domingo, 20 de setembro de 2015

40 - A oportunidade

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (39 - O acidente)    




40 – A oportunidade
Nessa noite não houve mais barulho e, no dia seguinte, as pessoas levantaram-se bem cedo e foram trabalhar como se nada tivesse acontecido durante a noite anterior, ninguém dizendo uma única palavra sobre o acontecido. Como a janela por onde foram atiradas as pessoas ficava para as traseiras, para um fosso de ventilação, só quando o dia estava alto é que alguém da vizinhança foi à janela e reparou que havia três corpos lá no fundo. Veio a polícia que recolheu pistas no sentido de descobrir de onde teriam caído os corpos o que, por causa das barbas, foi uma tarefa fácil. Bateram à porta do apartamento mas, como não estava ninguém, foram à obra falar com o António.
– Bom dia, o Sr. António Espírito Santo reconhece estas pessoas? – os polícias mostraram-lhe as fotografias dos 3 cadáveres.
– Conheço sim, moram, na mesma casa que todos nós – e apontou para os companheiros que estavam a trabalhar na obra juntos dele – ou melhor, estou a ver que moravam!
– E o Sr. faz ideia do que aconteceu que fez com que estas pessoas, hoje de manhã, tivessem sido encontradas neste estado?
– Não sei de nada Sr.s Polícias, não sei de nada, trabalho muito pelo que tenho o sono pesado, deve ter sido esta noite pois ainda ontem falei com essas pessoas mas, não dei conta de nada. O mais certo é terem sido vítimas de um acidente qualquer, talvez a pôr a roupa a secar e talvez eu já não estivesse em casa. Os acidentes estão sempre a acontecer!
– Mas os vizinhos dizem que a meio desta última noite, no apartamento onde o senhor mora e de onde estas pessoas caíram, houve muita confusão, muito barulho!
– Não sei de nada. Sei que essas pessoas, normalmente, quando chegavam a casa faziam muito barulho e ontem não deve ter sido um dia diferente mas, como já lhes disse, não ouvi nada. Ontem estava particularmente cansado e, como já estava habituado ao barulho, nem dei por nada. É que eu trabalho muitas horas, trabalho aqui 12h por dia, seis dias por semana o que, como podem ver, sendo um trabalho cansativo, quando me deito na cama, adormeço profundamente. Se, por exemplo, me deitasse agora aqui no meio do chão, era capaz de adormecer imediatamente.
– E o que é que as pessoas disseram antes de terem caído da janela? É capaz de me dizer alguma coisa pois as pessoas referem que falaram muito mas que não perceberam nada por falarem uma língua desconhecida!
– Como já lhes disse, eu não ouvi nada, sai de manhã bem cedo sem nada saber e, se não fossem agora os Sr.s Polícias me virem com a notícia, ainda nada saberia.
Depois, os polícias foram falar com os outros homens que estavam na obra tendo mesmo o marido da Órfã, uma das vítimas, dito que, porque ouvia mal, não tinha dado conta de nada, de manhã deu conta que a mulher não estava em casa mas tinha pensado que tinha ficado a fazer o turno da noite. Mais tarde, a polícia falou com a Ana, a mulher do Joaquim, e com a mulher do Aires que também disseram não ter dado conta de nada.
– Como é possível que ninguém tenha ouvido nada? – perguntavam os polícias uns aos outros. Os peritos entraram no apartamento, e ficaram admirados por, havendo 31 pessoas naquele espaço, “ninguém ter dado conta de nada”. “Esta história está muito mal contada, devem estar todos implicados no assunto”. Mas, depois de tentarem recolher indícios de algum crime, não conseguiram descobrir nada. “Se soubéssemos o que os mortos disseram antes de cair, talvez tivéssemos alguma pista mas, como ninguém da vizinhança compreendeu o que foi dito, estamos no escuro.”
