domingo, 30 de agosto de 2015

34 - O comboio

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (33 - A estalagem)    




34 – O comboio
Da aldeia até à cidade ainda eram 40 quilómetros mas que, havendo uma estrada de terra batida, que, apesar de por vezes subir, não era nada comparável ao que tinham vivido na travessia da montanha. Também, por ser ao longo do vale, a neve era muito menos, não mais de 10 cm. Assim, apesar de estarem com os corpos cansados da travessia da montanha feita na véspera, mesmo parando várias vezes para beber chá quente, para comer qualquer coisa e para dar de beber e comer aos animais, pouco depois das 18h chegaram às portas da cidade, onde pararam para comer pois, a partir dai, os burros voltariam à aldeia e haveria menos oportunidades para recarregar as energias.
O comboio seria, se viesse à tabela, às 22h mas convinha chegar com tempo porque ainda não tinham bilhetes, o que, depois do que viveu na estalagem, preocupava o Dessilva. Comeu às pressas e disse para o António “Vou à estação comprar os bilhetes. Anda comigo e vocês fiquem aqui e só avancem quando o António vos vier chamar.” .
O camaninho para a estação ainda demorava 20 minutos a bom caminhar, tempo durante o qual o Dessilva foi planeando uma estratégia. A ideia seria o Sr. Dessilva ir sozinho comprar os bilhetes e, depois, avisar o António para que fosse chamar as outras pessoas.
Chegando à estação, o Dessilva dirigiu-se à bilheteira “Boa tarde, precisava comprar bilhetes em terceira classe para a Estação Central de Amesterdão para o comboio das 20h00. Quanto é que custa cada bilhete?”
– Boa noite meu senhor, estou a ver que o sr. não é daqui pois, porque já faz noite, é boa noite.
– Boa noite, realmente o Sr. tem razão, eu não sou daqui, sou americano e lá, boa noite é depois das 20h.
– Pois eu vi logo. Mas diga então o que o trás cá.
– Precisava de bilhetes de comboio, em terceira, adultos e crianças, quanto é o preço?
– Deixe ver aqui no preçário, bilhete para Amesterdão, Estação Central, vendo aqui, deixe ver, custa, custa, aqui está, um adulto 103,40€ e uma criança até aos 12 anos custa 51,70€. Quantos bilhetes pretende o senhor?
– Pretendo 32 bilhetes de adulto e um bilhete de criança, tudo em terceira classe, e aviso que também temos alguns embrulhos.
– Não tem problema nenhum pois na carruagem de 3.a classe tem sempre espaço suficiente para as pessoas e para as malas e, se vier cheio, mando meter mais uma carruagem. 32 bilhetes de adulto e um de criança, deixe-me fazer a conta, 32 vezes 103,40 mais 51,70, são 3360,50€. Mas isto é alguma excursão?
– Sim, sim, é uma excursão a Amesterdão – Tirando uns maços de notas de um bolso  – Tem aqui o seu dinheiro, três de 1000 dá 3000 mais 20, 40, 60, .... 340, 360 euros e ainda uma moeda de 50 cêntimos para fazer a conta certa.
– Tome então os 33 bilhetes. Desejo-lhes muito boa viagem para si e para os seus companheiros.
O Sr. Dessilva meteu os bilhetes ao bolso, saiu da estação e, no sítio combinado, lá estava o António “ António, já tenho os bilhetes, vai chamar as pessoas”
– E quanto é que custaram?
– Isso agora não interessa, precisamos é meter as pessoas no comboio.
O António foi o mais rapidamente que conseguiu “Vamos, vamos, podemos avançar para a estação, o Sr. Dessilva já tem os bilhetes”.
Assim que aquelas pessoas se tornaram visíveis, a cidade criou-se um certo reboliço. Alguém entrou na estação a gritar “Chefe, chefe, vem aí uma multidão de fulanos do monte com cães e burros e parece que pretendem apanhar o comboio.” Ouvido o aviso, o chefe dirigiu-se rapidamente à porta central para fechar a estação mas as pessoas já lá estavam “O que é que pretendem daqui?”
O António que ia à frente tomou a palavra “Queremos embarcar no comboio que vai para Amesterdão.”
– Isso não vai ser possível, não vale a pena entrar na estação porque a bilheteira está fechado porque já não há bilhetes, o comboio que vem aí vai cheio. Se não têm bilhete, não podem entrar, vão-se embora e venham cá na próxima semana a ver se há bilhetes.”
– Mas Sr. Chefe, então deixe-nos entrar porque nós temos bilhete para embarcar no comboio que vem aí, para o comboio das 20h00, já compramos e pagamos os bilhetes na 3.a classe e o Sr. Chefe prometeu que havia lugar e que, mesmo vindo o comboio lotado, que seria acrescentada uma carruagem – atacou o António num tom amigável mas firme.
– Mostre-me então esses bilhetes, mostre-mos pois eu sei bem que não lhe vendi nenhum bilhete, ainda não estou assim esquecido. Se não lhe vendi nenhum bilhete, como pode estar a dizer que os tem? Mostre-me então esses bilhetes? – O António apontou para o Sr. Dessilva.
– Aquele senhor é o nosso terratenente, estamos aqui por conta dele pois vamos trabalhar para as suas terras, ele vem aí, vai já ver que tem os bilhetes para que nós possamos embarcar no comboio que vai para Amesterdão.
– Não pode ser, o Sr. aí, venha aqui se faz favor que este homem está a levantar uma calúnia sobre o senhor. Diz ele que o senhor comprou bilhetes para estales todos, se calhar, até para os burros! Diga-lhe que isso é mentira, que comprou bilhetes mas para montanhistas que hão-de chegar a qualquer momento.
