domingo, 27 de setembro de 2015

42 - O lucro

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (41 - A notícia)    




42 – O lucro
Os meses foram passando e tudo foi correndo bem. Um dia, decorridos já quase 6 meses desde que chegou a segunda fornada de europeus, depois do almoço, o Levinstone apareceu na ourivesaria do Sr. Jonas.
– Boa tarde Jonas, então como vai essa vida?
– Boa tarde Levinstone, a que devo esta honra? Apareceres por aqui assim sem aviso está-me a deixar um pouco preocupado! Será que se passa alguma coisa com os europeus? Será que voltaram os problemas?
– Não, não, nada disso, está tudo a correr muito bem. Eu passei por cá apenas para conversar um pouco contigo sobre o investimento que fizeste na viagem e também queria saber se tens tido notícias do Dessilva.
– Sim, tenho tido, sente-se bem por lá, já lhe perguntei quando pensa voltar pois está-me a fazer falta aqui mas ele está muito apegado às pessoas que lá vivem, diz que sofrem muito.
– Pois o António também me tem dito que há por lá muita miséria.
– Pois até pode ser assim mas não vejo o mais que possamos fazer. Tu com o Goldman e do Dacosta já fizeram um grande investimento e ainda estão a mandar 3000€ por mês para ajudar as crianças. Eu e o Dessilva também tivemos que fazer um grande esforço financeiro para que estas viagens pudesse ir para a frente. Por isso, penso que não há nada mais que possamos fazer!
– Sim, não podemos fazer mais nada, para mim não é tanto a questão financeira mas já não tenho idade para ter mais dores de cabeça. Mas eu vim aqui não foi para falar dos que vivem na aldeia mas sim para falar do teu investimento e das pessoas que estão cá. Estive a falar com o Goldman e decidimos devolver-te o dinheiro que meteste no projecto, tu e o Dessilva.
– Darem-nos os 100 mil €?
– Sim, sim e com 25% de juros. Também pensamos em aumentar o salário que estamos a pagar aos nossos irmãos europeus, é que estamos com remorsos de lhes estarmos a pagar tão pouco ... Mas, como tu és o promotor da vinda das pessoas, tenho que te vir perguntar o que achas desta nossa ideia.
– Mas vocês não me podem pagar e aumentar os salários pois têm primeiro que recuperar o vosso investimento! As pessoas quando vieram para cá foi com a condição de terem esse salário durante 5 anos e ainda estamos muito longe dos 5 anos!
– Mas nós já recuperamos o investimento e já temos 125 mil € para te pagar.
– Mas recuperaram o investimento como? Mas que investimento?
– Os 225 mil euros que metemos no projecto!
– Não pode ser! Vocês já recuperaram o capital que meteram no projecto?
– Está totalmente recuperado, temos 125 mil euros para te dar e ainda mais 100 mil euros para o nosso lucro. Pensei que já o soubesses! Cada semana, estamos a ter um lucro na ordem dos 10 mil €. Por isso é que te vim dizer que te queremos devolver o dinheiro que tu e o Dessilva meteram no projecto.
O Jonas ficou calado durante longos segundos, a pensar, olhando para o ar, abanando a cabeça, franzindo os olhos.
– O que dizes Jonas? Toma lá o cheque dos 125 mil €. Então, não dizes nada?
– Não, não, não, não, estava aqui a pensar, esta tua informação colheu-me totalmente de surpresa, é que eu nem tinha pensado nisso Como, depois de teres feito muitas contas, tinhas dito que o salário não poderia ser maior, imaginei que irias demorar os 5 anos a recuperar o investimento e que, portanto, por agora estarias sem dinheiro!
– Sim, mas enganei-me nas contas, o investimento já está recuperado e já tivemos o lucro que esperávamos ter. Por isso, comecei a sentir remorsos por estar a ter um lucro tão grande à custa dos nossos irmãos europeus!
– Pois, mas o meu pensamento é diferente, se estes vieram com a obrigação de trabalhar com este salário, assim devem continuar, vocês não os podes aumentar.
– Mas assim vou ficar ricos à custa deles!
– Isso não é para aqui chamado, eles comprometeram-se a determinadas condições e, se tu estás a ter lucro, também poderias estar a ter prejuízo, foi um negócio que fizeram. Além do mais, tu ficas risco mas eles também ficam contentes por terem sido resgatados da miséria. A questão que eu estava agora a pensar é que, sendo assim, já há dinheiro para podermos mandar vir mais uma fornada de pessoas. O Dessilva disse-me que há muitas pessoas na aldeia que querem vir para cá e essa margem de lucro tem que se manter porque é um incentivo para que tu te esforces para que essas pessoas possam vir.
– Mas, Jonas, não podemos mandar vir mais ninguém! Como é que vamos convencer os da imigração? Se foi difícil arranjar autorização de entrada para os 64 que cá estão, agora, não vamos conseguir os vistos de entrada.
– Estás a ver o que eu estava a dizer? Já desanimaste! Agora imagina que, se vocês investirem esses 225 mil € na vinda de mais 64 pessoas, se te esforçares a arranjar o visto de entrada, o teu lucro vai duplicar! Eu quero é que te esforces e que, mesmo que movido pela ganância, mandes vir mais pessoas, os rapazes para ti, as raparigas para o Goldman.
