domingo, 13 de setembro de 2015

38 - O problema

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (37 - O Navio)    




38 – O problema
Depois de terminados os abraços, era preciso tratar das coisas práticas, primeiro levar as pessoas ao alojamento, depois, tratar de arranjar roupa nova e, finalmente, falar do trabalho. A ideia do Sr. Jonas e demais confrades foi que tinham que ficar a viver no centro da cidade o que tinha o problema dos elevados custos das rendas. Mas não havia alternativa pois, para integrar na comunidade estas pessoas habituadas a viver no meio de um monte, não era aconselhável mandá-las para um subúrbio qualquer de Nova York, com longas e demoradas deslocações diárias. Além disso, o Dacosta financiou a viagem com 20000€ a pensar no lucro que teria no sub-arrendamento de dois apartamentos que geria na Lower East Side. As 31 pessoas iam ficar num apartamento com 4 quartos, uma sala, cozinha e uma casas de banho. O espaço era pequeno mas o facto de ser bem localizado compensava a lotação excessiva.
– Na vossa nova vida o mais caro é o alojamento e, por isso, vão começar por ficar aqui. É um pouco caro, este apartamento vai custar 1500€ por semana mas, sendo central, vão poupar tempo e dinheiro em transportes. O problema é que isto não é como a aldeia, aqui não podem fazer barulho!
Criou-se um burburinho entre as pessoas “Mas nós nunca poderemos pagar 1500€ por semana! São 50€ por pessoa cada semana, nós não vamos conseguir arranjar esse dinheiro!”
– Vão conseguir pagar vão, 50€ por semana não é grande coisa. Como vêm já tem móveis, nestes dois quartos ficam os homens e naqueles dois ficam as mulheres, 8 pessoas em cada quarto e ainda sobra um lugar.
– Isto está muito bem – disse o António – lá na aldeia não ficavam tantas pessoas juntas mas as casas ainda eram mais pequenas e a construção era muito pior. Além do mais, temos água corrente e electricidade o que, para o que estamos habituados, é um luxo. E nós viemos para a América para trabalhar, não foi para viver em grandes casas.
– Tio, como isto é um bocado apertado e como sou da família, penso que vou ficar a viver em sua casa! – disse o Joaquim.
– Não pode ser Joaquim, eu bem sei que és meu sobrinho mas seria um desrespeito para com os teus companheiros se tivesses um tratamento especial. O Dessilva escolheu-te pelas tuas qualidades e não por seres meu sobrinhos. Por isso, tens que desenvolver a tua vida da mesma forma que eles.
– Sabe tio, isso é uma injustiça porque está a pagar os estudos ao Rúben que é seu sobrinho neto e eu, que sou sobrinho e estou aqui, sou tratado como um desconhecido, isto é uma injustiça.
– Vamos terminar esta conversa que não nos leva a lado nenhum. O que interessa agora é que precisamos dar umas voltas, vamos arranjar umas roupas e vamos tratar do trabalho. Os homens vão trabalhar com o Sr. Levinstone que também é membro da confraria.
O Levinstone era um sub-empreiteiro de construção civil que também financiou o projecto da viagem com 80000€ e arranjou trabalho para os homens com a condição de receberem 3,50 €/h, salário que era o valor aceite pelas pessoas quando ainda estavam na aldeia mas bastante abaixo do que pagava aos outros trabalhadores que andava nos 6,00€/h.
– As senhoras – continuou o Sr. Jonas – vão trabalhar para com o Sr. Goldman em confecção de roupa. Como já lhes foi dito quando estavam na aldeia, irão ganhar 2,50€ por hora – O Goldman também tinha entrado com 80000€ e, por isso, também ia pagar menos que o corrente no mercado que, para as mulheres, andaria nos 4,50€/h. E podem trabalhar as horas que quiserem, se quiserem, podem fazer 12h por dia, 6 dias por semana.
O António começou logo a fazer contas e disse aos companheiros “Realmente, aqui ganha-se bem, um casal que trabalhe 10h por dia, vai ganhar 360€ por semana o que, retirando os 100€ para renda e 60€ para a comida e demais despesas, ainda vai poupar 200€!”
Na primeira semana tudo correu às mil maravilhas. O trabalho era razoável, muito melhor que cavar campo, e a casa, apesar de ser pequena para 31 pessoas, era confortável. E, realmente, no fim da semana, depois de pagas todas as despesas, ainda sobraram muitas centenas de euros.
