quarta-feira, 2 de setembro de 2015

35 - A volta

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (34 - O comboio)    


35 – A volta
No quarto dia de terem partido, já quando era quase noite, os carregadores, os pastores, os burros e os cães chegaram de volta à aldeia. Muitas pessoas se abeiraram para saber notícias da viagem, pais, filhos, irmãos, cunhados, tios, primos e vizinhos dos jovens que partiram. Também estava à porta da aldeia o Sr. Costa ansioso por ouvir notícias da boca do Dessilva, seu hóspede e já amigo que, estranhamente, não voltou.
– Homens, o que se passou? Onde está o Sr. Dessilva? Não me digam que ele não aguentou a viagem! Ai meu Deus que aconteceu a tragédia que eu tinha antecipado!
– Não Sr. Costa, não aconteceu nada disso, o Sr. Dessilva até mostrou uma vitalidade impressionante. Veja só que o Joaquim, o filho da Isabel do Jonas, aquele fortalhaço, é que esteve quase a morrer enquanto que o Sr. Dessilva se manteve sempre fresco como uma alface, o homem é de fibra! O que aconteceu é que ele seguiu viagem para Amesterdão. O senhor nem imagina as dificuldades por que passamos para chegar à Cidade e, depois, o que o Sr. Dessilva teve que fazer para que as nossas pessoas conseguissem embarcar no comboio, fomos tratados de forma pior que tratam os animais, pior do que nos tratam os do Vale. Vendo o que se passou, calculou que, se não fosse no comboio, nunca as nossas pessoas conseguiriam atravessar a fronteira e, sacrificando-se como eu nunca pensei ser possível numa pessoa de tão fino trato, foi com os nossos jovens numa carruagem de carga. Eu nem imaginava como era o mundo que nos rodeia, nós estamos protegidos aqui na nossa terra mas, fora daqui, o mundo é mau. Mesmo depois de o Sr. Dessilva ter pago mais de 3000€ pelos bilhetes de comboio, tiveram que ir todos numa carruagem de carga.
– Mas então o Sr. Dessilva foi para Amesterdão? E se ele não voltar? Estou a ver que ainda me vão acusar de ter ajudado um farsante a mandar aqueles nossos jovens para a escravatura ou talvez mesmo para a morte!
– Não, não Sr. Costa, bastaram aqueles 2 dias para vermos que o Sr. Dessilva é um homem às direitas, um anjo que desceu dos céus, mesmo que os nossos jovens se percam, que sejam reduzidos à escravatura ou mortos, não será por ele não tentar com o máximo das suas forças e dinheiro para que tudo corra bem. E ele disse que voltaria e tenha a certeza que vai voltar assim que o possa fazer, até mandou uma carta a relatar o que se passou e o que pensa fazer. Temos que ter esperança pois o Sr. Dessilva, até hoje, sempre cumpriu o que prometeu, ponho as minhas mãos no fogo por ele.
– Dê-me então essa carta se faz favor. Pegando na carta, deu-lhe uma vista de olhos e depois leu-a em voz alta “Amigos, vou-vos ler a carta que o Sr. Dessilva escreveu hoje de manhã”
“Amigo Costa,
Eu tinha planeado meter os jovens no comboio e voltar com os carregadores à aldeia mas as coisas complicaram-se muito pelo que tenho que seguir viagem até Amesterdão. É que antecipo que, sozinhos, nunca conseguirão passar a fronteira.
Aguarde por mim que tenho fé que, no mais tardar, daqui por 15 dias já estarei de volta.
Tenho a certeza que vai tudo correr pelo melhor, com a vontade de Deus.
Newman Dessilva”
– O Sr. Costa não imagina como o Sr. Dessilva faz as coisas acontecer. Ele mexe-se como uma enguia, usa as palavras de tal forma que laça o mais avisado. Veja só que, na estalagem, ele começou por perguntar quanto o estalajadeiro levava para dar pouso e comida aos animais. Depois, quando o estalajadeiro disse que não nos deixava pernoitar porque não passávamos de animais, ele pegou na palavra que ele tinha dito relativamente à pernoita dos animais e, já que éramos todos animais, podíamos também ficar junto com os burros e com o cães. Deu ali a volta ao homem como eu nunca pensei ser possível e ainda nos deu sopa quente para lá e para cá, claro que também ajudou ter dado 500€ ao homem!
– Sabe que, se ele fez fortuna na vida, é porque tem capacidades que nós não temos.
