quarta-feira, 16 de setembro de 2015

39 – O acidente

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
______________________

Ver o capítulo anterior (38 - O Problema)    





39 – O acidente
A carta não fazia qualquer sentido, a Júlia só poderia ter enlouquecido de todo, qual o sentido falar num acontecimento de há mais de 40 anos de que o Sr. Dessilva nem nunca havia ouvido falar? Mas, como não havia mais nada que pudesse fazer, enviou-a nesse mesmo dia pelo Polícia Vieira. E, sendo 3 dias para lá e outros 3 dias para cá, no prazo de uma semana ficar-se-ia a saber se a carta tinha tido algum efeito.
A carta não parecia fazer sentido mas, de facto, continha informação privada codificada, referia que o Abel morreu para dar lugar ao Dessilva. Assim, mesmo o seu conteúdo sendo público, não era inteligível que não para a Júlia e para o Dessilva.
Quando o Dessilva recebeu a carta, compreendeu logo o seu alcance, afinal, a Júlia guardou segredo, no julgamento da Júlia, o crime do Abel estava completamente ultrapassado pela ida dos jovens para a América.  “Está na hora de fazer as malas e de voltar à aldeia” pensou o Dessilva.
Na aldeia, vivia-se um agradável dia de primavera quando algo estranho apareceu a descer o monte – Olhem lá em cima, olhem, olhem, uma pessoa vestida de branco! Parece o Sr. Dessilva, é o Sr. Dessilva, o Sr. Dessilva está de volta – gritou um dos porteiros. Realmente era o Dessilva acompanhado por um almocreve com o seu burro.
A notícia de que o Sr. Dessilva estava de volta espalhou-se rapidamente pela aldeia como se fosse um fogo em seara seca pelo calor de Agosto. Assim, quando o Dessilva chegou às portas da aldeia, já o esperavam centenas de pessoas que batiam palmas e gritavam “Viva ao Sr. Dessilva.”. Naturalmente, o Dessilva ficou comovido.
– Sr. Dessilva, Sr. Dessilva, estou aqui – gritou a Ti Júlia do meio da multidão. O Dessilva aproximou-se dela e abraçou-a o que causou um certo escândalo nas demais pessoas. “Mas o que terá de especial esta bruxa?” murmuraram as pessoas. Sendo já estranho o Dessilva, um senhor rico, fino, bem tratado, abraçar uma mulher do campo já gasta pelo tempo e de aspecto andrajoso, o que causou mais confusão foi o abraço ter durado longos segundos e, no final, o Dessilva ter dito enquanto segurava as mãos da Júlia “Tive saudades tuas”. Para mais, sem ninguém compreender o alcance das palavras, o Dessilva terminou dizendo “Começo a sentir-me redimido” o que fez com que as lágrimas viessem aos olhos de ambos.
– Diga-nos notícias dos nossos filhos, o que se passou? – perguntavam as pessoas que se acotovelavam à volta do Sr. Dessilva.
O Sr. Dessilva preparou-se então para dizer uma palavras às pessoas “As boas notícias são que os nossos jovens chegaram em segurança à América e a maioria está-se a adaptar bem, estão a trabalhar e a ganhar dinheiro. As más notícias é que a viagem está atrasada porque algumas pessoas estão com problemas de adaptação à nova vida.  Mas não se preocupem que estou de volta e tenho esperança de que tudo se vá resolver a breve prazo. Ainda não receberam notícias pois as cartas poderiam ser interceptadas, mas trago aqui as que os vossos filhos me enviaram para Amesterdão, peguem lá e distribuam-nas.
Todos queria saber qual era o problema de adaptação mas o Sr. Dessilva, por estar cansado, disse que teria que ficar para depois. Só dizia  “São problemas que o António vai resolver, agora desculpem-me que tenho que ir descansar um pouco porque a viagem foi longa e cansativa.”
O Dessilva continuou a sua viagem até casa do Sr. Costa, sempre acompanhado e a conversar com a Júlia. À porta de casa estava a Sr.a Celeste, a Menina Dulcinha e o Sr. Costa.
– Amigo Dessilva, chegamos a pensá-lo morto! Dê cá um abraço e entre que deve estar cansado e a Sr.a Júlia também – disse o Sr. Costa– O Sr. almocreve, por favor, traga as malas aqui para dentro. E tenho que agradecer à Sr.a Júlia por ter escrito a carta.
– Sabe Costa, foi difícil atravessar o monte no Inverno mas, se não seguíssemos o conselho de irmos para Norte, nunca teríamos conseguido chegar ao destino, tenham-nos prendido. E, mesmo assim, a viagem de comboio não foi nada fácil, tivemos que ir numa carruagem de carga ...
– Toda a gente sabe que, se não fosse o amigo Dessilva, a viagem tinha fracassado. Mas então quais são esses problemas?
– As coisas começaram por correr bem, as pessoas gostaram do alojamento e do trabalho mas, com o tempo, o Joaquim começou a virar da cabeça e arrastou mais algumas pessoas com ele, 3 ou 4 pessoas que começaram a faltar ao trabalho, a fazer barulho e a roubar os companheiros, veja só, o Joaquim que aqui era um jovem honrado e trabalhador, lá tornou-se malandro e ladrão. E, por causa deste problema, suspenderam as cartas de chamada. Uma tragédia para os jovens que estão aqui à espera!
– Mas são notícias terríveis – disse o Costa – os nossos jovens estão tão animados com a possibilidades de irem para a América que, agora, vai ser um grande choque.
– Eu não tenho solução para este problema mas tenho esperança que o António o resolva, daqui não podemos fazer nada mais do que ter esperança no António. Quando cheguei não disse nada às pessoas porque ainda temos que pensar o que vamos fazer, o que achas Júlia?