Desta forma, passados alguns dias, as mortes tiveram que ser classificadas como Queda Provavelmente Acidental. “Talvez uma pessoa tivesse caído por estar alcoolizada e as outras, também alcoolizadas, procurando saber onde ela estava, tivessem ido atrás.” Não parecia muito plausível mas, por um lado, a cortina de silêncio não permitia pegar em nenhum fio da meada e, por outro lado, também eram apenas 3 desgraçados, imigrantes miseráveis que, se não interessavam aos seus, muito menos interessavam aos americanos. Então, veio o resultado final: “Caso Arquivado”.
Se antes a regra era o barulho e a confusão, desde aquela noite, a regra passou a ser a paz e a harmonia e, no trabalho, os europeus recomeçaram a ser vistos como trabalhadores de confiança.
O António tinha remorsos por ter matado 3 pessoas assim de uma assentada. Pensava do tempo em que eram pequeninas a correr e a brincar pelas ruelas da aldeia, a perseguir e a apanhar borboletas no monte, a pescar nos riachos, como eram inocentes aquelas crianças! Depois, tinha-os visto tornarem-se jovens, cheios de brio, energia e força, nos encontros do “puxar a corda” e a trabalhar, a pastorear as ovelhas e as cabras pelas encostas agrestes, a lavrar o campo. Como dançavam e cantavam nos dias de festa. Recordava-se de lhes ter vendido a carne para os seus casamentos e para os baptizados dos filhos, de os ter como companheiros na escola de inglês, com tanto empenho, tanta esperança num futuro melhor e tudo isso terminou com um grito de 2 segundos.
No fim da semana, o António foi pagar a renda ao Sr. Dacosta, tendo aproveitado para agradecer “a paciência destes últimos meses.”
– Agradeça antes ao Jonas – Disse o Dacosta.
Depois destas palavras, o António não podia adiar mais ir justificar-se junto do Sr. Jonas. “Não sei como isto vai correr, sempre era sobrinho dele”. Mas, apesar do receio, tinha que ir para tentar desbloqueava o problema das cartas de chamada.
– Boa noite, Sr. Jonas, por favor, estive há bocado a pagar a renda e o Sr. Dacosta disse que eu precisava falar consigo, agradecer-lhe o facto de não termos sido despejados por causa do barulho!
– Ai esse homem, o Dacosta! Realmente, há uns meses, ele veio-me dizer qualquer coisa sobre o despejo mas era apenas conversa. Ele até já veio falar comigo, envergonhado, para me agradecer ter-lhe metido juízo na cabeça, era o que faltava, despejar os nossos irmãos com a renda em dia!
 – Muito obrigado Sr. Jonas pela compreensão até porque o seu sobrinho perdeu a vida no acidente!
– Não te preocupes com esse que já é passado, teve uma oportunidade e não a soube aproveitar. Deixemos isso que já passou, olhando agora para o futuro, parece que já está tudo novamente bem encarreirado!
– Pela nossa parte está totalmente encarreirado e por isso é que falamos lá em casa se não seria possível mandar vir os que ficaram à espera de fazerem a viagem. Talvez o Sr. Jonas pudesse com o Sr. Levinstone, o Sr. Goldman e o Sr. Dacosta a ver se seria possível mandar as cartas de chamada e organizar a viagem!
– Da última vez que falei com eles, a coisa estava feia mas está certo, Domingo, depois da missa, vamos os dois falar com eles a ver o que têm a dizer. No fundo, eles têm o dinheiro da viagem empatado na minha mão e não estão a tirar nenhum benefício disso.
No Domingo, como combinado, no fim da missa, o António e o Jonas intersectaram primeiro o Levinston.
– Bom dia Levinston, estava eu aqui a falar com o António a ver se seria possível mandares, como prometido, as cartas de chamada para os que ficaram para trás! Como sabes, eu prometi que poderiam vir 30 casais e ainda só viera 15! – Disse o Sr. Jonas
– Sabes que houve problemas na obra, havia uns fulanos que não faziam nada, roubaram ferramentas e materiais ... aquilo foi um 31.
– Sim Sr. Levinstone, mas como já deve ter sabido, essas pessoas morreram e esses valores roubados já foram repostos!
