quarta-feira, 19 de agosto de 2015

31 - A partida

Crime e Redenção 
Pedro Cosme Vieira
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Ver o capítulo anterior (30 - A facada)    



31 – A partida
Antes das 3h30 da madrugada já estavam todas as pessoas à porta da escola, com as malas e as mantas, todas prontas para partir. Claro que havia pequenas falhas, o Dessilva tinha pedido duas mantas por pessoas mas, porque eram volumosas, almas pessoas trouxeram uma com o argumento de que “a caminhar não faz frio”. Além dos jovens casais que iam começar a viagem rumo à América, estavam muitos familiares e amigos. Também estava o Sr. Dessilva a comandar as operações, o Sr. Costa para, na qualidade de presidente da confraria, fazer um discurso de despedida aos jovens e de agradecimento ao Dessilva e o Padre Augusto para benzer e aspergir toda a gente com fartura de água benta.
– Sr. Dessilva, bem sei que já falamos disto ontem, mas quer mesmo fazer esta travessia do monte? Acha que o seu físico é capaz de dar resposta à sua vontade? – perguntou o Sr. Costa preocupado.
– Sabe Costa, eu já tenho à mostra as rugas e o cabelo branco dos meus 62 anos mas, por dentro, tenho o físico de um jovem. É que lá na América o meu desporto favorito ser a marcha e a caminhada na natureza. Não preocupar que eu já fazer travessias muito mais difíceis do que esta, além disso, vai um burro especialmente para me carregar quando eu estiver mais cansado e o burro é muito mais jovem do que eu – todos se riram –  Não se preocupe que, daqui a 4 dias já eu estar de volta são e salvo.
– Mas olhe que eu sou muito mais novo e não me sentia com energia para fazer essa travessia – respondeu o Costa.
– Mas eu ter o burro que também ser mais novo que amigo Costa – nova gargalhada dos presentes – Vai custar mas nada que eu não aguente. Tenhamos fé em Deus! Então Costa, esse discurso sai ou não sai? É que temos que partir!
– Certo, certo, aqui vai. Hoje é um dia histórico só comparável com a fuga do Egipto que aconteceu nos tempos bíblicos e, neste caso, em vez do Moisés a abrir o mar, tereis o Sr. Dessilva a abrir os longos caminhos que vos vão-de levar a essa nova terra prometida. Tenho a certeza que Deus vos há-de ajudar a conseguir o sucesso e a prosperidade mas peço-vos que nunca se esqueçam de todos nós que ficamos para trás, dos vossos pais, irmãos, filhos, primos, amigos e vizinhos que ficamos encalhados neste fim do mundo. Todos os dias rezaremos por vós e não se esqueçam de também rezar por nós.
– E que também não se esqueçam de mandar uns eurozitos – disse alguém do meio da multidão a que todos responderam com palmas e gargalhadas.
– Siga a viagem – terminou o Sr. Costa a que, quem ficava, respondeu “Que Deus os ajude” e os que partiam “Que Deus nos ajude”. Depois, o Padre Augusto arrancou com umas rezas em latim que ninguém percebeu e água benta com fartura.
As pessoas atravessaram o casario caminhando para Norte, em sentido contrário da porta da aldeia. Saíram do casario, foram pelo caminho que passava na barraca da Júlia e continuaram até ao muro onde, realmente, um bocado tinha sido demolido para deixar as pessoas e os animais passar. A Júlia estava à porta de lampião na mão atenta a ver se via o Dessilva. Quando os seus olhos se fixaram nos do Dessilva estebaixou o olhar como que cheio de vergonha. A Júlia disse em voz baixa mas que o Dessilva ouviu perfeitamente "Newman".
Além dos familiares e amigos, também iam os jovens que, fazendo parte do lote dos 30 casais seleccionados, só poderiam partir na segunda viagem talvez para darem um último recado "Não se esqueçam de que nós".
