domingo, 6 de setembro de 2015

36 – Amesterdão

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (35 - A volta)    




36 – Amesterdão
As pessoas deitaram-se na palha e o comboio logo arrancou. Aquela noite, apesar de entrar vento frio pelas frinchas entre as tábuas que formavam as paredes da carruagem, o fogareiro, as mantas e o facto de estarem todos encostados uns aos outros permitiu que a viagem fosse razoavelmente agradável. Lá para as 11h da noite, o Sr. Dessilva achou que todos deveriam comer um pouco mais de broa e beber um chá quente feito no fogareiro.
Quando o dia nasceu, tinham sido percorridos talvez 200km, o comboio a vapor nunca dava mais de 25km/h e, por vezes, tinha que parar para que a linha pudesse ser limpa da neve. Estava na hora de fazer as necessidades fisiológicas a um canto da carruagem, sem qualquer privacidade, e de comer o pequeno-almoço. Lá fizeram aquela grande chaleira cheia agora de café turco e comeram mais broa de milho, chouriço, queijo e mel, pouco, porque os víveres e a água estavam a acabar. Foram andando, andando e, pelas 10h da manhã, o comboio parou, ouviam-se pessoas de botas a caminhar de um lado para o outro, “Chegamos à fronteira” – disse o Sr. Dessilva em voz muito baixa – “O barulho das botas indica que são guardas fronteiriços”. Se fossem na carruagem dos passageiros, teriam que mostrar os salvo-condutos o que poderiam não ser suficiente para atravessar a fronteira porque não tinham passaportes. Como a carruagem era de carga, estava lacrada por fora e, principalmente, porque o chefe da estação onde embarcaram tinha mandado um telex a dizer que a mercadoria estava autorizada a seguir viagem até Amesterdão, os guardas fronteiriços seguiram a sua marcha.
O chefe da estação, mandou o telex para evitar que alguém descobrisse a sua jogada de anular os bilhetes, o que lhe rendeu uns milhares de euros.
O comboio arrancou “Já conseguimos passar este obstáculo que era o mais difícil. Agora, já estamos praticamente no navio que nos há-de levar a Nova York.” - disse o Dessilva. O ambiente tornou-se então mais descontraído, de cavaqueira onde o Dessilva ia contando de como seria a vida na América. Na conversa, começou-se a notar novamente atrito entre o Joaquim, sobrinho do Jonas, e o António, preferido pelo Sr Dessilva por ter mais idade, ser muito trabalhador e ter experiência em negócio mas, mesmo que assim não o fosse, por ser filho do Alberto. É que, no fundo, a sua ida e a do Jonas para a América e todo o sucesso que, subsequentemente, conseguiram, teve origem na morte do Alberto. Se, naquela noite de há mais de 40 anos, o Abel, agora Dessilva, não tivesse matado o Alberto para roubar as ovelhas, não teriam tido o dinheiro necessário para a viagem e, uma vez na América, para arrancar com a ourivesaria. Então, mesmo sendo o Joaquim sobrinho do Jonas e estando este sem a companhia dos filhos, teria que ser o António a assumir o lugar que, por direito. “Não me vendo, prefiro a morte” foram as últimas palavras do Alberto que continuamente voltavam ao pensamento do Dessilva “Se este António tiver metade da integridade do pai, será homem para me suceder quando me reformar”.
– Sabe Sr Dessilva, até pode achar que o António é a melhor e a mais capacitada pessoa do mundo mas, quando chegarmos à América, os laços de sangue vão falar mais alto. Vai ver que o meu tio vai passar por cima dessa sua embirração e vou passar eu a mandar nestes parolos. Depois, eu mando-lhe uma carta a contar.
– Joaquim, não digas isso que até me assustas. Nós vamos para a América não é para bem do nosso umbigo mas sim para podermos ajudar os nossos filhos, pais, irmão, primos e demais pessoas que ficaram na aldeia à espera do nosso sucesso. Não te esqueças nunca que elas estão encalhadas naquele fim o mundo, cercadas naquele monte e que nós somos o farol das suas vidas, a última réstia de esperança que têm – disse o António.
– Estás completamente certo – disse o Dessilva – quanto mais te ouço, mais tenho a certeza de que, ao seleccionar-te como líder desta pequena comunidade, fiz a escolha mais acertada. E tu, Joaquim, não precisas de te preocupar com o António pois também tens valor senão não terias sido seleccionado, uma vez na América, vais ver que vais poder traçar o teu próprio projecto de vida.
O dia foi passando e veio a noite. Depois fez-se outra vez dia e a viagem foi acontecendo sem problemas excepto a sede que ia aumentando. O comboio parava e ouviam-se pessoas a passar mas o Dessilva tinha decidido que “O melhor é aguentarmos a sede pois falta pouco e são sabemos se estamos a atravessar território amigo ou hostil.”