– Não, não, Sr. Chefe, para os burros não mas, realmente, eu ainda há pouco estive na bilheteira a comprar 33 bilhetes, lembram-se? Estão aqui na minha mão e são para mim e para essas pessoas, são pessoas que vão trabalhar nas minhas terras – disse o Dessilva em voz muito baixa quase ao ouvido do Chefe.
– Isto não pode ser, o senhor enganou-me, estas pessoas não podem embarcar junto com os outros passageiros, não pode ser, eu vou ser despedido, venha alí que eu devolvo-lhe o dinheiro.
Enquanto caminhavam, o Sr. Dessilva disse “Não, não, não pense nisso, estas pessoas vão ter que embarcar juntamente comigo pois preciso delas nos meus campos”. No entretanto, o Sr. Dessilva pegou numa nota de 10€ e juntou-lhe mais uma nota de 20€, depois outra e entregou as 3 notas ao chefe da estação que, olhando para um lado e para o outro, as meteu discretamente no bolso.
– Ai que a minha vida vai começar a andar para trás – e ficou a pensar em voz alta com a mão na cabeça – mas não podem entrar neste comboio de maneira nenhuma, se alguém o sabe, serei logo despedido. Bem, o melhor que posso fazer é metê-los numa carruagem de carga, não tenho outra hipótese, vou mandar pôr palha para que se possam deitar durante a viagem Entrem naquela carruagem de carga ali ao fundo o mais discretamente possível, vão por este caminho com os burros e entrem pela porta que tem lá ao fundo directamente para linha de forma que ninguém os veja e os burros, nem pensem em metê-los na carruagem. O sr concorda com isso? O Sr., dou-lhe um lugar na primeira classe.
– Se não consegue fazer melhor, aceito a carruagem de carga.
– Então, o Sr. fique aqui para confirmar que, quando o comboio chegar, eu mando atrelar a carruagem. Tenho ali uma boa carruagem, que tem aquecimento a lenha que vai dar para o aquecimento e para poderem fazer chá ou café para beber durante a viagem que ainda vai ser longa. Vamos ver se escapo desta confusão. E que faço aos burros?
– Com os burros não tem que se preocupar que são para ficar, só preciso  que me indique um sítio onde se possam abrigar para passar a noite?
– Podem ficar no coberto que tem do lado de fora da estação, lá ao fundo. Mas que partam antes do Sol nascer para que ninguém os veja pois não quero ter problemas.
Aquela pequena multidão e os burros perderam-se logo na escuridão. Foram até a referida carruagem onde os embrulhos que os burros levavam foram sendo carregados. Os embrulhos eram pequenos, tinham algumas peças de roupa e alguma coisa para se comer na parte da viagem que faltava. Alguns homens foram ao armazém indicado pelos ferroviários buscar uns fardos de palha para dar de comer aos burros e para poderem passar a noite de forma mais confortável. “À cautela, encham também este pipo de água e levem-no pois a porta vai ficar fechada por fora até à fronteira e pode acontecer que o comboio precise parar pelo caminho por causa do nevão.” disse o chefe que, estranhamente, se tinha muito empenhado em viagem se tornar num sucesso.
No entretanto, o Sr. Dessilva tirou do bolso um papel e uma caneta e encostou-se a escrever uma carta. Depois, meteu-a num envelope e entregou-a um dos pastores que o acompanharam no monte. “Vais levar esta carta para o Sr. Costa. A viagem, como viram, está-se a complicar pelo prevendo que, quando chegarmos à fronteira, as coisas ainda vão piorar muito. Por isso, vou ter que seguir viagem até Amesterdão. Hoje, vão ter que pernoitar no coberto que existe ao fundo da estação, já falei com o chefe da estação e podem ficar aí, não é nada de especial mas sempre dá para abrigar da neve. Comam que ficam aí com alguma coisa. Amanhã partam cedo e, à noite, vão pernoitar na mesma estalagem onde passamos ontem a noite, já está tudo pago, o estalajadeiro ainda vos vai servir uma sopa quente, dar palha para os animais e alguns mantimentos para que possam voltar a casa. Agradeço-vos e desejo-vos boa viagem.
– Igualmente Sr. Dessilva, que para chegar a Amesterdão vai precisar mais da sorte do que nós – disseram os carregadores e os pastores.
O embarque correu bem. O Comboio chegou, atrelaram a carruagem de carga onde estavam as pessoas e, no fim, o Sr. Dessilva também entrou na carruagem, para ficar junto dos seus. Como combinado, veio o chefe da estação que entregou um papel al Sr. Dessilva.
– O Sr. faça favor de levar este recibo do frete da carruagem.
Sr. Dessilva olhou e dizia “Carruagem de carga para Amesterdão, 547,50€”
– Então, tenho que pagar esta quantia?
– O Sr. deixe ficar pois já pagou os bilhetes que não vai usar. A viagem vai correr bem, já enviei um telex para que a carruagem possa seguir até à fronteira sem ser mais verificada.
A carruagem foi fechada e selada por fora para que ninguém sentisse curiosidade de a abrir.

Afinal, pensou o Sr. Dessilva, o chefe tornou-se bastante colaborativo o que é estranho pois só lhe dei 50€. Mas a razão não foi esse. É que, uma vez o comboio partindo sem os 33 passageiros, o chefe iria anular os bilhetes e, descontando os 547,50€ da carruagem, meter ao bolso os 2813€ da diferença.

Capítulo seguinte (35 - A volta)

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