Na segunda semana começaram os problemas com o Joaquim que, vendo que os companheiros de trabalho americanos ganhavam mais e que as rendas dos apartamentos semelhantes eram menores, não parava de repetir “Nós estamos a ser explorados!”
 – Joaquim, mas quando o Sr. Dessilva falou em virmos para cá, para podermos vir teria que haver alguém que financiasse a nossa viagem e arranjasse as cartas de chamada. Tua sabias as condições e aceitas-te-as! Se as aceitaste então, sendo tu um homem honrado, tens que as cumprir! Durante 5 anos tens que aceitar estas condições e, depois, podes ir à tua vida – dizia-lhe repetidamente o António.
– Tu não vales nada, és um zero à esquerda, um pau mandado, um velho, um falido, um sem pai, o meu tio pode não me respeitar como sobrinho que sou mas, mesmo assim, tu continuas a ser um zero.
A Ana, mulher do Joaquim, também o chamava à atenção “Joaquim, não faças barulho que os vizinhos vão-se queixar e temos que sair daqui, shiu, shiu, está calado”
– Que nos mandem embora pois estão a viver à nossa custa. E tu também não prestas para nada, estás vendida a esse António, o mais certo é seres amante dele, tu não vales nada, não prestas para nada. E não vou mais trabalhar!
A mulher não se cansava de lhe dizer “Pensa nos nossos filhos que deixamos na aldeia, lembra-te deles e das pessoas que ficaram lá” mas o Joaquim só dizia “Que se danem, que se aguentem que eu também aguentei muitos anos.”
Com o passar dos dias, tudo começou a descarrilar, queixas e mais queixas dos vizinhos por causa do barulho depois, vieram os roubos, em casa ninguém podia desacautelar a carteira que o dinheiro desaparecia para ser gasto em álcool e em mulheres. Por fim, começou a bater na mulher e a fazer desacatos e roubos na rua. O mais grave é que o comportamento do Joaquim foi contaminando três ou quatro companheiros que tinham a mente mais fraca, pessoas que na aldeia eram honradas e cumpridoras da sua palavra mas que agora começaram a preocupar-se mais com as noitadas do que com o trabalho. Na terceira semana, o todo foi tomado pela parte e os vizinhos começaram a pedir para que aquele grupo de “malandros, desonestos e desordeiros” fosse despejada.
No Sábado, na missa, o Sr. Jonas aproveitou para dar uma palavrinha ao António.
– Amigo António, isto está a ir de mal a pior. Está tão grave que tive que mandar uma carta ao Dessilva a dizer que não vou conseguir arranjar as cartas de chamada para os que ficaram na aldeia à espera. Apesar de o problema estar em 3 ou 4 pessoas e de a renda estar a ser paga, as pessoas daqui estão muito preocupadas com o evoluir da situação.
– Mas Sr. Jonas, é o seu sobrinho, não sei o que mais possa fazer, tenho-o chamado com insistência à razão mas ele não ouve ninguém, não vai trabalhar e estar continuamente a tentar sublevar as pessoas! O Sr. Dessilva também me disse para pedir ajuda às pessoas da confraria, será que o Sr. Jonas me pode indicar um caminho!
– O Dessilva viu em ti capacidade para resolver os problemas e eu, infelizmente, também não imagino o que poderás fazer.
– Sr. Jonas, são 3 ou 4 pessoas, nós os outros vamos segurar as pontas, pagar a renda e trabalhar para tentar compensar este problema até que se arranje uma solução.
Na aldeia, já tinham passado quase dois mês desde o dia em que os jovens partiram da aldeia. Sendo que o Dessilva já deveria ter voltado à aldeia para recomeçar as aulas de inglês e tratar da viagem do segundo grupo de jovens, nada disso tinha acontecido nem havia notícias.
O Dessilva não voltava porque tinha receio de que a Júlia tivesse tornado público que, afinal, ele era o Abel e que tinha matado o Alberto para poder roubar as ovelhas. Se isso tivesse acontecido, nunca mais poderia voltar à aldeia. “Será que foi um erro ter-lhe contado a verdade?” Pensava ele, “Mas talvez não porque, na madrugada da partida, quando o meu olhar se cruzou com o da Júlia, ela disse Newman e não Abel”. Por outro lado, tinha recebido a carta do Jonas a dizer que as cartas de chamada estavam suspensas.