Quando chegaram ao muro, os pedreiros já tinham aberto uma passagem. Diziam repetidamente “Já podem sair” pois estavam com pressa já que, antes de se fazer dia, o muro teria que estar de forma a que ninguém desse conta que houve ali uma rombo por onde passaram pessoas.
Toda a gente chorava, os que ficavam e os que partiam, como se aqueles jovens se encaminhassem para a escravatura à mão dos turcos ou à morte à mão dos do Vale. No fundo era quase uma morte pois, com quase certeza, nunca mais aqueles jovens voltariam à aldeia, nunca mais aqueles país veriam os filhos que partiam.
Os 30 jovens mais o António, o Rúben, o Sr. Dessilva, os pastores e os carregadores com os burros iniciaram então a marcha monte a cima. Porque o caminho era estreito, as pessoas iam numa fila indiana, um encostadinho ao seguinte mas, com a subida, alguns foram perdendo o fôlego. O Sr. Dessilva ia sempre dizendo “Calma que não podemos deixar ninguém para trás”.
Foram caminhando e, passado pouco mais de hora e meia, entraram no chão plano que existia um pouco acima da aldeia e que tinha sido onde, há mais de 40 anos, o Dessilva tinha visto os 3 pastores a ser mortos lá de cima da meia encosta. “Vamos todos olhar para trás, olhem para esta beleza, o Sol já quase a nascer, a nossa aldeia ali em baixo com as chaminés a deitar fumo. Vejam em fundo o casario da aldeia do Vale e todos aqueles campos planos e férteis que a cercam. Vejam o rio lá ao fundo que cruza o vale, com os barcos à vela, a névoa fina que cobre tudo, tudo caiado de branco pela neve.” Neste momento, as lágrimas vieram aos olhos do Sr. Dessilva “Fixem bem esta imagem na vossa memória porque, para a grande maioria de vós, é a última vez que vêm a nossa aldeia. Quando estiverem na América, não se esquecerem do que sofreram aqui e do sofrimento das pessoas que deixam para trás e que precisarão da vossa ajuda. Nunca se esqueçam disso pois, quando o esquecerem, deixarão de ser as pessoas singulares que são e passarão a ser apenas mais uma no meio de milhões.”
 As pessoas olharam com a lágrima no olho e seguiram viagem. Caminhar no chão plano, apesar da neve, não foi muito difícil, mais uma hora e já o tinham atravessado de forma que pelas 9h30 já tinham percorrido os primeiros 15 km do caminho, quase metade do percurso. O ar já estava muito mais frio que na aldeia, com as mulheres a tapar a cara com o lenço da cabeça e os homens com as golas dos casacos virados para cima. O Sr. Dessilva decidiu que eram horas de parar para descansar e comer alguma coisa.
– Ponham aqui as toalhas e tragam a comida pois, a partir daqui é que as coisas se vão complicar– disse o Sr. Dessilva. Lá vieram as toalhas, broa, queijo, chouriço, ovos cozidos e, para beber, ia ser um chá quente feito na hora com neve derretida “para aquecer por dentro porque, daqui a pouco, vamos apanhar um frio de rachar.” O Sr. Dessilva sentou-se a comer juntamente com as outras pessoas. Nesse dia não ia vestido de branco. Pelo contrario, levava um casaco escuro, muito grosso de “pele de urso pardo das montanhas Apalaches” Também levava uma botas de “pele de alce do Canadá” e cujos canos altos que iam quase até à cintura estavam presos ao cinto das calças por uma correia "Esta minha roupa é  mesmo quente, é mesmo usada pelos esquimós que são pessoas que vivem no meio do gelo onde até as casas são feitas com blocos de neve." 
As pessoas sentaram-se no chão em cima das mantas e começaram a comer e a beber.
– O Sr. Dessilva até parece que sabia o frio que aqui ia estar. Isto realmente está frio!
– Isto não ser nada, ainda vai piorar bastante, daqui a bocado, quando chegarmos ao cume do monte, aí é que vai ser frio e vento cortante. Mas na América já vivi dias piores em que até os rios congelam.
