida aos animais. Depois, quando o estalajadeiro disse que não nos deixava pernoitar porque não passávamos de animais, ele pegou na palavra que ele tinha dito relativamente à pernoita dos animais e, já que éramos todos animais, podíamos também ficar junto com os burros e com o cães. Deu ali a volta ao homem como eu nunca pensei ser possível e ainda nos deu sopa quente para lá e para cá, claro que também ajudou ter dado 500€ ao homem!
– Sabe que, se ele fez fortuna na vida, é porque tem capacidades que nós não temos.
– E havia de ver o que se passou no embarque no comboio, o homem parece que advinha o futuro. Primeiro, ficamos longe da estação e foi ele sozinho comprar os bilhetes, largou mais de 3000€ na bilheteira. Depois chamou-nos e, como tinha previsto, assim que chegamos perto da estação, veio o chefe dizer que não podíamos entrar porque no comboio já não havia mais lugares. Nessa altura o Sr. Dessilva apareceu com os bilhetes na mão e o chefe ficou derrotado. E a preparação da viagem, o ter levado a lenha e aquela chaleira especial que mandou fazer, o ter obrigado as pessoas a levar as mantas, se não fosse a sua antecipação dos perigos, a sua força e o seu dinheiro, a grande maioria das pessoas teria ficado no monte morta e, os que escapassem, estariam hoje de volta connosco pois ninguém teria conseguido embarcar. O homem, com aquelas falinhas mansas, faz autênticos milagres.
No meio daquela multidão que se juntou também estava a Isabel do Zenão, a sua irmã Júlia e a filha Maria José.
– O Sr.a Isabel, chegue-se aqui. Sabe, o seu filho, o Joaquim, aqui em baixo é muito forte mas, lá em cima, é como uma criança – disse um dos pastores e todos se riram – Quando chegou ao cimo do monte, foi-se abaixo de tal maneira que se não fosse o conhecimento do Sr. Dessilva, ele tinha batido a bota. Começou por ter falta de ar, depois começou a delirar e, por fim, caiu redondo no chão, já quase não falava e mal respirava. O que o safou foi o Sr. Dessilva ter-lhe dado logo chá quente com mel e tê-lo posto em cima de um burro embrulhado em mantas. Logo à noite, nas orações, não se esqueça do Sr. Dessilva pois, se não fosse aquele homem, por esta hora o Joaquim já estaria morto, algures enterrado naquela neve do cimo do monte que tivemos que atravessar. O Joaquim e mais alguns que cá em baixo se diziam muito fortes!
– Diga-me jovem pastor, e o Sr. Dessilva ficou bem? – Perguntou a Júlia.
– Como eu já disse, parecia uma alface. Nós todos a fraquejar e o homem sempre fresco. Aquele homem só pode ser de outro mundo, faz-me lembrar a história do Profeta Moisés que abriu o mar mas, neste caso, o Sr. Dessilva abriu o cume do monte para que pudéssemos passar. Aquele homem vai durar pelo menos até aos 100 anos!
– E ele e o António deram-se bem na viagem? – A Júlia estava preocupada porque sabia que se iria repetir o trajecto da outra viagem trágica em que o pai do António, o Alberto, morreu às mãos do Abel, do agora Newman Dessilva. E como a fisionomia do António era parecida com a do pai ...
– Sr. Júlia, nem imagina como aqueles homens se dão bem, é tal a amizade que, quem não o soubesse, diria que eram pai e filho. Sim, sim, o Sr. Dessilva até parecia ter um sentimento pelo António mais forte do que teria se fosse pai dele, uma coisa inexplicável, para onde ia um, logo ia o outro atrás.
A Júlia tinha passado noites em claro a pensar no crime que o Abel tinha cometido, passando vezes sem conta pela sua cabeça a pergunta “Será que  um homem que cometeu tamanho crime se pode redimir?” A morte do Alberto foi uma grande tragédia que não poderia ser anulada, terminar assim a vida de um jovem, e ninguém poderia apagar as consequências do seu desaparecimento, o sofrimento da viúva e do seu filho, tudo o que poderia acontecer e que não acontecer, a crianças que poderiam ter nascido e que não nasceram. “Será que o Abel pode compensar tudo isso com o esforço que, enquanto Dessilva, está agora a fazer para que aqueles casais tenham uma nova vida na América?” Quando o Abel matou o Alberto e roubou as ovelhas, estava apenas a pensar no seu futuro, teve pensamentos egoístas, queria fugir da miséria em que vivia mas de uma forma cobarde, sem se preocupar com quem deixava para trás. Mas decorridos tantos anos, parece que naquele dia, Deus, vendo a perdição daquele povo e não podendo intervir directamente, o escolheu para que fosse a pessoa que ia por esse mundo fora à procura de ajuda. E, para isso, num primeiro momento, Deus encheu-o de egoísmo para, logo depois, lhe ter mudado o pensamento a ponto de, enquanto Dessilva, ter dedicado toda a sua vida de trabalho para, agora, poder ser dada uma segunda vida àqueles jovens cujos pais e avós o Abel deixou para trás. Talvez Deus tenha obrigado o Abel um para que o Dessilva pudesse salvar muitos mais, talvez tivesse sacrificado um homem para salvar todo um povo. 

– Graças a Deus que assim aconteceu pois bem precisam um do outro. O António porque foi criado sem pai e o Sr. Dessilva porque nunca soube o que era ter um filho. Graças a Deus que se tiveram um ao outro. 

Próximo capítulo (36 - Amesterdão)

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