As pessoas começaram a ficar preocupados muito preocupadas. Será que aconteceu alguma tragédia ao Sr. Dessilva? Será que aqueles jovens foram mesmo para ser vendidos aos turcos? O Sr. Costa, como grande impulsionador da viagem, era talvez a pessoa mais preocupada, dava voltas e voltas à cabeça na tentativa de encontrar uma forma de ter notícias do Sr. Dessilva mas não via como. Como era normal, os grandes problemas implicavam uma conversa com o Padre Augusto.
– Bom dia, Sr. Padre Augusto, a sua bênção.
– Deus te abençoe. Então, que te trás por cá, meu filho?
– Estou muito preocupado com o facto do Sr. Dessilva, já passaram 2 meses desde que nos deixou e nem voltou nem mandou qualquer notícia, os pais têm-me perguntado pelos filhos e eu não sei dizer nada. E o pior é que não faço ideia do que possa fazer para inverter a situação.
– Pois eu também tenho andado a pensar nisso, as pessoas têm-me vindo pedir para rezar por quem partiu. Claro que o mais fácil é pensar que Dessilva morreu pelo caminho e que os jovens que escaparam foram vendidos como escravos mas tenho a sensação que não é nada disso, é qualquer coisa que nos ultrapassa, aparecer de repente como que caído do Céu e desaparecer outra vez de repente como levado pelo vento, há aqui algo que nos está a escapar!
– Mas o que poderemos agora fazer? Já dei voltas e voltas à minha cabeça e não vejo como posso trazê-lo de volta.
– Antes de me vires fazer esta pergunta, rezei muito e tive uma ideia muito estranha mas também a questão é tão estranha que a solução vai ter que estar onde menos esperamos. Eu tive a inspiração de que só a Júlia é capaz de fazer o Dessilva voltar!
– Na Ti Júlia, a velhota?
– Exactamente, notei que entre o Dessilva e a Júlia há qualquer coisa inexplicável, a forma como na primeira reunião da confraria ele olhou para ela foi muito estranha. Depois, foi visitá-la várias vezes, ..., vais falar com ela que está ali a chave do problema!
– Mas, Sr. Padre, com todo o respeito, o que tem a Júlia de especial?
– Essa questão não nos interessa. Sendo que não temos solução para o problema, temos que a ir procurar numa pessoa que seja diferente de nós. Se não vemos a solução nas árvores, temos que a ir procurar nas pedras.
E assim o Sr. Costa o fez, mesmo sem esperança de que a Júlia pudesse resolver o problema, foi ao barraco procurar ajuda.
– Bom dia, Ti Júlia, venho cá a mando do Sr. Padre Augusto para ver se resolve o problema do desaparecimento do Sr. Dessilva, se faz qualquer coisa que o faça voltar para junto de nós. Confesso, que não tenho esperança que a senhora o consiga fazer mas o Padre Augusto pensa que é a única pessoa capaz de o fazer, que sabe qualquer coisa que nós não sabemos ...
– Bom dia Sr. Costa, eu não sei nada de especial mas, se o Espírito Santo disse ao Sr. Padre Augusto que eu tenho a solução para a ausência do Sr. Dessila, só tenho que me esforçar. Eu tenho estado a pensar e vou-lhe enviar uma carta.
– Uma carta?
– Sim, sim, uma carta, vou escrever uma carta que vai fazer o Sr. Dessilva voltar.
– Mas isso é impossível de dar resultado! Mas o que vai dizer essa carta?
– O Sr. Costa, por favor, ajude-me a escrever aqui uns dizeres e, depois, se achar bem, envie-a ao Sr. Dessilva. Aqui vai:
Ex.mo Sr. Newman Dessilva.
Pensei muito na conversa que tivemos à beira do ribeiro e , agora, estou com a certeza absoluta de que, naquele dia, o Abel morreu.
Júlia do Zenão
O Sr. Costa ficou estranho com a firmeza da Júlia e tentou contrariá-la “Mas esta carta não faz sentido! Isto é uma conversa sem sentido!”
– Se alguém tiver uma ideia melhor, o Sr. Costa avance com essa ideia, senão, meta esta carta ao correio. Se o Sr. Padre Augusto o enviou cá é porque o Espírito Santo lhe disse que isto vai dar resultado.
– E para onde mando a carta?
– Mande para a morada que tenho neste papel, “Meester goudsmid Jacob, Jodenbreestraat, Amsterdam”, pode ter a certeza que o Sr. Dessilva a vai receber.

– Bem, isto não vai dar em nada mas, como não tenho alternativa, vou mesmo ter que mandar a carta e que Deus nos ajude.

Capítulo seguinte (39 - O acidente)

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