A paragem só podia ser de 30 minutos pelo que, olhando para o relógio, o Sr. Dessilva começou a apressar as pessoas, “Rápido, rápido, olhei agora para o relógio e o tempo está a passar, já são quase 10 horas, já não vamos conseguir chegar à cumieira às 14h. Vamos a arrumar, vamos que temos que partir pois o tempo não para e ainda temos muito que andar.”
A partir dali a marcha começou a ser cada vez mais difícil não só por causa do frio e do vento crescentes mas porque o caminho se ia tornando cada vez mais inclinado e com neve mais alta.
Passado pouco tempo de marcha o Dessilva deu por si no mesmo local onde há 40 anos viu os do Vale a chegar de baixo, os cães a ladrar, as ovelhas tresmalhadas a balir. Agora, esse dia ganhou outra vez vida, todo esse passado distante como que estava a ser revivido naquele mesmo momento. Olhou para o lado e viu o Alberto e estremeceu “Alberto, estás aqui?”
– Calma Sr. Dessilva, sou eu, o António, será que o mal das alturas já o está a afectar?
– Cheguei a pensar que estava a ter uma visão mas isto não foi nada.
O Dessilva só agora se tinha apercebido como o António era parecido com o pai, pareciam irmãos gémeos.
– Estou a imaginar o ataque em que o teu pai foi morto juntamente com o Abel – disse o Dessilva.
– Mas Sr. Dessilva, dizem que o meu pai não morreu nestes lados, dizem que o meu pai apareceu morto lá mais para o alto do monte, já do lado de lá. Deve ter sido feito prisioneiro e, quando tentou fugir, mataram-no. Todos dizem que o meu pai era uma pessoa honrada que morreu porque lutou com todas as suas forças para que as ovelhas voltassem à ladeia para serem entregues aos seus donos.
O Dessilva abanou a cabeça de forma afirmativa “Sim, sim, tenho a certeza de que era um homem honrado”.
Pelas 12 horas, nova paragem para almoçar “Mas não podemos parar mais de 30 minutos porque já estamos a ficar muito atrasados” – disse o Dessilva
– Mas Sr. Dessilva, desculpe o que eu vou dizer mas a cumieira do monte é já ali, vê-se bem daqui, não faltam mais de 3 km pelo que estamos lá em menos de uma hora.
– António, não penses nisso, agora que o ar está rarefeito e o monte começa verdadeiramente a subir, não vamos conseguir sequer fazer 1 km por hora. Vais ver que não vamos chegar à cumieira antes das 16h, depois vais-me dar razão. As pessoas vão começar a ser atacadas pelo mal das alturas, o ar é tão fraco que alguns vão começar a ter falta de ar, não interessa se a pessoa é forte ou fraca, e até podem perder o juízo. E depois da cumieira ainda temos muito que percorrer do lado de lá e não sabemos até que ponto os caminhos estão transitáveis. Se formos apanhados pela noite desabrigados, vai ser terrível, pessoas vão morrer.
– Vamos então comer rápido e arrancar o quanto antes – disse o António.
O Sr. Dessilva lembrava-se que, naquela vez em que tinha feito aquela mesma subida, também porque levava muitas ovelhas, só tinha chegado ao cume à noite, já quase às 22horas, e apenas o tinha conseguido porque era Junho, quando o Sol se punha muito mais tarde e o tempo era muito mais quente. E ainda acrescentava que, nessa altura, além de ser jovem, tinha o corpo treinado para as alturas, coisa que a maioria dos jovens que estava a fazer a travessia não tinha. As pessoas comeram e beberam o chá dentro dos 30 minutos previstos, levantaram-se, e arrancaram, cada uma ainda com um pedaço de broa de milho com mel “para ir comendo pelo caminho”.
– América, aqui vamos nós.

Capítulo seguinte (32- A Cumieira)

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