– E havia de ver o que se passou no embarque no comboio, o homem parece que advinha o futuro. Primeiro, ficamos longe da estação e foi ele sozinho comprar os bilhetes, largou mais de 3000€ na bilheteira. Depois chamou-nos e, como tinha previsto, assim que chegamos perto da estação, veio o chefe dizer que não podíamos entrar porque no comboio já não havia mais lugares. Nessa altura o Sr. Dessilva apareceu com os bilhetes na mão e o chefe ficou derrotado. E a preparação da viagem, o ter levado a lenha e aquela chaleira especial que mandou fazer, o ter obrigado as pessoas a levar as mantas, se não fosse a sua antecipação dos perigos, a sua força e o seu dinheiro, a grande maioria das pessoas teria ficado no monte morta e, os que escapassem, estariam hoje de volta connosco pois ninguém teria conseguido embarcar. O homem, com aquelas falinhas mansas, faz autênticos milagres.
No meio daquela multidão que se juntou também estava a Isabel do Zenão, a sua irmã Júlia e a filha Maria José.
– O Sr.a Isabel, chegue-se aqui. Sabe, o seu filho, o Joaquim, aqui em baixo é muito forte mas, lá em cima, é como uma criança – disse um dos pastores e todos se riram – Quando chegou ao cimo do monte, foi-se abaixo de tal maneira que se não fosse o conhecimento do Sr. Dessilva, ele tinha batido a bota. Começou por ter falta de ar, depois começou a delirar e, por fim, caiu redondo no chão, já quase não falava e mal respirava. O que o safou foi o Sr. Dessilva ter-lhe dado logo chá quente com mel e tê-lo posto em cima de um burro embrulhado em mantas. Logo à noite, nas orações, não se esqueça do Sr. Dessilva pois, se não fosse aquele homem, por esta hora o Joaquim já estaria morto, algures enterrado naquela neve do cimo do monte que tivemos que atravessar. O Joaquim e mais alguns que cá em baixo se diziam muito fortes!
– Diga-me jovem pastor, e o Sr. Dessilva ficou bem? – Perguntou a Júlia.
– Como eu já disse, parecia uma alface. Nós todos a fraquejar e o homem sempre fresco. Aquele homem só pode ser de outro mundo, faz-me lembrar a história do Profeta Moisés que abriu o mar mas, neste caso, o Sr. Dessilva abriu o cume do monte para que pudéssemos passar. Aquele homem vai durar pelo menos até aos 100 anos!
– E ele e o António deram-se bem na viagem? – A Júlia estava preocupada porque sabia que se iria repetir o trajecto da outra viagem trágica em que o pai do António, o Alberto, morreu às mãos do Abel, do agora Newman Dessilva. E como a fisionomia do António era parecida com a do pai ...
– Sr. Júlia, nem imagina como aqueles homens se dão bem, é tal a amizade que, quem não o soubesse, diria que eram pai e filho. Sim, sim, o Sr. Dessilva até parecia ter um sentimento pelo António mais forte do que teria se fosse pai dele, uma coisa inexplicável, para onde ia um, logo ia o outro atrás.
A Júlia tinha passado noites em claro a pensar no crime que o Abel tinha cometido, passando vezes sem conta pela sua cabeça a pergunta “Será que  um homem que cometeu tamanho crime se pode redimir?” A morte do Alberto foi uma grande tragédia que não poderia ser anulada, terminar assim a vida de um jovem, e ninguém poderia apagar as consequências do seu desaparecimento, o sofrimento da viúva e do seu filho, tudo o que poderia acontecer e que não acontecer, a crianças que poderiam ter nascido e que não nasceram. “Será que o Abel pode compensar tudo isso com o esforço que, enquanto Dessilva, está agora a fazer para que aqueles casais tenham uma nova vida na América?” Quando o Abel matou o Alberto e roubou as ovelhas, estava apenas a pensar no seu futuro, teve pensamentos egoístas, queria fugir da miséria em que vivia mas de uma forma cobarde, sem se preocupar com quem deixava para trás. Mas decorridos tantos anos, parece que naquele dia, Deus, vendo a perdição daquele povo e não podendo intervir directamente, o escolheu para que fosse a pessoa que ia por esse mundo fora à procura de ajuda. E, para isso, num primeiro momento, Deus encheu-o de egoísmo para, logo depois, lhe ter mudado o pensamento a ponto de, enquanto Dessilva, ter dedicado toda a sua vida de trabalho para, agora, poder ser dada uma segunda vida àqueles jovens cujos pais e avós o Abel deixou para trás. Talvez Deus tenha obrigado o Abel um para que o Dessilva pudesse salvar muitos mais, talvez tivesse sacrificado um homem para salvar todo um povo. 

– Graças a Deus que assim aconteceu pois bem precisam um do outro. O António porque foi criado sem pai e o Sr. Dessilva porque nunca soube o que era ter um filho. Graças a Deus que se tiveram um ao outro. 

Próximo capítulo (36 - Amesterdão)

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