– Oh Jonas, amigo, mas eu não faço ideia de como vou convencer os da imigração!
– Eu, conhecendo-te como conheço, sei que vais encontrar uma solução, se for preciso, suborna-os! Não me interessa, vira-te como puderes que o lucro está à tua espera, do Goldman e do Dacosta. Leva o cheque de volta e trata de mandar vir mais gente.
– Eu não tinha pensado assim! Se achas que eu tenho direito a esse lucro, vou então falar com o Goldman e com o Dacosta, vou ver as obras que há por ai a ver se arranjo trabalho para mais homens! Pelo Dacosta, penso que não haverá problema com os apartamentos mas não sei se o Goldman terá capacidade para meter as mulheres, já está a trabalhar de dia e de noite. Vou então falar com eles.
O Levinstone foi pela rua em direcção à obra a matutar no problema moral de estar a enriquecer à custa dos irmãos europeus. “Vou falar com o António a ver o que ele diz”.
– Boa tarde António, preciso colocar-te uma questão.
– Boa Tarde Sr. Levinstone, espero que não seja nenhum problema cabeludo!
– É um problema mas não desses que estás a pensar. Quando o Jonas e o Dessilva nos pediram para vos mandar as cartas de chamada, propusemos o salário de 3,50€/h para os homens e 2,50€/h para as mulheres porque imaginamos que a vossa capacidade de trabalho seria pouca. Acontece que, agora, achamos que vos estamos a explorar e, por isso, tínhamos pensado em vos aumentar o ordenado!
– Isso não me parece problema nenhum Sr. Levinstone, isso é uma óptima notícia!
– Sim, mas agora vem o problema. Como sabes, o Jonas, juntamente com o Dessilva, foi o promotor da vossa viagem e, por isso, é ele que tem a última palavra. Assim, fui falar com ele e, estranhamente, ele é contra!
– É contra? Mas isso não o afecta em nada! Porque razão é o Sr. Jonas é contra essa ideia?
– Argumentou ele que, havendo muitas mais pessoas na aldeia que querem vir para cá, que vocês foram os escolhidos mas que poderiam ter sido outros, que é vossa obrigação trabalhar a esse salário para que a margem de lucro me incentive a mandar vir mais pessoas da aldeia. O que é que pensas disto?
– Antes de poder responder, preciso saber se, no caso de o Sr. Levinstone nos aumentar, manda depois vir mais alguém.
– Não, nem pensar nisso, já tenho dores de cabeça que cheguem e não vou conseguir arranjar os vistos na imigração!
– E, se mantiver o nosso salário, manda vir mais pessoas?
– Bem, sabes como é a ganância humana! Se mantiver a margem de lucro que o contrato me permite ter, talvez ganhe ânimo, talvez me esforce para que venham mais pessoas. Até já estou a pensar em arranjar um sócio e procurar uma nova obra onde possa meter as pessoas.
– Então Sr. Levintone, não tenho dúvida nenhum. Mantenha os nossos salários como estão no contrato e esforce-se para que os nossos irmãos possam vir porque, lá na aldeia, estão a sofrer muito. Nós temos um contrato consigo de 5 anos e, tanto nós como todos os outros que mandar vir, iremos cumprir esse contrato até ao último dia. O Sr. Levinstone não tenha remorsos disso pois, se está a ganhar dinheiro, para nós e para todos os que vai mandar vir, o ganho é muito superior.
– E achas que, se arranjássemos vistos, quantas pessoas haverá na aldeia a querer vir?
– Meu Deus, mesmo com as condições impostas pelo Sr. Dessilva, nós fomos escolhidos de entre mais de mil candidatos! Se o Sr. Levinstone puder mandar vir mais 64 pessoas, ainda ficam centenas e centenas à espera sem poderem vir. Mas se não conseguir mandar vir 64, que venham os que for possível, nem que seja uma só pessoa já será melhor do que nada!
– O problema vai ser arranjar os vistos, vou falar com o Goldman a ver o que ele pensa.
– E eu queria também pedir uma coisa ao Sr. Levinstone que talvez o deixe aborrecido.
– Diz lá António, estou aqui para ouvir a ver se é possível.
– Gostávamos de mandar vir algumas das nossas crianças. Já cá estamos há mais de um ano, temos dinheiro para o bilhete, emprego, casa e, por isso, penso que já podemos mandar vir alguns dos nossos filhos. Eu também mandava vir o meu filho  mais velho, falei no talho e eles empregam-no. Se o Sr. Levinstone falasse com os seus sócios e achassem bem, mandávamos vir algumas crianças.
– Mas António, isso vai custar dinheiro, a viagem das crianças menores que 12 anos é só meio bilhete mas, depois aqui, vai ser preciso o alojamento e a alimentação!
– Se o Sr. Levinstone autorizar, nós cá nos arranjaremos, a minha nora fica a tomar conta das crianças. 
– Eu não vejo porque não hão-de vir, vou então também tratar disso, para que também possam vir algumas crianças.

Capítulo seguinte (43 - O mistério)

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