Fez-se outra vez noite sem nada terem para comer nem beber. Quando o dia despontou de novo, seriam talvez umas 7h, o comboio tornou a parar e, desta vez, a língua parecia diferente “Já estamos na Holanda. Agora, mais uma ou duas horas e estamos na estação central de Amesterdão.”
– Deus o ouça, Deus o ouça – disse o António – que estamos todos com muita sede e  com receio do que nos possa acontecer pelo caminho.
– Isto vai rebentar quando estivermos mesmo a chegar ao destino, no momento exacto em que estivermos para entrar em Amesterdão, o comboio pára, desatrelam este vagão de carga e atrelam-o ao comboio que nos há-de levar de volta à nossa miséria. E isto se não nos mandarem para o fim do mundo e nos venderem como escravos aos turcos ou aos russos – disse o Joaquim como que a querer sublevar as pessoas.
– Não Joaquim, agora que entramos na Holanda, já não vai acontecer mais nenhum desses problemas. Agora estamos num país civilizado – disse o Dessilva – quando abrirem a carruagem será para nos darem uma ajuda, posso garantir isso porque já vivi neste país.
A viagem continuou e, decorrido o tempo previsto pelo Dessilva, o comboio parou – “Chegamos”.
Nesse momento houve um hurra de alegria o que, por não ter sido feito com o devido cuidado, foi logo ouvido por alguém que passava. “Bring mig en tang, fordi det ser ud som jeg har hørt folk tale – Tragam-me um alicate pois parece que ouvi pessoas a falar”. Era um oficial a apontar para a carruagem. Veio o alicate, cortaram o cadeado e correram a porta lateral. De dentro saiu um bafo de ar pérfido por causa de 32 pessoas viverem há já alguns dias dentro de um espaço pequeno sem quaisquer condições de salubridade. Vendo a porta a correr, as pessoas levantaram-se e encostaram-se à parede mais afastas da porta “É agora que no vão prender e mandar de volta” disseram em uníssono “Sr. Dessilva, veja se nos salva desta.” E começaram a recitar salmos em voz baixa "O Senhor é meu pastor, nada me faltará". O funcionário dos comboios olhou mas, a principio, não compreendeu o que se passava dentro da carruagem. Passados apenas alguns segundos, porque os seus olhos se habituaram ao ambiente de menor luminosidade, começou a ver aquelas pessoas, sujas, vestidas com roupa preta muito velha e toda cheia de remendos, as mulheres com lenços pela cabeça também velhos e os homens de longas barbas e com chapéus pretos muito cebados, todos muito magros, como se já não comessem havia meses. “Min Gud! – Meu Deus!” Disse o holandês. Nesse momento, aquele homem louro que, com os 2 metros de altura e 130 kg de peso, parecia um armário, um king kong branco, foi-se abaixo. De forma instantânea, as lágrimas começaram a correr-lhe pela face abaixo e o homem não parava de repetir “Min Gud! Min Gud! Min Gud!”. Nesse momento, o Sr. Dessilva avançou e começou a falar em inglês.
– Boa tarde Sr. Oficial, o meu nome é Newman Dessilva, sou americano, está aqui o meu passaporte e estas pessoas estão comigo em trânsito para a América, estão aqui os salvo-condutos.
O oficial olhou para o Sr. Dessilva e começou a falar em inglês “Meu Deus, de que terra de selvagens vêm vocês? Quem vos enfiou nesta carruagem como se fossem animais? Se eu não estivesse a ver com os meus próprios olhos nunca me acreditaria de que isto está mesmo a acontecer. Meu Deus, Tu que, no tempo do Noé, destruíste o Mundo com o Dilúvio porque os homens eram maus, o que podes fazer agora para castigar tamanha desumanidade? Vocês vão ter que sair desta carruagem já”.
– Nós vamos a caminho da liberdade – Disse o António num inglês um pouco deficiente – vamos para um terra onde seremos homens e mulheres. O senhor, por favor, deixe-nos seguir viagem para podermos apanhar o navio para a América.
– O senhor não está a compreender, têm que sair desta carruagem porque já chegaram ao destino, agora serão tratados com humanidade.
Nesse momento, as pessoas encostaram-se ainda mais para longe da porta, todos amontoados a uma canto, umas a furar por entre as outras como enguias a tentar escapar da morte certa, como se fossem animais cujo destino era o matadouro. No entretanto, o Sr. Dessilva tomou a palavra.
– O senhor permita que eu possa descer para podermos conversar com mais calma – Desceu então para o cais – É que as pessoas estão muito assustadas com o que se passou na viagem, pensam que o senhor nos vai obrigar a descer para os devolver à origem ou para os vender como escravos. Se tudo correu como o combinado, há pessoas à nossa espera, se fosse possível eu ir procurar quem nos espera, tudo ficaria mais calmo!
– Realmente, o Mestre Jacob tem vindo todos os dias perguntar por notícias deste comboio internacional! Os senhores venham então comigo procurá-lo que deve estar lá mais à frente, na parte das carruagem de passageiros.