– Sr. Dessilva, obrigado por perguntar a minha opinião. Eu penso que não devemos dizer nada, o Sr. Dessilva recomeça a ensinar inglês como se tudo estivesse normal e, com o passar do tempo, logo veremos o que fazer. Esperemos que nos próximos 6 meses o António consiga resolver o problema e, senão o conseguir fazer, o Sr. Dessilva inventa um atraso qualquer. Vamos acreditar sempre que o problema se vai resolver.
Na América, era uma quarta-feira, quase 4h da madrugada. A barulheira já se ouvia antes de terem aberto a porta. Entraram aqueles 3 que andavam, havia meses, sempre juntos. Fizeram barulho como todos os dias mas, naquela madrugada, as pessoas tinham atingido o estado de rotura. Levantaram-se todas, quatro homens agarraram o Joaquim, outros três agarraram o Aires e bastaram dois para agarrar a Órfã. O Joaquim praguejou mas o António pediu-lhe que fizesse um pouco de silêncio para que ele pudesse falar, por favor, por amor a Deus, por memória dos seus filhos e por respeito à sua mulher. O Joaquim continuou a berrar, a praguejar, a insultá-lo a ele e a todas as outras pessoas. Estavam visivelmente embriagados ou talvez sobre o efeito de alguma droga.
Como estavam em Julho, com tantas pessoas dentro do apartamento, mesmo com as janelas abertas, o ar era quente e abafado.
– Ouçam, estamos a dar-vos a última oportunidade, nós pagamos-vos a viagem para que possam retornar à nossa aldeia, pagamos a viagem de navio e damos 500€ a cada um. Juntamos entre nós o dinheiro e não precisam mais de se preocupar com a dívida que têm para com o Sr. Dessilva que nós tratamos de tudo.
– Tu e esses que te acompanham não passam de mentecaptos, quem pensas tu que és para me dizeres para eu voltar para a miséria? Volta tu e estes imbecis que te acompanham e não nos aborreças mais – disse o Joaquim – Se estão incomodados, se querem continuar a viver uma vida de servidão, se não são capazes de desfrutar desta nova vida, ide embora, voltai todos para aquela miséria, enfiai-vos naquela porcaria pois não vos vai ser diferente da vida que levam aqui.
O António como que ia ficando com febre. A adrenalina ia subindo dentro do seu corpo o que alterava o seu pensamento a ponto de, de repente, ter ficado sem ver e ter começado a gaguejar. Parecia que tinha tido um ataque qualquer.
– És um fraco, um covarde, não prestas para nada, até gaguejas, largai-me que não estou mais para vos aturar – disse o Joaquim continuando a praguejas. Nisto o António como que atingiu um estado de loucura, desatou a gritar e ficou possuído de uma força que pareceu do outro mundo. Empurrou o Joaquim juntamente com os 4 homens que o agarravam pelos braços até que chocou com o parapeito da janela aberta. Já se ouviam os vizinhos a gritar dizendo que eram horas de dormir. Nestes caos total, o António encostou o Joaquim ao parapeito e, com a mão esquerda, empurrou a sua cabeça para fora da janela. “Atira, atira, se tens coragem, atira-me pela janela fora. És um fraco, um covarde, foste feito para obedecer e não para liderar, atira-me lá para fora seu covarde. Não sei o que o Dessilva viu em ti, um morto-vivo.” Gritava o Joaquim com a cabeça já de fora mais por vontade própria do que por causa da força que o António fazia. “Meu Deus perdoa-me” gritou o António ao mesmo que flectiu as pernas e, com a mão direita, apanhou o fundo das calças do Joaquim que puxou para cima com toda a força que tinha. Como o Joaquim estava encostado ao parapeito, com este movimento rápido foi projectado para o vazio. Só se ouviu “Háááá pummm.” Neste momento, as pessoas ficaram em choque pela rapidez do movimento e pelas suas consequências imediatas, o Joaquim tinha acabado de morrer estatelado lá no fundo. 
Fez-se silêncio durante alguns segundos e, decorrido esse pequeno tempo em que o tuda parecia movimentar-se em câmara lenta, o Aires e a Órfã começaram a gritar “Assassino, assassino, vais morrer na forca por causa deste crime.” Num movimento rápido, o António avançou para o Aires a quem caçou o cinto das calças com a mão direita. Depois de, com a ajuda da mão esquerda no cachaço, o obrigar a baixar a cabeça, puxou-o para o lado da janela até o encostar ao parapeiro. Puxando para cima com toda a força cinto, projectou o Aires por cima do parapeito pela janela fora. Mais uma vez, ouviu-se apenas “Háááá pummm” e já estavam os dois mortos. Neste momento, a Órfã calou-se, olhou de frente o António que estava encostado à janela a fumegar e, libertando-se dos homens que a seguravam porque tinham ficado em choque, investiu contra o António de cabeça baixa como fazem os carneiros. Mas o António, como que guiado por Deus, conseguiu-se desviar enfiando a cabeça da Órfã pela janela fora. Nesse mesmo momento, baixou-se, apanhou-lhe uma das pernas no tornozelo, levantou-o e também a atirou pela janela fora,  “Háááá pummm”. De repente, voltou o silêncio total que durou uns eternos segundos, estavam os 3 lá no fundo, mortos.
– Meu Deus, o que é que eu fiz? – disse o António em voz baixa.
– Não aconteceu nada – disse alguém em voz firme e grave – Não aconteceu nada, o problema está resolvido. Agora vamos descansar que amanhã é mais um dia de trabalho, amanhã voltaremos a ser um grupo de pessoas honradas, sérias e trabalhadores.

Capítulo seguinte (40 - A oportunidade)

0 comentários:

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Best Hostgator Coupon Code