– Eu sei, eu sei, era isso que eu ia dizer, aquilo foi um 31 mas, desde que ouve o tal acidentem, nunca mais tive problemas, estou muito contente com as pessoas, se esses que estão lá à espera das cartas de chamada forem como os 14 que agora tenho ...
– Garanto-lhe que são trabalhadores, tementes a Deus e cumpridores da sua palavra, dessa espécie não vai aparecer mais nenhum e, se aparecer, vai pelo mesmo caminho – disse o António.
– Se o António me garante isso, podemos então avançar com esses 15 homens, só espero que venham o mais rapidamente possível pois trabalho não me falta desde que seja, como combinado, a 3,50€/h. Como sabe, tenho que pagar a viagem, os papeis e ainda estou a financiar parte das mesadas que o Dessilva entrega às crianças lá na aldeia.
– Eu compreendo, Sr. Levinstone, as condições são essas e, se alguém não as quiser aceitar, fica lá.
– Vamos então falar ao Goldman por causa das raparigas! “Goldman, anda cá! Precisamos dar-te uma palavrinha sobre as raparigas!”
– Que se passa Levinston? Mas que raparigas?
– Estamos aqui a falar em mandar vir as 15 mulheres que estão lá na aldeia à espera da carta de chamada, eu tenho trabalho para os rapazes! Achas que arranjas trabalho as raparigas?
– Se arranjas para os homens, eu arranjo para as mulheres mas gostava de meter um sócio, alguém da confraria que esteja disponível, um jovem que tenha energia pois eu já estou a ficar cansado – disse o Goldman.
– Estou aqui a pensar em nomes – disse o Jonas – naquele rapaz novo, como é que se chama, o filho do, do, do Aaron, o que acabou agora os estudos na universidade, o rapaz vem sempre à missa e é muito dinâmico, penso que te podia ajudar muito até porque tem estudos. No outro dia estive a falar com o pai que me disse a vontade do filho em estabelecer-se, o problema é que não tem dinheiro para investir!
– Dinheiro não é problema porque estou a pensar usar as mesmas máquinas e instalações abrindo o turno da noite. Fica então assim combinado, eu meto as raparigas e logo à tarde vou falar com o Aaron para acertarmos a coisas com o filho. Agora ainda é preciso falar com o nosso outro sócio, temos que falar com o Dacosta para arranjarmos o apartamento “Oh Dacosta! Anda cá que precisamos de ti!”
– Mas que se passa – disse o Dacosta enquanto se aproximava – isso já parece uma manifestação!
– E que estamos aqui a combinar a vinda de mais 15 casais mas precisamos de um apartamento!
– Querem mandar vir 30 pessoas? E porque não 36? Há 4 lugares livres no apartamento actual e arranjo um novo para 32 pessoas, arranjo o apartamento mesmo ao lado, ficam com as entradas encostadas mas o preço terá que ser o mesmo, 1500€ por semana!
– OK, combinado, ninguém está a regatear o preço!
–E ainda tens dinheiro para a viagem? – perguntou o Levinstone ao Jonas.
– Penso que ainda tenho mas deixa-me fazer contas, eu entrei com 50 mil e o Dessilva com outros 50 mil e esse dinheiro está lá para ir pagando as despesas. A viagem de navio custou 3250€ cada um, somou pouco mais de 100 mil. Por isso, ainda tenho quase 100 mil, para 36 bilhetes, realmente, é capaz de não chegar, vocês não poderão arranjar um reforço de 25 mil euros!
– Não tem problema, nós entramos com o dinheiro, vamos fazer assim, eu e o Goldman entramos com 10mil e o Dacosta com 5 mil, concordam?
O Goldman e o Dacosta acenaram que sim com a cabeça.

– Vou então começar a organização a viagem. Agora, tenho outra propostas, vindo estas 36 pessoas, vamos ficar em minoria na confraria. Como agora está tudo calmo, vou organizar um passeio onde nos possamos conhecer melhor! 

Capítulo seguinte (41- A noticia)

1 comentários:

Sérgio Lau disse...

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