Ao verem que o Sr. Dessilva se afastava, o Joaquim agitou-se “O Sr. Dessilva? Onde está o Sr. Dessilva? Onde é que está o vosso salvador? Parece que, afinal, o Sr. Dessilva vos abandonou!”
– Deixa-te disso Joaquim – disse o António – deixa de tentar assustar as pessoas, o Sr. Dessilva foi tratar do nosso alojamento. Como o barco é só daqui a 4 dias, no entretanto, é necessário arranjar um sítio onde possamos ficar. Além do mais, ainda existem burocracias que é preciso tratar. Não se preocupem que ele volta já com ajuda.
– Disse-te a ti ..., mas quem pensas tu que és? Tu não passas de um parolo, se ele tivesse alguma coisa a dizer era a mim que sou sobrinho do Sr. Jonas. Não te esqueças do que eu te vou dizer: se não baixas rapidamente essa crista, quando for eu a mandar, faço-te a vida negra. Não te esqueças que eu sou o sobrinho e que tu és o nada, és o zero à esquerda, igual a todos estes pategos que nunca viram mundo.
– António, António, deixa que o António foi o escolhido pelo Sr. Dessilva e, se não fosse ele, tu terias morrido quando atravessamos o monte. – disse a Ana, a mulher do Joaquim.
– Calou mulher que quando fala o galo, cala-se a galinha. Aqui, quem manda sou eu. E se alguém disser que não, vai ter que se haver comigo.
E realmente o Joaquim metia medo. Era uma pessoa magra, de corpo seco mas, em comparação com os outros, era um latagão e tomado pela raiva.
Nesse entretanto chegou o Sr. Dessilva acompanhado por alguns senhores. Eram homens idênticos aos da aldeia, barbas compridas, roupas pretas, chapéu, mas todos vestidos com roupas impecáveis, tudo bem passado a ferro e mais gordos. Foi um choque porque nunca tinha passado pela cabeça daqueles jovens que pudesse haver pessoas idênticas a si mas num ambiente civilizado. Maior choque foi quando essas essas pessoas começaram a falar na língua que falavam no monte.
– Boa tarde, eu sou Jacob, mestre joalheiro, e estes são os meus companheiros da confraria. Estamos aqui para vos dar as boas vindas a Amesterdão e para garantir que se sentem bem enquanto não embarcam no navio que vos há-de levar para Nova York onde vos aguarda uma nova vida. Eu conheço o Sr. Jonas e o Sr. Dessilva há muitas dezenas de anos, fui aprendiz juntamente com o Jonas, já faz uns 40 anos. Se já sabem que o Dessilva é uma pessoa extraordinária, quando chegarem à América, também vão ver que o Jonas é um autêntico anjo que veio à Terra. Nós sabemos que pessoas como vocês vivem em sofrimento por essas montanhas, vamos recebendo informação por quem, ao longo do tempo, consegue sair de lá. Algumas dessas vivem cá mas a maioria está na América. Podem achar estranho mas, em pequeno, o meu pai viveu na Aldeia do Monte e muitos mais que vivem aqui têm, pelo menos, um antepassado que nasceu na aldeia.
– Mas o pai do Sr. Jacob era da nossa aldeia? Como é que se chamava a ver se alguém ouviu falar dele? – Continuou o António para criar pontes de confiança.
– Ninguém deve saber nada dele pois, se fosse vivo, já teria mais de 100 anos. Nasceu lá e, depois, foi nas tropas do Arquiduque combater os turcos. Foi feito prisioneiro, viveu alguns anos na Turquia como escravo mas, como aprendeu turco, acabou por ser comprado por um mercador veneziano para ser seu tradutor que, mais tarde, o enviou para Amesterdão como seu agente passando a viver como homem livre. O nome dele era Uriel Gilete e, dizia ele, morava no lugar da Arroçada. Haverá aqui alguém que já tenha ouviu falar neste nome, Uriel Gilete do lugar da Arroçada?
Fez-se silêncio uns minutos “Realmente interessante, o problema é que nem Arroçada é um lugar da nossa aldeia nem existe ninguém que se chame assim, Gilete!”. Mas nesse momento, além deu um grito de exclamação “Não é Gilete, é Gineta, é Uriel do Gineta e era irmão do meu avô e não é Arroçada mas sim lugar da Roçada. É mesmo, eu já ouvi falar desse meu tio avô Uriel do Gineta, confirma-se, e esse meu tio avô, foi mesmo, dizia o meu avô, um dos desaparecidos na guerra com os turcos, foi para nunca mais dar sinais de vida, confirma-se. Até hoje, todos pensamos que teria morrido na guerra.” E toda a gente bateu palmas.
– Não morreu e eu sou seu filho!
– Extraordinario,  a Rute vir encontrar em Amesterdão o Mestre Jacob como seu primo, extraordinário e, ainda mais improvável, é o Mestre Jacob ter uma prima que é casada com o sobrinho do Sr. Jonas, o Joaquim, mas vamo-nos deixar desta conversa fiada e vamos tratar então do alojamento – disse o Sr. Dessilva.

Capítulo seguinte (37 - O navio)

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